"Troquei um anel de diamantes por um relógio frito, destruí o meu noivado, o meu namorado deixou-me e eu não sei como vou arranjar dinheiro, sozinha, para pagar uma renda tão alta. Mas pronto, daqui a uns dias é a passagem de ano: festa, fogo de artifício. Por isso, corta tudo, esquece tudo, novo ano, nova felicidade, novos sapatos. São estes os pontos mais importantes do plano actual da minha vida. A parte da felicidade não garanto, mas a questão dos sapatos acho que vou conseguir.
Passo practicamente todo o dia de Natal deitada no sofá a odiar o Stefan. Fixo o olhar no tecto, imaginando-o arrependido, a chegar de gatas ao pé de mim e a desculpar-se pela sua reacção exagerada, a pedir que tentemos mais uma vez, porque sem mim não pode viver. Ah! Tarde de mais, meu querido! Sem piedade, mando-o dar uma volta. Devia ter pensado bem antes de me chamar calculista, insensata, gananciosa e histérica. Podia ajoelhar-se à minha frente, mas eu fechava-lhe a porta na cara soltando gargalhadas sarcásticas.
Fritei-lhe o relógio e agora frito-lhe o coração.
Durante as minhas meditações de ódio no sofá da sala, percebi uma coisa sobre as repreensões do Stefan. Sou insensata e calculista, disse ele. Como pode uma coisa ter a ver com a outra? Posso ser insensata e por isso não ter interesse em nada, ou totalmente calculista, o que me parece impossível pelo facto de ter ovários. O que me apetecia era telefonar-lhe e pedir que me explicasse isto tudo muito bem. Mas nem sei onde o posso encontrar. A sua explosão foi um bocado precipitada. E um bocado barulhenta. E um bocado feia.
— Podes esquecer o noivado! — gritou, voltando a vestir-se.
— Foi o que conseguiste com a tua ganância! Não vou de certeza casar com alguém tão insensato e calculista como tu. Da próxima vez que estiveres descontente por alguma coisa não estar bem, deitas fogo ao meu carro, é? Não, estou farto dos teus ataques de histeria.
Vamos separar-nos. Vou sair de casa. De qualquer maneira, só pensas
Não tenho paciência para isto!
PUMBA, bateu com a porta e desapareceu com relâmpagos e trovões. Levou o meu anel de noivado, claro, mas em contrapartida deixou ficar o telemóvel em cima do móvel da entrada e o relógio gorduroso entre as batatas fritas na cozinha. Nem chegou a prová- -las. Acho que era o mínimo que podia ter feito, já que eu me dispus a cozinhar. Talvez agora esteja cheio de fome em casa de um dos amigos, a lamentar-se por me ter tratado tão miseravelmente. Talvez queira telefonar e pedir desculpa, mas não vai conseguir porque se esqueceu do telemóvel. Claro que isto é um disparate. Mas a outra hipótese ainda é mais absurda: ele não telefona porque não quer falar comigo. Mas isso não pode ser possível! Ou pode? Se calhar, aconteceu-lhe alguma coisa. Pode estar no hospital, sem documentos, sem memória. Humm, até parece plausível. A qualquer altura, pode chegar o momento em que nos apercebemos de que não podemos estar eternamente a matutar no sofá, afundados
Estou, daqui fala a Pia Herzog. Só te queria desejar um Feliz Natal. Ah, já que estou a falar contigo: por acaso o meu namorado não está a viver em tua casa? Acho melhor não fazer nada. Deito-me no sofá outra vez? Não! A vida não acontece no sofá. Quero voltar a planear e organizar o meu futuro com cabeça, em vez de me andar a lamentar por causa do Stefan. Penso que é altura para um novo começo, cheio de fôlego e optimismo.
Primeiro passo: vou chorar no colo de alguém.
Em princípio, seria a minha mãe. Devia ficar contente se eu a visitasse porque essa é a sua obrigação como mãe. Mas amanhã estou em casa dos meus pais de qualquer maneira, e isso chega perfeitamente. Além disso, a minha mãe gosta do Stefan. Até é bem possível que tome o partido dele. E assim não dá vontade nenhuma de chorar.
A segunda paragem possível para chorar seria a minha amiga Tanja Armbruster, aquela que o Stefan diz que é maluca e vem de um universo paralelo. Ela, por seu lado, diz que ele é um robô, que tem uma bomba de óleo em vez do coração. Pessoalmente, penso que ambos têm razão."
Martina Paura, O Ano Tem 12 Homens