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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Minha vida dupla



Ontem, no fim do dia, fui a uma palestra. As meninas ficaram em casa com o pai. Aquele momento de suspensão, de quebra na minha rotina rigorosa, me deixou perplexa. Onde eu estava, e quem eram aquelas pessoas?

Pesquisadores envolvidos até os cabelos com a carreira. Falavam de coisas que eu entendia, e nas quais eu via sentido. Foi essa a profissão que eu escolhi. Mas era como se aquele ritmo me fosse impossível de atingir.

Quando estou fazendo alguma tarefa braçal, como lavar a louça ou picar cenoura, penso na vida que levo – a vida que eu pedi a Deus. Levanto às 6h para arrumar as meninas para a escola. Às 7h e pouco elas saem com o pai. Fico então até às 8h por conta da casa, período em que lavo louça, estendo roupas, deixo o almoço pré-pronto. Depois, vou estudar. Às 12h termino o almoço, e então quando elas chegam da escola é o Deus-nos-acuda. Servir prato, trocar de roupa, varrer chão, e de novo a eterna louça. Fico com elas toda a tarde, e só posso reclamar mesmo do trabalho que dá a comida.

Ontem eu tinha de sair depois da janta pra palestra. Queria que o marido ficasse só por conta das crianças, sem nenhuma bagunça pra arrumar. Enquanto elas brincavam de bonecas no corredor, estendi a roupa de todo dia (que agonia) varri e passei pano no chão da cozinha, deixei a louça lavada. E fui.

Voltei pra casa pensando: como eu vou conseguir chegar aonde meus colegas vão chegar? Como conseguir compensar as minhas limitações? "As crianças vão crescer", o marido diz. Sim, já estão crescendo. A flexibilidade aumenta, mas precisamos continuar disponíveis.

Só quem tem uma família pra cuidar sabe a loucura que é. A gente pode tentar empregada, babá, escola integral, mas no mínimo teremos de administrar tudo isso. E se a empregada que dorme já entrou em extinção – e a mensalista está na lista das profissões ameaçadas –, colocar a casa em ordem depois da última refeição do dia é uma tarefa inevitável, mesmo pra quem tem alguém todos os dias.

Como eu disse, vivo a vida que pedi a Deus. Passo bastante tempo com minhas filhas, consigo acompanhar a vida delas. Ao mesmo tempo, estou construindo uma carreira que é minha vocação e que me dá prazer – e que, espero, se mostre mais flexível que meu antigo trabalho, para que eu sempre tenha o tempo necessário pra família. Não tenho patrão e sou responsável pela minha própria disciplina. Em suma, sou livre.

Mas o ritmo é outro. A mãe que ousa carregar os filhos sempre caminhará mais devagar. O que nos salva é a obstinação. Caminhamos devagar, mas não paramos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

To blog or not to blog

Eis a questão.

Enquanto estou aqui, eu poderia estar: dormindo, lendo, arrumando a casa, cuidando das plantas. Essas são as coisas que faço enquanto as meninas dormem. Mas é só sentar para dar uma zapeada nos blogs das amigas, fazer um comentário aqui e ali, começar a esboçar um post, que já se foi um tempo danado. Então decidi que o tempo gasto diante deste computador será exclusivamente para espairecer, quando eu precisar, digamos, de um coffe break. E comer um bolinho com chá enquanto leio ou escrevo cai muito bem.

Ou seja: um tempo restrito, esporádico, que combina totalmente com minha infrequência por aqui nos últimos tempos.

Estava reparando que, em 2009, fiz 115 postagens - isso porque comecei o blog em junho. Uma média de 16-17 postagens por mês. Em 2010, foram 171 - pouco mais de 14 por mês. Em 2011, 101 - e a média caiu pra 8. Este é o 23o post do ano, o que me leva para uma média de 5 postagens por mês. E qual a grande diferença entre cada um desses anos? Acertou quem disse: filhas. E também quem disse: licença maternidade (e licença eternidade). Porque, convenhamos: quando a gente passa 8h por dia num escritório, e ainda tem de almoçar por lá, quem não dá uma escapadela pra blogar? Já em casa, a chefia é mais rigorosa... e o trabalho, inesgotável.

Então, deixa eu voltar pro batente que Margarida teve bronquiolite outra vez (sim, é o terceiro episódio e estamos de fato diante de um bebê chiador). E a gente se vê quando Deus der bom tempo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Minha mãe que disse - eu na estreia!

Meu povo, estou de férias, sozinha com Emília e "com o bucho saindo pela goela", como diz uma tia minha do Ceará. Daí que minhas postagens ficarão mais breves e esporádicas até ela voltar às aulas.

Mas hoje (atrasada, mas ainda no dia certo) não podia deixar de passar por aqui pra contar que tive a honra de estrear o Minha mãe que disse, de autoria da Roberta Zimmerman e da Flávia. Falo sobre maternidade e trabalho.

Quem estiver com saudades dos meus longos textos, passa !

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A criança terceirizada



Quem primeiro me falou desse livro foi a Nina, em um dos longos e deliciosos e-mails sobre trabalho e maternidade que trocamos há alguns meses. Depois, conversando com a Paloma sobre os dilemas profissionais de uma mãe, descobri que ela tinha o livro do Dr. José Martins Filho, e generosamente veio entregá-lo na minha casa para um empréstimo.

Só posso dizer que fiquei profundamente tocada com as reflexões desse pediatra pregador da paternidade e da maternidade conscientes. Ele defende que as pessoas deveriam estar muito bem informadas sobre a responsabilidade que os filhos implicam e dispostas a dedicarem muito do seu tempo a eles antes de decidirem tê-los. E refuta essa balela de que “o que importa é a qualidade”. Parafraseando o Dr. Carlos González (pediatra espanhol autor de Bésame mucho e Mi niño no me come, entre outros títulos): fala pro seu chefe que você só vai trabalhar meia hora, mas que ele não precisa se preocupar que você vai trabalhar com muita qualidade nessa meia hora. Aposto que ele não vai ficar nada feliz. Pois é: seu filho também não.

A criança terceirizada é aquela que foi delegada a qualquer pessoa que não sejam os pais – únicos responsáveis pela sua criação. Babás, professores, avós, tios, qualquer pessoa que dispense mais cuidados à criança que seus próprios pais prestam serviços terceirizados. O Dr. José Martins Filho não está falando de um bebê que é deixado algumas horas com um parente para que os pais possam resolver alguma questão pessoal (inclusive trabalhar). Ele se refere a crianças cujos pais não assumem seu papel, não lhes dedicam tempo e atenção suficientes e repassam a terceiros funções que seriam suas. Essas crianças passam a identificar seus cuidadores como seus “pais” e a eles retribuem o afeto. O autor cita inclusive casos em que as mães, enciumadas do carinho que seus filhos demonstram com as babás, as mandam embora. Eu mesma já encontrei babás no parquinho com essa história: “Eu fui demitida do meu último emprego porque a menina só queria ficar comigo”. E aí a criança perde a pessoa que era seu referencial, e fica vivendo repetidas experiências de abandono (porque a maioria dessas mães não demite a babá pra ficar com a criança, mas pra contratar outra).

Digo que fiquei profundamente tocada com esse livro porque o autor, apesar de afirmar que não está propondo um retorno às estruturas antigas (mulheres em casa), não nega que são necessárias profundas mudanças na nossa estrutura social para que nossas crianças tenham a atenção devida. Mães que trabalham em tempo integral, por exemplo, são obrigadas a terceirizar os filhos. É o meu caso.

O Dr. José Martins em nenhum momento culpa as mães – até porque algumas precisam mesmo trabalhar. Temos problemas estruturais no mercado de trabalho: a maioria das mulheres ainda tem direito a apenas 4 meses de licença maternidade e não existem leis que protejam as mães da jornada integral – como o direito à redução de carga horária após o fim da licença-maternidade, com remuneração proporcional, ou a possibilidade de uma licença estendida sem remuneração, mas sem a perda do vínculo empregatício.

Mas enquanto espero as mudanças que são necessárias para garantir às crianças maior atenção de pelo menos um dos genitores, me questiono sobre o que eu posso fazer para garantir à minha família a melhor estrutura familiar e emocional possível. Porque eu me encontro numa situação privilegiada na qual eu tenho opção. Não é o caso de escolher entre trabalhar ou passar fome, mas entre trabalhar ou viver uma vida mais simples.

O livro do Dr. José Martins levou ainda mais além as reflexões que eu já vinha tendo sobre o tempo que eu passo com minha filha. Quanto está custando o salário que eu recebo? Que valores eu estou passando para meus filhos quando opto por uma renda familiar maior – e, consequentemente, pela possibilidade de um consumo além do necessário – em detrimento do tempo de convivência com eles?

Eu poderia passar horas aqui discutindo esse tema, mas deixo só a sementinha pra brotar minhocas na cabeça de todas as mães que, como eu, passam o dia longe daqueles que mais amam.

+++

A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo.
José Martins Filho
Ed. Papirus

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O que queremos para nossos filhos

Sempre quando saio de casa para o trabalho dou uma espiada no jornal do vizinho, estendido sobre o capacho. Há muito tempo, talvez anos, não leio jornais. Nem no papel, nem pela internet, tampouco assisto aos noticiários pela TV. Fico sabendo dos acontecimentos pelo boca a boca, e felizmente acabo passando ao largo de muita tragédia e notícia ruim.

Mas o jornal do vizinho está sempre lá, com uma manchete quase sempre mal escrita e sensacionalista e outras chamadas sem importância. Virou hábito, passo por lá, faço minha leitura dinâmica e desço o elevador tecendo críticas mentais, que normalmente já se esvaíram quando chego à garagem.
Mas hoje o que li sobreviveu à viagem de elevador e ficou ali, rendendo minhoquinhas filosóficas. Era uma pequena chamada no canto superior da primeira página do jornal local, que dizia mais ou menos assim: “O amor compensa a ausência. Mães podem trabalhar sem culpa: estudos demonstram que o desenvolvimento das crianças não é prejudicado quando as mães passam o dia fora.” Ao lado, a foto de uma mãe com um bebê de pouco mais de um ano: “Fulana trabalha o dia todo, mas investe na qualidade do tempo que passa com a pequena Júlia.”

Coincidentemente, tinha lido há alguns dias uma entrevista numa revista institucional com uma médica que trabalhava 12h por dia, tinha um filho de dois anos e estava grávida do segundo. A matéria buscava demonstrar como maternidade e carreira são perfeitamente conciliáveis e como todos, mãe e crianças, estavam felizes.

Voltando ao jornal do vizinho. Uma notícia emancipatória: a ciência concluiu que nossos filhos não precisam de nós, já que se desenvolvem muito bem longe das mães (e, supõe-se, também dos pais). E nessa notícia, um valor implícito: o importante para uma criança é se desenvolver adequadamente. Pais satisfeitos, culpa desfeita.

Não li toda a matéria – até por que imagino que o vizinho não ficaria feliz em encontrar seu jornal todo desmontado. Como eu disse, apenas passo os olhos pelos dizeres da primeira página. Mas inferi que esse perfeito desenvolvimento ao qual o repórter se refere diz respeito a aptidões motoras e intelectuais: um bebê que é deixado na creche ou na companhia de uma babá não apresenta atrasos no andar, na fala, na coordenação motora, e disporá de todas as ferramentas para iniciar sua educação formal no mesmo nível que seus coleguinhas que passaram a primeira infância ao lado das mães. Já li, inclusive, algumas notícias que demonstram que crianças cujas mães trabalham fora têm melhor desempenho acadêmico.

Vira e mexe me deparo com alguma coisa que me faz matutar sobre os valores que temos em relação aos nossos filhos. Vejo a descrição nas caixas de brinquedos: “ajuda o bebê a dar seus primeiros passos; estimula o desenvolvimento motor; estimula o tato; estimula a linguagem...” Alguns ainda fazem referência à diversão, mas como um brinde: “aprenda se divertindo!”. Porque só se divertir deve ser mesmo uma perda de tempo. Já vi até lojas de roupas infantis anunciarem que seus produtos estimulam os sentidos das crianças, quando o principal fator na escolha do que uma criança vai vestir deveria ser o conforto.

Com essa mentalidade, uma prova científica de que meu filho não precisa da minha presença para desenvolver todas as aptidões necessárias à sobrevivência num mundo capitalista é realmente libertadora. Enquanto isso, visto meu tailleur e lá vou eu também sobreviver nesse mundo capitalista, sem culpa. Para que depois meus filhos cresçam e sejam bem sucedidos como eu.

Sou uma mãe que trabalha. Com a jornada de 8h diárias, sou forçada a passar 10h longe de casa. É parcialmente uma obrigação, parcialmente uma opção. É algo que já estava assim quando minha filha nasceu e que demanda um pouco de estratégia para ser mudado. Não vou dizer que me sinto culpada. Não sinto culpa simplesmente porque isso não ajuda em nada. Sinto, sim, um desconforto. Porque o meu instinto grita dizendo que isso não está certo.

Não vim aqui discutir se as mães devem ou não trabalhar. Vim me perguntar o que nós queremos para os nossos filhos.

Eu quero, primeiramente, que meus filhos tenham caráter – caráter esse que eu e meu marido vamos ajudar a formar, responsabilidade indelegável para educadores ou cuidadores. Em segundo lugar, quero que meus filhos sejam felizes. Construir a segurança emocional que vai permitir que eles sejam plenos de alegria é outra tarefa exclusivamente nossa. Se eles vão ser ricos, pobres, brilhantes, bem sucedidos, pouco importa. Se tiverem caráter e paz de espírito, saberei que minha missão foi cumprida.

Se alguma mãe precisa de um estudo científico para se livrar da culpa de não passar tempo o suficiente com seus filhos, provavelmente ela não se sente segura o suficiente para manter uma carreira integral. E provavelmente ela está certa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Do céu ao inferno

Foi bem rápido. Menos de duas semanas de volta ao trabalho e me sinto péssima. Tudo o que parecia tranqüilo tomou novos rumos, e de repente me vi soterrada de funções absolutamente alheias a tudo aquilo que sei fazer ou gosto de fazer. Já disse aqui que odeio administração? Pois odeio. Dêem-me papeis, muitos papeis, e não vou reclamar. Mas me mandem trabalhar com qualquer ferramenta de gestão e estejam certos de me trazerem noites sem sono, um estômago cheio de ácido e muitas lágrimas.

Parece uma bobagem, um sentimento precipitado e influenciado pelo fim da minha licença. Mas de repentina essa sensação não tem absolutamente nada. São quase cinco anos com o mesmo sentimento de inadequação, de estar sendo mal aproveitada, de desperdício de vocação. Tenho qualificações que pouquíssima gente onde eu trabalho tem, e que seriam extremamente úteis para a instituição da qual eu faço parte, mas me é simplesmente impossível colocar isso em prática. Cansei de insistir, e me conformei depois que engravidei com a feliz ideia de que passando sete meses afastada todos aqueles sentimentos desapareceriam.

Eu não entendia por que tinha tanto medo de voltar ao trabalho. Achava que era receio de abandonar minha filha, de que ela não ficasse bem. Mas era mais. Era medo de voltar a uma realidade que muito me fez sofrer, e que me rendeu um quadro de pré-depressão no final de 2008 . Sabe gato escaldado?

E desde a noite de quinta tenho dormido muitíssimo mal, e tenho chorado regularmente. É uma dor enorme, um desânimo, uma completa falta de coragem.

Muitos poderão me perguntar por que eu simplesmente não acabo com isso, e largo tudo. Ou por que não faço uma terapia (já fiz) e aprendo a conviver com essa realidade. Afinal, que capricho todo é esse de querer fazer o que gosta, e que sabe fazer muito bem?

O problema é que toda decisão exige muita prudência. Um emprego como o meu está cada vez mais difícil de conseguir e me garantirá um futuro bastante confortável. Mas vale a pena passar 30 anos infeliz pra depois se aposentar ganhando mais do que eu preciso?

O que me faz faltar a coragem para mudar de vida – e eu sei que posso, sei que tenho o talento para construir uma outra coisa totalmente diferente – é que o sofrimento é intermitente. Se fosse uma depressão daquelas, a gente emagrece, passa meses chorando, quer morrer, eu veria claramente que uma mudança de rumo seria urgente. Mas eu fico mal, fico bem, fico mal, fico bem. E agora vejo que não dá mais pra continuar vivendo nesse pisca-pisca. Tenho uma filha pra criar, e em breve terei outros. E tenho de estar inteira pra eles.

Tenho conversado muito com meu marido e tomamos algumas decisões. Tudo muito devagar, e vejo um fio de esperança. Mas ainda choro, e tenho medo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Andando em círculos

Passei sete meses fora e parece que voltei ao ponto em que estava quando saí de licença. A maioria dos colegas continua por aqui e meu trabalho ainda é o mesmo – o que, confesso, me deixa um pouco confortável. Sim, porque não sei se estaria preparada para grandes mudanças nesta fase da minha vida. Ainda estou muito centrada na minha família, e não sei se isso vai mudar tão cedo (nem se vai mudar um dia).

Ainda sonho com outros rumos profissionais, mas sem pressa. Brinco de escrever uma dissertação de mestrado, na esperança de em breve ter tempo pra isso. E sinto a mesma calma que sentia há pouco mais de sete meses, quando eu sentava nesta mesma cadeira com uma barriga enorme.

Mas percebi que estava andando em círculos quando me peguei usando o tempo livre que tinha para ler sobre parto. Exatamente o que eu fazia há sete, oito meses. Não sei se é porque ainda pretendo ter mais filhos, mas a gestação, o parto e a maternidade me transformaram de forma irremediável. Parece que foi ligado um botão que me tornou reprodutora por tempo indeterminado. Se eu não estiver gestante, estarei lactante. Quase como uma carreira.

Existem outras coisas importantes, é claro, como aquele poema que eu ensaio traduzir pra um futuro mestrado. Mas sabe quando você de repente encontra uma vocação, que você não precisa se esforçar nem um pouco pra exercer e que cai sobre você como uma luva, sem que você possa impedir?

E então entendi que a maternidade é irrevogável, irrenunciável e irresistível.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O dia de uma profissional lactante

Antes de Emília nascer, eu não sabia como seria. Não sabia como conciliaria profissão e maternidade mas, apesar do medo, meti as caras, como escrevi naquela época.

Isso porque trabalho 40h semanais, num lugar longe de casa e longe de tudo. Por aqui praticamente não há restaurantes decentes, e sempre trouxe minha marmita para comer no refeitório. Mas como preparar comida todas as noites com um bebê em casa? Como descansar, se sem Emília eu já me cansava o suficiente só com minha rotina? E o tempo pra ela? E a amamentação? Como esvaziar os seios no trabalho?

Hoje, de volta ao trabalho, as coisas se acertaram milagrosamente, e nossa família está se adaptando com sofrimentos suportáveis.

Nossos dias têm sido assim:

Emília acorda por volta das 6h30, e com ela, todos nós. Se está bem, o marido fica com ela para eu me arrumar, de modes que eu dê o mamar o mais próximo possível do horário de sair. Se não, já dou o peito de uma vez. Depois, deixo ela no carrinho pra ela fazer tudo comigo: ir ao banheiro, escovar os dentes, me maquiar e me vestir. Não tomo café em casa pra não perder esses preciosos minutos com ela. Ali pelas 7h e pouco saio pro trabalho e deixo Flosinha com o pai. É o momento de eles dois se curtirem, pra depois saírem às 8h e pouco rumo à escolinha e ao trabalho.

Saio parecendo muambeira: uma sacola com minha marmita, outra com a bomba de leite e a bolsa com minhas coisas. Resolvi a questão da marmita da seguinte forma: aos sábados vem uma pessoa lá em casa pra fazer comida pra semana, e ela já deixa congeladas as porções pra eu trazer pro trabalho (até arroz a gente congela. Não é bom como arroz fresco, mas quebra o galho). Continuo almoçando aqui no refeitório, já que não compensa sair daqui do caixa prego, me meter na auto-estrada com um trânsito pesadíssimo pra chegar esbaforida na creche e passar meia hora com Emília, não almoçar direito e ainda ter de sair 1h mais tarde do trabalho – porque aí eu teria de tirar 2h de almoço. A própria psicóloga da creche achou melhor eu não ir, até porque seria mais uma separação.

Na falta da mamada ao meio dia, estou mandando dois potinhos de leite por dia (uns 100ml) pras tias oferecerem a Emília caso ela não coma algo equivalente a um mamão inteiro no lanche. Assim ela fica alegrinha e aguenta até as refeições principais (almoço e janta). Ordenho duas vezes na salinha de apoio à amamentação aqui do meu trabalho, que foi inaugurada durante a minha licença (Deus é bom!) e uso uma bomba elétrica. É mais rápido que tirar na mão e preserva meus tendões. Enquanto ordenho, fico assistindo DVDs no Looney Tunes na televisão da salinha.

Saio daqui 16h30, pego o leite no congelador e me mando pra escolinha. Quando me vê, Emília faz aquela cara de mamãe-me-tira-daqui-estão-me-torturando e se joga no primeiro dos peitos que aparecer na frente dela. Amamento lá mesmo e só então volto pra salinha pra conversar com as tias, perguntar como foi o dia e pegar as coisas dela (a essa altura, cheia de leite na pança, Emília está toda serelepe, rindo pra todo mundo). Daí volto mais muambeira que nunca, acrescentando às três bagagens da ida a bolsa de Emília, o bebê conforto (que o marido deixa de manhã) e a própria Emília. Ser mãe é virar um cabideiro ambulante.

Chegamos em casa ali pelas 17h e poucos. Coloco ela no carrinho pra esvaziar a bolsa dela, conferir as anotações na agenda, colocar a roupa suja no cesto, tomar uma água e ir ao banheiro. Depois brincamos, Emília mama mais um pouco, e brinca, e mama, e ultimamente tem capotado ali pelas 18h30. O pobre do marido chega, só dá tempo de ver Flóris mamando e dormindo (a creche é um sossega leão. Ela chega exausta). Nesse tempo, arrumo minha marmita pro dia seguinte e esterilizo a bomba de leite. Jantamos juntos, até ela acordar da soneca pro sono definitivo. Eu dou a massagem e o marido dá o banho. Ela adormece em torno de 20h e vamos nós dois pra cama logo em seguida, pra levantarmos renovados no outro dia.

E tem sido assim. O marido tem sofrido mais que eu, porque agora ele a vê muito menos (enquanto eu estava de licença, ele vinha almoçar em casa e lamber a cria). Além disso, ela parece ainda mais apegada a mim, e às vezes não quer ficar com ele. Mas assim vamos nos ajeitando, nos adaptando.

Agora deixa eu quebrar minha cuca pra bolar uma rotina pra quando eu tiver cinc... ops, três arrebentos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

No intervalo do almoço

Passo aqui rapidinho só pra dizer que:

- Minha volta ao trabalho foi relativamente tranquila. Foi bom rever os colegas e descobrir que ninguém mexeu no meu computador e na minha estação de trabalho.
- A chefe nova parece ser boa gente e aceitou sem problemas meu horário chega-cedão-sai-cedão.
- Estreei a Sala de Apoio à Amamentação e estou achando o máximo. É um cantinho sossegado, com chave, geladeira, pia e poltronas pra gente tirar o leite em boas condições de higiene e sem medo de ser flagrada de peitos de fora.
- Hoje levei Emília pela primeira vez na aulinha de natação (lá na creche mesmo) e, apesar do frio, foi um momento bem gostoso.

...e a saudade ainda é grande. Licença maternidade é realmente o paraíso.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Valorizando a maternidade



Li o Manifesto pelas Mães, elaborado pelo Grupo Cria, e vim dar minha contribuição para a valorização da maternidade. Ninguém me pediu pra divulgar nada, e é de coração que escrevo aqui o que um movimento como este significa pra mim.

Não sou uma pessoa exatamente engajada. Muito antes pelo contrário. Ainda antes de virar mãe, eliminei das minhas leituras jornais e revistas, parei de ver filmes violentos e me refugiei no meu mundinho de romances e desenhos animados. Isso porque tudo foi ficando muito pesado, muito duro, e ao mesmo tempo eu fui ficando mais frágil e decidi que era melhor assim. Uma alienação inofensiva. Afinal, se você não vai fazer nada a respeito das notícias ruins, melhor será ignorá-las.
Até que nasceu este blog, enquanto Emília crescia dentro de mim e eu mesma me metamorfoseava nesta outra coisa: esta coisa mãe. E fui vendo muita gente se manifestando pelo bem de nossas crianças. Por uma maneira mais humana e saudável de gerar e parir um filho, pelo direito de as crianças serem crianças, sem se transformarem precocemente em máquinas de consumo ou em mini-adultos, pela possibilidade de nossos bebês receberem o melhor dos alimentos - o leite materno -, e seguirem sua jornada alimentar sem terem seu paladar viciado involuntariamente por maus hábitos que nós, adultos, trazemos pra dentro de casa. E fui me apaixonando por tudo isso.

Digo que me encontrei na maternidade. Descobri que nasci pra isso. Brinco dizendo que, por mim, ficava engravidando e parindo até a menopausa (é, talvez eu tenha nascido na época errada). E daí o que seria um engajamento, uma militância, virou naturalmente um diário de reflexões e desabafos. E hoje reflito sobre o papel das mães na sociedade.

A causa das mães não é uma causa particular. Não é própria, não é só das mães ou só dos filhos. É uma causa da família, que, por mais que muita gente tenha tentado diminuir, ainda é a base da sociedade. Li em algum lugar que reivindicamos um mundo melhor pros nossos filhos, mas muitas vezes esquecemos de legar filhos melhores pro nosso mundo.

Valorizar a maternidade não é uma atitude simplesmente feminista, que beneficia só as mulheres que deram à luz ou adotaram crianças. É valorizar os pais, os filhos, e este mundão que amanhã vai ser habitado por essas crianças de hoje - que na família vão encontrar a primeira base para se tornarem bons cidadãos. A criança amada, bem cuidada, que tem no lar sua segurança, tem muito mais chances de se tornar um adulto equilibrado. É menos violência, menos corrupção, menos violações aos direitos humanos. Enfim, pra mim, o único caminho pra fora do subdesenvolvimento.

E como valorizar as mães? Como bem diz a imagem aí em cima, certamente não é com uma rosa no dia das mães. A prorrogação da licença maternidade por mais 60 dias (projeto empresa cidadã, que, infelizmente, ainda não é adotado por todo o mercado), por exemplo, é uma medida.

Mas jogo algumas ideias um pouco mais ousadas, caso algum parlamentar caia aqui por acaso.

- direito à redução de jornada de trabalho de 40h para 20 a 35h/semanais, conforme a opção da mãe e com remuneração proporcional, após o término da licença maternidade. (Por que esse tudo ou nada? Por que ficamos muitas vezes forçadas a nos decidir entre passar o dia longe dos nossos filhos ou não trabalhar?).
- obrigatoriedade da presença de salas de ordenha em empresas que tenham um número mínimo de funcionárias em idade fértil.

Um dia a gente chega lá, se Deus quiser. Enquanto isso, a gente pede a Deus pra não enlouquecer.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um milhão de coisas

Quanto mais coisa a gente tem pra dizer, mais difícil fica arrumar tempo, organização mental e ânimo pra sentar e dar uma forma a tudo isso.

Estamos passando por um período de transição, Emília e eu. As papinhas começaram bem, enquanto o peito se complicou. A amamentação foi barra semana passada, com as mordidas. Depois ela ficou sem querer mamar direito, largava o peito chorando com meio litro de leite deixado pra trás, arqueava as costas se eu oferecia de novo e, pra compensar, passava a madrugada mamando.

Esta semana nos reconciliamos. E ela está mamando maravilhosamente, sem nenhuma ameaça de mordida. Vou dormir com os peitos vazios e ela voltou a aguentar 8, 9h de jejum noturno. Em compensação, chora durante a papinha e não consigo fazê-la comer mais de meia colher.

Desmamar de uma vez não é uma opção. Voltar atrás nas comidinhas também não. É muito cedo pra uma coisa e muito tarde pra outra. Meu marido diz que deve ser normal, que faz parte dessa mudança.

Mas estou doente, e é difícil não querer chorar.

+++

Mas tenho muito mais a dizer. Que agora ela larga o peito vazio com um sorriso absurdo daqueles da cabidolândia. Que ela está cada dia mais interativa, mais adorável, que o humor dela nesses últimos dias está de "hexa, Brasil, eu amo Dunga!".

Que descobri que agora, pra fazê-la cochilar de dia, nada de relaxar, colocar musiquinha e embalar. O negócio é encher a barriga de beijos, comer as coxinhas de moça melancia, fazê-la gargalhar até perder o fôlego e dar aquela canseira nela. Depois ela começa a diminuir o ritmo da respiração, fica rindo de mansinho com um brinquedinho na mão (que ela vai balançando cada vez com menos vigor) e esperar que ela dorme sozinha.

Que agora tem que sair com ela pra rua não uma, não duas, mas TRÊS vezes, que é o sossega neném.

E que tô me tremendo de medo de voltar ao trabalho. Falta menos de um mês e meio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Se eu pudesse...

Nos meus passeios pela rede, descobri (ou pelo menos foi isso que entendi) que, na França, a licença maternidade começa agora. Quer dizer, na 34ª semana de gestação. Eu pro marido: “Bora se mudar?”

Se eu pudesse, passaria esse último mês deitada ou andando. Jamais sentada horas em frente ao computador. Também não dirigiria. Se eu pudesse, dormiria 12, 14 horas todos os dias. E passaria as horas de tédio lendo ou cantando pra Emília.

Se eu pudesse, daria uma choradinha todos os dias de manhã, só pra limpar a alma e começar o dia bem. Mas de manhã, bem na hora de chorar, estou em público.

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(Os posts sobre minha preparação pro parto estão prontos. Mas, hoje, é só isso que tenho a dizer.)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Carta para Emília (senta, que lá vem a história!)

(Super mega longo, fora do cógido de ética da blogagem, mas não deu pra cortar em dois; perdia o sentido. Acho que depois dessa, só semana que vem!)

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Emília,

O que dizer pra você nesta hora? Que mamãe anda dormindo pouco e correndo muito, que estou cansada e que às vezes tenho vontade de chorar? Imagino você me olhando com sua carinha inocente, sem entender por que tanta pressa.

Eu mesma não entendo. Às vezes não sei por que trabalho, por que troco de apartamento, por que torno complicadas coisas que seriam tão simples. Como a própria palavra “complicado”. Eu tinha escrito “complexa”, que é quase a mesma coisa, mas lembrei que essa palavra podia ser complicada pra você. E troquei por "complicada".

Dizem que antigamente, no tempo dos seus bisavós, as pessoas faziam menos coisas. As crianças iam pra escola só com uns 7 anos, pouca gente fazia faculdade e muitas mulheres não trabalhavam. Não tinha esse negócio de academia, aula de inglês, cursinho. Claro, também tinha muita criança que trabalhava, principalmente na roça. Sua avó Luzia mesmo trabalhou muito. Aprendeu a costurar ainda criança e com 17 anos já passava o dia fora de casa pra ganhar um pouco de dinheirinho pra poder viver. E ela estudou muito também, pra depois arrumar um trabalho menos sofrido e poder ter uma vida mais confortável. E foi por causa disso que eu pude estudar também e conseguir o meu trabalho, e é por isso que eu posso te dar uma casa, comida, roupas e pagar os médicos.

Então dizem que é por isso que a gente trabalha: pra poder ganhar dinheiro e comprar todas essas coisas. É como uma troca, sabe, Emília? A gente faz alguma coisa pros outros (a gente chama os outros de “sociedade”, ou “comunidade”) e os outros fazem alguma coisa por nós. Por exemplo: se você é um garçom, você serve a comida pras pessoas; se você é advogado, você ajuda seus clientes a se defenderem de alguma injustiça ou a brigarem pelos seus direitos; se você é médico, você cuida da saúde dos seus pacientes. Aí nós pagamos essas pessoas e essas pessoas pagam outras pessoas pra fazerem outras coisas pra elas, e alguém nos paga pra fazermos o nosso trabalho também.

Hoje a mamãe trabalha pro Governo. Eu escrevo cartas pras pessoas respondendo às dúvidas que elas têm sobre as coisas que o Governo faz. Aí o Governo me paga, com o dinheiro que todas as pessoas (a sociedade, lembra?) dão pra ele. Todo mundo paga um pouquinho de dinheiro pro Governo oferecer os serviços públicos (as ruas da cidade, as escolas e os hospitais públicos, a polícia...), sabia? Até a mamãe, que recebe dinheiro do Governo, devolve uma parte pra ele depois. É assim que funciona, o dinheiro fica rodando por aí, passando de mão em mão, enquanto as pessoas vão trabalhando umas pras outras.

Então o trabalho era pra ser uma coisa legal, uma troca saudável de favores. Acontece que a gente também tem de cuidar das nossas coisas, e não só das dos outros, não é, meu amor? Por exemplo: se eu passasse a minha vida mandando cartas do Governo pros outros, quando é que eu ia poder cuidar de você, te dar de mamar, te dar banho? E quando é que eu ia poder passar tempo com o seu pai, abraçar, conversar? E quando é que eu ia poder descansar também e fazer as coisas de que gosto, como passear no sol, nadar ou ler um livro?

Pois é. Nos dias de hoje, a gente tem de trabalhar o dia inteiro pros outros e sobra muito pouco tempo para viver a nossa vida. Tem gente que trabalha menos. Mamãe queria trabalhar menos. Mas, sabe, Emília? Pra trabalhar menos, você tem de achar uma pessoa que aceite te pagar pra trabalhar menos. Tem gente que diz: “Você tem de trabalhar 8 horas por dia. Se você quiser trabalhar só 6 horas, vou ter de chamar outra pessoa e você vai ficar sem trabalhar.” Mas não era só pagar menos dinheiro e te deixar trabalhar menos? Pois é, eu também acho. Mas não sei por quê, não é assim que funciona. Então eu tenho de trabalhar o dia inteiro porque senão eu não vou poder trabalhar nada, e não vou ganhar nenhum dinheiro.

Toda essa explicação sobre dinheiro e trabalho é pra te dizer que mamãe anda pensando muito na vida e querendo arrumar um jeito pra passar mais tempo com você e o papai. É que muitas vezes a gente trabalha mais pra ganhar mais dinheiro. E nem sempre a gente precisa de todo esse dinheiro pra viver bem. Por exemplo: seu pai também trabalha. Se a gente ficasse só com o dinheiro dele, pode ser que a gente conseguisse viver com menos coisas, mas com mais alegria. Porque a felicidade não vem das coisas, mas das pessoas.

Acontece que a mamãe também gosta de trabalhar. Claro, ficar com você é muito melhor. Mas é como a escolinha: é muito legal ficar em casa brincando, mas se você ficasse em casa o dia todo ia ser muito chato. Na escolinha, você faz amigos e aprende coisas. É a mesma coisa com o trabalho. É legal fazer alguma coisa interessante, que você goste de fazer e faça bem. A mamãe, por exemplo, quer ser tradutora. Os tradutores pegam um texto em uma língua estrangeira (eu gosto do francês) e escrevem na língua deles. Ou pode ser o contrário: pegar um texto em português e passar pra outra língua.

Você vai pensar: “Mas mamãe, você é muito velha pra não ser ainda o que você queria ser quando crecesse!” Mas é assim mesmo, bonequinha. Às vezes demora um tempo pra gente conseguir fazer o que quer. A gente pode ser adulto e ainda querer ser outra coisa quando crescer. Mesmo já sendo crescido.

Não sei se essas coisas te interessam agora, mas vão te interessar um dia. Sua mãe é uma pessoa muito agitada, que gosta de fazer várias coisas ao mesmo tempo e tem medo de ficar para trás. Mas isso nem sempre é bom, porque a gente se cansa e acaba não sendo uma pessoa tão legal praqueles que a gente ama. Por isso queria que você se lembrasse desses conselhos quando você estiver na dúvida sobre seu futuro.

É importante ser responsável e não é certo pedir ajuda pros outros por preguiça ou pra fazer algo que nós mesmos podemos fazer, porque isso cansa os outros. Mas também a gente não precisa fazer tudo sozinha. E é importante trabalhar e ganhar você mesma seu sustento, porque senão alguém vai ter de trabalhar por você. Mas ninguém precisa trabalhar mais do que aguenta, principalmente se isso atrapalha sua vida familiar. Você também não precisa trabalhar demais pra ter muito dinheiro, porque não vale a pena. É claro que é muito triste não poder pagar um médico e ter de ficar na fila do hospital público, ou pior: não poder comprar comida. Mas ter dinheiro pra pagar um médico ou comprar comida é muito mais simples do que ganhar muito muito dinheiro pra comprar um carro importado ou uma casa com piscina.

E, o mais importante: você pode rever sua vida a qualquer momento e tentar seguir outros caminhos. Nem sempre é fácil. Se você resolver não estudar, por exemplo, pode ser muito difícil depois voltar atrás se você mudar de ideia. Mas você pode perfeitamente ser responsável sem toda essa pressão. E é isso que mamãe está tentando fazer: achar esse equilíbrio.

Não sou perfeita, meu amor, e você também não precisa ser. O importante é tentar melhorar a cada dia e fazer o que é certo, sempre pensando nas pessoas que a gente ama. E como eu tenho pensando em você!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Sonhos

Ser outra coisa.

Às vezes olho pra minha vida e me pergunto como vim parar onde estou. Algumas coisas são muito melhores do que imaginei: tenho um marido fantástico, estou perto da minha família, estou me mudando pra um apartamento lindo. E tenho um emprego muito melhor do que pretendia ter com a minha idade.

Mas algo parece não estar certo.

Em primeiro lugar, o que estou fazendo? Não estou traduzindo, não estou revisando textos (pelo menos não a maior parte do tempo). Escrevo, é verdade, mas documentos padronizados. E passei os últimos três anos e meio conciliando uma jornada louca, 40h semanais de trabalho e uma graduação diurna, pra lá e pra cá. Tornei-me tradutora há seis meses e hoje só sinto saudades. Não do caos que era minha vida, mas daquilo que eu amava, que era traduzir. Quis emendar um mestrado, mas precisava parar. E agora, mais que nunca, não posso voltar àquela rotina ensandecida. Entre continuar os estudos e seguir trabalhando, fiz a segunda opção (pelo menos temporariamente).

Em segundo lugar, o meu tempo. 40 horas. Não sei quem inventou isso. Sei que em São Paulo as pessoas trabalham 12h por dia, e que na Revolução Industrial a jornada chegava a 16h. Mas não creio que isso torne humanas as 8h diárias – note-se: com a obrigatoriedade de tirar pelo menos uma hora de almoço, o que me coloca 9h fora de órbita. Você passa todo o seu sol vivendo a vida dos outros, trabalhando pra sociedade, e tem de contratar outras pessoas pra viverem a sua vida – pra limpar sua casa, fazer sua comida, cuidar dos seus filhos. Fiz tudo durante muito tempo, mas há quase um ano não passo mais minhas roupas e não limpo mais a casa. Super legal? Sinceramente? Preferia ter um dia a menos de trabalho pra cuidar da minha casa.

Desde que resolvi fazer outra graduação e mudar definitivamente de carreira, mesmo trabalhando tempo integral, ensaio tomar novos rumos. Mas me falta a coragem. Foi até fácil colocar as contas na ponta do lápis e superar a redução de quase metade do nosso orçamento. Não tenho medo de viver com simplicidade, teremos o suficiente para levar uma vida digna. Mas me apavora largar um cargo público, cada vez mais difícil de conseguir. Penso nas férias, licença maternidade de 6 meses e, sobretudo, na aposentadoria.

Eu podia ficar horas falando sobre isso. Às vezes acho que estou vivendo com base em valores que não são os meus: segurança e estabilidade. Faço planos, tento estabelecer prazos para tomar uma atitude. Reflito, reflito. E sonho.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Se deixando levar

Hoje não queria escrever. Quero dizer, queria, mais que tudo. Mas o mundo me arrasta para coisas tão mais úteis, e tão menos importantes.

O trabalho, os aborrecimentos. Tentar estudar para mudar minha situação. Resolver coisas práticas. Tudo, menos se deixar sentir alguma emoção, boa ou má. Sentir um amor enorme pelo meu marido e pelo nosso filho – não apenas amar; sentir esse amor apertando cada câmara do coração. Deixar as lágrimas caírem. Sentir o medo do futuro. Não apenas ter medo, mas deixá-lo me abater completamente por alguns minutos, e despejar tudo sobre o marido, para depois poder dormir em paz. Sentir a alegria enorme que me trazem todas as dádivas que recebi. Não estar alegre, simplesmente, mas deixar essa alegria se transformar em perplexidade, abrir meus olhos para o milagre que está acontecendo agora.

Em vez disso, faço-me de séria e sorrio apenas cortesmente para os colegas de trabalho. E trabalho, porque foi isso que vim fazer aqui. O sonho fica pra amanhã, se Deus quiser.

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