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domingo, 13 de novembro de 2016

O ESSENCIAL




«Só quando o coração do homem tiver encontrado esse manancial eterno de riquezas divinas, poderá renunciar, perfeitamente, aos bens que dividem os homens entre si.

É preciso que descubra a força do amor que encontra a sua origem em Deus.

É preciso que descubra o amor infinito de Deus por todos os homens, e que depositem nele toda a sua confiança.

É preciso que expurgue a religião de todos e qualquer elemento de hipocrisia, é preciso que viva o essencial da mensagem de Jesus: a abertura ao Espírito Santo, a compaixão pelos fracos e aflitos, pelos inimigos, a renúncia a todo o julgamento ou condenação dos outros.»

Jean Vanier

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

SENHOR DO IMPOSSÍVEL

"Tornamo-nos verdadeiramente cristãos quando descobrimos que Deus é o senhor do impossível e que precisamos do Espírito Santo para fazer o que não podemos fazer por nós próprios.

A vida do discípulo é ir até ao fim, até que se torne impossível e descobrir então que Deus pode tornar possível o impossível."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

SABER ESPERAR

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa atividade louca e sem real objetivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

domingo, 23 de outubro de 2011

MANANCIAL ETERNO

«Só quando o coração do homem tiver encontrado esse manancial eterno de riquezas divinas, poderá renunciar, perfeitamente, aos bens que dividem os homens entre si.
É preciso que descubra a força do amor que encontra a sua origem em Deus.
É preciso que descubra o amor infinito de Deus por todos os homens, e que depositem n´Ele toda a sua confiança.
É preciso que expurgue a religião de todos e qualquer elemento de hipocrisia, é preciso que viva o essencial da mensagem de Jesus: a abertura ao Espírito Santo, 
a compaixão pelos fracos e aflitos, pelos inimigos, a renúncia a todo o julgamento ou condenação dos outros.» 

Jean Vanier

segunda-feira, 27 de junho de 2011

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.
E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.
Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 24 de março de 2011

FONTE DIVINA


Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele havia de dar-te água viva!»Disse-lhe a mulher: «Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der há-de tornar-se nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna.» (João 4, 10-14)

"Quande se ama alguém, dá-se-lhe a vida,dá-se-lhe confiança em si próprio, mostra-se-lhe como é belo, revela-se-lhe o poder do amor que está nelee a sua capacidade para dar a vida.
Dizendo a essa mulher da Samaria que a água que Ele, Jesus, lhe ia dar se tornaria nela "nascente de água jorrando para a vida eterna",Jesus revela-lhe que há nela um poço,uma nascente, uma fonte divina.
Nós não sabemos que há em nós essa nascente. Sabemos que temos uma inteligência, sabemos que podemos produzir coisas,sabemos que temos emoções, desejos, pulsões,mas ignoramos que há em nós um poço de ternura,uma fonte que pode dar a vida,uma nascente que pode comunicar o próprio amor de Deus.
Jesus revela à samaritana este mistério que está nela: ela é capaz de amar, pode tornar-se um poço, uma nascente de vida eterna se matar a sede na nascente que é Jesus.
É o grande segredo para cada um de nós:se bebemos na nascente que é Jesus,podemos tornar-nos fonte de ternura que dá vida ao mundo e corresponder ao desejo de Jesus de que sejamos fecundos e produzamos muito fruto."


Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ESPERAR A HORA DE DEUS

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa actividade louca e sem real objectivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SENHOR DO IMPOSSÍVEL

"Tornamo-nos verdadeiramente cristãos quando descobrimos que Deus é o senhor do impossível e que precisamos do Espírito Santo para fazer o que não podemos fazer por nós próprios.

A vida do discípulo é ir até ao fim, até que se torne impossível e descobrir então que Deus pode tornar possível o impossível."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O GRANDE SEGREDO

Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele havia de dar-te água viva!»

Disse-lhe a mulher: «Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?

Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der há-de tornar-se nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna.» (João 4, 10-14)

"Quande se ama alguém, dá-se-lhe a vida,
dá-se-lhe confiança em si próprio,
mostra-se-lhe como é belo,
revela-se-lhe o poder do amor que está nele
e a sua capacidade para dar a vida.

Dizendo a essa mulher da Samaria que nela a água que Ele, Jesus, lhe ia dar
se tornaria nela "nascente de água jorrando para a vida eterna",
Jesus revela-lhe que há nela um poço,
uma nascente, uma fonte divina.

Nós não sabemos que há em nós essa nascente.
Sabemos que temos uma inteligência, sabemos que podemos produzir coisas,
sabemos que temos emoções, desejos, pulsões,
mas ignoramos que há em nós
um poço de ternura,
uma fonte que pode dar a vida,
uma nascente que pode comunicar o próprio amor de Deus.

Jesus revela à samaritana este mistério que está nela: ela é capaz de amar,
pode tornar-se um poço, uma nascente de vida eterna
se matar a sede na nascente que é Jesus.

É o grande segredo para cada um de nós: se bebemos na nascente que é Jesus,
podemos tornar-nos fonte de ternura que dá vida ao mundo
e corresponder ao desejo de Jesus de que sejamos fecundos e produzamos muito fruto."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.


Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 29 de julho de 2010

INOCÊNCIA

Inocente é aquele em quem não reside o mal,
E que não o comete;
Nele não existe qualquer duplicidade, o seu coração não
Está dividido;
Nele não há sinuosidade: nem no seu comportamento
Nem nas suas palavras.
Só tem um olhar,
O do amor,
Mas do amor que se dá,
E se difunde sem cálculos.

O inocente em quem não reside o mal,
Não o vê no outro,
Confia sempre…
«Não tenho receio de ti, posso aproximar-me de ti sem
Qualquer temor, não tens segundas intenções, nem preconceitos;
Não és manhoso nem matreiro; os teus olhos límpidos
Desmontam as barreiras que ergui em torno do meu coração, barreiras de medo.
A tua inocência seduz-me».



O mundo não pode receber esse inocente.
A sua presença condena.
O brilho dos seus olhos condena,
Não o da criança que pretende captar e seduzir,
Nem o do ignorante ou do ingénuo,
Mas o do homem consciente do alcance
Dos seus actos,
Que sabe que diante dos homens
E da lei
Pode ser tido por louco ou até condenável,
Mas prefere deixar-se guiar por essa outra lei, a lei eterna
Da pessoa e do seu amor, e da sua verdade.

O inocente é o homem livre que se faz escravo de Espírito.
Não se deixa aprisionar num grupo,
Branco ou negro,
Com as suas convenções sociais,
As suas maneiras de agir e os seus costumes.
Esse Espírito dá-lhe um coração universal
Que lhe permite poder encontrar o miserável,
O rico, o pobre,
Com um coração feito amor para o acolher e introduzir
No seu próprio coração,
Com esse sopro eterno.

A inocência verdadeira é a do amor que se difunde
Sem medo,
Porque somos amados e envolvidos
Pelo Amor do Pai.
E essa primeira fonte chama-se JESUS CRISTO.

E tu, inocente
Não tens medo,
Não tens medo do mundo,
Nem medo do mal,
Nem medo dos outros,
Nem medo de ti mesmo e da tua carne.
Tu caminhas pela vida
Sem temor,
Olhando, dando,
Entregando-te em absoluta tranquilidade,
De rosto radiante e límpido.
Mas tu não irradias a tua própria inocência,
É por isso que não tens medo…
Não tens medo de a perder,
Porque sabes que essa inocência vem do Alto,
Ou, antes, de uma nascente mais profunda
Do que tu:
A inocência que jorra de Deus
E que se chama JESUS CRISTO.

Porque és pobre
E porque o sabes
E porque amas a tua pobreza,
É que podes enfrentar a vida, o mundo e os outros,
Sem medo,
Para oferecer a tua inocência,
Para dar a tua paz,
Essa certeza e essa força do Amor.

Tu, inocente,
Podes tocar no mundo, na matéria e no outro,
Não para os tomar para ti,
Arrebatando-os ao outro,
Nem para os possuir só para ti
(contacto impuro e possessivo),
Nem para os destruir, pisar,
Fazer desaparecer, matar
(contacto de ódio e violência),
Mas para lhes transmitir a vida,
A liberdade
Que brota da paz.

O teu contacto, então, é como o de Jesus,
Um contacto feito de doçura,
De ternura
De vida,
Que cura.
«Ó contacto delicado

Que transforma a morte em vida!» (S. João da Cruz)

A inocência,
Miragem imaginária que se esfuma
Mal a procuro,
Porque não se pode procurar.
Ela só existe na medida
Em que te encontro
A ti
E a ti, Jesus Cristo,
A quem amo.

Jean Vanier, em "Novas Perspectivas do Amor"

domingo, 25 de julho de 2010

ABRIR-SE À TERNURA - A HISTÓRIA DE HELENA

A Helena, da comunidade de Punla nas Filipinas, morreu há alguns meses.
Tinha quinze anos quando chegou à comunidade.
Tinha vivido no hospital desde a nascença e era muito pequena.


Era cega, incapaz de andar, de falar, de fazer fosse o que fosse com as mãos; um pobre corpinho ferido e frágil.
Era Keiko, uma jovem japonesa, que se ocupava dela. E quando fui a Manila nesse ano, Keiko disse-me como era difícil conviver com a Helena.

Helena não tinha qualquer reacção. Era completamente amorfa, não reagindo a nada, não reclamando nada, capaz apenas de mamar o biberão que lhe metiam na boca. Era muito duro não saber nada do que ela podia sentir e não ter qualquer comunicação com ela.


Encorajei Keiko a falar-lhe com muita doçura, a tocá-la com muita ternura, a segurá-la com muito amor. E disse-lhe. "Se Deus quiser, um dia ela sorrirá. E, nesse dia, Keiko, mandar-me-ás um postal".


Alguns meses depois, recebi um postal de Manila:
"A Helena hoje sorriu", escrevia Keiko.
Helena tinha recuperado a vida: algo de emparedado nela, no fundo dela, se tinha libertado, uma pequena nascente havia surgido, tinha recuperado a confiança.


É assim, nós somos seres de comunhão, e quando a comunhão não é possível, fechamo-nos em nós próprios, tornando-nos incapazes de comunicar, de agir, de entrar nessa circulação vital do mundo e dos seres; é como se tivéssemos deixado de ser irrigados.
A criança que está abandonada, deixada a si própria desde a nascença, fecha-se num mundo de tristeza e de depressão e torna-se incapaz de reagir. (...)


Tudo o que a criança pode viver é a comunhão, esse vaivém de amor em que se dá e se recebe.
Ás vezes oiço os psicólogos dizerem que a criança não ama, que o amor é algo que se desenvolve, algo que é da ordem do dom e do altruísmo.

É verdade que há no amor essa dimensão oblativa que é necessário indubitavelmente adquirir pouco a pouco, mas é falso dizer que a criança não ama.
Pelo contrário, a criança não é senão amor.
Mas vive uma forma de amor que nós perdemos e de que temos muito medo: o amor de confiança.
Há um amor de generosidade de que sem dúvida o pequenino não é capaz.
Um bebé não é generoso! Mas é extraordinariamente confiante e a confiança é já um dom de si.

Nós crescemos talvez em generosidade, mas perdemos a confiança: a confiança em Deus, a confiança nos outros. Temos tanto medo de ser enganados, manipulados, traídos, de depositar mal a nossa confiança que desenvolvemos todo um sistema de defesa, ao abrigo do qual procuramos provar a nossa independência, a nossa autonomia.


A criança não pode ser autónoma. É tão pequena quando nasce que nada pode fazer por si própria, nem sequer puxar os cobertores se tem frio de noite!
Está dependente em tudo e só pode gritar.
Mas o que é extraordinário é que o seu grito é também um sinal de confiança: "Tenho confiança em ti, sei que me amas, sei que queres o meu bem, que queres que eu seja feliz. Sei que responderás ao meu grito", diz ela.
E a mãe responde ao grito da criança, interpreta o seu grito: "Tem fome, tem sede, sente-se triste, tem medo do escuro..."
Gosto muito de ouvir uma mãe interpretar o grito do seu bebé, compreendê-lo, porque o ama e o conhece. (...)


A criança precisa de ser amada, com esse amor que lhe revela que é bela, que estamos felizes de estar com ela, felizes que ela exista, felizes de nos ocuparmos dela, de tocá-la, de a banhar, de a beijar ou de brincar com ela.
Ela sente-o através da forma como a tocamos, como lhe falamos, pois não contam apenas as palavras, mas também, e mais ainda, o tom de voz.
Quando uma criança é pequena demais para compreender as palavras, compreende no entanto muito bem o tom de voz. (...)


Não conhecemos a história da Helena, não sabemos exactamente o que a feriu, mas sabemos que ela estava horrivelmente ferida.
Deve ter chamado e chamado para receber amor, ternura, para que alguém se ocupasse dela com doçura, para que lhe fizessem sentir que ela era importante, que ela contava para alguém.


E se ninguém respondeu - e ninguém deve ter respondido- um dia deixou de chamar, fechou-se em si própria, retirou-se o mais que pôde do mundo. (...)


Como sairá Helena da sua prisão de medo e de desespero?
Como se abrirá de novo à comunicação?
Encontrando alguém em quem possa ter confiança, alguém que não a julgue nem a condene.
Porque se Helena se abre um pouco e logo a seguir é julgada ou condenada, se a acham "má", ela fechar-se-á definitivamente.


Como tocar a Helena para lhe devolver confiança, para que não se sinta julgada?
Helena grita pela comunhão e não-condenação, mas o seu grito está encerrado nela.
É como uma pedra e não reage a nada. (...)


Para viver, uma Helena precisa imensamente de ternura, precisa de sentir que está em comunhão com os outros.
E se recebe essa comunhão, deixará cair as suas barreiras de defesa, abrir-se-á pouco a pouco. E, um dia, sorrirá.


A história de Helena na comunidade foi muito curta.

Foi Jing que, um dia, a resumiu assim: "A Helena veio, sorriu, foi baptizada e, depois, morreu".
A sua morte foi muito dolorosa: teve uma crise de epilepsia, mas não conseguiu recuperar a respiração e sufocou.
Agora, é o anjo da guarda da comunidade, aquela que no coração de Jesus vela sobre a comunidade. É misterioso que tenha ficado tão pouco tempo connosco, cerca de uma ano.
Talvez não tenha vindo senão para sorrir e nos ensinar o segredo da comunhão.


Helena não vivia senão de comunhão.
Teve tempo de a recuperar e de nos ensinar quanto medo também nós temos, e quantos defesas; talvez não a imobilidade como ela - muitas vezes preferimos a hiperactividade - mas a hiperactividade é igualmente eficaz para nos fecharmos e nos escondermos dos outros.
Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso que nós também nos abramos, que cessemos de querer fazer coisas, que também estejamos dispostos a viver em comunhão, para que não tenhamos mais medo da nossa doçura e da nossa própria ternura.


A Helena precisava que nós descobríssemos a nossa própria ternura e nossa doçura.
Viveu profundamente a primeira bem-aventurança - era tão pobre - e tinha imensa necessidade da terceira bem-aventurança: "Bem-aventurados os mansos..."


Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso ter muita mansidão, isto é, muita doçura;
para a tocar sem a ferir, é preciso uma imensa ternura e se, no nosso íntimo, há violência, não poderemos tocá-la.
Quanto mais alguém está ferido, mais doçura é necessária. Para lavar o corpo de alguém que vai morrer, é precisa uma doçura extrema.

Helena ensinou-nos a viver a terceira bem-aventurança.


Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.
»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

terça-feira, 4 de maio de 2010

A PALAVRA


«Como a flor exala o seu perfume e o sol espalha o calor dos seus raios, assim nós temos necessidade de irradiar pelo gesto e, sobretudo, por esse dom maravilhoso que é a palavra.
A palavra só tem sentido na medida em que sai da boca de um homem para entrar no coração de outro e ali fazer brotar a vida.»
Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor"

quinta-feira, 25 de março de 2010

O VERDADEIRO PECADO

É muito importante compreender o que é o pecado.
O pecado não é, em primeiro lugar, transgressão da lei.
É isso mas não em primeiro lugar.
Toda a Sagrada Escritura, e em especial os Evangelhos e as epístolas de São Paulo
dizem-no muito claramente.

Pecar é virar as costas a Jesus, deixar de ter confiança n´Ele,
não acreditar nas suas promessas e na sua palavra,
duvidar da sua aliança
e não continuar a alimentar-se da sua presença.
Pecar é desligarmo-nos da vida de Jesus,
deixar de viver em comunhão com Ele,
recusar o seu corpo e o seu sangue,
rejeitar a sua palavra.

É evidente que se vai então transgredir a lei,
transgredir todas as leis."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

sexta-feira, 19 de junho de 2009

RECONHECER A SUA VOCAÇÃO (2ª parte)

Onde quer que estejamos, não ficaremos lá senão compreendermos
que a isso fomos chamados por um apelo de Jesus que
nos convida a algo misterioso, de secreto e de muito belo:
a crescer no amor.
Peçamos a Jesus que nos ajude a não termos medo da nossa
pobreza,
a não ter vergonha da nossa pobreza
e a tomar consciência da nossa vocação, da nossa missão.

O apelo de Jesus é sempre diferente
e o seu objectivo é sempre o mesmo;
é um apelo a crescer no amor,
a fazer crescer o amor em nós e no mundo...

Cada apelo é diferente, cada apelo é único,
mas cada um, aí onde está e como é, é chamado a dar a vida.

São Marcos conta como um homem se abeira de Jesus,
e ajoelhando diante d´Ele Lhe pergunta: "Bom Mestre, que
devo fazer para ter a vida eterna?"
Jesus fala-lhe dos mandamentos de Deus e o homem responde:
"Mestre, tudo isso tenho praticado desde a minha juventude".
Então Jesus olhou-o e amou-o...
Prestai bem atenção a esta frase, o texto não diz: "amou-o" mas
sim "olhou-o e amou-o". Os seus olhos devem ter sido tão expressivos!
Então Jesus diz-lhe: "Uma só coisa te falta: vai, vende o que
tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem
e segue-Me" (Mc 10, 17-22).

"Vem e segue-Me; vamos caminhar juntos,
vais tornar-te Meu amigo.
Ensinar-te-ei, num mundo onde há tento egoísmo, injustiça
e violência, a ser um homem que ama,
um homem de esperança, um homem de paz.
Não tenhas medo, ensinar-te-ei pouco a pouco a viver de tal
forma que todo o teu corpo, todo o teu ser
se tornem um sinal de boa nova".
E, no entanto, o jovem tem medo.
No apelo de Jesus, há algo de muito belo.
Descobrimos que somos amados,
um outro mundo se abre diante de nós.
Mas há também algo de muito exigente:
é preciso aceitar deixar o nosso antigo mundo, vender aquilo
a que dávamos valor.

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 18 de junho de 2009

RECONHECER A SUA VOCAÇÃO (1ª parte)

Deus chama incessantemente
e não devemos pensar que estamos excluídos do seu apelo,
porque nos sentimos demasiado pequenos ou sem importância.
Pois Deus chama em primeiro lugar não os mais sábios,
os mais poderosos ou os mais fortes,
mas sempre os mais pequenos, os mais pobres, os loucos e os
fracos, os desprezados...

A escolha de Deus não é a dos homens.
Ele escolhe primeiro os pobres,
aqueles que reconhecem que são pobres, que não têm tal ou
tal capacidade,
pois a pobreza não é apenas pobreza material,
é sentir-se despojado, ser incapaz,
sentir-se incapaz.

Uma mãe que acaba de perder o filho é uma pobre,
uma mulher abandonada pelo marido é uma pobre,
um homem que perde o trabalho é um pobre,
aquele a quem se diz que tem um cancro é um pobre;
cada um de nós,
quando se sente desarmado, fraco, incapaz e o admite,
é um pobre.

O drama é que nos recusemos a admitir a nossa pobreza,
por medo de sermos rejeitados.
Ensinaram-nos que era necessário ser o melhor, o mais forte,
o mais sólido, aquele que ganha,
pois os pobres, os fracos, os frágeis, os mal amados,
os incapazes são desprezados;
a sociedade põe-nos de parte.
Então, fingimos tanto tempo quanto possível. Pretendemos
ser fortes e capazes, e vivemos da aparência.

Necessitamos de escutar em nós Deus que diz: "Não precisas
de fingir,
não precisas de te esconder,
podes ser tu próprio...

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quarta-feira, 15 de abril de 2009

DEUS CHAMA POR NÓS...

«Deus chama homens e mulheres a criarem lugares novos
onde não é preciso defendermo-nos,
lugares de paz, de amor, de comunhão
onde cada um possa ser acolhido na sua fraqueza,
na sua fragilidade, na sua vulnerabilidade. (...)


Deus chama incessantemente cada um de nós,
no seu próprio caminho, com o seu dom único,
a construir, por sua vez, como Noé, uma arca,
uma comunidade de amor,
a opor a paz à guerra
o amor ao ódio,
a união à desunião,
o acolhimento à exclusão.


Peçamos a Jesus que nos ajude a escutar
esse apelo de Deus em nós.»

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ESPERA NO AMOR

«Quando Jesus chama o jovem rico, diz-lhe:
"Uma só coisa te falta: vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue-Me".

O jovem não pode.
Jesus não insiste.
Não corre atrás dele para o seduzir ou o convencer ou prometer-lhe
uma coisa diferente da verdade,
uma grande glória ou riqueza... que o tivesse atraído.
Não usa nenhum método de manipulação,
não faz nenhuma publicidade,
respeita demais a nossa liberdade,
ama-nos demais,
é também issso a sua pobreza.

Deus diz: "Se queres... segue-Me. Mas não te obrigo,
não te prometo o sucesso na terra,
mas o céu, que é estar sempre contigo.
Se queres, caminhemos juntos, não te abandonarei".

É certo, não nos abandonará mesmo que nos afastemos d´Ele.
Quando Jesus chamou alguém, mesmo que esse alguém faça disparates,
Jesus não o abandonará, não o criticará,
saberá esperar que ele mude,
saberá esperar o seu regresso.

Nós temos tendência a utilizar as pessoas e, se elas não respondem
à nossa expectativa, mandamo-las embora.
Jesus não manda ninguém embora,
não Se afasta da sua promessa.
Espera no amor.

O que Ele quer é que nós cresçamos na liberdade interior,
que cheguemos a amar livremente,
e pode durar muito,
um longo caminho de crescimento.
É a humildade da ressurreição,
a humildade do nosso crescimento no Espírito Santo.»

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...