Ele está cansado. Vai dormir comigo às 22h e demora a pegar no sono, tão agitado está. Ele anda com um livro cor-de-rosa debaixo do braço pra aprender um pouco sobre a maternidade e a paternidade. Ele gosta de passar hidratante na minha barriga e sentir o bebê. Passa gel nas minhas pernas, massageia meus pés e minhas costas.
Ele perde a hora do trabalho porque teve de receber o eletricista, o técnico do telefone, o cara do vidro. Vai pra casa na hora do almoço só pra resolver mais um problema, come mais tarde ou tem de se virar com um sanduíche do Subway. E tenta chegar em casa mais cedo no fim do dia pra jantar comigo.
Acordo às 6h e tomo café da manhã em casa excepcionalmente, e ele pergunta por que não o acordei pra tomarmos café juntos.
Ele vai comigo a todas as consultas na obstetra, lê tudo o que mando sobre trabalho de parto e me acompanha nos exercícios de preparação que faço. Perde a natação e sai pra caminhar comigo.
O chefe pede que ele participe de um evento no fim de semana, e ele não quer porque quer ficar comigo. Digo que pode ir, que tire folga no meio da semana, mas ele quer o fim de semana porque no fim de semana estamos juntos.
Sugiro que almocemos juntos de vez em quando porque o refeitório no meu trabalho está um inferno. Mas peço que ele me busque, porque depois fica impossível estacionar aqui e porque estou evitando dirigir mais que o necessário. Em vez de reclamar, ele sorri e diz: “Gosto de almoçar com você.”
Estou cansada, mas às vezes tenho a sensação de que ele está mais. Meus olhos se enchem d’água quando ligo pra ele e sinto qualquer desânimo em sua voz. Meu coração fica apertado quando o vejo revirar na cama uma e outra vez tentando pegar no sono.
Ele não carrega um bebê na barriga, mas sente o peso no corpo, como eu. O coração dele não trabalha 30% a mais, como o meu, e os órgãos vitais dele não estão esmagados. Mas ele tenta compensar toda a minha falta de energia dando no mínimo esses 30% a mais de si. Ele não vai sentir as dores do parto, mas vai estar lá comigo para me segurar e me aliviar. Ele não precisaria saber nada sobre amamentação, mas conhece todas as posições e a pega correta.
Olho pra ele e penso que ele é o Super-Homem, porque ele faz tudo o que não consigo fazer. Ele diz que não é nada. Olho para ele e quero cuidar dele. Mando tomar própolis porque no trabalho ele senta bem debaixo da saída do ar condicionado. Mando levar frutas secas pra não ficar muito tempo sem comer. Compro pra ele um pacotinho de castanha de Baru. E sexta quero fazer um jantar bem gostoso pra ele.
Essa vida de adulto é difícil. Trabalhar, cuidar da casa. E agora, trazer uma criança ao mundo. Estamos cansados, mas somos dois. Graças a Deus somos dois.
E eu não o trocaria por nada.