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terça-feira, janeiro 20, 2009

As declarações de D. José Policarpo

Um monte de sarilhos

Basta olhar para D. José Policarpo, conhecer minimamente o seu percurso e tê-lo ouvido ou lido em entrevistas nos media para qualquer um perceber que está perante o oposto de um incendiário. A imagem e a vida do patriarca de Lisboa, a par da forma como tem desempenhado o seu cargo, são testemunho bastante de que estamos perante um homem de tolerância e diálogo, que não precisa de justificações nem de defesa para compor esse perfil. Aliás, no seu alerta às jovens para os casamentos com muçulmanos, feito numa espécie de conversa de café - ou de casino, como foi precisamente o caso - pressente-se até alguma bonomia irónica. Se pretendesse dar peso e solenidade ao seu 'aviso', certamente não recorreia a uma expressão como "monte de sarilhos", nem poria Alá no lugar da palavra que os católicos usam para falar de Deus.

Dir-se-á que, na posição em que se encontra, D. José Policarpo deve ter sempre presente o que se passou com o Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona e evitar este tipo de considerações em público. É verdade. Mas os patriarcas - e, pelos vistos, até o Papa - também cometem erros de avaliação quanto ao efeito das suas palavras. Não admira, aliás, que tal aconteça, porque estão vigiados e escrutinados à lupa pela lógica do medo, ou do 'ai, que os muçulmanos ofendem-se!' com que a esquerda sectária e outros sectores e organizações influentes na política e nos media hoje disfarçam, se bem que mal, a sua militância ardente contra a Igreja Católica e todos os valores que esta defende.

Isto quando nenhuma voz se levanta e muito menos se indigna com o que dizem sobre os cristãos e a cultura ocidental certos imãs fundamentalistas que não fazem senão apelos directos e inflamados ao ódio. Incluindo em países europeus onde o Islão é ultraminoritário. Esses, sim, contribuem para envolver o mundo num "monte de sarilhos", mas não há jornal que os critique, ou televisão que os aponte. Nem a esquerda bem pensante levanta a voz para lhes denunciar o fanatismo.

Felizmente não há, que se saiba, clérigos desses em Portugal. E os líderes da comunidade muçulmana, apesar de quase empurrados pelo frenesim mediático para uma reacção com dureza, tiveram, neste caso como noutros já passados, a serenidade e o bom senso de relativizar o que só podia e devia ser relativizado. Se o fizeram foi certamente porque conhecem e respeitam o patriarca de Lisboa e o seu trabalho. Talvez mais e melhor do que muitos que, de forma oportunista, se armam em advogados dos muçulmanos sem terem procuração para tal.

:: Fernando Madrinha no jornal
Expresso 

terça-feira, novembro 06, 2007

Na Linha Da Utopia [06.11.2007]

É só vir na TV!

1. Os instrumentos de comunicação vão ocupando o lugar referencial central. São admiráveis, mas desafiam fortemente o utilizador… que vai valorizando mais o parecer - aparecer (por isso o ter), e perdendo o SER, a essência, o essencial da própria vida. Nada de novo a que já não estejamos de tal forma habituados que já nem damos por isso. Mais que nunca, hoje, a TV põe e despõe, constrói e destrói. Das estrelas e vedetas do mundo do espectáculo e desporto, às políticas e (des)culturas, a tudo e em tudo a televisão - hoje on-line – quer garantir uma plateia mundial em que, mesmo no meio da informalidade dos entretenimentos, procura uma formalidade que, de tanto repetir nas imagens, passa a ser mesmo “verdade”, mesmo que não o seja. A frase que tantas vezes se diz de que “veio na televisão” é o espelho cabal deste estatuto de uma ilusão infalível. Puro engano!

2. Há dias, quando da edição de duas publicações de figuras bem conhecidas da praça pública (Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos), alguém da área questionava para quê tanta divulgação publicitária de pessoas que já têm um palco habitual o que levaria a prescindir de tanto markting. Nessa conversa radiofónica, então, começou-se a explicar todo este gigantesco processo de bastidores que depois quer resultar na “obrigação” de o cidadão comprar o produto. E este efeito de impressão no espectador é tanto mais poderoso quanto menos visão crítica uma comunidade social tiver. Ir sempre atrás da última moda, tantas vezes (veja-se em Portugal o mega-caso do telemóvel - no mundo somos dos maiores!..) será sinal de que algo de estruturante no plano cultural nos continua a faltar. Para já não dizer quando falta o dinheiro!...

3. Se ao poder da mágica TV pertence já o historial da investigação (mesmo) criminal no nosso país, lembre-se que a “ponta” de alguns novelos (como por exemplo o da Casa Pia) têm nascido das comunicações sociais, a verdade é que uma nova força denunciadora e poderosa se vai consolidando. O caso de situações de campanhas positivas ou de casos grotescos de indignidade, de saúde, mesmo a denúncia de ineficácia e incúria de instituições (públicas ou privadas) torna a televisão um meio poderoso e de delicada atenção. Em situações especialmente gritantes (como a recente da professora, em termos de saúde, claramente incapaz de leccionar) os cidadãos descobriram na TV um aliado especial que também “precisa” dessas notícias… As autoridades responsáveis da devida tutela ganham visibilidade pela negativa, e claro, como há que rapidamente acalmar as águas, a situação tem solução rápida. Do mal, o menos! Mas…nas sociedades ditas de desenvolvidas não é uma questão de TV mas de humanidade diária…

Alexandre Cruz [06.11.07]
[imagem: "Sin título", de José María Niimura] fonte: webjornal.blogspot.com

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