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sábado, julho 16, 2022

Três contos morais
sobre o valor das imagens

Amy Adams no papel de Margaret Keane
Olhos Grandes (2014): a arte de desejar a beleza

No delírio mediático do nosso mundo, não basta “explicar” as imagens: é preciso parar para olhar e acolher algum silêncio — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 julho).

[NPG]
1.
O jubileu da Rainha Isabel II reforçou na praça pública — entenda-se: no espaço mediático em que, mal ou bem, sobrevivemos — o papel de alguns “especialistas” de língua inglesa, vocacionados para nos esclarecer sobre os infinitos enigmas da família real britânica. Tal como perante os/as “influencers” que nascem das pedras da calçada, não posso esconder o meu espanto muito plebeu: como é possível proferir tantas e tão patéticas banalidades, ao mesmo tempo desfrutando de um palco público que lhes confere o estatuto, quase científico, de intocáveis autoridades morais? Problema meu, entenda-se, já que não consigo mostrar-me indiferente, quanto mais não seja porque uma das “especialidades” de tais personagens envolve as significações das imagens. Assim, deparei mesmo com alguém que apresentava toda uma “tese” sobre a percepção da Princesa Diana por Isabel II a partir da recuperação de breves segundos de materiais de arquivo que eram, por assim dizer, tratados como se fossem sequências de ADN que o espectador, pobre mortal, não saberia decifrar. No limite, triunfava uma rasteira obscenidade ontológica: desde um movimento brusco da cabeça da Rainha até ao ritmo lento de uma determinada caminhada, tudo era sujeito a uma desavergonhada “psicanálise” em que alguns segundos de imagens em movimento reduziam a personagem a uma antologia grosseira de segredos diplomáticos e estados de alma — nos dias que correm, “isto” detém um poder discursivo que quase ninguém quer questionar.

2.
Em França, várias organizações de fotógrafos profissionais puseram em marcha uma campanha com esta palavra de ordem: #UnePhotoÇaSePait. Ou seja, à letra, “uma fotografia paga-se” (ver, por exemplo, Libération, 30 junho). Em causa está a falta de reconhecimento financeiro e simbólico do trabalho dos fotógrafos, a par da proliferação de bancos de imagens a baixo custo (por vezes, gratuitas) e do desrespeito pelos direitos de autor, tudo isto contaminado por aquilo que consideram alguma indiferença dos poderes públicos. Escusado será dizer que as questões de enquadramento legal que os profissionais franceses apontam não podem ser tomadas como elementos universais e intermutáveis. Seja como for, no plano civilizacional, o seu protesto ecoa uma tragédia realmente global que tem como incauto protagonista o consumidor individual — esse consumidor que interiorizou a ideia (e a moral pueril) segundo a qual o seu telemóvel é um instrumento divino de interpretação do mundo à sua volta. Em causa está uma lei mediática segundo a qual todas as imagens se equivalem: pertenceriam a um mundo sem regras em que as questões primordiais de trabalho são irrelevantes, acabando por anular as especificidades de contexto e linguagem. Tudo isso desemboca na pergunta que envolve o nosso sonambulismo cognitivo: num mundo de delirante circulação de imagens, quem é que ainda tenta, realmente, olhá-las e reflectir sobre os modos da sua percepção?

3.
Neste tempo de frequente tratamento da morte como um ritual compulsivamente mediático, eis uma notícia que, até mesmo nos EUA, não foi muito evidente: no dia 26 de junho, na sua casa de Napa, Califórnia, faleceu a pintora americana Margaret Keane, contava 94 anos. Célebre pelos quadros de rostos com olhos grandes, a sua odisseia pessoal está retratada num magnífico filme de Tim Burton, protagonizado por Amy Adams, intitulado, justamente, Olhos Grandes (2014); centra-se no período do seu casamento com Walter Keane (1955-65), durante o qual o marido, um pintor falhado, expôs e vendeu os quadros da mulher como se fossem de sua autoria. Dois factores tendem a “formatar” as componentes desta história: primeiro, há críticos de arte que reduzem o trabalho de Margaret a um descartável fenómeno “kitsch”; depois, alguns feminismos gostam de identificar a estupidez de Walter como símbolo obrigatório do carácter malévolo de “todos” os homens face à expressão das mulheres… Digamos apenas, para simplificar, que aquilo que Burton coloca em cena não é uma coisa nem outra. Olhos Grandes é um filme sobre o desejo de beleza, ou melhor, sobre a vontade artística de criar algo que toque os outros através do valor inefável da própria representação. Essa vulnerabilidade está ameaçada no nosso mundo: obcecados pela “explicação” das imagens, não abrimos os olhos para o que, pelo menos em algumas imagens, resiste a qualquer vulgarização mediática, apelando a um pudico silêncio.

sexta-feira, março 18, 2022

A tragédia do Homem Morcego [1/2]

[1989]

O vigilante de Gotham City regressou às salas de cinema: Batman é um herói de todas as épocas, desde os “serials” da primeira metade do século XX até às grandes produções dos nossos dias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).

[2022]
Chegou o filme The Batman (3 de março), nova aventura de um dos mais populares super-heróis da banda desenhada e do cinema, agora com Robert Pattinson a estrear-se como intérprete do Homem Morcego. Digamos que não será exactamente um “renascimento”, já que, ao longo das últimas décadas, a personagem tem-se mantido como objecto de muitas variações, algumas admiráveis, outras nem tanto… Talvez se possa mesmo dizer que este filme representará, antes de tudo o mais, uma renovada aposta da DC Comics no sentido de revitalizar uma das suas mais importantes “franchises” — a par, obviamente, do Super-Homem. Vale a pena, por isso, reorganizar algumas memórias.
Nos últimos anos, o vigilante de Gotham City, empenhado em combater o crime fazendo prevalecer um ideal de justiça, tem tido uma vida cinematográfica algo discreta ou, pelo menos, pouco consentânea com a sua aura mitológica e também a sua vocação espectacular. Bastará lembrar que, no século XXI, aquele que é, de longe, o melhor filme ligado ao universo de Batman — Joker (2019), com o genial Joaquin Phoenix — nem sequer o tem como figura central, surgindo apenas como uma personagem discreta, ainda em construção.
Mais do que isso, Batman e Super-Homem têm sido tratados como figuras estranhamente “incompletas”, necessitando de algum apoio dramático para relançar as suas sagas, a começar pelo filme em que, por assim dizer, repartiram as responsabilidades espectaculares: Batman v. Super-Homem: O Despertar da Justiça (2016), com um Ben Affleck algo desfasado, deixando a sensação de que a interpretação do homem da capa negra não terá sido uma das escolhas mais felizes no seu trabalho como actor. Reapareceu, é verdade, em Esquadrão Suicida (2016) e nas duas versões de Liga da Justiça (2017 e 2021), mas sempre anulado pela insólita condição de “secundário”.
Hoje em dia, produtos deste género dominam os planos dos grandes estúdios de Hollywood e, nessa medida, determinam o funcionamento dos mercados que cresceram dependentes das suas estratégias de difusão (na prática, o mundo todo). Sintoma eloquente é o facto de há muitos meses assistirmos ao aparecimento regular de notícias, imagens e trailers de The Batman, celebrando mais um grande investimento da DC Comics, procurando recuperar um espaço comercial que tem sido dominado pela produção com chancela Marvel (Vingadores, Homem Aranha, Capitão Marvel, etc.). Tudo isso, claro, é inseparável de elaboradas alianças com o sistema a que pertencem aqueles estúdios — a DC Comics é distribuída pela Warner Bros.; a Marvel está, desde 2009, integrada no império Disney (que pagou 4 mil milhões de dólares para a respectiva aquisição).

[1939]
Cinema & televisão

Os primeiros capítulos cinematográficos de Batman estão ligados a conjunturas de produção muito peculiares, em tudo e por tudo distintas dos modelos actuais. São mesmo “capítulos”, um pouco à maneira dos episódios de uma série televisiva, mas num diferente território de difusão.
O Homem Morcego surgiu, assim, nas salas de cinema, em 1943, quatro anos após a publicação da primeira aventura da personagem criada pelo desenhador Bob Kane e o escritor Bill Finger — acontecera a 30 de março de 1939 no nº 27 da revista Detective Comics. Intitulado Batman/O Homem Morcego, não era exactamente um filme, mas sim um “serial”, isto é, um conjunto de aventuras mais ou menos breves, muito populares desde o período mudo até ao começo da década de 1950: a sua estrutura implicava que o espectador interessado tivesse que regressar alguns dias mais tarde (normalmente uma semana) para conhecer a respectiva continuação.
Novo “serial” seria lançado em 1949, com o título Batman and Robin/Novas Aventuras do Homem Morcego, dando também protagonismo ao jovem parceiro de aventuras do herói. De qualquer modo, uma etapa decisiva aconteceria em 1966 através da aliança de televisão e cinema, quer dizer, rentabilizando em filme o sucesso da série Batman (iniciada no mesmo ano, terminaria em 1968, cumprindo três temporadas).
O estilo de representação de Adam West e Burt Ward (Batman e Robin, respectivamente) poderá parecer-nos, agora, uma risonha caricatura de um passado mais ou menos nostálgico. O certo é que, na altura, essa passagem do pequeno ecrã televisivo para a grandeza das salas escuras representava um sedutor ganho espectacular com o seu quê de pioneiro. Num dos cartazes do filme escrevia-se mesmo: “Pela primeira vez no ecrã de cinema — e a cores!”
Depois, há na história cinematográfica de Batman um hiato de mais de vinte anos. Que aconteceu? Digamos que o cândido heroísmo dos primeiros tempos não “encaixava” nas muitas (e fascinantes!) atribulações artísticas vividas em Hollywood ao longo dos anos 60/70. Mesmo depois de Tubarão (1975), de Steven Spielberg, e A Guerra das Estrelas (1977), de George Lucas, Batman estava longe de ser uma escolha óbvia como matriz da grande aventura — será preciso recordar que a década de 80 foi dominada por um arqueólogo de chapéu e chicote chamado Indiana Jones?
Curiosamente, as coisas começaram a mudar graças ao Super-Homem. Ou seja, através de Superman - O Filme (1978), de Richard Donner, com o saudoso Christopher Reeve. O primeiro Batman da nova era — mais uma vez intitulado apenas Batman — surgiu em 1989, com assinatura do mais talentoso dos excêntricos de Hollywood: Tim Burton. A escolha de Michael Keaton como protagonista era, no mínimo, inesperada, mas funcionou, relançando essa curiosa dialéctica existencial entre a figura do vingador e a sua identidade secreta, o milionário e filantropo Bruce Wayne. O filme foi mesmo um dos maiores sucessos do ano, apenas superado por Indiana Jones e a Grande Cruzada. Sem menosprezar, claro, os outros trunfos do elenco: Kim Basinger e, sobretudo, Jack Nicholson, criando um Joker que serviu de matriz inspiradora de todas as variações que se seguiram.

[1987]
3 x Christian Bale

Tim Burton ainda assinou Batman Regressa (1992) — outra vez com Michael Keaton, agora na companhia de Danny DeVito e Michelle Pfeiffer, isto é, Pinguim e Catwoman, respectivamente — mas, para ele, a “era Batman” tinha chegado ao fim. O que se seguiu não foi propriamente brilhante e, de alguma maneira, bloqueou o desenvolvimento da “franchise”.
Os dois filmes dirigidos por Joel Schumacher — Batman para Sempre (1995) e Batman & Robin (1997) — apostaram num registo mais ou menos paródico, integrando actores como Jim Carrey e Nicole Kidman, no primeiro, e Arnold Schwarzenegger, no segundo. Batman & Robin entrou mesmo na galeria de grandes falhanços involuntariamente “divertidos”, a ponto de alguns fãs mais militantes nem sempre se lembrarem de quem interpretava o próprio Batman. Para a história, recordemos: foi primeiro Val Kilmer e, depois, George Clooney… Na apreciação crítica do segundo filme, Roger Ebert pôs o dedo na ferida: “Percebi que não já interessava quem interpreta Batman. Não está lá ninguém. Feitas as contas, a personagem é apenas o fato.”
Para agravar a situação, alguém se lembrou que a personagem de Catwoman (a que Pfeiffer tinha emprestado uma nova e perversa elegância) podia sustentar um filme. Assim surgiu Catwoman (2004), um desastre à moda antiga dirigido por Pitof, francês especialista em efeitos visuais, com a desamparada Halle Berry a tentar emprestar consistência a uma figurinha bidmensional, reduzida a marioneta de um espectáculo sem imaginação; Sharon Stone também por lá andava, num período em que foi coleccionando falhanços atrás de falhanços, depois da sua assombrosa composição em Casino (1995), de Martin Scorsese.
Enfim, usando uma terminologia da política, é caso para dizer que estavam reunidas as condições para… surgir Christopher Nolan. Depois do impacto de Memento (2000) e Insónia (2002), ele era uma figura em ascensão na máquina de Hollywood. A sua abordagem veio transfigurar o tratamento cinematográfico do universo de Batman, emprestando-lhe (ou devolvendo-lhe) uma vibração física e metafísica que alguns analistas associam à integração de elementos visuais e narrativos provenientes do livro Batman: Year One (1987), escrito por Frank Miller e ilustrado por David Mazzucchelli. Sem esquecer, claro, a contribuição decisiva do novo intérprete, o galês Christian Bale, que Nolan “entronizou” três vezes nos cenários de Gotham City.
Goste-se mais ou goste-se menos, a trilogia dirigida por Nolan — Batman - O Início (2005), O Cavaleiro das Trevas (2008) e O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012) — recolocou Batman numa encruzilhada de peripécias e emoções em que a manutenção da ordem na grande metrópole está sempre contaminada pelas suas memórias de infância, nomeadamente o episódio em que Bruce Wayne, ainda criança, assiste à morte dos próprios pais (evocado em Joker).
Muito para lá de qualquer registo de filme “policial”, a luta entre o Bem e o Mal adquire, assim, uma dimensão trágica que, cena a cena, assombra Bruce Wayne, ameaçando decompor a própria vocação mitológica de Batman. Em O Cavaleiro das Trevas, tal dinâmica tem como ponto de fuga a sofisticada composição do Joker por Heath Ledger (1979-2008) — valeu um Oscar póstumo de melhor actor secundário, persistindo como símbolo universal da paisagem moderna dos super-heróis.

domingo, junho 23, 2019

30 anos de Batman

Foi a 23 de Junho de 1989 que Batman, de Tim Burton, teve a sua estreia oficial nos ecrãs dos EUA — faz hoje 30 anos.
Não era a primeira derivação cinematográfica do Homem-Morcego — para além de alguns "serials" de finais dos anos 40, existia um Batman, lançado em 1966, retomando o modelo da série televisiva do começo da década de 60, protagonizada por Adam West e Burt Ward (respectivamente como Batman e Robin). Em qualquer caso, o filme de Burton ficou como um momento decisivo na idade moderna dos super-heróis em cinema, por assim dizer sistematizando as hipóteses de espectáculo abertas pelo Superman (1978), de Richard Donner, com Christopher Reeve no papel central.
Três décadas depois, o mínimo que se pode dizer é que a síndrome Marvel mudou por completo a paisagem do género, quase sempre impondo uma lógica tecnicista em que a ostentação dos efeitos especiais banaliza as singularidades das personagens e, em última instância, menospreza os actores.
Devido a vários problemas conceptuais, em particular nos modos de utilização da música, o próprio Burton nunca se mostrou muito satisfeito com o filme que realizou. Uma coisa é certa: este é uma genuína narrativa de personagens em que o trabalho específico dos seus intérpretes desempenha uma função insubstituível — repare-se, aliás, no pormenor sintomático e delicioso de Jack Nicholson (Joker), então em momento alto de popularidade, ter a primazia nos cartazes, surgindo Michael Keaton, o "actor-herói", em segundo lugar.
Eis o trailer original e Batdance, uma das canções de Prince para a banda sonora.



sábado, março 30, 2019

Sobre o guarda-roupa de "Dumbo"

Como vestir os actores? Esta é uma esclarecedora conversa produzida pela Vanity Fair, envolvendo Tim Burton e Colleen Atwood, responsável pelo guarda-roupa de Dumbo. Em foco está a cena da parada de entrada na Dreamland. Pontos a reter: a arte de combinar os actores com as figuras digitais e, em particular, a não abdicação de cenários materiais e figurantes humanos — sedutor e pedagógico.

quinta-feira, junho 14, 2018

Dumbo + Disney + Tim Burton

Apostados em revitalizar "em imagem real" (e muito efeitos digitais...) alguns dos seus títulos clássicos, os estúdios Disney têm já agendada, para Março de 2019, uma nova versão de Dumbo, 78 anos passados sobre o desenho animado original. O primeiro trailer é uma pequena proeza de sedução — pormenor a ter em conta: a realização tem assinatura de Tim Burton. Aqui ficam as novas imagens, logo seguidas do trailer do filme de 1941.



segunda-feira, agosto 28, 2017

Prince & Batman

Os telediscos de Prince continuam a (re)aparecer na Net. E o menos que se pode dizer é que, mesmo não esquecendo o muito que ele resistiu a tal divulgação, a sua circulação apenas tem servido para reafirmar o seu génio. Será que poderia ser de outra maneira?...
Aí estão, então, Batdance e Partyman, ambos da banda sonora do Batman (1989), de Tim Burton, o filme que inaugurou a era moderna do Homem Morcego no cinema. A sua energia funk, encenada através de uma espantosa energia orquestral, corresponde a um tempo de prodigiosa criatividade — mais concretamente, depois de Lovesexy (1988), antes de Graffiti Bridge (1990). Com direcção de Albert Magnoli e coreografia de Barry Lather, os telediscos são também um exemplo modelar de figuração "roubada" à iconografia de Batman — citação e apropriação, eis a questão.



sexta-feira, setembro 30, 2016

Tim Burton à procura de Tim Burton

Tim Burton perdido no labirinto da sua própria carreira? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Setembro), com o título 'Esquizofrenia artística'.

Por vezes, a dimensão fantástica, ou fantasista, da obra de Tim Burton faz-nos esquecer que ele é também um metódico e contundente observador das tensões sociais e históricas. Até porque, convém não esquecer, a emergência de qualquer “coisa” que perturba a normalidade pressupõe, justamente, um sistema comunitário de leis apostado em definir e fazer funcionar essa normalidade. O exemplo extremo de A Noiva Cadáver (2005) poderá servir de sintoma eloquente: aí, através de um inusitado voto conjugal, o protagonista descobre-se mesmo envolvido com o mundo dos mortos.
Tim Burton
Até certo ponto, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é o seu filme mais próximo dessa duplicidade (festiva e fúnebre), encenando um universo em que a morte se encontra, por assim dizer, suspensa através da manipulação do tempo. Os resultados possuem qualquer coisa de bizarra esquizofrenia, como se a arte singular de Burton estivesse cada vez mais obrigada a satisfazer as regras de “acção” e “espectáculo” que, para o melhor e para o pior, têm marcado muitos filmes mais ou menos ligados aos impérios da Marvel e da DC Comics.
Deparamos, assim, com um brilhante tempo de exposição do drama a que o pano de fundo, discreto mas essencial, da Segunda Guerra Mundial confere uma perturbação muito especial — as “crianças peculiares” são, obviamente, um eco simbólico das mais indefesas vítimas do conflito. A certa altura, o filme parece obrigado a cumprir os cânones mais ou menos ruidosos de super-heróis e afins, como se Tim Burton se tivesse ausentado da sua direcção. Claro que poderá ser ele próprio a querer experimentar outros caminhos. É legítimo que o faça, mas ficamos com saudades da poesia trágica de Eduardo Mãos de Tesoura ou do humor de Marte Ataca!.

terça-feira, março 10, 2015

Dumbo por Tim Burton

Quem diria? Em tempos de digitalização de tudo e mais alguma coisa, incluindo a animação cinematográfica (sobretudo a animação cinematográfica...), os estúdios Disney parecem apostados em refazer os seus desenhos clássicos em filmes com actores de carne e osso, em coexistência com elementos digitais — está quase a chegar às salas Cinderela, de Kenneth Branagh, o mais recente exemplo dessa tendência.
Tim Burton, de algum modo uma personalidade decisiva em tal processo — recorde-se o espectacular impacto da sua admirável Alice no País das Maravilhas (2010), com mais de mil milhões de dólares de receitas em todo o mundo —, vai reincidir: de acordo com uma notícia divulgada pelo Wall Street Journal, será ele a dirigir uma nova versão de Dumbo, cujo original data de 1941. O que será a história do elefante de orelhas grandes "em acção real"? — eis um enigma que, por certo, Burton saberá resolver.

* NOTA - Quando, através do Google, se procuram informações sobre Dumbo nos sites oficiais da Disney, deparamos com uma primeira hipótese que nos remete para um site preciso [movies.disney.com/dumbo]. Clicando em tal endereço, somos conduzidos ao domínio português da Disney [disney.pt] onde, aliás, várias horas depois da notícia divulgada em primeira mão pelo Wall Street Journal, não há qualquer informação sobre o novo projecto. Porquê esta "interdição" de acesso ao centro de informação do próprio estúdio? Convenhamos que se trata de um entendimento muito simplista da tão celebrada globalização...

sábado, fevereiro 28, 2015

Os olhos grandes de Tim Burton

Num registo porventura mais contido, ou mais clássico, do que em muitos momentos da sua obra, Olhos Grandes leva de novo Tim Burton a uma questão fulcral do seu universo criativo: a identidade privada do artista e a sua relação com os olhares dos outros — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Fevereiro), com o título 'Como Margaret Keane não desistiu de pintar olhos grandes'.

Poderá parecer que estamos a revelar o mistério central do novo filme de Tim Burton, mas esta é, afinal, uma informação disponível no próprio trailer: Olhos Grandes é a história da figura verídica de Margaret Keane (n. 1927), pintora de cujo trabalho o marido Walter Keane (1915-2000) se apropriou, apresentando-se publicamente como autor dos quadros — com figuras de “olhos grandes” — que a sua mulher pintava.
Porventura o mais desconcertante, e também mais sintomático da subtileza de Burton, é que, mesmo conhecendo esse facto, vemos o filme através da persistência de um cruel enigma: afinal, em que momento (ou em que cena) Margaret começa a ser anulada pela impostura de Walter?
Em boa verdade, não parece haver uma resposta segura. Olhos Grandes começa por ser a história de uma despersonalização que Margaret vive e, num certo sentido, alimenta através de uma subserviência que lhe é imposta em nome do decoro conjugal, da harmonia familiar e, enfim, do sucesso comercial. E se mais não houvesse, a subtileza com que Amy Adams sabe compor esse mistura insólita de candura e revolta seria suficiente para reconhecermos que estamos perante um objecto cinematográfico de delicada concepção. Face a ela, Christoph Waltz, no papel do marido, emerge como uma figura de burlesca maldade.
Mesmo não minimizando o rigor e a elegância da mise en scène de Burton, importa não esquecer que estamos perante um projecto indissociável das singularidades de escrita dos respectivos argumentistas: Scott Alexander e Larry Karaszewski. Foram eles que negociaram os direitos de tratamento da história de Margaret Keane, acabando por surgir como parceiros de Burton na produção de Olhos Grandes. Na sua carreira encontramos, aliás, vários títulos “não-alinhados”, quase sempre abordando personagens com histórias de alguma marginalidade social ou emocional: é o caso de Ed Wood (1994), também realizado por Burton, Larry Flynt (1996) e Homem na Lua (1999), ambos de Milos Forman.
Num registo que não apresenta a dimensão espectacular dos seus títulos mais conhecidos, a começar por Alice no País das Maravilhas (2010), Burton reencontra, assim, uma obsessão fulcral do seu universo. A saber: a incompletude de personagens como o cândido herói de Eduardo Mãos de Tesoura (1990) ou o realizador Ed Wood que vivem, por assim dizer, no limbo da sua própria imaginação.
É pena que o impacto de Olhos Grandes tenha ficado limitado pela sua total ausência das nomeações para os Oscars (Amy Adams ganhou o Globo de Ouro de melhor actriz em comédia ou musical). Dir-se-ia que uma certa imagem de marca de Burton — como criador de universos bizarros — não se adequa à contenção poética deste filme. Em última análise, há em Margaret Keane a contagiante energia de alguém que nunca desiste da sua arte, mesmo quando o marido a tenta reduzir a uma desenhadora de rostos de proporções “erradas”.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Para ler: um olhar
pelo novo filme de Tim Burton


Há já algum tempo que não vemos Tim Burton a dar-nos obras do calibre dos filmes que o colocaram no mapa das atenções entre finais dos oitentas e os anos noventa. E atenção que Frankenweenie, o melhor dos seus filmes mais recentes, não era senão um baralha e volta a dar (bem, de facto) de elementos de uma velha curta-metragem.

A sua legião de admiradores é vasta. E o reconhecimento da sua identidade autoral mereceu já mesmo uma inesquecível exposição no MoMA, mais tarde exibida na Cinemateca Francesa, em Paris (onde a vi).

Chegam contudo notícias encorajadoras. Um texto sobre o novo Big Eyes, acabado de publicar no Guardian, devolve-o ao contacto da equipa que escreveu Ed Wood e parece prometer um reencontro com temas que prometem um tratamento mais centrado na narrativa e definição de personagens que na cenografia, caracterização e guarda-roupa, onde parte da sua obra recente encontrou uma espécie de piloto-automático. E convenhamos que poder ter Tim Burton de regresso ao seu melhor é uma boa notícia.

Podem ler aqui o texto do Guardian.

sexta-feira, março 07, 2014

No país do preto e branco

No seu impecável classicismo, Nebraska, de Alexander Payne, revaloriza, sem formalismos, o preto e branco — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Março), com o título 'Emoções de todas as cores'.

Por mais voltas que possamos dar, o facto de Nebraska ser um filme com imagens a preto e branco (notável trabalho do director de fotografia Phedon Papamichael!) surge como um elemento definidor da sua identidade. Por mim, gostaria de não favorecer qualquer moralismo formalista. De facto, rodar um filme a preto e branco não envolve, por si só, qualquer tipo de vantagem artística, muito menos de caução temática. O certo é que tal proposta surge num contexto em que, na linha da frente da promoção do cinema contemporâneo, encontramos sempre o mesmo tipo de “blockbusters” com heróis mais ou menos ruidosos a partir cenários mais ou menos digitais...
Enfim, evitemos outro tipo de maniqueísmo e lembremos que a história dos “blockbusters” contém, também ela, algumas contagiantes maravilhas. Acontece que, actualmente, somos bombardeados pela promoção de um cinema ancorado apenas na ostentação tecnológica, quer dizer, desprovido de memória.
O preto e branco do filme de Alexander Payne provém, justamente, de uma memória cinéfila que conhece e respeita o mais nobre classicismo de Hollywood, sabendo revisitá-lo e recriá-lo. Através do preto e branco, Payne conta a história amarga e doce de um velho apanhado na teia de ilusões de uma lotaria (pelo correio), refazendo os laços com muitos filmes que, já depois da idade de ouro daquele classicismo, encenaram as alegrias e dores de uma América profunda, para além de qualquer miragem de “glamour”. Nesta perspectiva, Nebraska prolonga o paradoxal encantamento de filmes a preto e branco como A Última Sessão (Peter Bogdanovich, 1971), Mala Noche (Gus Van Sant, 1985) ou Ed Wood (Tim Burton, 1994), celebrando um cinema que nunca menospreza a frondosa paleta de cores das emoções humanas.

terça-feira, dezembro 18, 2012

The Killers por Tim Burton

Com que se parece uma canção de The Killers quando encenada por Tim Burton? Resposta simples e inequívoca: com um filme de Tim Burton!
Assim é o teledisco de Here with Me (do álbum Battle Born): a história de uma paixão radical e sombria, desesperada e feliz, protagonizada pela sempre fiel Winona Ryder e Craig Roberts, o jovem actor do filme Submarino (2010), de Richard Ayoade — no fim de contas, um pequeno grande filme sobre a luminosidade do amor.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Novas edições:
Danny Elfman, Frankenweenie


Danny Elfman 
“Frankenweenie” 
Walt Disney Records / EMI Music 
4 / 5

Colaborador regular de Tim Burton (só não colaboraram em Ed Wood, por alturas de um desentendimento e Sweeney Todd, uma vez que este era um musical baseado em composições de Stephen Sondheim), Danny Elfman contribuiu, com a sua música, para a definição de uma marca autoral que reconhecemos há muito na obra do realizador, mal imaginando nós os seus filmes com outros sons... E meses depois de um Dark Shadows apenas de rotina – tanto para o realizador como no plano da banda sonora – eis que ambos se reencontram num dos seus melhores projetos dos últimos tempos. Se Frankenweenie, baseado numa curta-metragem sua de 1984, é um dos melhores e mais pessoais filmes de Tim Burton nos últimos anos, a partitura que Danny Elfman aqui assina é também uma das mais cativantes das que nos tem apresentado entre as suas produções mais recentes. Tal como o filme, que toma como central a figura de um cãozinho (na melhor linha Frankenstein) que é diferente de tudo e todos, evoca em vários elementos a memória do sublime Eduardo Mãos de Tesoura, também a música de Elfman reencontra aqui afinidades com esse que continua a ser o paradigma de referência para a relação entre ambos. Estamos pois novamente num terreno de um certo lirismo assombrado, a doçura de certas linhas vivendo sempre ameaçada por sombras (de eventual travo gótico por perto), aos coros cabendo ocasionais frestas de luz numa atmosfera mais densa (as vitaminas de ação de certas sequências exigindo depois maior fôlego rítmico e descargas de intensidade respetivamente sugeridas pelas cordas e metais, o órgão surgindo para acentuar o tom sepulcral da coisa). Apesar do natural mediatismo que o disco-companheiro Frankenweenie Unleashed! possa cativar, dos dois álbuns lançados por ocasião da estreia deste filme este é, claramente, o que mais traduz o que de melhor há em Frankenweenie. Até porque, à exceção da canção de Karen O que escutamos quando chegam os créditos finais e de uma outra, que escutamos no próprio filme, na voz de Winona Ryder, esse álbum companheiro inspirado pelas atmosferas de Frankenweenie é um verdadeiro susto!

segunda-feira, outubro 22, 2012

O melhor Tim Burton dos últimos anos


Há um subtexto que parece coisa quase de mitologia pop na génese do novo filme de Tim Burton. O negrume assombrado da curta-metragem de imagem real que, em 1984, mostrava a história de um menino que recusava a morte do seu cãozinho e, como Mary Shelley mostrara em Frankenstein, o devolve à vida com a ajuda de uma descarga elétrica em noite de temporal, levou a Disney a afastá-lo... Ironia do destino, ou mais friamente a força dos dólares (já que Tim Burton se transformou entretanto num dos “autrores” de bilheteira mais bem sucedida de Hollywood) traz agora à Disney um remake, em versão extended remix, desse mesmo filme. E com o mesmo título: Frankenweenie.

O ponto de partida para a história é o mesmo. Mas mais ainda que no filme de 1984, Tim Burton projeta agora nesta versão longa (em animação stop motion, a preto e branco e 3D) ainda mais marcas de identidade, de referencias formadoras (que passam por citações algo fáceis de detetar entre a memória da filmografia do fantástico série B a Z dos anos 30 a 50) a uma ligação mais que nunca evidente ao seu traço como desenhador. Mais ainda que em A Noiva Cadáver, as personagens de Frankenweenie revelam afinidades com as figurinhas docemente horripilantes que sempre desenhou e que recentemente geraram uma exposição inesquecível no MoMA (que este ano passou pela Cinemateca de Paris).

Lúgubre e assombrada a ação decorre numa cidade que em tudo lembra o subúrbio onde o realizador cresceu e que de certa forma já evocara em Eduardo Mãos de Tesoura. O cãozinho-frankenstein é de resto um parente próximo desse seu já clássico herói, revisitando a ideia do corpo diferente, rapidamente marginalizado pela populaça em fúria. Com valor acrescentado (desta vez) na figura de um professor de ciência que reforça a visão do preconceito como espelho de ignorância.

Tim Burton é magistral na forma de encontrar uma linha narrativa complementar à da história original, respirando o Frankenweenie de 2012 uma vida própria. E afirmando-se como o seu melhor filme dos últimos tempos.

domingo, outubro 21, 2012

Tim Burton reinventa Tim Burton

Com a sua nova longa-metragem, Frankenweenie, em 3D, Tim Burton aposta em revisitar e reinventar o seu próprio trabalho, retomando temas e personagens de uma curta-metragem de 1984 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Outubro), com o título 'Tim Burton reinventa o mito de Frankenstein'.

O novo filme de Tim Burton, Frankenweenie, é um objecto feito com pequenos bonecos animados em que o realizador retoma a história de um dos seus primeiros títulos, a curta-metragem homónima, rodada em 1984. Num caso como noutro, trata-se de propor uma variação insólita sobre o mito clássico de Frankenstein, gerado pelo romance de Mary Shelley publicado em 1818. Com duas diferenças importantes: primeiro, o cientista que aposta em criar vida no seu laboratório é agora uma criança solitária, na família e na escola, hiper-dotada para as ciências; além do mais, o ser “ressuscitado” no meio de relâmpagos e intricados circuitos eléctricos não é humano, mas sim... um cão!
Há uma ironia desconcertante em tudo isto. De facto, o estúdio produtor, Disney, reagiu muito mal à curta-metragem original, considerando que a ambiência mais ou menos macabra (ainda que plena de humor) era inadequada para o público infantil. Mais do que isso: Tim Burton foi despedido... Agora, regressa a Frankenweenie e, de novo, com chancela da Disney!
Como é óbvio, o realizador pode consumar este regresso a um dos seus temas mais queridos graças ao estatuto conquistado no interior da máquina de Hollywood. E não apenas por ter assinado uma série de filmes mais ou menos fantásticos e de grande sucesso (Batman, Batman Regressa, Marte Ataca!, etc.). Também porque o seu trabalho, quer como realizador, quer como produtor, tem sido marcado por uma ousada e inventiva capacidade de experimentação técnica.
Neste caso, o experimentalismo é paradoxalmente primitivo, uma vez que Tim Burton volta a aplicar a antiga técnica de stop motion, no essencial resultante da manipulação de figurinhas filmadas imagem a imagem, de modo a gerar a ilusão de movimento (A Noiva Cadáver, de 2005, era a sua experiência mais recente nesse domínio). Mais do que isso: respeitando a memória dos filmes antigos de Frankenstein (o primeiro, de James Whale, com Boris Karloff na figura do monstro, surgiu em 1931), Frankenweenie é uma produção a preto e branco, coisa que há muito se tornou uma raridade no catálogo dos grandes estúdios americanos.
Tim Burton poderá ser definido, afinal, como um criador quer conseguiu essa admirável proeza de manter uma sistemática relação de trabalho com os estúdios de Hollywood, “encaixando” sem complexos nos seus valores de espectáculo, sem nunca alienar a dimensão mais pessoal (e até confessional) de um universo sempre seduzido pelas atribulações da infância. Uma coisa é certa: desta vez, os estúdios Disney não o despediram.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Novas edições:
Vários artistas, Frankenweenie Unleashed!


Vários Artistas
“Frankenweenie Unleashed!”
Walt Disney Records / EMI Music
1 / 5

O filme, garanto-vos, é muito bom. É mesmo o melhor de Tim Burton nos últimos anos e tanto visual como narrativamente um dos mais próximos de referências centrais à sua formação pessoal. No departamento da música, e como sucedeu em tantos outros filmes – no que de reste define um dos mais sólidos e consequentes pares realizador / compositor da história do cinema – Tim Burton voltou a contar com a preciosa colaboração de Danny Elfman num score orquestral que evoca o lirismo algo assombrado que lembramos de um Eduardo Mãos de Tesoura. Mas a música de Frankenweenie não se esgota na recomendável partitura original de Danny Elfman. Tanto que ao disco com a música orquestral “convencional” se junta um outro álbum (editado separadamente) feito de canções que ora escutamos no filme ora por ele foram inspiradas. Com o título Frankenweenie Unleashed!, esta compilação abre com a deliciosa canção de Karen O que, com travo aos sessentas, escutamos mal arrancam os créditos finais... Por cá mora ainda a “cançãozinha” que a personagem da sobrinha do Mayor tem de cantar quer queira quer não no dia da festa da cidade (pela mesma Winona Ryder que dá, de resto, voz à pequena Elsa van Helsing. Mas depois, mesmo contando o alinhamento com uma presença (cenicamente alinhada com os tons assombrados do filme) de Robert Smith, dos The Cure, e uma colaboração (pouco ginasticada) dos Flaming Lips com Grace Potter, o alinhamento do álbum é de atroz banalidade que o filme não merecia. De uns Neon Trees em modo Strokes a um Marc Foster (dos Foster The People) a ensaiar terreno Of Montreal, passando por uma versão meio óbvia do clássico Pet Sematary dos Ramones via Plain White T’s, este álbum, um desfile pop/rock mascarado de coisa indie (ser convencer) é coisa dispensável que, de tão inerte, nem com um tratamento à la Victor Frankenstein se aguentaria...

terça-feira, agosto 28, 2012

Karen O canta em "Frankenweenie"

Para a banda sonora do seu Frankenweenie, filme de animação com bonequinhos (stop motion), remake de uma curta homónima realizada em 1984, Tim Burton conta com a colaboração musical do fiel Danny Elfman, mas também com canções interpretadas por gente tão diversa como Passion Pit, The Flaming Lips ou Robert Smith... e ainda Karen O (Yeah Yeah Yeahs), interpretando Love Is Strange. O lançamento do álbum está marcado para 25 de Setembro, chegando o filme às salas americanas a 5 de Outubro.

quinta-feira, maio 10, 2012

Um vampiro (de outras colheitas)


Um homem de sucesso, que não presta atenção aos amores da criada (que afinal era bruxa) acaba feito vampiro e fechado num caixão até que é descoberto 200 anos depois. Nascera em Inglaterra, ainda no século XVIII e mudara-se com a família para uma América nos dias da colonização. Acorda em 1972, quando Marc Bolan, Donovan ou Alice Cooper são os novos deuses... O confronto entre épocas, a devoção firme pela família (que ainda mora na velha mansão mas sem a opulência de outros tempos) e a velha contenda com a bruxa que o enfeitiçara (que agora é moderna e stylish empresária de sucesso) fazem o tutano de Dark Shadows (entre nós estreia hoje como Sombras da Escuridão) o oitavo filme em que Tim Burton colabora com Johnny Depp.

O filme nasce de uma adaptação de elementos-chave de uma série televisiva que fez carreira de 1966 a 1971 (na verdade a personagem de Barnabas Collins, que Depp veste neste filme, surgiu apenas um ano depois dos primeiros episódios, transformando-se numa das figuras mais populares do programa). Tim Burton faz contudo – e como sempre – questão de chamar personagens, espaços e narrativa ao seu universo. E se, por um lado, a história tem os seus trunfos narrativos (doseando humor, sobretudo nos choques que vive um vampiro de outro tempo numa terra diferente, com elementos de drama familiar e outros temperos com conta, peso e medida), por outro é visualmente sustentada por uma art direction exemplar e um saber profundamente pessoal no olhar das câmaras que há muito acompanhamos na obra do realizador. Tim Burton está aqui em clara zona de conforto, ainda mais ao chamar de novo a presença de atores com quem já trabalhou. Além de Johnny Depp e de Helena Bonham Carter (com quem é casado), Burton reencontra aqui Michele Pfeiffer, a "sua" Catwoman em Batman Returns.

Comparado com peças exemplares com o são Eduardo Mãos de Tesoura, Ed Wood, Sweeney Todd ou Charlie e a Fábrica de Chocolate, Sombras da Escuridão não será um Burton “maior”. Mas é certamente dos melhores exemplos de um cinema popular inteligente que vamos vendo em sala por estes dias.

PS. E que bom que é ver um filme “com vampiro” que não segue a fé da moda Twilight ou das variações mais banais em que se transformou a série Sangue Fresco.

quarta-feira, abril 04, 2012

Tim Burton, nas margens do Rio Sena

Está patente na Cinemathèque Française, em Paris, a exposição Tim Burton - L'Exposition, com o conjunto de imagens e objetos que em 2009 foram mostrados no MoMA, em Nova Iorque. Este texto foi originalmente publicado no DN a 30 de março, com o título 'O Estranho Mundo de Tim Burton'.

Há um menino que tem uma cabeça em forma de ostra e um outro com pregos nos olhos. Há marcianos com cérebros descomunais e um monstro com dentes maiores que o resto do corpo. De um cacto saem olhos que observam a sala. Na parede vemos um retrato de uma jovem, que podia ser uma parente da Mona Lisa de Da Vinci mas tem a pele azul e as partes do corpo juntas entre si por evidentes costuras... São apenas algumas entre as estranhas criações de Tim Burton que, depois de terem morado durante alguns meses entre as salas do MoMA (Museu of Modern Art), em Nova Iorque e de terem passado depois por Melbourne (Austrália) e Toronto (Canadá), estão em exposição, até 5 de Agosto, na galeria do piso superior da Cinemathèque Française, em Paris.

Em Nova Iorque a exposição teve tamanho sucesso que ficou na história do MoMA como a terceira mais visita na vida do museu (somando mais de 810 mil visitantes em 2009). Em Paris não deverá ter destino muito diferente e disputa neste momento com uma exposição dedicada a Matisse (no Centro Pompidou) as honras de ser das mais faladas do momento na capital francesa.

O cenário começava na rua, com inscrições no chão a cativar primeiras atenções. Vencida a longa fila de espera o visitante sobe pelo elevador até ao piso superior da Cinemathèque Française e dá por si numa antecâmara com luz negra, vários desenhos e um bizarro mobile. As salas seguintes arrumam a obra de Tim Burton desde os seus primeiros desenhos e propostas para filmes a modelos das personagens que encontrámos no seu livro A Morte Melancólica do Rapaz Ostra e Outras Histórias. O cinema só ganha expressão maior a partir de metade do espaço, com esboços e imagens dos vários filmes, o visionamento permanente da curta Vincent, figurinos (como o de Eduardo Mãos de Tesoura) e modelos (como os marcianos de Marte Ataca!). Tim Burton nasceu numa cidade onde não havia museus e passou a juventude a ver filmes com monstros. E agora leva assim os seus monstrinhos aos museus.

quinta-feira, março 22, 2012

Da televisão para o cinema


Na origem está uma série de televisão. Uma história com tempero gótico (como o foram os Munsters ou Addams Family, por exemplo, embora com algumas diferenças) que esteve em produção entre 1966 e 1971 e que tinha entre os mais devotos espectadores dois jovens de nome Timothy William (que o mundo conheceria mais tarde como Tim Burton) e John Christopher (ou seja, o hoje ator Johnny Depp)... Ambos são agora figuras-chave na adaptação ao grande ecrã de Dark Shadows, que em breve chegará às salas de cinema. Esta é a história de um vampiro nascido no século XVII em plena América dos anos 70 (do século XX entenda-se), vivendo numa mansão entre os seus próprios descendentes... Aqui fica o trailer (mas espero pelo filme para o ver antes dele falar mais qualquer coisa...).