Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Little Odessa, filme de 1994 de James Gray, que aqui é evocado por Nuno Carvalho, jornalista do DN e autor do blogue O Reino das Sombras. Um muito obrigado ao Nuno pela colaboração.
Viver e Morrer em Little Odessa (Little Odessa, 1994) é o filme de estreia de James Gray, um realizador “bissexto” que, até ao presente (num lapso temporal de 18 anos), assinou apenas mais três filmes, todos eles de excelente qualidade – Nas Teias da Corrupção (The Yards, 1999), Nós Controlamos a Noite (We Own the Night, 2007) e Duplo Amor (Two Lovers, 2008). Por vezes comparado com Martin Scorsese, James Gray (n. 1969) está na verdade mais perto de um cineasta como Francis Ford Coppola (embora prefiramos dizer que está, na realidade, mais perto de si mesmo e de um cunho autoral idiossincrático e pessoal). Este thriller sombrio e trágico surpreende desde logo pela sua maturidade, uma vez que se trata de um filme de um autor com apenas 25 anos (a mesma idade que tinha Orson Welles quando realizou Citizen Kane).
Produzido por Paul Webster (nome ligado a filmes como Expiação, de Joe Wright, e Promessas Perigosas, de David Cronenberg), Viver e Morrer em Little Odessa é um retrato romântico (na acepção sepulcral do termo) de uma família disfuncional de imigrantes russos de ascendência judaica radicados em Brighton Beach (Brooklyn) que enfrenta de formas diversas o regresso de um dos seus elementos, banido do clã pelo patriarca. Joshua Shapiro (Tim Roth), um assassino profissional, volta a Little Odessa na sequência de um “trabalho” que lhe é encomendado, mas esse regresso (o do anjo rebelde que virou exterminador) promete arrastar toda a família para a inevitável tragédia. O patriarca, duro e abusivo (Interpretado por Maximilian Schell), é confrontado com a frieza do seu filho mais velho, que não compreende como se tornou aquilo que é, enquanto a matriarca (papel que cabe a Vanessa Redgrave), na última fase de uma doença terminal, representa o amor incondicional que nada vence afinal, uma vez que tudo está há muito perdido para Joshua – a sua única possibilidade de conexão emocional encontra-se em Reuben (Edward Furlong), o seu dócil e manso irmão adolescente. Aliás, Viver e Morrer em Little Odessa é um filme de um outro tempo do cinema (e como era diferente em relação ao presente o cinema que se fazia na primeira metade dos anos 90…) O próprio elenco é constituído por actores que foram perdendo a sua visibilidade no grande ecrã, sendo o caso mais triste o de Edward Furlong, um actor notável que foi sendo abandonado à sua solidão no seio de Hollywood, depois de ter encarnado, com apenas 13 anos, uma das personagens mais icónicas e populares do cinema americano dos últimos 20 anos – a de John Connor no pioneiro e apocalíptico Exterminador Implacável 2 – O Dia do Julgamento. Mas se Viver e Morrer em Little Odessa é um filme que nos inspira um humor melancólico, o destino de actor de Furlong, uma das grandes promessas do cinema norte-americano do anos 90, dá que pensar. E apetece-nos fazer-lhe justiça, dizendo: “Too good for Hollywood…”
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sábado, abril 21, 2012
terça-feira, abril 03, 2012
Filmes pe(r)didos:
Promises Written in Water, de Vincent Gallo
por Rui Pedro Tendinha
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Promises Written in Water, filme de 2010 de Vincent Gallo, que aqui é evocado por Rui Pedro Tendinha, jornalista e programador do Shortcutz e do Estoril e Lisboa Film Festival. Um muito obrigado ao Rui pela colaboração.
Um desejo de necrofilia com poesia. Em Promises Written in Water Vincent Gallo não tem medo da sombra de pecado do tema. Mas não há propriamente tema neste belo filme poema. Há um homem que fotografa a morte numa casa mortuária e uma mulher que quer morrer sem dor. Esse homem foge de uma outra vida de crime, é alguém que quer encontrar inconscientemente a beleza na morte. O que é mundo do Vincent Gallo? Aquele homem é Gallo? Suspeita-se que personagem e autor se confundam nesta espiral de obsessão romântica e negra. A morte, essa, filma-se com respeito. A cortesia, em larga escala, é de Masanobu Takayanagi, diretor de fotografia perito numa insistência de close ups que roçam o sublime, algures entre a intimidade do silêncio e a pureza do preto & branco. Uma alquimia de cinema que vai buscar o que de mais sagrado já continha as pulsões de Brown Bunny.
Mas no ato de escrutinar uma musa - a atriz Delfine Bafort - o poema de morte de Gallo também tem música. O som de Vincent Gallo, o músico. O resultado é uma experiência sensorial fracturante, tão zen como gélida. Só possível existir quando alguém filma em absoluto transe de loucura artística interdita. Por isso, as promessas de amor desta história contêm qualquer coisa de íntimo que não se explica. Filma-se o que está por detrás dos atos. Claro que é arte cinematográfica em estado puro, tão narcísica como evidentemente radical. Gallo gosta tanto de si próprio que teve coragem de fazer um filme apenas para quem gosta muito do seu rosto de cinema. Dele e desta descoberta chamada Delfine Bafort. Agora, depois de em Toronto ter sido aplaudido convictamente por um público que ficou drogado com estas imagens tóxicas, o filme nunca mais foi visto. Gallo acha que é uma obra para ser vista noutra década. Fica guardado. Filme maldito, filme segredo.
sexta-feira, março 30, 2012
Filmes pe(r)didos:
The Reflecting Skin, de Philip Ridley
por Daniel Barradas
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos The Reflecting Skin, filme de 1990 de Philip Ridley, que aqui é evocado por Daniel Barradas, designer e autor do blogue Actas do Pequeno Almoço. Um muito obrigado ao Daniel pela colaboração.
A criança espelho (no original The reflecting skin) estreou em Portugal no início dos anos 90, mas só o vi gravado da RTP2 numa cassete VHS alguns anos depois. É um filme visual e emocionalmente marcante que merecia ser mais conhecido.
The reflecting skin foi a longa metragem de estreia de Philip Ridley enquanto argumentista e realizador em simultâneo. Com a chuva de prémios e aclamação critica que recebeu na altura, parecia anunciar a chegada de um novo ”autor”. Mas, por diversos motivos (distribuição, (não) edição em vídeo e inflexão de carreira de Ridley para se concentrar na literatura infantil e escrita teatral), esta pequena pérola cinematográfica acabou esquecida e o impacto artístico de Ridley está hoje quase limitado ao Reino Unido.
O filme conta a história de Seth, um rapaz que, crescendo nas profundezas da América rural, interpreta o mundo (os horrores) ao seu redor com base numa mistura de mitologias e crenças populares. Suicídios, abortos secretos, cancros e pedofilia (o lado obscuro de uma sociedade fechada onde nada é falado) tornam-se mais facilmente explicáveis com anjos, demónios e vampiros. E é precisamente essa interpretação errónea que leva o rapaz a cometer uma (in)acção que o torna, também a ele, num pequeno "monstro".
Ridley tem sido comparado a David Lynch mas há algo bastante diferente nas criações de Ridley (também nos seus livros e peças de teatro) que é o facto de a acção ter lugar na "realidade" e todo o aspecto fantástico provir das memórias, sonhos e fantasias das personagens. O fascínio/beleza/terror provem das acções de personagens que vivem mentalmente numa outra realidade que não aquela em que se inserem. Ou, melhor explicado e resumido numa frase do filme: ”A inocência pode ser infernal”.
The reflecting skin teve recentemente edição alemã em Blu Ray. A sua peça de teatro The Pitchfork Disney, de 1991, está actualmente em reposição em Londres.
quinta-feira, março 29, 2012
Filmes pe(r)didos:
Animal House, de John Landis
por Luis Filipe Rodrigues
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Animal House, filme de 1978 de John Landis, que aqui é evocado por Luis Filipe Rodrigues, da Time Out. Um muito obrigado ao Luís pela colaboração.
Não foi fácil escolher um “filme pe(r)dido”, que fosse pertinente e estivesse esquecido. Optar por um trabalho menos celebrado de um realizador canonizado seria óbvio, mas lembrar um filme obscuro do qual ninguém ouviu falar seria inútil. Estava às voltas com isto até que me lembrei de Animal House (1978), a comédia absolutamente seminal de John Landis.
Apesar de ser o filme mais influente do americano e até continuar a fazer algum dinheiro, não deixou grande marca em Portugal. Enquanto fitas posteriores de Landis (The Blues Brothers, Trading Places, Coming To America…) foram exibidas até à exaustão nas tardes de fim-de-semana da nossa televisão, não me lembro de ter visto Animal House uma única vez quando era um garoto. Sucedâneos como Porky’s davam à noite quase todos os meses, mas Animal House nem vê-lo.
E é pena. Ao contrário de derivados como o referido Porky’s ou mais recentemente American Pie, Animal House é brilhante. Apesar do humor escatológico e de algumas piadas fáceis, tem um elenco formidável (John Belushi está em grande) e um subtexto político que o separa de outras comédias javardas. Qualquer cómico tem a obrigação de ter visto isto. Se mais gente o conhecesse por cá, talvez a nossa comédia não fosse o deserto que é…
sexta-feira, março 23, 2012
Filmes Pe(r)didos:
Inocência, de Lucile Hadzihalilovic
por Pedro Barão
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Inocência (no original Innocence filme de 2004 de Lucile Hadzihalilovic, que aqui é evocado pelo realizador Pedro Barão. Um muito obrigado ao Pedro pela colaboração.
Frágil é o tempo da inocência, sempre à espera de quebrar no nascimento das primeiras perguntas, que insistem a romper a visão pura e despreocupada de um mundo mais simples que belo.
É a este estado que nos leva Lucile Hadzihalilovic no seu filme Innocence (2004), uma obra cinematográfica que ensaia uma visão poética da puberdade, da curiosidade infantil, do desejo de liberdade e da transcendência.
O cenário é utópico: um conjunto de raparigas vivem em casas isoladas num bosque cercado por um muro, educadas na dança e servidas por mulheres mais velhas - outrora raparigas que arriscaram escapar e, por isso, obrigadas a permanecer ali até à morte. Com a chegada de Iris inicia-se um novo ciclo. As fitas de cores são trocadas, anunciando uma nova ordem, e Bianca, a mais velha, prepara-se para abandonar o bosque, anunciando partida para um mundo exterior.
O filme é exímio em criar esta noção de um mundo à parte, com regras muito próprias, onde tudo parece controlado e salvo de qualquer ameaça externa, e torna-se numa verdadeira ode ao tabu, pela existência de uma ordem inflexível que se sujeita a ser quebrada pelo mais pequeno laivo de curiosidade. A noção de fétiche pode-lhe ser perfeitamente associada, uma vez que todo este ambiente é claramente propício a comportamentos desviantes, numa vontade das personagens de cruzarem a linha do convencional e aventurarem-se num mundo desconhecido, precipitando-se a novas experiências, independentemente das consequências.
Innocence é uma verdadeira viagem metafórica que estabelece um grande nível de intimidade com o espectador, fazendo-nos recuar a uma fase pura e vivê-la na extensão de uma transformação que a vai corroendo pela dúvida, pela incerteza e pelas fragilidades que fazem parte das personagens e que se refletem, em última instância, em cada um de nós.
quinta-feira, março 22, 2012
Filmes pe(r)didos:
O Que Terá Acontecido a Baby Jane?,
de Robert Aldrich
por Marcelo Pereira
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (no original What Ever Happened to Baby Jane?) filme de 1962 de Robert Aldrich, que aqui é evocado por Marcelo Pereira, autor do blogue Aros de Cebola. Um muito obrigado ao Marcelo pela colaboração.
Quando se aborda a temática do cinema clássico norte-americano, falar-se-á, muito certamente, de actrizes cujos nomes são tão sonantes como a sua invejável fisionomia: da voluptuosa Rita Hayworth à majestosa Greta Garbo, várias foram as graciosas divas que abrilhantaram a indústria de Hollywood, emolduram as várias décadas douradas do star system e despoletaram inúmeras polémicas que preconizaram os mediáticos headlines e deliciaram um público ávido por fait-divers. Dois dos rostos mais controversos deste American Dream, contemplam uma rivalidade de proporções verdadeiramente lendárias: a intrépida Bette Davis e a sua garbosa arqui-inimiga Joan Crawford.
Numa época onde as suas carreiras fílmicas se iam degradando à medida que os anos avançavam e que, desse modo, seriam preteridas a actrizes mais novas no firmamento cinemático, as duas estrelas dos anos 40 e 50 reúnem-se num projecto assaz ambicioso: What Ever Happened to Baby Jane? é um drama intenso e psicótico que, em paralelo com o ódio que ambas nutriam na vida real, trespassa o quotidiano e alastra-se na tela. Protagonizando um par de irmãs que, já em idade madura, se degladiam através de um rancoroso passado; Crawford e Davis disseminam a sua repulsa mútua num filme tão asfixiante e tortuoso, que enleva o espectador numa sinuosa trama de vinganças doentias, alienações tenebrosas e uma abominação tão recíproca e apurada como a que, segundo reza a lenda, cultivavam além-ecrã. De uma produção que se adivinhava tumultuosa e conturbada (várias foram as ocorrências em que as actrizes, em cena ou fora dela, demonstraram a execração que sentiam uma pela outra), O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é um thriller pungente e arrepiante que, na mestria argumentativa de Lukas Keller e na fabulosa mise en scène que Robert Aldrich arquitectou enquanto realizador, rompe com os rígidos cânones da indústria cinematográfica norte-americana quanto ao trato visual das actrizes que protagonizam as obras de maior orçamento. Aqui, neste estudo tão dilacerante e aflitivo, não há lugar para eufemismos hipócritas ou elegâncias anacrónicas: Bette Davis e Joan Crawford são dois monstros violentos e impiedosos, que devoram a audiência, abocanha-lhe o espírito e usurpa-lhe a fala.
Esta escolha algo peculiar não é mero acaso. Numa era cinéfila (que nem ao termo lhe faz jus) que olvidou o passado e vangloria a tecnologia estonteante de um presente tão bacoco e pueril, são obras-primas colossais como estas que são ignoradas e então caiem num cruel esquecimento histórico. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? não é só um filme perdido, é um diamante em bruto que o público esqueceu de polir, e que integra um período clássico que o espectador deixou de consumir e apreciar, em detrimento de outros tantos que têm uma projecção que pouco (ou nada) fizeram para a merecer. O registo e a memória estão lá, é só preciso reavivá-los e então recebê-los de braços abertos.
NOTA: O Que Terá Acontecido a Baby Jane? passa esta sexta-feira (amanhã, dia 23 de Março) na Cinemateca Portuguesa, na sessão das 21h30 e no âmbito do especial que dedicaram ao realizador Robert Aldrich
quarta-feira, março 21, 2012
Filmes pe(r)didos:
Agentes de Reserva, de Andy McKay
por Pedro Santos
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Agentes de Reserva (no original The Other Guys) filme de 2010 de Andy McKay, que aqui é evocado por Pedro Santos, da Flur e programador do Teatro Maria Matos. Um muito obrigado ao Pedro pela colaboração.
Gostar muito de comédia é ter que suportar horas e horas de suplícios. Gostar muito de comédia é suportar todas essas horas e nunca desistir. Porque é preciso esperar que a chuva nos dê o arco-íris e, depois, a localização exacta do pote de ouro. E por isso suportamos Os Pinguins do Sr. Popper só para podermos ver mais um pouco de Jim Carrey; aguentamos A Good Old Fashioned Orgy para ver de novo que Jason Sudeikis não tem par; toleramos Cuidado com o que desejas para ver se um argumento irrealista dá motivos para rir; sobrevivemos a Cop-out para não perder de vista Tracy Morgan; arrastamo-nos pelos novos Ferrelly; experimentamos o Alta Golpada porque pode ter o melhor Eddie Murphy dos últimos anos; aturamos centenas de talk shows para poder apanhar Movie: The Movie no Jimmy Kimmel ou Stephen Colbert a cantar Friday no Jimmy Fallon; aguentamos um SNL inteiro até aparecer a Kristin Wiig. Gostar e precisar muito destes momentos implica sofrer por eles. Não chega esperar o novo Judd Apatow ou mais um Zach Galifianakis. Talvez assim - e isto é apenas uma hipótese -, consigamos perceber que The Other Guys é genial. Mas Agentes de Reserva, assim chamado em Portugal no ano passado, passou ao lado porque para uma grande fatia da população - que inclui as pessoas que traduzem os títulos destes filmes -, é apenas mais uma comédia pateta, provavelmente igual a todas as outras comédias patetas. E com isto, uma das duplas mais fulminantes da última década - Will Ferrell e Andy McKay, responsáveis por Anchorman, Eastbound & Down e o site Funny Or Die - é atirada para o saco da reciclagem. Impossível. Porque é impossível não vibrar com a introdução do filme, com a morte cartoon hilariante de Samuel L Jackson e The Rock, com a dinâmica nonsense entre Ferrell e Mark Wahlberg - alguém que o obrigue a fazer este papel sempre -, Michael Keaton como chefe da esquadra que acumula um segundo emprego no Bed, Bath & Beyond, a história de como os atuns conquistam os leões em África, as mulheres impossíveis de Ferrell e a relação sexual dos sem-abrigo com o seu Toyota Prius, os fantásticos dotes por desprezo de Wahlberg, e muitas outras coisas parecem ouro nas mãos de uma realização inteligente que nunca nos deixa fazer pausa na acção. Depois deste, houve uns filmes mauzinhos, outros medianos, mas talvez "The Campaign" salve o ano lá para o Verão - Ferrell, Galifianakis e Sudeikis são as super-estrelas num filme escrito por Chris Henchy, um dos argumentistas de... The Other Guys.
terça-feira, março 13, 2012
Filmes pe(r)didos:
Hi Mom!, de Brian de Palma
por Ana Deus
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Hi Mom!, filme de 1970 de Brian de Palma, que aqui é evocado por Ana Deus, que hoje integra os Osso Vaidoso. Um muito obrigado à Ana pela colaboração.
Foram muitos os filmes perdidos em anos de deitar tarde e mau erguer. Ken Russell e velhos Brian de Palma aparecem misturados e aturdidos.
Mas há um que me fazia abrir o olho mesmo a más horas, Hi mom!, Brian de Palma, 1970. Desfocadas, tremidas, em zooms exagerados, as imagens aparecem através das filmagens de alguns personagens que vivem a euforia das novas super 8. Robert de Niro é um deles. Biscateiro e pornógrafo de trazer por casa, tenta fazer um filme, ao qual chama Peep Art, filmando os seus vizinhos através de uma "Janela indiscreta".
Mal sucedido, numa série de trapalhadas à cinema mudo, troca a câmara por uma TV e embarca numa produção teatral de um grupo de ativistas negros. Aí as coisas mudam de figura, o filme perde a cor e o tom cómico desaparece. Toda a performance é filmada a preto e branco, as imagens são trepidantes e violentas. De Niro faz convictamente de polícia numa experiência de Living theater onde o público branco é insultado e espancado, para sentir na pele o Be black baby que dá nome à "peça" Acabam na rua desgrenhados tecendo, perante uma câmara, declarações elogiosas a toda a experiência, intelectualizando a violência e "encaixando" tudo aquilo.
E vai descabando...
Os atores são abatidos quando tentam levar a experiência para os bairros sociais e De Niro faz explodir o próprio prédio onde entretanto encetou uma vida doméstica.
Os últimos planos mostram De Niro, no meio de outros transeuntes, a comentar o sucedido inocentemente perante repórteres de noticiário e despede-se com a saudação que dá nome ao filme.
Hi mom! é uma pérola...negra.
Foram muitos os filmes perdidos em anos de deitar tarde e mau erguer. Ken Russell e velhos Brian de Palma aparecem misturados e aturdidos.
Mas há um que me fazia abrir o olho mesmo a más horas, Hi mom!, Brian de Palma, 1970. Desfocadas, tremidas, em zooms exagerados, as imagens aparecem através das filmagens de alguns personagens que vivem a euforia das novas super 8. Robert de Niro é um deles. Biscateiro e pornógrafo de trazer por casa, tenta fazer um filme, ao qual chama Peep Art, filmando os seus vizinhos através de uma "Janela indiscreta".
Mal sucedido, numa série de trapalhadas à cinema mudo, troca a câmara por uma TV e embarca numa produção teatral de um grupo de ativistas negros. Aí as coisas mudam de figura, o filme perde a cor e o tom cómico desaparece. Toda a performance é filmada a preto e branco, as imagens são trepidantes e violentas. De Niro faz convictamente de polícia numa experiência de Living theater onde o público branco é insultado e espancado, para sentir na pele o Be black baby que dá nome à "peça" Acabam na rua desgrenhados tecendo, perante uma câmara, declarações elogiosas a toda a experiência, intelectualizando a violência e "encaixando" tudo aquilo.
E vai descabando...
Os atores são abatidos quando tentam levar a experiência para os bairros sociais e De Niro faz explodir o próprio prédio onde entretanto encetou uma vida doméstica.
Os últimos planos mostram De Niro, no meio de outros transeuntes, a comentar o sucedido inocentemente perante repórteres de noticiário e despede-se com a saudação que dá nome ao filme.
Hi mom! é uma pérola...negra.
segunda-feira, março 12, 2012
Filmes pe(r)didos:
Crazed Fruit, de Kô Nakahira,
por Francisco Rocha
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Crazed Fruit (no original Kurutta Kajitsu) filme de 1956 de Kô Nakahira, que aqui é evocado por Francisco Rocha, autor do blogue My One Thousand Movies. Um muito obrigado ao Francisco pela colaboração.
Em 1955, nos Estados Unidos, estreava com grande destaque, um filme sobre jovens rebeldes, de Nicholas Ray: Rebel Without a Cause. No ano seguinte, no outro lado do Pacífico, mais propriamente no Japão, estreava uma pequena obra de um jovem iniciante de 30 anos, chamado Kô Nakahira. Dois filmes com um denominador em comum, os jovens rebeldes sem causa.
No Japão predominava então o chamado cinema clássico de Ozu, Mizoguchi, Naruse, Kurosawa. Atravessava-se o período do pós-guerra, e no Japão começava a notar-se uma certa ocidentalização, que passava pela mudança das roupas, pelos costumes, etc. Vinham aí novos tempos na cultura japonesa, e na década de 60 iría predominar a chamada “Nova Vaga do Cinema Japonês”, com Nagisa Oshima na sua frente, que, tal como os franceses da “nouvelle vague”, também ele vinha da crítica. O início desta vaga seria com este Crazed Fruit (Kurutta Kajitsu), de 1956. Crazed Fruit era um filme muito arriscado naquilo que poderíamos considerar aceitável para o universo do cinema japonês.
Seguia a rivalidade entre dois irmão privilegiados, por uma mulher mais velha, casada. O irmão mais velho é irascível e implacável, enquanto que o irmão mais novo exibe uma espécie de inocência que diminui progressivamente. A mulher depressa se torna na odalisca dos dois irmãos, agindo como se fosse o receptor da natureza fálica dos dois irmãos.
Produzido em 17 dias, com um orçamento minúsculo, pela Nikkatsu, uma das várias pequenas produtoras que então procurava o seu lugar ao sol, no moderno cinema japonês. O foco destas produtoras era a juventude, e ainda seriam precisos quatro anos para o movimento ter verdadeiras repercurssões. O realizador Kô Nakahira (que foi orientado pelo rebelde, Yuzo Kawashima, que também tinha uma grande influência sobre Shôhei Imamura) demonstra magistralmente as lições de cinema aprendidas com auteurs franceses como Jean Renoir. A sequência final é muito impressionista.
Da nova vaga do cinema japonês ficaram, sobretudo, nomes como os de Nagisa Oshima, Kôji Wakamatsu, Shôhei Imamura, Yoshishige Yoshida entre outros. Mas foi com Crazed Fruit que tudo começou.
sexta-feira, março 09, 2012
Filmes pe(r)didos:
(500) Days Of Summer de Mark Webb
por Nuno Sousa
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos (500) Days Of Summer filme de 2009 de Mark Webb, que aqui é evocado por Nuno Sousa, programador da UCI Cinemas. Um muito obrigado ao Nuno pela colaboração.
Como sobreviver a 500 dias de verão? Ou melhor, a 500 dias de Summer? Ou, como podemos nós termos sobrevivido sem termos tido oportunidade de descobrir este pequeno (grande) filme numa sala de cinema? Vítima de critérios inclassificáveis da distribuidora, o filme de Marc Webb (agora ocupado na realização do novo Homem Aranha), não chegou às salas, mas não sem antes ter alimentado muitas discussões que promovi para forçar a sua estreia. Seria seguramente um daqueles sucessos de estima que gostamos de acarinhar. (500) dias em exibição?!?
É um daqueles filmes que nos fica e assombra, porque trata de nós. E somos nós que nos revemos naquelas personagens, magnificamente interpretadas por Joseph Gordon-Levitt (Tom, o apaixonado, o believer) , Chloe Grace Moretz (a irmã adolescente, mas surpreendentemente a sua voz da razão) e Zooey Deschanel, a tal Summer do título, desencantada, para quem o verdadeiro amor não existe. Vai ao engano quem pensa que aqui há só verão: há antes (todo) um tratado sobre as angústias, constantes insatisfações, permanentes buscas, de (toda) uma geração. O cinema passa por aqui, enquanto retrato geracional, capaz de nos fazer acreditar que estamos ali e nos podíamos cruzar com esta personagens ao virar da esquina. Ou no mesmo banco de jardim do filme que, sem eu o procurar, me apareceu à frente numa viagem a LA. E ali pensei que o cinema é isto mesmo, dando o que a vida tira, e emocionando para além do último crédito final.
Não é um filme perdido para mim. E atrevo-me a sugerir que seja pedido por todos como eu, para quem o cinema é paixão de vida! Mesmo que no finalzinho seja o outono a melhor escolha. Ou melhor Autumn... sem dias contados!
quinta-feira, março 08, 2012
Filmes pe(r)didos:
Cruel, de Mikael Hafström
por João Moço
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Cruel ('Ondskan' no original) filme de 2003 de Mikael Hafström, que aqui é evocado por João Moço, jornalista do DN e autor do tumblr Movimentos Oblíquos. Um muito obrigado ao João pela colaboração.
A primeira vez que vi Cruel/Ondskan ainda foi numa das salas do Cinema Quarteto. Apesar de só um ano depois me ter mudado de vez para Lisboa, estas visitas à capital tornavam-se um hábito cada vez mais constante, como que um refúgio para apagar de vez um ambiente castrador que merecia ser esquecido. Tal como o jovem de 16 anos Erik Ponti (Andreas Wilson) do filme, que imagina numa primeira instância como será a sua nova vida no colégio interno, obrigando-se a uma regeneração individual, longe daquilo e daqueles que alimentavam a extrema agressividade que evidenciava até então. No entanto, primando o filme pelo seu impecável realismo, torna-se desde logo claro que a concretização desse desejo de uma nova vida dá lugar ao cru desencanto que é um dado inevitável da condição humana.
Vi o filme completamente sozinho na sala de cinema, o que só potenciou o profundo impacto emocional da história realizada por Mikael Hafström. Passados sete anos desde esse dia, Cruel/Ondskan mantém-se um excelente retrato da violência e da crueldade da adolescência e dos adolescentes, através de uma visão bastante íntima (mas não menos tensa) de como tudo isto é vivido através do protagonista, Erik Ponti. E apesar da violência e da crueldade anteriormente referidas serem potenciadas pelo espaço temporal em que a história se desenrola (na Suécia do pós-Segunda Guerra Mundial, com a sombra do nazismo ainda bem presente nas condutas sociais), não deixam de ser profundamente realistas na sua assunção.
quarta-feira, março 07, 2012
Filmes pe(r)didos:
Lisa and the Devil, de Mario Bava
por Carlos Conceição
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Lisa and The Devil filme de 1972 de Mario Bava, que aqui é evocado pelo realizador Carlos Conceição. Um muito obrigado ao Carlos pela colaboração.
Lisa And The Devil, de 1972, mais do que um filme perdido é um filme re-encontrado. Para os admiradores de Mario Bava ou do cinema italiano de terror em geral, é mais do que isso: um grande melodrama surrealista que resume brilhantemente o porquê de Bava ser um maestro digno de ser estudado junto a nomes como Hitchcock ou Chabrol, ao mesmo tempo que o reconcilia com o público depois de vários anos de fracassos de bilheteira. A maior pena é que essa reconciliação tenha sido adiada para dois anos depois da morte do realizador e que o filme tenha, até hoje, existido apenas em DVD.
No final dos anos 60, Bava pareceu perder o controlo do que tinha feito do seu cinema uma obra a seguir, tendo praticamente inventado o Giallo sozinho em filmes como Blood And Black Lace ou As Três Faces Do Medo. Filmes curiosos como Danger Diabolik sublinham o estatuto de autor de culto que lhe estaria reservado quando chegasse a era do vídeo mas, em termos de salas, foi preciso inverter o body-count com Twitch Of The Death Nerve (ou Bay Of Blood) para que o seu nome voltasse a ser pronunciado. Em 72 o sucesso repete-se com Baron Blood, o que lhe dá carta branca para atacar o seu projecto mais pessoal, este Lisa And The Devil.
Compreensivelmente Bava tinha muito orgulho neste filme mas o que podia ter sido o glorioso coroar de uma carreira transformou-se em pura humilhação quando os distribuidores, intimidados pela narrativa não linear e pela atmosfera alucinogénea do filme, lhe viraram as costas e se tornou eminente re-pensar a montagem. Tendo o filme sido mostrado no Festival de Cannes a americanos relutantes obcecados com o recente sucesso de O Exorcista, para o produtor Alfredo Leone só havia como caminho uma hipótese: alterar o filme de forma a servir as necessidades dos compradores. Sem ter poder de decisão, Mario Bava viu a sua obra prima ser esquartejada e re-escrita, re-montada segundo critérios questionáveis, misturando algumas das suas sublimes imagens com cenas novas de possessão demoníaca filmadas pelo próprio produtor. Aquele que é, indiscutivelmente, o melhor filme de Mário Bava acabou por ser distribuído em 1974 na sua nova versão, A Casa Do Exocismo, transformado num dos mais horríveis objectos cinematográficos alguma vez exibidos, capaz de dar vergonha alheia continuamente durante hora e meia e de arrancar gargalhadas condescendentes ao mais indiferente dos espectadores. É isto que sucede quando o poder de gerir arte cai nas mãos de merceeiros. Em Portugal, para os mais desatentos, isso também já se tem usado.
Mas voltemos a Lisa And The Devil, a versão boa, um filme que torna a necrofilia erótica e comovente mas que, apesar disso, não é um filme fácil. Um filme em que se esbate a linha que separa a realidade da fantasia até que ambas se tornam interdependentes e inseparáveis, juntando elementos de melodrama gótico com série B, captando e demonstrando a demência de um pesadelo com mais poesia e imaginação que qualquer outro filme. Um filme que existe finalmente em DVD na sua excelente versão original mas que, como a desculpa não cura a ferida, podia haver muita gente a conhecer e a estudar Mario Bava e não há. Um filme que pede ao espectador 100% de atenção, estado de alerta, criatividade de leitura, colaboração no argumento, auto-confiança para apreciar mesmo quando as coisas não são totalmente explicadas... Ou seja, também não era em Portugal que Bava e Leone iam encontrar distribuidores nem público.
terça-feira, março 06, 2012
Filmes pe(r)didos:
Adventureland, de Greg Mottola
por João Lameira
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Adventureland, filme de 2009 de Greg Mottola, que aqui é evocado por João Lameira, autor do tumblr Numa Paragem do 28. Um muito obrigado ao João pela colaboração.
Vítima de distribuição e publicidade mal gizadas, Adventureland passou um tanto despercebido nos cinemas (por cá nem estreou). A leve obscuridade (nada é verdadeiramente obscuro hoje em dia) assenta-lhe bem. Desta maneira, é mais nosso, dos que gostam muito dele. Lembro-me que estávamos chateados nesse dia e andavam ratos lá por casa (assuntos não relacionados). Fomos ao cinema para esquecer. Em vez disso, lembrámo-nos. O que vimos apaziguou-nos, aquela história de amor era a nossa: ele meio tímido e pateta, ela magoada e indecisa.
Adventureland é o filme que Greg Mottola, que tinha no currículo muito trabalho para a televisão e um pequeno indie nos anos 90, só pôde fazer depois ao êxito de Superbad: mais do que comédia desbragada ou produto de Sundance (estará mais próximo da conjugação perfeita que foi a série televisiva Freaks and Geeks; a presença do fabuloso Martin Starr não engana), é Renoir para os jovens adultos do séc. XXI — todas as personagens, à excepção dos bullies caricaturais, têm as suas razões; todas as personagens têm os seus problemas, mesmo as aparentemente confiantes; todas são tratadas com a mesma serenidade de olhar, a mesma doçura e justeza.
A história, mais ou menos auto-biográfica, anda à volta de um recém-licenciado que não sabe muito bem que rumo dar à vida e empata o tempo a trabalhar num parque de diversões decrépito nas férias de Verão, onde encontra outros como ele. O ano é 1987, mas pouco importa, a não ser pela omnipresente Amadeus. Ouve-se mais a Pale Blue Eyes dos Velvet Underground (uma homenagem avant la lettre à soberba, meço bem as palavras, Kirsten Stewart), ou os Crowded House enquanto explode o fogo-de-artíficio.
O final pode parecer demasiadamente feliz, à medida de qualquer comédia romântica, quebrando o absoluto "realismo" anterior (a ideia de que as coisas são mesmo assim prevalece quase todo o tempo): um reencontro numa noite chuvosa em Nova Iorque. A única defesa que posso apresentar é que a nossa história de amor teve um final feliz quanto esse.
segunda-feira, março 05, 2012
Filmes pe(r)didos:
Sempre, de Steven Spielberg
por Luís Salvado
Memórias de filmes afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Sempre ('Always' no original) filme de 1989 de Steven Spielberg, que aqui é evocado por Luís Salvado, da Time Out. Um muito obrigado ao Luís pela colaboração.
Toda a gente tem a sua lista de filmes favoritos de Steven Spielberg. Há quem prefira os épicos de apelo à imaginação (e à lágrima) como ET O Extraterrestre e Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Há quem escolha as montanhas-russas e de acção e emoção como os dois Parque Jurássico ou os quatro Indiana Jones. Há quem opte pelos dramas mais brutais, como A Lista de Schindler ou Munique. E até há quem diga que no início é que ele era bom, em fitas despojadas de efeitos como Duel ou Sugarland Express.
Pergunto-me sempre porque razão nunca alguém coloca o belíssimo Sempre nas listas de eleitos e porque diabo essa obra nunca é mencionada quando se tenta identificar o filme em que o olhar de adulto substitui o olhar de criança no cinema de Spielberg. Mais discreto mas mais profundo que os anteriores A Cor Púrpura ou O Império do Sol, em que a espectacularidade cinematográfica mascarava uma maturidade ainda não totalmente consolidada, Sempre apresentava um olhar marcadamente adulto sobre as relações amorosas, com Richard Dreyfuss no papel de um aviador que regressa dos mortos e retoma o contacto com a mulher da sua vida.
Despachado sem grande reflexão como uma lamechas fantasia romântica, Sempre é exemplar na forma como retrata a relação de um casal banal, em que o amor entre ambos se revela não em gestos grandiosos mas sim na forma como cada um deles gosta afinal das pequenas coisas que tornam o outro num ser diferente de todos os demais. E como na dor mais acutilante e na situação mais desesperada, é também pelo amor que a redenção se faz, num final infinitamente mais adulto e comovente que o do filme com o mesmo tema que, no ano seguinte, toda a gente aplaudiria, o muito menos conseguido Ghost, o Espírito do Amor.
Com um equilíbrio notável entre drama e comédia, Sempre, é um pequeno grande filme, mesmo no cânone de fitas notáveis de Spielberg, e além de recuperar o Smoke Gets in your Eyes, ainda dá o último papel no cinema a Audrey Hepburn, com uma personagem com aquela beleza etérea que lhe valeu a eternidade.
Toda a gente tem a sua lista de filmes favoritos de Steven Spielberg. Há quem prefira os épicos de apelo à imaginação (e à lágrima) como ET O Extraterrestre e Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Há quem escolha as montanhas-russas e de acção e emoção como os dois Parque Jurássico ou os quatro Indiana Jones. Há quem opte pelos dramas mais brutais, como A Lista de Schindler ou Munique. E até há quem diga que no início é que ele era bom, em fitas despojadas de efeitos como Duel ou Sugarland Express.
Pergunto-me sempre porque razão nunca alguém coloca o belíssimo Sempre nas listas de eleitos e porque diabo essa obra nunca é mencionada quando se tenta identificar o filme em que o olhar de adulto substitui o olhar de criança no cinema de Spielberg. Mais discreto mas mais profundo que os anteriores A Cor Púrpura ou O Império do Sol, em que a espectacularidade cinematográfica mascarava uma maturidade ainda não totalmente consolidada, Sempre apresentava um olhar marcadamente adulto sobre as relações amorosas, com Richard Dreyfuss no papel de um aviador que regressa dos mortos e retoma o contacto com a mulher da sua vida.
Despachado sem grande reflexão como uma lamechas fantasia romântica, Sempre é exemplar na forma como retrata a relação de um casal banal, em que o amor entre ambos se revela não em gestos grandiosos mas sim na forma como cada um deles gosta afinal das pequenas coisas que tornam o outro num ser diferente de todos os demais. E como na dor mais acutilante e na situação mais desesperada, é também pelo amor que a redenção se faz, num final infinitamente mais adulto e comovente que o do filme com o mesmo tema que, no ano seguinte, toda a gente aplaudiria, o muito menos conseguido Ghost, o Espírito do Amor.
Com um equilíbrio notável entre drama e comédia, Sempre, é um pequeno grande filme, mesmo no cânone de fitas notáveis de Spielberg, e além de recuperar o Smoke Gets in your Eyes, ainda dá o último papel no cinema a Audrey Hepburn, com uma personagem com aquela beleza etérea que lhe valeu a eternidade.
sexta-feira, março 02, 2012
Filmes pe(r)didos:
Má Raça, de Léos Carax,
por Inês Meneses
Ao longo de março vamos aqui encontrar memórias contadas na primeira pessoa. Memórias de filmes que estejam afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Hoje lembramos Má Raça ('Mauvais Sang' no original) filme de 1986 de Léos Carax, que aqui é evocado por Inês Meneses, da rádio Radar. Um muito obrigado à Inês pela colaboração.
Fui uma apaixonada pelos filmes de Carax nos anos 80. Vi primeiro Má Raça (creio que por sugestão de um dos actuais directores do Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde – todos eles já na altura muito cinéfilos) e depois descobri Boy meets Girl de 84 (mais experimental).
Mauvais Sang, mais de 25 anos passados, ainda é para mim uma imagem, ou melhor, uma sequência – o extraordinário actor Denis Lavant dançando na rua Modern Love de David Bowie. O filme poderia apenas ser isto (já era tanto), mas depois tem Juliette Binoche em estado de graça, e o enorme Michel Piccoli.
Carax nestes filmes, vivia de uma contenção que não se há-de repetir em muitos cineastas. Até porque parecendo paradoxal, há uma atitude pop nestes filmes - o silêncio e o despojamento, a música certa e os grandes actores. Má raça é isto tudo, o filme mais perfeito dele.
(Em 91 voltaria ao par Binoche/Lavant em Les amants du Pont-Neuf – a química entre os dois é mágica).
Fui uma apaixonada pelos filmes de Carax nos anos 80. Vi primeiro Má Raça (creio que por sugestão de um dos actuais directores do Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde – todos eles já na altura muito cinéfilos) e depois descobri Boy meets Girl de 84 (mais experimental).
Mauvais Sang, mais de 25 anos passados, ainda é para mim uma imagem, ou melhor, uma sequência – o extraordinário actor Denis Lavant dançando na rua Modern Love de David Bowie. O filme poderia apenas ser isto (já era tanto), mas depois tem Juliette Binoche em estado de graça, e o enorme Michel Piccoli.
Carax nestes filmes, vivia de uma contenção que não se há-de repetir em muitos cineastas. Até porque parecendo paradoxal, há uma atitude pop nestes filmes - o silêncio e o despojamento, a música certa e os grandes actores. Má raça é isto tudo, o filme mais perfeito dele.
(Em 91 voltaria ao par Binoche/Lavant em Les amants du Pont-Neuf – a química entre os dois é mágica).
quinta-feira, março 01, 2012
Filmes pe(r)didos:
Deep End, de Jerzy Skolimowski,
por Francisco Valente
Abrimos hoje mais um mês temático no Sound + Vision. E ao longo de março vamos aqui encontrar memórias contadas na primeira pessoa. Memórias de filmes que estejam afastados daquelas listas habituais que fazem a conversa de todos os dias. Filmes "perdidos". Ou se preferirem, "filmes pedidos"... Começamos com Deep End, filme de 1970 de Jerzy Skolimowski, que aqui é evocado por Francisco Valente, jornalista do Público e autor do blogue Da Casa Amarela. Um muito obrigado ao Francisco pela colaboração.
Os filmes perdidos são aqueles que não se vêem na vida mas que encontram o seu lugar, em aparições constantes, na corrente do nosso imaginário. Obras deslumbradas em excertos e fotografias, lidas em sinopses e críticas que se descobrem por encontros ocasionais durante o dia e às quais acrescentamos o nosso olhar, palco de uma imaginação encenada em permanência pelos nossos desejos. Os filmes perdidos são aqueles que sobrevivem, portanto, bem no fundo: aí descobri Deep End de Jerzy Skolimowski, realizador que se viu obrigado a fugir do seu país natal para escapar à censura imposta às suas obras e aos seus sonhos. Em Londres, Skolimowski filma a juventude de um rapaz no meio de uma cidade nocturna, suja e desviante, em que a sua apaixonada obsessão - uma Jane Asher de longos cabelos ruivos - perturba a sua timidez e questiona os seus impulsos. Um filme em que o universo pessoal, idílico e romântico de uma juventude vive contra a dura realidade de vida do seu crescimento, ou a descoberta que a nossa moral e inocência contrastam com a forma como são vistas pelo objecto do nosso desejo, já sabedora dos caminhos em que a inocência não é mais que um passado perdido que não se recupera, tal como a primeira visão do nosso filme perdido.
Os filmes perdidos são aqueles que não se vêem na vida mas que encontram o seu lugar, em aparições constantes, na corrente do nosso imaginário. Obras deslumbradas em excertos e fotografias, lidas em sinopses e críticas que se descobrem por encontros ocasionais durante o dia e às quais acrescentamos o nosso olhar, palco de uma imaginação encenada em permanência pelos nossos desejos. Os filmes perdidos são aqueles que sobrevivem, portanto, bem no fundo: aí descobri Deep End de Jerzy Skolimowski, realizador que se viu obrigado a fugir do seu país natal para escapar à censura imposta às suas obras e aos seus sonhos. Em Londres, Skolimowski filma a juventude de um rapaz no meio de uma cidade nocturna, suja e desviante, em que a sua apaixonada obsessão - uma Jane Asher de longos cabelos ruivos - perturba a sua timidez e questiona os seus impulsos. Um filme em que o universo pessoal, idílico e romântico de uma juventude vive contra a dura realidade de vida do seu crescimento, ou a descoberta que a nossa moral e inocência contrastam com a forma como são vistas pelo objecto do nosso desejo, já sabedora dos caminhos em que a inocência não é mais que um passado perdido que não se recupera, tal como a primeira visão do nosso filme perdido.
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