Emília sempre foi uma criança com o desenvolvimento bem na média: sentou aos 6 meses, andou aos 12 – só engatinhar é que foi um pouquinho depois da maioria dos bebês, com quase 10 meses. No entanto, um traço do desenvolvimento dela que eu acho notável para a idade é a competência lingüística (oi, Dr. Caramujo!).
Posso dizer que ela fala tudo. Coordena orações, usa conjunções, preposições, constrói frases com orações subordinadas, domina os principais tempos verbais, usa o plural, faz concordância de gênero e número. Claro que alguns fonemas ainda não saem (o “G”, como em gato, sai “D”, e o “K”, como em carro, vira “T), o vocabulário ainda tem muito o que crescer, ela não usa o subjuntivo dos verbos, mas, né? Ela acabou de completar dois anos e tem muito o que aprender nos próximos anos.
Mas percebo que ela começa a dominar construções complexas como aquelas que incluem noções de tempo e sequência. Ainda antes de completar dois anos, ela soltou a seguinte frase:
- Tchau, vô fazê xixi nu penito. Vô sidulá (segurar) a Abelinha entanto (enquanto) isso.
Ontem ela queria ler um livro, depois disse que ia pentear meu cabelo. Daí eu perguntei:
- Você quer ler o livro ou pentear meu cabelo?
- Té pintiá o seu tabelo entanto lê o livo.
E ela fala também: “Vô jantá antis di mamá. Vô jantá pimero”.
Mas, finalmente, pra quê toda essa babação de ovo sobre a própria cria?
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Não acho que Emília seja super dotada, e sei também que as crianças se desenvolvem em ritmos muito próprios: uma tem as habilidades motoras fora de série, outra é muito boa em associações, outra fala mais que papagaio. Isso não significa que uma seja mais inteligente que a outra, apenas têm ritmos e aptidões diferentes.
Mas, além daquilo que é intrínseco à criança, existe a influência do meio. Sabemos, como mães, que a maneira como estimulamos nossos filhos pode ajudar um talento a aflorar ou a murchar. E eis minha tese: acredito que parte do bom desenvolvimento linguístico de Emília se deve ao fato de que ela não vê televisão.
(Nota: sabemos que vários fatores podem levar a criança a falar um pouco mais tarde, tais como bilinguismo, timidez, chupeta etc., e o fato de ela falar um pouquinho depois da média não é necessariamente sinal de algo errado. Mas podemos, sim, estimular a fala e a capacidade comunicativa da criança.)
Quando digo que ela não vê televisão, leia-se: ela assiste a DVDs de desenhos infantis na casa dos avós (na verdade, quase sempre ela pede uma VHS dos 101 Dálmatas) e fica na sala nas raras vezes em que o Rafael vê um jogo de futebol pela TV. Somando, ela deve passar em torno de 2 a 3h semanais diante da tela.
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Parece clichê o discurso sobre os males da televisão, coisa ultrapassada. A gente viu tanta porcaria e ficou tudo bem... E tem coisa boa na TV também, oras! Inclusive coisa dita educativa.
Reconheço o valor de muitas produções audiovisuais e defendo que o cinema e o vídeo oferecem ricas possibilidades para manifestações artísticas. O longa de animação 101 Dálmatas, por exemplo, que Emília adora, é lindo, muito bem desenhado e com uma trilha sonora ótima. Assim são muitas outras produções para crianças, e é importante que elas também tenham contato com as formas de expressão do tempo em que vivem. Ninguém vai ficar só apreciando escultura grega ou recitando Camões para todo o sempre.
O grande problema da televisão é que ela é altamente hipnotizante. Para nós, adultos, mas especialmente para crianças pequenas. É uma atividade passiva, e não interativa.
Quando Emília está lá vendo o “fime do auau”, não dá pra conversar com ela. Tento colocar meu rosto bem na frente dela e olhá-la nos olhos, pra ver se chamo sua atenção, mas ela desvia a cabeça pra enxergar a televisão. E Margarida, com 4 meses e meio, se contorce toda pra enxergar a tela quando está ligada.
O tempo gasto diante da televisão é um tempo desperdiçado, durante o qual a criança poderia estar realizando qualquer atividade que contribuísse para seu desenvolvimento: lendo um livro, montando um quebra-cabeça, jogando jogo da memória, desenhando, brincando no parquinho, brincando de casinha, jogando bola. Todas essas atividades trabalham facetas importantes do desenvolvimento infantil: motricidade, cognição, competência linguística, competência relacional.
Realmente é muito prático deixar uma criança na frente da televisão pra ir fazer qualquer outra coisa. E é por isso que eu acho que existe aquela máxima de que criança que vai pra escola cedo se desenvolve mais rápido. Eu acho que a questão não é ir ou não pra escola. A questão é o tipo de atividades que a criança faz durante o dia, e todos sabemos que crianças que ficam em casa, seja com a babá, seja com a mãe, muitas vezes passam grande parte do dia na frente da televisão. Já nas creches, é mais difícil isso acontecer.
É perfeitamente possível criar uma criança com um mínimo (ou zero) de televisão, pelo menos até os dois ou três anos e especialmente quando a criança não tem um irmão mais velho. É necessário, contudo, mudar os nossos hábitos. Porque o tempo que a criança passa vidrada na televisão não é só aquele durante o qual ela está vendo a Galinha Pintadinha. Ela também se desliga do mundo quando nós, adultos, estamos assistindo ao Jornal Nacional, ao seriado ou à novela no mesmo cômodo que a criança. Tanto porque ela tende a olhar para a televisão, mesmo que o programa não seja legal pra idade dela, quanto porque nós estamos totalmente indisponíveis para atendê-las. É só observar o comportamento das pessoas na sala de espera de um consultório quando existe uma televisão pendurada passando não importa o quê.
Claro que ninguém precisa ser absolutamente radical e banir a televisão e o You Tube de casa (apesar de que isso não faria mal e não geraria nenhum trauma para uma criança de 2 ou 3 anos). Mas algumas atitudes são necessárias para preservar nossos filhos do excesso e garantir que eles realizem outras atividades mais produtivas:
Esperar – ninguém precisa colocar um bebê de poucos meses para ver televisão. Mesmo que não haja nenhum adulto por perto para lhe dar colo, conversar ou brincar com ele, um brinquedinho ou qualquer objeto que não seja perigoso para ele é muito mais interessante do ponto de vista do desenvolvimento. Se der pra esperar até dois ou três anos para introduzir a criança à televisão, melhor ainda. Antes disso, ela não traz nenhum benefício*.
Selecionar – é indispensável conhecer aquilo que seu filho está vendo, assistir antes, verificar se não há nada inapropriado para a idade e se os valores que aquele programa transmite são compatíveis com os valores da família. É interessante também escolher programas que tenham qualidade artística, musical, gráfica e um bom enredo. A educação estética começa cedo.
Limitar – por melhor que seja o programa, não dá pra deixar a criança muito tempo diante da TV. Como eu disse acima, é necessário que ela faça outras coisas, se movimente, interaja com outras pessoas. É importante incluir nesse limite o tempo que nós, adultos, assistimos à televisão na presença da criança.
Acompanhar – o principal motivo pelo qual deixamos que nossas crianças assistam a tanta televisão, e precocemente, é para termos mais tempo para nós. Mas se estivermos ao lado deles enquanto isso, podemos diminuir o nível de passividade dessa atividade, comentar, responder às perguntas da criança e conversar com ela sobre aquilo que ela está vendo, tirando algum aprendizado daquilo.
Educar não é fácil. Temos nossos filhos é para cuidar deles, e isso exige uma dedicação muito maior do que comprar os lançamentos dos DVDs infantis e apertar um botão. Não existe atalho: nossos filhos precisam de seres humanos – de preferência nós, os pais.
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Em outubro de 2011, a revista Pediatrics – Official Journal of the American Academy of Pediatrics, publicou um artigo intitulado “Media Use by Children Younger than 2 Years” (O uso da mídia por crianças menores de 2 anos). O artigo conclui que a mídia tem efeitos potencialmente negativos e nenhum efeito positivo conhecido para crianças menores de dois anos e desencoraja fortemente seu uso para essa faixa etária. O estudo também não recomenda que adultos assistam a televisão quando crianças pequenas estiveram no recinto. “Embora programas para bebês e crianças possam ser fonte de entretenimento, não devem ser anunciados ou considerados pelos pais como educativos” (tradução minha).
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Um adendo: estou amando os comentários. Quem chegou até aqui, leia o que já escreveram aí nesta caixinha, porque os acréscimos estão riquíssimos.
Só queria esclarecer quanto à relação fala-televisão: óbvio que ver televisão não vai necessariamente postergar o desenvolvimento linguístico de uma criança, da mesma forma que sua abstinência não implica sempre que a criança falará melhor e mais cedo.
Existem uma série de fatores que exercem influência na aquisição da linguagem, e talvez a mais relevante seja a própria constituição genética, neurológica, da criança. Mas acredito (assim como os cientistas do estudo acima) que o excesso de atividades não-interativas e a perda de preciosas horas durante as quais aquele pequenino cérebro deveria estar fazendo novas conexões podem ser fatores negativos nesse processo.
Assim como uma pessoa que treina na piscina todos os dias não vai necessariamente nadar mais rápido que alguém que só treina de vez em quando, mas que é maior e mais forte. Mas que ajuda, ajuda!