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domingo, 13 de novembro de 2016

O ESSENCIAL




«Só quando o coração do homem tiver encontrado esse manancial eterno de riquezas divinas, poderá renunciar, perfeitamente, aos bens que dividem os homens entre si.

É preciso que descubra a força do amor que encontra a sua origem em Deus.

É preciso que descubra o amor infinito de Deus por todos os homens, e que depositem nele toda a sua confiança.

É preciso que expurgue a religião de todos e qualquer elemento de hipocrisia, é preciso que viva o essencial da mensagem de Jesus: a abertura ao Espírito Santo, a compaixão pelos fracos e aflitos, pelos inimigos, a renúncia a todo o julgamento ou condenação dos outros.»

Jean Vanier

domingo, 9 de outubro de 2016

Sob o olhar de Deus



"Aprender a amar é: aceitar, respeitar, ser paciente, tolerante, misericordioso e, não menos importante, aprender a rir-se de si mesmo. Só o que é reconhecido e aceite pode ser redimido. Esta aceitação, rompendo com os mecanismos defensivos e protetores, dispõe-nos para nos colocarmos com serenidade e confiança sob o olhar de Deus, tal como somos, por inteiro, sem nenhuma necessidade de dissimular. 
Precisamos da ternura e da compaixão infinita de Deus para aprender a olhar-nos com essa mesma ternura e compaixão. Esta é a grande dádiva daquele que irrompe na nossa vida sempre e como nunca esperávamos. Ele é inesperado! Oxalá se gravasse em nós, de uma vez por todas, que a perfeição de Deus e, portanto, a nossa perfeição, não é a impecabilidade senão a misericórdia!"

Carlos Maria Antunes, in "Atravessar a própria solidão"

domingo, 2 de outubro de 2016

A certeza do perdão...

«Cristo não nos quer ébrios de culpabilidade, mas cheios de perdão e de confiança. (...)
O coração do ser humano é por vezes muito severo porque não se deixa revestir pela compaixão de Deus. Deus nunca é um algoz da consciência humana. Em sua bondade, embeleza e tece a nossa vida com o fio do seu perdão. Deus esconde o nosso passado no coração de Cristo e ocupa-se do nosso futuro. A certeza do perdão é a realidade do Evangelho mais extraordinária, mais inacreditável, mais generosa - é a libertação incomparável.»

Irmão Roger, de Taizé, in "Oração: Frescura de uma Fonte"

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Qual é o teu tormento?"



«Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é uma coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre, é um milagre. (...)

A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como unidade numa colecção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exactamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar.

Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.»


Simone Weil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O dom da compaixão




«Ter compaixão é algo mais do que ter dó. Ter dó sugere distância, e até uma certa condescendência. Com frequência, eu atuo por dó. Dou algum dinheiro de esmola a algum pedinte numa avenida, mas não olho para ele – olhos nos olhos; não me sento ao seu lado nem falo com ele. Estou demasiado ocupado para prestar realmente atenção à pessoa que me estende a mão. O meu dinheiro substitui a minha atenção pessoal e representa uma desculpa para continuar o meu caminho. 



Ter compaixão significa aproximar-se de quem sofre. Mas só podemos aproximar-nos de uma outra pessoa quando estamos dispostos a tornar-nos vulneráveis. Uma pessoa compassiva diz: “Eu sou teu irmão; eu sou tua irmã; eu sou humano, frágil e mortal; precisamente como tu. Não me escandalizo com as tuas lágrimas nem tenho medo da tua dor. Também eu já chorei”. Só podemos estar com o outro quando o outro deixa de ser “outro” para se tornar como nós. (…)



Quando reflito sobre a minha própria vida, compreendo que os momentos de maior conforto e consolação foram os momentos em que alguém disse: “Eu não posso tirar-te o sofrimento, não posso oferecer uma solução ao teu problema, mas posso prometer-te que não te deixarei  sozinho e estarei ao teu lado tanto tempo e tão bem quanto me for possível”. Há muita angústia e sofrimento na nossa vida, mas que bênção quando não temos que viver a nossa angústia e sofrimento sozinhos! Esse é o dom da compaixão.»

Henri Nouwen, in “Aqui e Agora”

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Deus da fragilidade


«Não quero um Deus que se erga na justiça absoluta, no poder ilimitado, na perfeita inteligência. Seria um Deus que não sente a necessidade de se inclinar numa carícia, quando se eleva um gemido de dor.
Pelo contrário, o meu Deus é Jesus: que conhece a pressão do medo, a dor da recusa, a paixão do abraço, o calafrio pela carícia dos cabelos embebidos em nardo da mulher pecadora e amorosa.

Um Deus que me concede o direito de ser débil, «cana rachada», frágil como um homem e não hirto como um herói. E não me condena se sou mecha fumegante, mas pega neste meu fio de fumo, presságio de fogo possível, trabalha-o e protege-o, até dele fazer irromper de novo a chama. Não acaba por quebrar a cana rachada que eu sou, mas enfaixa-a como se fosse um coração ferido. Deus da fragilidade.»
[Ermes Ronchi, in «Tu és Beleza»]

domingo, 3 de abril de 2016

A Alegria é o dom secreto da Compaixão


«Aos olhos de Deus, o mais importante é muitas vezes o mais escondido.» 


Henri Nouwen, in Adam, o Amado de Deus*


«A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente. Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. 

Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. 

Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?» , compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. 

A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo.»

Henri Nouwen, in  Aqui e Agora



Na sua obra “Adam, o Amado de Deus”, Henri Nouwen revela como deixou a sua prestigiada profissão de professor numa das mais conceituadas universidades dos EUA, para dedicar-se integralmente à obra de tomar conta de pessoas com deficiências em Toronto, no Canadá. Dentre elas, estabeleceu uma relação de amizade muito bela e profunda com um jovem especial chamado Adam.

Adam, era um jovem que devido a um complicado quadro de epilepsia, exigia um cuidado extremo por parte dos que tomavam conta dele, pois nem mesmo as suas tarefas básicas conseguia realizar sozinho. Não falava uma palavra sequer, nem conseguia expressar-se muito bem, pois não coordenava os seus movimentos. No entanto, Henri Nouwen revela-nos que "a sua maravilhosa presença e o seu valor incrível iluminavam-nos para compreender que nós, assim como ele, também somos preciosas, agraciadas, amadas crianças de Deus, independentemente de nos vermos como ricas ou pobres, inteligentes ou deficientes, bonitas ou feias. (...) No relacionamento com ele, descobriríamos uma identidade mais profunda, mais verdadeira."

A experiência de Henri Nouwen com este jovem foi extraordinária e reveladora, ao ponto de nos confidenciar: "com Adam aprendemos que a beleza de cuidar de alguém não está só em dar, mas também em receber. Foi ele quem me abriu para a compreensão de que o maior dom que eu lhe podia ofertar era a minha mão e o meu coração abertos, para receber dele o precioso dom da paz. (...) Cuidar de Adam era permitir que o Adam cuidasse de nós, como nós cuidávamos dele.»

quinta-feira, 31 de março de 2016

Renascemos na Misericórdia de Deus

Imagem: O Retorno do Filho Pródigo.
Séc. XVII. Por Rembrandt, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

No "Regresso do Filho Pródigo - Meditações sobre um quadro de Rembrandt" Henri Nouwen, conta-nos a história de um pai e dos seus dois filhos (que encontramos no capítulo 15 do Evangelho de Lucas) a partir dum quadro de Rembrandt, um pintor flamengo do século XVII. 

O primeiro encontro de Henri Nouwen com este quadro de Rembrandt marca o início de uma fascinante aventura espiritual, em que aquela imagem do pai terno e misericordioso , será uma presença constante e fonte de belas e profundas reflexões, ao ponto de ele se referir ao quadro da seguinte forma: «Contém todo o Evangelho. Nele está toda a minha vida e a dos meus amigos. Este quadro converteu-se numa misteriosa janela através da qual posso pôr um pé no Reino de Deus»

Fruto de contemplações demoradas e pacientes, o autor partilha as suas impressões, pensamentos e sentimentos sobre detalhes específicos do quadro. Por exemplo, sobre a imagem dos braços e das mãos do Pai, escreveu: 

«É neste Deus que quero acreditar: um Pai que, desde o princípio da criação, abre os braços numa bênção cheia de misericórdia, sem forçar ninguém, mas esperando sempre; sem deixar cair os braços, e esperando sempre que os filhos regressem para lhes poder falar com palavras de amor e para deixar que os braços cansados repousem nos seus ombros. O seu único desejo é abençoar

O pai quer simplesmente que saibam que o amor de que andaram à procura pelas mais variadas vias, esteve, está e sempre estará presente para eles. 

O núcleo do quadro de Rembrandt são as mãos do pai... Nelas, a misericórdia faz-se carne; nelas se reúnem o perdão, a reconciliação e a cura e, por meio delas, encontram descanso não só o filho cansado, mas também o ancião-pai. »

Uma das mais belas passagens do livro acontece quando Henri Nouwen medita mais profundamente sobre o significado da imagem do manto vermelho: «Com a sua cor cálida e a forma curva oferece um lugar de acolhimento onde dá gosto estar. Sugere as asas protetoras de um passarinho-mãe. Lembrava-me das palavras de Jesus sobre o amor materno de Deus: «Ó Jerusalém, Jerusalém... Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintainhos sob as suas asas, e tu não quiseste!» (Mateus 23, 37-38).

E assim, sob a figura de um velho patriarca judeu, emerge também um Deus maternal que recebe o seu filho em casa.

Agora, quando olho de novo para o ancião de Rembrandt inclinado para o filho recém-chegado e que lhe toca nos ombros com as mãos, começo a ver que não é só o pai que «aperta o filho nos braços», mas a mãe que acaricia o seu menino, o envolve com o calor do seu corpo, o aperta contra o ventre de onde saiu. Assim, «o regresso do filho pródigo» transforma-se no regresso ao ventre de Deus, no regresso às próprias origens do ser e volta a fazer-se eco da exortação de Jesus a Nicodemos: tens que nascer de novo.»

quinta-feira, 10 de março de 2016

NO CENTRO, OS QUE SOFREM


«No centro da religião de Jesus não está um Livro ou uma Lei, mas as Pessoas, concretas, situadas, magoadas, com as suas dores e deficiências. No centro, os que sofrem. (...)
É por isso que não me convence nenhuma "fé" que não humaniza os crentes dela. Não me convence nenhum "culto" que não torna mais amáveis os seus cumpridores. Porque estou rendido a Jesus, e uma vida como a dele é que me convence. Só o que é Humano é digno de fé. Até Deus.»
Rui Santiago Cssr, in Ora Vê

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"COMPAIXONA-TE"


© Rembrandt -  "Jesus and the adulteress"

«Jesus vive Deus como compaixão. No seu mistério mais insondável, Deus é compassivo (rahum). Aquilo que define Deus não é o poder ou a sabedoria, tal como acontece nas divindades pagãs do Império. Jesus capta e vive a realidade misteriosa de Deus como compaixão. A compaixão é o modo de ser de Deus, é a sua maneira de reagir perante os seus filhos e filhas, é a sua forma de ver a vida e olhar as pessoas.

Esta experiência de compaixão de Deus fez de Jesus um «místico de olhos abertos», que se sente afectado pelo sofrimento da humanidade. Como repetiu inúmeras vezes J. B. Metz, a mística de Jesus não é uma mística de olhos fechados, virados para um outro lado, mas uma mística de olhos abertos ao sofrimento humano. Jesus não é capaz de comunicar a sua mensagem e a sua experiência de Deus fazendo orelhas moucas aos que sofrem. Jesus abre-lhes espaço na sua vida para que possam acreditar que têm um lugar privilegiado no coração do Pai. Defende-os como ninguém a fim de que possam experimentá-lO como o defensor dos últimos. Abre-se de maneira muito especial a eles já que a eles todas as portas se costumam fechar, inclusivamente as portas do templo. 

Jesus quer ser um sinal claro de que Deus não abandona os últimos. A partir da sua experiência de Deus, lança este grito profético aos seus seguidores: «Sede misericordiosos para com os outros, assim como vosso Pai é misericordioso para convosco» (Lucas 6:36).

José Antônio Pagola, in Es bueno crer en Jesús

domingo, 22 de junho de 2014

O AMOR DE CRISTO

«Qual é a perfeição acabada para o cristão? A plena manifestação de Cristo nas nossas vidas. 

Sem amor e compaixão pelos outros, o nosso aparente "amor" por Cristo é ficção.

Amar é deixar aqueles que amamos serem eles mesmos e não tentar moldá-los segundo nossa própria imagem. Caso contrário, amaríamos apenas o reflexo de nós mesmos.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"


quarta-feira, 7 de maio de 2014

O CORAÇÃO DE DEUS TEM MUITAS MORADAS

«O meu coração alberga todas as vidas. 
A hospedaria é imensa. 
Há até uma cama e uma refeição quente para os criminosos e os loucos.» 

Christian Bobin

domingo, 16 de fevereiro de 2014

ELE É O INESPERADO!


«Guarda um lugar na tua alma para o hóspede que não esperas» (Amiel)

«Quanto mais nos aventuramos, seduzidos pelo Espírito, na descoberta do nosso interior, tanto mais cresceremos em sensibilidade e em disponibilidade para tudo o que nos chega do exterior. Quanto mais nos descobrimos como morada de Deus, tanto mais o veremos em toda a realidade. Encontrar a Deus em si abre desmedidamente o olhar, convertendo-o em bondade (...)

(...) Precisamos da ternura e da compaixão infinita de Deus para aprender a olhar-nos com essa mesma ternura e compaixão. Esta é a grande dádiva daquele que irrompe na nossa vida sempre e como nunca esperávamos. Ele é o Inesperado! 

Oxalá se gravasse em nós, de uma vez por todas, que a perfeição de Deus e, portanto, a nossa perfeição, não é a impecabilidade senão a misericórdia! (...) O homem novo vê o mundo com olhos novos. O homem renascido na misericórdia de Deus vê o mundo à luz dessa mesma misericórdia.»

Carlos Maria Antunes, em "Atravessar a própria Solidão"

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

DE OLHOS BEM ABERTOS

«(...) Hoje a COMPAIXÃO pelos pobres tem que ter os OLHOS BEM ABERTOS… É que, de um momento para o outro, alguém que bem conhecemos passou a ter fome, envergonhada e silenciosamente, porque foi atirado para a margem do desemprego e, nós somos peritos em maneiras de acolher e ajudar que não libertam das margens quem está caído ou preso nelas… Temos maneiras de amar que põem a nu um amor unicamente meloso e sentimental.

E, um amor meloso e sentimental é um amor sem vitalidade que é capaz de dar muitas oportunidades sem dar, nem se dar a si mesmo, uma única oportunidade de mudança…

Não poucas vezes nos sentimos “desfeitinhos de pena” mas, em nós não há lugar a uma réstia de ousadia que nos leve a ter Fé no Homem, a ter Fé no “outro” que não é senão “este”, homem, mulher, velho ou criança, que temos à frente dos olhos e ao alcance das mãos.

Só um Amor de OLHOS BEM ABERTOS nos dá aquele golpe de asa  capaz de fazer descer Deus do Céu, de tirá-Lo do Templo e de ir ao Seu encontro no Homem, bem no Centro do Humano, nas linhas de fractura onde o Humano se move e se vive, na saúde, na alimentação, na dignidade, na justiça. Era por aí que Jesus andava e escandaliza.

É sempre Ele que nos aponta esse MODO TÃO ÚNICO DE AMAR - ENGENHOSO, CRIATIVO, NÃO JULGADOR, INCANSÁVEL, verdadeiramente HUMANO - a que chamamos COM-PAIXÃO!»

sexta-feira, 5 de julho de 2013

OS ÚLTIMOS



«Bem-aventurados sois vós os que estais nas franjas, pois ficareis no centro, no coração! - Nisso se poderia perfeitamente resumir o grosso de tudo o que Jesus disse e fez. (...)

Ele colocou no centro apenas um valor, um valor que era absoluto para Ele: o amor, convidando todos os que se encontravam «nas franjas» a este novo centro.(...)

Os que estavam nas franjas encontram-se agora no centro, porque Jesus se sentou à mesa com eles e os fez entrar no seu coração.»

Tomás Halík, em "Paciência com Deus"

domingo, 13 de dezembro de 2009

VIVER E PENSAR COMO JESUS


«Quando os olhos de Jesus observavam as ruas e ladeiras, ele sentia compaixão porque as pessoas estavam desorientadas. Ele lamentou por Jerusalém. Suas palavras não vinham carregadas de repreensão e humilhação, castigo e moralismo, acusação e condenação, ridicularização e depreciação, ameaça e chantagem, avaliação e rotulagem.
Sua mente era constantemente habitada pelo perdão de Deus. Ele tomou a iniciativa de procurar os pecadores e justificou sua incrível facilidade e familiaridade com eles por meio de parábolas de misericórdia divina. (...)

Ele era impiedoso somente com aqueles que mostravam desprezo pela dignidade humana, e não tinha compaixão dos que punham intoleráveis fardos nas costas de outros, eles próprios se recusando a carregá-los. Jesus desmascarou as ilusões e boas intenções superficiais dos fariseus pelo que eles eram, chamando-os hipócritas: "Raça de víboras" (Mt 12:34). Ele não compactuava com os que não mostravam misericórdia ou compaixão.
Viver e pensar como Jesus é descobrir a sinceridade, a bondade e a verdade muitas vezes ocultas por trás do grosso e áspero exterior de nossos semelhantes. É ver nos outros o bem que eles próprios não vêem e afirmá-lo em face de poderosas evidências em contrário. (...)

Brennan Manning, em "Convite à loucura"

terça-feira, 17 de julho de 2007

O Dom Secreto da Compaixão

A mobilidade descendente, o ir ter com os que sofrem e partilhar as suas penas, parece que sabe um pouco a masoquismo ou até doença. Que alegria pode haver na solidariedade para com os pobres, os doentes e os moribundos? Que alegria pode haver na compaixão? Pessoas como Francisco de Assis, Carlos de Foucauld, Mahatma Gandhi, Albert Wchweizter, Dorothy Day e muitos outros, eram tudo menos masoquistas ou doentes. Todos irradiavam alegria. Esta é, obviamente, uma alegria desconhecida do nosso mundo. Se nos guiássemos pelo que nos dizem os meios de comunicação social, a alegria devia ser o resultado do sucesso, da popularidade e do poder, mesmo que os que detêm essas coisas tenham, com frequência, um coração pesado e até deprimido.
A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente.Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?» , compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo.
Henri Nouwen, Aqui e Agora

domingo, 15 de julho de 2007

Mobilidade Descendente

A vida de compaixão é a vida da mobilidade descendente! Numa sociedade em que a mobilidade ascendente é a norma, a mobilidade descendente não só não é encorajada como inclusivamente é considerada imprudente, pouco saudável, senão mesmo completamente estúpida. Quem será que escolhe livremente um emprego mal pago quando lhe é oferecido um outro bem pago? Quem será que escolhe a pobreza quando a riqueza está ao seu alcance? Quem será que escolhe um lugar escondido quando há um lugar na ribalta da vida? Quem será que opta por viver por uma única pessoa com graves carências quando poderia ajudar muitos ao mesmo tempo? Quem será que escolhe retirar-se para um lugar de solidão e oração quando há tantas exigências urgentes em toda a parte? Toda a minha vida, fui encorajado por gente bem intencionada a «subir na escala» e o argumento mais comum era: «Nessa posição, pode fazer tanto bem a tanta gente!»Mas essas vozes chamando-me à mobilidade ascendente estão completamente ausentes do Evangelho. Jesus diz: «Quem ama a sua vida, perdê-la-á e quem odiar a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna» (João 12, 25). E diz mais: «Se não vos fizerdes como crianças nunca entrareis no reino dos céus» (Mateus 18, 3). E finalmente diz: «Vós sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Ao contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós, seja o vosso servo; e quem quiser ser o primeiro no meio de vós, seja vosso escravo. Assim fez o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pelo resgate de muitos» (Mateus 20, 25-28).Esta é a via da mobilidade descendente, a via descendente de Jesus. É a via que leva aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados, aos prisioneiros, aos refugiados, aos que estão sós, aos esfomeados, aos moribundos, aos torturados, aos sem-tecto - a todos os que pedem compaixão. O que é que eles têm a oferecer em troca? Nem sucesso, nem popularidade, nem poder, mas a alegria e a paz dos filhos de Deus.

Henri Nouwen, Aqui e Agora

sexta-feira, 8 de junho de 2007

A mais bela lição de Amor e Compaixão


Os homens dos pergaminhos arrastavam-na pela rua.Vinha quase nua. Suja, ferida e cabisbaixa. Ferida. Eles traziam pedras nos bolsos, para atirar a ela e ao Mestre. Principalmente ao Mestre.

Empurraram a pecadora para perto dele e fecharam o círculo dos juízes impolutos, prontos a derramar o sangue pecador. O apedrejamento ia começar.

- Que dizes tu disto? – apontando eles com o dedo indicador para a mulher, que soluçava prostrada na terra.


Silêncio.


O Mestre nada disse. Continuava a enigmática escrita no pó da terra. Pensavam consigo que finalmente o tinham desmascarado. Apanharam-no.- Não respondes? Não vais cumprir com o que dizem os Pergaminhos? – insistiam eles, gritando.


Pacientemente, O Mestre levantou-se. - Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire uma pedra contra ela. – inclinando-se novamente, continuou a escrever na terra.

Os pergaminhos.

Silenciosamente os mais velhos começaram a sair. Depois os mais novos. Saíram todos.


Ficou a mulher sozinha com O Mestre.- Ninguém te condenou?- Ninguém, Senhor.- Nem eu te condeno. – disse Ele ajudando-a a levantar-se pelo braço - Vai-te e não peques mais.


A mulher, como que removendo todas as pedras da sua existência, renasceu. Saiu dali irradiando alegria. Sentia-se limpa, curada e perdoada. Curada.


(Baseado em João 8:3-11)

domingo, 29 de abril de 2007

Sedentos de Amor

Recentemente, conheci um pouco da história de vida de Henri Nouwen(http://pt.wikipedia.org/wiki/Henri_Nouwen) através de um livro de Philip Yancey - "Alma Sobrevivente". Senti-me deveras impressionado com a coragem, sabedoria, abnegação, humildade e amor demonstrados por este padre, escritor, teólogo...Sinto muito prazer em partilhar alguns pensamentos, reflexões e observações que Henri Nouwen fez a respeito das suas experiências de vida cristã, assim como a influência que este homem exerceu sobre Philip Yancey( e milhares de pessoas) e que ele descreve no livro que mencionei anteriormente.

"Quão pouco nós realmente sabemos sobre o poder do toque físi­co", escreveu Nouwen durante sua permanência no Peru. Ele visitara recentemente um orfanato em que as crianças, carentes de afeição, lutavam pelo privilégio de tocar nele. "Aqueles meninos e meninas queriam apenas uma coisa: serem tocados, abraçados, afagados e acari­ciados. É bem possível que a maioria dos adultos tenha as mesmas necessidades, mas tenham perdido a inocência e a consciência desinte­ressada de expressá-la. Há momentos em que vejo a humanidade como um mar de pessoas famintas por afeição, ternura, carinho, amor, aceita­ção, perdão e bondade. Parece que todo o mundo está dizendo: «Por favor, ame-me».

Durante alguns anos, Henri nouwen trabalhou numa clínica de doentes com sida. Na clínica, Nouwen ouvia histórias pessoais. "Sou um padre, este é meu trabalho. Ouço as histórias das pessoas. Elas se confessam a mim." O escritor Philip Yancey relata:"Ele me contou de jovens banidos de suas próprias famílias, forçados a se prostituir nas ruas. Alguns deles tinham centenas de parceiros com quem haviam se encontrado em casas de banho, cujos nomes nunca soube­ram, sendo que, de um desses parceiros, eles haviam contraído o vírus que agora os estava matando.Nouwen olhou para mim com seus olhos penetrantes, brilhando de compaixão e dor. «Philip, aqueles rapazes estavam morrendo - literal­mente - por causa da sua sede de amor.» Ele prosseguiu, contando-me histórias individuais que ouvira ali. Todos os relatos tinham em comum a busca por um lugar seguro, por um relacionamento estável, por um lar, por aceitação, por amor incondicional, por perdão - a própria busca de Nouwen, percebo hoje.

"Através dos olhos de Nouwen, passei a olhar essas pessoas com outros olhos. Não como imorais e ímpias, mas como sedentas, como pessoas que morriam por amor. Como a mulher samaritana no poço, elas haviam bebido uma água que não as satisfazia. Precisavam da Água Viva. Depois de conversar com Nouwen, todas as vezes que encontrava alguém cujo comportamento me ofendia ou revoltava, eu orava, dizendo: "Deus, ajude-me a ver esta pessoa não como alguém repulsivo, mas como uma pessoa sedenta.Quanto mais orava assim, mais me via do mesmo lado da pessoa que me causava repulsa. Eu também não tinha nada a oferecer a Deus, senão minha sede. Como o irmão mais velho da parábola, nunca pode­rei experimentar a graça de Deus limpando minha vida ou participar da festa da família, se ficar do lado de fora da sala do banquete, de braços cruzados, numa postura de superioridade moral. A graça de Deus vem como um presente gratuito, mas somente aquele que estiver com os bra­ços abertos poderá recebê-la.Pobreza, dor, luta, angústia, agonia e até mesmo escuridão interior podem continuar a fazer parte de nossa experiência. Tudo isso pode até mesmo ser a maneira de Deus nos purificar. Mas a vida deixa de ser maçante, rancorosa, depressiva ou solitária porque passamos a entender que tudo que acontece faz parte do caminho que trilhamos rumo à casa do Pai." - Philip Yancey, Alma Sobrevivente

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...