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domingo, janeiro 04, 2026

10 discos de 2025 [7]

* ONE BATTLE AFTER ANOTHER, Jonny Greenwood

Compositor regular de bandas sonoras para os filmes de Paul Thomas Anderson, com algumas colaborações com outros cineastas — lembremos Spencer (Pablo Larraín, 2021) ou O Poder do Cão (Jane Campion, 2021) —, Jonny Greenwood é um caso admirável no interior da história musical do cinema do século XXI (a fazer lembrar o génio heterodoxo de Bernard Herrmann). Longe de qualquer "duplicação" do seu trabalho nos Radiohead ou em The Smile, Greenwood assinou este ano mais um álbum excepcional, de novo para uma realização de P.T. Anderson, Batalha Atrás de Batalha (por "coincidência" também um dos grandes filmes do ano). Raras vezes um filme encontra, assim, um espelho dramático e simbólico numa banda sonora que o integra como uma alma gémea.
 

[ Patti Smith ] [ Taylor Swift ] [ Ryan Adams ] [ Lucy Dacus ] [ Ambrose Akinmusire ] [ Haim ]

quarta-feira, janeiro 04, 2023

The Smile, concerto na NPR

[ The Smile ]

Para Bob Boilen, responsável pelos Tiny Desk Concerts, na NPR, este foi o momento mais alto da música de 2022. E compreende-se porquê: a performance de The Smile é um pequeno prodígio de transfiguração de três canções — Pana-vision, The Smoke e Skrting On the Surface — do seu álbum A Light for Attracting Attention: a hiper-sofisticação do trabalho de estúdio dá lugar, aqui, a uma austeridade que, em boa verdade, acaba por reafirmar a vibração poética das composições. Reforçando o entusiasmo de Boilen, digamos que são apenas 15 minutos, mas tanto basta para que estejamos perante um dos grandes concertos (tiny ou não...) do ano.

terça-feira, junho 07, 2022

Radiohead, aliás, The Smile

A confusão justifica-se.
E é especialmente saborosa.
A Light for Attracting Attention apresenta-se como uma nuvem de temas, tecida de coisas materiais e derivações imponderáveis, de imediato fazendo lembrar os Radiohead... E por muito boas razões: Thom Yorke e Jonny Greenwood estão envolvidos neste álbum magnífico, mas a banda dá pelo nome de The Smile.
Ou seja: Yorke e Greenwood aliaram-se Tom Skinner, baterista da banda de jazz britânica Sons of Kemet, para um exercício de revisão da matéria dada + metódica pesquisa. Os resultados constituem, muito simplesmente, um dos grandes acontecimentos da música de 2022.

>>> The Smile: Thin Thing + Free in the Knowledge + We Don't Know What Tomorrow Brings.
 




sexta-feira, janeiro 28, 2022

The Smile (não são os Radiohead)

Não são os Radiohead, mas lá encontramos Thom Yorke e Jonny Greenwood, na companhia de Tom Skinner (do grupo britânico de jazz Sons of Kemet). Assinam como The Smile e têm uma nova canção: faz lembrar os Radiohead, mas não é grave...

quinta-feira, novembro 04, 2021

Radiohead reeditam "Kid A" e "Amnesiac"

Kid A Mnesia é o título do novo álbum dos Radiohead, um misto de reedições e novidades. A saber: aos temas de Kid A (2000) e Amnesiac (2001) juntar-se-ão outros, das respectivas sessões de gravação, que permaneceram inéditos. Entre estes últimos, são já conhecidos If You Say the Word e Follow Me Around — o teledisco do segundo, realizado por Chris Barrett e Luke Taylor (nome artístico: Us), é uma experiência visual surpreendente, com Guy Pearce a interpretar um homem ameaçado por um "olho" transportado por um drone...



sábado, dezembro 07, 2019

EOB, aliás, Ed O'Brien

Há qualquer coisa de místico a viajar pelas músicas de Ed O'Brien. O guitarrista dos Radiohead anunciou, para 2020, o seu primeiro álbum a solo, utilizando a sigla EOB. Para já, aqui estão dois temas sedutores, Santa Teresa e Brasil, por certo recheados de memórias do tempo em que O'Brien viveu com a família em terras brasileiras.



sábado, janeiro 27, 2018

10 DISCOS DE 2017 [10]
— Radiohead

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]  [ St. Vincent ]  [ Robert Plant ]
[ Ambrose Akinmusire ]  [ Sampha ]

Nova embalagem, retomando o essencial dos elementos gráficos do original; remasterização, singles, três canções inéditas; um toque de azul na edição em vinyl... A edição comemorativa dos 20 anos de OK Computer, dos Radiohead — título integral: OK Computer OKNOTOK 1997 2017 — impôs-se como objecto de incontornável valor histórico, tanto mais quanto parece ilustrar uma certa deslocação do próprio mercado das edições físicas (bizarra terminologia que o virtual nos impôs) no sentido de revalorizar tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possa ser recoberto pelo adjectivo "clássico". Talvez haja uma outra maneira de dizer isto. A saber: apesar da aceleração em que esse mercado nos obriga a viver (e não só na música, como é óbvio), continua a ser possível manter uma relação aberta, criativa e inteligente com a memória. Que foi, que é, então, OK Computer? Um trabalho que condensa os caminhos criativos da música dos 20 anos anteriores? Ou uma experiência que antecipa os 20 anos seguintes? Em boa verdade, 2017 foi também o ano dessa maravilhosa ambivalência, porventura impossível de sintetizar. A propósito: por altura da edição original, os Radiohead cantavam assim No Surprises no programa Later with Jools Holland, da BBC — foi a 31 de Maio de 1997.

domingo, setembro 17, 2017

Aventuras de Thom Yorke num elevador

Thom Yorke entra num elevador e parece nunca mais poder chegar ao seu destino... Realista na ambiência, surreal na ficção, assim é o teledisco de Lift, desconcertante e envolvente aventura filmada por Oscar Hudson — a canção é uma das novidades incluídas no alinhamento de OKNOTOK, a edição comemorativa dos 20 anos de OK Computer.

This is the place
Sit down, you’re safe now
You’ve been stuck in a lift
We’ve been trying to reach you, Thom
This is the place
It won’t hurt ever again

The smell of air conditioning
The fish are belly up
Empty all your pockets
Because it’s time to come home

This is the place
Remember me?
I’m the face you always see
You’ve been stuck in a lift
In the belly of a whale
At the bottom of the ocean

The smell of air conditioning
The fish are belly up
Empty all your pockets
Because it’s time to come home

The smell of air conditioning
The fish are belly up
Let it go

Today is the first day
Of the rest of your days

So lighten up, squirt

quarta-feira, julho 05, 2017

Glastonbury 2017

Performing arts — assim diz a promoção. O Festival de Glastonbury, todos os anos na região de Pilton, Somerset, continua a ser um evento cujos ecos transcendem a Inglaterra, impondo-se como uma viagem de celebração dos caminhos da música popular contemporânea. Este ano (21/25 de Junho) voltou a deixar uma bela antologia de performances. Aqui ficam três magníficos exemplos:
> Radiohead — o clássico Creep, do alinhamento do primeiro álbum da banda, Pablo Honey (1993).
> Lorde — Green Light, belo tour de force do seu segundo álbum, Melodrama, recentemente editado.
> London Grammar — através de uma sublime vocalização de Hannah Reid, o tema Rooting for You, incluindo no segundo álbum da banda, Truth Is a Beautiful Thing, também há poucas semanas chegado ao mercado.





quinta-feira, junho 22, 2017

Radiohead — dia e noite

Está a chegar OKNOTOK, a edição comemorativa do 20º aniversário do álbum OK Computer, dos Radiohead. Das três canções que nunca tinham tido edição oficial, e são agora publicadas, já conhecíamos o teledisco de I Promise. Agora, é a vez de Man of War, encenado numa magnífica realização de Colin Read — um conto de assombramento em que o dia que se transforma em noite, ou a noite devora o dia.

Drift all you like from ocean to ocean
Search the whole world
But drunken confessions and hijacked affairs
Will just make you more alone

When you come home I’ll bake you a cake
Made of all their eyes
I wish you could see me dressed for the kill

You’re my man of war
You’re my man of war
Yeah, the worms will come for you, big boots

So unplug the phones, stop all the taps
It all comes flooding back
To poison clouds and poisoned dwarves

You’re my man of war
[...]

sexta-feira, junho 02, 2017

Uma nova/velha canção dos Radiohead

Com duas gloriosas décadas de existência (foi lançado a 21 de maio de 1997), o clássico OK Computer, dos Radiohead, vai ser objecto de uma especialíssima edição comemorativa, com o título OKNOTOK. Entre os novos materiais estão três canções — I Promise, Lift e Man Of War — que, embora conhecidas, nunca tinham tido publicação oficial. Eis I Promise, num magnífico teledisco, realista e assombrado, realizado por Michal Marczak.

I won't run away no more, I promise
Even when I get bored, I promise
Even when you lock me out, I promise
I say my prayers every night, I promise

I don't wish that I'm spread, I promise
The tantrums and the chilling chats, I promise

Even when the ship is wrecked, I promise
Tie me to the rotten deck, I promise

I won't run away no more, I promise
Even when I get bored, I promise

Even when the ship is wrecked, I promise
Tie me to the rotten deck, I promise

I won't run away no more, I promise

quarta-feira, outubro 05, 2016

Mais um teledisco dos Radiohead
por Paul Thomas Anderson

É mesmo o cumprimento de um contrato de trabalho. Depois de Daydreaming e Present Tense, o cineasta Paul Thomas Anderson (Magnolia & etc.) assina mais um teledisco dos Radiohead, porventura ainda mais austero do que o anterior. Desta vez, Jonny Greenwood e Thom Yorke surgem num cenário de campo, luminoso e acolhedor, para interpretar The Numbers, uma canção de A Moon Shaped Pool que nos garante que "os números não decidem". São duas câmaras montadas sobre calhas (aliás visíveis no começo), movendo-se suavemente, enquadrando os músicos como quem participa numa cerimónia de contagiante austeridade — podem crer.

It holds us like a phantom
The touch is like a breeze
It shines its understanding
See the moon smiling

Open on all channels
Ready to receive
And we're not at the mercy
Of your shimmerers or spells

We are of the earth
To her we do return
The future is inside us
It's not somewhere else

One day at a time

We call upon the people
People have this power
The numbers don't decide
Your system is a lie
The river running dry
The wings of a butterfly

And you may pour us away like soup
Like we're pretty broken flowers
We'll take back what is ours
Take back what is ours

One day at a time

segunda-feira, setembro 19, 2016

Radiohead por Paul Thomas Anderson

Provavelmente, em tempos de tanta acumulação de linguagens redundantes e irresponsáveis, os telediscos terão interesse em regressar a uma espécie de grau zero da música. Ou à sua mais depurada intimidade. É o que faz Paul Thomas Anderson, filmando Thom Yorke e Jonny Greenwood numa austera performance de Present Tense — do álbum A Moon Shaped Pool, dos Radiohead (recorde-se que Anderson já dirigira Daydreaming). Além do mais, onde está um canal de televisão que saiba valorizar estas pequenas pérolas de que se faz, realmente, a música do nosso tempo?

Distance
Distance
It's like a weapon
Like a weapon
Of self defense
Self defense
Against the present
Against the present
Present tense

I won't get heavy
Don't get heavy
Keep it light and
Keep it moving
I am doing
No harm
As my world
Comes crashing down
I'm dancing
Freaking out
Deaf, dumb, and blind

In you I'm lost
In you I'm lost

I won't turn around when the penny drops
I won't stop now
I won't slack off
Or all this love
Will be in vain

Stop from falling
Down a mine
It's no one's business but mine
That all this love
Could be in vain

In you I'm lost
(...)

sexta-feira, maio 06, 2016

Thom Yorke por Paul Thomas Anderson

Cada vez mais perto do nono álbum dos Radiohead, as notícias continuam a chegar: ainda não foi divulgado o título, mas sabe-se que terá edição digital a 8 de Maio; os formatos físicos serão colocados à venda no dia 17 de Junho. Entretanto, depois de Burn the Witch, eis uma nova canção, Daydreaming, sustentada por um notável teledisco com assinatura de Paul Thomas Anderson — Thom Yorke deambula por um mundo em que tudo comunica com tudo (ou em que tudo está isolado de tudo), para desembocar numa expressão enigmática que já começou a gerar especulações sobre a possibilidade de ser lida/ouvida em sentido inverso.

Dreamers
They never learn
They never learn
Beyond the point
Of no return
Of no return

And it's too late
The damage is done
The damage is done

This goes
Beyond me
Beyond you
The white room
By window
Where the sun goes
Through

We are
Just happy to serve
Just happy to serve
You

terça-feira, maio 03, 2016

Radiohead: uma parábola política

Depois de terem desaparecido em branco, num insólito "apagão" da respectiva presença na Net, os Radiohead reapareceram a cores... Burn the Witch é o prenúncio de um novo álbum (de data obviamente guardada no segredo dos deuses), apresentando-se através de um teledisco que reforça as sugestões de parábola política que a letra da canção contém.
Da aliança de palavras, notas de música e imagens nasce um evento construído a partir do cruzamento de muitas referências temáticas e estéticas — desde a animação britânica até à música de Krzysztof Penderecki, passando pelo filme de terror The Wicker Man (sem esquecer os ecos de Donald Trump que pairam sobre este universo de festividades equívocas, deslizando do infantilismo para o fascismo). Em qualquer caso, Hitchcock já nos avisara sobre a inocência dos pássaros...

Stay in the shadows
Cheer at the gallows
This is a round up
This is a low flying panic attack
Sing a song on the jukebox that goes

Burn the witch
Burn the witch
We know where you live

Red crosses on wooden doors
And if you float you burn
Loose talk around tables
Abandon all reason
Avoid all eye contact
Do not react
Shoot the messengers
This is a low flying panic attack
Sing the song of sixpence that goes

Burn the witch
Burn the witch
We know where you live
We know where you live

segunda-feira, dezembro 28, 2015

007 por... Radiohead!

Pelos vistos, Writing's on the Wall, por Sam Smith, canção-tema da mais recente aventura de James Bond, Spectre, teve concorrência séria. De quem? Dos Radiohead. Como prenda natalícia, a banda de Thom Yorke divulgou o seu Spectre, rejeitado pela produção do filme — com estes votos: "Feliz Natal. Que a força esteja convosco."

quinta-feira, novembro 27, 2014

Para ouvir: obras de Johnny Greenwood
em concerto no Albert Hall de Manchester

Há cerca de um mês o compositor Johnny Grennwood (um dos guitarristas dos Radiohead) apresentou um concerto com obras suas no Albert Hall de Manchester. Acompanhado pela London Contemporary Orchestra apresentou algumas das composições que assinou para cinema, chamou a participação dos presentes à interpretação de Self Portrait With Seven Fingers (cada um na sala podendo contribuir com o respetivo telemóvel) e estreou ainda uma nova peça.

Podem ver aqui o concerto, que nos próximos dias estará a passar em loop na Boiler Room.

domingo, outubro 12, 2014

Uma ponte entre os Radiohead
e a música de Steve Reich

Ao contrário de Philip Glass, que desde inícios dos anos 80 estabeleceu várias pontes com figuras do universo da música pop/rock e suas periferias – trabalhando, entre tantos outros, com nomes como os de David Byrne, Suzanne Vega, Marisa Monte, Aphex Twin ou Leonard Cohen, tendo mesmo criado das sinfonias com álbuns de David Bowie como ponto de partida – Steve Reich não tinha até aqui experimentado esse tipo de diálogos. A sua música, é verdade, há muito que é citada entre as principais fontes de inspiração de muitos músicos de gerações mais jovens – particularmente nomes nas áreas da música electrónica -, tendo mesmo surgido em 1999 um álbum de remisturas juntando contribuições de Howie B, os Coldcut ou DJ Spooky, a que chamaram Reich Remixed (o título não deixa dúvidas, tratando-se de uma coleção de abordagens, via remistura, a composições de Steve Reich).

Mas há encontros que servem como momentos de charneira em tantas carreiras e situações. E, quando em 2010, Steve Reich viu Johnny Greenwood a atuar num festival em Cracóvia, interpretando o seu Electric Counterpoint, a ligação entre ambos estabeleceu-se, criando no compositor norte-americano o desejo de conhecer a música dos Radiohead, banda na qual Greenwood é guitarrista. Reich conhecia Greenwood pelo seu trabalho para cinema, imaginando-o um herdeiro de Messiaen. A obra dos Radiohead chegou assim como uma descoberta. E dessa experiência nasceu o estímulo que mais tarde, sob encomenda do coletivo Alarm Will Sound, gerou um trabalho de “rescrita” de duas canções do grupo inglês: Everything in it’s Right Place, do álbum de 2000 Kid A e Jigsaw Falling Into Place, de In Rainbows, de 2007. Radio Rewrite é assim um exercício de descoberta de uma voz com uma personalidade clara (e uma sonoridade claramente ligada a um certo conjunto de instrumentos, que aqui convoca) sobre os caminhos possíveis de encontrar através de duas canções de berço pop/rock. Ecos das canções, sobretudo elementos das linhas melódicas renascem assim diluídas num corpo novo, surpreendente, com aquele valor de soma de experiências que podemos imaginar segundo a velha máxima que diz que quem conta acrescenta um ponto. E mesmo sendo aqui e ali claras as raízes desta “rescrita”, no fim estamos claramente em território Reichiano.

O álbum agora editado, no qual os Alarm Will Sound registam a estreia em disco de Radio Rewrite, junta ainda uma interpretação de Johnny Greenwood de Electric Counterpoint e uma de Piano Counterpoint por Vicky Shaw, do coletivo Bang on a Can All Stars. O ciclo “counterpoint” surgiu sob uma ideia de juntar um solista a faixas pré-gravadas, multiplicando assim a sua presenta no corpo musical da peça. Electric Counterpoint teve na origem uma leitura por Pat Metheney e teve estreia em disco em 1989. Já Piano Counterpoint não é senão uma transcrição de Six Pianos, apresentando pré-gravadas quatro das partituras para piano, juntando a quinta e sexta numa só, que se entrega assim a um virtuoso do piano. Convenhamos que em conjunto o disco nos dá interessantes olhares sobre a música de Reich e, entre Radio Rewrite e Electric Counterpoint fixa uma ponte para com a música e os músicos dos Radiohead. Será ponte a continuara explorar?

quarta-feira, outubro 01, 2014

Os Radiohead, segundo Steve Reich


Foi hoje editado o álbum Radio Rewrite, de Steve Reich, que apresenta como peça central a primeira gravação dessa obra que nasce de uma abordagem do compositor a Everything in Its Right Place e Jigsaw Falling into Place, duas canções dos Radiohead.

O disco, lançado pela Nonesuch, inclui ainda novas gravações das obras de Steve Reich Electric Counterpoint (1987) e Piano Counterpoint (esta última uma transcrição de Six Pianos). Estas duas obras são respetivamente interpretadas por Johnny Greenwood (dos Radiohead) e Vicky Chow (que integra o coletivo Bang on a Can All-Stars).

segunda-feira, setembro 29, 2014

Novas edições:
Thom Yorke

“Tomorrow’s Modern Boxes”
ed. Autor
4 / 5

A surpresa começa a ganhar peso de norma na hora de lançar álbuns de nomes de relevância maior no panorama atual da música popular. E poucos dias depois de termos visto os U2 a oferecer, via iTunes, um novo álbum de originais a todos os utilizadores desse serviço da Apple, agora, e também sem qualquer anuncio formal prévio, foi a vez de Thom Yorke  ter apresentado um novo disco de originais da noite para o dia. A grande diferença é que o faz usando um método novo: via BitTorrent, mas a troco de um pagamento.
Com o título Tomorrow’s Modern Boxes, o segundo álbum a solo do vocalista dos Radiohead surge oito anos após The Eraser – o seu primeiro disco em nome próprio – e um ano após a experiência no projeto paralelo Atoms For Peace, que lançou em 2013 o álbum Amok. A edição do novo disco convoca contudo memórias do que houve de pioneiro – e desafiante – em In Rainbows, álbum de 2007 dos Radiohead que teve um primeiro lançamento digital (pedindo a cada um que pagasse o que entendesse, prevendo mesmo o preço zero como viável) antes de ter conhecido, mais tarde, uma edição em suportes físicos mais convencionais.
O disco de aprofunda a sua relação com um labor de fino detalhe nas electrónicas e apresenta oito novos temas entre os quais A Brain In a Bottle, a melhor canção de Thom Yorke (a solo ou em grupo) em largos anos. O disco tem nas memórias de Kid A e Amnesiac importantes pontos de referencia para parte do alinhamento e assinala uma vontade em explorar espaços de composição onde voz e texturas desenham linhas que avançam num regime algo líquido, envolvendo-se num corpo de formas que, mesmo aparentemente turvas num primeiro contacto, se revelam afinal mais claras e consequentes que em outros episódios da obra mais recente do músico. Parte do alinhamento traduz, num outro sentido, preocupações de arrumação ditada pelo ritmo, aproximando-se aí de eventuais heranças do trabalho coletivo via Atoms For Peace. 
Num comunicado que emitiu, juntamente com o produtor Nigel Godrich (que há muito trabalha não apenas com os Radiohead mas também nas experiências a solo do vocalista do grupo), Thom Yorke explicou que este modelo de edição discográfica, que usa uma nova versão do BitTorrent, é assumido como uma experiência para avaliar se “as mecânicas do sistema são algo com que o público em geral possa lidar” acrescentando que, se correr bem, “este poderá ser um meio eficaz para devolver algum do comércio através da Internet às pessoas que criam as obras”, permitindo assim encontrar um modelo que permita ao artista “que faz música, jogos ou quaisquer outros conteúdos digitais vendê-los ele mesmo”. A declaração aponta ainda que este sistema “finta” assim os “auto-eleitos guardiões” e lembra que o mecanismo usado “não requer custos de uploading ou arquivo” e que a rede que assim opera “não só permite o tráfego como ela mesma contém os ficheiros”.
O BitTorrent é um dos mais populares protocolos de partilha de ficheiro peer to peer e tornou-se conhecido na década passada em casos de troca de conteúdos pirateados. É reconhecido como um protocolo que torna mais rápidos os downloads de grandes ficheiros uma vez que usa os vários computadores onde estão alojados como fontes onde são colhidos elementos que depois são agrupados e ordenados no computador que os recebe. Não é a primeira vez que músicos usam o sistema, mas ao associar este modelo de distribuição a um pagamento (sem o qual não se acede aos ficheiros) representa uma novidade. E, como se infere pelas palavras de Thom Yorke, uma declaração de esperança numa nova forma de viabilizar não apenas a venda de músico mas de estabelecimento de uma relação mais direta entre quem faz a música e quem a quer escutar.

Apesar da surpresa que surgiu com a chegada do álbum (e o modo de o vender) a verdade é que nas últimas semanas tinham surgido nas redes sociais várias pistas indicando movimentações possíveis em terreno próximo do vocalista dos Radiohead. O próprio Thom Yorke revelara, esta semana, que os Radiohead estão a terminar uma etapa de gravações de um novo álbum. Tomorrow’s Modern Boxes junta-se assim a títulos recentes de David Bowie, Beyoncé ou U2 que usaram também a surpresa em favor de uma capitalização de atenções, contrariando assim modelos clássicos de marketing.

PS. Este texto é uma versão editada e acrescentada de um outro publicado na edição de 29 de setembro do DN