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quarta-feira, julho 07, 2021

Jodie Foster, "à la française"

Distinguida com uma Palma de Ouro honorária na cerimónia de abertura do 74º Festival de Cannes, Jodie Foster surgiu (e falou!) como símbolo exemplar de um genuíno amor pelo cinema — mais do que isso, da sua resistência enquanto linguagem específica, mesmo (ou sobretudo) em tempo de pandemia. Eis algumas palavras da sua luminosa intervenção no Palácio dos Festivais.

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Clint Eastwood, cineasta realista (2/2)

O novo filme de Clint Eastwood, 15:17 Destino Paris, não foi, estranhamente, mostrado à imprensa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Fevereiro), com o título 'A implosão de Hollywood'.

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Tempos estranhos na vida dos filmes. Em vários países — incluindo Portugal, França e Brasil —, o novo filme de Clint Eastwood, 15:17 Destino Paris, não foi previamente mostrado à imprensa. O carácter excepcional desta medida (nas últimas décadas, há muito poucos exemplos semelhantes) justifica que expressemos, no mínimo, uma triste perplexidade. Quanto mais não seja porque a ela se cola uma pergunta incontornável: será que a indústria de Hollywood, cada vez mais marcada pelas formatações impostas pelos filmes de super-heróis, já se dá ao luxo de menosprezar o trabalho de alguém como Clint Eastwood?
Não se trata, entenda-se, de especular sobre as “culpas” dos distribuidores daqueles países: a decisão provém da origem, isto é, dos estúdios da Warner Bros. e nem sequer reflecte qualquer princípio de “globalização” (The New York Times e alguns outros jornais americanos publicaram críticas ao filme antes da respectiva data de estreia nos EUA). Acontece que há qualquer coisa de absurdo quando um tão poderoso sistema industrial opta por não divulgar o trabalho de uma personalidade que marca o último meio século de Hollywood e que, salvo melhor opinião, continua a ser um dos seus ícones mais universais (e também mais rentáveis, vale a pena acrescentar).
Será que um episódio deste género significa que estamos perante uma indústria que já nem sequer sabe valorizar a sua fascinante diversidade interna? Nos últimos anos, algumas vozes têm chamado a atenção para o facto de Hollywood, ao privilegiar os modelos dos “blockbusters” de super-heróis, correr riscos de implosão. Entre tais vozes estão Steven Spielberg, George Lucas, Steven Soderbergh e Jodie Foster. Posso estar enganado, mas não creio que sejam jornalistas ou críticos de cinema.

sábado, abril 16, 2016

Jodie Foster + "Taxi Driver"

Os 40 anos de Taxi Driver trazem-nos memórias muito especiais, em particular de Jodie Foster, na altura com 12 anos de idade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Abril), com o título 'Memórias de uma menina exemplar'.

É uma das mais desconcertantes efemérides do ano cinematográfico: Taxi Driver, obra-prima de Martin Scorsese, celebra nada mais nada menos que 40 anos (a estreia americana ocorreu em Fevereiro de 1976, tendo chegado às salas portuguesas cerca de um ano mais tarde). Este é um daqueles filmes que admiramos muito para além de qualquer aspecto “datado” — vemos e revemos Travis Bickle, o assombrado motorista de taxi de Nova Iorque, interpretado por Robert De Niro, e sentimos a sua odisseia como coisa próxima, fisicamente perturbante, moralmente incontornável.
O principal evento das comemorações está agendado para 21 de Abril, no Festival de Tribeca (certame de que De Niro é fundador e mentor) e reunirá os nomes principais do filme. Antecipando essa reunião, a revista The Hollywood Reporter publicou uma fascinante antologia de memórias, resultante de um encontro em que, além de Scorsese e De Niro, participaram o produtor Michael Philips, o argumentista Paul Schrader, o director de fotografia Michael Chapman, e as actrizes Cybil Shepherd e Jodie Foster.
A saga de Foster, intérprete da jovem prostituta Iris, que Bickle tenta resgatar da sua existência mercantil, envolve componentes muito específicas. Convém lembrar que tinha 12 anos e era um símbolo infantil mais ou menos ligado ao imaginário Disney (embora, em 1974, já tivesse sido dirigida por Scorsese em Alice Já Não Mora Aqui). Recorda ela que, quando a mãe recebeu o argumento, enviado por Scorsese, “pensou que ele tinha enlouquecido”... O certo é que a mãe confiou no realizador, as questões legais que a situação envolvia foram resolvidas e Foster ficou inscrita num momento único da história moderna do cinema americano: “Sinto-me profundamente grata por ter feito parte de algo que é um verdadeiro clássico americano, um momento da idade de ouro do nosso cinema que, para mim, realmente, é a década de 70.”
A trajectória de Foster superou de modo exemplar a condição de menina prodígio de Hollywood, impondo-a como uma singularíssima actriz adulta. Não sem evidentes sobressaltos: artisticamente, a sua adolescência foi vivida entre o regresso ao universo Disney (O Tesouro do Castelo, 1977) e alguns projectos de um pitoresco não muito feliz (Hotel New Hampshire, 1984). As coisas mudaram com Caminhos Cruzados (1987), de Tony Bill, belo exemplo da mais genuína produção independente, desembocando nas interpretações que lhe valeram dois Oscars de melhor actriz: Os Acusados (1988), de Jonathan Kaplan, e O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme.
Isto sem esquecer, claro, que Foster construiu também uma exemplar filmografia como cineasta, com títulos tão subtis como Mentes que Brilham (1991), Fim-de-Semana em Família (1995) e O Castor (2011). A sua realização mais recente, Money Monster, com George Clooney e Julia Roberts, um “thriller” em ambiente televisivo, poderá muito bem estar, em Maio, no Festival de Cannes [já depois da publicação deste texto, o filme surgiu na selecção oficial do certame, extra-competição].

sábado, julho 26, 2014

Jodie Foster dirige George Clooney

George Clooney vai filmar sob a direcção de Jodie Foster, protagonizando Money Monster, um thriller centrado numa figura muito popular da televisão — a história desenvolve-se através de um homem que, depois de ter perdido todas as suas acções, transforma o apresentador de um show em refém, ameaçando matá-lo se não lhe for devolvido o seu dinheiro antes do fecho da bolsa...
Será a quarta longa-metragem dirigida por Foster, depois de Mentes que Brilham (1991), Fim de Semana em Família (1995) e O Castor (2011). Money Monster tem argumento de Jamie Linden, que escreveu e realizou 10 Years (2011), comédia dramática inédita entre nós — eis o respectivo trailer.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

A vida sexual de Jodie Foster

1. Um frémito de entusiasmo, tão incontido quanto bizarro, perpassou nos mais diversos meios de comunicação das mais distantes paragens: ao receber o prémio Cecil B. DeMille, no seu discurso de agradecimento nos Globos de Ouro, Jodie Foster teria assumido, finalmente, a sua homossexualidade. Coming out — foi a expressão mágica que cruzou o planeta. Em boa verdade, precisamos de não simplificar. Houve também muitas reacções nada entusiásticas, acusando Foster de ambiguidade e hipocrisia. Um jornal tão sério como The Guardian dava conta disso mesmo nas suas páginas, abrindo espaço para quem elogia o "génio" da actriz (Sam Leith) e também para quem a acusa de "manipulação mediática" (Michael Wolff). É, por tudo isso, um discurso que importa ver, ouvir e ler.


2. Um dos aspectos mais desconcertantes que cruza todas estas reacções — incluindo o magnífico, magnificamente discutível, texto de Matthew Breen, na revista The Advocate, apresentando um ponto de vista ancorado no espaço que ele próprio define como "LGBT media" — é a certeza de que o "coming out" de Jodie Foster era o tema nuclear do seu discurso. A certeza, enfim, de que, em última instância, o seu discurso se pode sempre reduzir a uma afirmação austera, para alguns necessariamente militante: "Eu-sou-gay".

3. Vale a pena discutir tal leitura. Podemos considerar que a referida certeza se enraiza no reconhecimento público de uma relação (já terminada) com outra mulher, Cydney Bernard. Podemos também reconhecer que Foster se diz gay por um processo de dupla ironia: primeiro, prometendo uma revelação e dizendo que está... sozinha, solteira (single); depois, acrescentando que há muito tempo se assumiu. E convenhamos que as palavras com que o diz não são simples nem banais: "(...) Já me assumi [my coming out] há uns mil anos, por alturas da Idade da Pedra, nesses dias exóticos em que uma rapariga frágil se abria a amigos de confiança e familiares, companheiros de trabalho, e depois, gradualmente, com orgulho, a todos os que a conheciam, a todos com quem tinha realmente um encontro." Convém não esquecer, a esse propósito, que este é o discurso de uma actriz que, antes mesmo de ter surgido em títulos emblemáticos como Taxi Driver [foto] (1976), tinha já uma "longa" actividade iniciada aos 3 anos de idade — como ela lembrou, dos seus 50 anos (nasceu a 19 de Novembro de 1962), 47 são de carreira no film business.

4. Há uma opção implícita nestas palavras que importa reter: Jodie Foster diz, afinal, que não vê nenhuma relação de obrigação entre o (seu) ser gay e a respectiva explicitação pública. Há quem estabeleça uma ponte automática entre tal recusa, vinda de uma figura pública, e as condições de marginalização e repressão a que, em muitos contextos, os gays são sujeitos [remeto, uma vez mais, para o texto de Matthew Breen]. Mas a posição de Jodie Foster recusa, liminarmente, tal associação simbólica, assumindo um discurso contundente contra o triunfo de uma cultura de banalização do privado: "(...) Agora, aparentemente, dizem-me que qualquer celebridade deve enaltecer os detalhes da sua vida privada através de uma conferência de imprensa, um perfume, ou um reality show em horário nobre."

5. O mais extraordinário perante estas palavras (admiráveis e corajosas) de Jodie Foster é que a sua mensagem parece ser recusada pelos discursos mais diversos, mesmo alguns que, formalmente, se colocam do seu lado. O que ela nos pede é que nos preocupemos menos com a sua sexualidade  e olhemos à nossa volta, contemplando a degradação de uma cultura dominante, de raiz televisiva,  que  fabrica e promove a quotidiana rarefacção de qualquer centelha de verdade humana.

6. Aquilo a que Jodie Foster resiste não é ao conhecimento da sua orientação sexual — é ao facto de a respectiva identificação pública, com pompa e circunstância, poder constituir um valor político para os outros, quando tem apenas um valor íntimo, inalienável, para ela própria. Aquilo a que ela resiste é, no fundo, à inversão da configuração da liberdade individual, a ponto de se instaurar uma censura social cuja norma consiste, como Roland Barthes nos ensinou, não em impedir, mas em "obrigar a falar".

7. Ficámos a saber um pouco mais sobre a vida sexual de Jodie Foster? Em boa verdade, não. Felizmente. Ficámos, isso sim, a compreender que raras vezes se dá a devida atenção àquilo que é dito, com inteligência, por uma figura pública — sobretudo uma figura pública com um discurso cuja complexidade desafia, ponto por ponto, a mediocridade formatada dos "famosos". Assim, não deixa de ser admirável (admiravelmente triste, quero eu dizer) que a afirmação mais sensual de Jodie Foster tenha sido sistematicamente ignorada. Qual? Ao referir-se aos profissionais das equipas com quem trabalhou, "amizades de sangue, irmãos e irmãs", Jodie Foster exaltou o radicalismo que o trabalho cinematográfico pode envolver. Disse ela: "(...) Fizemos filmes juntos, e não é possível ser mais íntimo do que isso."


* NOTA: Em toda esta agitação em torno do discurso de Jodie Foster, é o nome do patrono simbólico do seu prémio — Cecil B. DeMille — que tende a ser esvaziado de qualquer memória. Ironia cruel, sem dúvida, já que DeMille, autor de Os Dez Mandamentos (1956), ilustra a dinâmica paradoxal de alguns criadores de Hollywood, conservadores no seu sistema mental, espectacularmente inovadores no labor de encenação e narrativa. Isto sem esquecermos que as suas representações da sexualidade continuam a desafiar as convenções que, pelo menos até certo ponto, parecem sustentá-las.