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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Carta para Emília - deixando pai e mãe

A culpa. Este é um sentimento que toda mãe tem. A sua mãe, meu amor, parece um pouco mais tranquila que a maioria, mas mesmo assim às vezes também se culpa.

Quando a gente vira mãe, muita gente diz muita coisa sobre o jeito certo de criar nossos filhos. Tem gente que diz que é melhor a mãe não trabalhar pra cuidar das crianças. E tem gente que diz que é melhor a mãe trabalhar pra depois que os filhos crescerem ela não ficar se sentindo inútil, e que a escolinha faz bem pras crianças. E tem um monte de outras coisas que as pessoas dizem às mães, e às vezes a gente fica tão confusa com tanta informação que nem lembra mais em que a gente acredita. E é nessas horas que a mamãe sente culpa.

Quando a gente vira mãe, fica tendo uma pessoinha toda dependente da gente. As coisas que a gente faz ou deixa de fazer podem influenciar sua felicidade, sua saúde e suas emoções no futuro. É muita responsabilidade, né? Já pensou se eu descobrisse que você se tornou ansiosa, ou nervosa, ou desanimada por causa de alguma coisa que eu fiz ou deixei de fazer?

É verdade que nem tudo depende dos pais. Você já nasceu com uma personalidade própria – aliás, muito adorável. E outras coisas também vão ajudar você a construir seu futuro. Mas eu acredito muito que o carinho e a educação que eu te der vão ser as coisas mais importantes pra você virar uma adulta legal.

E ultimamente a mamãe tem sentido um pouco de culpa por passar o dia todo longe de você e depois ficar cansada demais pra te dar toda a atenção que você merece. Se a mamãe não trabalhasse, provavelmente se sentiria culpada também, com medo de não estar assumindo uma responsabilidade de adulto. Porque hoje em dia todos os adultos têm que trabalhar, homens e mulheres, especialmente se tiverem filhos, pra poder comprar as coisas pra casa.

Mas crescer, meu amor, é se desligar do que os outros dizem e fazer o que achamos melhor. E sabe por quê? Porque quando a gente cresce, a gente fica responsável pelo que nós fazemos.

Quando você é criança, se você estragar uma coisa do vizinho é seu pai quem paga. Mas quando você é grande, não tem mais o papai pra consertar os seus erros. Então, já que é a gente que vai ter que resolver os problemas, é melhor fazer mesmo do nosso jeito, né? Porque se alguém me mandar dar uma mamadeira pra você e depois você não quiser mais mamar no meu peito, eu não vou poder colocar a culpa nesse alguém. Você é minha responsabilidade, e se eu fizer alguma coisa de errada na sua criação, mesmo se for pra seguir os conselhos de alguém mais experiente, a culpa é minha, e só minha.

A Bíblia, que é um livro em que mamãe acredita, diz que quando a gente se casa a gente tem que deixar pai e mãe. Isso significa que a gente agora vai fazer nossas próprias escolhas, vai ser responsável pelo que faz. A gente vai continuar amando nossos pais, e respeitando, mas eles não vão mais poder decidir nada por nós. Onde vamos trabalhar, se vamos trabalhar, o que vamos comprar com nosso dinheiro e nem como vamos criar nossos filhos.

A mamãe já se casou há algum tempo, mas só depois que você nasceu fui entender de verdade essa ordem. E eu quero muito ter a liberdade pra seguir meu coração e criar você do jeito que eu sinto que é o melhor. Só o seu pai pode participar disso, e ele é um cara muito legal que te ama um monte, e quer que nossa família seja muito feliz. Junto com ele, eu decidi que o dinheiro não é nem de longe a coisa mais importante pra nós. E que responsabilidade não precisa ser passar o dia longe de casa pra ganhar mais dinheiro. Responsabilidade é cuidar com toda dedicação das coisas que são mais preciosas pra nós.

Gostei muito de decidir passar mais tempo com você e com os irmãos que você vai ter, mesmo que eu ainda não possa fazer isso agora. Mas não vai demorar muito, meu amor. E o meu coração vai estar em paz, porque foi uma decisão que eu tomei com seu pai, e nós estamos conseguindo deixar nossos pais e nossas mães para trás.

Um dia vai ser sua vez de nos deixar também. E eu quero que você tenha a maior paz do mundo pra tomar suas próprias decisões, porque a nossa tarefa vai estar cumprida.

Com todo amor,

Mamãe.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Carta para Emília - Quando você crescer...

Ainda grávida, depois de saber que era você que eu estava esperando, via crianças na rua e pensava em você. Via as menininhas de pouco mais de um ano, com o andar desajeitado, e imaginava você nessa fase. Via crianças um pouco maiores, brincando nos parquinhos, andando de bicicleta, e pensava em você. Mas não eram só as crianças que me faziam imaginar como você seria. Quando via meninas de doze, treze anos, ou até adolescentes andando pela rua de mãos dadas, tênis, shortinho, conversando bastante, pensava em você também.

Esta carta, Emília, é para quando você estiver nessa fase linda e difícil.

Parece que faz pouco tempo que era eu, caminhando na rua à tarde num dia de semana, indo para a casa de alguma amiga. Depois que a infância acaba, o tempo começa a correr de outro jeito. Quando a gente é criança, dá pra se sentir meio Peter Pan. Parece que aquilo nunca vai acabar. A gente não “está” criança. A gente “é” criança, assim como a gente é mulher e vai sempre ser assim.

Quando escrevo este texto, você está ao meu lado, dormindo no seu carrinho, só de fralda porque faz calor. Você ainda é carequinha, não usa brincos, mas já tem um jeitinho delicado de menina.

Desde que você foi concebida, sempre pensei na sua vida como um todo. Desde agora, quando você ainda é um bebezinho, até os 90 ou 100 anos que você vai viver, quando eu já não estarei aqui para te acompanhar. Logo você vai engatinhar, e depois andar. E no próximo ano certamente vou ouvir suas primeiras palavras. E vamos fazer todas aquelas coisas que os pais sonham em fazer com os filhos: passear no parque, ir à praia, ir ao teatro, ir ao clube.

Mas, quando eu menos esperar, tudo isso terá acabado e você será uma mulher. Antes que isso aconteça, você vai passar por uma fase de transformação. Aí vão surgir as dúvidas sobre quem você é. Você vai começar a buscar sua própria identidade, que não será nada que eu ou seu pai criamos para você, nem nada que as outras pessoas possam te oferecer. Vai ser algo que você vai descobrir sozinha e que vai te separar definitivamente de nós.

Não te gerei pra mim. Te gerei para que você siga seu próprio caminho. Durante alguns anos da sua vida, te conduzirei. Mas haverá um momento em que você vai soltar a minha mão e vai tomar a mão de outro, que vai andar ao seu lado.

Nesses últimos dias, você com dois meses de vida, me separei de você por algumas horas. Eu estava ali, na academia de ginástica na frente de casa. Dá pra ver da nossa varanda. Mas eu estava sozinha, pela primeira vez em quase um ano, sem barriga e sem você. Eu era uma pessoa como qualquer outra, que não chama a atenção. E você ficou em casa, com seu pai, e nem deu pela minha falta.

Não vou mentir dizendo que foi terrível. Não foi. Foi bom, na verdade. Suei, como não suava há 11 meses, e voltei pra casa renovada. Olhei pra você, e achei você ainda mais parecida com seu pai. Tomei banho e fui cuidar de você.

Ficar longe de você durante uma hora, a poucos metros de distância, é apenas um pequeno exercício para o que um dia será inevitável.

Depois que você nasceu, eu deixei de ser a pessoa mais importante do mundo para mim mesma. Sempre cuidei de mim, e só de mim. As pessoas que amo, seus avós, seus tios, seu pai, não dependem de mim. Já você, minha pequena, não sobrevive sozinha. Eu sou inclusive seu alimento. E agora é você antes de qualquer coisa. É você antes de mim. Interrompo a minha refeição pra te dar a sua. Interrompo o meu sono pra garantir o seu. Sinto dor nos braços pra te acalentar quando a dor é sua.

Você não vai se lembrar desses dias, assim como eu não me lembro de quando sua avó me ninava nos braços e cantava para mim. Mas esse amor vai ficar gravado pra sempre no seu coração, em algum lugar bem fundo que a nossa memória não consegue alcançar, da mesma forma que o amor da minha mãe por mim ficou marcado.

Hoje você sorri pra mim, vem pros meus braços sem reclamar e vai aonde eu te levo. Você jamais fica com raiva de mim ou triste comigo. É fácil. Mas, mesmo eu me dedicando inteiramente a você, você ainda não tem a capacidade de me amar de verdade, desse amor que às vezes fica mesmo bravo com o outro. Desse amor que vai durar mesmo quando a gente se desentender, mesmo quando eu te disser “não”. Mesmo quando a gente estiver longe, muito mais longe que a academia da esquina.

É maravilhoso ter você assim, pequenininha, e ver seu desenvolvimento. Mas não quero lamentar seu crescimento, como se estivéssemos perdendo alguma coisa.

Ultimamente tenho pensado muito em você. Você não vai ser sempre esse bebezinho dócil, e um dia vamos brigar. Mas, e daí? Amo você agora, esperando pelo dia em que você vai poder me amar de volta, espontaneamente.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Carta para Emília - emoções do último mês

Minha filha querida,

Hoje escrevo pra você um texto de gente grande. Talvez entendendo sua mãe, você entenda alguma coisa sobre você mesma.

Minha personalidade tem duas marcas opostas: sou sonhadora e pé no chão, tudo ao mesmo tempo. Tenho raízes e asas. Sou leve e pesada. Isso muitas vezes gera uma briga dentro de mim, um lado querendo ficar, o outro querendo ir. Normalmente quem ganha é o lado responsável, porque ele é mais forte e menos flexível. Mas o lado romântico sempre dá um jeito de sobreviver, transborda pelos meus dedos quando escrevo, pelos meus olhos quando choro. E, no fim, quando pouquíssima coisa importar, acho que ele é quem ganhará a briga.

Meu lado sério prevalece a maior parte do meu dia. É quando trabalho. Esse lado foi o que me permitiu ser sempre boa aluna, agradar meus pais e conseguir um bom emprego. Esse lado pra mim é o que garante a minha sobrevivência. Mas não é a minha vida.

Minha vida acontece no fim da tarde, à noite, nos fins de semana, feriados e férias. Eu poderia curtir o trabalho e viver o tempo todo? Poderia, se não fosse obrigatório. Se eu não tivesse de ficar longe de casa, longe de quem eu amo. Mas certas coisas na vida têm de ser feitas, quer você queira, quer não. Assim eu aprendi. Assim me diz meu lado responsável.

Talvez eu ainda não tenha aprendido a arte de conciliar esses meus dois lados harmonicamente. Não levo trabalho pra casa, não levo problemas de casa pro trabalho.

Quando eu era criança, meus pais diziam que fizéssemos logo o dever de casa para “ficarmos livres”. Depois poderíamos brincar sossegados, sem nos preocuparmos com nenhuma pendência. E sempre vi minha obrigações dessa forma: fazer logo para me ver livre, e depois poder curtir a vida. Compartimentei meus dias em deveres e lazer. Claro, quando se é adulto, os deveres ocupam muito mais tempo.

Não detesto minhas tarefas. Gosto de cozinhar, acho que curto até separar roupas pra lavar. Sento no chão ou me acocoro e fico jogando as roupas de um cesto pro outro. Meu trabalho também anda bastante tranquilo. Muita gente boa e um ambiente agradável. Mas basta a expressão “eu tenho que...” antes de qualquer ação pra baixar aquela garota séria, determinada a encerrar a tarefa da melhor forma possível e no menor espaço de tempo.

Tem sido no mínimo interessante observar essa disputa interna durante meu último mês de gestação. Estados que tiram parte da nossa sanidade – cansaço, um pouco de álcool, hormônios – são o cenário ideal pra que meu lado sonhador derrube de nocaute o outro. O chato. O estável. O equilibrado.

Fiz minhas listas e me descabelei com as coisas que não dependiam de mim. Depois que tudo acabou, respirei aliviada. Primeiro a obrigação, depois...

Por que eu tinha de estar com tudo pronto agora? Porque o desespero ficava batendo na minha cabeça, o diabinho da organização, da insegurança, do medo. E meu bichinho da paz, que me faz descansar em braços muito mais fortes que os meus, que me diz que tudo vai dar certo e que não dá mesmo para controlar tudo, estava lá, massacrado. E agora os dois discutem entre sim: “Eu não disse? Eu tinha razão.”

Eu tinha razão de me organizar. Mas não tinha razão para me preocupar. Mas como faz isso, não se preocupar? Não aprendi ainda.

Meu sonho? Que você fosse diferente de mim. Que fosse mais leve. Que tivesse a fé que em mim é tão falha. Mas talvez você não seja, e talvez roa suas unhas como eu. Mas isso não importa, Emília. Todo mundo traz dentro de si um temperamento, às vezes mais dócil, às vezes mais difícil. Mas sempre existe algo que temos de fazer para que nosso temperamento não machuque os outros nem a nós mesmos.

Fazem oito meses que te carrego no meu ventre. Você pesa. A responsabilidade pesa. Não tenho medo de não saber cuidar de você. Não, de você não tenho medo nenhum. Mas fico querendo ser perfeita, riscar das minhas listas todas as minhas obrigações pra depois viver no paraíso com você. É meu lado romântico falando. Porque não consigo ver meu papel de mãe como uma obrigação. Foi uma escolha. Não sei se estou conseguindo explicar. Talvez seja mais ou menos isto: que arranquei os cabelos pra me livrar do mundo chato antes de você nascer, pra que depois eu pudesse me dedicar só a esse trabalho divino. Amar você.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Carta para Emília (senta, que lá vem a história!)

(Super mega longo, fora do cógido de ética da blogagem, mas não deu pra cortar em dois; perdia o sentido. Acho que depois dessa, só semana que vem!)

+++

Emília,

O que dizer pra você nesta hora? Que mamãe anda dormindo pouco e correndo muito, que estou cansada e que às vezes tenho vontade de chorar? Imagino você me olhando com sua carinha inocente, sem entender por que tanta pressa.

Eu mesma não entendo. Às vezes não sei por que trabalho, por que troco de apartamento, por que torno complicadas coisas que seriam tão simples. Como a própria palavra “complicado”. Eu tinha escrito “complexa”, que é quase a mesma coisa, mas lembrei que essa palavra podia ser complicada pra você. E troquei por "complicada".

Dizem que antigamente, no tempo dos seus bisavós, as pessoas faziam menos coisas. As crianças iam pra escola só com uns 7 anos, pouca gente fazia faculdade e muitas mulheres não trabalhavam. Não tinha esse negócio de academia, aula de inglês, cursinho. Claro, também tinha muita criança que trabalhava, principalmente na roça. Sua avó Luzia mesmo trabalhou muito. Aprendeu a costurar ainda criança e com 17 anos já passava o dia fora de casa pra ganhar um pouco de dinheirinho pra poder viver. E ela estudou muito também, pra depois arrumar um trabalho menos sofrido e poder ter uma vida mais confortável. E foi por causa disso que eu pude estudar também e conseguir o meu trabalho, e é por isso que eu posso te dar uma casa, comida, roupas e pagar os médicos.

Então dizem que é por isso que a gente trabalha: pra poder ganhar dinheiro e comprar todas essas coisas. É como uma troca, sabe, Emília? A gente faz alguma coisa pros outros (a gente chama os outros de “sociedade”, ou “comunidade”) e os outros fazem alguma coisa por nós. Por exemplo: se você é um garçom, você serve a comida pras pessoas; se você é advogado, você ajuda seus clientes a se defenderem de alguma injustiça ou a brigarem pelos seus direitos; se você é médico, você cuida da saúde dos seus pacientes. Aí nós pagamos essas pessoas e essas pessoas pagam outras pessoas pra fazerem outras coisas pra elas, e alguém nos paga pra fazermos o nosso trabalho também.

Hoje a mamãe trabalha pro Governo. Eu escrevo cartas pras pessoas respondendo às dúvidas que elas têm sobre as coisas que o Governo faz. Aí o Governo me paga, com o dinheiro que todas as pessoas (a sociedade, lembra?) dão pra ele. Todo mundo paga um pouquinho de dinheiro pro Governo oferecer os serviços públicos (as ruas da cidade, as escolas e os hospitais públicos, a polícia...), sabia? Até a mamãe, que recebe dinheiro do Governo, devolve uma parte pra ele depois. É assim que funciona, o dinheiro fica rodando por aí, passando de mão em mão, enquanto as pessoas vão trabalhando umas pras outras.

Então o trabalho era pra ser uma coisa legal, uma troca saudável de favores. Acontece que a gente também tem de cuidar das nossas coisas, e não só das dos outros, não é, meu amor? Por exemplo: se eu passasse a minha vida mandando cartas do Governo pros outros, quando é que eu ia poder cuidar de você, te dar de mamar, te dar banho? E quando é que eu ia poder passar tempo com o seu pai, abraçar, conversar? E quando é que eu ia poder descansar também e fazer as coisas de que gosto, como passear no sol, nadar ou ler um livro?

Pois é. Nos dias de hoje, a gente tem de trabalhar o dia inteiro pros outros e sobra muito pouco tempo para viver a nossa vida. Tem gente que trabalha menos. Mamãe queria trabalhar menos. Mas, sabe, Emília? Pra trabalhar menos, você tem de achar uma pessoa que aceite te pagar pra trabalhar menos. Tem gente que diz: “Você tem de trabalhar 8 horas por dia. Se você quiser trabalhar só 6 horas, vou ter de chamar outra pessoa e você vai ficar sem trabalhar.” Mas não era só pagar menos dinheiro e te deixar trabalhar menos? Pois é, eu também acho. Mas não sei por quê, não é assim que funciona. Então eu tenho de trabalhar o dia inteiro porque senão eu não vou poder trabalhar nada, e não vou ganhar nenhum dinheiro.

Toda essa explicação sobre dinheiro e trabalho é pra te dizer que mamãe anda pensando muito na vida e querendo arrumar um jeito pra passar mais tempo com você e o papai. É que muitas vezes a gente trabalha mais pra ganhar mais dinheiro. E nem sempre a gente precisa de todo esse dinheiro pra viver bem. Por exemplo: seu pai também trabalha. Se a gente ficasse só com o dinheiro dele, pode ser que a gente conseguisse viver com menos coisas, mas com mais alegria. Porque a felicidade não vem das coisas, mas das pessoas.

Acontece que a mamãe também gosta de trabalhar. Claro, ficar com você é muito melhor. Mas é como a escolinha: é muito legal ficar em casa brincando, mas se você ficasse em casa o dia todo ia ser muito chato. Na escolinha, você faz amigos e aprende coisas. É a mesma coisa com o trabalho. É legal fazer alguma coisa interessante, que você goste de fazer e faça bem. A mamãe, por exemplo, quer ser tradutora. Os tradutores pegam um texto em uma língua estrangeira (eu gosto do francês) e escrevem na língua deles. Ou pode ser o contrário: pegar um texto em português e passar pra outra língua.

Você vai pensar: “Mas mamãe, você é muito velha pra não ser ainda o que você queria ser quando crecesse!” Mas é assim mesmo, bonequinha. Às vezes demora um tempo pra gente conseguir fazer o que quer. A gente pode ser adulto e ainda querer ser outra coisa quando crescer. Mesmo já sendo crescido.

Não sei se essas coisas te interessam agora, mas vão te interessar um dia. Sua mãe é uma pessoa muito agitada, que gosta de fazer várias coisas ao mesmo tempo e tem medo de ficar para trás. Mas isso nem sempre é bom, porque a gente se cansa e acaba não sendo uma pessoa tão legal praqueles que a gente ama. Por isso queria que você se lembrasse desses conselhos quando você estiver na dúvida sobre seu futuro.

É importante ser responsável e não é certo pedir ajuda pros outros por preguiça ou pra fazer algo que nós mesmos podemos fazer, porque isso cansa os outros. Mas também a gente não precisa fazer tudo sozinha. E é importante trabalhar e ganhar você mesma seu sustento, porque senão alguém vai ter de trabalhar por você. Mas ninguém precisa trabalhar mais do que aguenta, principalmente se isso atrapalha sua vida familiar. Você também não precisa trabalhar demais pra ter muito dinheiro, porque não vale a pena. É claro que é muito triste não poder pagar um médico e ter de ficar na fila do hospital público, ou pior: não poder comprar comida. Mas ter dinheiro pra pagar um médico ou comprar comida é muito mais simples do que ganhar muito muito dinheiro pra comprar um carro importado ou uma casa com piscina.

E, o mais importante: você pode rever sua vida a qualquer momento e tentar seguir outros caminhos. Nem sempre é fácil. Se você resolver não estudar, por exemplo, pode ser muito difícil depois voltar atrás se você mudar de ideia. Mas você pode perfeitamente ser responsável sem toda essa pressão. E é isso que mamãe está tentando fazer: achar esse equilíbrio.

Não sou perfeita, meu amor, e você também não precisa ser. O importante é tentar melhorar a cada dia e fazer o que é certo, sempre pensando nas pessoas que a gente ama. E como eu tenho pensando em você!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Paixão

Emília,

Um dia me apaixonei pelo seu pai. Foi acontecendo aos poucos. Primeiro fui descobrindo como ele era doce; depois, fui sentindo a cada dia mais vontade de vê-lo. Era bom conversar com ele ao telefone, melhor ainda encontrar com ele. Seu abraço fazia meu coração bater mais forte. Quando pensava nele, sentia um aperto no peito. Um dia tivemos de nos separar durante nove meses, e chorei muito. Ele me beijou na rodoviária quando nos despedimos, e foi o melhor beijo do mundo.

Com o tempo, nossa relação foi ficando sólida, e essas emoções do começo foram amadurecendo. Não tinha mais aquele nervoso enquanto eu esperava ele me ligar. Não tinha mais uma novidade a cada encontro. Mas essas coisas foram sendo substituídas por um amor enorme. Uma alegria toda vez que ele chegava do trabalho, e eu estava na cozinha fazendo alguma coisa gostosa pra ele comer. Dormir pertinho dele, acordar e ver seu rosto lindo. E depois que encontrei seu pai, nunca mais me apaixonei por mais ninguém, e nunca mais senti aquelas emoções de quando você encontra pela primeira vez o amor da sua vida.

Até que aconteceu você. Foi do mesmo jeito, aos poucos. Primeiro, soube que você estava dentro de mim, e fiquei muito feliz. Depois vi você no vídeo, e te reconheci, e te amei. Já te falei sobre isso em outra cartinha. E depois senti você mexer, me fazendo lembrar sempre que você estava comigo. E quanto mais você crescia na minha barriga, mais real você se tornava. Vi você outra vez na televisão, e me confirmaram que era você mesmo, a minha menininha. E nesse dia fiquei tão feliz, mas tão feliz, que me lembrei dos primeiros dias com seu pai.

Fiquei tentando me lembrar a última vez em que senti uma emoção tão forte, tanta paz, tanta certeza de que eu não tinha vindo ao mundo à toa. E pensei que isso ia diminuir um pouco, porque meu coração não ia aguentar ficar tão emocionado por muito tempo. Mas acontece que essa felicidade não parou de crescer. De vez em quando eu me pegava imaginando você nos meus braços, te enchendo de beijos. E eu só queria que você viesse logo. Ou então eu ficava com uma vontade enorme de chorar, simplesmente porque eu não merecia um milagre tão grande. Você era um presente bom demais pra mim.

Então eu reconheci de novo todos os sintomas: o aperto no peito, a vontade de rir o tempo todo, e de chorar às vezes; a ansiedade pra te encontrar logo, as imagens que eu inventava na minha cabeça de nós três juntos, eu, você e seu pai. E tive de escrever pra te contar: descobri que estava apaixonada por você.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Eu sabia

Mas ninguém vai acreditar. Toda vez que alguém perguntava: “Você tem algum palpite sobre o sexo do bebê?”, eu negava. Sou assim, gosto de fazer mistério... uhhhh

Ontem a Bel me perguntou:

- Irmãzinha, aquele texto que você escreveu pra Emília antes do exame; você escreveu outro pra se fosse menino, né?
- Não.
- Ah, não? Então parece que você inventou, fez umas adaptações.

Pra provar que eu senti desde o princípio que era menina, tenho apenas alguns e-mails trocados com o marido, umas conversas no gtalk com a Lídia (minha outra irmã) e a fatura do cartão de crédito com a conta de uns dez livros do Sítio do Picapau Amarelo (todos os da Editora Brasiliense que consegui encontrar).

Essa introdução é só porque tenho uma frase e mais uma carta para a Emília que escrevi há tempos atrás. Podem contestar as datas e pensar que eu inventei tudo. Daí pelo menos vão me achar uma grande fingidora poética... Se eu mereço a credibilidade ou o prêmio Jabuti, julguem vocês!

7 de maio de 2009

Pensamento louco que passou pela minha cabeça agora: estou grávida, e é uma menina.


* Descobri a gravidez no dia 17/05.


9 de julho de 2009

Emília.

Desde antes de os exames me dizerem que eu estava grávida, eu sabia que você estava aí. E sabia que era você. Não apenas um bebê. Não uma menina qualquer. Você.

Depois, a mamãe comprou um testezinho de farmácia e apareceram duas listrinhas cor de rosa. Foi o primeiro aviso que você estava dentro de mim, fazendo aparecerem uns hormônios estranhos no meu corpo pela primeira vez. Depois a mamãe teve de tirar sangue, pra confirmar todos aqueles hormônios que o teste do xixi percebeu. Não dói não, filha, você sente só uma picadinha de nada e, logo logo, eles levam uns tubinhos com o sangue pra fazerem o exame. Depois você come um pão de queijo com chocolate quente. Uma delícia.

Depois dessas coisas, Emília, a gente fica feliz, sabe que está esperando um bebê, mas parece tudo um sonho, sabe? Porque a gente não conseguia te ver, você não fazia nem uma barriguinha em mim, e tudo parecia como antes. É verdade, os peitos da mamãe já tinha começado a crescer um pouco, pra depois se encherem do leitinho que você ia tomar. Mas todo o resto estava igual.

Tem uns bebês que fazem as mães ficarem um pouco enjoadas. Elas passam mal, às vezes até vomitam, sabia? Mas os bebês não fazem isso de propósito; é algo que acontece. Pois você, Milinha, não me fez enjoar nadinha. Eu estava sempre com energia – menos quando eu pegava uma gripezinha, e aí eu ficava com medo de que você também estivesse gripada.

Aí, Mila, a gente foi te ver pela primeira vez. Você tinha um pouco mais de um mês e era pequenininha, pequenininha. Ainda não tinha bracinhos nem perninhas, só o corpinho e uma cabeçona que a gente nem conseguia perceber direito. Ainda não dava pra ver que era você. Mas uma coisa foi legal: a gente ouviu seu coraçãozinho. Ele batia muito rápido, igual o de um beija-flor. Você sabia que o coração do beija-flor é o mais rápido do mundo? Pois é. Seu coração era rápido igual o dele, e eu e o papai começamos a chamar você de beija-florzinho.

Mas eu resolvi te escrever porque hoje nós fomos ver você de novo. Você já está com mais de dois meses e já está grandona, do tamanho de uma laranja! Você abriu e fechou as mãozinhas, foi tão lindo. A médica queria que você mudasse de posição pra ela tirar umas medidas suas, e você não se mexia. Aí eu pedi: “vamos, bebê, se mexa porque a mamãe precisa fazer xixi.” E não é que você obedeceu direitinho?

E aí, meu amor, aconteceu a coisa mais linda. Você ficou de ladinho, a médica colocou a câmera no seu rostinho e eu te reconheci. Vi um narizinho arrebitado e comecei a gritar pro seu pai: “Amor, é a Emília, é a Emília!” Foi nosso primeiro encontro, lá dentro da minha barriga, e eu já comecei a te amar.

A médica disse que, pelo que ela tinha visto, achava que era uma menina. Mas só ia dar pra ter certeza no próximo exame. Mas, que boba, né, Miloca? A gente já sabia. E não era uma simples menina; era você.

* Aqui o relato que eu postei no dia desse ultra.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Vida de adulto

Outra vez me deu vontade de escrever pra você, minha menina. Ainda não me disseram que você é uma menina. Amanhã vão me dizer. Vamos ver você pela terceira vez, com uma maquininha que vão passar na minha barriga. Vou ver todos os seus órgãos, seu coração, seus pulmões. Vou ver de novo suas mãozinhas se abrindo e se fechando, suas perninhas se sacudindo. Você se mexe bastante.

Li por aí que você já reconhece a minha voz, e que por isso eu deveria conversar com você e cantar pra você. Parece que você também sente quando eu faço carinho na barriga. Confesso que ainda acho um pouco estranho conversar com você aí dentro, sem poder te ver, e sem você entender nada do que eu falo. Mas eu falo bastante com os outros, e imagino que você goste de ouvir minha voz nessas horas.

Penso em muitas coisas que queria te dizer, mas espero os momentos em que essas coisas saiam naturalmente. Não quero conversar com você só porque as revistas dizem que isso faz bem pra sua saúde. Não consigo inventar um papo bobo assim do nada. Mas hoje eu não tenho um papo bobo. Tenho muitas coisas no meu coração que quero dividir primeiro com você. Porque um dia você vai sentir todas essas coisas e vai gostar de saber que sua mãe também passou por isso, e que todos esses sentimentos fazem parte da vida.

Quando a gente é pequeno, nossos pais cuidam de nós. Não precisamos nos preocupar com o alimento, com as roupas, com a casa. Se aparece um problema – o carro quebra, a lâmpada queima ou a escola fica mais cara –, eles resolvem tudo pra nós. Sei que também não é fácil ser criança. A gente tem medo de muitas coisas que depois a gente descobre que não são de nada. Quando eu era pequena, por exemplo, tinha medo de uma vaca de plástico que era também uma sanfona e que fazia “muuuu”. Também tinha medo de que a lua caísse em cima da Terra. Depois quando a gente cresce a gente vê que nada disso pode fazer mal nenhum, mas quando a gente é criança tudo parece muito mais assustador. E isso é muito ruim, eu me lembro bem.

Mas os adultos também têm medo. Porque eles têm tantas coisas pra resolver, e tantas coisas acontecem diferente do que eles planejam, que eles ficam cansados. Hoje em dia as pessoas usam a palavra “estressado”. É quando a gente tem que fazer várias coisas ao mesmo tempo e fica cheio de preocupações. Semana passada, por exemplo, seu pai e eu íamos nos mudar pro apartamento novo. A gente pediu pros homens da reforma fazerem ele todo colorido, alegre, pra você e seus irmãos brincarem muito. Só que não deu certo, porque não terminaram o chão da casa. Quer dizer, o chão está lá, mas não está bonito, sabe? Aí vamos ter de arrumar alguém pra deixar ele bonito antes de trazer todas as nossas coisas. Porque senão as coisas ficam em cima do chão feio e depois não dá mais pra consertar o chão.

Aí, Emília, a mamãe ficou muito triste sem saber se o chão ia voltar a ficar bonito e sem saber quando a gente ia poder mudar pra casa nova. Esse negócio de reformar uma casa é muito complicado, sabia? Olha só por exemplo as portas: pra conseguir abrir as portas, tem que ter uma maçaneta. E pra lavar as mãos? Tem que ter pia e torneira. Tem que ter também armários pra guardar as coisas e cortinas pra poder dormir no escurinho. É muita coisa, não é? Pois tudo isso a gente tem de comprar ou mandar fazer. E tudo custa dinheiro, e a gente tem que trabalhar bastante pra conseguir comprar as coisinhas do jeito que a gente quer. E às vezes as coisas não ficam como a gente queria. E a gente fica triste.

Estou te contando essa história porque um dia você vai passar por essas coisas e vai se sentir assim também. Pode ser que um brinquedo que você adora caia no chão e se quebre. Ou um dia você vai começar a dirigir e alguém vai bater no seu carro e ele vai ficar amassado, e você vai ficar triste. Ou pode ser que você conheça um menino que você adore, e vocês comecem a namorar, e um dia ele te diga que não quer mais ficar com você. Todas essas coisas fazem a gente chorar.

Mas sabe, Mila? Às vezes eu fico pensando se todas essas coisas não são como aquela minha vaca de plástico, que só faz um barulho assustador mas que não morde ninguém. Ou como a lua lá no céu, que você não entende como pode ficar lá pendurada mas que os cientistas garantiram que não cai aqui na Terra de jeito nenhum. Quando a gente é criança, aquilo dá o maior medo do mundo, e o medo é real. Mas um dia a gente vê que aquilo não pode nos fazer nenhum mal de verdade.

Hoje que sou adulta, e estou com você na minha barriga, fico com muito medo quando as coisas dão errado. Penso que o chão vai ficar feio pra sempre, ou que a gente nunca vai conseguir ir pra casa nova. Mas alguém mais adulto e mais sábio que eu vai dizer que nada disso é sério, e que tudo vai passar. Era só uma vaca de plástico quando eu era pequenininha, e agora é só um chão. A gente tem um lugar pra morar, e tem comida pra comer. Eu e seu pai nos amamos, e você cresce a cada dia. Amanhã vamos ver como você está perfeitinha, e vamos poder dizer pra todo mundo que era mesmo você dentro de mim, e que seu nome vai ser Emília.

Então, meu amor, quando as coisas não acontecem como a gente planejou, é normal mesmo ficar triste e chorar, e sentir medo. E você às vezes vai achar que aquilo é o fim do mundo. Mas não é. Olhe para as pessoas que te amam e você vai ver que nada disso era realmente importante. Era só uma vaca de plástico. E a lua não vai cair na terra.

(Escrevi esse texto ontem. Hoje fiz o ultra. É a Emília mesmo)

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