Enfim, coisas da vida ...
“Um pouco de filosofia inclina a mente do homem para o ateísmo, mas a profundidade em filosofia o avizinha da religião.” Francis Bacon
Pretendo que este espaço virtual seja um ponto de encontro de pessoas que se sentem mais ou menos tocadas pela vida, e que haja respeito por todas as opiniões e acima de tudo abertura para se escrever sobre tudo, mesmo tudo.
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quarta-feira, julho 14, 2010
Frase de Semana by Francis Bacon
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Ateus
E a luta interior de José Saramago com Deus, continua!
Desta vez, num texto curto de facil leitura, apresenta a sua concepção das religiões, fundamentado numa afirmação do grande teólogo das Religiões - Hanz Kung. De facto, nota-se um certo mal estar e uma postura anti-religiosa neste seu texto, mas, no entanto, a tentativa de explicação do sobrenatural é fantástica.
Desta vez, num texto curto de facil leitura, apresenta a sua concepção das religiões, fundamentado numa afirmação do grande teólogo das Religiões - Hanz Kung. De facto, nota-se um certo mal estar e uma postura anti-religiosa neste seu texto, mas, no entanto, a tentativa de explicação do sobrenatural é fantástica.
Penso que vale a pena lêr e meditar, obrigando a nós - crentes - a repensar seriamente na abordagem e na maneira como transmitimos à sociedade a "nossa" vivência religiosa. Pois, com as "nossas" atitudes pode muito bem levar a estas conclusões, ou não ? ! ...
Enfim, coisas da vida ...
Enfrentemos os factos. Há anos (muitos já), o famoso teólogo suíço Hans Küng escreveu esta verdade: “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros”. Jamais se disse nada tão verdadeiro. Aqui não se nega (seria absurdo pensá-lo) o direito a adoptar cada um a religião que mais lhe apeteça, desde as mais conhecidas às menos frequentadas, a seguir os seus preceitos ou dogmas (quando os haja), nem sequer se questiona o recurso à fé enquanto justificação suprema e, por definição (como por demais sabemos), cerrada ao raciocínio mais elementar. É mesmo possível que a fé remova montanhas, não há informação de que tal tenha acontecido alguma vez, mas isso nada prova, dado que Deus nunca se dispôs a experimentar os seus poderes nesse tipo de operação geológica. O que, sim, sabemos é que as religiões, não só não aproximam os seres humanos, como vivem, elas, em estado de permanente inimizade mútua, apesar de todas as arengas pseudo-ecuménicas que as conveniências de uns e outros considerem proveitosas por ocasionais e passageiras razões de ordem táctica. As coisas são assim desde que o mundo é mundo e não se vê nenhum caminho por onde possam vir a mudar. Salvo a óbvia ideia de que o planeta seria muito mais pacífico se todos fôssemos ateus. Claro que, sendo a natureza humana isto que é, não nos faltariam outros motivos para todos os desacordos possíveis e imagináveis, mas ficaríamos livres dessa ideia infantil e ridícula de crer que o nosso deus é o melhor de quantos deuses andam por aí e de que o paraíso que nos espera é um hotel de cinco estrelas. E mais, creio que reinventaríamos a filosofia.
quinta-feira, setembro 11, 2008
As férias já eram ...
Amig@s após a minha ausência, mais do que natural, para férias volto com um artigo escrito por um dos blogues que mais aprecio, o do jornalista Miguel Marujo. A sua maneira de escrever e de pensar revela-se muito inteligente, indo na sua maioria das vezes ao encontro daquilo que penso sobre o mundo e a sociedade portuguesa.
Sinceramente, apreciei muito este seu texto e daí ter escolhido como post de "reentré".
Leia-no e comentem se acharem que vale a pena.
Enfim, coisas da vida ...
Os vencidos do catolicismo
A expressão para este post prometido tomo-a de João Bénard da Costa, que algures nos anos 90 contou no Independente (e depois em livro) o desencanto com a Igreja do seu tempo que o levou a sair, vencido. Hoje, lendo muitas das suas crónicas de viagem e de cinema redescobrimos partículas de Deus, que parecem ganhar ao Bénard que saiu vencido pela instituição.
Hoje, haverá quem se afaste e saia por motivos semelhantes (não escrevo iguais: as épocas, o contexto, são outros). Porque não gosta do que se diz sobre a moral sexual, sobre os divórcios, sobre o aborto ou a participação política. Sobre isto e aquilo. Também há mesquinhez deste mundo. Por causa do padre que não deixa fazer o bailarico ou porque mete dinheiro ao bolso. Por causa do bispo que não vem à paróquia há meses. Eu, por mim, aqui vou despejando mais as minhas fúrias que alegrias. Mea culpa. Mas as fúrias metem-me mais a pensar, as alegrias preferem-se vividas (em tempos de MCE falávamos da importância das pequenas grandes coisas, aquele trabalho discreto que não se alardeia, o gesto que se tem sem pedir recompensa...).
Quando escrevi uma dessas fúrias, houve quem lesse ali sinal de uma estóica resistência ou, eventualmente, palerma teimosia em permanecer. Tenho amigos, católicos, que acham que quero vincular a Igreja a este tempo e a este mundo, e que não pode, ser porque estas coisas (dos divórcios, uniões de facto, aborto, ordenação de mulheres,... e esta misturada faz-me azia, por serem coisas tão diferentes, cheias de cinzentos, nada a preto e branco) são conjunturais e a Igreja move-se à velocidade de 2000 anos, necessariamente lenta, até imóvel, mesmo que esqueçam (eles) que houve Vaticano II - e não as minhas ideias pequenas.
Do outro lado, há uma preocupação de muitos não crentes e ateus (veja-se o Diário Ateísta, que é mais um blogue anticatólico/cristão/religioso, e que prefere o insulto à discussão, do que de defesa do ateísmo) pelas coisas eclesiais, que chega a raiar o absurdo, quando se põem a discutir o documento vaticano sobre a forma como celebramos a Eucaristia: se um católico escrevesse todos os dias sobre o modo como se organiza o PCP ou a Associação República e Laicidade, apontando-lhes maneirismos, anacronismos ou o apoio a ditaduras, inquisições dos tempos modernos, que responderiam eles?... Mandavam-nos para a sacristia.
Outros ainda pensam, como Joana Lopes, que por causa das minhas fúrias estarei em rota de colisão: «(...) se optarem um dia por sair, façam-no devagar, sem bater de portas e vão ver que não custa assim tanto. Mas se decidirem ir ficando, então coragem – só isso. Não me apetece discutir assim: custaria muito sair, porque a minha pertença à Igreja não é posta em causa pelos padres tontos ou de bispos menos razoáveis. Nós somos Igreja, tanto como o patriarca ou o Papa, como o João César das Neves ou o João Seabra. Dizia um amigo, perante o elogio exterior, "mas vocês são católicos progressistas", terrível ideia, que "não, nós somos da mesma Igreja do cardeal ou dos que se ajoelham em Fátima". Mas a minha fé, esta fé, vive-se de modo diverso, vive-se no instante que é sentirmo-nos próximos do abismo na basílica de Assis ou na Capela Sistina. Aí, ou nos Picos da Europa ou no pôr-do-sol de Inhambane, ou na hora da morte estúpida e inesperada de um amigo. Não são os pecados da Igreja que me fazem correr dela, cansar dela, fazem-me antes querer continuar a pôr em cada coisa que faço solenidade e risco, como escreveu Sophia.
A coragem em ficar é tão grande como a dos que andam fora. Apetece dizer. Hoje, quando nos dizemos católicos, parece que nos aturam enquanto batemos também nos bispos, em Roma ou na beata. Não passa por isto a minha fé. Não sou um vencido, mas também não entendo que se diga, que se escreva, «há, em Portugal, muito mais intolerância e fundamentalismo religioso activo do que talvez se pense». Os exemplos são os do costume, mas também há dados novos: «Mas esse fundamentalismo obscurantista, e o intolerável moralismo que lhe está sempre associado, existe e aparece agora muitas vezes sob a capa de associações e ONG's beneficentes. Continua a minar este país, o profundo e o urbano, com grandes danos e muitas consequências.» Não percebo se se fala da tremenda acção social da Igreja, que em alguns casos, demasiados casos, está onde o Estado português nunca esteve.
Mas menos entendo o uso de palavras como "fundamentalismo obscurantista". É, para mim, tão obscurantista os fundamentalismos trauliteiros de muitos católicos desta praça como agora achar que os ateus detêm a verdade e só eles viram a luz, numa evangelização fundamentalista do espaço público, do País, em que no fundo querem acabar com os católicos, os crentes. No fundo: acabar com a diferença, com quem pensa e vive de modo diverso. Sem tolerância.
artigo de Miguel Marujo em Cibertúlia
imagem fonte: Agência Ecclesia - João Bénard da Costa
Sinceramente, apreciei muito este seu texto e daí ter escolhido como post de "reentré".
Leia-no e comentem se acharem que vale a pena.
Enfim, coisas da vida ...
A expressão para este post prometido tomo-a de João Bénard da Costa, que algures nos anos 90 contou no Independente (e depois em livro) o desencanto com a Igreja do seu tempo que o levou a sair, vencido. Hoje, lendo muitas das suas crónicas de viagem e de cinema redescobrimos partículas de Deus, que parecem ganhar ao Bénard que saiu vencido pela instituição.
Hoje, haverá quem se afaste e saia por motivos semelhantes (não escrevo iguais: as épocas, o contexto, são outros). Porque não gosta do que se diz sobre a moral sexual, sobre os divórcios, sobre o aborto ou a participação política. Sobre isto e aquilo. Também há mesquinhez deste mundo. Por causa do padre que não deixa fazer o bailarico ou porque mete dinheiro ao bolso. Por causa do bispo que não vem à paróquia há meses. Eu, por mim, aqui vou despejando mais as minhas fúrias que alegrias. Mea culpa. Mas as fúrias metem-me mais a pensar, as alegrias preferem-se vividas (em tempos de MCE falávamos da importância das pequenas grandes coisas, aquele trabalho discreto que não se alardeia, o gesto que se tem sem pedir recompensa...).
Quando escrevi uma dessas fúrias, houve quem lesse ali sinal de uma estóica resistência ou, eventualmente, palerma teimosia em permanecer. Tenho amigos, católicos, que acham que quero vincular a Igreja a este tempo e a este mundo, e que não pode, ser porque estas coisas (dos divórcios, uniões de facto, aborto, ordenação de mulheres,... e esta misturada faz-me azia, por serem coisas tão diferentes, cheias de cinzentos, nada a preto e branco) são conjunturais e a Igreja move-se à velocidade de 2000 anos, necessariamente lenta, até imóvel, mesmo que esqueçam (eles) que houve Vaticano II - e não as minhas ideias pequenas.
Do outro lado, há uma preocupação de muitos não crentes e ateus (veja-se o Diário Ateísta, que é mais um blogue anticatólico/cristão/religioso, e que prefere o insulto à discussão, do que de defesa do ateísmo) pelas coisas eclesiais, que chega a raiar o absurdo, quando se põem a discutir o documento vaticano sobre a forma como celebramos a Eucaristia: se um católico escrevesse todos os dias sobre o modo como se organiza o PCP ou a Associação República e Laicidade, apontando-lhes maneirismos, anacronismos ou o apoio a ditaduras, inquisições dos tempos modernos, que responderiam eles?... Mandavam-nos para a sacristia.
Outros ainda pensam, como Joana Lopes, que por causa das minhas fúrias estarei em rota de colisão: «(...) se optarem um dia por sair, façam-no devagar, sem bater de portas e vão ver que não custa assim tanto. Mas se decidirem ir ficando, então coragem – só isso. Não me apetece discutir assim: custaria muito sair, porque a minha pertença à Igreja não é posta em causa pelos padres tontos ou de bispos menos razoáveis. Nós somos Igreja, tanto como o patriarca ou o Papa, como o João César das Neves ou o João Seabra. Dizia um amigo, perante o elogio exterior, "mas vocês são católicos progressistas", terrível ideia, que "não, nós somos da mesma Igreja do cardeal ou dos que se ajoelham em Fátima". Mas a minha fé, esta fé, vive-se de modo diverso, vive-se no instante que é sentirmo-nos próximos do abismo na basílica de Assis ou na Capela Sistina. Aí, ou nos Picos da Europa ou no pôr-do-sol de Inhambane, ou na hora da morte estúpida e inesperada de um amigo. Não são os pecados da Igreja que me fazem correr dela, cansar dela, fazem-me antes querer continuar a pôr em cada coisa que faço solenidade e risco, como escreveu Sophia.
A coragem em ficar é tão grande como a dos que andam fora. Apetece dizer. Hoje, quando nos dizemos católicos, parece que nos aturam enquanto batemos também nos bispos, em Roma ou na beata. Não passa por isto a minha fé. Não sou um vencido, mas também não entendo que se diga, que se escreva, «há, em Portugal, muito mais intolerância e fundamentalismo religioso activo do que talvez se pense». Os exemplos são os do costume, mas também há dados novos: «Mas esse fundamentalismo obscurantista, e o intolerável moralismo que lhe está sempre associado, existe e aparece agora muitas vezes sob a capa de associações e ONG's beneficentes. Continua a minar este país, o profundo e o urbano, com grandes danos e muitas consequências.» Não percebo se se fala da tremenda acção social da Igreja, que em alguns casos, demasiados casos, está onde o Estado português nunca esteve.
Mas menos entendo o uso de palavras como "fundamentalismo obscurantista". É, para mim, tão obscurantista os fundamentalismos trauliteiros de muitos católicos desta praça como agora achar que os ateus detêm a verdade e só eles viram a luz, numa evangelização fundamentalista do espaço público, do País, em que no fundo querem acabar com os católicos, os crentes. No fundo: acabar com a diferença, com quem pensa e vive de modo diverso. Sem tolerância.
artigo de Miguel Marujo em Cibertúlia
imagem fonte: Agência Ecclesia - João Bénard da Costa
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Na Linha Da Utopia [05.12.2007]
1. A complexidade da vida em sociedade democrática faz com que os dilemas que, de quando em quando se vão levantando, sejam ineficientes em ordem a um sempre maior desenvolvimento futuro. Dilemas como “público ou privado”, “tecnologias ou filosofias”, “igrejas ou estados”, “máquinas ou pessoas”, quando ainda tornados presentes espelham uma visão parcelar (quando não mesmo radical) da realidade que é bem mais abrangente que qualquer esquema pré-definido. Quando se quer considerar a realidade como se ela fosse “preta ou branca” estamos diante de uma visão pragmática e tecnocrática que se fica pela rama… O tempo histórico dos dilemas na abordagem social, como se esta pudesse ser vista numa linha instrumental, teve a sua época e quando ainda brilham reflexos desta forma de pensar será porque as bases de uma memória aberta e consciente andam pela rama.
2. A própria história, na sua construção (dialéctica) em crescendo é mesmo assim, e tantas vezes as querelas culturais entre os conservadores do passado e os progressistas do “amanhã” ocuparam demasiado espaço, como se a história das pessoas em sociedade fosse algo desgarrado da vida simples e concreta e não tivesse a capacidade razoável de ser receptora dos impulsos renovadores. (Por vezes assim foi!) Um desses momentos marcantes, que valerá a pena recordar, de tensão entre o passado e o futuro foi a famosa crise cultural francesa dos fins do séc. XVII, a designada de “Querela dos Antigos e dos Modernos” (1687-1715); uma “guerra” cultural na viragem do século e no fim de uma época. Dizem os estudiosos que este tempo, em muito, preparou as ideias futuras, mesmo nas ciências das sociais e psicologias.
3. Sendo certo que os tempos de mudança acelerada (como a globalização presente) desafiam grandemente à consistência dos valores essenciais, verificamos que diante das tensões e fragmentações sociais ganha essencial importância o equilíbrio de pontes entre o passado e o futuro. A mudança (silenciosa) de paradigmas em andamento que vão transformando as concepções de Família, Escola, Religião, Estado, Comunicação (on-line)… precisam de novas pontes de entendimento e não de dilemas que separam toda a densidade da realidade, hoje em “rede”. Neste procurado equilíbrio, não há fórmulas, na certeza de que o futuro daqui a uma década será muitíssimo diferente do passado de há dez anos. Basta ouvir os sentimentos que pairam nas “ruas” do mundo para que a apreensão se transforme em pontes de realismo para um saudável futuro. Na obra “As Chaves para o Séc. XXI” (com a UNESCO, 2000), sublinha-se que este não pode ser um monólogo tecnológico, mas de diálogo entre as pessoas. Aqui todos os instrumentos podem ajudar, mas tudo depende, cada vez mais, dos valores realistas dos utilizadores. Afinal, sempre assim foi!
Alexandre Cruz [05.12.07]
[imagem capa do livro "As Chaves para o Séc. XXI"] fonte: http://www.webboom.pt
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