Por muitas faltas em que incorra, a ópera Prima Donna acabou por ser um possível momento de viragem na carreira de Rufus Wainwright (e digo “possível” porque só a passagem do tempo o poderá confirmar). Rufus tinha já trabalhado com suportes orquestrais, quer no imponente díptico Want ou na visão que levou a palco uma noite célebre de Judy Garland no Carnegie Hall... Mas ao compor uma ópera aprofundou necessariamente um pensamento sobre a versatilidade cromática e tímbrica que a presença de uma orquestra implica, juntando ainda um primeiro ensaio no domínio do canto lírico (naturalmente na voz dos outros). Essas experiências, mesmo tendo ganho forma numa ópera que nasce demasiado assombrada sob o peso referencial da memória de Verdi e revela um caso mais próximo do pastiche do que de uma visão da linguagem do teatro musical do nosso tempo, ajudaram contudo a abordar este outro passo discográfico com conhecimento, segurança e... ousadia. E eis que, assim, em Take all My Lovers: 9 Shakespeare Sonets, encontramos o melhor disco de Rufus Wainwright desde que, em 2004, nos deu a ouvir as canções de Want Two.
Convém dizer desde já que esta não representa a primeira abordagem de Rufus Wainwright à obra de Shakespeare. Robert Wilson convidou-o, há uns anos, para criar música para uma produção teatral baseada nos sonetos de Shakespeare. Mais adiante, a San Francisco Symphony solicitou arranjos para cinco dos sonetos para os quais já havia composto a música. E, pelo caminho, três deles tinham já encontrado gravação na sua voz, com apenas o piano por perto, no álbum All Days Are Nights: Songs For Lulu. Com todo este corpo de experiências por base, Take all my Lovers nasceu como uma natural extensão de um trabalho continuado em volta de Shakesperare. E, com um elenco de cantores, atores, chamando novamente a cena Marius de Vries (o seu parceiro em Want), eis que nasce um disco que nem é pop nem clássica, nem álbum de canções, nem teatro musical... Mas que é tudo isso ao mesmo tempo. E nas medidas certas.
A Rufus Wainwright cabe aqui a ideia, a composição e apenas algumas das interpretações, sendo que em Take all my Loves, o fulguroso Unperfect Actor (onde a intensidade das guitarras elétricas acolhe ainda a presença das vozes de Helena Bonham Carter, Martha Wainwright e Fiora Cutler), uma nova versão de A Woman’s Face (em cujas palavras habita um interessante discurso sobre identidade de género) ou em All Dessen Müd (o Soneto 66, lido e cantado em alemão, num momento de intensa dimensão dramática partilhado com Christopher Nell e Jürgen Holtz que evoca heranças de um Kurt Weill), encontramos as suas melhores canções dos últimos tempos. À sua voz juntam-se ainda, mas como protagonistas nas respetivas canções, as de Anna Prohaska (soprano e a mais presente das vozes no alinhamento) ou Florence Welsh, e ainda, recitando, as de atores como Sian Phillips, William Shatner, Carrie Fischer ou Peter Eyre.
Nos 400 anos da sua morte, Shakespeare tem aqui uma das mais interessantes abordagens pela música que a sua obra e memória conheceram nos últimos tempos. E com este disco Rufus Wainwright parece ter encontrado um novo caminho, no qual as suas duas facetas - a pop e a clássica (aqui juntando heranças do romantismo às vivências da música de teatro que fez escola na Broadway) - convivem e dialogam em sintonia. Agora sim, a sua presença na Deutsche Grammophon traz algo de novo à história da editora da cartela amarela.
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segunda-feira, maio 02, 2016
quinta-feira, abril 14, 2016
Novas edições:
Andrew Bird, Are You Serious?
Fazia tempo que, de Andrew Bird, não chegava um álbum como este, aberto a vários caminhos e firme na continuação do trilho central da sua obra. O que não quer dizer que tenha estado parado. Antes pelo contrário! Mas a verdade é que, depois de Break It Yourself, editado em 2012, os seus discos focaram especificamente espaços mais focados em conceitos menos abrangentes. Assim, e depois, de Hands Of Glory (2012), que fechava o naipe de músicos a uma pequena mão-cheia de colaboradores, numa gravação executada no celeiro junto à casa de Andrew Bird, seguiram-se Things Are Really Great Here... Sort Of (2014), um álbum de versões de originais da dupla alt-country Handsome Family e Ecolocations: Canyon (2015), o primeiro de uma série de discos instrumentais registados in loco em locais que inspiraram a música para ali composta, contribuindo o próprio cenário para a construção da sua representação feita de sons. Para fazer as contas certas podemos acrescentar que, pelo caminho, houve ainda um EP, de título I Want To See Pulaski at Night (2013), retratando mais uma experiência essencialmente minimalista.
Are You Serious, que de certa forma é assim o sucessor da linhagem central de álbuns – como o já referido Break It Yoyrself ou ainda títulos como os magníficos Andrew Bird and The Mysterious Production of Eggs (2005) ou Noble Beast (2009) – volta a lembrar quão capaz este grande cantautor do nosso tempo é de cruzar ideias e sons para construir canções às quais imprime marcas autorais que imediatamente o identificam.
Há um elemento novo na música de Andrew Bird. Ou, antes, mais evidente do que nunca. Trata-se de uma presença da guitarra elétrica como mais do que mero acessório de fundo, garantindo alguma eletricidade um certo músculo que não surgia há algum tempo nas suas canções. Captsized, estrategicamente escolhido para single de apresentação e colocado agora a abrir o alinhamento, frisa bem esta presença que, logo a seguir, o belíssimo Roma Fade mostra que não é tom dominante, mas antes uma realidade em jogo num álbum que não perde assim o contacto com as heranças folksy e a presença sempre evidente do violino que são tão marcantes na obra de Andrew Bird e que, como em alguns momentos de discos anteriores, demonstra como, como poucos, sabe cruzar toda essa variedade de referencias e timbres, com a busca de um melodismo pop, luminoso e contagiante. Porque, sim, este é um disco de um homem aparentemente feliz. E exemplo maior da boa disposição que parece fazer o seu quotidiano pode encontrar-se nessa pérola que é Left Hand Kisses, magnífico dueto teatralizado no qual Andrew Bird partilha o protagonismo com uma sempre arrepiante Fiona Apple.
Are You Serious dá assim continuidade a uma demanda afinal antiga na obra de um músico que gosta de fazer incursões por outros caminhos, eventualmente reencontrando este trilho central com novos valores, sons, cores e histórias para contar.
Are You Serious, que de certa forma é assim o sucessor da linhagem central de álbuns – como o já referido Break It Yoyrself ou ainda títulos como os magníficos Andrew Bird and The Mysterious Production of Eggs (2005) ou Noble Beast (2009) – volta a lembrar quão capaz este grande cantautor do nosso tempo é de cruzar ideias e sons para construir canções às quais imprime marcas autorais que imediatamente o identificam.
Há um elemento novo na música de Andrew Bird. Ou, antes, mais evidente do que nunca. Trata-se de uma presença da guitarra elétrica como mais do que mero acessório de fundo, garantindo alguma eletricidade um certo músculo que não surgia há algum tempo nas suas canções. Captsized, estrategicamente escolhido para single de apresentação e colocado agora a abrir o alinhamento, frisa bem esta presença que, logo a seguir, o belíssimo Roma Fade mostra que não é tom dominante, mas antes uma realidade em jogo num álbum que não perde assim o contacto com as heranças folksy e a presença sempre evidente do violino que são tão marcantes na obra de Andrew Bird e que, como em alguns momentos de discos anteriores, demonstra como, como poucos, sabe cruzar toda essa variedade de referencias e timbres, com a busca de um melodismo pop, luminoso e contagiante. Porque, sim, este é um disco de um homem aparentemente feliz. E exemplo maior da boa disposição que parece fazer o seu quotidiano pode encontrar-se nessa pérola que é Left Hand Kisses, magnífico dueto teatralizado no qual Andrew Bird partilha o protagonismo com uma sempre arrepiante Fiona Apple.
Are You Serious dá assim continuidade a uma demanda afinal antiga na obra de um músico que gosta de fazer incursões por outros caminhos, eventualmente reencontrando este trilho central com novos valores, sons, cores e histórias para contar.
segunda-feira, abril 04, 2016
Novas edições:
Ray Lamontagne, Ourobros
Confesso que cheguei ao disco pela capa... Uma foto da Lua, sob um filtro avermelhado, que tão boa gente já confundiu com uma imagem de Marte. Até mesmo o Google!... Só depois reparei no nome: Ray Lamontagne. Nunca antes lhe tinha dado mais do que uns breves minutos de atenção, porque desistia sempre de cada novo disco após algumas faixas quase sempre desinteressantes. Não parecia nunca mais do que ser autor de um rock’roll para o mais banal FM tocar, aqui e ali com tempero country, folk ou rhythm and blues... Tudo nos sabores de supermercado. A capa de Ourobros seria então, ao sexto álbum do músico de New Hampshire, o mote para tentar um novo mergulho na sua música. E valeu a pena.
Depois de três primeiros discos produzidos por Ethan Johns, começou a mudar azimutes com maior frequência. Produziu ele mesmo o quarto. Entregou o quinto, Supernova (onde levantava algumas ideias mais interessantes, abrindo alguns temas caminhos para o que agora se materializa no novo disco), às mãos de Dan Auerbach dos Black Keys... E agora, ao sexto álbum, chamou ao estúdio Jim James, dos My Morning Jacket. E, diferente de todos os que antes lançara, encontrou em Ourobros o terreno onde a sua voz e composição ficaram bem servidos por uma cenografia que aqui faz a diferença.
Muitas vezes comparado no passado a nomes como os de Van Morrisson ou Tim Buckley, em Ourobros Ray Lamontagne descobre outros horizontes sob ecos de várias etapas na obra dos Pink Floyd. Se canções como (o belíssimo) Homecoming ou Another Day mantém ligações aos espaços mais habitualmente ligados ao registo do singer songwriter pouco dado a grandes adornos, já o resto do disco caminha entre outras cenografias, caminhando entre memórias do rock psicadélico, juntando frequentemente a presença de guitarras de escola bluesey, com conta peso e medida. Há paisagens definidas por teclas que Rick Wright não desdenharia e uma relação com a guitarra que não esconde uma admiração por David Gilmour.
Sussurrante, a voz caminha sem disputar protagonismo com o corpo instrumental, sugerindo o alinhamento (dividido em duas partes, como num LP em vinil) um percurso tematicamente arrumado como a tradição dos discos como conceito ensinou. Ourobros, mesmo tendo em Ain’t No Pressure um single que se destaca (por via da sua alma herdada dos blues, um pouco à Lenny Kravitz na fase Look Mama) dos demais sete temas do álbum, e conhecendo em The Changing Man uma bela revisitação de memórias do psicadelismo, vale como uma experiência total como álbum. Na era da fragmentação e da música servida às fatias, está aqui um belo e discreto sinal de que nem tudo está esquecido. Pode ser tudo uma grande encenação. Mas desde quando é que o teatro e a ficção são coisa má?
Muitas vezes comparado no passado a nomes como os de Van Morrisson ou Tim Buckley, em Ourobros Ray Lamontagne descobre outros horizontes sob ecos de várias etapas na obra dos Pink Floyd. Se canções como (o belíssimo) Homecoming ou Another Day mantém ligações aos espaços mais habitualmente ligados ao registo do singer songwriter pouco dado a grandes adornos, já o resto do disco caminha entre outras cenografias, caminhando entre memórias do rock psicadélico, juntando frequentemente a presença de guitarras de escola bluesey, com conta peso e medida. Há paisagens definidas por teclas que Rick Wright não desdenharia e uma relação com a guitarra que não esconde uma admiração por David Gilmour.
Sussurrante, a voz caminha sem disputar protagonismo com o corpo instrumental, sugerindo o alinhamento (dividido em duas partes, como num LP em vinil) um percurso tematicamente arrumado como a tradição dos discos como conceito ensinou. Ourobros, mesmo tendo em Ain’t No Pressure um single que se destaca (por via da sua alma herdada dos blues, um pouco à Lenny Kravitz na fase Look Mama) dos demais sete temas do álbum, e conhecendo em The Changing Man uma bela revisitação de memórias do psicadelismo, vale como uma experiência total como álbum. Na era da fragmentação e da música servida às fatias, está aqui um belo e discreto sinal de que nem tudo está esquecido. Pode ser tudo uma grande encenação. Mas desde quando é que o teatro e a ficção são coisa má?
terça-feira, março 29, 2016
Novas edições:
Anna Meredith, Varmints
Pode um álbum nascido sob evidente pulsão experimental ser uma peça acessível, capaz de cruzar barreiras de géneros, formas e sons, projetando-nos num domínio que é o oposto da ideia de terra de ninguém para, afinal, poder ser uma terra de todos? Não será fácil imaginar um destino de grande visibilidade mainstream para a música de Anna Meredith, até porque os consumos nesses patamares estão cada vez mais fechados a regras formulaicas que fazem parecer coisa surda tudo o que se afasta dos sabores do momento. Mas, tão capaz de entusiasmar um Royal Albert Hall em noite de Proms, como dotada de uma capacidade de sedução evidente para quem acompanha a linha da frente de acontecimentos nas vanguardas do pensamento eletrónico, esta jovem britânica, que foi já compositora residente da BBC Scottish Symphony Orchestra e desempenhou cargo semelhante com a Sinfonia Viva e, em 2012, cativou atenções com Handsfree, peça sem instrumentos interpretada pelos elementos da National Youth Orchestra, iniciou um trabalho de demanda discográfica em paralelo a este esforço na composição e pelo qual cruza todas estas sensibilidades por um gosto evidente pelas dinâmicas e sonoridades da música eletrónica.
Nos discos estreou-se em 2012 com Black Prince Fury, um primeiro EP no qual tomava as ferramentas eletrónicas como base de trabalho, procurando tanto pistas entre formas próximas dos espaços da música de dança como heranças possíveis dos minimalistas, revelando Nautilus, o tema de abertura, uma potente fanfarra para metais, um sentido de visão que dava desde logo sinais de que Anna Meredith trilhava o seu novo caminho no sentido certo. Um ano depois, o segundo EP, Jet Black Rider, juntava aos espaços já explorados a presença da sonoridade de instrumentos mais “convencionais”, colocando-os contudo num contexto diferente daquele que estamos habituados a encontrar quando os vemos no quadro de uma orquestra sinfónica. As eletrónicas voltavam a ditar a pulsação do corpo musical, experimentando formas mais próximas da canção pop, encerrando o alinhamento com ALR, uma inesperada e surpreendente versão de A Little Respect, dos Erasure.
Agora, três anos depois, o álbum de estreia, a que chamou Varmints, dá o seguro passo em frente face a estes dois primeiros ensaios sobre os fundamentos de uma linguagem que, sem ser de rutura, representa uma das mais interessantes propostas de diálogo entre os universos da música eletrónica e da música orquestral que têm surgido em cena nos últimos tempos. Há precedentes. Todd Levin, que nos anos 90 apresentou um álbum com alma de ovni no catálogo da Deutsche Grammophon, tinha já experimentado ensaiar espaços de comunicação entre estes mundos. A série Re-Composed (através sobretudo das contribuições de Moritz von Oswald ou Carl Craig) também já andou por estes caminhos. Mas o que Anna Meredith junta aqui é a sensibilidade da compositora que toma os instrumentos como ponto de partida para deles fazer nascer a busca de uma voz nova, integrada, comunicativa.
Nautilus, que regressa quatro anos depois, dá o mote e faz-nos entrar num alinhamento que, depois, lança a surpresa a cada faixa que se sucede, entre o ineditismo de algumas sugestões havendo contudo um cativante sentido de familiaridade. Como se, afinal, estas formas e sons fizessem já parte da nossa experiência. Só não tinham sido tão bem reunidos antes num corpo comum.
Do acesso de techno de R-Type, com flirt elétrico de pulsão quase metal que emerge pontualmente a meio do tema, às paisagens mais ambientais e cenicamente plácidas de Honeyed Words, passando pela experiência pop empolgante de Taken (que evoca sabores da música de um Philip Glass em finais dos anos 70 em diálogo com um corpo new wave),Varmints é, garantidamente, um dos discos mais surpreendentes, imaginativos e diferentes que vamos escutar este ano.
Nos discos estreou-se em 2012 com Black Prince Fury, um primeiro EP no qual tomava as ferramentas eletrónicas como base de trabalho, procurando tanto pistas entre formas próximas dos espaços da música de dança como heranças possíveis dos minimalistas, revelando Nautilus, o tema de abertura, uma potente fanfarra para metais, um sentido de visão que dava desde logo sinais de que Anna Meredith trilhava o seu novo caminho no sentido certo. Um ano depois, o segundo EP, Jet Black Rider, juntava aos espaços já explorados a presença da sonoridade de instrumentos mais “convencionais”, colocando-os contudo num contexto diferente daquele que estamos habituados a encontrar quando os vemos no quadro de uma orquestra sinfónica. As eletrónicas voltavam a ditar a pulsação do corpo musical, experimentando formas mais próximas da canção pop, encerrando o alinhamento com ALR, uma inesperada e surpreendente versão de A Little Respect, dos Erasure.
Agora, três anos depois, o álbum de estreia, a que chamou Varmints, dá o seguro passo em frente face a estes dois primeiros ensaios sobre os fundamentos de uma linguagem que, sem ser de rutura, representa uma das mais interessantes propostas de diálogo entre os universos da música eletrónica e da música orquestral que têm surgido em cena nos últimos tempos. Há precedentes. Todd Levin, que nos anos 90 apresentou um álbum com alma de ovni no catálogo da Deutsche Grammophon, tinha já experimentado ensaiar espaços de comunicação entre estes mundos. A série Re-Composed (através sobretudo das contribuições de Moritz von Oswald ou Carl Craig) também já andou por estes caminhos. Mas o que Anna Meredith junta aqui é a sensibilidade da compositora que toma os instrumentos como ponto de partida para deles fazer nascer a busca de uma voz nova, integrada, comunicativa.
Nautilus, que regressa quatro anos depois, dá o mote e faz-nos entrar num alinhamento que, depois, lança a surpresa a cada faixa que se sucede, entre o ineditismo de algumas sugestões havendo contudo um cativante sentido de familiaridade. Como se, afinal, estas formas e sons fizessem já parte da nossa experiência. Só não tinham sido tão bem reunidos antes num corpo comum.
Do acesso de techno de R-Type, com flirt elétrico de pulsão quase metal que emerge pontualmente a meio do tema, às paisagens mais ambientais e cenicamente plácidas de Honeyed Words, passando pela experiência pop empolgante de Taken (que evoca sabores da música de um Philip Glass em finais dos anos 70 em diálogo com um corpo new wave),Varmints é, garantidamente, um dos discos mais surpreendentes, imaginativos e diferentes que vamos escutar este ano.
segunda-feira, fevereiro 01, 2016
Novas edições:
Shearwater, Jet Plane and Oxbow
Tudo começou como uma espécie de sala de estar, onde se arrumavam alguns móveis (ler as canções mais “calmas”) que Will Sheff e Jonathan Meibug iam compondo e que não queriam arrumar nos Okkervil River. Chamaram-lhe Shearwater e o grupo foi crescendo como aventura em paralelo. Mas depois de discos como o muito aclamado Palo Santo (2006) e o belíssimo Rook (de 2008, disco no qual apostaram num aprofundar do trabalho cénico em favor da construção de telas delicadas e discretas que assim acolhiam a placidez da voz de Jonathan) os Shearwater ganharam vida própria e a atenção exclusiva de Meibug (pelo caminho Sheff saindo de cena). Com vida na Sub Pop desde Animal Joy (disco menos inspirado editado em 2012), os Shearwater começaram por ocupar o tempo de pausa entre discos de inéditos em estúdio para, em primeiro lugar, lançar um álbum de versões que, mais que apenas ser uma coleção de temas “favoritos”, procurou antes ser uma visão pessoal sobre vivências partilhadas na estrada. Assim surgiu Fellow Traveler, definido sob um conceito comporta um leque alargado de propostas (dos XiuXiu a St. Vincent), cabendo à personalidade interpretativa da banda a sugestão de uma unidade ao corpo de temas que ali reúnem, a noção de que se trata de um álbum de versões podendo mesmo não se notar à primeira vista. Depois, ainda em tempo de pausa, lançaram em 2014 Missing Islands: Demos and Outtakes 2007-2012, que não só ajudava a arrumar a casa entre as experiências já concretizadas como alargava o tempo de espera (e consequente reflexão) para a chegada de um novo disco.
Agora, quatro anos depois de um inconsequente Animal Joy, a pausa cobra dividendos ao mostrar finalmente em Jet Plane and Oxbow o momento em que os Shearwater deixam de ser a banda-arrecadação das canções não usadas dos Okkervil River e encontram, por sim, um desafio a cumprir. Cabendo à entrada em cena das electrónicas e de uma nova forma de trabalhar o som os argumentos na base do que de novo depois emerge nas canções que fazem do alinhamento do disco que pode assim discutir com Rook (o paradigma da etapa inicial) o estatuto de álbum mais significativo da carreira (até à data) dos Shearwater.
Que a opção estética, que revela uma busca de pistas em memórias de discos dos Talking Heads nos oitentas, do histórico encontro de Brian Eno com David Byrne em 1981 ou do sentido de elegância com teclados analógicos ao colo que lembramos dos Talk Talk, não nos iluda sobre o que depois representa o disco. Se musicalmente Jonathan Meibug e companheiros olharam para trás para pensar o que fazer adiante, já na hora de pensar o que dizer focaram atenções na América do presente, num álbum profundamente crítico e político que reflete sobre um país dividido, a sua relação com os seus e com os outros. Este é um álbum descrente, desencantado, por vezes quase revoltado com o universo que toma como objeto sobre o qual aqui mais não faz afinal senão um grande disco de protesto. Acende-se assim uma voz atenta, que coloca dedos na ferida, e que emerge curiosamente no Texas, um dos contrafortes políticos da América mais conservadora.
Com um single surpreendente (e bem diferente do que aquilo que até aqui tínhamos associado à banda) em Quiet Americans, a servir de perfeito aperitivo para uns Shearwater diferentes, eis que temos em Jet Plane and Oxbow não apenas mais um disco a juntar à lista de grandes momentos que janeiro de 2016 nos deu a ouvir (juntamente com David Bowie e Pete Astor), mas uma primeira grande reflexão sobre a América no ano em que se adivinha ali a eleição mais disfuncional de sempre.
Agora, quatro anos depois de um inconsequente Animal Joy, a pausa cobra dividendos ao mostrar finalmente em Jet Plane and Oxbow o momento em que os Shearwater deixam de ser a banda-arrecadação das canções não usadas dos Okkervil River e encontram, por sim, um desafio a cumprir. Cabendo à entrada em cena das electrónicas e de uma nova forma de trabalhar o som os argumentos na base do que de novo depois emerge nas canções que fazem do alinhamento do disco que pode assim discutir com Rook (o paradigma da etapa inicial) o estatuto de álbum mais significativo da carreira (até à data) dos Shearwater.
Que a opção estética, que revela uma busca de pistas em memórias de discos dos Talking Heads nos oitentas, do histórico encontro de Brian Eno com David Byrne em 1981 ou do sentido de elegância com teclados analógicos ao colo que lembramos dos Talk Talk, não nos iluda sobre o que depois representa o disco. Se musicalmente Jonathan Meibug e companheiros olharam para trás para pensar o que fazer adiante, já na hora de pensar o que dizer focaram atenções na América do presente, num álbum profundamente crítico e político que reflete sobre um país dividido, a sua relação com os seus e com os outros. Este é um álbum descrente, desencantado, por vezes quase revoltado com o universo que toma como objeto sobre o qual aqui mais não faz afinal senão um grande disco de protesto. Acende-se assim uma voz atenta, que coloca dedos na ferida, e que emerge curiosamente no Texas, um dos contrafortes políticos da América mais conservadora.
Com um single surpreendente (e bem diferente do que aquilo que até aqui tínhamos associado à banda) em Quiet Americans, a servir de perfeito aperitivo para uns Shearwater diferentes, eis que temos em Jet Plane and Oxbow não apenas mais um disco a juntar à lista de grandes momentos que janeiro de 2016 nos deu a ouvir (juntamente com David Bowie e Pete Astor), mas uma primeira grande reflexão sobre a América no ano em que se adivinha ali a eleição mais disfuncional de sempre.
quinta-feira, dezembro 03, 2015
Novas edições:
The Wainwright Sisters, Songs in the Dark
O hábito de colaborar, trocar canções e juntar ideias e esforços não é coisa invulgar entre as famílias dos manos Wainwright. Há, de resto, várias carreiras a correr entre estas duas mais recentes gerações de músicos. Além do cantor Loudon Wainwright III, que é o elo comum entre Rufus, Martha e a mais nova Lucy, o par feito pelas irmãs Kate e Anna McGarrigle (respetivamente mãe e tia dos dois primeiros) foi referência maior na história da folk canadiana, e a as The Roches, trio ao qual pertence Suzzy Roche (a mãe de Lucy), são um nome conhecido pelo trabalho de harmonias vocais tendo colaborado, entre muitos outros, com Philip Glass no álbum de 1986 Songs From Liquid Days. Após várias parcerias e reuniões em palco ou em disco, que nos deram entre outros álbuns como The McGarrigle Hour ou o disco de Natal The McGarrigle Christmas Hour, um novo par entra em cena, trazendo de resto ecos da (boa) memória das experiências folk da mãe Kate e da tia Anne. As manas Martha e Lucy, ambas já com discografia assinada em nome próprio – a primeira estreou-se em 2002 em Martha Wainwright, a segunda em 2010 com Lucy – estreiam agora o projeto The Wainwright Sisters. E fazem-no num álbum uma vez mais pleno de ressonâncias a memórias familiares.
Fiel a tradições várias dentro do clã McGarrigle/Roche/Wainwright, Songs in the Dark é uma coleção de canções que as duas irmãs tiveram como lullabies que lhes foram em tempos cantadas na hora de dormir. O disco junta um conjunto de 16 canções, todas elas de outros autores que não as duas manas protagonistas, havendo contudo espaço para ligações familiares em momentos que recordam temas dos respetivos pais e mães. O grosso do alinhamento faz-se contudo de uma seleção de temas folk que cruzam ecos da Irlanda com os da América profunda, abrindo outros horizontes geográficos quando cantam El Condor Passa, um tradicional andino, evocado todavia via Simon & Garfunkel.
O disco, que convoca memórias de autores como Irving Berlin, Townes Van Zandt ou Richard Thompson, além de um corpo de peças de raiz tradicional, mantém as abordagens dentro das tonalidades das canções de embalar, a placidez dos jogos vocais das duas irmãs e das suas guitarras acústicas acolhendo discretos arranjos nos quais o leque de cores se alarga às presenças de um piano (interpretado pela tia Anne), baixo (pelo marido de Martha, Brad Albetta, que também foi aqui o engenheiro de som), violino, banjo, harmónica e poucos mais. Rufus, para quem em tempos Lucy fez primeiras partes, está ausente.
Não será um álbum para reinventar a folk. Antes, um espaço de registo de memórias, ao mesmo tempo que garante um passo mais na continuação de hábitos de família. Nada mal em seguir certas tradições. E as manas Wainwright fazem-no bem aqui.
Fiel a tradições várias dentro do clã McGarrigle/Roche/Wainwright, Songs in the Dark é uma coleção de canções que as duas irmãs tiveram como lullabies que lhes foram em tempos cantadas na hora de dormir. O disco junta um conjunto de 16 canções, todas elas de outros autores que não as duas manas protagonistas, havendo contudo espaço para ligações familiares em momentos que recordam temas dos respetivos pais e mães. O grosso do alinhamento faz-se contudo de uma seleção de temas folk que cruzam ecos da Irlanda com os da América profunda, abrindo outros horizontes geográficos quando cantam El Condor Passa, um tradicional andino, evocado todavia via Simon & Garfunkel.
O disco, que convoca memórias de autores como Irving Berlin, Townes Van Zandt ou Richard Thompson, além de um corpo de peças de raiz tradicional, mantém as abordagens dentro das tonalidades das canções de embalar, a placidez dos jogos vocais das duas irmãs e das suas guitarras acústicas acolhendo discretos arranjos nos quais o leque de cores se alarga às presenças de um piano (interpretado pela tia Anne), baixo (pelo marido de Martha, Brad Albetta, que também foi aqui o engenheiro de som), violino, banjo, harmónica e poucos mais. Rufus, para quem em tempos Lucy fez primeiras partes, está ausente.
Não será um álbum para reinventar a folk. Antes, um espaço de registo de memórias, ao mesmo tempo que garante um passo mais na continuação de hábitos de família. Nada mal em seguir certas tradições. E as manas Wainwright fazem-no bem aqui.
sexta-feira, novembro 27, 2015
Novas edições: Baio
“The Names”
Glassnote
4 / 5
Longe dos ritmos de outras eras – nos sessentas lançavam-se muitas vezes dois álbuns por ano, nos setentas e oitentas o ritmo abrandou, mas manteve-se habitualmente coisa anual – os ciclos de vida dos discos fazem com que as longas temporadas de estrada e pausa afastem frequentemente por dois ou três anos entre si a edição de muitos álbuns de estúdio. E com os Vampire Weekend em pousio desde o lançamento do belíssimo Modern Vampires of The City, que os confirmou como uma das mais inspiradas bandas nova-ioquinas dos últimos dez anos, nada como estarmos atentos ao que, em nome próprio, ou entre colaborações, os seus elementos nos vão mostrando. Já encontramos o vocalista Ezra Koenig em várias parcerias, assim como vimos Rostam Batmangilj na pele de produtor ou até mesmo a dividir com Wesley Miles (dos Ra Ra Riot) a breve (mas bem estimulante) vida do projeto paralelo Discovery. Chris Baio, o baixsta do quarteto, tinha já editado alguns EPs em nome próprio. Mas é agora, com o álbum The Names que assinala a sua estreia a solo com um corpo de composições de maior fôlego.
Convém talvez lembrar que as vivências musicais de Chris Baio não se cingem ao universo revelado nos Vampire Weekend e que, antes de ter encontrado a banda entre colegas da Columbia University (onde estudou russo e matemática) tinha já integrado outras bandas e, sobretudo, trabalhado como DJ, apresentando-se como Baio. E foi por aí que começou a desenhar a sua discografia a solo em primeiros EPs editados em 2012 e 2013 onde deixava clara essa vontade em retomar uma relação mais próxima com a música de dança, terreno pouco evidente no universo Vampire Weekend.
Três anos depois dos “primeiros sintomas” revelados em Sunburn, a sua música encaminhou-se para os domínios da canção, mantendo as ferramentas electrónicas numa linha da frente do protagonismo instrumental, embora ensaiando ideias de uma pop mais luminosa, sem necessariamente procurar as soluções mais habituais nas suas experiências de música de dança. The Names é assim um ensaio de uma pop na verdade mais reflexiva que fisicamente expansiva, revelando sobretudo um gosto pela procura de uma assinatura de autor na procura dos sons e no cuidado da sua arrumação. É um disco de canções que escapam a modas e fórmulas, mas que revelam um ecletismo de quem somou experiências e vivências e agora procura entre elas fazer nascer uma voz própria. Há luzes e cores por aqui, uma voz que e molda às canções e que, mesmo sem ser coisa imponente ou nitidamente característica, encontra uma identidade no diálogo cuidado que estabelece entre a composição, a instrumentação e a produção. A leste dos ditados do hype indie e sem preocupações em seguir os sabores do momento em quaisquer outros domínios, e sem procurar uma caução nos Vampire Weekend (mas mantendo o sentido doce e leve da sua música), Baio faz deste The Names uma bela surpresa.
Glassnote
4 / 5
Longe dos ritmos de outras eras – nos sessentas lançavam-se muitas vezes dois álbuns por ano, nos setentas e oitentas o ritmo abrandou, mas manteve-se habitualmente coisa anual – os ciclos de vida dos discos fazem com que as longas temporadas de estrada e pausa afastem frequentemente por dois ou três anos entre si a edição de muitos álbuns de estúdio. E com os Vampire Weekend em pousio desde o lançamento do belíssimo Modern Vampires of The City, que os confirmou como uma das mais inspiradas bandas nova-ioquinas dos últimos dez anos, nada como estarmos atentos ao que, em nome próprio, ou entre colaborações, os seus elementos nos vão mostrando. Já encontramos o vocalista Ezra Koenig em várias parcerias, assim como vimos Rostam Batmangilj na pele de produtor ou até mesmo a dividir com Wesley Miles (dos Ra Ra Riot) a breve (mas bem estimulante) vida do projeto paralelo Discovery. Chris Baio, o baixsta do quarteto, tinha já editado alguns EPs em nome próprio. Mas é agora, com o álbum The Names que assinala a sua estreia a solo com um corpo de composições de maior fôlego.
Convém talvez lembrar que as vivências musicais de Chris Baio não se cingem ao universo revelado nos Vampire Weekend e que, antes de ter encontrado a banda entre colegas da Columbia University (onde estudou russo e matemática) tinha já integrado outras bandas e, sobretudo, trabalhado como DJ, apresentando-se como Baio. E foi por aí que começou a desenhar a sua discografia a solo em primeiros EPs editados em 2012 e 2013 onde deixava clara essa vontade em retomar uma relação mais próxima com a música de dança, terreno pouco evidente no universo Vampire Weekend.
Três anos depois dos “primeiros sintomas” revelados em Sunburn, a sua música encaminhou-se para os domínios da canção, mantendo as ferramentas electrónicas numa linha da frente do protagonismo instrumental, embora ensaiando ideias de uma pop mais luminosa, sem necessariamente procurar as soluções mais habituais nas suas experiências de música de dança. The Names é assim um ensaio de uma pop na verdade mais reflexiva que fisicamente expansiva, revelando sobretudo um gosto pela procura de uma assinatura de autor na procura dos sons e no cuidado da sua arrumação. É um disco de canções que escapam a modas e fórmulas, mas que revelam um ecletismo de quem somou experiências e vivências e agora procura entre elas fazer nascer uma voz própria. Há luzes e cores por aqui, uma voz que e molda às canções e que, mesmo sem ser coisa imponente ou nitidamente característica, encontra uma identidade no diálogo cuidado que estabelece entre a composição, a instrumentação e a produção. A leste dos ditados do hype indie e sem preocupações em seguir os sabores do momento em quaisquer outros domínios, e sem procurar uma caução nos Vampire Weekend (mas mantendo o sentido doce e leve da sua música), Baio faz deste The Names uma bela surpresa.
segunda-feira, novembro 23, 2015
Novas edições:
Robert Forster, Songs to Play
LP, CD e ed. digital Tampete
4 / 5
A caminho de se assinalarem os 35 anos sobre o lançamento de Send Me a Lullaby, o álbum de estreia dos The Go-Betweens, reencontramos Robert Foster, uma das duas forças criativas da banda (a outra, Grant McLennan morreu há já nove anos), a regressar aos discos após um hiato relativamente longo. De resto, desde o seu álbum anterior (The Evangelist, que data de 2008), de Robert Forster o que recebemos de absolutamente novo foi um volume com uma seleção de alguns dos textos que ele tem escrito sobre música desde há algum tempo e que lançou com o título The 10 Rules of Rock and Roll: Collected Music Writings 2005–09, representando todavia o mais expressivo corpo de trabalho destes últimos anos a redação de uma série de memórias com as quais acompanhou a primeira de três caixas antológicas sobre a obra dos Go-Betweens que lançou já este ano.
Songs to Play é um disco bem diferente da coleção de canções claramente assombradas pela perda do amigo Grant McLennan que Forster nos dera a ouvir no disco de 2008. É um álbum mais luminoso, bem humorado, que não esconde um tempo de felicidade e de autoestima em alta e que se revela musicalmente rico em acontecimentos, sem contudo contrariar as marcas de identidades habituais na sua forma de cantar e na característica relação que tem com a guitarra. Este é o álbum que, mesmo mantendo-se mais próximo da identidade introspetiva de Forster do que das visões mais pop e luminosas das canções de McLennan, representa, na obra a solo deste primeiro, o disco que caminha mais perto das heranças pop dos Go-Betweens (sobretudo face aos discos de meados dos oitentas), não faltando ainda aqui frequentes citações ao universo dos Velvet Underground, afinal uma referência que ilumina a sua identidade desde sempre.
O disco mantém presente a forma algo conversada de Robert Forster cantar, num registo que serve brilhantemente uma escrita que sabe contar histórias, retratar figuras e acontecimentos, assim como falar do que se sente e pensa. Musicalmente há sinais de novas experiências, em parte decorrendo do trabalho com novos colaboradores, entre os quais estão elementos dos John Steel Singers (de Brisbane, de onde é natural), que tem produzido, e da sua mulher, a violinista Karin Baumler, assim como do seu filho Louis, a discreta presença de sintetizadores alargando as texturas e cenografias também para além do que nos dera a escutar em discos anteriores. São estes pequenos detalhes que, a cada audição, fazem de Songs to Play um pequeno mundo que vai conquistando um lugar em nós. Para se revelar, ao cabo de estabelecida uma franca familiaridade, num dos melhores episódios da sua obra além dos Go-Betweens.
4 / 5
A caminho de se assinalarem os 35 anos sobre o lançamento de Send Me a Lullaby, o álbum de estreia dos The Go-Betweens, reencontramos Robert Foster, uma das duas forças criativas da banda (a outra, Grant McLennan morreu há já nove anos), a regressar aos discos após um hiato relativamente longo. De resto, desde o seu álbum anterior (The Evangelist, que data de 2008), de Robert Forster o que recebemos de absolutamente novo foi um volume com uma seleção de alguns dos textos que ele tem escrito sobre música desde há algum tempo e que lançou com o título The 10 Rules of Rock and Roll: Collected Music Writings 2005–09, representando todavia o mais expressivo corpo de trabalho destes últimos anos a redação de uma série de memórias com as quais acompanhou a primeira de três caixas antológicas sobre a obra dos Go-Betweens que lançou já este ano.
Songs to Play é um disco bem diferente da coleção de canções claramente assombradas pela perda do amigo Grant McLennan que Forster nos dera a ouvir no disco de 2008. É um álbum mais luminoso, bem humorado, que não esconde um tempo de felicidade e de autoestima em alta e que se revela musicalmente rico em acontecimentos, sem contudo contrariar as marcas de identidades habituais na sua forma de cantar e na característica relação que tem com a guitarra. Este é o álbum que, mesmo mantendo-se mais próximo da identidade introspetiva de Forster do que das visões mais pop e luminosas das canções de McLennan, representa, na obra a solo deste primeiro, o disco que caminha mais perto das heranças pop dos Go-Betweens (sobretudo face aos discos de meados dos oitentas), não faltando ainda aqui frequentes citações ao universo dos Velvet Underground, afinal uma referência que ilumina a sua identidade desde sempre.
O disco mantém presente a forma algo conversada de Robert Forster cantar, num registo que serve brilhantemente uma escrita que sabe contar histórias, retratar figuras e acontecimentos, assim como falar do que se sente e pensa. Musicalmente há sinais de novas experiências, em parte decorrendo do trabalho com novos colaboradores, entre os quais estão elementos dos John Steel Singers (de Brisbane, de onde é natural), que tem produzido, e da sua mulher, a violinista Karin Baumler, assim como do seu filho Louis, a discreta presença de sintetizadores alargando as texturas e cenografias também para além do que nos dera a escutar em discos anteriores. São estes pequenos detalhes que, a cada audição, fazem de Songs to Play um pequeno mundo que vai conquistando um lugar em nós. Para se revelar, ao cabo de estabelecida uma franca familiaridade, num dos melhores episódios da sua obra além dos Go-Betweens.
sexta-feira, setembro 18, 2015
Novas edições:
Ezra Furman, Perpetual Motion Picture
Entre a multidão de discos que surgem todas as semanas – o que é bom a bem da liberdade criativo mas tem os seus custos na capacidade de assimilação por cada par de ouvidos – há frequentemente títulos que escapam à atenção quando saem da toca pela primeira vez. E com os meses do calor para colocar a escrita em dia, eis que finalmente dou de caras com um novo disco de Ezra Furman (editado na Primavera) que, com este Perpetual Motion Picture, nos dá inclusivamente um dos melhores discos que já ouvi este ano.
Natural de Chicago, onde nasceu em 1989 (tem neste momento 29 anos), teve uma primeira banda – Ezra Furman and the Harpoons – com a qual chegou a editar três álbuns entre 2007 e 2011. Após a digressão que acompanhou o terceiro destes discos gravou o relativamente melancólico The Year of No Returning, um álbum a solo que, mesmo sem editora (e a bênção do Kickstarter), lançaria em 2012. Seguiu-se Day of The Dog (2013), já sob um primeiro acordo editorial. Entre ambos os discos afirmava-se uma voz autoral em busca de um caminho no presente, embora claramente herdeira de várias linhas clássicas que nos transportam a memórias intensas e angulosas dos setentas. E agora, na sua estreia pela Bella Union, eis que em Perpetual Motion People alcança aquele momento em que as referências finalmente se mostram definitivamente arrumadas e uma linguagem mais segura e bem definida que suporta um conjunto de temas que, ainda por cima, revelam igualmente um passo em frente por parte do escritor de canções que soube não se repetir.
De horizontes mais alargados que os trilhados pelo disco de 2013, polindo as suas arestas mais abrasivas e abarcando igualmente os territórios menos festivos observados na estreia a solo, Perpertual Motion People é um álbum feito de uma aparente luminosidade na qual as canções de Ezra Furman aprofundam as suas reflexões sobre identidade, ansiedade e um sentido de desenquadramento perante o mundo ao seu redor que tantas vezes se abate sobre quem não se verga aos ditados normativos. Como Michael Hadreas (ou seja Perfume Genius) aqui encontramos uma voz de referência para os misfits do nosso tempo.
Musicalmente Ezra Furman encontra aqui o patamar de entendimento entre um claro encantamento que parece ter pelas memórias do doo wop (como se escuta em Lousy Connection) e de raízes clássicas da cultura rock’n’roll, convocando heranças dos cinquentas e sessentas, juntando o calor do saxofone ao som das guitarras, num conjunto mais eclético que nunca, todavia mais bem estruturado e afinado, lembrando por vezes aquele entusiasmante festim de acontecimentos que sucedia nas canções dos Violent Femmes (bem evidente num Restless Year). Um disco a inscrever entre o que de melhor acontece em terreno indie por estes tempos.
Natural de Chicago, onde nasceu em 1989 (tem neste momento 29 anos), teve uma primeira banda – Ezra Furman and the Harpoons – com a qual chegou a editar três álbuns entre 2007 e 2011. Após a digressão que acompanhou o terceiro destes discos gravou o relativamente melancólico The Year of No Returning, um álbum a solo que, mesmo sem editora (e a bênção do Kickstarter), lançaria em 2012. Seguiu-se Day of The Dog (2013), já sob um primeiro acordo editorial. Entre ambos os discos afirmava-se uma voz autoral em busca de um caminho no presente, embora claramente herdeira de várias linhas clássicas que nos transportam a memórias intensas e angulosas dos setentas. E agora, na sua estreia pela Bella Union, eis que em Perpetual Motion People alcança aquele momento em que as referências finalmente se mostram definitivamente arrumadas e uma linguagem mais segura e bem definida que suporta um conjunto de temas que, ainda por cima, revelam igualmente um passo em frente por parte do escritor de canções que soube não se repetir.
De horizontes mais alargados que os trilhados pelo disco de 2013, polindo as suas arestas mais abrasivas e abarcando igualmente os territórios menos festivos observados na estreia a solo, Perpertual Motion People é um álbum feito de uma aparente luminosidade na qual as canções de Ezra Furman aprofundam as suas reflexões sobre identidade, ansiedade e um sentido de desenquadramento perante o mundo ao seu redor que tantas vezes se abate sobre quem não se verga aos ditados normativos. Como Michael Hadreas (ou seja Perfume Genius) aqui encontramos uma voz de referência para os misfits do nosso tempo.
Musicalmente Ezra Furman encontra aqui o patamar de entendimento entre um claro encantamento que parece ter pelas memórias do doo wop (como se escuta em Lousy Connection) e de raízes clássicas da cultura rock’n’roll, convocando heranças dos cinquentas e sessentas, juntando o calor do saxofone ao som das guitarras, num conjunto mais eclético que nunca, todavia mais bem estruturado e afinado, lembrando por vezes aquele entusiasmante festim de acontecimentos que sucedia nas canções dos Violent Femmes (bem evidente num Restless Year). Um disco a inscrever entre o que de melhor acontece em terreno indie por estes tempos.
terça-feira, agosto 18, 2015
Novas edições:
C Duncan
Chama-se C Duncan, é escocês, e pelo seu álbum de estreia passam canções de travo pastoral e sabor “dream pop” que servem de perfeita banda sonora para estes dias quentes.
Quando se fala no esbatimento de velhas fronteiras entre as tradições da música clássica e os espaços da música popular não devemos escutar apenas exemplos como os que, através de nomes como os de Bryce Dessner (dos The National), Richard Reed Parry (dos Arcade Fire) ou Johnny Greenwood (dos Radiohead), revelam outros universos de referências e exemplos de criação diferentes daqueles a que habituaram parte dos seus seguidores ao apresentar obras suas em programas de música orquestral ou a gravar discos por etiquetas como a Deutsche Grammophon. Há também percursos feitos num outro sentido do mesmo vasto canal de troca de ideias e experiências. E C Duncan (n. 1989), filho de pais com trabalho feito nos universos da música clássica, com educação feita na Royal Scottish Academy of Music (que hoje se apresenta como Royal Conservatoire of Scotland), onde estudou composição, e um início de carreira que viu peças por si compostas a ser interpretadas por vários ensembles em salas de concerto do Reino Unido, apresenta agora um álbum de canções pop que revela não apenas um saber cuidado na construção das canções mas, sobretudo, uma soberba mão-cheia de momentos saborosos que convidam a fazer de Architect um dos mais recomendáveis candidatos a ser o disco-surpresa deste verão.
Tal como em 2012 descobrimos em Diver, o segundo álbum dos norte-americanos Lemonade, e, há cerca de um ano, saboreávamos no álbum de estreia dos Teleman (um novo nome pelo qual se passaram a apresentar os britânicos Peter and the Pirates), Architect é o disco certo na hora certa. Contudo, mais do que qualquer um deles, C Duncan mostra aqui qualidades e um potencial que, tendo a sorte de ser escutado, certamente transformará em novos passos uma carreira que pode ir mais longe.
As canções, que revelam tanto aquela sensação solarenga do fim de tarde quente, como a presença próxima da brisa da maresia, que escutam ecos da folk e de uma alma pastoral mas seguem também os rumos de uma certa dream pop contemporânea, não escondem sonhos de cor e luz (que certamente não haverá em Glasgow) e de uma ordem e arrumação (que nem sempre se traduz na arquitetura e urbanismo das nossas cidades). Nasceram todas elas no quarto do próprio músico, gravadas em etapas, instrumento após instrumento, assegurando o primor de uma discreta mas arrumada produção uma limpidez que faz de Architect um ciclo de canções de formas bem nítidas e sedutoras.
Arranjos bem estruturados, com uma rara variedade de cores instrumentais (dos registos acústicos ao labor elétrico e eletrónico), uma procura de texturas que desenham cenários mas não sufocam a escrita e uma segura prestação vocal que junta vários episódios de cativantes harmonizações fazem de Architect um daqueles raros discos capazes de convocar toda uma série de escolas e memórias sem perder a noção que define banda sonora para uma música do presente. Imaginem se um encontro entre as delicadas cenografias de uma Julianna Barwick, os retratos de praia e sol de um Brian Wilson surgissem nos sonhos de um jovem escocês que, pela música, conseguia sonhar uma fuga ao cinzento plúmbeo que assombra Glasgow. Architect revela um compositor de primeira água e dá-nos 12 canções que servem verdadeiros sonhos de verão para quem acreditar que a banda sonora dos dias mais quentes do ano não é coisa a confiar DJ formatados aos sabores da saison.
Tal como em 2012 descobrimos em Diver, o segundo álbum dos norte-americanos Lemonade, e, há cerca de um ano, saboreávamos no álbum de estreia dos Teleman (um novo nome pelo qual se passaram a apresentar os britânicos Peter and the Pirates), Architect é o disco certo na hora certa. Contudo, mais do que qualquer um deles, C Duncan mostra aqui qualidades e um potencial que, tendo a sorte de ser escutado, certamente transformará em novos passos uma carreira que pode ir mais longe.
As canções, que revelam tanto aquela sensação solarenga do fim de tarde quente, como a presença próxima da brisa da maresia, que escutam ecos da folk e de uma alma pastoral mas seguem também os rumos de uma certa dream pop contemporânea, não escondem sonhos de cor e luz (que certamente não haverá em Glasgow) e de uma ordem e arrumação (que nem sempre se traduz na arquitetura e urbanismo das nossas cidades). Nasceram todas elas no quarto do próprio músico, gravadas em etapas, instrumento após instrumento, assegurando o primor de uma discreta mas arrumada produção uma limpidez que faz de Architect um ciclo de canções de formas bem nítidas e sedutoras.
Arranjos bem estruturados, com uma rara variedade de cores instrumentais (dos registos acústicos ao labor elétrico e eletrónico), uma procura de texturas que desenham cenários mas não sufocam a escrita e uma segura prestação vocal que junta vários episódios de cativantes harmonizações fazem de Architect um daqueles raros discos capazes de convocar toda uma série de escolas e memórias sem perder a noção que define banda sonora para uma música do presente. Imaginem se um encontro entre as delicadas cenografias de uma Julianna Barwick, os retratos de praia e sol de um Brian Wilson surgissem nos sonhos de um jovem escocês que, pela música, conseguia sonhar uma fuga ao cinzento plúmbeo que assombra Glasgow. Architect revela um compositor de primeira água e dá-nos 12 canções que servem verdadeiros sonhos de verão para quem acreditar que a banda sonora dos dias mais quentes do ano não é coisa a confiar DJ formatados aos sabores da saison.
sexta-feira, agosto 07, 2015
Novas edições:
Four Tet
O novo disco do projeto Four Tet propõe a sugestão de percurso através de uma manhã e um fim de tarde, recordando um sentido de liberdade e uma lógica de “programa” escutados na música de outros tempos.
Se viajarmos pouco mais de 40 anos no tempo, rumo ao que eram na altura os primórdios da aventura electrónica em espaços mais próximos da música popular que dos terrenos de criação erudita na qual até então tinha circulado, encontramos frequentemente expressões de uma liberdade formal e de uma relação com o tempo que só não era dada a acontecimentos ainda mais longos porque o limite aproximado dos 20 minutos que a face de um LP sugeria era o limite físico para que todo esse volume de criação fosse materializado em disco. É precisamente a esse modo de pensar a duração da obra que Kieran Hebden regressa ao pensar Morning / Evening, um díptico que não encerra nessa relação com o tempo uma vontade de recuperar ecos de hábitos e demandas nesses tempos em que os Kraftwertk caminhavam rumo a Autobahn, os Tangerine Dream ensaiavam ideias mais nítidas em Phaedra, já com as sugestões do visionário Irrlicht de Klaus Schulze devidamente assimiladas.
Que fique desde já claro que este novo disco que Hebden edita como Four Tet não procura seguir heranças sonoras do krautorock, mas antes um sentido de exploração da noção de duração e de liberdade formal que caracterizava alguma da música de então, o algo esquecido Morgenspaziergang que fechava o alinhamento de Autobahn tendo na verdade algumas afinidades com o que aqui encontramos, sobretudo pelo desejo em sugerir uma cenografia ligada a etapas do dia.
É a partir de uma série de elementos que, pela repetição, vão construindo um corpo que lentamente ganha forma com um travo minimalista que muitos poderão associar ao minimalismo de um Ricardo Villalobos. A voz samplada da diva de Bollywood Lata Magenskhar, que é integrada na matriz e repetida, como um canto que convida ao acordar, confirma o alvor do dia e ilumina a faixa que, com o título Morning, abre o “programa” e ocupa toda a face A do disco (sim, há edição em vinil, naturalmente). É talvez contudo mais envolvente ainda a construção que escutamos em Evening, faixa do lado B na qual um novo “programa” nos acompanha desde um tépido fim e lento de tarde a um mergulho na noite que se desenha aos poucos, acabando por nos conduzir a uma pista de dança onde uma contida ordem house arruma últimas ideias e encerra o retrato deste dia resumido em dois temas e 40 minutos de música.
Se a ideia de retrato ecoa (boas) memórias de uma ideia de música programática que outrora tinha largos discípulos e nos últimos anos do século XX conheceu referência maior em From Gardens Where We Feel Secure (1983), de Virginia Astley – também num díptico desenhado entre uma manhã e uma tarde -, neste novo disco de Four Tet há também um desejo de reencontro de um relacionamento entre as estruturas rítmicas da música de dança – nomeadamente a house – e as sugestões de um terreno “ambiental” que em tempos teve nuns Orb ou Future Sound Of London algumas das suas vozes mais entusiasmantes.
Apesar de abstracto nas expressão de caminhos, há uma clareza no modo como a ideia dos programas (matinal e de fim de tarde) se apresentam, revelando esta música uma capacidade para ser, mais do que apenas um cenário, um corpo vivo que sugere um caminho e provoca sensações. E assim nasce um dos mais cativantes “programas” que a música nos deu a escutar nos últimos anos. Um herdeiro de um La Mer de Debussy, portanto…
Que fique desde já claro que este novo disco que Hebden edita como Four Tet não procura seguir heranças sonoras do krautorock, mas antes um sentido de exploração da noção de duração e de liberdade formal que caracterizava alguma da música de então, o algo esquecido Morgenspaziergang que fechava o alinhamento de Autobahn tendo na verdade algumas afinidades com o que aqui encontramos, sobretudo pelo desejo em sugerir uma cenografia ligada a etapas do dia.
É a partir de uma série de elementos que, pela repetição, vão construindo um corpo que lentamente ganha forma com um travo minimalista que muitos poderão associar ao minimalismo de um Ricardo Villalobos. A voz samplada da diva de Bollywood Lata Magenskhar, que é integrada na matriz e repetida, como um canto que convida ao acordar, confirma o alvor do dia e ilumina a faixa que, com o título Morning, abre o “programa” e ocupa toda a face A do disco (sim, há edição em vinil, naturalmente). É talvez contudo mais envolvente ainda a construção que escutamos em Evening, faixa do lado B na qual um novo “programa” nos acompanha desde um tépido fim e lento de tarde a um mergulho na noite que se desenha aos poucos, acabando por nos conduzir a uma pista de dança onde uma contida ordem house arruma últimas ideias e encerra o retrato deste dia resumido em dois temas e 40 minutos de música.
Se a ideia de retrato ecoa (boas) memórias de uma ideia de música programática que outrora tinha largos discípulos e nos últimos anos do século XX conheceu referência maior em From Gardens Where We Feel Secure (1983), de Virginia Astley – também num díptico desenhado entre uma manhã e uma tarde -, neste novo disco de Four Tet há também um desejo de reencontro de um relacionamento entre as estruturas rítmicas da música de dança – nomeadamente a house – e as sugestões de um terreno “ambiental” que em tempos teve nuns Orb ou Future Sound Of London algumas das suas vozes mais entusiasmantes.
Apesar de abstracto nas expressão de caminhos, há uma clareza no modo como a ideia dos programas (matinal e de fim de tarde) se apresentam, revelando esta música uma capacidade para ser, mais do que apenas um cenário, um corpo vivo que sugere um caminho e provoca sensações. E assim nasce um dos mais cativantes “programas” que a música nos deu a escutar nos últimos anos. Um herdeiro de um La Mer de Debussy, portanto…
quarta-feira, julho 08, 2015
Novas edições: Miguel
"Wildheart"
RCA / Sony Music
4 / 5
O processo de descoberta, aprofundar e demarcar de uma voz criativa tem na sucessão de discos que colocaram o norte-americano Miguel na linha da frente das (merecidas) atenções do nosso tempo uma belo e claro relato de como de uma série de encantamentos e referências que se tomam como ponto de partida se pode rumar a um destino que se alcança com resultados maiores e distintos e no qual, se por um lado se assinala a afirmação de uma nova personalidade num novo tempo, por outro se lembra como nada se faz sob a bênção da geração espontânea. E a história assim dá um pulo e avança. Depois de um primeiro álbum em 2010 que se destacava do universo R&B ao seu redor e de um brilhante Kaleidoscope Dreams que, em 2012, arrebatava entusiasmos e conhecia aclamação em diversas frentes da opinião, eis que acrescenta agora no magnífico Wildheart a peça em falta para não só confirmar a solidez de um projeto de carreira já com fundações bem firmes mas também aprofundar a visão de facto caleidoscópica que procura para uma música que, se por um lado não deixa nunca de ser herdeira de escolas e vivências R&B e algumas das suas descendências e periferias, a elas sabe somar ideias, cores e acontecimentos…
Se no álbum de 2012 os sinais de (bom) alerta não se limitavam à excelência da composição, produção, instrumentação e voz, mas sublinhavam numa breve incursão pela memória deTime of The Season dos Zombies que aqui havia uma alma atenta ao mais vasto universo de referências na história recente da música popular, agora assinala a integração mais profunda da mesma forma de escutar e assimilar ideias, mesmo que aparentemente distantes do universo ao seu redor enriquecendo assim um ainda mais saboroso e estimulante infinito particular.
Lembro-me necessariamente de sensações semelhantes – que não são para ler como comparação de sonoridades mas antes de um saber olhar para outros planos, nomeadamente os da cultura pop/rock – naquele tempo em que Prince era um dos mais inspirados músicos do mundo. Há de resto em Wildheart uma mesma capacidade em trazer a um mesmo lugar todo um conjunto de experiências que se transformam em canções com uma identidade conjunta que suplanta a soma das partes que a alimentaram, como em tempo escutámos no muitas vezes injustamente esquecido Around The World In a Day (1985), o álbum caleidoscópico de Prince no qual antecipou, via Minneapolis, uma vaga de sede de redescobertas por heranças do psicadelismo que o mundo só seguiria em massa uns quatro anos depois. Será também Miguel um líder de uma nova mensagem? Não me parece que seja essa a sua demanda…
Tal como Prince, embora sob uma aura pessoal diferente e vivendo num tempo em que o fosso que separa os fazedores de êxitos de estrondo global dos que, mesmo sob sucesso, operam sob as suas regras e não os sabores do mês, Miguel talvez seja mais um caso aparte que um batedor. E ao escutar Wildheart fica clara a profunda ligação pessoal que talha não só esta abertura a várias frentes musicais – onde as batidas (que não são protagonistas) convivem com guitarras, teclados, o gosto cenográfico e mesmo pontual incursão pelo hip hop – como é evidente a forma como aqui expressa um relacionamento com um lugar. E esse lugar é Los Angeles, que se materializa na forma como respira vivências da cidade e pelas palavras e música expressa uma diversidade que ali se manifesta de uma forma peculiar, até mesmo nos modos de traduzir a carga sensual e sexual que passa por canções sublimes como FLESH ou The Valley (esta citando claramente a indústria porno local).
É certo que não há aqui um Adorn, aquele raro single que abria o alinhamento de Kaleidoscope Dream como um irresistível cartão de visita ao qual era difícil resistir. Mas mesmo sem singles tão evidentes – embora não faltem aqui outras boas propostas – Wildheart apresenta um trabalho musicalmente coeso e consistente, num alinhamento que lembra como, mesmo com oráculos a clamar pelo desaparecimento do conceito do “álbum”, a ideia de uma coleção de canções que se relacionam entre si está longe de ter abandonado os músicos e quem os escuta. De resto, depois de ter já ouvido tanta gente a dizer que o vinil tinha desaparecido ou que a ópera era coisa do passado, aprendi que mais vale estar atento ao desenrolar dos acontecimentos que lançar frases bombásticas que colocam ponto final a frases ainda longe de concluídas.
RCA / Sony Music
4 / 5
O processo de descoberta, aprofundar e demarcar de uma voz criativa tem na sucessão de discos que colocaram o norte-americano Miguel na linha da frente das (merecidas) atenções do nosso tempo uma belo e claro relato de como de uma série de encantamentos e referências que se tomam como ponto de partida se pode rumar a um destino que se alcança com resultados maiores e distintos e no qual, se por um lado se assinala a afirmação de uma nova personalidade num novo tempo, por outro se lembra como nada se faz sob a bênção da geração espontânea. E a história assim dá um pulo e avança. Depois de um primeiro álbum em 2010 que se destacava do universo R&B ao seu redor e de um brilhante Kaleidoscope Dreams que, em 2012, arrebatava entusiasmos e conhecia aclamação em diversas frentes da opinião, eis que acrescenta agora no magnífico Wildheart a peça em falta para não só confirmar a solidez de um projeto de carreira já com fundações bem firmes mas também aprofundar a visão de facto caleidoscópica que procura para uma música que, se por um lado não deixa nunca de ser herdeira de escolas e vivências R&B e algumas das suas descendências e periferias, a elas sabe somar ideias, cores e acontecimentos…
Se no álbum de 2012 os sinais de (bom) alerta não se limitavam à excelência da composição, produção, instrumentação e voz, mas sublinhavam numa breve incursão pela memória deTime of The Season dos Zombies que aqui havia uma alma atenta ao mais vasto universo de referências na história recente da música popular, agora assinala a integração mais profunda da mesma forma de escutar e assimilar ideias, mesmo que aparentemente distantes do universo ao seu redor enriquecendo assim um ainda mais saboroso e estimulante infinito particular.
Lembro-me necessariamente de sensações semelhantes – que não são para ler como comparação de sonoridades mas antes de um saber olhar para outros planos, nomeadamente os da cultura pop/rock – naquele tempo em que Prince era um dos mais inspirados músicos do mundo. Há de resto em Wildheart uma mesma capacidade em trazer a um mesmo lugar todo um conjunto de experiências que se transformam em canções com uma identidade conjunta que suplanta a soma das partes que a alimentaram, como em tempo escutámos no muitas vezes injustamente esquecido Around The World In a Day (1985), o álbum caleidoscópico de Prince no qual antecipou, via Minneapolis, uma vaga de sede de redescobertas por heranças do psicadelismo que o mundo só seguiria em massa uns quatro anos depois. Será também Miguel um líder de uma nova mensagem? Não me parece que seja essa a sua demanda…
Tal como Prince, embora sob uma aura pessoal diferente e vivendo num tempo em que o fosso que separa os fazedores de êxitos de estrondo global dos que, mesmo sob sucesso, operam sob as suas regras e não os sabores do mês, Miguel talvez seja mais um caso aparte que um batedor. E ao escutar Wildheart fica clara a profunda ligação pessoal que talha não só esta abertura a várias frentes musicais – onde as batidas (que não são protagonistas) convivem com guitarras, teclados, o gosto cenográfico e mesmo pontual incursão pelo hip hop – como é evidente a forma como aqui expressa um relacionamento com um lugar. E esse lugar é Los Angeles, que se materializa na forma como respira vivências da cidade e pelas palavras e música expressa uma diversidade que ali se manifesta de uma forma peculiar, até mesmo nos modos de traduzir a carga sensual e sexual que passa por canções sublimes como FLESH ou The Valley (esta citando claramente a indústria porno local).
É certo que não há aqui um Adorn, aquele raro single que abria o alinhamento de Kaleidoscope Dream como um irresistível cartão de visita ao qual era difícil resistir. Mas mesmo sem singles tão evidentes – embora não faltem aqui outras boas propostas – Wildheart apresenta um trabalho musicalmente coeso e consistente, num alinhamento que lembra como, mesmo com oráculos a clamar pelo desaparecimento do conceito do “álbum”, a ideia de uma coleção de canções que se relacionam entre si está longe de ter abandonado os músicos e quem os escuta. De resto, depois de ter já ouvido tanta gente a dizer que o vinil tinha desaparecido ou que a ópera era coisa do passado, aprendi que mais vale estar atento ao desenrolar dos acontecimentos que lançar frases bombásticas que colocam ponto final a frases ainda longe de concluídas.
quinta-feira, junho 25, 2015
Novas edições: FFS
"FFA"
Domino / Popstock
4 / 5
FFS mostra quão fértil pode ser o diálogo quando falta a voz ao monólogo. E conjunto de 12 canções serve um bálsamo aos admiradores de ambas as bandas num alinhamento de canções que cruzam formas e épocas, doseiam personalidades e ideias, sendo mais presente (ou pelo menos mais impositivo) o fulgor com que os Sparks sempre encararam as suas canções, a angulosidade dos Franz Ferdinand não estando contudo toldada, a soma revelando afinal a alma compósita que justifica em pleno a ideia de colaboração que, ao contrário do que parodia a canção que incluem quase no final do disco – Colaborations Don’t Work -, funciona. E muito bem.
O alinhamento abre ao som de Johnny Delusional, canção pop perfeita que reacende a luminosidade clássica dos Sparks, é o perfeito cartão de visita para nos dar a conhecer este encontro, definindo um patamar de diálogo que será talvez mais equidistante de ambos os protagonistas um pouco mais adiante, em Save Me From Myself. Mesmo mostrando Call Girl ou So Desu Ne uma proximidade maior aos registos mais habituais de Kapranos e companhia ou mostrando The Power Couple ou Colaborations Don’t Work um claro posicionamento entre os terrenos dos manos Mael, o álbum procura de facto a diluição de contribuições, o que é facilitado pela alma pop, o bom humor e a inteligência que sempre habitou a essência da alma dos dois grupos. As peculiaridades vocais de Russel Mael e o gosto barroco dos arranjos mais habituais nos Sparks acabam por vezes a destacar-se, não se notando contudo aqui ecos de guerras de egos. Pela música passa um entendimento como por vezes nem dentro de uma mesma banda se faz notar. O resultado é um disco pop de fôlego clássico, um álbum bem disposto e até mesmo divertido. Para almas bem dispostas eis que está encontrada uma das melhores propostas para a banda sonora deste verão.
sexta-feira, junho 19, 2015
Novas edições: Hot Chip
"What Makes Sense"
Domino Records
3 / 5
Lançando um primeiro olhar sobre a discografia dos Hot Chip notamos, além de uma capacidade em resistir ao tempo – já vão num sexto álbum -, uma expressiva sucessão de canções que moram entre os melhores momentos que a pop feita com electrónicas e vontade de dançar nos deu a ouvir nos últimos anos. Porém, será que conseguimos apontar a algum álbum do grupo essa mesma capacidade em se inscrever entre os mais marcantes do seu tempo. Nem por isso, é verdade, o mais próximo de ter atingido semelhante estatuto sendo talvez The Warning, o segundo que editaram, lançado em 2006. Já One Night Stand (de 2010) que guarda algumas das melhores canções dos Hot Chip, foi uma relativa desilusão como álbum, revelando grandes disparidades entre os grandes singles e temas menores que depois ali coabitavam. Why Makes Sense surge quatro anos após o menor (em ideias e feitos) In Our Heads e sucede a experiências relativamente mais interessantes em projetos em paralelo, dos 2 Bears à carreira a solo de Alexis Taylor. Huarache Lights, lançado como single de avanço há algumas semanas, não podia ter sido melhor cartão de visita, revelando uma canção com luminosidade pop e viço dançável ao nível dos clássicos maiores dos Hot Chip. O álbum, não sendo uma desilusão, não está nunca ao nível desse primeiro avanço. É mesmo assim um dos mais seguros conjuntos de canções da obra dos Hot Chip, revelando sinais de algum classicismo pop na escrita da canções (em Dark Night) e ecos de referências em alguma pop dos oitentas, como se escuta em Easy to Get ou Started Right (esta com um refrão que lembra uns Level 42, o que não sei se será grande ideia…). Há convidados de peso, como Posdnuos dos De La Soul (em Love is the Future, onde o grupo cede à ordem deep house revivalista do momento) ou de Bernard Flower em Need You Know, versão de um original com assinatura Sinnamon, que sugere ecos terrenos de visões house abertos entre finais dos oitentas e inícios dos noventas. No tema título, que encerra o alinhamento, reencontram a excelência pop do single de avanço. Mas mesmo entre alguns belos momentos, What Makes Sense está longe de ser o disco memorável que os Hot Chip tardam em fazer. Esperamos que, mesmo assim, o álbum não seja reduzido à brilhante ideia de design gráfico que usa como capa.
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
Domino Records
3 / 5
Lançando um primeiro olhar sobre a discografia dos Hot Chip notamos, além de uma capacidade em resistir ao tempo – já vão num sexto álbum -, uma expressiva sucessão de canções que moram entre os melhores momentos que a pop feita com electrónicas e vontade de dançar nos deu a ouvir nos últimos anos. Porém, será que conseguimos apontar a algum álbum do grupo essa mesma capacidade em se inscrever entre os mais marcantes do seu tempo. Nem por isso, é verdade, o mais próximo de ter atingido semelhante estatuto sendo talvez The Warning, o segundo que editaram, lançado em 2006. Já One Night Stand (de 2010) que guarda algumas das melhores canções dos Hot Chip, foi uma relativa desilusão como álbum, revelando grandes disparidades entre os grandes singles e temas menores que depois ali coabitavam. Why Makes Sense surge quatro anos após o menor (em ideias e feitos) In Our Heads e sucede a experiências relativamente mais interessantes em projetos em paralelo, dos 2 Bears à carreira a solo de Alexis Taylor. Huarache Lights, lançado como single de avanço há algumas semanas, não podia ter sido melhor cartão de visita, revelando uma canção com luminosidade pop e viço dançável ao nível dos clássicos maiores dos Hot Chip. O álbum, não sendo uma desilusão, não está nunca ao nível desse primeiro avanço. É mesmo assim um dos mais seguros conjuntos de canções da obra dos Hot Chip, revelando sinais de algum classicismo pop na escrita da canções (em Dark Night) e ecos de referências em alguma pop dos oitentas, como se escuta em Easy to Get ou Started Right (esta com um refrão que lembra uns Level 42, o que não sei se será grande ideia…). Há convidados de peso, como Posdnuos dos De La Soul (em Love is the Future, onde o grupo cede à ordem deep house revivalista do momento) ou de Bernard Flower em Need You Know, versão de um original com assinatura Sinnamon, que sugere ecos terrenos de visões house abertos entre finais dos oitentas e inícios dos noventas. No tema título, que encerra o alinhamento, reencontram a excelência pop do single de avanço. Mas mesmo entre alguns belos momentos, What Makes Sense está longe de ser o disco memorável que os Hot Chip tardam em fazer. Esperamos que, mesmo assim, o álbum não seja reduzido à brilhante ideia de design gráfico que usa como capa.
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
sexta-feira, junho 05, 2015
Novas edições:
Leonard Cohen
"Can’t Forget: A Souvenir of The Grand Tour"
Sony Music
Numa época na qual muitos consumos na cultura popular valorizam sobretudo os valores da novidade imediata, a próxima chegando logo a seguir em regime rei morto rei posto, a perenidade e vitalidade obra de veteranos como Bob Dylan, David Bowie, Tom Waits ou Leonard Cohen são verdadeiros bálsamos, muitas vezes traduzindo mais verdade e frescura que tantas novidades fabricadas ao jeito dos sabores do momento (e que logo serão esquecidas mal mude o azimute dos paladares). Em 2014, aos 80 anos, apresentou o álbum de estúdio Popular Problems no qual ficou claro que ainda tem histórias para contar e até mesmo desejos em, alguns instantes, explorar musicalmente novos desafios. Ainda em 2014 lançou depois o disco ao vivo Live in Dublin. Agora, um ano depois, em Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour, revela-se uma outra face do seu trabalho num disco que traz registos captados durante a sua mais recente (e longa) digressão.
Se por um lado este é já o quarto título nascido de registos gravados durante a digressão, por outro Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour é um álbum diferente uma vez que junta a instantes de concertos, alguns outros momentos captados durante soundchecks, havendo assim ali um espaço para experimentar ideias antes de as mostrar frente a uma plateia. Se por um lado há aqui um ou outro velho clássico – como Field Commander Cohen, com um cheirinho de Rhum and Coca Cola, o velho clássico de 1945 das Andrews Sisters – os acepipes mais desejados entre o alinhamento do novo disco são dois temas nunca antes mostrados em disco e versões de La Manic de Georges Dor e Choices, de George Jones. Never Gave Nobody Trouble, um blues em tons próximos de alguns instantes de Popular Problems, o também novo Got A Little Secret (em tempero R&B clássico) e uma nova leitura de Joan of Arc, gravados em ensaios, são tesouros maiores de um alinhamento que justifica a soma de mais um título na discografia de Cohen.
As suas palavras ocasionais, de contador de histórias bem humorado, juntam a dada altura instantes igualmente memoráveis a este conjunto de gravações. Nos últimos anos habituámo-nos a esperar mais a surpresa e menos o silêncio de um vulto que teima (felizmente) em não baixar braços e a sair de cena. Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour tem tudo menos o tom de despedida que em tempos julgávamos estar registado no álbum Old Ideas ou na primeira coleção de gravações nascida da digressão que depois o devolveu à estrada (com várias e bem sucedidas visitas a estes lados). Ou seja, ficamos à espera das cenas dos próximos capítulos…
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
Sony Music
Numa época na qual muitos consumos na cultura popular valorizam sobretudo os valores da novidade imediata, a próxima chegando logo a seguir em regime rei morto rei posto, a perenidade e vitalidade obra de veteranos como Bob Dylan, David Bowie, Tom Waits ou Leonard Cohen são verdadeiros bálsamos, muitas vezes traduzindo mais verdade e frescura que tantas novidades fabricadas ao jeito dos sabores do momento (e que logo serão esquecidas mal mude o azimute dos paladares). Em 2014, aos 80 anos, apresentou o álbum de estúdio Popular Problems no qual ficou claro que ainda tem histórias para contar e até mesmo desejos em, alguns instantes, explorar musicalmente novos desafios. Ainda em 2014 lançou depois o disco ao vivo Live in Dublin. Agora, um ano depois, em Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour, revela-se uma outra face do seu trabalho num disco que traz registos captados durante a sua mais recente (e longa) digressão.
Se por um lado este é já o quarto título nascido de registos gravados durante a digressão, por outro Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour é um álbum diferente uma vez que junta a instantes de concertos, alguns outros momentos captados durante soundchecks, havendo assim ali um espaço para experimentar ideias antes de as mostrar frente a uma plateia. Se por um lado há aqui um ou outro velho clássico – como Field Commander Cohen, com um cheirinho de Rhum and Coca Cola, o velho clássico de 1945 das Andrews Sisters – os acepipes mais desejados entre o alinhamento do novo disco são dois temas nunca antes mostrados em disco e versões de La Manic de Georges Dor e Choices, de George Jones. Never Gave Nobody Trouble, um blues em tons próximos de alguns instantes de Popular Problems, o também novo Got A Little Secret (em tempero R&B clássico) e uma nova leitura de Joan of Arc, gravados em ensaios, são tesouros maiores de um alinhamento que justifica a soma de mais um título na discografia de Cohen.
As suas palavras ocasionais, de contador de histórias bem humorado, juntam a dada altura instantes igualmente memoráveis a este conjunto de gravações. Nos últimos anos habituámo-nos a esperar mais a surpresa e menos o silêncio de um vulto que teima (felizmente) em não baixar braços e a sair de cena. Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour tem tudo menos o tom de despedida que em tempos julgávamos estar registado no álbum Old Ideas ou na primeira coleção de gravações nascida da digressão que depois o devolveu à estrada (com várias e bem sucedidas visitas a estes lados). Ou seja, ficamos à espera das cenas dos próximos capítulos…
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
quinta-feira, maio 14, 2015
Novas edições: Calexico
“Edge of The Sun”
City Slang / Popstock
4 / 5
Tucson é uma relativamente discreta cidade no sul do Arizona, com o deserto em volta e a fronteira de Nogales não muito distante. É um lugar onde das paisagens nasce uma sensação de familiaridade com a desolação das histórias de pioneiros do velho oeste. Mas é também um lugar como tantos outros que, perto de fronteiras, são espaço onde as linhas que demarcam política e geograficamente os territórios são de uma nitidez que contrasta com a forma como as realidades culturais de ambos os lados acabam inevitavelmente por dialogar. É dali que nos chegam os Calexico, cuja obra – que está a caminho de soprar as vinte velas – traduz de facto as marcas de uma cultura raiana, brotando de uma alma americana, mas frequentemente exibindo ecos de uma assimilação de marcas da cultura mexicana com o sentido de verdade de quem sabe bem do que está a falar. Porque, afinal, mais que os russos que Sarah Palin achava que via da porta do seu quintal (no Alasca), a cultura mexicana habita toda aquela região.
Três anos depois de Algiers, álbum de estúdio nascido na região de New Orleans, eis que surge Edge of The Sun, álbum que em tudo se enquadra numa lógica de continuidade face à obra anterior do grupo e que, mais até que em muitos outros episódios seus, é um disco que convive profundamente com o México. Antes de essencialmente gravado, entre Los Angeles e Athens (da Georgia), o disco conheceu um período de busca de ideias e inspiração numa viagem de dez dias a Coyoacán, um bairro na cidade do México. Dali Joey Burns e John Covertino trouxeram ideias e imagens das quais emergiram depois as canções (e as histórias) que agora escutamos.
Edge of The Sun é um bom exemplo da maioridade de uma música que assenta raízes sobre o universo americana – e de toda uma melancolia que muitas vezes, como o vento, corre sobre estas referências – mas busca na expressão da cultura raiana não um sentido de exotismo geográfico, mas uma marca de uma genética real que serve as narrativas e garante uma luminosidade que varre o alinhamento. Há instantes onde a música que chega do México toma o protagonismo, mas há mais aqui que um diálogo de culturas e um jogo de cenários. Há uma assimilação de dados que correm em ambos os sentidos, que jogam em favor de canções que tanto assimilam essa ideia de diálogo de culturas como cruza paisagens instrumentais de tempos e origens diferentes. Um bom exemplo da identidade mestiça que aqui emerge escuta-se em Cumbia de Donde, onde a tradição não esconde a presença de discretas, mas importantes, electrónicas. Ou Miles From The Sea ou Tapping on The Line (aqui com a presença vocal de Neko Case) que sublinham quão central a este universo é toda a tradição americana. Um dos mais belos álbuns dos Calexico, Edge of The Sun não parece preocupado em marcar uma agenda de novos caminhos ou aventuras. Aceita antes nas marcas de identidade, numa consciência do aqui e do agora, nos jogos de cruzamentos que noz fazem ser quem somos, os pontos de partida para mais uma exemplar coleção de canções que contam depois com o valor acrescentado das contribuições, não apenas de Neko Case, mas também de elementos dos Band of Horses e Iron & Wine. O disco tem o sabor de um filme, de tão visuais e pungentes que são as sugestões que fazem esta música. Continuam num bom caminho, portanto. Quantas bandas o conseguem fazer ao cabo de duas décadas de trabalho?
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
City Slang / Popstock
4 / 5
Tucson é uma relativamente discreta cidade no sul do Arizona, com o deserto em volta e a fronteira de Nogales não muito distante. É um lugar onde das paisagens nasce uma sensação de familiaridade com a desolação das histórias de pioneiros do velho oeste. Mas é também um lugar como tantos outros que, perto de fronteiras, são espaço onde as linhas que demarcam política e geograficamente os territórios são de uma nitidez que contrasta com a forma como as realidades culturais de ambos os lados acabam inevitavelmente por dialogar. É dali que nos chegam os Calexico, cuja obra – que está a caminho de soprar as vinte velas – traduz de facto as marcas de uma cultura raiana, brotando de uma alma americana, mas frequentemente exibindo ecos de uma assimilação de marcas da cultura mexicana com o sentido de verdade de quem sabe bem do que está a falar. Porque, afinal, mais que os russos que Sarah Palin achava que via da porta do seu quintal (no Alasca), a cultura mexicana habita toda aquela região.
Três anos depois de Algiers, álbum de estúdio nascido na região de New Orleans, eis que surge Edge of The Sun, álbum que em tudo se enquadra numa lógica de continuidade face à obra anterior do grupo e que, mais até que em muitos outros episódios seus, é um disco que convive profundamente com o México. Antes de essencialmente gravado, entre Los Angeles e Athens (da Georgia), o disco conheceu um período de busca de ideias e inspiração numa viagem de dez dias a Coyoacán, um bairro na cidade do México. Dali Joey Burns e John Covertino trouxeram ideias e imagens das quais emergiram depois as canções (e as histórias) que agora escutamos.
Edge of The Sun é um bom exemplo da maioridade de uma música que assenta raízes sobre o universo americana – e de toda uma melancolia que muitas vezes, como o vento, corre sobre estas referências – mas busca na expressão da cultura raiana não um sentido de exotismo geográfico, mas uma marca de uma genética real que serve as narrativas e garante uma luminosidade que varre o alinhamento. Há instantes onde a música que chega do México toma o protagonismo, mas há mais aqui que um diálogo de culturas e um jogo de cenários. Há uma assimilação de dados que correm em ambos os sentidos, que jogam em favor de canções que tanto assimilam essa ideia de diálogo de culturas como cruza paisagens instrumentais de tempos e origens diferentes. Um bom exemplo da identidade mestiça que aqui emerge escuta-se em Cumbia de Donde, onde a tradição não esconde a presença de discretas, mas importantes, electrónicas. Ou Miles From The Sea ou Tapping on The Line (aqui com a presença vocal de Neko Case) que sublinham quão central a este universo é toda a tradição americana. Um dos mais belos álbuns dos Calexico, Edge of The Sun não parece preocupado em marcar uma agenda de novos caminhos ou aventuras. Aceita antes nas marcas de identidade, numa consciência do aqui e do agora, nos jogos de cruzamentos que noz fazem ser quem somos, os pontos de partida para mais uma exemplar coleção de canções que contam depois com o valor acrescentado das contribuições, não apenas de Neko Case, mas também de elementos dos Band of Horses e Iron & Wine. O disco tem o sabor de um filme, de tão visuais e pungentes que são as sugestões que fazem esta música. Continuam num bom caminho, portanto. Quantas bandas o conseguem fazer ao cabo de duas décadas de trabalho?
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
quinta-feira, março 26, 2015
Novas edições:
Courtney Barnett
“Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit”
CD, Marathon Artists / Popstock
4 / 5
CD, Marathon Artists / Popstock
4 / 5
Estará na hora de juntar uma nova voz a um grupo seleto de vozes femininas que usam o saber da palavra e a angulosidade da guitarra para desenhar canções que são expressão do que somos e do tempo em que vivemos? Talvez seja cedo para conclusões de longo prazo, mas a verdade é que depois de promissores EPs lançados ao longo dos dois últimos anos, a estreia em álbum da australiana Courtney Barnett não só confirma em pleno as melhores expectativas como nos coloca perante um dos melhores discos que a cultura rock nos mostrou nos últimos tempos (e convenhamos que tem sido departamento em relativa dieta de boas ideias nos anos mais recentes).
O cativante, bem humorado e longo título Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit sugere que há talvez aqui alguém que pense mais que apenas se sente sem pensar. E é na força dos jogos de palavras, que escutamos por uma voz entre o falado e cantado, que com bom humor e também a crua franqueza com que nos diz que se a pusermos num pedestal nos vai desiludir, que pode residir uma primeira abordagem a um conjunto de canções das quais, audição após audição, surge precisamente a ideia do contrário do alerta lançado. Ou seja: não desapontam (mas vale a pena não a colocar já num pedestal, que há ainda muita estrada e conquistas pela frente). Nota-se sobretudo um saber de contador de histórias, tendo já havido que a apontasse como continuadora de uma escola (também vinda daqueles lados do mundo) que teve os Go Betweens – ou seja a dupla Grant e McLennan – como referência maior (e que responsabilidade nesta comparação!).
Musicalmente o disco não foge ao que os EPs já conhecidos sugeriam (e aí afasta-se do terreno dos criadores de Cattle and Cane). Ou seja, há por aqui ecos de uma formação feita entre heranças do grunge e de uma certa luminosidade brit pop (não deixo de pensar nas Elastica ao escutar Pedestrian at Best ou nuns Sleeper ao ouvir Aqua Profunda!) e em Debbie Downer há mesmo umas teclas subtis com alma vintage que lembram a ingenuidade pop da new wave de primeira geração). Há também aquele tom desencantado na relação do canto com a guitarra que Patti Smith ou PJ Harvey assimilaram e transformaram cada qual na sua voz. E há sobretudo sinais de não alinhamento nas muitas micro-tendências dos caminhosindie recentes. Courtney Barnett tem a sua voz, as suas memórias, conta as suas histórias e estas são as suas canções.
As canções revelam uma alma inteligente, atenta e capaz de escrever pequenos retratos do mundano desinteressante do nosso tempo e comentários sobre pequenos nadas na forma de canções simples e diretas. O alinhamento de Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit foge (sem a intenção de mostrar que está a fugir) aos sabores do momento. Cruza uma intemporalidade rock’n’roll com um gosto vintage por referências da cultura elétrica de finais do século XX. Ao contrário do que o título sugere, o rock aqui levanta-se da cadeira, vibra e pensa.
Courtney Barnett é nome a acompanhar com atenção e este álbum é um dos melhores cartões de visita em clima rock que o ano escutou neste primeiro trimestre.
O cativante, bem humorado e longo título Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit sugere que há talvez aqui alguém que pense mais que apenas se sente sem pensar. E é na força dos jogos de palavras, que escutamos por uma voz entre o falado e cantado, que com bom humor e também a crua franqueza com que nos diz que se a pusermos num pedestal nos vai desiludir, que pode residir uma primeira abordagem a um conjunto de canções das quais, audição após audição, surge precisamente a ideia do contrário do alerta lançado. Ou seja: não desapontam (mas vale a pena não a colocar já num pedestal, que há ainda muita estrada e conquistas pela frente). Nota-se sobretudo um saber de contador de histórias, tendo já havido que a apontasse como continuadora de uma escola (também vinda daqueles lados do mundo) que teve os Go Betweens – ou seja a dupla Grant e McLennan – como referência maior (e que responsabilidade nesta comparação!).
Musicalmente o disco não foge ao que os EPs já conhecidos sugeriam (e aí afasta-se do terreno dos criadores de Cattle and Cane). Ou seja, há por aqui ecos de uma formação feita entre heranças do grunge e de uma certa luminosidade brit pop (não deixo de pensar nas Elastica ao escutar Pedestrian at Best ou nuns Sleeper ao ouvir Aqua Profunda!) e em Debbie Downer há mesmo umas teclas subtis com alma vintage que lembram a ingenuidade pop da new wave de primeira geração). Há também aquele tom desencantado na relação do canto com a guitarra que Patti Smith ou PJ Harvey assimilaram e transformaram cada qual na sua voz. E há sobretudo sinais de não alinhamento nas muitas micro-tendências dos caminhosindie recentes. Courtney Barnett tem a sua voz, as suas memórias, conta as suas histórias e estas são as suas canções.
As canções revelam uma alma inteligente, atenta e capaz de escrever pequenos retratos do mundano desinteressante do nosso tempo e comentários sobre pequenos nadas na forma de canções simples e diretas. O alinhamento de Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit foge (sem a intenção de mostrar que está a fugir) aos sabores do momento. Cruza uma intemporalidade rock’n’roll com um gosto vintage por referências da cultura elétrica de finais do século XX. Ao contrário do que o título sugere, o rock aqui levanta-se da cadeira, vibra e pensa.
Courtney Barnett é nome a acompanhar com atenção e este álbum é um dos melhores cartões de visita em clima rock que o ano escutou neste primeiro trimestre.
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
quinta-feira, março 12, 2015
Novas edições:
Dutch Uncles
“O Shudder”
CD Memphis Industries / Popstock
CD Memphis Industries / Popstock
4 / 5
Num mundo tão cheio de tantos discos há sempre aqueles que injustamente vão ficando para trás, adiando o momento da sua (re)descoberta ou de um outro melhor momento para um contacto mais bem sucedido com os seus autores… Vejamos os Japan… Editaram dois álbuns nos anos 70 sem que ninguém neles reparasse. Mais dois em 1980 sob discreta atenção. E quando, em 1981, editam a sua obra-prima Tin Drum, a coisa chegou com um “boa noite e muito obrigado”, partindo David Sylvian para uma das mais brilhantes carreiras a solo do nosso tempo e os demais músicos para aventuras mais ou menos cativantes, os Japan deixando uma obra que o tempo aprendeu a tomar como referencia maior do seu tempo (OK, os dois álbuns de 1978 são mais curiosidade de uma banda ainda sem bússola afinada, mas contam a primeira parte de uma história ímpar da pop de então).
Não é por acaso que falo dos Japan na hora de falar sobre os Dutch Uncles. Não pelo berço made in UK (os Dutch Uncles são de uma pequena cidade na zona da grande Manchester, ao passo que os Japan eram do sul de Londres). Nem apenas pelo facto de terem já editado três álbuns antes daquele que hoje nos faz deles falar. Mas porque há na sua música um gosto pelo labor de ideias, criando canções de algumas complexidade formal que, todavia, e tal como na etapa final da obra dos Japan, não evitam nunca a forma “clássica” de arrumar os elementos da canção. Este é um argumento que se manifesta a um nível estrutural na forma de pensar a canção já que, entre discos de uma Kate Bush – etapa de inícios dos oitentas – ou Talking Heads encontramos sugestões mais próximas da sonoridade com que os Dutch Uncles agora se apresentam.
Há assim um antes a ter em conta antes deste surpreendente Oh Shudder. Num clima pop/rock anguloso, com guitarras herdadas de memórias pos-punk encetaram em 2009 uma discografia com Dutch Uncles, evoluindo em continuidade no seguinte Candenza (2011) mas sugerindo desejos de busca de novos rumos no bem mais interessante Out Of Touch In The Wild (de 2013). É nesse álbum de 2013 que ganha protagonismo outra ordem instrumental, abrindo o caminho a uma mais evidente manifestação de cores e linhas desenhadas com electrónicas, com ocasionais presenças de madeiras e sem esquecer a mais clássica presença de guitarras, pianos e percussões. As canções exploram agora novas potencialidades que um labor mais exigente na instrumentação pode levar à canção, juntando à (relativa) invulgaridade da voz aguda de Duncan Wallis uma paleta de tons e luzes que instalam no ouvinte uma perplexidade inicial que rapidamente cede lugar a um relacionamento de atenção para com o detalhe e progressivo entendimento com canções que, desafiantes num primeiro contacto, em pouco se transformam numa presença saborosa e familiar.
O gosto pelo talhar de formas menos imediatas mas em claro contexto pop – como em tempos escutámos também nuns Tears For Fears ou nos últimos álbuns de uns XTC – serve assim um álbum onde se expressam contos e cantos sobre cenas da vida aos vinte e poucos anos. Ou seja, transporta angústias, algumas delas comuns a quem ainda ali não chegou, mas expressa-as num ponto da situação no patamar dos 25 e arredores. Saúde, sexualidade, o relacionamento com os outros… E integra os textos num contexto cenicamente elaborado, onde por vezes talvez a orquestração roube atenções. Mas que, em conjunto, não só faz deste conjunto de canções o melhor disco dos Dutch Uncles até à data como assegura a 2015 um belo exemplo do que pode ser a pop quando não está com vontade de correr atrás dos sabores mais fáceis da multidão que domina o momento.
Num mundo tão cheio de tantos discos há sempre aqueles que injustamente vão ficando para trás, adiando o momento da sua (re)descoberta ou de um outro melhor momento para um contacto mais bem sucedido com os seus autores… Vejamos os Japan… Editaram dois álbuns nos anos 70 sem que ninguém neles reparasse. Mais dois em 1980 sob discreta atenção. E quando, em 1981, editam a sua obra-prima Tin Drum, a coisa chegou com um “boa noite e muito obrigado”, partindo David Sylvian para uma das mais brilhantes carreiras a solo do nosso tempo e os demais músicos para aventuras mais ou menos cativantes, os Japan deixando uma obra que o tempo aprendeu a tomar como referencia maior do seu tempo (OK, os dois álbuns de 1978 são mais curiosidade de uma banda ainda sem bússola afinada, mas contam a primeira parte de uma história ímpar da pop de então).
Não é por acaso que falo dos Japan na hora de falar sobre os Dutch Uncles. Não pelo berço made in UK (os Dutch Uncles são de uma pequena cidade na zona da grande Manchester, ao passo que os Japan eram do sul de Londres). Nem apenas pelo facto de terem já editado três álbuns antes daquele que hoje nos faz deles falar. Mas porque há na sua música um gosto pelo labor de ideias, criando canções de algumas complexidade formal que, todavia, e tal como na etapa final da obra dos Japan, não evitam nunca a forma “clássica” de arrumar os elementos da canção. Este é um argumento que se manifesta a um nível estrutural na forma de pensar a canção já que, entre discos de uma Kate Bush – etapa de inícios dos oitentas – ou Talking Heads encontramos sugestões mais próximas da sonoridade com que os Dutch Uncles agora se apresentam.
Há assim um antes a ter em conta antes deste surpreendente Oh Shudder. Num clima pop/rock anguloso, com guitarras herdadas de memórias pos-punk encetaram em 2009 uma discografia com Dutch Uncles, evoluindo em continuidade no seguinte Candenza (2011) mas sugerindo desejos de busca de novos rumos no bem mais interessante Out Of Touch In The Wild (de 2013). É nesse álbum de 2013 que ganha protagonismo outra ordem instrumental, abrindo o caminho a uma mais evidente manifestação de cores e linhas desenhadas com electrónicas, com ocasionais presenças de madeiras e sem esquecer a mais clássica presença de guitarras, pianos e percussões. As canções exploram agora novas potencialidades que um labor mais exigente na instrumentação pode levar à canção, juntando à (relativa) invulgaridade da voz aguda de Duncan Wallis uma paleta de tons e luzes que instalam no ouvinte uma perplexidade inicial que rapidamente cede lugar a um relacionamento de atenção para com o detalhe e progressivo entendimento com canções que, desafiantes num primeiro contacto, em pouco se transformam numa presença saborosa e familiar.
O gosto pelo talhar de formas menos imediatas mas em claro contexto pop – como em tempos escutámos também nuns Tears For Fears ou nos últimos álbuns de uns XTC – serve assim um álbum onde se expressam contos e cantos sobre cenas da vida aos vinte e poucos anos. Ou seja, transporta angústias, algumas delas comuns a quem ainda ali não chegou, mas expressa-as num ponto da situação no patamar dos 25 e arredores. Saúde, sexualidade, o relacionamento com os outros… E integra os textos num contexto cenicamente elaborado, onde por vezes talvez a orquestração roube atenções. Mas que, em conjunto, não só faz deste conjunto de canções o melhor disco dos Dutch Uncles até à data como assegura a 2015 um belo exemplo do que pode ser a pop quando não está com vontade de correr atrás dos sabores mais fáceis da multidão que domina o momento.
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever
segunda-feira, março 09, 2015
Novas edições:
Madonna
Podemos agora arrumar as noticias e comentários sobre a fuga para a Internet das novas canções ou a queda que ofuscou o que quase ninguém falou (que os Brits Awards são hoje uma premiação em tudo inconsequente). Mais até que a digressão que vem a caminho (e que, para já, não mostra uma data agendada por estes lados), a edição de Rebel Heart é talvez a mais importante notícia que Madonna nos dá de há muito a esta parte. Não por ser o seu 13º álbum ou pelo naipe de colaboradores que convoca. Mas porque, ao dar-nos o seu melhor disco em dez anos, mostra acima de tudo que é capaz de ser autora e intérprete de algumas das melhores canções pop do nosso tempo. E lembra que todas as notícias que davam outras vozes como candidatas a tomar-lhe o lugar mais dia menos dia não só eram exageradas como, ao incorrer no erro de comparar uma obra veterana com um caso pontual de sucesso, eram mais uma expressão da era dos 15 minutos de fama (que contrasta com a solidez com a qual Madonna alicerçou a carreira). Pena que por vezes ela mesma tenha sentido vontade para responder a quem ia entrando em cena, assinando nos últimos anos os dois maiores tropeções da sua discografia. Esses sim mais complicados que o tombo nos Brits.
Podem ler aqui o texto completo
quinta-feira, março 05, 2015
Novas edições:
Father John Misty
“I Love You, Honeybear”
Sub Pop
4 / 5
Sub Pop
4 / 5
Devemos contudo começar pelo nome do protagonista. Chama-se na verdade Joshua Tillman, tem uma obra em disco que remonta ao início do século – começou a fazer canções quando trabalhava numa padaria, aproveitando o que restava das horas escuras (antes de picar o ponto) e editou primeiros discos há uma dúzia de anos. Em finais dos noughties juntou-se aos Fleet Foxes – que tinham já discos editados – com eles tocando como baterista (e ocasionalmente cantando), tendo participado no álbum Helplessness Blues (2011), despedindo-se dos colegas em 2012 para retomar um caminho solitário. Poucos meses depois estreia-se sob o alter ego Father John Misty, editando logo nesse ano Fear Fun, um primeiro álbum repleto de figuras que lembram as mitologias do Laurel Canyon. Agora, e depois de um episódio intermédio quase invisível – a banda sonora (com edição limitada) para uma curta-metragem assinada pela sua mulher – eis que Joshua Tillman encontra o caminho certo para a personagem pela qual continua a vestir as suas canções. I Love You, Honeybear é contudo um disco tão pessoal, que tematicamente ilude as noções de fronteiras entre o alter-ego e a voz criativa que para ele pensa estas canções. Celebração de um casamento, com sinais evidentes de dedicação jurada, mas também ocasionais tiradas de cortante humor, o álbum projeta o tom profundamente confessional das palavras e narrativas num quadro instrumental com gosto pela construção de cenografias, que tanto nos podem levar a inesperados devaneios quase pop (com electrónicas) em True Affection a caminhadas melancólicas de genética americana, onde não falta mesmo uma carga elétrica, de bluesassombrados, nos instantes finais. Com gosto pelo trabalho de orquestração, este é um disco que, apesar da ténue relação que Tillman teve com os Fleet Foxes, resolve o aparente impasse que entre o grupo se parece ter instalado desde a edição do último álbum. E junta Father John Misty a uma galeria de cantautores que, como o algo esquecido Faris Nourallah, cruzam a alma da pradaria com a sensibilidade indie urbana do nosso tempo, criando uma pop folk refletida e de boa arte final.
Este texto foi publicado originalmente na Máquina de Escrever
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