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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Desmame - o processo

Como desmamar uma criança? Eis uma pergunta que muitas mães se fazem.

Amamentar é um processo de fusão, uma etapa (que deveria ser) natural após o parto. Desmamar é um processo de desfusão, uma etapa que, apesar de ser natural, é repleta de crises. Para mim, a separação sempre pareceu mais difícil que o encontro. O parto, mais difícil que a concepção. A volta ao trabalho, mais difícil que a permanência em casa com o bebê. A introdução de alimentos, mais difícil que o aleitamento exclusivo. Apesar disso, todas essas fases podem ser maravilhosas, se vivenciadas no tempo certo e com o devido apoio. E mesmo quando muito difíceis, nos trabalham, nos amadurecem. A nós e aos nossos filhos.

Falarei sobre o desmame de uma criança que já foi amamentada por todo o tempo recomendado pela OMS e pelo Ministério da saúde: dois anos. Uma criança que já não é mais um bebê, que já está pronta para, gradativamente, conquistar sua autonomia e se fazer um indivíduo separado da mãe. Uma criança que fala e entende melhor o que está acontecendo. Uma criança que já tem o sistema imunológico mais forte, está menos vulnerável a doenças graves e, portanto, menos dependente dos anticorpos e do calor materno para vencer vírus e infecções. Uma criança menos dependente do seio para se manter hidratada durante enfermidades e mais resistente à perda de peso que normalmente acontece nessas situações. Uma criança que poderia viver sem leite se não tivéssemos domesticado a vaca e não morreria se a Nestlé não existisse.

Se pensarmos no desmame como um processo de diminuição gradativa da ingestão de leite materno até a completa desvinculação do seio, poderíamos dizer que ele começa aos seis meses, com a transição alimentar. A criança vai, paulatinamente, comendo mais e mamando menos - até que, com um ano, é esperado que a alimentação sólida represente a parte principal da sua alimentação, tendo o seio virado um (importantíssimo) complemento.

E aqui entra a nossa experiência.

Entre um e dois anos, não houve muita evolução no processo de desmame da Emília. Talvez porque ela tivesse chegado a um ano de vida mamando apenas três vezes ao dia (já que eu trabalhava o dia inteiro). Nessa mesma época, engravidei novamente e meu leite diminuiu muito (quase acabou no segundo trimestre, antes de ser substituído pelo colostro). Assim, ela passou a comer muito, mas continuava mamando. Houve uma época em que ela passou a mamar apenas duas vezes, mas aos 18 meses voltou às três vezes.

Depois que Margarida nasceu, veio muito leite, o que trouxe uma regressão ao processo. Emília chegava a mamar quatro vezes ao dia, e comecei a perceber que o excesso de leite estava atrapalhando a alimentação dela. Ela parou, por exemplo, de tomar café da manhã. Então começamos a coisa pra valer.
 
Vou retornar um pouco no tempo e começar com a primeira etapa do nosso desmame. Eis o nosso passo-a-passo:

1a etapa: desmame noturno

Com um ano de idade, o pai assumiu as noites. Emília mamava a madrugada inteira naquela época, eu tinha acabado de engravidar e estava naquela fase de sono mortal. Precisava dormir. Conversamos com ela (e essa é a parte boa de lidar com crianças maiores) e explicamos que ela não mamaria mais à noite, que o pai ficaria com ela, dormiria com ela se fosse o caso. Depois de umas três noites, ela parou de chorar. Depois de duas semanas, ela dormia a noite toda.

2a etapa: o fim da livre demanda

Depois que Margarida nasceu e a farra do leite bagunçou meu coreto, decidi estabelecer horários para as mamadas. Emília mamaria apenas três vezes ao dia (aquela quarta vez que estava vindo de brinde acabou), e sempre depois das refeições. Sempre tem um estressezinho, viu? Mas em alguns dias (ou poucas semanas) ela se acostuma e não pede mais.

3a etapa: o corte das mamadas

Depois que fechamos nessas três mamadas, foi a hora de diminuir. E aí entra a sabedoria materna: não existe uma fórmula sobre qual a mamada é melhor tirar: se a matinal, a vespertina ou a noturna. A gente tem de avaliar qual é aquela que está mais chata, que está atrapalhando mais a rotina, ou qual é aquela de que a criança abrirá mão com mais facilidade. Aqui, diferentemente da maioria dos lares, a que sobrou foi a vespertina. Normalmente as crianças ficam com a da noite.

4a etapa: pulando dias

Nem comentei ainda, mas o mote clássico do desmame natural é: não negue, mas não ofereça. Meu desmame não está sendo totalmente natural, estou guiando minha filha nessa separação. Mas poderia ser. É uma opção da mãe.

Mas, voltando. Como parei de oferecer, se Emília não pedia, não mamava. Ela começou a associar a mamada vespertina ao soninho da tarde. Então, se ela dormia sem o peito (na creche, ou no carro), quando acordava não pedia. E eu não oferecia. Assim, começamos a pular uns dias.

A primeira vez que ela passou um período mais longo sem mamar foi quando fiquei internada com Margarida. Foram três dias. E esta história eu ainda não contei aqui, mas é linda:

Quando saímos da UTI e fomos pro quarto do hospital, Emília finalmente pôde nos visitar. Passamos uma tarde deliciosa, até a hora de ela ir embora. Ela me agarrou e começou a chorar, desesperada porque eu não voltaria pra casa com ela. Então ofereci: "Emilinha, você quer só um pouquinho de mamá?". Ela fez que sim com a cabeça, se aninhou no meu colo e mamou 5 minutinhos de um peito murcho, murcho, que Margarida vinha secando. Depois me deu um beijo e se despediu numa tranquilidade celestial. Saiu pelo corredor do hospital meio grogue de ocitocina, repetindo, feliz: "A mamãe deu o mamá pá Emília! A mamãe deu o mamá pá Emília".

Desde então, ela fica em média dois dias sem mamar por semana. Normalmente, quando dorme na escola. Como pedi que não a colocassem mais pra dormir, já que isso bagunça toda a nossa rotina em casa, disse a Emília que agora ela não mamará mais nos fins de semana e feriados. Isso porque o pai está aqui e fica mais tranquilo colocá-la pra dormir sem o peito. Assim que ela estiver bem treinadinha a cochilar sem o peito, vamos pulando mais e mais dias. Tenho uma meta (que não é rigorosa) de desmamá-la totalmente nas férias de julho. 

Essa tem sido a nossa experiência. Cada família terá a sua. Mas o que sempre deve estar presente neste e em qualquer processo de separação é a paciência, a espera pela hora certa, muito afeto e muita conversa.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

TOC - e oração de uma lactente

Emília e o pai vieram da creche com duas bananas. Coloquei-a pra dormir e, durante a soneca, preparei a mesa com uma das bananas ainda com casca dentro do prato. Ela acorda e vem conferir o lanche:

- Essa não é a minha banana. Essa é a do papai.

Lá vou eu trocar as bananas, enquanto Emília explica pra irmã o que está acontecendo:

- Mamãe pedou a banana errada, Marralida.

+++

Sentada no vaso, junta as mãozinhas.

- Emília ola e você repete. Papai do céu, obidada pulesse dia, obidada purtê a mamãe tá ati, purtê a Marralida tá ati, purtê o papai tá ati, em nome de Jesus amém.

Junta de novo as mãozinhas:

- Ah! E purtê a Emília vai mamá.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Férias com Emília - respostas

Pelo visto enganei muita gente... Vamos ao balanço atual das nossas férias:

1) Por passar o dia comigo, ela começou a querer mamar em outros horários que não à noite e de manhã cedo, regredindo no lento e gradual processo de desmame. - Péeeeem! Falso!!

Tudo continua na mesma. Verdade que ela às vezes, do nada, olha pra mim e fala "mamá". Mas ela também olha pra banana e fala "mnão", olha pro pão e diz "pão", olha pra garrafa e fala "ábua". Mas não necessariamente ela quer comer a banana ou o pão ou tomar a água. É tipo dizendo: "olha, esse é o mamá da mamãe".

Mesmo antes das férias, eventualmente ela de fato pede pra mamar durante o dia. Uma fórmula que é batata pra ela querer mamar é levá-la num lugar novo, com muita gente, onde ela se sente insegura. Aí ela começa a pedir "mamá, mamá, mamá!", choramingando.

Mas normalmente dá pra distrai-la. Se for fome, com alguma outra comida. Se for sono, levando-a pra passear. E se for necessidade de chamego e segurança mesmo, posso dar o mamá durante o dia, por que não?

O fato é que estamos as duas muito tranquilas quanto ao nosso relacionamento mamístico, e não estou nem um pouco preocupada com a chegada iminente do bebê. Acho que o nó todo da questão do desmame é esse: como a mãe se sente? E eu estou ótima, obrigada!

2) Ela está menos grudada comigo e faz festa quando o pai chega do trabalho. - Verdade!

Esse quase todas acertaram. É óbvio que uma criança que passa 10h por dia longe da mãe não vai querer largá-la nos momentos em que estão juntas. O mesmo não acontece com uma criança saciada de amor, atenção e, não menos importante: tempo junto com a mãe.

3) Ela está dormindo melhor à noite. - Verdade!

Essa também acho que todas acertaram. O sono noturno dela já vinha melhorando (passamos uns dois meses de muita irregularidade), mas a maior diferença depois que entramos de férias foi que agora ela não acorda mais às 5h. Acorda às 6h30, mesmo dormindo no mesmo horário. E isso aconteceu da noite pro dia, imediatamente assim que as férias começaram.

Confesso que eu não achava de todo ruim que ela levantasse às 5h, porque pelo menos podíamos passar um tempinho juntas antes de eu sair pro trabalho. Quem sabe não era isso que ela queria também?

4) Ela está cochilando melhor durante o dia. - Verdade!

Muito melhor. Duas horas de soneca em média, todos os dias. Na creche ela dormia 1h, e olhe lá.

5) Estou mais cansada do que quando estava trabalhando. - Errado!!

Nessa eu peguei vocês, hem? Justamente por ela estar acordando mais tarde e sonecando maravilhosamente, estou tendo bastante tempo pra descansar - o que compensa a agitação de dar assistência a uma criança de um ano e meio e cuidar da casa.

Fora que meu trabalho estava pesadíssimo, e eu estava à beira de um colapso.

Agora tenho tempo pra fazer atividade física e DORMIR (ô, glória!). Como tenho família por perto, tudo fica ainda mais fácil.

Agora, gente: sabe essa soneca dela de duas horas? Pois é. Eu uso esse tempo inteiramente pra dormir também. Nada de blogar, nada de tarefas domésticas. Super recomendo, ainda mais se você estiver no 8o mês de gestação como eu.

Em breve reapareço!!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexta-feira fui lá na Pat!

Pela primeira vez tive a honra de ser convidada pra escrever num blog de uma amiga virtual, a queridíssima Patrícia Boudakian, mãe da Alice.

O tema foi amamentação durante a gravidez (num ato falho, quase escrevo "gravidez durante a amamentação". Hoho, não deixa de ser também).

Passem !

sexta-feira, 3 de junho de 2011

mamAÇO

Eu ia fazer um post todo bonitinho, com o título “Vamos mamar no parque?”. Ia falar de piquenique de leite e coisa e tal. Na minha alienação voluntária em favor do bem estar da criança que carrego dentro de mim, com os óculos cor-de-rosa que coloquei pra ver a realidade menos cinza e proteger o fruto do meu ventre, acordei.

Juntar um grupo de mães para nutrirem seus bebês publicamente com o melhor alimento que a natureza lhes deu, representar coletivamente um gesto absolutamente natural e, sim, exibir os seios que, naquele momento, são apenas vasilhames de amor e nutrição, por mais pacífico, celeste, divino e puro que seja, é interpretado por muitos como um ato de violência. Um atentado ao pudor.

Li este texto. Fiquei triste. Mas depois, fiquei brava. Fiquei forte. E vi que para amar, na nossa sociedade, é necessária uma guerra. Com cravos na boca dos fuzis, mas uma guerra assim mesmo.

Espero todas as mães, grávidas, feministas e simpatizantes à causa do livre aleitamento de Brasília por lá. E todos esses homens maravilhosos, cuja sexualidade é tão bem resolvida e o coração tão largo, que o único sentimento que experimentam ao presenciarem uma mãe dando o seio ao seu filho é uma inveja boa. Da mãe, não da criança.

Hora: 15:30h
Local: Parque Olhos D’água (Asa Norte) - concentração atrás da Administração do parque. Levar lanches e toalha para piquenique.

E aqui, a história que deu origem ao ato.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Sinais de fumaça

Notícias rápidas que não posso deixar passar.

Dois

No meio de tantas novas palavrinhas que surgem a cada dia, a mais notável recentemente é “dêsh” (dois). Sei que parece mais três ou dez, mas é dois mesmo. Emília pega dois objetos da mesma natureza – dois copos, duas garrafas d’água, dois ímãs de geladeira –, um em cada mão, e exibe orgulhosa:

- Dêsh!

Não sei onde ela aprendeu isso, se foi por observação ou se foi na creche. Mas achei fantástico ela demonstrar tão cedo a noção de plural.

Colostro

Poucos dias depois de uma ansiedadezinha pelo leite que parecia estar acabando, eis que surge o divino colostro! Foi uma sensação de alívio e muita alegria quando eu espremi minhas mamas e em vez das gotinhas mixurucas de leite, escorreram devagar fios de um líquido transparente. Sorri.

Emília parece estar gostando ainda mais dessa novidade (será por memória?). Agora ela pede “mamá” (antes ela me beliscava no colo), e pede “maish”. Ela é uma privilegiada por poder mamar novamente esse alimento tão nutritivo, e por pelo menos uns três meses!

Ah, e ainda não entrei, tecnicamente, no último trimestre. O bichinho veio cedo, para a alegria de todos e felicidade geral da mamação.

Crianças primeiro

De tudo que li a respeito de puericultura, sempre me senti mais inclinada a aceitar as ideias que valorizavam a criança enquanto indivíduo, o respeito aos seus sentimentos e – por que não? – às suas vontades. Disciplina extrema e autoritarismo nunca foram a minha praia, apesar de eu ter fama de brava.

Mas eis que algumas coisinhas a gente só aprende mesmo com a prática.

Sou uma pessoa meio sistemática, gosto de fazer logo as obrigações pra depois poder relaxar. Com isso, costumava deixar Emília brincando sozinha enquanto eu me ocupava de meus afazeres. Quando eu terminava, ficava só com ela.

Com a idade, a capacidade que a criança tem de esperar vai mudando. Um recém-nascido é impaciente para se alimentar, mas pode ficar bastante tempo entretido olhando pra parede. Emília, com 1 ano e 4 meses, consegue esperar que eu termine de esquentar a sopa, mas pode se aborrecer se eu pedir 5 minutos antes de ler um livrinho com ela.

Então mudei. Quando chegávamos da creche, a primeira coisa que eu fazia era tirar as roupas e fraldas sujas da bolsa dela e dar uma esfregada. Depois, tentava trocar de roupa, tomar um suco, tudo antes de me ocupar de Emília. Em vez disso, agora eu chego em casa e vou direto pro quarto dela pra lermos um, dois ou três livrinhos. Isso me toma no máximo uns dez minutos. Depois, satisfeita com o denguinho, ela fica brincando sozinha um tempo absurdo, e eu posso fazer tudo com muito mais calma.

Ontem ela ficou mais de meia hora no banheiro tirando as gazes da embalagem, passando no rosto e guardando de volta (vejam como minha filha é higiênica e organizada).

Quando possível, crianças primeiro. É muito mais provável que os momentos seguintes sejam de tranquilidade.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Manifesto pela amamentação

Manifesto pelo direito das mães de não serem separadas de seus filhos logo após o seu nascimento e de permanecerem com eles o tempo todo pelo menos durante a primeira hora após o parto. Um recém-nascido não deve ser afastado de sua mãe, a não ser em períodos muito breves, em caso de extrema necessidade, e não deve ser deixado em berçários.

Manifesto pelo repúdio à alimentação artificial em maternidades, sem indicação clínica, quando a criança está apta a mamar e a mãe, disponível para amamentar. Água glicosada ou qualquer outro recurso que prejudique o reflexo de sucção do bebê são inaceitáveis.

Manifesto pelo direito das mães com dificuldades para amamentar de receberem apoio e orientação adequados por parte dos profissionais de saúde e da família. Mães com dificuldades de amamentação precisam de encorajamento e solidariedade.

Manifesto pelo direito das mães de amamentarem em livre demanda, sem serem desencorajadas por profissionais de saúde ou parentes sob o argumento de que os bebês têm de ter hora para mamar. Os bebês têm direito ao seio sempre que necessitarem, de dia ou de noite.

Manifesto pelo direito das lactantes de não serem pressionadas por parentes, profissionais de saúde, amigos ou conhecidos a oferecerem mamadeiras e chupetas. As mães são as principais responsáveis pelos cuidados com os seus filhos e devem ter o direito de alimentá-los de forma natural e instintiva.

Manifesto pela urgência de os pediatras serem profissionais e éticos ao interpretarem as curvas de crescimento, sem indicar alimentação complementar precoce a um bebê saudável simplesmente porque ele não se encaixa no padrão médio. Cabe aos médicos avaliarem se alterações nos padrões de engorda ou de crescimento são patológicos ou fisiológicos.

Manifesto pelo direito de uma mãe de manter o aleitamento exclusivo durante os seis primeiros meses de vida de seu bebê, sem ser assediada por parentes, profissionais de saúde, amigos ou conhecidos para que ofereça outros alimentos sem necessidade.

Manifesto pelo direito das mães que trabalham fora de casa de terem em seu ambiente de trabalho um local adequado, com higiene e condições de armazenamento do leite, para fazer a ordenha, seja para alívio das mamas, para a estocagem de leite a ser oferecido a seu filho na sua ausência ou para doação aos bancos de leite. As empresas devem oferecer condições para que suas funcionárias mantenham o aleitamento após seu retorno ao trabalho, seja flexibilizando seus horários, mantendo creches em seus recintos, instalando salas de ordenha ou permitindo que a criança seja trazida à mãe para receber o seio.

Manifesto pelo direito de toda mulher que trabalha fora de casa a gozar de uma licença maternidade de seis meses. Seu retorno ao trabalho também deveria ser facilitado, com possibilidade de redução de jornada com o recebimento proporcional do pagamento ou flexibilização de horários.

Manifesto pelo direito dos bebês de serem amamentados enquanto necessitarem, mesmo que esse tempo supere o período considerado aceitável pela nossa sociedade.

Manifesto pelo direito de as mães amamentarem seus filhos em público, quando necessário, sem serem condenadas por pudores hipócritas.

Manifesto pelo direito de as mães amamentarem durante a gestação, ou amamentarem mais de uma criança simultaneamente, sem serem ameaçadas com dados inverídicos acerca de efeitos nocivos para a criança que mama ou para o feto.

Manifesto pelo direito de as mães amamentarem livremente, e de os bebês mamarem livremente, sem serem alvo de preconceito ou ignorância.

Lia Miranda.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Por que (não) desmamar II – Mitos e fatos

O texto de ontem foi emocional, falei do que sentia. Hoje, deixo algumas informações mais técnicas para ajudar as mães a fazerem escolhas conscientes e decidirem (ou não) pelo desmame dos seus filhos com autonomia.

Listei motivos comuns pelos quais o desmame é rotineiramente aconselhado e explico, com base na literatura, os equívocos de cada um:

1) A criança não aceita outros alimentos, ou não come o suficiente.

Com nossos conhecimentos atuais, o mais prudente é começar a oferecer outros alimentos aos seis meses. Algumas crianças comem alegremente e, provavelmente, algumas precisam deles de verdade. Mas dizemos “oferecer”, e não “enfiar”. A criança é livre para comer ou não. Muitas crianças de peito não querem nem provar qualquer outro alimento até os oito ou dez meses, ou até mais. Estão perfeitamente saudáveis e felizes, seu peso e tamanho são normais, seu desenvolvimento psicomotor é excelente... mas recebem o suficiente com o peito e, portanto, não querem mais nada.

Isso produz não pouca inquietação nas mães de lactentes entre seis e doze meses, mais ou menos. Seus filhos mal “beliscam” alguma coisa (uma mordida de banana aqui, um miolo de pão acolá, um macarrão mais pra frente) além do peito. Sempre se escuta algum comentário gentil: “Sua Laura ainda não come nada? Pois você tinha que ver minha Jéssica, como ela gosta de cereais com leite”.

Quem ri por último ri melhor. As crianças de peito demoram a aceitar outros alimentos, mas quando o fazem costumam desprezar as papinhas industriais e os alimentos triturados e se lançar à comida de sua mãe. No começo do seu segundo ano, a criança de peito costuma comer lentilhas com linguiça, omelete de batatas e sanduíches de presunto, tudo isso a colheradas e mordidas com sua própria mãozinha.


Mi niño no me come (Meu filho não come). Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

Lembrando que, muitas vezes, achamos que a criança está comendo pouco quando, na verdade, ela está comendo exatamente o que precisa.

Se a criança está mamando no peito, três refeições por dia com alimentos adequados são suficientes para garantir uma boa nutrição e crescimento, no primeiro ano de vida.

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

2) A criança não está ganhando peso ou crescendo adequadamente.

Se uma criança amamentada não estiver crescendo adequadamente no segundo ano de vida, os esforços devem concentrar-se na melhoria da qualidade nutricional e quantidade dos alimentos complementares e não na interrupção da amamentação (Bentley et al., 1997). Essa sugestão é reforçada com o estudo feito em Bangladesh onde as crianças desnutridas não amamentadas além do primeiro ano tiveram um risco seis vezes maior de morrer, quando comparadas com as amamentadas (Briend e Bari, 1989).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde. (grifo meu)

3) Se amamentada por muito tempo, a criança pode desenvolver dependência excessiva da mãe, problemas psicológicos e sexuais.

O período natural de amamentação (sem a influência da cultura), segundo diversas teorias, seria de 2,5 a sete anos. Estudos etnográficos sugerem que, antes do uso disseminado de leites não humanos para crianças, elas tradicionalmente eram amamentadas por três a quatro anos, época em que as crianças usualmente deixam de amamentar quando lhes é permitido alimentar-se de acordo com a sua vontade (Dettwyler, 1995). A OMS recomenda que a amamentação seja praticada até os dois anos ou mais (World Health Organization, 1995a).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

Quando a psicóloga da creche soube que Maribel estava dando o peito a seu filho de dezesseis meses, chamou-a para lhe explicar que se não o desmamasse imediatamente, seu filho seria homossexual. (...)
Como Maribel persistiu em sua “perigosa” atitude, a psicóloga ligou para sua casa para falar diretamente com seu marido e adverti-lo sobre o dano que sua esposa estava fazendo ao filho de ambos.

Nossa sociedade, tão compreensiva em outros aspectos, é muito pouco compreensiva com as crianças e com as mães. Esses modernos tabus poderiam ser classificados em três grupos:
- Relacionados ao choro: é proibido dar atenção às crianças que choram, pegá-las no colo, dar-lhes o que pedem.
- Relacionados ao sono: é proibido fazer as crianças adormecerem no colo ou lhes dando o peito, cantar ou niná-las para que durmam, dormir com elas.
- Relacionados à amamentação: é proibido dar o peito em qualquer momento ou em qualquer lugar, ou a uma criança “muito grande".

Quase todos eles têm uma coisa em comum: proíbem o contato físico entre mãe e filho. Pelo contrário, são muito apregoadas todas aquelas atividades que tendam a diminuir dito contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho.
(...)

Ainda que alguns tentem justificar essas recomendações dizendo que é para que “a mãe descanse”, o certo é que nunca te proíbem nada cansativo. Ninguém diz: “Não limpe tanto, que a criança se acostumará a ter a casa limpa”, ou “Ele vai servir ao exército e você vai ter de ir junto para lavar a roupa dele”. Na realidade, o proibido costuma ser a parte mais agradável da maternidade. (...)

Todos esses tabus e preconceitos fazem as crianças chorarem, mas também não tornam os pais mais felizes. A quem satisfazem, então? Talvez a alguns pediatras, psicólogos, educadores e vizinhos que os propagam? Eles não têm o direito de lhe dar ordens, de lhe dizer como você deve viver sua vida e cuidar de seu filho. Muitas famílias sacrificaram sua própria felicidade e a de seus filhos no altar de preconceitos sem fundamento.


Bésame Mucho. Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

4) Os dentes do seu filho estão nascendo. Hora de desmamar.

O único inconveniente de dentes na amamentação são as mordidas que eventualmente podem ocorrer. Aconteceu comigo, e nós superamos essa fase.

No mais, a lactação protege a arcada dentária de deformidades que possam ser causadas por chupetas ou mamadeiras. O peito sacia a necessidade de sucção, dispensando a chupeta, e a necessidade de oferecer outros líquidos pela mamadeira. Uma criança de seis meses, que deve começar a receber outros alimentos, está apta a beber num copinho de treinamento ou mesmo num copo normal, com auxílio. Recém-nascidos, e até pré-maturos, são capazes de beber de um copinho de café.

No mais, a primeira dentição não é chamada de dentes de leite à toa.

5) Você engravidou, então tem de desmamar.

Já falei sobre isso aqui e aqui.


Por hoje é só. Amanhã encerro mais esta série de posts sobre aleitamento com um Manifesto em defesa da amamentação.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por que (não) desmamar

A ideia do desmame pode surgir em vários momentos do aleitamento: quando o bebê começa a comer outros alimentos, quando nascem os dentes, quando a criança passa a acordar infinitas vezes à noite e só volta a dormir no peito, quando ela faz um ano, quando você engravida, quando nasce o segundo filho... A proposta pode vir do pediatra, do obstetra, da babá, da sua mãe, da sua sogra, da sua vizinha. Ou pode vir de você mesma.

Passei por todas as etapas acima (com exceção do nascimento do segundo filho) e sigo amamentando. Além disso, minha produção de leite sofreu uma brusca diminuição nesse segundo trimestre de gestação. Por conta disso, as mamadas de Emília passaram a se estender por mais de meia hora. E parece que não alimentam muito. E meus mamilos estão extremamente sensíveis. Motivos de sobra pra desmamar.

Não fosse...

...não fosse o fato de que Emília não deixa? Não. Minha filha, voluntariamente, parou de pedir o seio na volta da escola. Agora ela pede “mnão” (banana). Em alguns dias, ela mama só de manhã e à noite, antes de dormir. Fins de semana e feriado, quando passa o dia comigo, costuma pedir um pouco mais, normalmente pra ajudar nas sonecas. Mas eu sei que, se eu quisesse, com jeitinho eu poderia desmamá-la em questão de semanas.

Então, o quê? Por que não desmamar?

Para uma boa parte das mães, o desmame é um período doloroso, tanto pra ela como para o bebê. Em muitos casos, a criança se recusa a ser desmamada, chora, passa a ter dificuldades para pegar no sono. A mãe sofre junto, determinada a fazer aquilo que ela acha certo, mas, no fundo, insegura quanto a essa decisão. “Mas ele já tem mais de um ano. O leite materno não tem mais nenhuma função”. “Mas ele não come nada por causa do peito!” “Mas ele só dorme no peito.” “Mas você não consegue fazer nada, não pode viajar, está presa.” Motivos e mais motivos. Fora argumentos de que o aleitamento prolongado faz mal à criança, que deixa dependente, gera problemas sexuais e psicológicos – asneiras que não têm a menor base científica.

Certa vez, quando disse que amamentaria até quando eu e Emília desejássemos, alguém me perguntou: “Ué? Mas ela não vai querer sempre?” A resposta é não. A maioria das crianças vai deixar o peito voluntária e naturalmente, no tempo delas, sem traumas. Uma ou outra talvez queira mamar além dos 3 ou 4 anos, mas são minoria. Entre os 2 e os 3 anos, o interesse pelo seio vai diminuindo paulatinamente, a menos que a mãe force a continuidade do aleitamento. Nesse período, não recusar, mas não oferecer o seio, além de trocar o momento das mamadas por outras atividades (historinhas, lanches interessantes, chamegos e carinhos) serão medidas suficientes para um desmame tranquilo.

Grande parte dos desmames são difíceis porque a mãe e/ou a criança não estão prontas. Aí o processo vira uma guerra, um estresse.

Esses dias, com Emília no colo, grudada no meu peito, percebi uma coisa muito simples: não desmamo porque não tenho a menor vontade.

Todas as vezes em que a ideia “desmame” passou pela minha cabeça foi para me justificar perante os outros Eu respondo, a cada pergunta sobre a continuidade do aleitamento: “A OMS recomenda no mínimo dois anos”; “As contrações uterinas causadas pela sucção do bebê são mais fracas que as de um orgasmo, então não há, a priori, problemas para o feto”. Mas, de mim para mim, se não houvesse questionamentos, eu sequer pensaria nisso.

E eu não amamento por causa da OMS, mas por causa do meu coração. A OMS serve apenas para me defender diante da opinião pública.

Notei que eu não me vejo nesse processo de desmame. Isso pra mim é algo distante, não necessariamente no tempo, mas na minha visão. É como o desenvolvimento da criança: sei que em breve Emília estará formulando frases, mas hoje ela fala umas dez palavrinhas e essa é ela. Emília tem poucos cabelos, fala dez palavras e mama no peito. Amanhã? Amanhã será outro dia, e eu vivo o hoje.

Amamento porque sinto prazer. Amamento porque minha filha sente prazer. Amamento porque, no meu âmago, sinto que estou vivendo o momento que me foi reservado pra viver agora. Amamento porque a primeira infância da minha filha não vai voltar.

Amamentem, desmamem, mas ouçam sempre o seu coração. E não se agridam.

+++

Para completar, um fragmento extraído do livro No seio do nascimento (Au Coeur de la Naissance: Témoignages et réflexions sur l'accouchement - Lysane Grégoire e Stéphanie St-Amant). É o relato de uma mãe que foi separada do seu filho logo após o seu nascimento e que se arrependeu de tê-lo desmamado precocemente:

Amamentei cinco meses e tive muita dificuldade para parar. Continuo muito irada. Quero lutar contra tudo aquilo. Não sei ainda onde está o meu lugar, mas penso muito nisso. Vou encontrá-lo. Amamentei Jules apenas cinco meses, sem ter ao redor de mim nenhum exemplo de aleitamento mais longo. Pensava até que era impossível. Eu me violentei para parar, como se fosse inconveniente continuar. Isso machucou a nós dois. Penso realmente que a amamentação curava as feridas desse nascimento, que tornou muito difícil para nós dois o estabelecimento de vínculos. Mas teria sido necessário mais tempo. Depois do fim do aleitamento, me dei conta progressivamente de que alguma coisa não ia bem entre nós, que não me sentia sua mãe com facilidade, que eu fugia dos momentos de solidão com ele, me remetendo muito ao Arnaud (eles dois criaram uma relação muito forte). A tomada de consciência disso e o tempo passado com ele ajudaram a apaziguar e a criar relações mais fortes, mas ainda me arrependo desse aleitamento encurtado por ignorância, por preocupação com o olhar dos outros e por falta de escutar minhas necessidades profundas e as dele.(Stéphanie C.)
Tradução minha.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Mãe, pra quê?

Não lembro quando foi, tanto tempo já faz, que alguém disse que as mães poderiam ser substituídas. Afinal, tem as babás, os professores, os avós, tanta gente dedicada pra fazer o seu serviço. E não precisa nem se preocupar com a alimentação dos bebês pequenos, porque a latinha de fórmula tem exatamente os mesmos nutrientes daquele que a natureza colocou nos peitos de uma recém-parida. Quer dizer, nem sempre parida. Porque também a gente não precisa mais parir, pode deixar o serviço pra algum cirurgião habilidoso.

Fralda, qualquer um pode trocar. Mamadeira, qualquer um pode dar. Parto, não precisa mais. E de onde é que falta tirar a mãe, hem?

Nove meses gestando. Ah, essa tem que ser a mãe. Mas já pensou se não precisasse? Podiam inventar umas estufas de bebês, onde eles seriam assados desde o estado de ovo-zigoto até completa maturação do sistema respiratório. Daí a mãe podia continuar com as baladas, as cervejinhas, os remédios. Olha que beleza se eu pudesse continuar tomando antiinflamatório em vez de combater uma dor de garganta com spray de própolis e chá de alho durante 40 semanas.

Mas sempre ia ter uma retrógrada que ia insistir em fazer tudo como seus ancestrais. Quer dizer, talvez todas as mulheres que sonhassem em ser mães tivessem um desejo oculto de gestar (porque a civilização tenta, mas não consegue dizimar todos os nossos instintos). Mesmo as que não aguentassem o tranco de lutar contra as práticas dominantes. E aí ouviríamos algumas declarações como estas:

- Queria muito ter uma gestação intrauterina, mas meu médico disse que não posso porque minha avó teve um aborto espontâneo. Seria muito arriscado.

- Quero engravidar, mas o médico disse que só espera três meses de tentativas. Quando a mulher demora mais do que isso, é porque o útero não é bom pro bebê. Melhor gestar na incubadora.

- Quero uma gravidez depois de aborto espontâneo, mas não acho um médico que tope acompanhar...

- Eu preferiria gestar meu bebê dentro do meu útero, mas meu plano de saúde não cobre pré-natal intrauterino. Vai ter que ser na incubadora.

Algumas descobririam as recomendações da OMS sobre os benefícios da gestação intrauterina, o reconhecimento precoce da mãe, o papel do toque na superfície da barriga, o som das entranhas maternas, toda essa frescurada. E optariam por gestar elas mesmas seus filhos. Imagino que essas escutariam coisas do tipo:

- Você vai deixar um bebê crescer dentro da sua barriga? Igual bicho?! Vai ficar enorme, cheia de dores, varizes, estrias, hemorróidas... pra quê isso, meu Deus? Só pra dizer que é mulher da idade da pedra?

- Você tem mais de 30 anos e está grávida? Que irresponsabilidade! Tira logo esse menino daí e põe na incubadora, senão ele vai ter Síndrome de Down.

- Menina, você quer engravidar? Olha, já ouvi tanto caso de aborto espontâneo que acho melhor não arriscar. Na incubadora é tudo controlado.

- Eu até entendo mulher que queira gestar um bebê, mas gêmeos não dá, né?

- Ok, você está grávida. Agora não vai me dizer que quer parir também?!!

Os cientistas sérios levantariam evidências científicas e identificariam distúrbios psicológicos importantes em bebês gestados extra-útero. Apontariam as deficiências imunológicas e as carências emocionais. Mas os médicos diriam:

- Bobagem. Meus filhos todos foram gestados na máquina e tá todo mundo bem.

Até o dia em que houvesse um apagão...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Respostas às perguntas intrigantes

Vocês já imaginaram alguém com estes peitos...





...este cabelo...






...e estas ancas?







Pois a Paloma imaginou (vejam nos comentários de ontem).

Tomei a liberdade de substituti a imagem da Madonna do Rafael pelas Três Graças do Rubens, porque a Virgem Maria estava sempre recatada, com o corpo coberto, e achei que ficaria mais difícil visualizar.

Seria essa a resposta às perguntas de ontem? Uma gestolactante seria um ser com peitos de Pamela Anderson, careca como a Hilary Swank em "Garotos não choram" e fogosa como uma Vênus renascentista?

Infelizmente (ou felizmente?), a imaginação da Paloma é mais interessante que a vida real. E para matar a curiosidade de todas, seguem as minhas respostas às perguntas de ontem:

1) O que acontece com os peitos de uma lactante quando ela engravida? Aumentam mais ainda ou permanecem do mesmo tamanho?


Incrível, gente, mas eles realmente aumentam, como numa gravidez normal. Mas isso não nos deixa no nível da Pam.

Explico: amamentar um bebê de um ano não é a mesma coisa que amamentar um bebê que só mama no peito. Depois de tanto tempo, a produção se estabilizou, e vai diminuindo aos poucos à medida que o bebê se torna mais autônomo no mundo dos outros alimentos. Assim, apesar de continuar usando os mesmos sutiãs do pós-parto, minhas mamas já não mostram toda aquela exuberância.

Com a gravidez, achei que nada mudaria, porque o tamanho dos meus seios-lactantes-de-um-bebê-de-13meses é mais ou menos o de seios de grávida. Mas eis que Emília terminava de mamar, eu checava os vasilhames e me perguntava: "ué? ela não está mamando tudo?"


Então percebi que meus peitos haviam sido, sim, presenteados pela fartura da gestação. Quando estão cheios de leite, eles permanecem do mesmo tamanho de antes de eu engravidar. Quando mamados, continuam lindos seios de gravidinha.


Mas, claro: do nível da Pam, só na apojadura!


2) Se na gravidez o cabelo fica lindo brilhoso sedoso radiante e na lactação os fios cometem suicídio coletivo, como fica a cabeleira de uma gestolactante? Rala, mas com estilo?

Só posso dizer que continuo careca. E apesar de não ter adotado ainda o joãzinho, preferi manter um corte mais curto nessa fase (aliás, sempre preferi cabelo curtinho pro meu rosto). Brilho, essas coisas? Sei não, nunca tive isso, nem na primeira gravidez. É o mesmo cabelo de sempre, só que menos.


3) Se gravidez engorda e amamentação emagrece, teríamos aí um antídoto infalível para o sobrepeso na gestação?

Rá!! Nessa, a Paloma acertou em cheio. (Ou eu deveria dizer, em cheia?)


Gravidez engorda. Ponto. E os quilos a mais não são só de bebê, placenta, líquido amniótico e tals. Tem a reserva de gordura que a mãe mantém pra garantir uma lactação de sucesso.


Não sei se é o metabolismo que cai - o sono deve ter a ver com isso -, mas ganhei peso com muita facilidade durante a gestação da Emília e agora não tem sido diferente. (Pra quem acha que eu fiquei macérrima grávida de Emília, saibam que me controlei bastante pra ficar só nos 13kg a mais).


Aliás, até agora já engordei mais de 3kg, enquanto que na minha primeira gestação não ganhei nem 1kg no primeiro trimestre. Pode ter a ver com o fato de que eu estava 2kg abaixo do meu peso de equilíbrio, por conta do que perdi na amamentação. Daí o organismo precisou absorver mais gordura pra se estabilizar.

O fato é que eu, lactante, comia tudo, me entupia de sorvete e macarrão, e só emagrecia. O pior é que peguei esse hábito, e agora está difícil retornar às frutinhas com granola. Estou até um pouco assustada com meu ganho de peso (apesar de estar me achando linda, tenho medo de a coisa virar uma bola - trocadilho infame - de neve).


Resumindo: amamentação durante a gravidez não serve de dieta! Olho no prato!

+++

Enfim, isso é o que tem acontecido comigo, com o meu organismo. Assim como os sintomas da gravidez se manifestam de forma diferente de pessoa pra pessoa, os efeitos da lactação durante a gestação também podem variar.

Então, no fim, sou uma das Três Graças com um bocado mais de peito e muito menos cabelo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Perguntas intrigantes

1) O que acontece com os peitos de uma lactante quando ela engravida? Aumentam mais ainda ou permanecem do mesmo tamanho?

2) Se na gravidez o cabelo fica lindo brilhoso sedoso radiante e na lactação os fios cometem suicídio coletivo, como fica a cabeleira de uma gestolactante? Rala, mas com estilo?

3) Se gravidez engorda e amamentação emagrece, teríamos aí um antídoto infalível para o sobrepeso na gestação?

Respostas em breve...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Lactogestação 2 – algumas dúvidas

A Nathi colocou nos comentários ao post de ontem a seguinte pergunta: “Não seria necessário parar de amamentar pelos menos um tempinho antes, para que o organismo possa 'reiniciar' o processo... colostro, leite de transição e leite maduro...”

Como achei a pergunta interessante – isso inclusive era uma dúvida que eu tinha antes de pesquisar sobre o assunto –, resolvi fazer este segundo post pra complementar o primeiro.

O processo de preparação do alimento para o recém-nascido prevalece sobre a produção de leite pré-existente.

Os hormônios da gravidez são antagonistas (inibidores) da prolactina, que é o hormônio responsável pela produção do leite. Por essa razão, algumas gestantes param de produzir leite ali pelo 2º trimestre. Há também relatos de que o filho mais velho passa a rejeitar o leite, que muda de gosto.

Havendo ou não essas alterações na produção do leite, no 3º trimestre aparece o colostro. Se o filho mais velho ainda estiver no peito, vai mamar esse colostro. Assim, o recém-nascido (e o mais velho! Oba!) se beneficiará normalmente desse alimento extremamente nutritivo e imunizante que as puérperas produzem. Em seguida, acontecerá a apojadura, tudo orquestrado pelos hormônios do pós-parto.

Não sei como será (ou seria) com dois bebês mamando durante a apojadura. Imagino que o mais velho poderia inclusive ser muito útil para tirar o excesso de leite que tanto incomoda nessa fase, diminuindo os riscos de empedramento e mastite e dispensando a necessidade da ordenha. Se alguém tiver uma experiência pra contar, agradeço!

A partir daí, a produção seguirá pautada pela quantidade de leite que os dois bebês mamam juntos. Quando nós retiramos leite para doação, nossa produção permanece suficiente para nosso bebê. Da mesma forma, com dois filhos mamando a produção tende a aumentar e se adequar a essa demanda.

Óbvio que, havendo problemas, aquela criança que tem de ser alimentada exclusivamente de leite materno tem prioridade. Da mesma maneira que só podemos doar leite se nosso bebê estiver sendo alimentado sem complementos.

Parece complexo, mas tudo seria muito mais simples se soubéssemos ouvir nosso corpo e nossos instintos.

Quando meu marido e eu decidimos parar de prevenir a gravidez, o fato de eu estar amamentando me preocupou um pouco. Mas eu pensei: “Se meu corpo ovular e receber um embrião no útero, mesmo que minhas glândulas mamárias estejam a todo vapor, é porque pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo”. Coloquei na cabeça que se meu corpo não fosse capaz de suportar uma gestação durante o aleitamento, eu simplesmente não engravidaria.

Se eu fosse uma mulher primitiva, sem qualquer informação, eu seguiria gestando, parindo e amamentando minhas crias sem pensar muito. Enquanto os filhotes demandassem, o seio estaria à disposição. E eu não teria sequer uma forma de diagnosticar precocemente uma gestação, então eu amamentaria grávida sem saber.

O problema da informação é quando ela vem pela metade. Às vezes eu percebo que, no que diz respeito à maternagem, ou você se cerca de toda a informação possível, da melhor qualidade, ou é melhor não ter informação nenhuma e seguir seus instintos.

Parece que tudo o que é natural é errado, é prejudicial. Se o bebê quer mamar em intervalos pequenos e irregulares, você tem que brigar contra ele e estabelecer horários. Se o bebê relaxa e adormece facilmente no peito, você tem que usar técnicas para dissociar uma coisa da outra e passar dias treinando um bebê aos prantos a dormir de outra forma. Se a criança quer ficar perto da mãe, ela é retirada dos seus braços para aprender a ser independente. Impressionante como aquilo que Deus criou está sempre tão cheio de defeitos.

Mas como nesse mundo moderno ficou impossível alienar-se completamente, e somos bombardeados com informações sobre riscos, riscos e mais riscos – ser mãe é passar o dia pensando se seu bebê não tem a anomalia tal, se está com o peso correto, se está vivo, enfim –, temos de nos cercar de informações também sobre a fisiologia normal dos processos reprodutivos. E entender que só vale à pena intervir num processo natural – toda intervenção tem riscos – se o risco da intervenção superar o risco da não intervenção. Para adotar uma atitude antinatural, nós, humanos racionais, deveríamos saber exatamente o que estamos fazendo. E na maioria das vezes, não sabemos. Parece que usamos nossa inteligência só pra desenvolver a ciência e a tecnologia, e não pra refletir sobre seu uso.

Desmamar Emília só por causa da gravidez seria intervir, porque para nós duas esse é o caminho natural, e nos sentimos felizes assim. Os riscos de interferir nesse processo sem uma boa justificativa seriam um desgaste emocional pra ambas, prejuízo da nutrição dela, menos recursos para combater doenças. Lembram da otite? Sim, um bebê que mama no peito tem muito menos chances de ser internado e necessitar de soro em caso de doenças graves. E internação hospitalar é sempre um risco.

Estou protegendo minha filha, que ainda é um bebê, com total responsabilidade sobre essa sementinha que carrego no ventre. E isso é ser mãe: assumir que quem cuida dos nossos filhos somos nós.

Se a mãe sente que está na hora de desmamar seu bebê, mesmo sem ter atingido os dois anos recomendados pela OMS e pelo Ministério da Saúde; se ela sente que ela e o bebê estão prontos e se esse é o seu momento, digo que vá em frente. Só digo que não deixe que ninguém, nem a vizinha, nem os parentes, nem os amigos (da onça) e nem mesmo o pediatra desmamem seu filho por você.

+++

Links muito bons sobre o assunto:
http://maternajapao.blogspot.com/2008/12/amamentao-durante-gravidez.html
http:/mamaraopeito.blogspot.com/2009/04/amamentar-estando-gravida.html
http://relatosderaquel.blogspot.com/2010/05/relato-de-amamentacao-do-elias-e-da.html (dica da Fabi)

Sugiro também a leitura do comentário da Ana Paula no post de ontem.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lactogestação

Sim, continuo amamentando, sem data pra parar. Andei dando uma cortada nas mamadas noturnas porque eu estava dando perda total, mas tudo sem traumas. Agora, quando acorda de madrugada, Emília volta a dormir no colo do papai. Só ali pelas 4h é que o peito fica insubstituível. Considerando que em dezembro do ano passado ela mamava 5, 6 vezes de madrugada, avançamos horrores. E manterei essa mamada pelo tempo necessário, até percebermos que Emília está pronta para ficar sem ela.

Nunca troco as mamadas que eliminamos por mamadeira. Se é fome, vai comidinha no lugar. Se é aconchego, vai colinho no lugar. O processo de desmame corresponde a uma dependência cada vez menor do organismo do bebê em relação ao leite. Há inclusive quem defenda que, depois do desmame, não precisaríamos nem deveríamos consumir leite de outros animais. O homem é o único animal que continua mamando depois de desmamar...

Eu até pensaria no assunto se minha filha não fosse vegetariana. Então a vida sem laticínios não é uma opção. Mas quanto mais tarde a introdução de lactose, menores as chances de a criança desenvolver alergias ou intolerâncias. E enquanto ela tem peito à disposição, tirará dele a exata quantidade de leite de que ela necessita.

Mas, e a gravidez? Sim, o que tem a gravidez?

“Diz que não é bom amamentar grávida”. Pois diz também que circular de cordão é indicação de cesárea. Muito se diz por aí.

“Mas então tem que falar com o médico antes”. Claro, é bom comunicar o obstetra, até pra saber qual a opinião dele sobre o assunto (é um bom indicativo pra avaliarmos a postura dele – humanizada ou tecnocrata – sobre o pré-natal e o parto). Mas ninguém, quando descobre que está grávida, para de fazer sexo com o marido porque tem que pedir autorização do médico antes.

A princípio, qualquer gestante pode amamentar sem problemas. Haveria contraindicação em caso de ameaça de aborto (sangramentos, dores) ou de parto prematuro, já que a sucção provoca pequenas contrações uterinas. Só que essas contrações são mais fracas que aquelas causadas pelo orgasmo. Ou seja: se não pode amamentar, também não pode fazer sexo e provavelmente o repouso também será indicado.

Outra questão é que a pessoa “fica fraca”. Oras, se eu consumo, em situação normal, 2.300kcal pra viver, em situação de gestação eu preciso de mais 300kcal e na lactação mais 500kcal, é só somar tudo e mandar pra dentro! Claro, numa dieta balanceada, com bastante ferro pra não ficar anêmica e bastante cálcio pra repor o que vai no leite. Daí se seu hemograma estiver ok, mais um mito cai por terra.

Lembrando também que o organismo de uma gestante prioriza o bebê. A mãe tem de ficar significativamente desnutrida antes de começar a usar os nutrientes que iriam pro feto.

Por fim, o único motivo que eu considero plausível pra desmamar um bebê de pouco mais de um ano simplesmente porque a mãe engravidou: cansaço. Foi por isso que insistimos em colocá-la de volta pra dormir de madrugada sem o peito, porque eu precisava dormir à noite. Mas não é nenhum desgaste pra mim dar o café da manhã da minha filha, colocá-la novamente no peito assim que ela volta da creche e aconchegá-la no seio antes de dormir. E se ela precisa mamar às 4h, mama. E se nos fins de semana pede mais peito durante o dia, dou sem o menor estresse.

Mas e depois? E no fim da gravidez, quando eu estiver pesada, de barrigão? E quando nascer o segundo?

Muitas águas vão rolar. Emília vai mudar muito até o irmão ou a irmã nascer. Pra uma criança de pouco mais de um ano, 7 meses são uma eternidade. Por isso não estou fazendo planos. Se eu achar que é melhor seguir amamentando os dois, assim seguirei. Se eu considerar que desmamar antes será melhor, desmamarei. Mas é muito cedo pra pensar nisso.

Não acho absurda a ideia de amamentar dois. Dá trabalho? Claro que dá. Mas filhos dão trabalho. Se é cansativo ficar 20min com um bebê no peito pra ajudá-lo a relaxar, muito mais cansativo é ficar 1h tentando colocá-lo pra dormir de outras maneiras. Sim, o peito pode ser extremamente prático.

E se um quiser mamar enquanto o outro estiver mamando? Até onde posso verificar, meu número de tetas é dois.

Então estamos assim, sou uma lactogestante (ou uma gestolactante) voraz, tipo Michael Phelps, com o aval da obstetra e o apoio incondicional do nosso pediatra: “Ótimo, continue amamentando! Iogurte, essas porcariadas, só mais pra frente!”.

+++

Em tempo: acabei de me lembrar que houve uma época em que sexo na gravidez fazia mal pro bebê...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Aleitamento terapêutico

Então Emília ficou doente. Bem doente. Depois de duas conversas por telefone com o pediatra dela, quando a coisa estava no começo, e duas visitas ao Pronto Socorro, quando a coisa ficou feia, finalmente tivemos o diagnóstico definitivo na consulta com o maravilhoso substituto do pediatra da Emília (ele está viajando, mas deixou um profissional à altura para atender seus pacientes durante sua ausência): infecção de ouvido. Está medicada, sem febre há dois dias, e bem animada. Mas o apetite...

Há uma semana ela não come praticamente nada, está só no peito. Nem água, nem suco, nem fruta, nem comidas salgadas. De vez em quando ela aceita uma meia colheradinha, só pra sentir o gosto. Então eu não sei o que seria se ela já não mamasse. Será que estaria aceitando leite na mamadeira? Em todo caso, fiquei bem feliz que meus peitones (já não tão "ones") ainda produzem o suficiente para que ela se mantenha hidratada e não morra de fome.

Hoje de manhã ela aceitou comidinha preparada pela segunda mãe dela: a Nestlé. Torçam aí pra rolar uma bananinha logo mais.

E aí embaixo um videozinho dela ontem, 200g mais magra mas com muita vontade de viver.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Livre demanda na trilha de Chapeuzinho Vermelho

Pela noite afora eu vou, bem fominha,
Mamar nessas tetas da minha mamãezinha
Ela dorme ao lado, de peito aberto
E o papaizinho fica ali por perto.

De manhãzinha, ao sol nascente,
No colinho dela mamarei contente.
De manhãzinha, ao sol nascente,
No colinho dela mamarei contente.

+++

Eu sou o Dr. Mau, Dr. Mau, Dr. Mau,
Mando meus pacientes que comam mingau.

Eu sou Dr. Legal, bem Legal, bem Legal,
Digo que dêem peito e jamais mingau!

+++

Nós somos os mamadores e nada nos amedronta
Bebemos mil litros por dia, mamamos tetas sem conta
Varamos a madrugada mamando com alegria
Não temos hora pra nada, mamamos de noite e de dia.

++

O Doutor Mau já morreu, agora estamos em festa
Posso mamar à vontade
Pois é só peito que presta!

+++

Quem quiser ler sobre o tema mais a sério, a Paloma fala sobre livre demanda aqui.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dois pontos de vista

Você chega em casa exausta de um dia de trabalho e seu filho cheio de dentes quer mamar. Você dá o peito e ele se pendura. Mama, mama, mama, os dentes vão roçando dolorosamente suas auréolas. Seu pescoço dói, seu braço dói, suas costas doem, mas seu filho não para de mamar. Você tenta de vez em quando tirar a boca dele do seio, quando ele diminui o ritmo de sucção, mas ele percebe a manobra e começa a sugar com mais vigor. Você desiste, com medo de levar uma dentada, e volta a tentar mais tarde. Seu filho parece que vai mamar pra sempre, e você está cansada.

+++

Chego em casa exausta de um dia de trabalho e minha Emília com quatro lindos dentinhos quer mamar. Dou o peito e ela se pendura. Mama, mama, mama, os dentes vão roçando delicadamente minhas auréolas. Relaxo o pescoço, enquanto olho pra ela. Apóio sua cabeça sobre um braço, enquanto com o outro acaricio suas coxas gordas. Afrouxo a musculatura das costas, enquanto aproveito pra treinar a respiração abdominal profunda. De vez em quando ela diminui o ritmo de sucção, e cogito tirá-la do seio. Em vez disso, prefiro deixar que ela faça suas pausas, enquanto aproveito pra fazer a minha. Naturalmente, ela volta a sugar depois de alguns segundos. Minha filha parece que vai mamar pra sempre, e eu estou extasiada.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

“Maus hábitos”

Uma das poucas vantagens de passar o dia inteiro longe do seu filho é que aquilo que parecia um “mau hábito”, em vez de desencorajado agora pode ser estimulado. Digo “maus hábitos”, assim com aspas, porque eles em si não têm nada de maus. Apenas são incompatíveis com nossa rotina moderna, pra infelicidade dos nossos bebês.

Mas agora que Emília está na escolinha, sobrevivendo mais que bem, comendo, tomando leite no copinho, dormindo e sorrindo, enquanto estiver comigo eu quero mais é incentivar esses lindos “maus hábitos” que ela tem:

- dormir no peito;
- mamar de hora em hora;
- só se alimentar do meu leite.

A conclusão a que cheguei é que carinho e aconchego não têm nada a ver com dependência. Quanto mais segura ela estiver do meu amor, e de que estarei sempre disponível pra ela, mais independente ela será.

E é assim que eu quero nossa relação: que ela me queira por perto por amor e afeto, e não porque não sabe ficar sozinha ou com outras pessoas.

P.S.: Claro, no fim de semana eu dou as comidinhas, e ela segue comendo super bem. Mas durante a semana, depois das 17h, é só peito!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O dia de uma profissional lactante

Antes de Emília nascer, eu não sabia como seria. Não sabia como conciliaria profissão e maternidade mas, apesar do medo, meti as caras, como escrevi naquela época.

Isso porque trabalho 40h semanais, num lugar longe de casa e longe de tudo. Por aqui praticamente não há restaurantes decentes, e sempre trouxe minha marmita para comer no refeitório. Mas como preparar comida todas as noites com um bebê em casa? Como descansar, se sem Emília eu já me cansava o suficiente só com minha rotina? E o tempo pra ela? E a amamentação? Como esvaziar os seios no trabalho?

Hoje, de volta ao trabalho, as coisas se acertaram milagrosamente, e nossa família está se adaptando com sofrimentos suportáveis.

Nossos dias têm sido assim:

Emília acorda por volta das 6h30, e com ela, todos nós. Se está bem, o marido fica com ela para eu me arrumar, de modes que eu dê o mamar o mais próximo possível do horário de sair. Se não, já dou o peito de uma vez. Depois, deixo ela no carrinho pra ela fazer tudo comigo: ir ao banheiro, escovar os dentes, me maquiar e me vestir. Não tomo café em casa pra não perder esses preciosos minutos com ela. Ali pelas 7h e pouco saio pro trabalho e deixo Flosinha com o pai. É o momento de eles dois se curtirem, pra depois saírem às 8h e pouco rumo à escolinha e ao trabalho.

Saio parecendo muambeira: uma sacola com minha marmita, outra com a bomba de leite e a bolsa com minhas coisas. Resolvi a questão da marmita da seguinte forma: aos sábados vem uma pessoa lá em casa pra fazer comida pra semana, e ela já deixa congeladas as porções pra eu trazer pro trabalho (até arroz a gente congela. Não é bom como arroz fresco, mas quebra o galho). Continuo almoçando aqui no refeitório, já que não compensa sair daqui do caixa prego, me meter na auto-estrada com um trânsito pesadíssimo pra chegar esbaforida na creche e passar meia hora com Emília, não almoçar direito e ainda ter de sair 1h mais tarde do trabalho – porque aí eu teria de tirar 2h de almoço. A própria psicóloga da creche achou melhor eu não ir, até porque seria mais uma separação.

Na falta da mamada ao meio dia, estou mandando dois potinhos de leite por dia (uns 100ml) pras tias oferecerem a Emília caso ela não coma algo equivalente a um mamão inteiro no lanche. Assim ela fica alegrinha e aguenta até as refeições principais (almoço e janta). Ordenho duas vezes na salinha de apoio à amamentação aqui do meu trabalho, que foi inaugurada durante a minha licença (Deus é bom!) e uso uma bomba elétrica. É mais rápido que tirar na mão e preserva meus tendões. Enquanto ordenho, fico assistindo DVDs no Looney Tunes na televisão da salinha.

Saio daqui 16h30, pego o leite no congelador e me mando pra escolinha. Quando me vê, Emília faz aquela cara de mamãe-me-tira-daqui-estão-me-torturando e se joga no primeiro dos peitos que aparecer na frente dela. Amamento lá mesmo e só então volto pra salinha pra conversar com as tias, perguntar como foi o dia e pegar as coisas dela (a essa altura, cheia de leite na pança, Emília está toda serelepe, rindo pra todo mundo). Daí volto mais muambeira que nunca, acrescentando às três bagagens da ida a bolsa de Emília, o bebê conforto (que o marido deixa de manhã) e a própria Emília. Ser mãe é virar um cabideiro ambulante.

Chegamos em casa ali pelas 17h e poucos. Coloco ela no carrinho pra esvaziar a bolsa dela, conferir as anotações na agenda, colocar a roupa suja no cesto, tomar uma água e ir ao banheiro. Depois brincamos, Emília mama mais um pouco, e brinca, e mama, e ultimamente tem capotado ali pelas 18h30. O pobre do marido chega, só dá tempo de ver Flóris mamando e dormindo (a creche é um sossega leão. Ela chega exausta). Nesse tempo, arrumo minha marmita pro dia seguinte e esterilizo a bomba de leite. Jantamos juntos, até ela acordar da soneca pro sono definitivo. Eu dou a massagem e o marido dá o banho. Ela adormece em torno de 20h e vamos nós dois pra cama logo em seguida, pra levantarmos renovados no outro dia.

E tem sido assim. O marido tem sofrido mais que eu, porque agora ele a vê muito menos (enquanto eu estava de licença, ele vinha almoçar em casa e lamber a cria). Além disso, ela parece ainda mais apegada a mim, e às vezes não quer ficar com ele. Mas assim vamos nos ajeitando, nos adaptando.

Agora deixa eu quebrar minha cuca pra bolar uma rotina pra quando eu tiver cinc... ops, três arrebentos.

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