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domingo, julho 08, 2018

Gillian Flynn na HBO

Sharp Objects começou por ser um admirável romance da americana Gillian Flynn (autora de Gone Girl, adaptado ao cinema por David Fincher em 2014, entre nós lançado com o título Em Parte Incerta), cruzando o trabalho de uma jornalista sobre o assassinato de duas raparigas com as suas próprias memórias de infância e adolescência — Sharp Objects está editado entre nós como Objectos Cortantes.
Agora Sharp Objects é uma mini-série da HBO (oito episódios) com estreia americana agendada para hoje, 8 de Julho. Com Amy Adams no papel central, a sua realização está a cargo de Jean-Marc Vallée, o canadiano que dirigiu Big Little Lies, também uma mini-série (brilhante) com chancela HBO — o trailer, sem dúvida contaminado pela pulsação dramática do livro, é um breve exercício de visceral inquietação.


terça-feira, outubro 07, 2014

David Fincher, aqui e agora (2/2)

Gillian Flynn adaptou o seu romance Em Parte Incerta/Gone Girl para uma realização de David Fincher. Os resultados devolvem ao thriller a sua sofisticação clássica — este texto integrava um dossier sobre o filme, publicado no Diário de Notícias (2 Outubro), com o título 'O que é uma história de amor?'.

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Num dos mais belos inícios de filme que vimos em tempos recentes, a cabeça deitada de Rosamund Pike enche o ecrã, ao mesmo tempo que a mão de Ben Affleck lhe toca nos cabelos, levando-a a virar-se para trás... A voz off introduz uma imediata sensação de ambiguidade e incerteza, de algum modo sublinhada pelo olhar: a mulher corresponde à carícia ou tem medo daquela mão que convoca o seu desejo?
Em Parte Incerta é uma antologia de prodigiosos instantes como este. As muitas especulações em torno da maior ou menor “coincidência” da realização de David Fincher com o romance de Gillian Flynn, sendo compreensíveis, tendem a passar ao lado do essencial: ao procurar o esclarecimento de um mistério policial (que é feito da “gone girl” a que se refere o título original?), Fincher não filma exactamente o sentido das coisas, mas sim a tragédia íntima dos gestos e das relações em que as coisas deixam de fazer sentido — ou já não cabem no sentido (conjugal, social, simbólico) que lhes foi destinado.
Solicita-se, por isso, aos demagogos que proclamam que a denúncia do populismo televisivo não passa de uma “preocupação” de alguns intelectuais empedernidos que vejam e revejam este prodigioso filme. Fincher mostra a desvergonha com que algumas formas de televisão dos nossos dias exploram as vidas privadas e, mais do que isso, sujeitam a infinita complexidade do real ao espartilho de um violento moralismo. Em Parte Incerta não é, por isso, um vulgar enigma policial (“quem, como, onde”), mas sim uma inquietante viagem pelo enigma mais radical. A saber: o modo como a mais transparente relação humana pode ser habitada pelos mais inconfessáveis fantasmas. Se se trata ou não de uma história de amor, eis a pergunta a que o espectador deve responder por sua conta e risco.

sábado, outubro 04, 2014

David Fincher, aqui e agora (1/2)

Gillian Flynn adaptou o seu romance Em Parte Incerta/Gone Girl para uma realização de David Fincher. Os resultados devolvem ao thriller a sua sofisticação clássica — este texto integrava um dossier sobre o filme, publicado no Diário de Notícias (2 Outubro).

O menos que se pode dizer do novo filme de David Fincher, Em Parte Incerta, é que não saber da sua existência será, por esta altura, uma proeza só ao alcance de um marciano acabado de desembarcar no planeta Terra — e, mesmo assim, dos mais distraídos... De facto, há muito que se não via, mesmo no interior da máquina de Hollywood, um título lançado com uma tão grandiosa e sofisticada campanha.
Curiosamente, o primeiro sinal dessa campanha foi um registo fotográfico: no passado dia 17 de Janeiro, a revista Entertainment Weekly dava capa ao projecto do filme (título original: Gone Girl), com uma imagem dos respectivos protagonistas, Rosamund Pike e Ben Affleck. A fotografia, assinada pelo próprio Fincher, não sendo uma cena do filme, sugeria, com calculada perversidade, o seu mistério central. A saber: o casal, Amy e Nick, surgia numa mesa de uma morgue, com o marido a abraçar o cadáver da mulher...
De facto, desde a notícia da adaptação do romance homónimo de Gillian Flynn (já lançado entre nós, com chancela da Bertrand Editora), Fincher tinha sido bombardeado com o cepticismo dos muitos fãs do livro (que liderou, durante oito semanas, a lista de “best-sellers” do New York Times) e as dúvidas de alguma imprensa. A estrutura do romance seria mantida? E tendo em conta que a adaptação cinematográfica iria ser da responsabilidade da própria escritora, o desenlace seria alterado ou não? Enfim, o menos que se pode dizer é aquilo que já estava subjacente à capa da Entertainment Weekly: com o desaparecimento da personagem de Amy, o marido emerge como principal suspeito...
David Fincher
As especulações em torno das peripécias de Em Parte Incerta levaram mesmo à organização de algumas projecções de imprensa em que foi solicitado aos jornalistas convidados a assinatura de um compromisso de embargo até à data da passagem do filme no Festival de Nova Iorque (26 Setembro). Enfim, vale a pena lembrar que semelhante protecção informativa, com toda a carga de sedução que pode gerar, está longe de ser uma novidade. Lembremos, por exemplo, a inteligente campanha que Alfred Hitchcock montou em torno do seu Psico, já lá vão mais de quarenta anos (foi em 1960 e havia mesmo um cartaz em que o próprio Hitchcock surgia a apontar para o seu relógio de pulso, com uma legenda que garantia que “ninguém” seria autorizado a entrar na sala depois do começo da projecção).
Se é verdade que Fincher tem experimentado os registos mais diversos — incluindo o puro terror, com Alien 3 (1992), a sua primeira longa-metragem —, não é menos verdade que o thriller policial e os mecanismos de suspense não são estranhos ao seu trabalho. Por vezes com elaboradas ressonâncias bíblicas, como no caso de Seven – 7 Pecados Mortais (1995). Outras vezes explorando a memória de crimes que fazem parte do imaginário americano, como em Zodiac (2007).
Em Parte Incerta nasce do cruzamento de duas vertentes, uma romanesca, outra sociológica. Assim, por um lado, a progressiva revelação dos bastidores da vida de Amy e Nick funciona como cruel desmontagem das ilusões de um casamento “exemplar”, sancionado pelas famílias e respectivas comunidades; por outro lado, ao expor a manipulação do desaparecimento de Amy pelo mais desenfreado populismo televisivo, Fincher deixa um testemunho radicalmente céptico sobre as nossas sociedades mediáticas. Fica, além do mais, um novo enigma: há quem acredite, desde já, que Ben Affleck e, sobretudo, Rosamund Pike são sérios candidatos aos próximos Óscares de interpretação.

sexta-feira, setembro 20, 2013

O amor segundo Gillian Flynn

Em Gone Girl, Gillian Flynn [foto] coloca em cena os dramas muito privados de um casal cuja existência está à beira da mais brutal decomposição: ela é Amy, a desaparecida que o título anuncia, tendo fugido ao marido depois de uma cena caseira que foi, no mínimo, violenta, como o prova a desarrumação com que a polícia se depara e, mais do que isso, o próprio sangue de Amy; ele, Nick, surge como único suspeito dessa altercação caseira, tanto mais que o seu comportamento público parece indiciar uma estranha indiferença pelo desaparecimento da mulher...
Dito de outro modo: Gone Girl é também uma crónica fria e contundente sobre o alarido que o desaparecimento de Amy desencadeia em jornais, revistas e televisões que vivem da venda militante de obscenidades, sempre à procura de “inocentes” e “culpados” na vida privadas dos cidadãos.
Tudo isto, como é óbvio, faz supor que Gone Girl se enraíza numa trama policial recheada de sobressaltos e surpresas. Assim acontece, sem dúvida. Mas seria precipitado supor que Flynn não passa de uma escritora que sabe relançar matrizes já testadas, recheando-as com alguns detalhes mais ou menos insólitos. Obviamente consciente da tradição narrativa em que se movimenta, ela é acima de tudo a admirável arquitecta de um edifício de factos e imaginações em que, metodicamente, são testados os limites da racionalidade humana – ou, se assim nos podemos exprimir, a paradoxal transparência da sua irracionalidade.
Há outra maneira de o dizer: Flynn celebra as contradições internas do amor, testando a sua impossibilidade até aos limites do humanamente possível. Ou ainda: Gone Girl vai ser o próximo filme de David Fincher, com Ben Affleck e Rosamund Pike nas personagens centrais – e o mínimo que podemos dizer é que, mesmo conhecendo o espantoso desenlace do romance, a expectativa será sempre altíssima.

>>> Site oficial de Gillian Flynn.