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sábado, outubro 13, 2012

Em conversa: Gary Numan (3)

Esta é a transcrição (editada para 2012) de uma entrevista originalmente publicada nas páginas do suplemento DNmais em 2002.

Como é que reagiu perante o surto de interesse pela sua música que surgiu mais de 20 anos depois dos grandes momentos de sucesso que então viveu?
Sabe bem e é um fenómeno que me deixa muito feliz, naturalmente. O único problema é que muito deste reconhecimento vem por coisas que já fiz há muito tempo... Se a música que estou hoje a fazer não estivesse também a merecer qualquer reconhecimento certamente sentir-me-ia estranho. Neste momento tenho um novo single na tabela de vendas [esta entrevista tem dez anos] e as velhas canções a merecer estatuto de "influentes"... Essas realidades em conjunto são muito positivas, e acabam por alimentar-se mutuamente.

Mas não deixa de ser estranho ouvir, na rádio, o single das Sugarbabes [Freak Like Me], que é bem actual, mas na verdade, não esconde, descaradamente, o 'Are Friends Electric', de 1979...
Sim, é uma situação daquelas em que temos de explicar que se trata de uma velha canção que foi usada de novo. É difícil tirar dela algum reconhecimento, desta forma... Mas gosto que se saiba que tenho orgulho dessa canção, que tem quase 25 anos. Mas é uma situação estranha... Sobretudo porque não quero usar qualquer coisa minha que tenha tido sucesso no passado como arma para usar no presente. O meu presente deve ser justificado pelo que tenho feito nos últimos tempos. Seria, contudo, um idiota se não tentasse aproveitar o que de positivo essa situação levanta. Mas é difícil tirar uma só conclusão do sucesso dessa adaptação das Sugarbabes. Mas também é difícil manter uma carreira de sucesso. E todas as situações que se desenhem, desde que não lesivas, devem ser aproveitadas. Eu tento evitar toda a espécie de ligação a revivalismos dos anos 80. Há, no Reino Unido, muitas bandas dos anos. 80 que se juntam para umas digressões retro ou nostálgicas. Eu não faço concertos de greatest hits, não apareço em programas de nostalgia...

Mas toca ainda temas dos dias de Replicas ou Pleasure Principle nos seus concertos...
Toco apenas alguns temas. E faço-o pelo dever e responsabilidade que sinto para com os meus fãs, especialmente os que estão comigo há muito tempo. Eles gostam muito do material antigo, por isso sinto a obrigação de lhes ser fiel, tocando canções de várias etapas da minha carreira. Em média, toco um quarto de temas antigos por concerto. Mas o ênfase das actuações está sempre centrado em material recente, até mesmo em primeira mão, se ainda o não toquei...

Há muitas famílias estéticas contemporâneas que o veneram. A escola rock, com nomes como os Nine Inch Nails, Marilyn Manson ou Deadsy, não escondem referências. Depois houve o electroclash... Com que escolas se identifica mais?
Não me identifico com o electroclash de modo algum. Além dessas duas famílias creio que há ainda uma terceira, a de projectos mais ligados , à cena "dance", como o Armand Van Helden, Junkie XL... Até mesmo o Afrika Bambaataa disse-me que em tempos o meu som lhe foi fundamental. Curiosamente, na última semana recebi cinco pedidos de autorização de projectos de hip hop para usarem o Cars e outras coisas desse mesmo período... Mas de todas as famílias de bandas que me apontam corno referência, a única com a qual me identifico é a do rock industrial. É a música de que mais gosto e, de certa forma, é para aí que a minha própria música caminha.

Tem gostado das versões que grupos como os Nine Inch Nails, entre outros nomes de peso do rock industrial, têm feito de temas seus?
Gosto muito das versões dos Nine Inch Nails, dos Fear Factory e a dos Marilyn Manson. Achei também muito interessante a dos Foo Fighters... Mas de todos esses grupos, o meu preferido são os Nine Inch Nails. De resto, são o meu grupo preferido hoje em dia, e vê-los a fazer uma versão de um tema meu foi um dos momentos de que mais me orgulhei em toda a minha carreira. E fico também muito satisfeito por a minha música significar tanto para gente que não é apenas a gente da electrónica . As Sugarbabes são um projecto de R&B. E tive. já versões pelo Damon Albarn ou pelos Moloko... No fundo, ser apontado corno "influente" é cool. E ver esse reconhecimento a chegar de vários lados é ainda mais compensador.

domingo, outubro 07, 2012

Em conversa: Gary Numan (2)

Esta é a transcrição (editada para 2012) de uma entrevista originalmente publicada nas páginas do suplemento DNmais.

Há 30 anos a tecnologia ao serviço da música era diferente. Sentia-se limitado?
Bom, nós fazíamos uma espécie de sampling, mesmo antes das máquinas existirem. Usávamos um gravador, que levávamos para a rua. Gravávamos barulhos, ruídos. No estúdio manipulávamos as gravações e criávamos um loop em fita. Desde que acautelássemos a duração necessária de loop, podíamos usá-lo, até mesmo a diferentes tonalidades. Por vezes acertávamos, outras errávamos...

Trabalhava nos limites da tecnologia em finais de 70?
Sim, tentávamos esticar até onde fosse possível. Havia gente que o fazia melhor que eu, claro. Mas tentei ir onde podia... Na verdade, urna das frustrações que senti mais tarde, ao escutar esses discos é que lhes apontei falhas notórias na produção. Parecia-me vazia. As melodias estavam boas, mas a produção parece-me inacabada... Nesse departamento avançou-se muito. E aprende-se muito com os erros. Creio que, de um ponto de vista técnico, devemos tentar fazer sempre um trabalho melhor de álbum para álbum. É claro que podemos ter melodias melhores ou piores, até porque cada artista tem bons e maus períodos, mas tecnicamente devemos melhorar sempre.

Defende a mesma política de apuramento progressivo no palco?
Pelo menos tento. Não sei se consigo sempre... Há elementos em que tento sempre melhorar. Mas ainda .não sei dançar! Não tenho o mínimo jeito! Uma das vantagens que se tem ao fim de tanto tempo de vida de palco é o aprender a dominar a ansiedade que os concertos trazem naturalmente. A experiência ajuda-nos' a dominar essas ansiedades. Ë com a confiança nasce uma performance mais "definitiva". Não sou tímido em palco, nem me sinto nunca embaraçado... A música que faço agora é mais agressiva, e tenho comigo urna banda que me ajuda a poder projectar esse som. E confesso que cada vez mais gosto de tocar ao vivo. Gosto muito desta banda com quem trabalho... A música que tocamos não é feliz, é certo, mas passamos belos momentos.

Diz que a sua música não é feliz... E é verdade que nunca fez uma canção para nos fazer sorrir... Mas tem tido uma vida feliz...
(risos) Sou um homem feliz. Tenho o emprego perfeito, adoro fazer o que faço!

Mas não escreve melodias alegres.
De modo algum! Há quem o faça bem melhor que eu.

E como ouvinte, escuta música alegre?
Nem como ouvinte! Não me interessa. Posso estar feliz sern que isso dependa da música. Ouço música por outras razões. Ouço música se o tema me interessa. E quando estou muito feliz a última coisa que faço é ouvir música. Saio, vou fazer outras coisas. , Ouço música para encontrar outro estado de espírito, para me inspirar... Fascino-me... Gosto de ouvir canções de pessoas que tiveram vidas muito diferentes da minha, que tenham feito coisas diferentes das que fiz. Coisas bizarras, negras... Vidas sexuais estranhas ou problemas complicados com drogas. Coisas em que não toquei. Fascino-me por quem consiga também tocar em questões relacionadas com religião. No fundo, o tipo de abordagem de um Marilyn Manson, de uns Nine Inch Nails.

Havia indícios de algumas dessas temáticas em Replicas...
É verdade. Havia alguns ambientes pesados. Foi talvez por isso que pessoas como o Marilyn Manson ou o Trent Reznor se interessaram pelo meu trabalho e me apontaram como influência deles. Eles, de certa forma, pegaram no que eu tinha feito, mas levaram as coisas bem mais longe. Hoje, curiosamente, sou eu quem está a pegar naquilo que eles fizeram, para me inspirar...

Uma espécie de 'feed back'...
Creio que nos alimentamos uns dos outros em termos de influências. Eu espero sempre ansiosamente por cada novo disco dos Mine Inch Naus ou Marilyn Manson, e sei que fazem o mesmo relativamente ao meu trabalho. É um circulo muito positivo. Tentamos sempre elevar o nível. Cada vez que o Trent Reznor faz um álbum, ele eleva os padrões. Eu nem sempre consegui melhorar de disco para disco. Mas com o Trent isso tem sempre acontecido.

O misto de sensações de encanto e ameaça que vemos nos Nine Inch Nails era já uma ideia cénica muito real nos seus concertos clássicos de 79/80... Gosta dessa coexistência de extremos?
Gosto muito... Nos novos concertos faço uma performance mais agitada, mas nesses conceitos mais antigos era mais teatral, mais estático. Não sei se consigo traduzir exactamente essa ideia de ameaçador, porque na vida real não sou nada ameaçador... Sou um homem calmo e pacato.

Porque havia tantas imagens sobre vidros nas suas canções de há 20 anos?
Sempre usei a ideia de vidro porque é facilmente quebrável, como as personalidades ou relações podem ser. Quando conheci a minha mulher falávamos muito sobre a importância do diálogo, para evitar que algo se tornasse depois quebradiço, corno o vidro. Urna vez partido, estará danificado para sempre. Eu não tenho convicções religiosas e creio que só tenho uma vida. Ao avançar no tempo, há coisas que, olhando para trás, gostaria de poder remendar...

Há muitas coisas que faria de modo diferente?
Sim, muitas...

Decisões, canções, discos...
Sem dúvida algumas canções. Fiz algumas canções horrorosas, mas na altura nasceram sempre com as melhores intenções. Mas falo mais de coisas que não disse coisas que deveria ter dito, que fiz coisas que não deveria ter feito. Lamento muitas coisas.

O sucesso súbito afectou-o?
Sempre fui um pouco paranóico... E a fama deu-me razão para justificar essa paranóia... A fama mudou-me, mas não de maneira a fazer-me sentir importante, antes pelo contrário. Fez-me sentir mais vulnerável... Em Inglaterra havia 60 milhões de pessoas. O Are Friends Electric vendeu um milhão de singles... isso fazia-me pensar que 59 milhões de ingleses não gostavam de mim... Para mim ter sucesso fez-me sentir que a maioria dos ingleses não gostavam de mim... Era a minha maneira de ler as coisas. Fechei-me muito, não saí.

sábado, setembro 29, 2012

Em conversa: Gary Numan

Um dos pioneiros da pop electrónica na Inglaterra de finais de 70 é hoje apontado como uma das figuras mais influentes da sua geração. Coisa rara num universo implacável como o da pop, um músico que se tornara memória obscura desde meados de 80 viu-se mais tarde citado como herança fulcral para uma variedade impressionante de famílias de músicos. Nos anos 90 nomes corno os Nine Inch Naus, Marilyn Manson, Foo Fighters ou Deadsy revelaram assim heranças invulgares em domínios rock. Nas esferas das electrónicas dançáveis o Numan é igualmente venerado. Em inícios de 80 era, juntamente com os Kraftewrk, alimento fundamental do som electro que começava a transformar o hip hop. O electroclash, na alvorada do século XXI escutou-o outra vezz... E mais tarde até as Sugarbabes transformam Are Friends Electric..
Em 2002, dois anos depois de um regresso mais mediatizado com Pure, falei com ele. Esta é a transcrição (editada para 2012) de uma entrevista originalmente publicada nas páginas do suplemento DNmais.

Nos dias de Replicas [álbum de 1979] poucos foram os que em si reconheceram imediatamente um futuro. John Peel foi um "padrinho" para si...
Foi o único que tocou os discos antes do grande sucesso.

Quando Are Friends Electric começou a rodar na rádio, em 1979, actuou pela primeira vez no Top Of The Pops, numa performance que hoje é apontada corno histórica. Foi um momento assim tão importante?
A canção era muito diferente do que o programa estava então a mostrar, mas eu não chamo a mim qualquer marco histórico nessa ocasião. O que se passou é que eu era um grande fã do programa. Via-o desde os dias da minha adolescência...

Viu por ali passar Bowie, os T-Rex...
Precisamente... E já o via até mesmo antes deles. Mas reparara já que todos usavam muitas luzes coloridas. Eu queria evitar um pouco aquilo, sobretudo porque muitas vezes aquelas luzes transformavam tudo numa espécie de banda de baile em bar de praia... Na altura as luzes eram sempre as mesmas, todos olhavam para a câmara, todos sorriam para a câmara... Eu não queria fazer aquilo. Pedi então apenas luz branca, e evitei sempre olhar para a câmara, excepto num momento específico da canção.

Lavou para ali a ideia de teatro que começava também a trabalhar nos seus concertos?
Tudo para aproveitar as potencialidades do meio e fazer da música algo mais interessante. E da letra algo mais apelativo. Sorrir para a câmara não tinha nada a ver com aquela letra!

As letras de Replicas parecem reflectir muita leitura na área da literatura de ficção científica...
Sim, interessava-me bastante por ficção científica quando era mais novo, mas à medida que fui envelhecendo fui mudando de interesses. Replicas foi, na verdade, um disco que nasceu de uma vontade de escrever um livro, que não consegui concluir. Talvez porque estivesse mais destinado para escrever canções. O livro era uma colecção de contos, e acabei por converter grande parte daquelas histórias em letras de canções. De certa forma Replicas é um álbum temático.

E desenha uma visão muito sombria do futuro... Era a sua visão da então?
Exatamente.

De certa forma segue um pouco as linhas de um Soylent Green ou de um Blade Runner...
O conto de Philip K Dick do qual surgiu o filme Blade Runner, o Do Androids Dream Of Electric Sheep, foi das coisas mais marcantes que li. Quando o filme surgiu senti que tinha muito a ver com o ambiente de Replicas. Voltei a sentir o mesmo mais tarde com O Extreminador Implacável, com aquela coisa da máquina que parece ter uma pele humana, e impossível de detetar. Essa era uma das ideias fulcrais em Replicas. O disco tem muitas ideias de ficção científicas, é verdade.

Ainda assina algumas dessas visões sobre o futuro?
Sim, algumas. Não diria que o álbum queria ser profético, até porque era apenas entretenimento; Mas penso que o futuro é um misto de deslumbramento e terror. A tecnologia pode dar-nos coisas incríveis... De resto, vivemos num tempo em que tomamos muitas coisas por conquistadas. Vivemos as descobertas a tal ritmo que, se não acontece nada de novo numa semana ficamos desapontados. Mas temos ferramentas incríveis à nossa disposição. E podemos não só saber mais sobre o que nos envolve, como descobrir muito mais sobre nós mesmos. Com um computador, mesmo sem saber muita técnica, qualquer um poder criar. Hoje posso desenhar revistas, T-shirts, até mesmo as capas do meus discos.

Podem ver aqui um excerto da atuação de 1979 no Top of The Pops.