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quarta-feira, setembro 23, 2020

O ténis segundo Jacques Tati

As Férias do Sr. Hulot (1953)

A partida de ténis de As Férias do Sr. Hulot (1953) define o génio e a acutilância crítica do cinema de Jacques Tati: através do seu humor subtil, ele é tão francês quanto universal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Setembro). 

Por vezes, apetece perverter a lógica dos tops de filmes. E inventar listas que não favoreçam especulações pueris sobre se “algo” mudou no mundo do cinema porque, depois de várias décadas com O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles, a liderar a lista dos “melhores de sempre”, o primeiro lugar passou a pertencer a Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock (aconteceu em 2012 na sondagem internacional promovida, de dez em dez anos, pela revista britânica “Sight & Sound”). 
Eis um exemplo possível: fazer a lista dos filmes com as melhores partidas de ténis. Apostaria que As Férias do Sr. Hulot (1953), de Jacques Tati (1907-1982), arrebataria o primeiro lugar com grande avanço… Enfim, com todo o respeito pelos que se lembraram de imediato da imponderável bola a bater na rede filmada por Woody Allen em Match Point (2005), ou ainda, claro, do assombramento que perpassa por raquetes, bolas e isqueiros (!) em O Desconhecido do Norte Expresso (1951), de Alfred Hitchcock. 
Acontece que os filmes de Tati voltaram à actualidade, cumprindo um ciclo típico da actual vida comercial do cinema e do qual, neste caso, o mercado português não ficou alheado. Assim, os últimos anos foram de paciente recuperação da obra de Tati, processo que teve um importante momento simbólico em 2002, no Festival de Cannes, com a projecção da cópia restaurada de Playtime - Vida Moderna (1967). Os filmes foram repostos nas salas, tiveram edições em DVD e Blu-ray e agora a sua obra integral como realizador, duas curtas e seis longas-metragens, está disponível numa plataforma de streaming (Filmin). 
As Férias do Sr. Hulot é, justamente, o filme em que Tati estreia a sua personagem de Hulot. E o mínimo que se pode dizer é que a sua resistência ao tempo, superando conjunturas e modas, envolve uma lição universal. Porquê? Porque Tati consegue a proeza de inventar uma figura que concilia a inserção muito concreta num determinado tempo histórico e uma alegria figurativa que, à boa maneira do burlesco do cinema mudo, lhe confere a exuberância de uma fascinante abstracção. 
Hulot é o cidadão igual a todos os outros, supostamente banal e integrado, ao mesmo tempo livre e inclassificável. Em As Férias do Sr. Hulot, vêmo-lo como peão de um xadrez social (em cenário de férias, obviamente) que reflecte a diversidade da França em período de recuperação económica. Pressentimos que ele procura pertencer ao colectivo, não atraindo dramas ou sobressaltos; ao mesmo tempo há sempre um “excesso” que o distingue e, de alguma maneira, isola. 
A partida de ténis de As Férias do Sr. Hulot é, justamente, uma dessas cenas em que contemplamos a sua ambivalência. Hulot vive a aventura de um corpo que resiste a diluir-se na imagem global de felicidade que os outros protagonizam, querem, fingem ou imaginam protagonizar. Tudo se passa como se Hulot fosse um rebelde sem programa político: a sua pose é a de quem tenta pertencer ao colectivo; o seu corpo, bizarro e imprevisível existe numa solidão que nos toca e atrai. 
Tudo isto, importa lembrar, acontece através de um ciclo de narrativas em que Tati faz uma verdadeira antologia de usos e costumes franceses, expondo a fragilidade anímica de uma sociedade que vai deslizando da comicidade rural de Há Festa na Aldeia (1949), a primeira longa-metragem, para a codificação de todos os laços familiares e profissionais, visível no já referido Playtime e ainda em Trafic/Sim, Sr. Hulot (1971), por certo um dos filmes mais sarcásticos que já se fizeram sobre a sedução consumista do automóvel. Sem esquecer, claro, O Meu Tio (1958), precisamente uma crónica sobre a transição dos lugares de um viver tradicional e ingénuo para os novos arranjos urbanos, liofilizados e impessoais. 
Se é verdade que tudo isto nos remete para momentos muito concretos da história da França, não é menos verdade que a visão de Tati possui um singular eco universal. Através de um humor subtil e contagiante, ele filma as relações sociais como uma paisagem de mútuo desconhecimento. Aqui e agora, seria um retratista das ilusões ecuménicas das redes (ditas) sociais. E da primordial dificuldade de devolver a bola com a raqueta.

sexta-feira, agosto 28, 2015

Quando Tati pensou filmar os Sparks

A edição especial de verão da revista “Sofilm” é dedicada a histórias de relacionamento entre o cinema e a música pop/rock. Sparks, Bob Dylan, Neil Young, Elvis Presley ou Jim Jarmusch passam por estas páginas.


Em 1975, numa reunião no Hotel Hilton, em Paris, o realizador francês Jacques Tati encontrava-se com dois músicos norte-americanos que, nos últimos anos, tinham dado sinais de personalidade (e grande sentido) de humor ao vestir os encantamentos do glam rock não em busca de um lugar no comboio lançado por Bowie e Bolan, mas assimilando antes ecos de tradições do cinema norte-americano, nomeadamente Charlie Chaplin. Desafiava então os Sparks para tomarem um lugar de protagonismo em Confusion, um novo projeto a filmar para televisão no qual encenaria a morte de Mr. Hulot durante um direto e, na lógica do show must go on, a emissão não seria interrompida. E a 15 de março desse ano era emitido um comunicado de imprensa, revelando o novo projeto, confirmando que a rodagem teria início ainda esse ano e que os papéis principais caberiam a Tati e a Ron e Russel Mael. O projeto de financiamento acabou por ser mais longo do que o esperado e, quando em 1982 as condições estavam finalmente reunidas para filmar, a morte do realizador, aos 75 anos, deixou o projeto por concluir, sobrevivendo o argumento, a canção-tema (que surgiu no álbum Big Beat, de 1976 – ouvir em baixo) e as memórias dos que lhe chegaram a dedicar tempo e atenção. Algumas dessas figuras são ouvidas em “La Confusion des Genres”, um dos artigos que podemos encontrar na edição especial de verão da revista francesa Sofilm, integralmente dedicada à relação da música com o cinema.

Nas suas 116 páginas, esta edição dedica artigos a Henry Mancini, ao filme Spice World com as Spice Girls (o tiro ao lado desta edição) a Straight To Hell (filme de 1986 de Alex Cox com Joe Strummer, Courtney Love, Grace Jones e Elvis Costello), a Human Highway (que Neil Young co-realizou sob o pseudónimo Bernard Sharkey), a Renald and Clara (realizado em 1978 por Bob Dylan) ao histórico Space is The Place (com Sun Ra), um pequeno feature sobre bandas sonoras rejeitadas e uma inevitável referência aos documentários sobre Amy Winehouse e Nina Simone recentemente estreados, entre outros mais temas.

A revista inclui uma entrevista com Jim Jarmusch, um texto sobre um álbum punk de Ben Stiller e apresenta um portfólio dedicado a Elvis Presley e ainda uma série cronologias e listas Top 10… E vale a pena passar por algumas dessas listas, goste-se ou não das escolhas feitas (como manda a regra de quem gosta de ver listas).

Há uma dedicada às piores cenas de dança e outra aos piores biopics musicais, por onde passam filmes dedicados a Lully, Frankie Valli ou Beethoven… Havia piores, convenhamos. Há um outro sobre “cameos” de músicos em filmes.

Fica claro, por indicação na capa, que estas histórias de cinema e música são focadas em terreno rock’n’roll. Não era má ideia que, numa outra ocasião, outras músicas e outros filmes com música venham a merecer uma tão variada seleção de artigos par ir lendo nestes dias mais quentes e longos de verão.