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sábado, janeiro 04, 2025

2024 / 10 filmes [8]

* JOKER: LOUCURA A DOIS, de Todd Phillips

Tão intenso e perturbante como o primeiro, de novo encarnado pelo admirável Joaquin Phoenix, não se poderá dizer que o segundo Joker de Todd Phillips seja o contrário do seu antecessor apenas por causa do génio musical & dramático de Lady Gaga. O certo é que a sua presença se revela decisiva no desvio desta "Folie à deux" para um território em que emerge uma exuberância operática que, em última instância, se mantém rigorosamente fiel à energia trágica do primeiro filme — aliás, redobra essa energia. A confirmar que o uso do IMAX não deve ser propriedade privada dos filmes de super-heróis gerados por executivos indiferentes à beleza que o cinema pode conter.


[ Reality ] [ Um Casal ] [ Challengers ] [ No Interior do Casulo Amarelo ] [ Memória ] [ Juror #2 ]
[ O Amor segundo Dalva ]

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segunda-feira, novembro 04, 2024

O esplendor de Lady Gaga

Sob o signo de Joker

A composição de Lady Gaga como Harley Quinn, contracenando com Joaquin Phoenix, em Joker: Loucura a Dois, é a prova muito real de um talento que passa pelas canções, mas não se esgota na música: ela é também uma verdadeira estrela de cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 outubro).

O novo álbum de Lady Gaga, lançado a 27 de setembro, é um belo reflexo das singularidades do seu imenso talento. Chama-se Harlequin e, além de dois temas originais, apresenta como matéria principal as canções da banda sonora de Joker: Loucura a Dois. Não exactamente tal como se ouvem no filme, mas trabalhadas em estúdio para recriar algumas memórias clássicas do cancioneiro made in USA.
No seu alinhamento encontramos, por exemplo, Good Morning, tema interpretado por Judy Garland e Mickey Rooney em Babes in Arms/De Braço Dado (1939), de Busby Berkeley, porventura mais conhecido pela sua utilização em Serenata à Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen. Ou ainda That’s Entertainment, verdadeiro hino do espectáculo segundo Hollywood, proveniente de The Band Wagon/A Roda da Fortuna (1953), de Vincente Minnelli — agora, na cena da prisão em que Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) e os outros reclusos assistem a um filme através de um velho projector de 16mm, esse filme é, justamente, The Band Wagon, na cena em que Fred Astaire, Jack Buchanan, Nanette Fabray e Oscar Levant cantam That’s Entertainment.
Quer isto dizer que Harlequin reafirma a capacidade de Lady Gaga revisitar e reinventar temas viscerais do imaginário americano do espectáculo, prolongando a lógica criativa de Cheek to Cheek (2014) e Love for Sale (2021), os dois belíssimos álbuns que gravou com Tony Bennett. Tal princípio artístico duplica-se na notável composição de Harley Quinn, muito para lá de qualquer função de mero “apoio” (“supporting actress”, diz o cânone) ao Joker que Phoenix refaz com inexcedível brilhantismo.
Lady Gaga distingue-se pelo esplendor das verdadeiras estrelas. O filme que a consagrou — Assim Nasce uma Estrela (2018), de e com Bradley Cooper — tem mesmo um título que se adequa tanto à sua personagem feminina como à respectiva intérprete. Aliás, depois desse filme e antes do novo Joker, vimo-la numa realização de Ridley Scott, Casa Gucci (2021), em que a sua composição, longe do registo melodramático de Assim Nasce uma Estrela, a revelava num sofisticado modelo de farsa, algures entre a alegria cómica e o artifício operático.
Semelhante versatilidade está também bem expressa na sua já muito considerável colecção de telediscos, recriando referências em que se cruzam heranças de cinema, televisão e banda desenhada. Lembremos o exemplo exuberante de Telephone, canção do álbum The Fame Monster (2009) interpretada em dueto com Beyoncé [video]. O respectivo teledisco possui a energia formal (e as cores!) de um objecto eminentemente pop encenado com o misto de provocação e irrisão que é a “assinatura” do seu realizador, o sueco Jonas Akerlund. Tendo em conta que a videografia de Akerlund inclui proezas como Ray of Light (1998), de Madonna, o menos que se pode dizer é que Lady Gaga conhece bem a sua árvore genealógica.


domingo, outubro 13, 2024

SOUND + VISION Magazine
— "Novas aventuras de Joker" [FNAC, hoje]

Reunindo Joaquin Phoenix e Lady Gaga, o segundo Joker é um espectáculo desafiante, com inesperadas e fascinantes componentes musicais — vamos partilhar algumas ideias sobre o fenómeno, revisitando imagens e canções, filmes e telediscos.

>>> FNAC Chiado: dia 13 outubro, 17h00.

terça-feira, outubro 01, 2024

Lady Gaga + Joker

Em paralelo com o lançamento de Joker: Loucura a Dois (quinta-feira nas salas portuguesas), filme em que contracena com Joaquin Phoenix, Lady Gaga lança o maravilhoso Harlequin, álbum de canções (a maior parte "antigas") da banda sonora do filme realizado por Todd Philips. Eis um belo exemplo das singularidades nostálgicas do empreendimento: Get Happy, tema composto em 1930 por Harold Arlen, com letra de Ted Koehler.

segunda-feira, setembro 16, 2024

SOUND + VISION na Fnac:
Bruce + Joker

A nossa próxima sessão na FNAC já está marcada:

* Domingo, 13 de outubro, às 17h00
— o novo Joker, com Joaquin Phoenix e Lady Gaga.

Entretanto, da sessão dedicada a Bruce Springsteen, aqui fica a recordação de I'm on Fire, porventura um dos menos conhecidos telediscos do álbum Born in the USA. Acrescentamos Johnny Bye Bye, lado B do respectivo single, uma bela reinvenção de um tema clássico de Chuck Berry.
 


sexta-feira, abril 12, 2024

Phillips + Phoenix + Gaga

Joker - Folie à Deux, entre nós Joker - Loucura a Dois, chega às salas de cinema em outubro, com Todd Phillips de novo a dirigir Joaquin Phoenix, agora na companhia de Lady Gaga — digamos, para simplificar, que o seu primeiro teaser ficará como uma das mais belas curtas-metragens de 2024.

quinta-feira, agosto 04, 2022

Joaquin Phoenix + Lady Gaga

Depois de rumores lançados por The Hollywood Reporter, a notícia está mesmo confirmada: Lady Gaga vai contracenar com Joaquin Phoenix na sequela de Joker, interpretando a personagem de Harley Quinn. A própria actriz confirmou a sua contratação num video, aqui reproduzido, publicado no Twitter e no Instagram.
A nova realização de Todd Phillips terá como título Joker: Folie à Deux; a estreia está marcada para 4 de outubro de 2024.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

O erro de Joaquin Phoenix

1. Decididamente, Hollywood está a alienar a energia que ajudou a colocar em marcha, ao defender e promover todas as formas de pluralidade no interior do mundo artístico. Por certo em nome da mais cândida celebração dessa pluralidade, Joaquin Phoenix veio dar um contributo trágico para tão cruel desagregação — a pureza militante, mais do que a simplificação dos factos, está a dar lugar à cegueira conceptual.

2. Foi na cerimónia dos BAFTA (os prémios da Academia Britânica das Artes Cinematográficas e Televisivas). Ao receber a distinção de melhor actor pelo seu trabalho em Joker, Phoenix lançou-se num arrazoado totalmente deslocado e contraproducente, considerando que "nós" (quem?) "estamos a lançar uma clara mensagem às pessoas de cor, dizendo-lhes que não são bem-vindas aqui." Mais do que isso, aquela situação (a aceitação do seu prémio?) seria sintoma de um cínico "tratamento preferencial" porque, argumentou ele, "é isso que oferecemos a nós próprios todos os anos" (quem, os brancos?) — em qualquer caso, convém conhecer estas palavras em contexto [video].

3. Sabemos que há componentes racistas na história de Hollywood. Afinal de contas, como separar a "fábrica de sonhos" da história da nação que a gerou? Sabemos também, convém acrescentar (e poucas vezes isso tem sido lembrado), que muitas formas de superação narrativa, política e simbólica da marginalização de minorias sociais ou de género passam pela história frondosa e fascinante de... Hollywood.

4. O certo é que nada disso parece tocar o discurso de Phoenix — será que ele se dá ao luxo de ignorar que a adaptação de To Kill a Mockinbird, de Harper Lee, foi filmada por Robert Mulligan em 1962? E que esse é apenas um exemplo isolado de uma história de muitos contrastes que, para acontecer, não necessitou das militâncias dos últimos dois ou três anos? Em boa verdade, há qualquer coisa de tristemente pueril na vocação panfletária das palavras de Phoenix, acabando por reduzir a complexidade do(s) contexto(s) a uma mera aritmética de quotas, tendencialmente paternalista. O seu erro consiste em querer "corrigir" tal complexidade com o esquematismo beato das quotas.

5. Mais do que isso, Phoenix parece esquecer-se de uma hipótese que valeria a pena ter em conta. A saber: talvez que os votantes o tenham premiado, não por causa da cor da sua pele, apenas porque a sua composição em Joker é de uma genialidade sem mácula. É triste ver um actor, assim, deitar fora a riqueza do seu mundo profissional com a água da ideologia.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

10 filmes que marcaram a década [10]


[ A Rede Social ] [ A Árvore da Vida ] [ Adeus à Linguagem ] [ Cavalo Dinheiro ] [ Silêncio ] [ Paraíso ]
[ Jackie ] [ O Outro Lado do Vento ] [ Happy End ]


JOKER (2019), de Todd Phillips


E chegamos ao encerramento simbólico da década. Como se prova, é possível recuperar as narrativas da BD sem consagrar o cinema de ruidosas atracções tecnológicas que a Marvel instalou no mercado global. Ao trabalhar a personagem de Joker, vinda do universo de Batman, Todd Phillips consagra também o valor mais primitivo da composição do actor: através da fulgurante interpretação de Joaquin Phoenix, descobrimo-nos, inquietos e fascinados, na floresta dos nossos medos.

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Sam Mendes & Quentin Tarantino
vencem Globos de Ouro

Era uma Vez... em Hollywood foi o filme a ganhar mais prémios [3] na noite dos 77. Globos de Ouro atribuídos pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood: melhor musical ou comédia, melhor argumento (Quentin Tarantino) e melhor actor secundário (Brad Pitt). Na linha da frente surge também Sam Mendes e o seu 1917, consagrados como melhor realizador e melhor filme dramático. Joaquin Phoenix (Joker) e Renée Zellweger (Judy) foram os eleitos nas categorias de intérpretes de drama — lista integral de prémios disponível no site da HFPA.

quarta-feira, janeiro 01, 2020

Cinema — TOP 10, 2019

Nunca Deixes de Olhar
Se é verdade que o cinema está a morrer, então a crítica encontrará lugar no mesmo caixão. Bem vistas as coisas, porque não? As grandes histórias do ano são, afinal, sagas financeiras. Joker, por exemplo, filme filosófico como poucos: quando consideramos o que custou e calculamos a sua rentabilidade, verificamos que bateu todos os recordes da Marvel. E que dizer de O Irlandês? Depois das recusas de Hollywood, a Netflix gastou 159 milhões e deixou Scorsese em liberdade total. Os dramas “made in USA” são assim: apaixonantes. Talvez por isso, quase não falámos do modo como Florian Henckel von Donnersmarck revisitou as dores da Alemanha para contemplar as feridas da nossa Europa… Será que estamos todos a aguardar a morte do cinema com optimismo? Convenhamos que o funeral é deslumbrante.


1. JOKER, Todd Phillips

2. O IRLANDÊS, Martin Scorsese

3. ANOITECER, László Nemes

4. ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD, Quentin Tarantino

5. NUNCA DEIXES DE OLHAR, Florian Henckel von Donnersmarck

6. CORREIO DE DROGA, Clint Eastwood

7. VITALINA VARELA, Pedro Costa

8. A PEREIRA BRAVA, Nuri Bilge Ceylan

9. MONROVIA, INDIANA, Frederick Wiseman

10. JOHN McENROE, O DOMÍNIO DA PERFEIÇÃO, Julien Faraut

John McEnroe, o Domínio da Perfeição

segunda-feira, novembro 11, 2019

"Joker": um recorde financeiro

Falar dos dinheiros de Joker? Digamos que a pose de Joaquin Phoenix, entre a ironia e a amargura, resume a questão. A saber: poderíamos estar a falar de um apocalíptico desastre financeiro... sem que isso impedisse o filme de Todd Phillips de ser a esplendorosa obra de arte que é.
Mas... Qual é o mas que aqui se coloca? Mas o certo é que vivemos num contexto mediático em que qualquer acumulação de milhões de dólares de um medíocre filme de super-heróis serve para tratar esse mesmo filme como um objecto redentor e intocável sem que, precisamente, alguém faça contas com os números que se propagam.
Acontece que a revista Forbes, fiel ao seu estilo, decidiu fazer contas. Que é como quem diz: decidiu falar dos dinheiros de Joker, esclarecendo o que significam os seus (quase) mil milhões de dólares de receitas acumuladas. Ou seja: essas receitas multiplicam por 15,3 o seu orçamento de produção (62,5 milhões).
O contraste a reter pode caracterizar-se através de um elucidativo exemplo: Avengers: Endgame já acumulou mais de 2,7 mil milhões de dólares, mas isso "apenas" multiplica por 7,9 os seus custos.
A lição é rudimentar, mas incontornável: seria saudável que os media tratassem os dinheiros dos filmes e da indústria cinematográfica, não como bandeiras abstractas, antes como dados que importa compreender, relativizar e contextualizar — de tal modo que a Forbes pode noticiar que, entre os filmes inspirados em BD, Joker se transformou no "mais rentável de sempre".
Falando de coisas (ainda mais) sérias, aqui fica um video de Todd Phillips para a Vanity Fair, sobre a cena de abertura de Joker.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Dia Mundial do Cinema
— e depois?...

[ Todd Phillips ]
Na data de 5 de Novembro, o Dia Mundial do Cinema celebrou-se numa conjuntura recheada de dúvidas sobre as actuais condições de produção e difusão dos filmes: O Irlandês, de Martin Scorsese, pode simbolizar os desafios que afectam todos os mercados, em particular os mais pequenos. No seu Instagram, Todd Phillips achou por bem (e muito bem!) dar a conhecer algumas magníficas fotografias de rodagem do seu Joker, muitas delas dando conta de diversos aspectos da genial transfiguração de Joaquin Phoenix [foto], afinal celebrando também o facto de um filme realmente ousado e inventivo poder surgir no coração de uma indústria cujos tecnocratas tendem a confundir efeitos especiais com trabalho narrativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Novembro).

Há qualquer coisa de insólito, misto de sedução e absurdo, no facto de, um pouco por toda a parte, estarmos a assinalar o Dia Mundial do Cinema [5 Novembro]. Uma coisa é certa: quase 124 depois da primeira projecção pública dos irmãos Lumière (a 28 de Dezembro de 1895, no Grand Café de Paris), não faltam sinais contraditórios, entre a euforia e o desespero, motivados pelo apelo simbólico da data.
Na Internet, os sites mais diversos, mesmo os que habitualmente não dedicam especial atenção ao cinema, propõem listas dos 10, 50 ou 100 filmes que importa conhecer antes de morrermos... De passagem, ficamos a saber que quase todos se esqueceram de figuras fundadoras da própria história do cinema, como o americano David W. Griffith (1875-1948) ou o russo Sergei M. Eisenstein (1898-1948)… Ao mesmo tempo, as lojas (materiais ou virtuais) promovem a venda de “clássicos” para celebrar o dia, por vezes deixando-nos a sensação de que estão sobretudo a tentar rentabilizar as sobras de armazém...
Sopram ventos agrestes sobre a paisagem cinematográfica. E há uma palavra anglo-saxónica que já todos adoptámos para condensar o imbróglio industrial, comercial e simbólico em que todos os filmes, directa ou indirectamente, passaram a estar envolvidos. Essa palavra — “streaming” — pode resumir, afinal, uma tragédia suspensa que começou há pouco mais de meio século.
Assim, a partir de finais dos anos 50 do século passado, e sobretudo ao longo da década de 60, a grande indústria “inventou” filmes ainda maiores (nos meios utilizados e visando o gigantismo dos ecrãs) a que deu o nome pomposo, mas adequado, de superproduções. Títulos como Ben-Hur, Lawrence da Arábia ou A Queda do Império Romano protagonizaram essa verdadeira frente de combate que tinha como principal motivação a dramática concorrência dos ecrãs mais pequenos. Leia-se: a televisão.
Dir-se-ia que, nos dias que correm, quase nada mudou. Se os espectadores fazem “greve” às salas escuras, isso resulta, precisamente, do facto de muitos ficarem em casa a consumir o que têm para ver no seu televisor ou no seu computador, ou ainda, e para sermos mais exactos, através das plataformas de “streaming”. Mesmo os que se mantêm fora dessa esfera de consumo, sabem que entidades como Netflix, Amazon ou Disney+ se tornaram o padrão de novas e frondosas formas de aceder à pluralidade dos filmes, dos mais recentes aos clássicos mais remotos.
Escusado será sublinhar que a conjuntura é mesmo global. Assim, se é verdade que aqueles nomes têm as suas raízes nos EUA (que ainda albergam a mais poderosa indústria cinematográfica do planeta), não é menos verdade que a consolidação dos circuitos de “streaming” afecta todos os mercados, incluindo os mais pequenos. Em Portugal, por exemplo, não estaremos a revelar nada de transcendente se dissermos que a proliferação do “streaming” (cujas potencialidades e virtudes não estão em causa) exige ideias ágeis e urgentes para todas as frentes do mercado. Justifica mesmo que os agentes desse mercado, a par dos responsáveis pelas chamadas políticas culturais, reflictam seriamente sobre questões tão delicadas como o futuro do parque das salas escuras — e sobre a trágica perda cultural e económica que seria favorecer a sua metódica desagregação.
Seja como for, todos sabemos também que aquilo que está a acontecer não corresponde a uma repetição do que se passou nas décadas de 50/60. Porquê? Porque não estamos a ser protagonistas/consumidores de uma mera reconversão tecnológica. Aliás, mesmo se assim fosse, a história do cinema é também uma sucessão de transformações mais ou menos dramáticas (lembremos apenas a passagem do mudo para o sonoro, nos anos 20/30) através das quais podemos perceber que qualquer novidade técnica transporta consigo, para o melhor ou para o pior, as mais variadas componentes culturais. Em causa, e para além do consumo propriamente dito, estão sempre a percepção do próprio fenómeno cinematográfico, as suas linguagens e, no limite, a sua inscrição no tecido vivo das trocas sociais.
A mudança é sensível. Agora, as tais plataformas de “streaming” não se limitam a funcionar como uma rede gigantesca (planetária, de facto) de distribuição de filmes ou, como se diz na gíria muito pouco cinéfila dos tecnocratas, de difusão de “conteúdos": as mesmas plataformas são também poderosíssimos produtores de filmes.
Convém acrescentar que tudo isto envolve tensões e conflitos que estão longe de estar resolvidos. Este ano (agora mesmo!) um filme que, creio, todos aguardamos com enorme expectativa serve de sintoma radical de tal situação. Chama-se O Irlandês, tem assinatura de um dos mais amados cineastas em actividade, Martin Scorsese, e exibe um elenco de luxo, liderado por Robert De Niro e Al Pacino.
Que se passa, então? As notícias são conhecidas de todos os espectadores que mantêm uma atenção regular à actualidade cinematográfica. Em termos esquemáticos: a Netflix (gigante do “streaming”, hélas!) produziu o filme e, apesar de ter prometido exibi-lo nas salas, não abdica de o tratar como um objecto especial na sua oferta (de “streaming”, precisamente).
Na prática, O Irlandês foi lançado a 1 de Novembro em apenas oito cinemas de Nova Iorque e Los Angeles (o novo Terminator/Exterminador Implacável estreou-se em 4.086 salas americanas). Entretanto, nas próximas semans, irá surgir em mais algumas salas... mas a 27 deste mês estará disponível em “streaming”. Ao mesmo tempo, em muitos países, incluindo Portugal, nem sequer passará pelas salas.
Que há para celebrar quando o trabalho de alguém como Scorsese já não é mostrado nas nossas salas? É neste estado das coisas que, com contido optimismo, algum empenho e muita hesitação, estamos a comemorar o Dia Mundial do Cinema. Atravessamos uma época em que, mais do que nunca, os próprios números das bilheteiras podem (e devem) ser lidos para além das evidências que transportam... ou parecem transportar.
Veja-se, por exemplo, o top das bilheteiras americanas do último fim de semana. Numa aproximação imediatista, podemos supor que a liderança de Exterminador Implacável - Destino Sombrio, envolvendo o regresso de Arnold Schwarzenegger à saga dos “cyborgs”, confirma a boa estrela comercial do antigo governador da Califórnia.


1 – EXTERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
2 – JOKER
3 - MALÉFICA - MESTRE DO MAL
4 – HARRIET
5 – A FAMÍLIA ADDAMS

Ora, basta ler os metódicos analistas da indústria dos EUA para ficarmos a perceber que os 29 milhões de dólares de receita da superprodução com Schwarzenegger correspondem a um desastre anunciado: o filme custou 185 milhões de dólares a produzir (sem contar com os muitos milhões que, em casos como este, são também investidos na promoção), tornando-se praticamente impossível recuperar tão fantástico investimento.
Ao mesmo tempo, Joker, um filme enraizado no universo dos super-heróis, mas claramente alheio às suas regras correntes, chegou aos 300 milhões no mercado dos EUA, estando à beira dos mil milhões de receita global (custou 55 milhões). A sua performance é invulgar em todos os mercados, mesmo os mais secundários na dinâmica global da indústria cinematográfica, como é o caso de Portugal (recorde-se que Joker já vai na quinta semana de exibição, sendo Exterminador Implacável um lançamento da última semana).


1 - JOKER
2 - ETERMINADOR IMPLACÁVEL - DESTINO SOMBRIO
3 - MALÉFICA: MESTRE DO MAL
4 - A FAMÍLIA ADDAMS
5 - UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE

Eis um dado complementar que este Dia Mundial do Cinema também justifica que seja sublinhado. A saber: a noção de que “apenas” os filmes de super-heróis são um género rentável é todas as semanas posta em causa pelas convulsões da indústria e a imprevisibilidade dos mercados. A possibilidade de Hollywood poder favorecer a sua própria “implosão” — privilegiando orçamentos descomunais que, no limite, podem ameaçar a estabilidade de um grande estúdio — é um assunto regularmente discutido, e não porque tenha sido colocado na agenda industrial por jornalistas ou críticos de cinema. Recorde-se que, há cerca de cinco anos, entre os primeiros a chamar a atenção para essa ameaça estavam Steven Spielberg e George Lucas.
Nada disto é linear, quer do ponto de vista financeiro, quer em termos artísticos. Será preciso repetir que nenhum filme será “melhor” ou “pior” por causa da grandeza (ou da pequenez) do seu orçamento? No domínio financeiro, o exemplo de O Irlandês é, mais uma vez, perturbante e esclarecedor, até porque não será arriscado supor que o próprio Scorsese desejaria que o seu filme tivesse outro nível de distribuição no imenso parque de salas dos EUA.
O certo é que o realizador de clássicos como Taxi Driver (1976) ou Touro Enraivecido (1980) tentou durante uma década que algum dos grandes estúdios de Hollywood financiasse o projecto, além do mais, desde a primeira hora, contando com o apoio de De Niro. Não o conseguiu, já que todos temeram arriscar dar luz verde a um empreendimento tão dispendioso, em especial por causa dos efeitos especiais que, nas cenas do passado, permitem “rejuvenescer” De Niro e Pacino. Até que a Netflix aceitou investir a módica quantia de 159 milhões de dólares, para mais garantindo total liberdade criativa a Scorsese... Enfim, seja como for, e se outras razões não houvesse, eis o que justifica que continuemos a celebrar o cinema.

quarta-feira, outubro 09, 2019

"Joker" ou o retorno do trágico

Do teatro de Shakespeare ao melhor cinema contemporâneo, aprendemos a lidar com as componentes trágicas do destino: “Joker”, prodigioso filme, é um acontecimento fundamental nesse processo narrativo e humano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro).

Somos todos americanos: a agitação mediática em torno da ameaça de contaminação social pela “violência” do filme Joker é um esclarecedor sintoma do infantilismo narrativo em que vivemos. Entenda-se: não se trata de escamotear as tensões que circulam pelo tecido social (americano ou europeu); trata-se, isso sim, de tentar pensar de forma adulta, superando a equação alarmista segundo a qual a agitação nas ruas, benigna ou letal, se combate através da esterilização artística dos filmes (ou de qualquer outra narrativa).
Os exemplos pontuais não “explicam” o que quer que seja, mas ajudam-nos a resistir ao comodismo moralista. Assim, a 30 de Março de 1981, John Hinckley Jr. tentou matar Ronald Reagan, motivado pela ânsia de impressionar Jodie Foster, depois de a ter visto em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Será que alguém, de boa fé, se atreve em 2019 a negar ao filme de Scorsese um lugar fulcral, não apenas na história do cinema, mas na cultura popular do século XX?
E que fazer com o sangue, os gestos apocalípticos e as dores infinitas que circulam pelos textos de Coriolano, Júlio César ou Macbeth? Será que, num misto de candura e estupidez, nos preparamos para enclausurar William Shakespeare num qualquer domínio codificado cuja password só pode ser partilhada por alguns eleitos?
Não esqueço que as questões envolvidas excedem este (ou qualquer outro) filme, não cabendo, nem de longe nem de perto, na brevidade destas linhas. Mas como não reconhecer a cegueira narrativa das nossas sociedades que aceitam (e, mais do que isso, incentivam) o ocultismo barato de Harry Potter como forma de educação das crianças, resistindo a lidar com uma narrativa genuinamente trágica como Joker?
Aliás, em termos culturais e comerciais (é a mesma coisa…), a conjuntura surge ainda mais reveladora. Por um lado, temos assistido à ocupação dos mercados de todo o mundo pelos lugares-comuns dramáticos e técnicos da maioria dos filmes de super-heróis; por outro lado, basta a realização de Todd Phillips arriscar lidar com o imaginário dos mesmos super-heróis, repensando-o e reinventando-o, para que o mais básico gosto do cinema seja posto em causa pela ideologia mediática da vigilância e purificação social.
Sejam quais forem as notícias dos próximos dias, a questão de fundo será sempre outra. A saber: que nos está a acontecer para que as artes específicas das narrativas sejam tratadas como um “produto” cuja legitimidade seria medida pela “influência” que possam ter na vida quotidiana? Mais do que isso: como, porquê e para quê se tenta “explicar” as convulsões mais violentas desse quotidiano a partir das peripécias particulares de uma ou outra narrativa?
Em boa verdade, creio que a questão é infinitamente mais complexa, já que, através da genial composição de Joaquin Phoenix, Joker sabe devolver-nos um tabu contemporâneo. Ou seja: o carácter irredutível de um corpo. Circula por aí a grosseria ideológica de Kim Kardashian e outros “famosos” que celebram o corpo como um banal “gadget” promocional… Proliferam formatos da “reality TV” em que a vida sexual é tratada como uma proeza estatística… Tudo isso se instalou como o novo normal do imaginário do corpo e do desejo. Subitamente, descobrimos Phoenix a representar a estranheza do próprio corpo como elemento identitário e logo soam as trombetas vingativas do cinematograficamente correcto.
Será preciso acrescentar que a América (e o mundo) encontra em Joker um espelho surreal de muitos medos mediáticos ou mediatizados? Não é o Joker de Phillips/Phoenix esse ser solitário cujo desamparo não é estranho à crueldade que transporta? E como olhar as suas contradições sem sentir medo? O mais difícil será reconhecer que ele é o fantasma de cada um de nós — a tragédia nunca foi estranha a algum realismo.

segunda-feira, setembro 30, 2019

Joker, 1989

Digamos, para simplificar que Joker (estreia quinta-feira, 3 Out.) é um dos grandes acontecimentos do ano, porventura encerrando simbolicamente a década com um desafio radical: devolver a inteligência aos filmes de super-heróis. Entenda-se: o filme de Todd Phillips será tudo o que se quiser menos um típico filme de super-heróis, movendo-se antes nos domínios sagrados da tragédia — e com um Joaquin Phoenix que é, a meu ver, o vencedor "obrigatório" do próximo Oscar de melhor actor.
Mas as profecias são irrelevantes. Para já, vale a pena actualizar a memória e lembrar que o primeiro Joker da era moderna é de Jack Nicholson e está no magnífico Batman que Tim Burton realizou em 1989 — lembremos um pouco do sofisticado sentido de composição do espaço segundo Burton, com a contribuição de Nicholson, Michael Keaton e Kim Basinger; em baixo, o trailer final do filme de Phillips.



sábado, setembro 07, 2019

"Joker" vence em Veneza

Joker (EUA), o filme de Todd Philips protagonizado por Joaquin Phoenix, arrebatou o Leão de Ouro da 76ª edição do Festival de Veneza — a estreia portuguesa está agendada para o dia 3 de Outubro.
O filme de Roman Polanski, J'Accuse (França), sobre o Caso Dreyfus [trailer], recebeu o Grande Prémio do Júri; Roy Andersson foi distinguido como realizador, por About Endlessness (Suécia, Alemanha, Noruega) — palmarés completo disponível no site do festival.