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sexta-feira, março 25, 2022

John Berger: sobre o tempo

Regresso a A Aparência das Coisas, traduzido por José Miguel Silva, um dos livros de John Berger (1926-2017) disponíveis no mercado português com chancela da Antígona.
Desde logo porque a sua condição de "Ensaios e artigos seleccionados" lhe confere a vivacidade de um textura de diferenças e contrastes que, afinal, em última instância, definem a singular energia — e alegria — de um singularíssimo sistema de pensamento.
Depois, porque há em tudo isso uma teatralidade a que apetece chamar realista, já que as suas deambulações querem afirmar e, de alguma maneira, servir uma exigência, de uma só vez epistemológica e ética. A saber: não desistir de olhar o mundo, vendo o que pode ser visto — será preciso recordar que o livro mais famoso de Berger se intitula Modos de Ver?
Num dos "Retratos" que o livro inclui, dedicado a Alexander Herzen, Berger aventura-se no labirinto da herança marxista, sublinhando a sua actualidade, não propriamente como um património congelado no tempo por acção de uma qualquer ideologia partidária (ou por uma partidarite que alienou a própria noção de discurso ideológico), antes reconhecendo a sua operacionalidade prática e teórica. Assim:

>>> Muitos marxistas e antimarxistas têm-se mostrado tão ansiosos por provar ou refutar a letra das profecias de Marx que ignoraram um dos modos em que ele foi mais profunda e incontestavelmente profético. O modo de descontinuidade demonstrado pelo seu pensamento converteu-se num elemento essencial dos meios de comunicação modernos. A descontinuidade é hoje intrínseca à nossa visão da realidade.

Le Corbusier, Victor Serge ou Walter Benjamin são alguns dos outros "retratados" por Berger, num livro em que encontramos reflexões que podem oscilar entre a ligeireza ambígua da reportagem e a metodologia austera do ensaio — a ponto de estar em jogo o carácter de uma só vez contundente e precário de qualquer noção de tempo. Há mesmo um ensaio que se intitula "O passado visto de um futuro possível".

>>> About time (Channel Four, 1985).

domingo, junho 13, 2021

John Berger, contador de histórias

O inglês John Berger (1926-2017) foi um exemplo raro de versatilidade, oscilando entre "extremos" como a reflexão filosófica e o apontamento sobre o quotidiano, o ensaio e o romance. A sua obra reflecte a consciência, de uma só vez crítica e irónica, de uma visão que sabe que nenhuma descrição é alheia à ficção, nenhuma narrativa ficcional está excluída da possbilidade de integrar uma fundamental fatia de verdade.
O livro Fotocópias (ed. Antígona; tradução Inês Dias) serve de modelo exemplar da sua energia narrativa. São 28 histórias, todas relativamente breves (num total de duas centenas de páginas) em que podemos identificar alguns nomes conhecidos, Henri Cartier-Bresson, Simone Weil, diversos cenários de deambulações pessoais, enfim, dir-se-ia uma colecção de fragmentos de um bloco-notas que o tempo não destruiu.
Os títulos das histórias de Berger são significativos do seu labor. Por exemplo, 'Uma rapariga com a mão no queixo'. Ou 'Um molho de flores num copo'. Ou ainda 'Homens e mulheres sentados a uma mesa para comer'... São títulos, afinal, de desarmante objectividade que, ao mesmo tempo, nos encaminham para uma compreensão do mundo nunca alheada da subjectividade que coloca a narrativa em movimento.

>>> O século XIX terminou cerca de 1955, creio. Ainda havia esperança...
 
(pág. 83)

O efeito real e surreal dessa criteriosa acumulação de elementos é tanto mais envolvente quanto as histórias de Berger tendem a deixar-nos a sensação de que algo se suspende antes que seja possível enunciar qualquer conclusão, seja ela moral ou meramente factual. Como se a escrita fosse um exercício de cicatrização dos limites do mundo e, ao mesmo tempo, a confissão poética de que é preciso continuar a escrever. Porquê? Para quê? Para continuarmos a merecer a complexidade dos seres e dos objectos.

>>> John Berger em 2011, na BBC.
 

domingo, junho 14, 2020

Olhar os animais, com John Berger

JL [23 Maio 2020]

>>> Os olhos do animal, quando consideram o homem, estão atentos e desconfiados. Esse animal pode perfeitamente olhar outras espécies do mesmo modo. Não dedica um olhar particular ao homem. Mas nenhuma espécie a não ser o homem reconhecerá o olhar do animal como sendo-lhe familiar. Outros animais são dominados pelo olhar. O homem torna-se consciente de si mesmo ao devolver o olhar.

JOHN BERGER
ed. Antígona (Maio 2020)

Romancista, filósofo, ensaísta, o inglês John Berger (1926-2017) foi também um criador de imagens e sons. Entenda-se: um homem de televisão e cinema — é dele a série Ways of Seeing (BBC, 1972), que daria origem ao livro homónimo, como são dele vários argumentos para filmes do suíço Alain Tanner, incluindo Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000 (1976).
Porquê Olhar os Animais? é o título de um artigo que publicou em 1977, e também desta antologia agora lançada no mercado português (prolongando a atenção que a editora Antígona tem prestado à sua obra). A pergunta introduz, desde logo, essa dialéctica nunca resolvida, ou melhor, nunca encerrada, entre o animal que nos olha e nós que lhe devolvemos o olhar. Berger possui a agilidade de pensamento e exposição que lhe permite articular os dados da coexistência homem/animal com as mais diversas componentes, das convulsões da economia às derivas mitológicas da humanidade. Daí também a permanente contaminação das matrizes da escrita — a análise antropológica suscita a interrogação filosófica, a intervenção crítica não é estranha à sensualidade do romanesco. Enfim, o reencontro com um grande escritor, inventor de lugares de liberdade através de todas as escritas.

sábado, agosto 24, 2019

John Berger — ver e escrever

[The New Yorker]
Escritor, ensaísta, argumentista de cinema, o inglês John Berger (1926-2017) deixou uma obra tão vasta quanto multifacetada que mantém a sua pertinência argumentativa e, em particular, a actualidade política e simbólica. Dois livros recentemente surgidos no mercado português atestam essa vitalidade.

Understanding a Photograph, a edição mais antiga, publicada em 2013, com chancela da Penguin, é uma antologia de textos escritos a partir dos anos 60, com duas vertentes fundamentais: por um lado, o lançamento das bases de um pensamento dialéctico sobre a existência material e social das fotografias, tendo como grandes referências inspiradoras os trabalhos de Roland Barthes e Susan Sontag; por outro lado, a prospecção crítica da obra de vários fotógrafos, de Henri Cartier-Bresson a Sebastião Salgado (neste caso, através de um diálogo-entrevista-ensaio). A destacar: o prodigioso texto sobre as aparências — intitulado 'Appearances', justamente —, datado de 1982.

A outra edição, Um Sétimo Homem, é uma tradução portuguesa, da responsabilidade de Jorge Leandro Rosa (também autor do posfácio), e chegou às livrarias através da Antígona.
Encontramos o mesmo labor de percepção e questionamento do mundo e das suas imagens, com a particularidade de essas imagens integrarem a própria dinâmica narrativa do livro: estamos perante um trabalho desenvolvido nos primeiros anos da década de 70 (a edição original surgiu em 1975), com a prosa de Berger e as fotografias do suíço Jean Mohr (1925-2018) a testemunharem as convulsões dos movimentos de migrantes no interior do continente europeu.
Escusado será dizer que somos levados a estabelecer imediatas ligações com o nosso presente, mas o valor do livro não se pode medir porque qualquer simbolismo "premonitório". Acima de tudo, aquilo que encontramos em Um Sétimo Homem é a discussão/experimentação de uma linguagem plural, capaz de integrar, por exemplo, a deambulação romanesca a par do testemunho fotográfico. À sua maneira, esta é também uma crítica contundente — neste caso, actualíssima — da ilusão mediática, muito televisiva, segundo a qual "gravar" o mundo em imagens desemboca na revelação (?) de um sentido único, unívoco e inquestionável.

* * * * *

Vale a pena lembrar que John Berger é autor de Ways of Seeing (edição portuguesa: Modos de Ver, Antígona), livro clássico sobre o lugar das imagens nas sociedades contemporâneas e, nessa medida, o seu papel como matéria do próprio real, muito para além de qualquer noção simplista de "reprodução".
Este sim, é um livro de uma admirável presciência: publicado em 1972, a inteligência e agilidade das suas reflexões mantêm uma actualidade perturbante, no limite levando-nos a perguntar como é que a nossa visão das "coisas-enquanto-imagens" desempenha um papel fulcral na interiorização da nossa identidade e também no sistema de relações que estabelecemos com os outros.
Aliás, Ways of Seeing é uma obra tanto mais sedutora quanto, na sua origem, está uma série homónima, de quatro episódios de 30 minutos, produzida pela BBC e emitida pela primeira vez também em 1972 — é possível vê-la por inteiro na Net; eis o primeiro episódio.


>>> Entrevista a John Berger, por Kate Kellaway (The Observer, 30 Out. 2016).