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quarta-feira, outubro 29, 2025

O equilíbrio do dia [citação]

>>> O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha, e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça.

ALBERT CAMUS
O Estrangeiro
> tradução de António Quadros
(ed. Livros do Brasil, 2015)

sexta-feira, outubro 17, 2025

Pensar [citação]

philomag.com

>>> O simples facto de pensar é, em si mesmo, um empreendimento muito perigoso.
[...] Mas não pensar é ainda mais perigoso.

HANNAH ARENDT
(entrevista televisiva com Roger Errera,
ORTF, outubro 1973)

sexta-feira, janeiro 03, 2025

A presença das montanhas [citação]

>>> Uma profunda tristeza exclui qualquer sentimentalismo. Essa é uma realidade tão imutável quanto a presença das montanhas. Não faz sentido tentar sair disso. E uma vez isso compreendido, a queixa deixa de fazer sentido.

WILLIAM S. BURROUGHS
Queer (1985)

domingo, dezembro 10, 2023

"A televisão fabrica esquecimento" [citação]

>>> A televisão fabrica esquecimento.
O cinema sempre fabricou memórias.

JEAN-LUC GODARD
in Le mépris de la télé
[montagem: INA]

sábado, outubro 21, 2023

"História do dia" [citação]

>>> (...) segundo o sociólogo francês Christian Salmon, foi o ex-jornalista David Gergen, na qualidade de consultor de Ronald Reagan, que criou a noção crucial de "história do dia", a ser apresentada já pronta aos media para ser difundida, comentada, disseminada. Isso continua a existir através de formas cada vez mais virulentas, já que os decisores consideram que controlar a narrativa dos media é tudo aquilo que significa governar.

PETER BROOKS
Seduced by Story - The use and abuse of narrative

domingo, agosto 13, 2023

Sob as árvores [citação]

>>> E ao voltar-me vi injustiça em tudo quanto acontecia debaixo do Sol, e olhei, e eram as lágrimas daqueles que sofreram a injustiça, sem ninguém que os consolasse e aqueles que cometeram inustiça em relação a eles eram demasiado poderosos. Então louvei os defuntos que já tinham morrido.
Louvei os mortos. Todas as coisas têm o seu tempo, coser e rasgar, guardar e atirar fora. Louvei os mortos que jazem sob as árvores, dormindo.

Berlim Alexanderplatz
(ed. Dom Quixote, Lisboa, 1992
— tradução de Sara Seruya e Teresa Seruya)

quarta-feira, agosto 10, 2022

Terror [citação]

>>> Os terroristas têm tanto medo da vida como nós temos da morte. Agitam um máximo de morte à nossa frente, desse modo assustando-nos, porque todos os dias nós agitamos um máximo de vida à sua frente, assustando-os.

YANN MOIX
Terreur
Grasset / Le Livre de Poche (2018)

sábado, julho 02, 2022

Sobre Elvis [citação]

>>> [Baz] Luhrmann apresenta [Elvis] Presley como uma espécie de boneco heróico em pose de Jesus Cristo, alguém que tinha de morrer para que o rock'n'roll vivesse para sempre. Austin Butler desliza para a nomeação para o Oscar através do seu retrato de Presley como uma estrela intensa, pensativa e melancólica. Há muitos planos de Presley de perfil, cabeça para baixo, lembrando uma silhueta familiar, ao mesmo tempo dando a aparência de instrospecção. O actor de 30 anos combina poses de grande tristeza e olhares vazios, dando tudo o que tem para dar em pesadas linhas de diálogo sobre o destino e as provações da fama.

in 'Baz Luhrmann’s Elvis Is Even More Indulgent Than You Might Have Guessed'
Pitchfork (29 junho 2022)

quinta-feira, junho 16, 2022

Ego [citação]

>>> Alguns sentimentos caíam em desuso, porque já não os sentíamos, porque parecia absurdo senti-los, reservados a épocas menos desenvolvidas e a populações enganadas, tais como o patriotismo e a honra. A "vergonha", invocada a propósito de tudo, já não era a mesma, era apenas uma humilhação provisória, uma ferida momentânea no ego — o respeito era, sobretudo, uma exigência do reconhecimento desse ego por parte dos outros. Já não se ouvia dizer "bondade" e "bons rapazes". Ter orgulho no que se faz era substituído por ter orgulho no que se é: mulher, gay, provinciano, judeu, árabe, etc.

ANNIE ERNAUX
(Livros do Brasil, 2020)

sábado, abril 23, 2022

Informação / desinformação [citação]

[New York Times]

>>> Estou convencido de que, neste momento, uma das maiores razões para os crescentes ataques contra a democracia, nos EUA e globalmente, é a mudança que está a acontecer no modo como comunicamos e consumimos informação. As mesmas tecnologias que tornam possível ligarmo-nos, em tempo real, com praticamente qualquer pessoa do mundo, estão a ser cada vez mais usadas para criar realidades alternativas que espalham o fogo da violência étnica, promovem o autoritarismo e espalham teorias da conspiração. O resultado tem sido uma gradual erosão da confiança nos representantes públicos, nas organizações mediáticas e nas instituições políticas que são necessárias para que a democracia funcione.

BARACK OBAMA
21 abril 2022

quinta-feira, março 31, 2022

Pensar [citação]

>>> Chamo "impensado" àquilo a partir do qual penso
e que, por isso mesmo, eu não penso.

FRANÇOIS JULLIEN
"Faison confiance au déroulement face au devancement"
in Où est passé le temps (Gallimard, 2012)

quinta-feira, março 10, 2022

"Duas formas de civilização" [citação]

>>> A agressão de Putin contra a Ucrânia não é apenas um assunto militar. É um confronto entre duas concepções da sociedade, duas visões do que faz a vida uma coisa boa e, no fundo, duas formas de civilização.
É do nosso futuro que se trata e da sorte reservada, neste século, às centenas de milhões de mulheres e homens que acreditam na democracia, não desistem da liberdade e querem a paz.

BERNARD-HENRI LÉVY, SEAN PENN, SALMAN RUSHDIE e STING
'O destino do mundo joga-se em Kiev'
Libération, 10 março 2022

quarta-feira, janeiro 26, 2022

"A voz humana" [citação]

>>> A voz humana ressoa sempre em direcção a uma outra voz e a partir de uma outra voz, ou então numa outra voz. A sua ressonância sonora é indissociável de um movimento de destino e escuta: mesmo quando falo sozinho e silenciosamente "na minha cabeça" (como julgamos poder dizer), quer dizer, quando penso, ouço uma outra voz na minha voz, ou então ouço a minha voz a ecoar numa outra garganta.

JEAN-LUC NANCY
Éditions Galilée (Paris, 2001)

sexta-feira, abril 02, 2021

A função da crítica [citação]

>>> O objectivo de qualquer comentário sobre a arte deveria ser nos nossos dias tornar as obras de arte — e, por analogia, a nossa própria experiência — mais, e não menos, reais para nós. A função da crítica devia ser mostrar como é o que é, ou mesmo que é o que é, em vez de mostrar o que significa.

in Contra a interpretação e outros ensaios
(tradução de José Lima)
ed. Gótica, Lisboa, 2004

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Da ignorância [citação]


>>> Encontramos na ignorância um dos remédios vulgares para as nossas inquietações. É saboroso não saber, dizer que não tenho nada a ver com isso, que os competentes tratem do assunto — o que não me impedirá de criticar severamente as suas decisões se elas me trouxerem algo de negativo.
O saber não é tranquilizador. Com o saber, as coisas nunca têm fim. Qualquer resposta conduz a outras perguntas. O saber está constantemente a reaprender, enquanto a ignorância é estável. E duradoura. Quando procuramos saber, é apenas por algum tempo. Quando decidimos não saber, é para sempre.

JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
Fragilité
(ed. Odile Jacob, Paris, 2006)

segunda-feira, dezembro 14, 2020

"A crítica neste país" [citação]

JOSEPH WRIGHT OF DERBY
An Experiment on a Bird in the Air Pump
1768

>>> HUGO GOMES — Hoje em dia José Fonseca e Costa é recordado como um autor do nosso cinema, mas em tempos era dizimado pela crítica e desprezado como um “realizador comercial”. O próprio queixava-se dessa constante denominação... 
VÍTOR NORTE — Mas a crítica, bem, a crítica neste país é toda ela composta de ilhas, movimentos, de conhecidos e de amigos. Portanto, as críticas não são bem aquilo que deveriam ser, que era apontar os “bons” ou “maus” de um trabalho artístico, e são usadas para se fazerem ataques pessoais. Talvez seja isso que tenha acontecido ao José Fonseca e Costa, que era sobretudo um homem vertical. 

domingo, março 22, 2020

O fim da era Trump [citação]

>>> No começo da semana passada, a era Trump — que a si mesma se definiu através de uma sinistra celebração de "factos alternativos", desprezo pela ciência e assalto a instituições globais e ao "estado administrativo" — chegou ao fim. Lamentavelmente, Donald Trump mantém-se no poder, mas, pelo menos para já, parece ter cedido à evidência: não lhe é possível sobrepor as suas fantasias às mais cruas realidades do mundo. O coronavírus, agressivo e mortal, não se mostra impressionado nem dominado pela algazarra de um vigarista. Ainda assim, o demorado processo de assunção de humildade por parte de Trump, o tempo que demorou a reconhecer o poder da pandemia global que esvaziou as nossas ruas, colocou em risco um incalculável número de americanos.

DAVID REMNICK
'How the Coronavirus Shattered Trump’s Serene Confidence'
in The New Yorker (22 Março 2020)

terça-feira, março 17, 2020

Quarentena [citação]


>>> Contar com a lenta tomada de consciência dos cidadãos é uma aposta. Todos os profissionais de saúde o dizem: está a decorrer uma corrida de velocidade contra a doença e a morte. Para não submergir os serviços de saúde e para diminuir o número de contaminações, é imperativo que as medidas de quarentena sejam imediatas, massivas e durem o tempo que for necessário. A conclusão é clara: se a pedagogia não for suficiente, será preciso mudar rapidamente de registo.

Editorial
17 Março 2020

Pânico [citação]

>>> Nunca vivi um tal grau de inquietação por causa de uma doença infecciosa e, aliás, de nenhuma outra.
E, todavia, não estou inquieto quanto às consequências médicas do coronavírus. Nada nos números actuais sobre a mortalidade e a propagação do vírus justifica o pânico mundial e, sobretudo, económico.
As medidas adoptadas são adequadas e eficazes, permitindo controlar a epidemia. É já o caso da China, lugar inicial e de longe o mais importante deste agente infeccioso, onde a epidemia está a caminho da extinção.
O futuro próximo dirá se me enganei.

GILBERT DERAY
Hôpital Pitié-Salpêtrière, Paris

Coronavirus, attention danger, mais pas celui que vous croyez.
Depuis 30 ans, de mon observatoire hospitalier, j’ai vécu de nombreuses crises sanitaires, HIV, SRAS, MERS, résurgence de la tuberculose, bactéries multi-résistantes, nous les avons gérées dans le calme et très efficacement.
Aucune n’a donné lieu à la panique actuelle.
Je n’ai jamais vécu un tel degré d’inquiétude pour une maladie infectieuse et d’ailleurs pour aucune autre.
Et pourtant, je ne suis pas inquiet quant aux conséquences médicales du Coronavirus. Rien dans les chiffres actuels sur la mortalité et la diffusion du virus ne justifie la panique mondiale sanitaire et surtout économique.
Les mesures prises sont adaptées et efficaces et elles permettront le contrôle de l’épidémie. C’est déjà le cas en Chine, foyer initial et de loin le plus important de cet agent infectieux, ou l’épidémie est en train de s’éteindre.
L’avenir proche dira si je me suis trompé.
Par contre,
• Je suis inquiet des vols de masques et que ceux nécessaires à la protection des personnels soignants et des personnes à risque, nos anciens et celles déjà malades, en particulier les patients immunodéprimés, soient distribués pour une efficacité nulle dans les aéroports, les cafés et les centres commerciaux.
• Je suis inquiet des vols de gels nettoyants.
• Je suis inquiet de ces rixes pour acheter du papier toilette et des boîtes de riz et de pates.
• Je suis inquiet de cette terreur qui conduit à faire des stocks obscènes de nourriture dans des pays où elle est disponible dans une abondance tout aussi obscène.
• Je suis inquiet pour nos anciens déjà seuls et qu’il ne faut plus ni voir ni toucher de peur de les tuer. Ils mourront plus vite mais « seulement « de solitude. Nous avions l’habitude de ne pas rendre visite à nos parents et grands-parents si nous avions la grippe, pas de les éviter « au cas où » et pour une durée indéterminée, ce n’est en rien différent pour le coronavirus
• Je suis inquiet que la santé ne devienne un objet de communication belliqueuse et de conflit comme un autre, alors qu’elle devrait être une cause ultime de lutte dans le rassemblement.
• Je suis inquiet que notre système de santé, déjà en grandes difficultés, soit prochainement débordé par un afflux de malades au moindre signe de syndrome grippal. Ce sont alors toutes les autres maladies que nous ne pourrons prendre en charge. Un infarctus du myocarde ou une appendicite ce sont toujours des urgences, un virus rarement.
La couverture médiatique sur le coronavirus est très anxiogène et elle participe à l’affolement de chacun.
Cela conduit aux théories du complot les plus folles du genre, « ils nous cachent quelque chose».  Rien n’est obscur, c’est impossible en médecine dans ce monde du numérique ou la connaissance scientifique est immédiate et sans filtre.
Le coronavirus ne tue (presque) que les organismes déjà fragiles.
Je suis inquiet que ce minuscule être vivant ne fasse que dévoiler les immenses fractures et fragilités de nos sociétés. Les morts qui se compteront alors par millions seront ceux de l’affrontement des individus dans l’indifférence totale de l’intérêt collectif.

Gilbert DERAY
Hôpital Pitié-Salpêtrière, Paris
13-03-2020

sexta-feira, março 13, 2020

Liberdade [citação]

[ The Paris Review ]

>>> E se a minha noção de contenção e liberdade é medíocre, isso cria mais um problema real, problema pelo menos vagamente sentido por milhões de pessoas: a invenção da liberdade.

SUSAN SONTAG
Penguin, 2018