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[Vila de Ponta Negra] As cores de uma cultura

Diário de Natal - 19 de agosto de 2012 

Pedro Carlos de Lima reconhece a Vila de Ponta Negra pelo colorido. Não podia ser diferente. Já aos 9 anos de idade estava enfurnado em grupos folclóricos. Além das cantigas que carrega hoje como relíquia, aprendeu também a alegria do brincante. Mestre Pedro é filho de pescador, como tantos outros na Vila. Podia ter escolhido o lado cinza, mas preferiu as cores da cultura.

Graça Leal entre os grandes mestres da Vila, Severino, Arraia e Pedro. Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press


"Sou pescador, também. Saía pra maré já com nove anos, na mesma época que descobri as cantigas. Mas hoje não aguento mais a lida da pesca", conta o mestre, aos 63 anos. Pedro vive da aposentadoria e do dinheiro recebido do aluguel da jangada. "Quando brinco com o Congo ainda me dão 200, às vezes 300 reais, só pra eu não ficar sem nada. Mas não dá pra muita coisa, não. Sustento o Congo sabe-se lá como".

Nem podia. Mestre Pedro é pai de nove filhos. Já tem 16 netos e quatro bisnetos. Todos eles moram com o patriarca em sua casa, em Pium. "Adoro a Vila. Mas houve problema com o vizinho e achei melhor sair porque podia ter problema maior, ne?"E acrescenta: "A Vila já esteve boa. De certos anos pra cá, não tá mais. É muita droga, inseto. Povo de fora querendo bagunçar. Gente que nem conhecemos".

Mestre Pedro nasceu e se criou na Vila. É filho de pescador e fazedor de carvão no mato. E a mãe cuidava da casa. "Nossa comida era farinha pisada no pirão de milho. Mamãe pisava pra gente comer de noite. Hoje se não tiver um frango ninguém gosta. Lá em casa, só de pão, todo dia, são seis reais. No fim do mês é 450 conto só de pão. Afora um quilo de feijão, um de arroz quase todo dia", fala em tom de brincadeira.

Pedro comanda o grupo folclórico mais tradicional da Vila: o Congo de Calçola. Aprendeu tudo com "Zé de Tereza", ali mesmo na Vila. "Comecei como dama, depois galante e fui aprendendo as cantigas. Parei com 30 anos. Quando deu 40 comecei de novo. E só deixo agora quando morrer". O mestre lamentou tanto tempo sem espaço para ensaiar. "Só agora conseguimos o espaço cedido por Graça".

O grupo de Bambelô também é comandado por Mestre Pedro. São 15 anosde história. E este é cria mesmo do mestre. "Do Bambelô eu aprendi com o finado Zé de Aperrião, que já morreu. Ele tinha um Bambelô na Vila. Mas as cantigas dele são uma, e as minhas são outras. As dele são tipo coco de roda. As minhas são coco de bambelô mesmo. Eu mesmo criei", se orgulha.

Eterna brincadeira
E o orgulho vai além. "São 12 pessoas em cada grupo. Só adulto, na faixa de 16 a 30 anos. Mas tem criança que também quer brincar. Todo mundo quer brincar comigo. Se eu quiser botar 20, 30 eu boto porque sei cantar e sei brincar. E é aprovado em todo canto. Desde que eu me entendo de gente sempre teve brincadeira aqui na Vila: Bambelô, Boi de Reis. É um povo acostumado a esse tipo de coisa. E sentencia: "A Vila mesmo hoje não tem muita graça, só quando a gente brinca".

A Vila de Ponta Negra não morre porque a arte não deixa

Diário de Natal - 19 de agosto de 2012

A frase de Graça Leal, do Centro Cultural da Vila de Ponta Negra, é a síntese de um pedaço carente de políticas públicas

A Vila de Ponta Negra é multicolorida. Mas nos últimos anos, as matizes ou, mais ainda, a essência que move um dos lugares mais ricos em cultura popular de Natal estão misturadas ao cinza da violência, do abandono e do tráfico de entorpecentes. Ainda assim, a cultura permanece a força motriz do conjunto. É o que ainda empresta cor à Vila, mantém o verde da esperança e inspira a arte. "A Vila não morre porque a arte não deixa". A frase é de uma resistente chamada Graça Leal. Resistente porque moradores da Vila de Ponta Negra são resistentes. Driblam o caos urbano por amor ao lugar. Apesar da violência e do abandono, a proximidade do mar, a atmosfera ainda rústica de vila pesqueira e a riqueza cultural prendem o tais resistentes ao lugar.

Contradições da Vila de Ponta Negra são marcantes: manifestações culturais e violência se misturam. Foto: Ana Amaral/DN/D.A Press


Graça chegou à Vila há 20 anos. Veio quase que por encantamento. O marido, Antônio Leal - hoje aposentado -, por questão de saúde precisava respirar um ar menos poluído que o de Minas Gerais. E acharam o topo marítimo da Zona Sul de Natal, conjunto periférico da cidade. E se a família Leal venceu o problema de saúde, iniciava ali uma segunda luta, persistente até hoje. "Quando chegamos chamava a atenção a quantidade de criança perambulando pela rua. Era uma situação de abandono, como se elas estivessem à mercê de qualquer investida, maldosa ou não", relembra Graça.

Começava ali a ideia de transformar a vida daquela gente tomando proveito do que a Vila também oferecia de melhor: a vocação cultural, seja a popular dos seus grupos folclóricos, ou pelas chamadas grandes artes. Após articulações e ações mais pontuais, a família Leal transformou a casa situada na Vila em um centro de cultura. A princípio, ministravam aulas de artes plásticas para crianças da comunidade. Mas bastaram dois anos para a ação ser reconhecida pelo Governo Federal como Ponto de Cultura, o Sons da Vila. Foram cinco anos de atividades culturais intensas e gratuitas.

Ponto de Cultura
O Sons da Vila se dedicava a ensinar música para as crianças da comunidade. Eles davam oinstrumento e ofereciam aulas gratuitas. Segundo Graça, mais de 500 alunos passaram por lá. A maioria, gente que não teria outra oportunidade de aprendizado. "Muitos, hoje, estão na UFRN. É muito gratificante porque sabemos do que poderia ser o futuro deles caso não tivessem essa chance". Graça lamenta a falta de autoestima dos moradores da Vila. As meninas sonham casar com gringos. Crianças e adolescentes têm na figura do pai um viciado em crack, um dependente químico ou alcoolatra. "São famílias esfaceladas, sem rumo. Então, muitos se acham na cultura, porque a Vila também oferece isso. A Vila morre e ressurge o tempo todo por este viés".

O hoje Centro Cultural da Vila de Ponta Negra ainda recebe os "resistentes" da Vila. Já possui até biblioteca pública. Funciona também como espaço para exposição, oficinas de artesanato, contação de histórias e até sessões semanais de cinema.

O sonho da biblioteca foi possível graças ao programa Mais Cultura, do Governo Federal. O Centro recebeu quase 700 livros para iniciar o projeto. O local é protegido por grades. E escancara a problemática da violência, mesmo para quem deseja mudar a realidade de prostituição, tráfico de drogas e matança. "Na Vila se mata mais do que numa guerra. Há até extermínio", comenta Graça, temerosa pela retaliação.

[Exposição no IFRN-Cidade Alta] A arte Naïf dão vida às lembranças de um nativo de Ponta Negra

Tribuna do Norte - 29 de junho de 2012

Alfredo "Fefeu" Antônio é um dos muitos artistas anônimos espalhados pela periferia de Natal que bebem na fonte dos mestres populares e mantém acesa a chama de tradições repassadas de geração em geração. Filho de rendeira da Vila de Ponta Negra, Fefeu encontrou nas artes plásticas uma forma de expressar suas lembranças dos tempos que a bairro era apenas uma vila simples de pescadores. O artista busca na memória imagens que poderão ser vistas na exposição "Ponta Negra dos meus amores", em cartaz a partir da próxima segunda-feira (2) na galeria de arte do IFRN-Cidade Alta. Aberta para visitação até dia 17 de julho.

Reprodução
Fefeu encontrou na pintura um suporte para expressar memórias de um bairro que já foi vilaFefeu encontrou na pintura um suporte para expressar memórias de um bairro que já foi vila

Autodidata, Fefeu trilha pelos caminhos da arte Naïf e apresenta quadros que retratam aspectos socioculturais e paisagens perdidas no tempo. Ele viaja no tempo e volta até os anos 1940, 50 e 60 inspirado nas histórias contadas pelos familiares. "Tenho guardado lembranças desde os anos setenta, momentos praianos vividos na infância, e retrato as transformações urbanas do bairro-praia até os dias de hoje", disse o artista plástico.

Pedagogo, capoeirista e brincante do grupo popular Bambelô Maçariquinhos da Praia, Fefeu contou que "as artes plásticas eram como um sonho de infância, comecei fabricando minhas próprias telas para dar as primeiras pinceladas", recordou. Seu vínculo com os mestres da cultura popular lhe renderam recente convite para integrar o grupo e a diretoria da Associação de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna, nas Rocas.

Durante a abertura da exposição, a ser realizada próxima segunda-feira (2), às 19h, no IFRN-Cidade Alta (av. Rio Branco, 743 - Centro), haverá apresentação de grupos de cultura popular da Vila de Ponta Negra. A curadoria de "Ponta Negra dos meus amores" é da professora Mára de Mattos e de Janilson dos Prazeres, com produção de Jonathan Francioli. Informações:(84) 4005-0959.

VOZES DA VILA - radiodocumentário no ar FMU até dia 19 de abril

"Vozes da Vila" documenta vivência de pescadores

Celeiro de tradições que resistem ao tempo, a Vila de Ponta Negra é guardiã de uma história ainda pouco conhecida pelos natalenses. Para descortinar esse universo que pulsa lembranças de pescadores, mestres da Cultura Popular e rendeiras, entra em cena o radiodocumentário "Vozes da Vila", projeto da Universitária FM contemplado no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos / Prêmio Roquette-Pinto (Arpub). O programa sobre o bairro natalense foi o único projeto selecionado no RN.

O Vozes da Vila tem seis horas de duração, divididas em 12 episódios de 30 minutos cada, e está sendo reapresentado até o próximo dia 19 de abril, sempre às 12h30, na FMU (88,9). Finalizado em setembro do ano passado, o radiodocumentário está disponível para download – apenas para instituições culturais e rádios associadas – no site da Associação das Rádios Públicas do Brasil – Arpub (http://www.arpub.org.br/).

A trilha sonora é assinada por Carlos Zens, as histórias são recortadas pela narração do ator Rodrigo Bico e todo o texto rimado recebeu cuidados poéticos de Emmanoel Iohanan. Entre os temas abordados: origem agrícola, disputa de terras, a relação do homem com o mar (pesca e surf), religião, turismo, meio ambiente e as lendas urbanas que até hoje continuam vivas.


* Fonte: Tribuna do Norte - 08/abr/2011Foto: Joanisa Prates

Radiodocumentário Vozes da Vila é reapresentado na FMU



Posted: 31 Mar 2011 02:23 PM PDT
Universitária FM reapresenta o premiado rádiodocumentário VOZES DA VILA


A Vila de Ponta Negra é um grande celeiro de Cultura e tradições que resiste ao tempo, a tudo e a todos! O bairro é guardião de uma história com mais de 300 anos, ainda pouco conhecida pelos natalenses, que catalisa boa parte do que restou da empoeirada memória da capital potiguar.

Para descortinar esse rico universo que pulsa lembranças de pescadores, mestres e rendeiras, entra em cena o rádiodocumentário VOZES DA VILA – projeto apresentado pela Universitária FM/Funpec ao I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos / Prêmio Roquette-Pinto. Realizado pela Arpub (Associação das Rádios Públicas do Brasil), com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, o Prêmio selecionou 40 propostas de todo o Brasil, sendo 13 radiodocumentários, e o VOZES DA VILA foi o único projeto contemplado no RN.

O produto consiste em seis horas de programa, dividido em 12 episódios de 30 minutos cada, que aborda aspectos e temas distintos como Cultura Popular, Pesca e Surf (Homens ao Mar), gastronomia (Sabores da Vila), turismo, educação, meio ambiente, urbanismo, lendas, crenças e religiões.

A produção do rádiodocumentário foi finalizada no mês de setembro de 2010, quando foi enviado à Arpub – que irá distribuir nacionalmente entre suas rádios associadas, através do download via site (www.arpub.org.br). Ou seja, além do VOZES DA VILA ser veiculado pela Universitária FM, o programa também será transmitido para todo o País.

Veiculado pela Universitária FM em dezembro de 2010, gerou grande repercussão, comentários e elogios de frequentadores e admiradores de Ponta Negra que tiveram a oportunidade de desvendar e descobrir a verdadeira história do bairro, contada pelos seus protagonistas: nativos, pescadores, rendeiras, mestres, brincantes, moradores.

Atendendo a pedidos dos ouvintes, a emissora irá reprisar os 12 episódios da série a partir da próxima segunda-feira, dia 4 de abril, às 12:30, sempre após o Jornal do Meio Dia. Para ouvir os programas sintonize o dial em 88,9 ou através do site www.fmu.ufrn.br.

Agucem os ouvidos e boa viagem!

Informações, entrevistas e contatos:
Joanisa Prates – (84) 8838-5881
Ana Ferreira – (84) 8824-9155
Yuno Silva – (84) 8827-2006
vozesdavila@gmail.com

Livro revela os encantos da vila

Yuno Silva - repórter
Foto: Joanisa Prates

Não é nenhuma novidade que Ponta Negra é a pérola do Turismo potiguar: sua enseada, emoldurada pelo Morro do Careca, é, sem dúvida, a imagem mais divulgada – tanto pelo Estado quanto pelo Município – aos quatro ventos quando se quer atrair atenções e visitantes para o litoral do RN.

Claro que a praia de Pipa, em Tibau do Sul, e as dunas de Jenipabu, entre outras que estão ganhando fama internacional como São Miguel do Gostoso, no litoral norte do Estado, estão nesse hall de cartões postais, mas Ponta Negra tem um diferencial: ela é guardiã de tradições culturais ainda pouco conhecidas pelos próprios natalenses. Manifestações que ultrapassam a barreira do tempo e resistem aos avanços da tal cultura de massa.

Para contribuir com a divulgação dessa rico patrimônio cultural e artístico, entra em cena o livro "Encantos da Vila", organizado pelo professora Teodora Alves, do Departamento de Artes da UFRN. A obra está saindo pela Editora da UFRN (EDUFRN) com patrocínio do Programa BNB de Cultura, e será lançada hoje, às 19h, na Livraria Siciliano do Midway. "Além de registrar as ações do projeto, o livro também pretende contribuir para dar maior visibilidade a essas atividades tradicionais desenvolvidas na comunidade", aposta a professora. A proposta do livro é relatar de forma lúdica, conceitual e visual a trajetória do "Encantos da Vila", também nome do projeto de extensão em atividade na Vila desde 2004.

De acordo com Teodora Alves, o "Encantos da Vila" identificou cerca de dez grupos tradicionais, dos quais dois irão se apresentar durante o lançamento: o Coco de Roda, do Mestre Severino, e o Boi de Reis Pintadinho, do Mestre Pedro de Lima. Somam-se ao Boi e ao Coco, as rendeiras de bilro e os grupos Bambelô Maçariquinhos da Praia, Pastoril Estrela do Amanhã, Lapinha Protagonistas da Paz, Congos de Calçola e os Conguinhos (versão infantil dos Congos que atua junto aos alunos da Escola Municipal São José).  Destes, o Congos de Calçola é o grupo mais antigo em atividade sem interrupções (há registros de sua existência desde o fim do século 19) e está chegando na quinta geração da família Santos Correia. "O livro ainda inclui outras iniciativas populares da comunidade, como a capoeira e o grupo de percussão Resistência da Lata. Temos sanfoneiros, jovens envolvidos com Hip Hop... o livro não pontua o encerramento de um ciclo, pois há muito mais para conhecermos", acrescenta a professora.

Manifestações culturais como cortejos artísticos, seminários, oficinas de teatro e música, e o espetáculo Auto do Natal da Vila também figuram entre as 175 páginas do livro, que traz prefácio do pró-reitor de Extensão, Cipriano Maia de Vasconcelos. O título será distribuído nas escolas do bairro e bibliotecas da cidade, para evidenciar práticas e saberes que se configuram como parte importante na história. "Por meio de narrativas, convidamos o leitor, seja criança, jovem ou adulto para adentrar aos encantos da comunidade", afirma a autora.

projetos - Turismo cultural e sustentabilidade

O projeto de extensão "Encantos da Vila" surgiu no contexto de desvalorização e dificuldade enfrentadas pelos diversos artistas populares locais: "Desde o início, nossa intenção foi valorizar e multiplicar os saberes por meio de métodos educativos. Damos oportunidade para que as manifestações sejam realizadas no espaço em que são produzidas, como uma forma de incentivar o aprendizado de novos artistas e divulgar, para outros moradores, suas práticas culturais", destacou Teodora.

Segundo a professora, os grupos populares precisam de maior apoio do poder público e implantação de políticas públicas capazes de fortalecer e dar sustentabilidade a essas atividades. "O livro é um convite para instituições públicas e a iniciativa privada possa, de forma efetiva, contribuir para a perpetuação desse patrimônio. Há um grande potencial para desenvolvimento de ações ligadas ao turismo cultural", garante.

Serviço

Lançamento do livro "Encantos da Vila", organizado pela

professora Teodora Alves.

Hoje, às 19h, na Livraria Siciliano do Midway Mall

Encantos da Vila lançará livro

Projeto de Extensão da UFRN lançará livro

O projeto de extensão Encantos da Vila, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vai lançar um livro pela Editora Universitária da UFRN (EDUFRN). Teodora Alves, coautora da publicação e coordenadora do Núcleo de Arte e Cultura (NAC) da UFRN, disse que o lançamento ocorrerá em novembro e que data e local serão definidos assim que a produção dos exemplares for finalizada pela editora.

Com patrocínio do programa BNB de Cultura, o livro, intitulado "(En)Cantos da Vila: vivenciando saberes, uma experiência com arte, cultura e educação", aborda as experiências do projeto Encantos da Vila desde a sua criação, em 2004 até os dias de hoje, com destaque para as ações culturais na Vila de Ponta Negra. "O livro estará disponível em algumas bibliotecas públicas e livrarias de Natal a partir de dezembro", garante Teodora.

A publicação foi organizada pela professora Teodora Alves e teve como coautores os seguintes colaboradores: João Batista, morador da Vila de Ponta Negra; Regina Cássia, do IBAMA; Canindé Guara, músico formado pela UFRN; Ricardo Canella, artista cênico; Rodrigo Severo, estudante de Teatro da UFRN; Jefferson Melo, artista cênico formado pela UFRN.

Ponta Negra: A Vila como ela é



A história e o universo sociocultural da Vila de Ponta Negra serão mostrados para todo o Brasil no radiocumentário “Vozes da Vila”.

Dona Helena é uma das rendeiras da comunidade.

O Brasil vai conhecer a Vila de Ponta Negra. A Vila como ela é, mostrada pela própria comunidade. O radiodocumentário “Vozes da Vila”, único projeto do Rio Grande do Norte selecionado no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos - Prêmio Roquete-Pinto, desvenda, em doze episódios, o universo sociocultural do lugar e resgata os pormenores de sua história, desde quando a comunidade era isolada de Natal e auto-suficiente até os dias de hoje.

Em fase de finalização, com previsão de ser concluído até o final de outubro e enviado à Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) para veiculação em suas rádios associadas provavelmente ainda neste ano, o documentário é um retrato, ou melhor, um registro sonoro fiel da Vila.

As Vozes de uma Vila em projeção nacional

Os 300 anos de cores e sons da Vila de Ponta Negra poderão ser ouvidos em radiodocumentário. O projeto Vozes da Vila está em fase de edição e montagem. Ainda em outubro será enviado à Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) para distribuição nacional entre rádios associadas. Em Natal poderá ser escutado nas rádios Universitária e Senado. 

O projeto foi aprovado no edital Prêmio Roquette-Pinto, da Arpub - com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, que selecionou 40 projetos de todo o Brasil, destes, apenas 13 são radiodocumentários. E o único projeto potiguar aprovado foi o radiodocumentário Vozes da Vila, roteirizado por Yuno Silva e Ana Ferreira e dirigido e produzido por Joanisa Prates.

Serão seis horas de programa, divididos em 12 episódios de 30 minutos cada. Funcionará como uma espécie de registro sonoro e histórico de tudo o que a Vila de Ponta Negra tem para contar: as rendeiras de bilro, a luta pela terra, a invasão militar, os grupos de cultura popular, movimentos sociais, turismo, educação, sabores da vila, surf e pescadores, religião, festejos, lendas e histórias de Lobisomem.

Vozes Multifacetadas




Radiodocumentário mergulha no universo cultural da Vila de Ponta Negra para compor um relato humano e poético 

Das histórias serem faladas e contadas a todo instante, na maioria das vezes quando olhamos para trás percebemos que não há registros dessas vozes que musicam o cotidiano entre conversas fi adas, sérias e mitos, que caracterizam a cultura de pessoas sobreviventes ao império da Modernidade. Foi com objetivo de registrar e contar para a própria Natal e para o Brasil inteiro a história da Vila de Ponta Negra, que foi idealizado o radiodocumentário Vozes da Vila.

Vila de Ponta Negra recebe 9ª edição do “Mungunzá Cultural”


Além da Orquestra Xilofônica, vão tocar bandas da comunidade. Outra atração é o circo Tropa Trupe, que fará intervenção com os presentes.

A Vila de Ponta Negra vai receber, na próxima segunda-feira (27), a 9ª edição do "Mungunzá Cultural". A festa começa a partir das 17h, na praça da Igreja da Vila, levando aos presentes sons tipicamente populares.

Além da Orquestra Xilofônica, as apresentações ficam por conta de grupos da própria comunidade. Os bois de reis e residentes da lata são algumas das atrações. Também vão marcar presença os grupos de maculelê e hip-hop do município de Goianinha.

Outra atração é o circo Tropa Trupe, que fará intervenções com o público. Como a festa vai acontecer no dia de comemorações dos santos Cosme e Damião, os dois serão homenageados nesta edição do Mungunzá Cultural.

Alô alô Vila de Ponta Negra

Repórter: Maria Betânia Monteiro

Projeto Vozes da Vila foi o único do RN selecionado pelo MinC no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos

Antes de ser internacionalmente conhecida como principal cartão postal da cidade; antes de ser vista como destino turístico ou reduto boêmio; e bem antes de ir parar nas páginas policiais, a Vila de Ponta Negra é um grande celeiro de Cultura e tradições que resiste ao tempo, a tudo e a todos. A Vila de Ponta Negra é guardiã de uma história com mais de 300 anos, ainda pouco conhecida pelos natalenses, que catalisa boa parte do que restou da empoeirada memória da capital potiguar.

FJA está há quase um ano com pagamento de editais atrasados


.: O Campo do Botafogo é NOSSO!!!

[clique na imagem para ampliar - foto de Alex fernandes]

CAMPO DO BOTAFOGO
MANIFESTAÇÃO POPULAR CONTRA DESPEJO DA ÁREA DE LAZER

A comunidade da Vila de Ponta Negra promove neste sábado (dia 3), das 10h às 11h, por meio de suas organizações representativas*, manifestação pacífica em prol da única área de lazer do bairro: o Campo do Botafogo. Alvo de especulação imobiliária, a área é utilizada pelos moradores desde 1951 e a partir de 2003 vem enfrentando na justiça o direito de continuar desenvolvendo atividades sociais e esportivas.

Por entender que o espaço do Campo do Botafogo, e seu entorno, é de extrema importância para o bem estar da comunidade, estaremos reunidos com o intuito de dar publicidade à ação de despejo movida contra a permanência desse importante equipamento público de lazer, esporte e educação – atividades que garantem a própria sobrevivência da auto-estima e da identidade cultural dos moradores da Vila de Ponta Negra.

A ação vem à tona após inúmeras batalhas judiciais prejudicadas pelo poder econômico dos grupos interessados em construir na localidade. Trata–se de uma reivindicação aos Poderes Públicos constituídos a fim de impedir o avanço da especulação imobiliária e seus conseqüentes resultados negativos como o aumento da violência e da exclusão social.

O Botafogo Futebol Clube detém a posse de seu campo desde 1951, mas só em 1993 foi concedida, pelo Governo do Estado, a Concessão Real de Uso Gratuito por Tempo Determinado (dez anos) – concessão que só poderia ser revogada caso alguma cláusula do processo fosse descumprida. Porém, antes de expirar o prazo, ainda em 2003, a Imobiliária Santos Ltda alegou ser proprietária da área e desde então a comunidade vem sofrendo pressões para desocupar o espaço.

Mesmo com toda a documentação necessária**, que comprovam irregularidades no processo movido pela empresa, a comunidade não conseguiu restabelecer a Concessão.

Por tudo isso e muito mais, CONVIDAMOS TODOS OS MORADORES DE PONTA NEGRA E NATALENSES INTERESSADOS EM PRESERVAR O DIREITO AO LAZER PÚBLICO para se fazerem presentes no ATO PÚBLICO marcado para este sábado (dia 3), às 10h, em frente ao Cemitério de Ponta Negra.

Vale salientar, que a comunidade da Vila de Ponta Negra está nos planos do Gabinete de Gestão Integrada – GGI para se transformar em exemplo nacional de programa de segurança pública comunitária, um projeto que envolve a Secretaria de Segurança Pública do Estado, Forças Armadas, Justiça e Receita Federal, Polícia Militar, UFRN, Secretarias Municipais, moradores, grupos de Cultura Popular, entre outras organizações e instituições.

* Conselho Comunitário de Ponta Negra, Associação de Moradores da Vila de Ponta, Centro Desportivo do Bairro de Ponta Negra, Clube de Mães, Associação dos Quiosqueiros da Praia de Ponta Negra, Associação das Rendeiras de Ponta Negra, Associação dos Locadores de Mesas e Cadeiras da Praia de Ponta Negra, Associação Cultural Mestre José Correia, Botafogo Futebol Clube, Tec–Mil Futebol Clube, Associação dos Pescadores Futebol Clube, Flamengo Futebol Clube, Vila Velha Futebol Clube, Areia Branca Futebol Clube, Movimento Filhos de Ponta e Movimento SOS Ponta Negra

** Disponível para consulta pública


Contatos:


Onofre Gomes – 9134.3109 / 3641-1457 / 9925.4847
Maria das Neves – 8723-4079 || Joca – 9481-7570
Yuno Silva – 8827-2006

.: Morre o mestre dos Congos de Calçola [junho/09]

TRIBUNA DO NORTE - 07/jun/2009

O Rio Grande do Norte perdeu mais um de seus mestres da cultura popular. Na manhã de ontem, José dos Santos Correia, o mestre Correia do grupo de congos de Ponta Negra, faleceu no Natal Hospital Center após complicações advindas de um Acidente Vascular Cerebral. A família do mestre Correia reclama de falta de assistência no Walfredo Gurgel, hospital onde ele foi atendido primeiramente.

A filha de mestre Correia, Célia Correia, contou que o pai deu entrada no Walfredo Gurgel no dia 26 de maio e esperou vários dias até que realizassem os exames necessários. “Essa foi a pior parte, mas também faltou remédio para ele. O medicamento era dado fora do horário”, reclama. Após o AVC, foi diagnosticado uma pneumonia e um edema no pulmão do mestre Correia.

Um dos filhos de Seu Zé Correia, Magno, reclama ainda da falta de informações dentro do Walfredo Gurgel. “Eles diagnosticaram os problemas, mas não avisaram a família. Nós teríamos tentado transferi-lo há mais tempo”, lamenta Magno Correia. A família Correia está revoltada com a falta de assistência no Walfredo Gurgel.

Segundo o produtor cultural do Grupo Congos e Calçolas, Yuno Silva, o trabalho de mestre Correia será levado adiante. “O grupo é grande e com certeza iremos continuar. Estamos trabalhando para inserir o Grupo nos editais de cultura”, encerra.

.: Cinco grupos de Cultura Popular da Vila de Ponta Negra são premiados em edital da Fundação José Augusto

Resultado do Prêmio Cornélio Campina

Mestre Sebastião Matias e Gari
[foto: Maurício Mont
ecinos]

Lista com o nome dos projetos selecionados no edital “Prêmio Cornélio Campina de Culturas Populares”. Este concurso teve como objeto a seleção e a premiação de projetos de grupos tradicionais da Cultura Popular do Rio Grande do Norte, em atividade há pelo menos cinco anos.

Por manifestações tradicionais compreendem-se celebrações, rituais, festas e práticas sociais reconhecidas pelas comunidades como parte de seu patrimônio cultural.

O Prêmio homenageia o ex-mestre do Grupo Araruna, Cornélio Campina, criador da Araruna Sociedade de Danças Antigas e Semi-Desaparecidas e falecido em agosto do ano passado.

Os cinco projetos da Vila de Ponta Negra premiados são:

• Boi de Reis Pintadinho
Mestre Pedro Carlos de Lima
Vila d
e Ponta Negra, Natal

[foto: Caubi Matias]








Bambelô Maçariquinho da Praia
Mestre Seb
astião Matias
Vila de Ponta Negra, Natal


[foto: Caubi Matias]






Congos de Calçola
Mestre Pedro Correia
Vila de Ponta Negra, Natal


[foto: Caubi Matias]






Lapinha
Coordenadora Lucimar Ferreira
Vila
de Ponta Negra, Natal

[foto: Caubi Matias]





Rendeiras da Vila
Mestra Maria de Lurdes de Lima
Vila de Ponta Negra, Natal

[foto: Marcone/DN]










# Confira a
relação dos demais grupos selecionados:

. Araruna Associação Dança Antigas e Semi-Desaparecidas (Natal)
. Bambelô da Alegria (São Gonçalo do Amarante)
. Boi Calemba de Mestre Elpídio (Parnamirim)
. Boi Calemba Pintadinho (São Gonçalo do Amarante)
. Boi de Reis de Baile: Os Reis do Oriente (Santa Cruz)
. Boi de Reis de Cuité (Pedro Velho)
. Boi de Reis de Dona Cecília (Extremoz)
. Boi de Reis de Zé Barrá (Murici, Extremoz)
. Boi de Reis Estrela do Oriente (Felipe Camarão, Natal)
. Lampião de Arêz (Arêz)
. Coco de Roda (Extremoz)
. Rabequeiro (Laranjeira do Abdias, São José do Mipibu)
. Dramas – Maria José dos Santos (Maxaranguape)
. Esculturas em Madeiras de Neném de Chicó (Jardim do Seridó)
. Irmandade de São Sebastião (Jardim do Seridó)
. Lapinha de Maxaranguape (Maxaranguape)
. Maneiro Pau de Dr. Severiano
. Pastoril Dona Joaquina (São Gonçalo do Amarante)
. Congos de Calçolas (São Gonçalo do Amarante)
. Rei de Congo do Mestre Dedé (Major Sales)

>>> Comentário pertinente: Anos de tradição e meses de trabalho para elaborar os projetos foram recompensados. NÓS, moradores da Vila de Ponta Negra, estamos certos que só com Cultura, Esporte, Educação, e Qualificação Profissional, mais mobilização voluntária e compromisso coletivo/comunitário, é possível transformar socialmente a realidade do bairro. Defendemos iniciativas políticas em favor da Cultura, e não o contrário.

.: Em busca da segurança sustentável

TRIBUNA DO NORTE - 26/jul/09
Repórter: Priscilla Castro
Foto: Elisa Elsie

Reunião do Gabinete de Gestão Integrada (GGI)

Natalenses e turistas já estão acostumados com o principal cartão postal da cidade do Sol: a praia de Ponta Negra, sob o foco do encantador Morro do Careca. Uma representação das belezas naturais que, aliada aos enormes prédios arranha-céus, ao boom imobiliário e ao alto custo de moradia, imprimem ao lugar um efeito poético de uma riqueza que nem sempre é real. Pelo menos, não para todos que moram ali.

Na parte mais carente do bairro, a Vila de Ponta Negra, são a segurança, o saneamento básico e a educação que merecem a luz dos holofotes. E é diante de um quadro de violência, miséria e tráfico de drogas, que a comunidade aposta todas as fichas em um projeto diferente, que promete transformar os comuns discursos políticos em ações pontuais de segurança sustentada.

Desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com o Gabinete de Gestão Integrada (GGI) da Secretaria Estadual de Segurança Pública, o projeto pretende beneficiar os 40 mil moradores do bairro, com algumas ações pontuais voltadas especificamente para os que representam a parte mais pobre da comunidade. Para se ter uma ideia, quase duas mil famílias da Vila de Ponta Negra fazem parte do Programa Bolsa-Família.

E as queixas da comunidade não são poucas, nem simples. Além da violência que assombra a população, o tráfico de drogas aparece como uma preocupação que não para de crescer. Este ano 24 traficantes foram presos na Vila de Ponta Negra. Entre outros tipos de crimes, a delegacia do bairro registrou de janeiro a julho de 2009, seis homicídios, 60 ameaças de morte, 25 ocorrências por lesão corporal, 51 furtos em veículos, 72 furtos em residências, 13 roubos a estabelecimentos comerciais, 81 roubos a transeuntes (pessoas caminhando na rua) e seis tentativas de assassinato.

Para a aposentada Maria das Neves, que mora na Vila há 15 anos, o local foi abandonado pelo poder público. “Aqui na Vila, não vêm equipes do Programa de Saúde da Família (PSF), do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), nem referências em programas de assistência social. Nós não temos saúde, nem educação de qualidade. Além disso, o esgotamento sanitário do bairro ainda é muito precário. Nós queremos novas escolas, um posto de saúde, alguns espaços comunitários, como praças e centros de convivência e um local para tratar os dependentes químicos”, disse.

A proposta do “Projeto Território da Paz”, como é chamado, é substituir a força repressiva pelo trabalho preventivo. Dependendo do tipo de crime, em vez de celas de prisão, os infratores serão encaminhados para as salas de aula. E essa é uma iniciativa pioneira no RN. Em linhas gerais, o projeto pretende direcionar as ações de promoção da paz e da cidadania para quatro linhas mestres: intervenção urbanística, educação, saúde e geração de emprego e renda, tendo como eixo central a questão da segurança pública. Termo que Mário Jambo prefere trocar por “segurança sustentada”, já que uma das propostas é fazer disso uma conjuntura estável.

Para o secretário estadual de Segurança Pública, Agripino Neto, garantir a segurança da sociedade não é dever apenas das forças policiais. “A polícia é uma das responsáveis pela segurança, mas não a única. Nós precisamos da participação da população e de todos os setores do poder público nisso. As ações serão ligadas ao combate às drogas e ao turismo sexual, à valorização do trabalho e da cultura local, à capacitação e treinamento dos nossos profissionais, à melhoria das condições de vida da população e à educação”.

Entretanto, mesmo algumas questões mais urgentes só poderão ser solucionadas absolutamente se pensadas em longo prazo. Como é o caso da educação. Além da construção de novas escolas, centros de convivência e espaços de lazer, é necessário mudar também, a metodologia de ensino. “O estudo da Constituição deveria ser obrigatório em todas as escolas. Imagine o poder de transformação que isso não traria para uma população que conhece seus direitos e sabe pelo que pode lugar”, acredita Mário Jambo.

Agripino Neto acredita que esse será o pontapé inicial para novas iniciativas do tipo. “Nós já estamos articulando outros bairros da cidade para receber o projeto. Em Mãe Luiza, já temos até o espaço, que será o Clube da Associação dos Delegados”, disse.

Projeto Território da Paz quer resgatar a cultura local

A violência que assombra a Vila de Ponta Negra traz também consequências para toda a cidade. Dentre os vários segmentos que acabaram sendo esquecidos, está a rica cultura da comunidade da qual nunca mais se ouviu falar. E o Projeto também promete atuar nesse ramo, investindo em projetos culturais que divulguem a tradição local.

Maria Helena Correia dos Prazeres, de 66 anos, é uma rendeira de mão cheia, que será beneficiada. Ela aprendeu a fazer renda aos sete anos de idade, observando a mãe e as irmãs. “Antigamente, esse era o meio de sustento da família, a gente vivia disso. Passava o dia rendando e depois dava uma porcentagem para alguém ir vender de porta em porta”, contou. O problema é que, hoje, ter essa atividade como única fonte de sustento já não é mais viável. “Esse nosso trabalho ficou muito desvalorizado depois que surgiram as máquinas imitando nosso trabalho e também quando a comunidade começou a crescer descontroladamente”, lamenta.

De um lugar que vivia desse tipo de economia, hoje apenas dez rendeiras mantêm a atividade na Vila. Mas Maria Helena já faz parte de alguns projetos mantidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pela Faculdade de Natal (FAL), como o “Artes na Vila”, que envolve a produção de renda 100% artesanal, e “Encantos da Vila”, que procura divulgar os grupos de dança típicos da comunidade. São administrados cursos para jovens que se interessam em aprender a fazer renda e também apresentações de grupos de dança e de teatro. Há três anos, a comunidade realiza o “Auto de Natal” na Vila, além do Cortejo com todas as danças típicas da Vila, que passeiam pelo bairro divulgando os artistas locais.

O coordenador de cursos e eventos da Pró-reitoria de extensão da UFRN, Alessandro Azevedo, é um dos responsáveis pela elaboração desses programas culturais. Segundo ele, além de aperfeiçoar as ações pontuais que a Universidade já mantém dentro da Vila, o Projeto também pretende criar novas atuações. “A capacidade cultural daquele lugar é incrível. Tem de tudo, grupo de capoeira, dança, música, teatro, folclore, percussão, rendeiras e jangadeiros. Nós queremos dar visibilidade àquilo que a Vila tem de bom para oferecer. Vamos divulgar as coisas belas que não conseguem ser vistas por quem é de fora”, disse.

Para o secretário estadual de Segurança Pública, Agripino Neto, cada segmento cultural precisa de uma base de apoio. Pensando nisso, serão criadas Cooperativas para os Jangadeiros, para os artesãos e para as Rendeiras, que terão também uma grife para o que produzirem. A intenção é, além de valorizar o trabalho deles, aumentar o interesse turístico e da própria população local.

Território da Paz é o sonho da comunidade

Além das propostas “diferentes” para acabar com a violência, o “Projeto Território da Paz” também é singular na forma como começou. Essa não é mais uma ação do Governo que promete tornar o mundo melhor. E, sim de uma comunidade que poderia ter cansado de lutar, mas fica cada vez mais decidida a mudar. Foi por causa da iniciativa dos moradores da Vila de Ponta Negra, que essa ideia não é mais uma a morrer no papel.

A comunidade procurou o GGI após ouvir uma palestra do juiz federal Mário Jambo durante a Campanha da Fraternidade realizada na comunidade, no início deste ano. A moradora Maria das Neves, conhecida por Nevinha, contou que foi a polêmica das sentenças do juiz que levaram a população a pedir sua ajuda. “Ele tem um jeito diferente de aplicar as penas e isso chamou nossa atenção”, contou. Mário Jambo acredita que nos casos em que não houve violência, o melhor tratamento não é a prisão. “Eu prefiro sentenciar o réu a se alfabetizar, a fazer um curso, aprender algo, do que jogar mais um dentro de uma cela lotada, onde nada vai adiantar”, disse.

Para Nevinha, a participação da comunidade é o diferencial que estava faltando. “Geralmente, as autoridades vêm, fazem um estudo rápido e superficial e decidem sozinhos o que deve ser feito. Mas as chances de um projeto como esse dar certo são muito maiores se a própria população apontar o que precisa mudar”, acredita. E ela se mostrou animada. Afinal, a sociedade também vai participar e conhecer de forma direta as novas ações. “Ponta Negra sofreu um processo acelerado de crescimento, que acabou sendo totalmente desordenado e levou a uma degradação da parte mais pobre. Esse projeto é uma forma também de nós questionarmos esse modelo desordenado de crescimento que foi adotado para cá”, disse.

Por enquanto, o plano ainda está em fase de esboço, mas os envolvidos afirmam com todas as letras que não vão deixar a ideia morrer. “Nós ainda não sabemos quanto dinheiro será necessário para fazer as ações, mas o maior investimento é a boa vontade da comunidade. Estamos articulando parcerias com entidades privadas e outros órgãos públicos responsáveis pelos segmentos sociais, mas o mais importante é fazer disso uma parceria continuada. Isso não pode ser mais um Projeto do Governo e, sim, um Projeto de Governo, independente de quem está no poder”, acredita o secretário estadual de Segurança, Agripino Neto.

Ilha da Fantasia será transformada

A miséria aparece por vários motivos, como educação sem qualidade e poucas oportunidades. Um dos focos de atenção é o mau uso do espaço público. Campos de futebol e praças públicas acabam sendo abandonados, sem manutenção ou conservação por parte do poder público, facilitando ainda mais a ocorrência do tráfico. Isso porque nos locais onde não há apropriação da comunidade, os jovens trocam o lazer e as brincadeiras pela experiência com novas drogas.

Hoje, a Rua das Marianas é considerada a mais perigosa da Vila de Ponta Negra. E dando uma boa olhada no lugar, não é difícil entender o porquê. Fazendo divisa com um luxuoso condomínio de casas de Ponta Negra, o local acabou negligenciado pelo medo que desperta na população. Sem a presença do poder público, parte da rua ainda é feita de areia e os moradores não contam com programas básicos de saneamento ou higiene.

Transformar essa esfera é mais uma das promessas do Projeto. E dentre os espaços que serão remodelados, um que merece destaque é o prédio da Pousada Europa, que até 2006 era palco do tráfico de mulheres e de uma prostituição indiscriminada. Os clientes da extinta boate Ilha da Fantasia, utilizavam uma passagem para os quartos da pousada, onde era feita a exploração sexual.

O prédio está fechado e foi tomado pela Justiça Federal, pertencendo hoje à Advocacia Geral da União (AGU), mas na fachada o slogan “Europa Show Room” e a bandeira da União Europeia ainda mantêm as antigas memórias. O que exemplifica a preocupação dos moradores quanto ao crescimento desordenado de um bairro, que não tinha nem política nem educação suficientes para impedir que o local se transformasse em um centro de prostituição de sucesso.

Segundo o juiz federal Mário Jambo, a proposta é transformar o lugar em uma base de assistência social. “Esse é um trabalho pedagógico, onde serão feitas várias ações. O que o lugar vai ser ainda não foi decidido, mas eu quero que seja um centro multidisciplinar para tratar a prostituição infantil e os dependentes químicos”, contou.

Para o coordenador de cursos e eventos da Pró-reitoria de extensão da UFRN, Alessandro Azevedo, um dos responsáveis pelo Projeto, a ação de ordenamento urbanístico que está sendo proposta pelo programa é de fundamental importância. “Não tem sentido nós fazermos as atividades sociais e artísticas, se não dispormos de espaços físicos e territórios que acolham a comunidade. Não se promove só a paz com a cabeça das pessoas, é necessário também o corpo e o espaço físico”, concluiu.

.: CORTEJO CULTURAL na Vila de Ponta Negra, sábado (22), das 16h às 19h, do Cruzeiro até a Igreja

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CORTEJO CULTURAL DA VILA DE PONTA NEGRA

A origem da cidade de Natal se confunde com a história do bairro de Ponta Negra, sobretudo da Vila de Ponta Negra, um lugar com mais de três séculos de tradição que ainda preserva sua Cultura e seus costumes através das gerações. A comunidade, que em sua essência foi formada por agricultores e pescadores, criou raízes e desde sempre é a guardiã do principal cartão postal da capital potiguar: a enseada da praia de Ponta Negra e o Morro do Careca, com suas jangadas, seu artesanato e seus quitutes.

Último reduto da autêntica Cultura popular natalense, a Vila de Ponta Negra não se limita aos casos de violência nem se resume como destino turístico: o bairro pulsa, respira e transpira arte por todas as esquinas e becos.

Para coroar toda essa trajetória e propor alternativas concretas de transformação social (através de iniciativas sócio-culturais) que minimizem as mazelas enfrentadas diariamente pela comunidade, a Associação Cultural Mestre José Correia realiza o VI Cortejo Cultural da Vila de Ponta Negra, em parceria com o Conselho Comunitário de Ponta Negra, projeto Encantos da Vila da UFRN, Movimento SOS Ponta Negra e Ponto de Cultura, com apoio da Fundação Capitania das Artes. O evento acontece neste sábado (dia 22), das 15h (concentração) às 19h, na rua Manoel Coringa de Lemos (rua principal). Acesso gratuito.

A programação do VI Cortejo Cultural, que homenageia o Mestre José Correia do Congos de Calçola (falecido no mês de junho deste ano), irá percorrer o trecho entre a Praça do Cruzeiro e a praça da Igreja Católica (ponto final dos ônibus).

O evento faz parte da programação da Semana do Folclore promovida pela Funcarte e inclui desfile dos grupos de Cultura Popular Bambelô, Congos de Calçola e Conguinhos (formado por crianças do bairro), Pastoril, Lapinha, Boi de Reis, Coco de Roda, mais participação especial da Cia de Danças Populares Imburana - Coco de Roda da Paraíba, do grupo Resistência da Lata e do grupo de teatro Brincarte. Teremos ainda uma tenda que abrigará o artesanato produzido no bairro como as Rendas de Bilro, mais quitutes tradicionais da culinária regional.

Durante o Cortejo, que iniciará pontualmente às 16h, haverá um casamento real agendado para acontecer no mesmo dia na paróquia do bairro, ou seja, teremos uma grande festa popular, profana e religiosa com ares de bodas.

Contamos com sua presença e com seu apoio para multiplicar esse convite: participe, conheça, prestigie e valorize o que resta de magia em Natal e na Vila de Ponta Negra.