A gravação da 8ª Sinfonia de Gustav Mahler ("Sinfonia dos Mil"), pela Los Angeles Philarmonic, sob a direcção de Gustavo Dudamel, é um acontecimento do mais puro deslumbramento: a sinfonia "impossível" (pelo número de contributos humanos que exige, mesmo se "mil" é um rótulo mítico que não lhe foi dado pelo compositor) renasce como celebração sagrada de uma vida transfigurada pelo poder da música, dos instrumentos e da voz — eis o final.
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segunda-feira, janeiro 31, 2022
quarta-feira, setembro 02, 2020
Charles Ives por Gustavo Dudamel
Leonard Bernstein classificou-o como um verdadeiro primitivo da música dos EUA. Assim é Charles Ives (1874-1954): compositor capaz de cruzar a grande herança germânica com as referências populares do seu país, Ives deixou uma obra, não exactamente reduzida, mas que, de tão singular, continua a existir num processo de permanente redescoberta.
Assim acontece através da excelência da Filarmónica de Los Angeles, sob a direcção de Gustavo Dudamel. Com chancela da Deutsche Grammophon, as suas quatro sinfonias surgem numa admirável edição, além do mais envolvendo, agora, uma singular dimensão saudosista: Charles Ives: Complete Symphonies foi gravado no Walt Disney Concert Hall, Los Angeles, em Fevereiro de 2020, poucas semanas antes das limitações impostas pela pandemia — deslumbrante, para ouvir e voltar a ouvir, percorrendo a herança de um genuíno natural.
>>> Três andamentos de Charles Ives:
— Sinfonia Nº 1 - II. Adagio molto. Sostenuto.
— Sinfonia Nº 2 - II. Allegro.
— Sinfonia Nº 3, "The Camp Meeting" - I. Old Folks Gatherin' - Andante maestoso.
— Sinfonia Nº 3, "The Camp Meeting" - I. Old Folks Gatherin' - Andante maestoso.
terça-feira, setembro 11, 2018
Dudamel & Schultz
| Gustavo Dudamel [Foto: Mark Hanauer] |
Gustavo Dudamel Maestro
Golda Schultz Soprano
Franz Schubert
Sinfonia n.º 3, em Ré maior, D. 200
Gustav Mahler
Sinfonia n.º 4, em Sol maior
* Sexta, 7 setembro 2018 (20h00)
Noite de glória musical, na sexta-feira, dia 7, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian. Pelo reencontro com Gustavo Dudamel? Sem dúvida. O actual director da Los Angeles Philarmonic será uma star — e muito merecidamente. Mas não tem pose de vedeta, e não apenas no sentido mais imediato ou imediatista. Escutar a música que ele nos traz, neste caso com a Mahler Chamber Orchestra (fundada por Claudio Abbado em 1997), envolve sempre algo de primordial e revelador: estamos, de facto, a assistir a um singularíssimo processo de descoberta ou redescoberta das obras que nos apresenta.
E não deixa de ser curioso voltar a referir o facto de Dudamel dispensar a pauta enquanto maestro. Não porque se trate de uma qualquer ostentação de "virtuosismo"... Nada disso: ele coloca-se na posição do primeiro espectador, o primeiro a procurar escutar na orquestra algo que se enraíza numa paisagem única, algures entre a sua memória das notas e os desejos originais do compositor.
| Golda Schultz |
Seja como for, importa não esquecer a genuína revelação que foi (para os espectadores portugueses) a presença de Golda Schultz, soprano sul-africana: a sua interpretação de 'Das himmlische Leben', no 4º andamento [Sehr behaglich (Muito agradável)], foi um pequeno prodígio de subtileza e emoções, expondo o misto de carnalidade e abstracção que habita a pulsão transcendental do universo mahleriano.
Como exemplo dos requintados dotes de Schultz, ei-la, com a Münchner Rundfunkorchester, dirigida por Ivan Repušic, interpretando uma ária (Chi il bel sogno di Doretta), da ópera La Rondine, de Giacomo Puccini.
Como exemplo dos requintados dotes de Schultz, ei-la, com a Münchner Rundfunkorchester, dirigida por Ivan Repušic, interpretando uma ária (Chi il bel sogno di Doretta), da ópera La Rondine, de Giacomo Puccini.
domingo, abril 13, 2014
Três meses, três discos (clássica)
Continuando a fazer um balanço do que marcou os três primeiros meses do ano, hoje passamos pelas edições de discos de música clássica. Em comum os três títulos que destaco partilham o facto de serem lançados pela mesma editora – a Deutsche Grammophon – um deles sendo contudo uma antologia. Começo por destacar o álbum que tem como protagonista Bryce Dessner, músico que até aqui conhecíamos sobretudo através do seu trabalho nos The National e que a uma obra sua junta uma outra de Johnny Greenwood, guitarrista dos Radiohead que tem também trabalhado em música para cinema.
Sobre este disco escrevi aqui: “Apesar de uma certa tradição autodidata que domina muitas das histórias pessoais de tantos músicos em terreno pop/rock, a verdade é que tanto Bryce Dessner como Johnny Greenwood têm formação clássica. Bryce tem na verdade um mestrado em música em Yale e durante a sua formação encontrou importantes referencias em obras de figuras como Morton Feldman ou Steve Reich. Além do trabalho com os The National tem também colaborado com os Bang on a Can e o Kronos Quartet. O seu St Carolyn by the Sea (título inspirado pela escrita de Kerouac), que aqui se apresenta em gravação pela Orquestra Filarmónica de Copenhaga, dirigida por Andre de Ridder é uma obra orquestral de grande fôlego que cruza heranças que cão dos românticos a espaços da música orquestral do século XX (de Bartók a Glass) e, sem abdicar da presença da guitarra (na verdade há duas guitarras em cena – interpretadas por si e pelo seu irmão Aaron – e são mesmo a medula desta obra originalmente encomendada como um concerto para duas guitarras elétricas para a American Composer’s Orchestra) nem de um interesse pela melodia, expressa personalidade e demarca-se dos territórios habitualmente por si visitados nos The National. Johnny Greenwood, por seu lado, explora aqui uma derivação direta do seu trabalho de composição para cinema, apresentando uma suite baseada na música intensa e cromaticamente rica, herdeira tanto de Ligeti como de Predrecki, que criou para o filme Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson.”
Depois vale a pena assinalar a estreia mundial de The Passion Acording To The Other Mary, uma obra coral nova de John Adams, numa gravação pela Los Angeles Philharmonic, sob direção de Gustavo Dudamel.
Deste álbum disse aqui que: “A obra tem como base um libreto assinado por Peter Selllars, colaborador regular de John Adams (peça central em Nixon in China, a primeira ópera do compositor, estreada em 1987). Sellars juntou textos de origens diversas, passando por autores como Dorothy Day, Louise Erdrich, Primo Levi, Rosario Castellanos, June Jordan, Hildegard von Bingen ou Rubén Darío, além claro está das palavras do Velho e do Novo Testamento. A oratória foca atenções na Paixão de Cristo, mas procura um ponto de vista algo diferente escutando sobretudo as vozes de duas mulheres (...), nomeadamente Maria Madalena e Marta, a irmã de Lázaro. Musicalmente a oratória segue os caminhos estimulantes que a música orquestral e vocal de Adams tem seguido nos últimos anos, aliando um belíssimo trabalho do canto a uma noção de espaço acolhedor (e capaz de suportar intenções dramáticas) na cenografia ao seu redor, apesar de pontualmente revisitar ecos mais próximos das heranças minimalistas da sua obra nos oitentas no modo como usa ocasionalmente figuras repetitivas. Num dos momentos de clímax dramático uma aproximação a formas ligetianas contribui para novo alargamento das linhas e cores com que a música de Adams aqui se renova e desafia”.
A terceira referencia surge com o primeiro volume de uma recolha antológica das gravações de Leonard Bernstein para a editora, numa caixa com 59 CD e um DVD.
E sobre esta caixa escrevi aqui: “Há antologias e antologias... Mas esta bate as demais aos pontos. Não apenas pela dimensão (inclui 59 CD, um DVD, um livro, e tudo isto numa caixa com as dimensões da capa um álbum de vinil), como também pelo protagonista que coloca na berlinda e a vastidão de obras (épocas e formas) que as gravações aqui documentam. Apresentada como The Leonard Bernstein Collection – Volume One, esta caixa antológica enceta assim uma revisão do catálogo que o compositor e maestro norte-americano registou no período em que esteve ligado à Deutsche Grammophon (sendo importante referir aqui que outra etapa significativa do seu percurso discográfico foi registada pela Columbia Records, etiqueta hoje integrada na Sony Music).”
domingo, março 16, 2014
Um outro ponto de vista sobre a 'Paixão'
Aquele que é certamente um dos maiores lançamentos discográficos de 2014 assinala mais um episódio de colaboração entre o compositor John Adams e o maestro Gustavo Dudamel. Adams compôs City Noir para o concerto de estreia de Dudamel como diretor da Los Angeles Philharmonic, obra que teve edição em suporte digital em áudio e, depois, em DVD (em The Inaugural Concert, onde se juntava a esta obra a Sinfonia Nº 1 de Mahler que representava a peça central do programa dessa noite). Compositor e maestro voltam agora a estar juntos em The Gospel According To The Other Mary, um oratório para orquestra, solista e coro que John Adams estreou há cerca de dois anos e que assim conhece estreia em disco nesta edição pela Deutsche Grammophon.
A obra tem como base um libreto assinado por Peter Selllars, colaborador regular de John Adams (peça central em Nixon in China, a primeira ópera do compositor, estreada em 1987). Sellars juntou textos de origens diversas, passando por autores como Dorothy Day, Louise Erdrich, Primo Levi, Rosario Castellanos, June Jordan, Hildegard von Bingen ou Rubén Darío, além claro está das palavras do Velho e do Novo Testamento. A oratória foca atenções na Paixão de Cristo, mas procura um ponto de vista algo diferente escutando sobretudo as vozes de duas mulheres por vezes secundarizadas, nomeadamente Maria Madalena e Marta, a irmã de Lázaro.
Musicalmente a oratória segue os caminhos estimulantes que a música orquestral e vocal de Adams tem seguido nos últimos anos, aliando um belíssimo trabalho do canto a uma noção de espaço acolhedor (e capaz de suportar intenções dramáticas) na cenografia ao seu redor, apesar de pontualmente revisitar ecos mais próximos das heranças minimalistas da sua obra nos oitentas no modo como usa ocasionalmente figuras repetitivas. Num dos momentos de clímax dramático uma aproximação a formas ligetianas contribui para novo alargamento das linhas e cores com que a música de Adams aqui se renova e desafia.
Esta é assim uma importante contribuição para a história (em estado de work in progress) da música coral do século XXI e junta-se à igualmente pungente La Pasión Según San Marco de Oslavdo Golijov para mostrar como textos e heranças remotas podem conhecer novas (e inovadoras) abordagens no nosso tempo.
quinta-feira, janeiro 23, 2014
Gustavo Dudamel dirige John Adams
Depois de uma gravação de City Noir, obra de John Adams que Gustavo Dudamel dirigiu na sua primeira noite à frente da Los Angeles Philharmonic, uma nova colaboração entre ambos vai em breve ver a luz do dia. Trata-se de The Gospel According To The Other Mary, obra coral de John Adams que terá estreia em disco num registo pela Los Angeles Philharmonic e o Los Angeles Master Chorale, dirigidos pelo maestro venezuelano. Como solistas apresentam-se Kelley O'Connor, Tamara Mumford e Russel Thomas. A edição, pela Deutsche Grammophon, está agendada para 10 de março.
domingo, outubro 20, 2013
Gustavo Dudamel chega a Berlim
O cinema dá muitas vezes à música um corpo tangível do qual, depois, dificilmente nos abstraímos, as experiências de cada um criando para cada obra as suas próprias imagens. Cada um de nós tem por isso experiências particulares de associação de imagens a certas músicas. Não escuto, por exemplo, o Agnus Dei da Grand Messe des Morts de Brahms, sem visualizar a sequência na praia na reta final da Árvore da Vida de Terrence Malick. Assim como não dissocio o Alina de Arvo Pärt do Gerry de Gus Van Sant ou o Adagio da Sinfonia Nº 10 de Gustav Mahler de Quem Me Amar Irá de Comboio, de Patrice Chéreau. Há contudo experiências cinematográficas que se transformaram em acontecimentos partilhados por multidões, as associações entre obra musical e o filme que a utiliza tornando-se assim expressão partilhada da cultura popular de um tempo. Aconteceu, por exemplo, quando Visconti usou o Adagietto da Sinfonia Nº 5 de Gustav Mahler na sua brilhante adaptação ao grande ecrã de Morte em Veneza, de Thomas Mann. Quando A Cavalgada das Valquírias (da ópera A Valquíria) de Richard Wagner assombrou uma sequência de bombardeamento aéreo em Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Ou quando Stanley Kubrick filmou uma valsa para uma nave e uma estação espacial ao som do Danúbio Azul de Johann Strauss ou, no mesmo 2001, Odisseia no Espaço (de 1968) tornou num episódio maior da história da relação da música com o cinema o momento em que a “alvorada do homem” se faz ao som do primeiro segmento de Also Spracht Zarathustra (1896), de Richard Strauss (voltando à mesma obra mais adiante, já no final do filme, com imagens do grande monólito que encontramos na órbita de Júpiter). Não admira por isso que a capa de uma nova gravação desta obra, pela Berliner Philharmoniker, dirigida nesta ocasião por Gustavo Dudamel, aluda claramente a essa memória com uma imagem de espaço, planetas e a presença sugestiva da luz difusa de uma estrela no horizonte.
O disco, que assinala a primeira gravação do maestro venezuelano com a orquestra alemã, representa todavia mais um episódio na história (já longa) do relacionamento da Berliner Philharmoniker com a música de Richard Strauss (de resto o foco do texto que lemos no booklet deste lançamento da Deutsche Grammophon). Em 1888 um ainda muito jovem Richard Strauss assinalou o seu primeiro concerto com a orquestra berlinense dirigindo a sua própria fantasia sinfónica Aus Italien e, dois anos depois, o maestro Hans Bulow fazia ali a estreia na cidade, com a mesma orquestra, do célebre poema sinfónico Don Juan (de 1888), uma das três peças do compositor que Dudamel apresenta neste seu novo disco. O alinhamento junta ainda Till Eulenspiegels Lustige Streiche (1895), em conjunto os três poemas permitindo-nos um retrato de um período ainda inicial, mas marcante, na obra de Strauss. A já reconhecida versatilidade de Dudamel (que já brilhou tanto a dirigir Gustav Mahler como John Adams, apesar de ter ainda no latino Fiesta!, com a Simon Bolívar, o seu disco-assinatura de referência) volta a manifestar-se nestas interpretações que, mesmo não sendo peças para candidatura para o estatuto de disco do ano (nem nada que se pareça), não deixam de representar uma segura abordagem à música de Strauss, colocando nos escaparates uma gravação nova (e competente) de obras (sobretudo a que dá título ao disco, naturalmente) que fazem parte do cânone dos “best sellers” clássicos da clássica.
domingo, março 10, 2013
Gustav e Gustavo, em Los Angeles
No seu primeiro lançamento no formato de CD com a orquestra de Los Angeles que dirige, o maestro Gustavo Dudamel regressa a Mahler, um nome cada vez mais central na sua obra discográfica. Este texto é uma versão editada de um outro originalmente publicado no DN online a 11 de fevereiro com o título 'Novo encontro de Dudamel com Gustav Mahler.
Ao escolher como encetar discograficamente, em suporte de CD, o seu relacionamento com a Los Angeles Philharmonic (de que é diretor artístico desde 2009), o maestro venezuelano Gustavo Dudamel apontou azimutes a Mahler, afinal mais não fazendo senão regressar ao que parece ser não necessariamente um porto seguro, mas antes a um relacionamento que será certamente central à sua própria relação com a música. Em 2007 Dudamel tinha já editado, como o seu segundo disco para a Deutsche Grammophon, uma 5ª Sinfonia de Mahler, em companhia da Orquestra Simon Bolívar. E na noite em que se apresentou pela primeira vez como diretor artístico da Los Angeles Phiharmonic, não só fez a estreia mundial de City Noir de John Adams, como completou o programa com uma Sinfonia Nº 1 de Mahler. Na verdade, uma gravação dessa atuação ao vivo representou a sua “estreia” em “disco” com a orquestra de Los Angeles, o registo tendo sido contudo apenas disponibilizado em áudio numa série exclusivamente para edições digitais (havendo contudo um DVD, lançado ainda em 2009, que junta todo o programa dessa noite). A videografia de Dudamel conta ainda com um outro título dedicado a Mahler e na companhia conjunta da Los Angeles Philharmonic e a Sinfónica Simon Bolívar: uma gravação da monumental Sinfonia Nº 8. Feitas as contas, até à chegada desta gravação da “nona” (registada ao vivo em “casa”, ou seja, no Walt Disney Concert Hall, há precisamente um ano, em fevereiro de 2012), eram já três as sinfonias de Mahler editadas sob direções de Dudamel, esta contudo representando a primeira que, em disco (e convém reforçar a ideia do suporte físico) assinala o início de um relacionamento com a orquestra americana que, mesmo não estando a viver sob o mesmo perfil de euforia quase “pop” com que Dudamel viu aclamada a sua ascensão com a Simón Bolívar, reforça por outro lado as reais capacidades de direção de orquestra de um dos maestros-estrela do nosso tempo. Obra marcante criada na reta final da vida de Mahler, a “grande” Sinfonia Nº 9 é uma das mais visionárias de toda a sua carreira, vislumbrando novos caminhos que a música começava a trilhar há pouco mais de cem anos. Características que Dudamel respira e assimila com a segurança e responsabilidade de quem reconhece a enormidade da obra que tem em mãos, mas que sabe levar a bom destino.
sexta-feira, abril 20, 2012
A caminho do Record Store Day (parte 3)
Mais três exemplos de edições especiais que serão lançadas amanhã, no quadro da edição 2012 do Record Store Day. O primeiro, The Flaming Lips and Heady Fwends, dos Flaming Lips, é um LP que recolhe uma série de colaborações dos Flaming Lips com nomes como, por exemplo, os de Bon Iver, Nick Cave ou Yoko Ono). O segundo é uma das surpresas deste ano. Um máxi-single em vinil dos Abba, com uma remistura de Voulez Vous e, no lado B, o tema If It Wasn’t For The Nights. O terceiro disco é um álbum, em vinil, que resulta de uma gravação da Sinfonia Nº 3 de Mendelssohn pela Filarmónica de Viena, dirigida por Gustavo Dudamel. O disco tem objetivos de beneficência e recolhe fundos a favor do El Sistema, o programa venezuelano de educação musical que revelou o próprio Dudamel.
quarta-feira, março 28, 2012
Strauss + Dudamel
Sem ofensa para Josef Haydn... A sua Sinfonia nº 103 (Rufo de timbales) fechou a primeira parte do concerto de Gustavo Dudamel no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian (27 Março, 21h00), mas a noite foi, toda ela, dominada pelas sonoridades, angústias e êxtases de Richard Strauss.
Dois poemas sinfónicos — Don Juan e Assim Falou Zaratustra —, a abrir a primeira parte e a preencher a segunda, dominaram o alinhamento, numa viagem de reencontro e redescoberta de um tempo remoto ma non troppo, e também do seu novelo de linguagens, tempo em que pressentimos a decomposição de um mundo ainda crente nas suas mitologias ("românticas"), dando lugar a uma época de progressivo desencanto moral e fragilização do factor humano. A esse propósito, vale a pena lembrar que as duas obras foram compostas, respectivamente, em 1889 e 1896.
Dudamel veio, desta vez, com a admirável Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, de que é director musical desde 2007 (a corrente temporada será a derradeira, assumindo então a condição de director honorífico). E, mais do que nunca, vale a pena referir a inadequação de alguns epítetos que se colaram à sua imagem de marca. Porventura faz sentido descrevê-lo como "fogoso", "exuberante" e "teatral"... Mas quantas dezenas de maestros não encaixam em tais adjectivos? Um pouco ao contrário, importa reter o que nele é, não apenas esplendorosa contenção, mas sobretudo metódica atenção às mais discretas nuances das obras interpretadas. Apetece mesmo dizer que há nele uma paixão pelo lirismo mais secreto das peças que dirige (mas é um facto que tal designação, ainda que sugestiva, corre o risco de atrair referências ou conotações em todo estranhas ao seu labor).
Ao lidar com Strauss, justamente, Dudamel expõe o que nele é, de uma só vez, assunção da herança romântica e angustiada decomposição das suas ilusões redentoras. Daí a abordagem, quer de Don Juan, quer de Assim Falou Zaratustra, na sua plenitude mais primordial. A saber: já não obras organizadas em partes, satisfazendo estruturas mais ou menos codificadas, antes deambulações arfantes e poéticas, estranhamente racionais, cujo desafio existencial se confunde com as singularidades da sua própria duração.
Qual a "mensagem", então? Como recebemos as contradições do "donjuanismo" e a violência metafórica de Nietzsche para um mundo agora (des)assombrado com a morte de Deus? Pois bem, como uma escrita não de "ilustração" temática, mas de incessante procura de cristalização de algum tema — no limite, cada obra elabora-se como uma longa frase cujo sujeito sentimos à deriva na própria sedução que a habita, imaginando a possibilidade de uma outra ordem. Não admira que, neste ambiente de convulsiva consciência de uma beleza sem transcendência, Haydn tenha soado um pouco como... Strauss. É um elogio.
Dito de outro modo: para a escolha do concerto do ano, 27 de Março passa a ser o novo 31 de Dezembro.
>>> Site oficial da Orquestra Sinfónica de Gotemburgo.
>>> Site oficial de Gustavo Dudamel.
Dois poemas sinfónicos — Don Juan e Assim Falou Zaratustra —, a abrir a primeira parte e a preencher a segunda, dominaram o alinhamento, numa viagem de reencontro e redescoberta de um tempo remoto ma non troppo, e também do seu novelo de linguagens, tempo em que pressentimos a decomposição de um mundo ainda crente nas suas mitologias ("românticas"), dando lugar a uma época de progressivo desencanto moral e fragilização do factor humano. A esse propósito, vale a pena lembrar que as duas obras foram compostas, respectivamente, em 1889 e 1896.
| Richard Strauss (1864-1949) |
Ao lidar com Strauss, justamente, Dudamel expõe o que nele é, de uma só vez, assunção da herança romântica e angustiada decomposição das suas ilusões redentoras. Daí a abordagem, quer de Don Juan, quer de Assim Falou Zaratustra, na sua plenitude mais primordial. A saber: já não obras organizadas em partes, satisfazendo estruturas mais ou menos codificadas, antes deambulações arfantes e poéticas, estranhamente racionais, cujo desafio existencial se confunde com as singularidades da sua própria duração.
Qual a "mensagem", então? Como recebemos as contradições do "donjuanismo" e a violência metafórica de Nietzsche para um mundo agora (des)assombrado com a morte de Deus? Pois bem, como uma escrita não de "ilustração" temática, mas de incessante procura de cristalização de algum tema — no limite, cada obra elabora-se como uma longa frase cujo sujeito sentimos à deriva na própria sedução que a habita, imaginando a possibilidade de uma outra ordem. Não admira que, neste ambiente de convulsiva consciência de uma beleza sem transcendência, Haydn tenha soado um pouco como... Strauss. É um elogio.
Dito de outro modo: para a escolha do concerto do ano, 27 de Março passa a ser o novo 31 de Dezembro.
>>> Site oficial da Orquestra Sinfónica de Gotemburgo.
>>> Site oficial de Gustavo Dudamel.
terça-feira, março 27, 2012
Dudamel na Gulbenkian
É hoje, 27 de Março, às 21h00: Gustavo Dudamel está de volta ao Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, desta vez para dirigir a Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, de que é director musical desde 2007 (funções que terminará no final da corrente temporada, permanecendo ligado à orquestra como director honorífico). O programa, incluído no ciclo "Wagner +", propondo o reencontro com o autor de Parsifal e as muitas ramificações da sua herança, está dominado por Richard Strauss e os seus poemas sinfónicos: Don Juan, a abrir, e Assim Falou Zaratustra, na segunda parte; a primeira encerra com a Sinfonia nº 103, de Joseph Haydn [video: Dudamel, com a Sinfónica de Gotemburgo, no Festival de Música das Canárias, em 2010].
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Os concertos de 2011
Não vi tantos concertos quanto o que gostaria, e falhei mesmo alguns dos que moravam na minha carteira de imperdíveis (Murcof no Maria Matos ou novo encontro com James Blake no Tivoli). Mesmo assim o cartaz dos melhores momentos de palco vividos em 2011 soma dez instantes inesquecíveis (cinco na área da clássica mais cinco no pop/rock e periferias). A estes juntaria mais dois, todavia não exactamente “live” mas igualmente marcantes. Trata-se das transmissões, em HD, a partir do Met, das óperas Nixon In China de John Adams e Satyagraha, de Philip Glass, que nos deram dois dos episódios de excelência que escutámos em 2011.
Clássica
Michael Tilson Thomas / San Francisco Symphony
Mahler “Sinfonia Nº 2”
Coliseu dos Recreios (Lisboa)
Uma interpretação de excelência para uma das obras maiores de Mahler e da própria história da música sinfónica. Num tempo de sombras e dúvidas, o optimismo que brota desta obra de Mahler fechou em glória a temporada 2010/11 da Gulbenkian.
Peter Eötvös / Orq. + Coro Gulbenkian
Stockhausen “Momente”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Foi a primeira vez que Momente se ouviu (em interpretação ao vivo) no século XXI. Contando com Eötvös e Pedro Amaral, dois antigos colaboradores de Stockhausen, a garantia de que a sua visão estaria em cena era certa. Inesquecível.
Paul Hillier / Remix Ensemble + Coro da Casa da Música
Arvo Pärt “Passio”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Uma das obras maiores do chamado minimalismo sagrado, numa interpretação dirigida por um aclamado divulgador da música vocal contemporânea. Nas periferias do silêncio, uma interpretação notável para uma obra de profunda carga emocional. A noite ficou na história de 2011.
Simon Rattle / Berliner Philharmoniker
Mahler “Sinfonia nº 4”
Philharmionie (Berlim)
Um grande acontecimento. Contando com a voz de Christine Schaffer no quarto andamento, uma Sinfonia Nº 4 de Mahler com os jogos de contrastes tão bem demarcados, em companhia de uma obra de Stravinsky a completar um belo programa.
Gustavo Dudamel / Los Angeles Philharmonic
Mahler “Sinfonia Nº 9”
Adams “Slominsky’s Earbox” + Bernstein “Sinfonia Nº 1” + Beethoven “Sinfonia Nº 7”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Um reencontro com Gustavo Dudamel, desta feita em duas noites consecutivas e com a orquestra norte-americana que agora o tem como director. Pose diferente da que conhecíamos do maestro de orquestras juvenis, mas a mesma versatilidade, tão profundo e intenso no Mahler quanto capaz de traduzir a inquietude da vida presente num Adams. Juntando um Bernstein digno de um herdeiro e um Beethoven que sublinha mais ainda essa rara capacidade de cruzar tempos e linguagens.
Pop/rock
Sufjan Stevens
Coliseu dos Recreios (Lisboa)
Todo um mundo de contrastes num momento apenas e num único palco. Com a música do seu mais recente (e superlativo) The Age of Adz como medula do concerto, Sufjan Stevens mostrou porque é um dos maiores visionários da música do nosso tempo.
James Blake
Optimus Alive (Algés)
Foi a “figura” do ano no plano da música. Restava a dúvida sobre se as composições, de carácter tão íntimo e feitas de acontecimentos discretos, suportariam o desafio do palco, mais ainda num ambiente de festival. A resposta foi um claríssimo: “sim”
Patrick Wolf
Optimus Alive (Algés)
É um dos grandes criadores de canções pop do nosso tempo. Quando, meses depois, nos visitou em concerto em nome próprio, o cansaço de uma longa digressão já se fazia notar (e o baterista que o acompanhava não ajudou muito). Mas em palco festivaleiro a noite saiu-lhe bem. Muito bem, mesmo.
The Gift
Bowery Ballroom (Nova Iorque)
A solidez de uma vivência de palco talhada após anos de intensa actividade fez dos Gift uma banda segura e firme em cena. Mostraram-no num concerto que se revelou decisivo num passo mais no aprofundar de uma relação com os EUA e Canadá onde tocaram várias datas este ano.
Panda Bear
Casa da Música (Porto)
Ao lado de Sonic Boom (o seu colaborador no mais recente álbum), correram Tomboy de fio a pavio, o amplo espaço da sala principal da Casa da Música servindo para conferir àquela música uma incrível sensação de corpo. Como que se o imaterial se materializasse por alguns instantes.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Grammys: Bon Iver com quatro nomeações!
Foram revelados os nomeados a mais uma cerimónia de entrega de Grammys, os prémios maiores da indústria discográfica norte-americana (o que não é sempre sinónimo dos que mais traduzem os feitos musicais do ano em curso, mas enfim...). Uns com mais nomeações, outros nem por isso...
A novidade maior do ano é a presença em grande destaque de Bon Iver com quatro nomeações, três das quais nas quatro categorias principais (Disco do Ano, Canção do Ano e Revelação do Ano). A quarta nomeação chega na categoria de Melhor Álbum Alternativo (não deixando de ser curiosa a nomeação como revelação junto de alguém com dois álbuns mas, ok, deviam estar distraídos)... Na lista de candidatos revelada os Radiohead somam cinco nomeações (duas em categorias rock, uma no campo alternativo, uma para packaging e uma para vídeo musical), Kanye West quatro (Melhor Canção com All Of The Lights e três em campos rap), Lady Gaga três (Melhor Álbum e duas outras em categorias pop), Robyn duas (em categorias de dança)... Os Wilco são nomeados para Álbum Rock. Os Fleet Foxes para Álbum Folk. Os Daft Punk em remisturas. Os TV On The Radio em Vídeo Musical Long Form. Gustavo Dudamel em gravações com orquestra. John Adams na ópera (com Doctor Atomic).
E depois são queles nomes do mais-do-mesmo de sempre e afins, num sem fim de nomeações, este ano com dieta “reduzida” a 78 categorias. E já sem Grammy para as polkas...
Os vencedores são conhecidos a 8 de Fevereiro...
Podem ver aqui a lista completa de nomeações.
sexta-feira, setembro 30, 2011
Gustavo + Herbie + George
A temporada 2011/12 da Los Angeles Philharmonic abriu, na passada 5ª feira, no Walt Disney Concert Hall, com um concerto que juntou, à orquestra dirigida por Gustavo Dudamel, o pianista de jazz Herbie Hancock, para uma noite integralmente dedicada à música de George Gershwin. O programa abriu com a Cuban Overture, depois com An American in Paris e, no final, contou com uma interpretação de Rhapzody In Blue, a peça que contou, ao piano, com Herbie Hancock. Começou assim a terceira temporada da orquestra com o maestro venezuelano, que está ligado à LA Philharmonic até 2019.
Podem ouvir aqui uma gravação (comentada) do concerto e ver algumas imagens desta noite.
Podem ler uma reportagem sobre este concerto aqui.
domingo, setembro 04, 2011
Um venezuelano na Suécia
Numa caixa de três CD, a estreia discográfica de Gustavo Dudamel com
a Orquestra Sinfónica de Gotemburgo apresenta gravações da Sinfonia Nº 9
de Bruckner, a Sinfonia Nº 2 de Sibelius e as Sinfonias números 4 e 5 de Nielsen.
A edição é da Deutsche Grammophon
Há acasos que se repetem. E a Orquestra Sinfónica de Gotemburgo (segunda cidade da Suécia) já por duas vezes conheceu o seu novo director artístico por mero acaso... Em 1980 Neeme Järvi foi convidado, em cima da horam a substituir Mariss Jansons, o maestro que tinha, com a orquestra, um programa de concertos em Dublin, Aldeburgh e Londres. E porque falhara o maestro originalmente escalado? Filho de um outro maestro soviético, então em digressão no estrangeiro, Mariss viu o visto ser-lhe recusado pelas autoridades da URSS. Não de davam vistos a mais que um elemento da mesma família, temendo a dissidência... Estoniano, Järvi estava disponível, de visto na mão e avançou, acabando mais tarde convidado para chefiar esta orquestra sueca durante 22 anos, entre 1982 e 2004. A história repetiu-se quando, em 2005, perante uma indisposição de Järvi, o venezuelano (ainda longe da fama que hoje tem) foi chamado para o substituir em concertos, novamente com a Sinfónica de Gotemburgo, em Birmingham e nos Proms (em Londres). Dois anos depois também ele era chamado para assumir o cargo de director da orquestra, que hoje ainda ocupa (acumulando assim funções com as orquestras Simón Bolívar e de Los Angeles, que também dirige).
Com importante discografia registada com a Sinfónica Juvenil Simón Bolívar (que o revelou) e tendo mais recentemente lançado já primeiras gravações com a Los Angeles Philharmonic, Dudamel lança agora, finalmente, um conjunto de gravações com a orquestra sueca. A selecção de obras reflecte em tudo a genética da própria orquestra, através de um trio de compositores com os quais Dudamel ali ganhou (e aprofundou) uma familiaridade. O finlandês Jean Sibelius chegou mesmo a dirigir a sua majestosa Sinfonia Nº 2 (numa ocasião tendo até confundido o concerto com o que julgava ser um ensaio). O dinamarquês Carl Nielsen também dirigiu pessoalmente obras suas com esta orquestra. Já o austríaco Anton Bruckner era presença regular no repertório da orquestra, tendo recentemente Dudamel elogiado as qualidades da interpretação da Sinfónica de Gotemburgo no enfrentar das marcas sombrias e dramáticas do som do compositor. Os discos confirmam não apenas a personalidade interpretativa da orquestra, como vincam a incrível capacidade de adaptação de Gustavo Dudamel às mais variadas situações.
As obras aqui reunidas representam um mergulho no tempo rumo a uma janela que as separa num período de 30 anos, entre finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Da dimensão colossal da 9ª Sinfonia de Bruckner aos caminhos rítmica e melodicamente inesperados da 5ª Sinfonia de Nielsen, passando pela majestade sedutora da música de Sibelius, a selecção marca de forma feliz a estreia em disco de Dudamel com a orquestra sueca que dirige há já quatro anos. E pede mais discos num futuro próximo...
Imagens de um filme de apresentação desta edição da Deutsche Grammophon
sexta-feira, agosto 12, 2011
Dudamel em Gotemburgo
| Capa do novo disco |
domingo, março 27, 2011
Shakespeare segundo Tchaikovsky
Gustavo Dudamel reencontra-se com a música de Tchaikovsky, frente à Simón Bolívar, num disco pelo qual passam ecos de uma profunda admiração do compositor russo pela obra de Shakespeare.
Tchaikovsky (1840-1893) era um ávido leitor e frequente visitante das salas de teatro. E data do seu tempo de vida o momento em que a obra de William Shakespeare ganhou expressão nos palcos russos. Assistiu portanto a diversas produções e quando viajava ia frequentemente acompanhado por livros com algumas das peças do autor inglês. E pouco depois de ter iniciado a sua vida profissional como compositor, viu-lhe ser proposto o desafio de compor uma peça orquestral em torno de Romeu e Julieta... Essa abertura, de um lirismo tocante, é uma das três obras que Gustavo Dudamel agrupa neste seu novo disco com a Simón Bolívar (a orquestra venezuelana que o deu a conhecer ao mundo e com a qual já gravara a Sinfonia nº 5 do compositor russo). Compreendendo uma certa visão de época que Tchaikovsky sublinhara nas suas leituras das palavras de Shakespeare, uma intensidade dramática maior cruzando depois Hamlet e uma não menos pungente orquestração atravessando ainda A Tempestade. E, como explica Simon Callow no texto que acompanha o disco, “nas suas obras shakespeareanas puramente orquestrais, [Tchaikovski] responde apaixonadamente aos elementos das peças que o inspiraram”, acrescentando que cada uma das três obras aqui gravadas é “memorável”, que são “profundamente sentidas” e “acrescentam algo à forma de entendermos” as peças nas quais se baseiam. O disco junta gravações efectuadas no Centro de Acción Soicial por La Musica, em Caracas. E sublinha tanto o fulgor romântico que trespassa esta música como o dramatismo que Tchaikovsky tão bem soube ler na escrita de Shakespeare.
quinta-feira, março 24, 2011
Dudamel (mais cinco anos em Los Angeles)
Gustavo Dudamel vai ficar em Los Angeles mais anos que o inicialmente previsto. O maestro venezuelano vai assim manter-se por mais cinco anos como director artístico da Los Angeles Philharmonic até 2019, o que dele fará o principal rosto da orquestra no ano do seu centenário, na temporada 2018/2019.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
Em directo, para o grande ecrã
A Los Angeles Philharmonic, que nos visitou este fim de semana, vai iniciar este ano um programa de transmissões de concertos seus para salas de cinema (para já apenas nos EUA e Canadá). Ao todo serão 450 os ecrãs a ver Gustavo Dudamel a dirigir a orquestra em obras de Beethoven, Brahms e Tchaikovsky.
domingo, janeiro 23, 2011
No regresso de Gustavo Dudamel (parte 2)
N.G.: E, ao segundo dia, algo completamente diferente. Depois de uma noite vivida entre a música de Adams, Bernstein e Beethoven, que assinalou a estreia da presente primeira digressão internacional da Los Angeles Philramonic com Gustavo Dudamel (o seu director musical desde Outubro de 2009), o segundo concerto no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian propôs a Sinfonia Nº 9 de Gustav Mahler, naquela que foi a primeira vez que a orquestra e maestro a apresentaram fora do Walt Disney Concert Hall, a sua “casa” (onde, acrescente-se, a interpretaram já este ano).
Obra sinfónica de proporções monumentais, composta num período de pesadas sombras na vida de Mahler [retrato], a Sinfonia Nº 9 reflecte contudo um sentido de esperança (de resto não alheio a outras reflexões anteriores do compositor). Gustavo Dudamel deixou claro uma vez mais porque vive hoje o estatuto que o trabalho nos anos mais recentes lhe proporcionou. Sem evitar nunca o seu modo muito físico de respirar os momentos que dirige, comunicando permanentemente aos músicos essa sua reconhecida vontade de neles encontrar a mais profunda e viva expressão das suas energias, Dudamel mergulhou na música de Mahler ora libertando as cores da carga bucólica do segundo andamento ou as atmosferas mais elaboradas das paisagens urbanas que visita no terceiro, encontrando depois expressões mais profundas da melancolia que domina os primeiro e quarto andamentos, a longa pausa que se seguiu à última nota (sinal da inequívoca comunhão que se viveu entre uma plateia completamente cheia e os músicos em palco) garantindo a todos, depois de tão intensa experiência, o tempo necessário para o regresso ao aqui e ao agora.
Desta vez não houve encores (na véspera foram dois), mas os aplausos em pé uma vez mais agradeceram devidamente a Dudamel (e desta vez à LA Philharmonic). Hoje mesmo actuam em Madrid. Ainda esta semana estarão em Colónia e Londres. Pouco depois Paris, Budapeste e Viena, terminando esta intensa série a 5 de Fevereiro.
Entretanto vale a pena ir acompanhando a digressão da LA Philharmonic através do blogue oficial da orquestra. Da passagem por Lisboa há referências, ainda sob o natural efeito da diferença horária, a passeios pelas ruas da cidade, uma visita ao Castelo de S. Jorge, bacalhau e, claro, os ensaios e concertos.
J.L.: Em 1909, quando Gustav Mahler concluiu a sua nona sinfonia, vivia-se um tempo de muitas imaginações, técnicas e humanas, poéticas e trágicas, em que todas as narrativas se agitavam, fascinadas pela vertigem que imaginavam para o mundo — ou que o mundo lhes fazia imaginar.
Nesse mesmo ano, por exemplo, Marcel Proust [retrato] começava a escrever À Procura do Tempo Perdido (cuja publicação se iniciaria em 1913, cerca de dois anos passados sobre a morte de Mahler). No cinema, pioneiros como David W. Griffith mostravam que o filme podia ter uma linguagem própria, muito para além da "imitação" do teatro (The Lonedale Operator, célebre pelo uso pioneiro do grande plano é de 1911, ano da morte de Mahler). Enfim, em 1913, Sigmund Freud publica Totem e Tabu.
A sinfonia mahleriana, habitada ou não pela "maldição da nona" (que ele próprio temia), é uma peça fulcral desse turbilhão de histórias que abrem para novas formas, porventura para a própria interrogação da noção de forma. Escutá-la pela Los Angeles Philarmonic, sob a direcção de Gustavo Dudamel, é também pressentir, ou melhor, revisitar as convulsões de um tempo em que, mesmo face à iminência da morte, tudo parecia ainda possível. Perguntamo-nos, aliás, se Mahler ainda organiza os seus andamentos a partir de temas (e variações) ou se cada andamento não passa a existir como uma demanda, simultaneamente musical e filosófica, de um tema que talvez não chegue a adquirir forma definitiva. Nessa perspectiva, Mahler estaria muito à frente do seu tempo, num lugar onde a própria medida do tempo merece ser discutida e reavalida. Dudamel é um dos seus mais extraordinários compagnons de route.
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