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quinta-feira, novembro 15, 2012

Discos Pe(r)didos:
Jansen / Barbieri / Karn, Begining To Melt


Jansen / Barbieri / Karn 
“Begining To Melt” 
Medium Productions 
(1993)


Pode ter sido uma consequência direta do reencontro de ex-elementos dos Japan que ganhou forma no álbum que editaram em 1990 sob a designação Rain Tree Crow. Mas também do facto de, depois desse episódio, Steve Jansen, Richard Barbieri e Mick Karn, terem continuado a colaborar em vários projetos, nomeadamente tocando em discos de bandas como No-Man ou Porcupine Tree. Juntos foram juntando composições. Umas envolvendo os três músicos, outras resultando de aventuras pessoais e outras colaborações... Sem David Sylvian, que depois da experiência nos Rain Tree Crow partira para novas demandas (das quais nasceria pouco depois um álbum co-assinado com Robert Fripp), os restantes três ex-Rain Tree Crow (que é como quem diz ex-Japan) resolveram juntar num mesmo disco algumas das peças que entretanto haviam criado e gravado. Partilhando a assinatura do álbum com os nomes dos três músicos, apresentam em Begining To Melt (a que dão o sub-título Medium Series – Volume 1) sete temas inéditos, seis deles instrumentais e apenas um vocal (contando aí com a colaboração de Robby Aceto). Muitas das composições refletem o sentido de liberdade formal ensaiado no projeto Rain Tree Crow e em grande parte das composições os músicos aproximam-se de estéticas ambient. Já em Ego Dance vemo-los mais perto de heranças do trabalho rítmico e cenográfico mais elaborado que marcou o último álbum dos Japan e uma sonoridade que se aproxima do segundo álbum a solo de Mick Karn. O melhor momento do disco surge contudo em Shipwrecks, parceria ambient entre Karn e David Torn. Begining To Melt assinalou o primeiro passo na vida da Medium Productions, uma editora que os três músicos criaram para editar os seus projetos pessoais e que se manteve ativa até 2003. Apesar de ligar os três músicos, a Medium Productions só os juntou de facto em mais dois lançamentos: o EP Seed, de 1994 e Ism, álbum editado em 1995.

sábado, junho 09, 2012

Nos 30 anos de David Sylvian (2)


Assinalam-se este ano os 30 anos sobre o início da carreira a solo de David Sylvian. Esta é parte de um texto que foi publicado a 10 de março de 2012 no suplemento Q., do DN, com o título 'Ao afastar-se de tudo David Sylvian encontrou uma voz'.

Se recuarmos 30 anos, era outro o David Sylvian que então encontrávamos a dar, num single assinado em parceria com o músico japonês Ryuichi Sakamoto (9), os seus primeiros passos a solo. Maior sendo ainda o contraste com os dias em que se revelava publicamente com os Japan, em meados dos anos 70, sob uma imagem garrida que piscava o olho a ecos do fenómeno glam rock (10) e a ícones como os New York Dolls (11). De cabelos longos, roupas de cor e maquilhagem no rosto, Sylvian dava assim vida pop a uma personagem que havia criado ainda nos dias de escola, ao lado de Andonis Michaelides (que mais tarde seria conhecido como Mick Karn), num bairro periférico de Londres. Era uma personagem criada para enfrentar o resto do mundo, como o próprio Sylvian mais tarde justificaria. Era um jovem “muito tímido e sentia a necessidade de criar defesas”. Essa imagem sugeria assim um chão seguro para poder apresentar as canções que estava a fazer. “Levei muito tempo a sentir a coragem para me libertar e ser eu mesmo. Foi um processo muito lento e complicado, o de despir essas camadas. Eu era uma máscara de mim próprio na qual me escondia de mim mesmo. Mas não teria conseguido fazer as coisas de outra forma. Era muito vulnerável (12).” Do trabalho desse período inicial diz não crer que “seja muito válido (13)”.

Estreados em disco em 1978, os Japan editaram nesse mesmo ano dois álbuns com alma rock’n’roll mas na verdade sem a real noção de um rumo para a sua música. Os discos passaram longe das atenções, mas acabaram por se tornar visíveis com o sucesso conquistado mais tarde. E numa entrevista ao DN no ano 2000, Sylvian deixava mesmo transparecer algum embaraço por esses primeiros discos. “Gostaria que hoje não estivessem disponíveis ao público. Cresce-se, erra-se e falha-se em público. E aprende-se muito mais com os erros que com os sucessos (14). Martin Power reconhece em The Last Romantic que o músico aprendeu a lição. “Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, David Sylvian sempre admitiu rapidamente os seus erros, não apenas para procurar deles se afastar como para procurar uma penitência pública. E há aqui uma honestidade para consigo mesmo. Ao mesmo tempo sempre foi a mais relutante das estrelas. Mesmo nos dias de maior fama dos Japan era reconhecido por evitar entrevistas e sessões fotográficas preferindo a companhia de um bom livro às oportunidades da autopromoção (15).”

'Tin Drum' (1981)
Em 1980, o álbum Quiet Life mostrava uma banda transformada e, finalmente, sob um caminho mais bem definido que meses depois originaria Gentleman Take Polaroids e, já em 1981, Tin Drum, a obra-prima dos Japan e um dos álbuns mais inventivos e marcantes da pop dos anos 80. “Havia algo no núcleo da ideia do que eram os Japan. Uma ingenuidade, mas também uma teimosia e uma vontade. E um desejo de encontrar um território próprio que pudéssemos ver como nosso. Essa busca foi longa e só deu resultados reais com o Tin Drum. Passámos aqueles anos à procura”(16), reconheceria quase 20 anos depois de editado o disco por alturas em que lançava Everything and Nothing, antologia que revisitava momentos importantes da sua discografia e ao qual chamava a canção-chave do alinhamento desse derradeiro álbum de originais dos Japan: Ghosts. Se The Tennant (17), um discreto instrumental composto ao piano que encontrávamos no alinhamento de Obscure Alternatives (de 1978) tinha sugerido novos horizontes a explorar, Ghosts foi mesmo uma revelação. A canção, defendeu Sylvian, “é o momento da descoberta de uma personalidade própria em termos de escrita, embora o Brilliant Trees (18) seja o primeiro depoimento totalmente coerente”. O reconhecimento desse instante fundador subsiste 12 anos depois dessa antologia, tanto que o tema que abre Victim Of The Stars (1982-2012) é precisamente Ghosts. “É uma canção que tem ligações muito fortes com o que estou a fazer a solo. Por essa ordem de ideias, é fácil reconhecer porque há muitas canções dos Japan que não consigo hoje tocar”(19) explicou em tempos em entrevista ao DN. Pelo que fica claro que qualquer ideia de reencontrar o que foram os Japan não fará sentido no quadro da sua visão enquanto músico. E ele mesmo sublinhou que nunca viu os Rain Tree Crow (20) como uma reunião do seu velho grupo: “Os Japan foram um tempo e um lugar, uma visão da vida, uma motivação própria. Não eram apenas aquelas quatro pessoas. Quando nos reencontrámos, foi interessante e entusiasmante estarmos de novo a trabalhar juntos. Mas o contexto era diferente. Um tempo novo, um lugar novo, um contexto diferente. E uma banda diferente. Mas, de qualquer modo, estávamos a descobrir como explorar o nosso relacionamento com as nossas vivências musicais. Era uma reunião, mas sobretudo uma renovação que nos permitiu experimentar coisas que não tínhamos feito enquanto Japan (21).”

(9) Ryuichi Sakamoto (n. 1952) – compositor, pianista e cantor japonês, integrou a Yellow Magic Orchestra, banda pioneira da pop eletrónica nos anos 70. Coassinou com David Sylvian os singles ‘Bamboo House’ / ‘Bamboo Music’ (1982), ‘Forbiden Colours’ (1983) e ‘World Citizen’ (2003) e colaborou em discos como ‘Brilliant Trees’ (1984), ‘Alchemy: An Index Of Possibilities’ (1985), ‘Secrets Of The Beehive’ (1987) e ‘Dead Bees On A Cake’ (1999). Em contrapartida convidou Sylvian para colaborações no álbum 'Heartbeat' (1991). Trabalham ainda juntos no EP _‘Zero Landmine’ (2001)
(10) Glam rock – fenómeno musical centrado em canções de melodismo insistente e com as guitarras como protagonistas. Um aparato visual exuberante (muitas vezes expressando um interesse pela androginia) é característica marcante deste movimento.
(11) New York Dolls – banda rock americana considerada um caso do proto-punk, com obra mais marcante em inícios dos anos 70. O seu guitarrista era Sylvain Sylvain
(12) in ‘O Desejado’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento DNmais a 27 março de 1999
(13) ibidem
(14) in ‘Um Lento Olhar’, entrevista a David Sylvian publicada no DNmais a 28 de outubro de 2000
(15) in ‘The Last Ronmantic’, de Martin Power (Omnibus Press, 1998), pág. 102
(16) in ‘Um Lento Olhar’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento DNmais a 28 de outubro de 2000
(17) David Sylvian, em entrevista ao DN no ano 2000, explicou que essa foi a primeira composição que escreveu ao piano, instrumento ao qual tinha então acesso pela primeira vez, representando esse um momento que “indicou as mudanças vindouras”.
(18) O seu álbum de estreia a solo, lançado em 1984
(19) in ‘O Desejado’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento DNmais a 27 março de 1999
(20) Banda que resulta de um encontro de Sylvian com os também ex-Japan Mick Karn, Steve Jansen e Richard Barbieri. Editaram um +unico álbum em 1990 ao qual chamaram ‘Rain Tree Crow’
(21) in ‘O Desejado’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento DNmais a 27 março de 1999

domingo, maio 27, 2012

Memórias e revelações

Discografia David Sylvian
'Everything and Nothinh' (compilação), 2000

Uma antologia cheia de inéditos. Everything and Nothing junta um olhar retrospetivo por momentos marcantes da carreira de Sylvian, do histórico Ghosts, ainda nos Japan, a Blackwater, nos Rain Tree Crow a canções lançadas a solo como Pop Song ou Orpheus, juntando ainda colaborações com Ryuichi Sakamoto, Robert Fripp ou Nicola Alesini e Pier Luigi Andreoni (no álbum Marco Polo). O melhor do alinhamento de Everything and Nothing surge na considerável presença de inéditos, recuperados das sessões de Secrets of The Beehive, The First Day e Dead Bees on A Cake, juntando ainda Some Kind of Fool, a surpreendente presença de uma canção deixada inacabada durante as sessões de Gentleman Take Polaroids, dos Japan.

sábado, maio 26, 2012

Nos 30 anos de David Sylvian (1)

Assinalam-se este ano os 30 anos sobre o início da carreira a solo de David Sylvian. Esta é parte de um texto que foi publicado a 10 de março de 2012 no suplemento Q., do DN, com o título 'Ao afastar-se de tudo David Sylvian encontrou uma voz'.

A 12 de maio de 1983, quando se dirigia para uma sessão fotográfica, David Sylvian (1) sofreu um acidente de viação de pequenas proporções do qual saiu com ferimentos ligeiros. Mas no dia seguinte a notícia que chegava aos tabloides no Reino Unido dava conta de algo bem pior, usando até mesmo palavras como “horror” e “cicatrizes” em destaque (2). Rotulado algum tempo antes pela imprensa musical mais jovem como o “homem mais belo do mundo” (cognome que durante anos acompanhou ainda vários artigos sobre o músico), Sylvian via-se confrontado com o que eram consequências diretas da grande popularidade que os Japan (3) tinham alcançado nos últimos meses. Fugir não apenas daquela imagem mas do próprio estatuto que a definira já era preocupação na linha da frente dos seus objetivos. E, de facto, em breve nada seria como dantes.

Quase 30 anos depois, nenhum jornal daria notícia de semelhante incidente se agora ocorresse. Não que Sylvian se tenha transformado numa personagem invisível ou mesmo incógnita. Pelo contrário, é um dos músicos mais respeitados do nosso tempo, figura que em seu torno definiu um fenómeno de culto e autor de uma obra que já cruzou géneros musicais e chamou colaboradores de renome em vários campos. O que mudou foi a sua relação com a “fama”. E na verdade, depois do fim dos Japan, a sua relação com os outros procurou formas bem diferentes de relacionamento.

“Criar música é um ato de comunicação, e é natural que se deseje comunicar com o maior número possível de pessoas”(4), deixou claro o músico quando em 1999 assinalava o seu regresso aos discos em nome próprio com Dead Bees on a Cake. Mas David Sylvian sabe que não fala hoje para multidões. De resto, foi ele mesmo quem chegou a dizer que a sua música “é para quem está numa sala sozinho consigo mesmo ou num patamar ainda pior. É introspetiva de um modo que deixa algumas pessoas nervosas. O tipo de pessoas que ligam a televisão assim que sentem que estão sozinhas não gostam da minha música. Fá-las sentir terrivelmente desconfortáveis”(5).

The Last Romantic
Desde que se afastou dos focos de atenção da imprensa pop (o que acontece gradualmente entre o fim dos Japan e o lançamento do álbum de estreia a solo Brilliant Trees, de 1984, e o EP instrumental Words With The Shaman, de 1985), Sylvian encontrou nova zona de conforto na periferia dos acontecimentos: “Nos primeiros anos, é certo, rumei um pouco ao centro, mas reconheci que não era esse o meu lugar. Não só na minha música mas também na minha vida pessoal. Cada vez que me aproximo do centro das coisas nada resulta. Assim que regresso à periferia sinto-me confortável e posso finalmente respirar. A minha situação na indústria discográfica reflete assim a minha situação na vida em geral (6).” Em palavras que Martin Power recuperou em The Last Romantic (biografia de David Sylvian que recentemente conheceu noova edição revista e atualizada), o próprio Sylvian explicava que muitas das suas canções têm sobretudo a ver com um desejo de aceitação, “um desejo de pertencer, ao mesmo tempo que nelas um sentido de isolamento, de não conseguir pertencer em pleno...” O músico defende aí que “a sociedade ideal pode existir, mas tem de ser baseada em leis universais”. De certa maneira é por isso que sinto o seu isolamento: “Sou uma pessoa antissocial porque não consigo responder à sociedade onde vivo (7).” Em 2009, numa entrevista a Biba Kopf na revista Wire apresentava-se como alguém que vive 90 por cento dos seus dias sozinho. Explica aí que levou algum tempo a ajustar-se a esse modo de vida. Sylvian defende que para “produzir algo fresco ou novo ou de valor” tem de se afastar “das influências comuns da sociedade”. Buscando o isolamento procurava assim um patamar onde lhe fosse possível estar longe das presenças conscientes e inconscientes que a sociedade poderia exercer sobre si “vivendo em cidades ou ensopando-se nos media”(8). Diz assim que quanto mais se afasta mais sente que esta é a sua voz verdadeira. Uma voz que deu importantes passos de libertação entre os álbuns Blemish (2003) e Manafon (2009) onde o espaço da improvisação ganhou, mais do que nunca, peso maior na sua forma de criar música.

(1) David Sylvian – De seu nome real David Alan Batt, nasceu em 1958 em Bekenham (Kent) no Reino Unido.
(2) Segundo recorda o livro ‘The Lats Romantic’, de Martin Power, na página 75, o ‘The Sun’ terá publicado uma notícia com o título “World's Loveliest Man in Scar Horror” (que poderemos traduzir como “O homem mais lindo do mundo num horror de cicatrizes”)
(3) Japan – A banda na qual David Sylvian militou entre 1974 e 1982 e da qual foi o vocalista e principal compositor. A seu lado estavam Steve Jansen (baterista do grupo e seu irmão, tem sido dos seus mais regulares colaboradores), Richard Barbieri (teclista e colaborador nos primeiros discos a solo de Sylvian) e Mick Karn (baixista, convidaria depois Sylvian a cantar em dois temas do seu álbum de 1987 Dreams Of Reason Produce Monsters). A formação original do grupo incluía ainda o guitarrista Rob Dean, que abandona o grupo no final das sessões de ‘Gentleman Take Polaroids’, em 1980)
(4) in ‘O Desejado’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento ‘DNmais’ a 27 março de 1999
(5) in ‘The Last Romantic’, de Martin Power (Omnibus Press, 1998), pág. 130
(6) in ‘Um Lento Olhar’, entrevista a David Sylvian publicada no suplemento DNmais a 28 de outubro de 2000
(7) in ‘The Last Romantic’, de Martin Power (Omnibus Press, 1998), pág. 133
(8) in ‘The Invention of Solitude’, de Biba Kopf, publicado na edição de setembro de 2009 da ‘Wire’

terça-feira, maio 22, 2012

Novas edições:
Dali's Car, InGladAlonesess


Dali’s Car 
“InGladAloneness” 
MK Records
3 / 5 

O contexto era diferente. Em 1984, dois dos mais marcantes grupos que a cena pop/rock britânica havia conhecido entre finais dos setentas e inícios dos oitentas tinham arrumado as malas a um canto (devendo acrescentar-se aqui que, na verdade, vida dos Japan remontava a meados dos anos 70, apesar da sua visibilidade e consequência ser já coisa dos 80). Os Bauhaus tinham já vivido em claro regime de cada-um-por si no álbum Bruning From The Inside de 1983 (e em breve todos, menos Peter Murphy, embarcariam nos Love and Rockets). Os Japan tinham-se separado após derradeira digressão em finais de 1982, lançando em 1983 o duplo ao vivo Oil and Gold que a retrata. Por essa altura tanto David Sylvian como Mick Karn tinham gravado singles a solo, o segundo tendo registado um deles (After A Fashion) em colaboração com Midge Ure, dos Ultravox e já lançado um álbum em nome próprio (o pouco visível Titles, em 1982). É nesse momento de clara partida para outra etapa que Peter Murphy (a voz dos Bauhaus) de junta a Mick Karn (o baixo e o clarinete dos Japan) para formar os Dali’s Car (que na verdade se apresentava como um trio, completado pelo percussionista Paul Vincent Lawford). Editaram um único álbum, The Waking Hour, onde apresentaram um conjunto de canções em cenário plasticamente elaborado segundo marcas de uma produção muito característica das ferramentas da época. Mesmo datado, The Waking Hour é uma interessante experiência; um exercício de busca que lançava sugestões que, contudo, não teriam desenvolvimento nem consequência nos anos que se lhe seguira, dedicando-se tanto Peter Murphy como Mick Karn a carreiras a solo. Ambos reencontraram mais tarde os velhos colegas. Murphy numa série de digressões (e de um medíocre novo disco) dos Bauhaus; Karn num reagrupar de esforços dos ex-Japan todavia sob a designação Rain Tree Crow. E são as coordenadas do trabalho de produção que Karn ensaiou nesse contacto com os velhos parceiros que parecem conduzir a reunião dos Dali’s Car, anunciada em 2010 mas interrompida antes de ganhar a forma desejada pela morte do baixista em inícios de 2011. InGladAloneness é por isso o registo do trabalho concluído onde, além dos dois protagonistas, contamos ainda com colaborações como as do ex-Japan Steve Jansen (bateria) e Paul Lawford (o percussionista que participara no álbum de 1984 dos Dali’s Car). Um EP de cinco temas onde encontramos dois inéditos (King Cloud e Sound Cloud) uma nova vida, no formato de canção para um instrumental de Waking Hour (Artemis Rise), uma visão sobre um tema tradicional (Subhanallah, onde se expressam marcas da vivência de uma cultura que Murphy tomou como seu espaço desde que vive na Turquia) e uma versão de Ne Me Quittes Pas, de Brel. Sentem-se as heranças diretas do primeiro encontro entre ambos (sobretudo no investimento numa ideia de cenografia elaborada), os dois temas de abertura abrindo espaço a uma luminosidade pop (sobretudo visível em Sound Cloud) que revela os melhores momentos da obra de Murphy desde o EP Recall, de 1997 e um reativar de uma relação mais próxima com a canção que Karn explorou em momentos do seu Dreams Of Reason Produce Monsters, de 1987. Já Artemis Rising é espaço mais tenso e denso, menos dado às luzes, cabendo às versões outros pólos de expressão dos horizontes largos dos Dali’s Car, ora escutando ecos de tradições ora ensaiando abordagens a uma música mais interessada no definir de espaços que na focagem dos acontecimentos na frente do palco, no Brel sentindo-se mesmo ecos de uma certa ambiência mais próxima de alguma música contemporânea pós-minimalista (escola Wim Mertens e periferias), expressando esses dois temas o espaço mais vibrante onde, quem sabe, poderia ter nascido o gume das ideias que conduziriam ao álbum que acabaram por não poder concluir. Projeto inacabado, o EP de 2012 dos Dali’s Car é mais uma carta de intenções que uma obra concluída. Está longe de ser uma obra-prima, e não terá o impacto entre os seguidores das coisas alternativas como sucedeu com o álbum de 1984. Mas é pena que se esgote na atenção dos admiradores mais atentos dos universos Bauhaus e Japan, como certamente irá suceder.

domingo, abril 15, 2012

Retratos de um reencontro

Discografia David Sylvian 'Rain Tree Crow' 
(álbum editado como Rain Tree Crow), 1991

A reunião dos quatro músicos que constituíram a formação final dos Japan deu origem a um álbum que, todavia, surgiu assinado como Rain Tree Crow. Gravado entre 1989 e 1990, o projeto partiu de um modelo de trabalho assente na improvisação, mas sob evidente controlo de David Sylvian. A evolução dos trabalhos gerou algumas situações de conflito e ainda hoje não é claro de partiram da forma como Mick Karn, Steve Jansen e Richard Barbieri encararam o protagonismo de Sylvian no projeto se da forma como a editora acompanhou o que pensaria que fosse uma “reunião” dos Japan e acabou por assim não ser. Mesmo assim o álbum único que editaram como Rain Tree Crow é um exemplo de herança direta não apenas do sentido de libertação que Ghosts já sugerira em Tin Drum, como refletia caminhos entretanto seguidos nas carreiras a solo dos vários músicos, particularmente o trabalho de Sylvian quer em Words With The Shaman quer em recentes experiências em estúdio com Holger Czukay. O álbum apresenta em Blackwater (a única canção cuidadosamente estruturada do alinhamento) o seu tema-chave, mas tem nos restantes momentos, todos eles nascidos de impulsos de improvisação em estúdio, quadros de um conjunto coerente e consequente. Parte do trabalho que Sylvian hoje faz tem aqui um antecessor de referencia.

domingo, abril 08, 2012

Primeiros sinais de um reencontro

Discografia David Sylvian 
'Blackwater' (single dos Rain Tree Crow), 1990


Durante anos falou-se da eventualidade de uma reunião dos Japan. Em meados dos anos 80 tal não parecia sequer cenário possível. Mas na verdade as várias edições a solo dos músicos que outrora haviam militado numa das mais interessantes bandas de todos os tempos deram sinais de vontade em colaborar entre si, chamando uns os outros aos seus respetivos discos a solo. Até que, em finais dos oitentas, o reencontro ganhou forma. Mas eram homens bem diferentes dos que haviam gravado Tin Drum em 1981, tendo acumulado experiências que lhes permitiam outros desafios que os Japan de então não teriam podido enfrentar. Optaram por novos modelos de trabalho. E assinaram o disco que então apresentaram como Rain Tree Crow. Blackwater foi o single que antecipou o lançamento do álbum. E revelou uma das mais belas canções de toda a obra de David Sylvian, herdeira distante das últimas visões dos Japan, mas mais ainda de caminhos que a sua música a solo vivera na segunda metade dos anos 80.



Imagens do teledisco de Blackwater.

sábado, março 03, 2012

The Dolphin Brothers, 1987


Banda criada por Steve Jansen e Richard Barbieri (respetivamente os antigos baterista e teclista dos Japan), os Dolphin Brothers editaram apenas um álbum: Catch The Fall, em 1987. Shining foi então lançado como single de apresentação, com direito a teledisco (muito na linha de algumas das mais inconsequentes vinhetas visuais então em voga).

quinta-feira, março 01, 2012

Discos pe(r)didos:
The Dolphin Brothers, Catch The Fall


The Dolphin Brothers
"Catch The Fall"
Virgin Records
(1987)


A separação dos Japan lançou os seus elementos rumo a vários projetos a solo. Mick Karn (baixista e ocasional clarinetista) lançou o álbum de estreia a solo Titles em 1982 e, antes de avançar para um segundo disco juntou-se pontualmente a Midge Ure no single After A Fashion (1983) e depois ao ex-Bauhaus Peter Murphy (e ao baterista Paul Vincent Lawford) para gravar um álbum como Dali’s Car (em 1984). David Sylvian, que tinha já editado um single em colaboração com Ryuichi Sakamoto em 1982 gravou com o músico japonês um segundo 45 rotações em 1983 antes mesmo de se estrear com um álbum em nome próprio em 1984. Steve Jansen (que havia sido o baterista da banda) e Richard Barbieri (o teclista) foram sendo chamados a colaborar em vários projetos dos restantes ex-Japan. Mas em 1985 deram primeiros sinais de uma obra sua, trabalhando em parceria uma série de composições ambientais pensadas para acompanhar imagens do vaivém especial Space Shuttle, que editaram em disco sob o título Worlds in a Small Room, em 1985. Dois anos depois surgiam, novamente juntos, desta vez sob o nome de uma nova banda. Escolheram como nome The Dolphin Brothers e editaram em Catch The Fall (1987), o seu único álbum aquele que, entre os primeiros discos a solo dos demais ex-Japan, acaba por ser o mais próximo herdeiro de ideias lançadas tanto por Gentleman Take Polaroids (1980) ou Tin Drum (1981) os dois últimos álbuns de originais da sua antiga banda. Apesar do tom menos grave, a voz de Jansen sugere por vezes afinidades com a do irmão (Sylvian) e a presença quer das texturas criadas nos teclados por Barbieri ou o gosto pela construção de teias de acontecimentos rítmicos pelo próprio Jansen traçam linhas de continuidade com a memória dos Japan que podemos escutar, por exemplo, logo no tema-título que abre o alinhamento. Já Shining (escolhido como single) parece antes uma evolução, seguindo as novas premissas de produção (e tecnologias da altura) tendo contudo como ponto de partida ecos da memória de canções mais ritmadas como Swing ou um Methods of Dance. Catch The Fall é o descendente mais pop de toda a discografia pós-Japan e, apesar da sua luminosidade e potencial radiofónico, uma aparente falta de investimento na sua exposição fez dele um disco rápida e injustamente esquecido.

E depois do disco:
Jansen e Barbieri continuaram a colaborar juntos (editariam ainda dois álbuns conjuntos em 1991 e 1996) e em trabalhos dos ex-Japan, tendo também participado na reunião que, todavia, se apresentou sob a designação Rain Tree Crow. Richard Barbieri gravou variados discos de colaboração, alguns títulos em nome próprio e desde o início dos anos 90 integra os Porcupine Tree.

sábado, janeiro 21, 2012

Os primeiros passos além-Japan

Discografia David Sylvian - 1 
'Bamboo Houses / Bamboo Music' (single), 1982 
com Ryuichi Sakamoto 


Iniciamos hoje um novo percurso através de uma discografia. Assinalando os 30 anos da obra a solo de David Sylvian, começamos assim por recuar a 1982 e àquele que foi então o seu primeiro disco editado a solo, ainda o músico integrava os Japan.

Não era a primeira vez que David Sylvian trabalhava com Ryuichi Sakamoto. Do bom acolhimento dos japoneses à música dos Japan, logo em finais dos anos 70, surgiu uma vivência e partilha de ideias que cedo colocou o vocalista dos Japan em contacto com a figura central da Yellow Magic Orchestra, banda fundamental da primeira geração pop electrónica e nome de proa da música japonesa de então. Colaboraram pela primeira vez em Taking Islands in Africa, um dos temas do álbum Gentleman Take Polaroids (1980) dos Japan. Mas em 1982 editaram juntos um primeiro single, ao qual chamaram ainda a colaboração de Steve Jansen (também dos Japan). Bamboo Houses / Bamboo Music lança ideias. Explora as potencialidades das suas visões instrumentais (na verdade representando o passo adiante do que os Japan haviam experimentado no álbum de 1981 Tin Drum) e aprofunda a demanda de personalidade na atitude vocal de Sylvian. Os temas foram co-produzidos pelos dois protagonistas e Steve Nye e tiveram ediçãoo nos formatos de 7 e 12 polegadas, pela Virgin Records.



Imagens do teledisco para Bamboo Music, que acompanhou em 1982 o lançamento deste primeiro single conjunto de Sylvian e Sakamoto.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Nos 30 anos de 'Tin Drum' (5/5)


Ao longo desta semana assinalámos aqui os 30 anos da edição de Tin Drum, a obra-prima dos Japan. Disco lançado em Novembro de 1981, era o quinto de originais do grupo. Recorde-se que a carreira em disco dos Japan começara em finais dos anos 70 com Adolescent Sex e Obscure Alternatives (ambos de 1978), dois álbuns mais próximos de um repensar de ideários glam que do clima pós-punk que então se vivia. Em 1979, depois de uma experiência disco com Giorgio Moroder em Life In Tokyo, encontraram o seu caminho em Quiet Life (1980), onde propõem uma nova visão pop mais sofisticada, herdeira da face arty de uns Roxy Music, abrindo ainda espaço à presença das novas electrónicas, somando a tudo a presença única do baixo de Mick Karn e a voz sóbria e delicada de David Sylvian. Ainda em 1980 aprofundam ideias em Gentlemen Take Polaroids, acabando reconhecidos (mais por afinidade com o contexto que outra coisa) como nome de proa do movimento neo romântico.


É contudo com Tin Drum que os Japan vão decisivamente mais longe que nunca. O álbum expressa uma visão pop depurada quer de marcas de época quer da adiposidade com que então as novas técnicas de produção davam carne ao corpo de muitos discos. A esta lógica algo minimalista juntam um interesse entretanto aprofundado pelas culturas orientais, a vivência japonesa entretanto colhida entre viagens e leituras e uma curiosidade pela cultura chinesa marcando presença no disco como elemento natural da sua personalidade, nunca como exotismo decorativo. Instrumentos asiáticos sublinham a arquitectura rítmica das canções e definem algumas das linhas melódicas. As canções vão desde uma expressão sofisticada de ideia pop, como em Visions of China ou Cantonese Boy, a viagens mais interessadas em procurar o espaço (e eventualmente o silêncio), sinais que encontramos em momentos como Ghosts ou Sons Of Pioneers, alargando mais longe ainda o espectro de referências quando, em Canton, citam formas da música chinesa. 30 anos depois Tin Drum não é apenas um clássico. É uma visão capaz de expressar (como poucas) como, a partir de uma linguagem comum (a da canção pop) se pode afirmar uma ideia única. E irrepetível.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Nos 30 anos de 'Tin Drum' (4/5)


O sucesso inespertado de Ghosts evevou os Japan a um pico de popularidade em 1982. Sucederam-se então lançamentos novas edições de velhos singles, assim como de álbuns antigos outras faixas foram retiradas para conhecer novas vidas a 45 rotações por minuto, que assim se juntaram à verdadeira multidão de singles que haviam sido lançados em 1981 (muitos deles sem sequer a autorização da banda, correspondendo alguns a lançamentos da editora que os havia representado até 1980). Houve mesmo assim espaço para mais um single extraído do alinhamento de Tin Drum (na verdade ainda haveria um outro mais, Canton, mas em versão ao vivo, sendo assim afinal um single do álbum Oil on Canvas). A escolha recaiu sobre Cantonese Boy, outro dos momentos em que as referências da cultura chinesa surgem entre as linhas de uma pop visionária que então fazia dos Japan uma das mais interessantes bandas do seu tempo.

I

Imagens de uma actuação televisiva em 1981.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Nos 30 anos de 'Tin Drum' (3/5)


Há discos que, sabemos à partida, são êxitos em potência. Mas há casos de popularidade que nascem onde menos os esperamos. Foi o que aconteceu com o terceiro single extraído do álbum Tin Drum, dos Japan. Uma canção de formas invulgares, mais próxima de uma ideia de devaneio ambiental entre texturas que seguindo as normas então em voga (avaliando-as por comparação com as demais presenças nas tabelas de venda de singles da época). Ghosts foi, na verdade, o êxito maior de sempre dos Japan, atingindo o nº 5 na tabela do Reino Unido, já em 1982. Poucos imaginariam então que o grupo estaria a meses de anunciar a sua dissolução.



Imagens de uma actuação televisiva dos Japan, ao som de Ghosts.

terça-feira, novembro 15, 2011

Nos 30 anos de 'Tin Drum' (2/5)


Segundo single extraído do alinhamento do álbum Tin Drum (este editado em Novembro de 1981), Visions Of China é um dos vários exemplos de presença de elementos da cultura chinesa neste que foi o derradeiro álbum de originais dos Japan. Não só pela música há uma assimilações de sons e mesmo referências locais, como pelo teledisco que então acompanhou o lançamento do single surgiam elementos da cultura chinesa.



Imagens dos Japan numa actuação televisiva da época, ao som de Visions Of China.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Nos 30 anos de 'Tin Drum' (1/5)


Foi em Novembro de 1981 que os Japan editaram aquela que foi a sua obra-prima. Chamaram-lhe Tin Drum e acabaria por ser o seu derradeiro álbum de originais. Ao longo desta semana evocamos esse último disco da banda que revelou David Sylvian, começando hoje por The Art Of Parties, o primeiro single extraído do alinhamento do álbum.



Imagens de uma actuação televisiva da época na qual os Japan apresentavam The Art Of Parties.