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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Quero tudo

Ela incomoda pacas, mas me apeguei a ela. Ontem senti umas pontadas na lombar e no intestino, tipo cólica menstrual, por causa dela. Tive de deitar de lado e amarrar uma bolsa de água quente nas costas, pra depois completar o trato com uma massagem do marido.

Por causa dela, levantar é um sufoco. É como virar de um lado pro outro segurando um saco de batatas de dez quilos. E pra pôr os pés no chão preciso jogar uma perna, depois a outra, fazendo uma curva como se estivesse saltando um obstáculo.

Ela me força a manter distância das bancadas, pedir licença toda vez que preciso me deslocar entre várias pessoas e usar sempre as mesmas roupas, porque quase nada me cabe.

Ela é um saco, mas está sendo um custo me despedir. Ela, a barriga.

Tenho a sensação de que ela desceu mais no dia 31, e ontem alguma coisa a mais deve ter acontecido pra me causar aquela dor aguda nas costas. Ela já não está tão bonita, empinadinha. Parece mais a pança do Seu Boneco, substituindo o chopp por uma bola de basquete.

Quando ando, ela sacode de um lado pro outro, num movimento amplo. E sentar de pernas fechadas é impossível, porque ela está muito mais baixa que minhas coxas.

***

Quando não tinha barriga, invejava aquelas gravidonas salientes. E quando fiquei saliente, passei a invejar as mães com seus bebês e crianças. Não grávida, queria estar grávida. Grávida, queria ser mãe. E agora que estou prestes a ser mãe, quero ser grávida outra vez.

***

Nas últimas semanas, apareceram várias grávidas aqui pela blogosfera. E eu, achando tudo lindo e morrendo de inveja. Como se eu não estivesse grávida. Assim como desejei tanto ser a mãe que todas eram, contar as histórias do seu bebê, compartilhar como foi o parto e falar sobre amamentação. Agora desejo congelar este momento: esta barriga enorme e caída, o quarto dela montado, a mala da maternidade no chão, o bebê conforto vazio no carro. Eu, deitada de lado, com uma bolsa de água quente amarrada nas costas. Um movimento intenso no meu ventre, a sensação de que minha bexiga está sendo pisoteada.

Uma semana. Duas, talvez. Três, no máximo. E ela não estará mais dentro de mim. Ela, a Emília.

Fico pensando como será a primeira vez que eu colocar a mão sobre meu umbigo. Fico pensando como será sentir a pele flácida e o ventre vazio.

No fundo, sei que nada disso importará, porque ela estará nos meus braços. E sei que isto será muito melhor que a sentir aqui dentro.

Mas quero tudo. E custa me despedir da barriga.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

De quem é essa barriga?

A Mili deu pra chutar. Quer dizer, não sei se é chutar, né, como eu já mencionei aqui. Pode ser joelhada, cotovelada, soco, enfim, todo o repertório do vale-tudo. O fato é que finalmente ela está se mostrando para o público, ela que antes só mexia pra mim. Marido, família e amigas podem sentir com a mão ou ver os calombos aparecendo e desaparecendo.

Daí que ela anda com uma atitude meio territorialista. Começou com o cinto de segurança: toda vez que aperto o cinto, vem aquela revolução embaixo do meu umbigo. Tento colocar a faixa o mais pra baixo possível, quase nas pernas, mas ela sempre reclama (aliás, alguém mais tem a sensação de que se o carro bater o bebê vai subir pela sua garaganta?).

Outro dia estava eu, aproveitando as vantagens de uma barriga Homer Simpson - não para apoiar a cerveja, mas para acomodar confortavelmente um livro. Uma beleza, a leitura ficava bem na altura dos olhos. Então as letrinhas começaram a pular. Tuc, tuc, calombo na pança sobe e desce. Resolvi ignorar. Pelamor, né Mila? É só um livro levinho. Mas ela não desistiu. E desisti eu, porque ler com o livro pulando não rola.

E a útima foi eu enchendo a garrafa d'água no filtro. Umbigo apoiando a garrafa contra a bancada da pia e cotovelo pressionando o lado direito da barriga pra dar estabilidade ao conjunto. Ah, mas ela reclamou! Dessa vez eu consegui pelo menos terminar o serviço, não sem antes comentar a mexeção com o marido e receber a seguinte resposta: "Tadinha! Deixa que eu faço isso".

É, pelo visto essa barriga não mais me pertence. Mas também, a pobre só tem isso na vida. Pode ficar, Mila! Mas o cinto de segurança não tem jeito, né?

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