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quinta-feira, dezembro 22, 2011

Benetton contra o ódio (6/6)

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É bem verdade que as relações entre China e EUA não se podem representar por este beijo entre Hu Jintao e Barack Obama. Acontece que a campanha UnHate, da Benetton, não é exactamente uma representação, mesmo alegórica, da actividade de alguns líderes da humanidade. O que aqui se encena é uma impossibilidade figurativa a que as novas tecnologias de manipulação das imagens conferem uma bizarra naturalidade. Não são imagens fabricadas para "enganar", antes procuram o limite insólito do próprio domínio figurativo a que emprestamos o nome de realidade. Como tão bem esclarece o video da campanha [em baixo], há no nosso mundo uma ritualização do conflito que importa reconverter para a tensão mais saudável do confronto — é uma causa (política & cultural) que vale alguns beijos, nem que sejam digitais.

domingo, novembro 27, 2011

Benetton contra o ódio (5/6)

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Que acontece quando imaginamos um beijo entre os líderes das duas Coreias, Norte e Sul, respectivamente Kim Jong-il e Lee Myung-bak? Uma simulação erótica? Sim, talvez, sobretudo se conseguirmos conceber que, aqui, tudo é do domínio da simulação — não apenas a sugestão sexual (qual sugestão sexual?...), mas a mera sensação de alguma proximidade física. As imagens fake da série UnHate não existem como ilustração, mas como delírio figurativo: o seu realismo é puramente intelectual, aceita ficar pelos limites do nosso pensamento. E talvez seja isso que suscita tanta revolta e tanta "denúncia" contra a campanha da Benetton: no mundo tele-acelerado em que nos obrigam a viver, são cada vez menos os que toleram uma imagem, seja ela qual for, que se atreva a pensar.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Benetton contra o ódio (4/6)

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O preconceito faz-se sempre de alguma forma de cegueira. Assim, os indignados com as sugestões "homossexuais" dos beijos da campanha da Benetton, UnHate, omitiram (será que terão mesmo visto?...) que, numa das imagens, se trata de figurar uma mulher e um homem: Angela Merkel e Nicholas Sarkozy. Em boa verdade, a dimensão chocante (?) provém de algo bem diferente. A saber: uma espécie de esvaziamento sexual destes beijos digitalmente simulados. Já não são eventos da histeria hedonista que rege o meio publicitário, mas apenas pequenas brincadeiras teatrais que reduziram os corpos (e as bocas, hélas!) à simbologia política que os atravessa. O pudor da Benetton, afinal, incomoda.

sábado, novembro 19, 2011

Benetton contra o ódio (3/6)

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Quando se beijaram assim Mahmoud Abbas (Presidente da Autoridade Nacional da Palestina) e Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel)? A resposta é: nunca. E envolve um suplemento bem típico da nossa época de simulacros mais ou menos festivos. A saber: por que não dar corpo(s) a esse não-acontecimento e... representá-lo? Afinal de contas, se Harry Potter, na sua infinita banalidade, até voa e ninguém protesta contra tão gritante impossibilidade, que nos pode impedir de desejar representar este beijo imaginário? A campanha UnHate envolve, justamente, o reconhecimento de uma verdade visceral dos nossos dias: o universo das imagens não esgota o visível. Pode ser mesmo um desafio aos seus limites. Fazer política é também isto.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Benetton contra o ódio (2/6)

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Porque é que a Benetton cria simulacros de beijos entre figuras emblemáticas do planeta?
A julgar pelo preconceito mais severo que se abateu sobre a campanha UnHate, trata-se apenas de vender produto... É, de facto, espantoso. Todos os dias vemos alguma publicidade a tratar as mulheres como objectos mais ou menos descartáveis. Todos os dias vemos anúncios com jovens reduzidos a "seres-que-gritam", ou porque querem um telemóvel, ou porque partilham uma qualquer marca de cerveja. Todos os dias vemos os desígnios promocionais de algumas marcas a injectar no tecido social visões simplistas, retratos moralistas ou meras celebrações da estupidez... Mas uma entidade aposta em pensar as imagens que utiliza e é de imediato reduzida a qualquer coisa de eminentemente suspeito.
Que vemos, então, quando vemos Barack Obama a beijar Hugo Chávez? Vemos a própria imagem a citar o impossível que habita o real. E talvez seja isso que nenhum preconceito tolera: o facto de a imagem se afirmar como imagem, não como transparência ou reprodução — só o infantilismo televisivo acredita (ou quer fazer acreditar) que a imagem é um decalque (seja do que for).

quinta-feira, novembro 17, 2011

Benetton contra o ódio (1/6)

Integrada na nova campanha da Benetton, UnHate ("Contra-o-Ódio"), esta imagem foi a primeira vítima do campo de batalha — mediático, social, simbólico, etc. — em que, hoje em dia, vivem as imagens. Nela vemos o resultado de uma manipulação digital: um beijo entre o Papa e Ahmed Mohamed el-Tayeb (Imã da mesquita Al-Azhar, no Cairo). Depois dos protestos do Vaticano e de alguns sectores católicos, a Benetton decidiu retirar a imagem, restando cinco da mesma campanha, todas elas fake, construídas de acordo com o mesmo princípio: dois líderes do mundo contemporâneo beijando-se.
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Escusado será dizer que a retirada da imagem envolve, no mundo contemporâneo, qualquer coisa de irrisório — a proliferação instantânea da Net já inscreveu a imagem no olhar, porventura na consciência, de muitos milhões de cidadãos, independentemente da sua nacionalidade, credo ou filosofia de vida.
Em todo o caso, compreende-se que o Vaticano não pudesse aceitar o desafio simbólico inerente a este tipo de figuração "perversa", alicerçada nas práticas de manipulação que a tecnologia digital generalizou (das brincadeiras pessoais à indústria da pornografia, o fake tornou-se mesmo uma espécie de sarcástico esperanto figurativo do espaço virtual).
Não se terá tratado de reagir contra a proximidade de um líder de outra religião. Nem creio que o factor decisivo sejam as eventuais conotações homossexuais que a imagem pode convocar, mesmo se é verdade que, nesse aspecto, a muito global "voz do povo" da Net, tendencialmente anónima, de imediato expressou os mais radicais preconceitos (para já, nenhuma instituição religiosa achou por bem manifestar qualquer repúdio face a esses preconceitos).
O que terá importado é a própria demarcação em relação à imagem enquanto imagem: para o Vaticano, trata-se de deixar bem claro que não aceita a delegação figurativa que a imagem pressupõe. Não é tanto que a Benetton não deva representar o Papa assim; é antes que a Benetton não deva representar o Papa, ponto final.
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Em paralelo, para a Benetton, o que importa é o inconsciente de qualquer processo figurativo (recorde-se o processo em muitos aspectos semelhante que, em 2003, envolveu o teledisco de American Life, de Madonna: para lá das muitas diferenças de contexto, a sua retirada de circulação, por opção da própria Madonna, iluminou de forma contundente os mecanismos ambivalentes que enquadram a percepção corrente das imagens).
A exigência de retirada da imagem mostra algo de básico, mas todos os dias recalcado (sobretudo pela cultura televisiva). A saber: nenhuma imagem é transparente, porque ecoa sempre no tecido social das linguagens — retira-la de circulação é apenas dar a ver os limites em que se move o outro.