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sexta-feira, agosto 15, 2025

Sirât, para lá do mundo material

Está nas salas aquele que foi um dos fenómenos do último Festival de Cannes, onde recebeu o Prémio do Júri: Sirât é um filme que, segundo o seu realizador, Oliver Laxe, “nos ajuda a sentir que vivemos num mundo encantado e mágico” — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 julho).

No filme Sirât, de Oliver Laxe, Luis (Sergi López) e Esteban (Bruno Nuñez Arjona), pai e filho, chegam a uma rave, algures no deserto de Marrocos, e começam a distribuir panfletos com o retrato de uma jovem... Quem é ela? Trata-se da irmã de Esteban, filha de Luis — desapareceu numa daquelas odisseias de música electrónica e, esperando encontrá-la, os protagonistas vão acompanhando aquilo que está a acontecer.
Que acontece, então, em Sirât? Muito pouco. Luis e Esteban integram-se na deambulação de um grupo, eventualmente a caminho de outra rave, com o pai a ensaiar algum diálogo filosófico sobre os destinos do mundo... A meio caminho entre uma “reportagem” redundante, em tom pitoresco, e a celebração das paisagens desérticas (impressionantes, sem dúvida), o filme vai-se arrastando num tom repetitivo, aqui e ali introduzindo algumas componentes bizarras que parecem procurar os efeitos de uma comédia do absurdo.
O espectador desconcertado (é o meu caso, confesso) procura algum apoio para esclarecer de onde vem, e para onde vai, o projecto, até porque a proposta de Oliver Laxe é mesmo ambiciosa — com toda a legitimidade, convém acrescentar. Numa entrevista dada a The Upcoming (página do YouTube dedicada aos “mundos do Cinema, da Comida e da Música”), podemos encontrar o seu depoimento, registado no dia 18 de maio, durante o Festival de Cannes (onde viria a receber o Prémio do Júri).


Logo na primeira pergunta, a entrevistadora tem o cuidado de dizer que Sirât evolui num sentido “espiritual e existencial”. Eis o essencial da resposta: “Sinto que há regras no universo. Para lá do mundo material, há uma espécie de outro mundo que vibra subtilmente. Nos meus filmes convido o espectador, já que creio que o cinema nos ajuda a sentir que vivemos num mundo encantado e mágico. Há uma aventura física que é, ao mesmo tempo, metafísica. A minha ideia é fazer com que o espectador olhe para dentro de si próprio.” Olhando para dentro de mim próprio, vejo tais palavras como banalidades “new age”, algo retardadas, que acabam por resumir Sirât como uma espécie de Mad Max transfigurado em tese, metafísica sem dúvida, sobre aquilo que escapa às nossas percepções correntes.
Mad Max é mesmo uma das inspirações que alguma crítica francesa cita para situar o filme, a par de clássicos como Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970) ou Estrada Perdida (David Lynch, 1997). Não acredito que seja missão de um crítico de cinema “recomendar” o que quer que seja, mas neste caso, na solidão em que me reconheço, só posso apelar ao leitor/espectador para que não perca Sirât — se possível, sugiro também que reveja os filmes de Antonioni e Lynch, porventura conseguindo organizar as suas ideias sem a inquietação que me assalta.

* * * * *

>>> Cena final de Zabriskie Point + Antonioni sobre o futuro do cinema (1985).
 



>>> Cena da festa em Lost Highway / Estrada Perdida + Lynch sobre a dualidade do seu cinema (2006).
 


quarta-feira, janeiro 22, 2025

David Lynch: imagens & sons
* FNAC [hoje, 25 jan.]

Alguns filmes de David Lynch estão de regresso às salas portuguesas. Assim, na primeira sessão do ano na FNAC, revisitamos o autor de Blue Velvet e Mulholland Drive, sem esquecer as suas aventuras musicais.

>>> FNAC Chiado — hoje, 25 janeiro [17h00].

sexta-feira, janeiro 17, 2025

David Lynch (1946 - 2025)

[ David Lynch Foundation ]

Em 2022, Steven Spielberg realizou o mais autobiográfico dos seus filmes, Os Fabelmans, encenando as atribulações de um jovem cinéfilo, precoce cineasta, que um dia tem a possibilidade de visitar John Ford no seu escritório. David Lynch é o imperial intérprete de Ford naquele que seria o seu derradeiro trabalho como actor.
Dir-se-ia que, agora, essa cena se transfigura em testamento apócrifo de um visceral amor do cinema — Lynch faleceu no dia 15 de janeiro, contava 78 anos.

quinta-feira, abril 06, 2023

Robert Blake & Robert Blake

Hollywood, 1967: Robert Blake em A Sangue Frio

No dia 9 de março de 2023 morreu Robert Blake, um dos grandes actores das décadas de 1960/70 em Hollywood, com uma filmografia que vai de Richard Brooks a David Lynch — este texto evocativo foi publicado no Diário de Notícias (12 março).

O actor Robert Blake faleceu no dia 9 de março, em Los Angeles — contava 89 anos. Inevitavelmente, as notícias da sua morte recordaram as muitas atribulações da sua existência: uma infância marcada pelo abuso de um pai alcoólico que o levaria a fugir de casa aos 14 anos; a condição de estrela precoce em Hollywood, graças à série de filmes infantis The Little Rascals, uma produção da MGM cujo elenco integrou de 1939 a 1944 (portanto, entre os seis e os onze anos); o suicídio do pai em 1956, tinha Blake 23 anos; enfim, o episódio trágico da morte de Bonny Lee Bakley, a sua segunda mulher, em 2001, assassinada a tiro à porta de um restaurante de Los Angeles.
As duas últimas décadas da vida de Blake ficaram marcadas por este episódio. Em 2002, foi acusado da morte da mulher, tendo cumprido um ano de prisão. Em novo julgamento, três anos mais tarde, seria absolvido. Um processo civil levou-o de novo ao tribunal, para ser julgado por eventual cumplicidade na montagem do crime, sendo condenado a pagar 30 milhões de dólares (valor mais tarde reduzido para metade) aos quatro filhos de Bonny Lee Bakley. Depois de ter declarado falência, Blake abriu um canal no YouTube, “I ain’t dead yeat” (à letra: “Ainda não estou morto”) que utilizou para partilhar memórias da sua carreira. Oficialmente, as condições da morte de Bonny Lee Bakley continuam por esclarecer.
No obituário publicado pela revista Variety, são recordadas as palavras breves, mas radicais, com que Blake, numa entrevista dada em 2011, resumiu a sua condição profissional: “Se não tivesse tido uma vida tão doentia e tão atribulada, talvez não tivesse sido um actor.” Como é óbvio, importa não desviar tais palavras para o determinismo com que, hoje em dia, se faz psicologia “social”, nomeadamente em alguns “talk shows” televisivos e na chamada imprensa cor-de-rosa. Acontece que, porventura por causa das convulsões da sua existência, mas sobretudo através de uma invulgar exigência profissional, Blake foi uma figura central (a meu ver, um dos mais notáveis actores) do cinema de Hollywood nas décadas de 1960/70.
Ao ler alguns obituários de Blake escritos nos EUA, não posso deixar de ficar chocado com a ligeireza com que é referido o seu filme Tell Them Willie Boy Is Here (entre nós, O Vale do Fugitivo). Desde logo porque marcou o regresso à realização de Abraham Polonsky (1901-1999), um dos “Dez de Hollywood”, marginalizados durante as perseguições do período “maccartista”, mas sobretudo porque se trata de um título fulcral na reconversão narrativa e simbólica do lugar dos índios no cinema americano.
Nele se encena a tragédia de Willie Boy (Blake), um índio marginal, acusado de um crime, que, depois de a sua tribo ter sido “deslocada” do território dos seus antepassados, se confronta com o xerife (Robert Redford) que o persegue… Dir-se-ia que, também em algum jornalismo cinematográfico, o “politicamente correcto” dos nossos dias se alimenta de uma desavergonhada ignorância, a ponto de as narrativas que abordam a complexidade da história dos índios (também das mulheres, também dos afro-americanos) serem reduzidas a um fenómeno exclusivo da última meia dúzia de anos… De facto, Tell Them Willie Boy Is Here transporta esse pecado insuperável de ter sido estreado há mais de meio século, em 1969! Já agora, com uma curiosa adenda portuguesa: foi o filme de abertura do cinema Apolo 70, em Lisboa, no dia 27 de maio de 1971, com programação da responsabilidade de Lauro António.
Entre os títulos incontornáveis da filmografia de Blake, recordo em particular o prodigioso A Sangue Frio (1967), de Richard Brooks, uma adaptação do romance homónimo de Truman Capote, investigando um crime ocorrido em 1959, no estado do Kansas. Muitas vezes referido como modelo do chamado “romance de não-ficção”, o livro de Capote (editado entre nós pela Dom Quixote, com tradução de Maria Isabel Braga) corresponde à emergência de novas matrizes realistas que o filme de Brooks transfigura numa impressionante narrativa cinematográfica, rodada a preto e branco, com direcção fotográfica de Conrad Hall (sem esquecer a música composta por Quincy Jones).
Ao interpretar um dos dois homens que assaltam e assassinam os membros de uma família rural, Blake consegue expor a perturbante “naturalidade” de um comportamento maligno que ignora a simples possibilidade de qualquer laço social — o mesmo se dirá, aliás, da composição do outro assaltante, por Scott Wilson (1942-2018), eterno e talentoso secundário de Hollywood (uma das suas derrradeiras personagens, entre 2011 e 2018, foi na série televisiva The Walking Dead).
Por alguma razão, em Lost Highway/Estrada Perdida (1997), David Lynch escolheu Robert Blake para interpretar o “Homem Mistério” — seria o seu último filme. É ele que, numa festa, sugere a um dos convidados, de nome Fred (Bill Pullman), que já se tinham encontrado. Fred acha que não e pergunta-lhe onde isso terá acontecido. Blake responde: “Em sua casa. Não se recorda?” Fred diz que não, o que leva Blake a esclarecer que, na verdade, naquele preciso momento, ele próprio está em casa de Fred…
Perante a reacção de Fred, Blake sugere que ele telefone para a sua própria casa — assim faz e o “Homem Mistério”… responde do outro lado [video]. Não haveria maneira mais eloquente de expor a clivagem interior da identidade humana. Ou, pelo menos, o medo de a pressentir através do misto de carnalidade e abstração que um actor pode dar a ver.

domingo, novembro 07, 2021

"Dune": a aventura continua [3/3]


Dune é uma das mais ambiciosas super-produções dos últimos tempos: do romance de Frank Herbert ao filme de Denis Villeneuve, é toda uma ideia de juventude que persiste e se renova — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 outubro).

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Nestes ziguezagues de que é feita a história do cinema, vale a pena lembrar que, em 1979, antes de se colocar a hipótese de David Lynch, Ridley Scott foi o primeiro realizador convidado por Dino De Laurentiis para dirigir Dune — Scott ainda trabalhou numa primeira versão do argumento, acabando por abandonar o projecto, optando por realizar… Blade Runner!
Blade Runner 2049
terá sido a prova de fogo de Villeneuve, não apenas pelo gigantismo da respectiva produção, de orçamento superior a 150 milhões de dólares (Dune custou 165 milhões), mas também porque se tratava de dirigir o protagonista do original, Harrison Ford, prolongando um filme com lugar cativo no imaginário de ficção científica de sucessivas gerações de espectadores. O impacto do filme reforçou também a ideia de que os modelos correntes de aventura, dominados pelos super-heróis da Marvel e da DC Comics, não esgotam, longe disso, as potencialidades do espectáculo cinematográfico, em especial na imensidão dos ecrãs das salas IMAX.
Daí a aposta híbrida que sustenta um filme como Dune. Em primeiro lugar, estamos perante um investimento artístico que privilegia a criação de cenários grandiosos, revalorizando a dimensão física dos estúdios (mesmo se partes significativas foram rodadas em zonas desérticas da Jordânia e dos Emirados Árabes Unidos); depois, o filme aposta num elenco cujo apelo junto do público será mais forte do que aquele que Lynch reuniu para a produção de 1984.
Timothée Chalamet, como Paul Atreides, é o trunfo principal, tendo a seu lado Rebecca Ferguson no papel de Lady Jessica, mãe de Paul, actriz cuja popularidade nasceu das duas edições de Missão Impossível (2015 e 2018, respectivamente Nação Secreta e Fallout) em que contracenou com Tom Cruise. Depois, o elenco integra nomes como Oscar Isaac, Javier Bardem, Zendaya e Jason Momoa (celebrizado como intérprete de Aquaman, personagem do catálogo da DC Comics), sem esquecer as presenças dos veteranos Josh Brolin e Charlotte Rampling.
Sendo Dune (o livro e os filmes) uma teia de temas e simbologias em que, através da personagem de Paul Atreides, emerge a questão da definição identitária do filho — “de onde venho, qual a minha herança, como elaborar o meu futuro?” —, Timothée Chalamet apresenta-se, assim, como representante de uma ideia de juventude que não se quer estranha a valores clássicos de família, comunidade e coesão social.
Chalamet surgiu, aliás, como figura central de um dossier da Time dedicado a jovens dos mais variados domínios profissionais, apontados pela revista como líderes de novos valores (“Next generation leaders”), delineando o “caminho para um futuro mais radioso”. Como é que Chalamet encara esse futuro? Responde, citando um amigo (cujo nome não pode revelar, sob pena de o ofender) que, na noite em que se conheceram, lhe traçou um pedagógico programa de vida: “Nada de drogas duras e nenhum filme de super-heróis.”

segunda-feira, novembro 01, 2021

"Dune": a aventura continua [2/3]

David Lynch e Frank Herbert

Dune é uma das mais ambiciosas super-produções dos últimos tempos: do romance de Frank Herbert ao filme de Denis Villeneuve, é toda uma ideia de juventude que persiste e se renova — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 outubro).

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A primeira versão cinematográfica de Dune surgiu em 1984, numa altura em que Indiana Jones, interpretado por Harrison Ford, era uma bandeira das aventuras cinematográficas. Foi em 1981 que se estreou Os Salteadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg, promovido com uma frase emblemática: “O regresso da grande aventura”. Dito de outro modo: mais ou menos a partir daí (sem esquecer que o primeiro título de A Guerra das Estrelas tinha sido lançado em 1977), os filmes centrados em figuras heróicas, reais ou imaginárias — e, mais tarde, como bem sabemos, em super-heróis —, passaram a ser encarados como matéria prioritária dos grandes estúdios.
Tal como acontece agora, a saga do jovem Paul Atreides e as atribulações em torno do domínio do planeta Arrakis — cujo deserto contém a preciosa “especiaria” que é fonte de vida e poder — não correspondiam aos modelos correntes da aventura. Além do mais, na realização estava David Lynch, autor cujo talento se tinha afirmado através de dois títulos com características bem diferentes: primeiro, Eraserhead (1977), um conto fantástico de orçamento minimalista; depois, O Homem Elefante (1980), retrato íntimo de um ser humano, também ele fantástico, que revisitava, em tom de impecável classicismo, a época vitoriana.
O que seria Dune se antes, em meados dos anos 70, o chileno Alejandro Jodorowsky tivesse conseguido concluir o seu monumental projecto de adaptação? Não sabemos, claro, ainda que a história do seu falhanço financeiro esteja contada no documentário Jodorowsky’s Dune (2013), de Frank Pavich. O Dune de Lynch resultou de um convite do produtor italiano Dino de Laurentiis, na altura com uma presença forte nos mercados internacionais, incluindo os EUA, onde produzira, por exemplo, King Kong (1976), de John Guillermin, ou Ragtime (1981), de Milos Forman.
Lynch já tinha sido tentado a mudar o rumo do seu trabalho, tendo recusado o convite de George Lucas para dirigir O Regresso de Jedi (1983). O certo é que contou com a benção do próprio Frank Herbert para realizar Dune, ainda que isso não tivesse impedido que o projecto se tornasse um quebra-cabeças de produção e, no limite, um objecto à beira do apócrifo — nas suas entrevistas, Lynch deixou mesmo de se mostrar disponível para falar do filme.
Kyle MacLachlan, futuro actor fetiche de Lynch — desde logo como intérprete do agente Dale Cooper na série Twin Peaks (1989-1991) —, teve a sua estreia cinematográfica a interpretar Paul Atreides, liderando um elenco que incluía, entre outros, Patrick Stewart, Virginia Madsen, Max von Sidow e ainda Sting, na altura a viver a ressaca do fim da sua banda, The Police, prestes a iniciar uma carreira a solo (o primeiro álbum, The Dream of the Blue Turtles, seria editado em 1985).
Escusado será dizer que o filme de Villeneuve emana de um contexto bem diferente, ainda que, por inusitada ironia, possamos considerar que o Dune de 1984 e o Dune de 2021 nasceram para cumprir a mesma “missão” de recuperar e, mais do que isso, reconquistar os espectadores que deixaram de ser visitantes regulares das salas escuras: na década de 80, por causa da concorrência feroz das videocassetes, então a viver o seu glorioso “boom” comercial (com o formato VHS a impor-se ao minoritário, mas tecnicamente superior, Betamax); agora, tentando encontrar algum equilíbrio entre salas e streaming (numa conjuntura em que o cepticismo do realizador está longe de ser um facto isolado).
Uma coisa é certa: ao lançar-se na aventura de refazer Dune para uma audiência do século XXI, Villeneuve estava longe de ser um principiante em espectáculos desta dimensão. O seu prestígio foi-se consolidando através de registos mais ou menos devedores da tradição policial — lembremos Raptadas (2013) e Sicário (2015) —, incluindo também uma passagem pelo universo fantástico de José Saramago, com a adaptação de O Homem Duplicado (2013). Entretanto, em fevereiro de 2017, quando Brian Herbert, filho de Frank Herbert, anunciou que Villeneuve iria dirigir o novo Dune, a sua filmografia incluía já a epopeia de ficção científica Arrival/O Primeiro Encontro (2016), estando na altura a ultimar a sequela de Blade Runner (1982), intitulada Blade Runner 2049 (estreada em finais de 2017).

sexta-feira, julho 10, 2020

David Lynch: o absurdo, as tesouras & etc.

David Lynch continua a fazer o seu cinema. Ou melhor: a povoar o David Lynch Theatre, na Net. Ou ainda: a oferecer-nos curtas-metragens, novas e antigas, através do YouTube. Agora, surgiu Scissors, uma história de um ecrã, um palco e umas tesouras que, de facto, começou por existir com outro título — trata-se de Absurda, o segmento assinado por Lynch em Cada Um o Seu Cinema, longa-metragem de 32 episódios dirigidos por cineastas de todo o mundo (Cronenberg, Depardon, Egoyan, Oliveira, Polanski, etc.), com a qual o Festival de Cannes celebrou a sua 60ª edição, em 2007. Para ver ou rever, desafiando as certezas de qualquer ecrã.

terça-feira, junho 09, 2020

David Lynch no YouTube

David Lynch Theater, o canal de David Lynch no YouTube funciona como uma espécie de boletim meteorológico anti-naturalista. Nele encontramos, de facto, considerações sobre o tempo em Los Angeles, alguns exercícios filmados, incluindo o primeiro episódio da série Rabbits (oito episódios, apresentados online), e uma espécie de agenda diária sobre as actividades do criador de Eraserhead, Blue Velvet e Inland Empire. Eis o registo de 9 de Junho de 'What is David working on today?': uma apresentação e análise dos poderes da "incrível vara de verificação". Ou como a objectividade científica pode ser uma forma de assombramento.

segunda-feira, junho 17, 2019

Liceu de "Twin Peaks" vai ser demolido

A notícia foi avançada pelo site da revista Dazed: o liceu da série Twin Peaks (1990-91), criada por David Lynch e Mark Frost, vai ser demolido. O verdadeiro liceu, Mt. Si High School, situado em Snoqualmie, Washington, encerrou no dia 14 de Junho, estando a sua demolição agendada para 5 de Julho.
É bem certo que as lendas não morrem, apenas se vão volatilizando na memória colectiva, atraindo as cicatrizes da mitologia: o desaparecimento do edifício amplia o estado de assombramento em que o liceu nos surgia através das imagens (e sons!) de Lynch — eis a cena em que todos pressentimos que algo estava errado com Laura Palmer.

sábado, dezembro 16, 2017

Twin Peaks & David Lynch
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

A nova série Twin Peaks veio relançar um clássico da televisão, reabrindo caminhos para percorrermos o mundo fascinante de David Lynch — no próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma viagem, com imagens e música, pelos seus temas, personagens e enigmas.

* FNAC: Chiado, hoje, 16 Dezembro (18h30)

sábado, junho 03, 2017

David Lynch, aqui e agora

Sheryl Lee
TWIN PEAKS: OS ÚLTIMOS SETE DIAS DE LAURA PALMER (1992)
A obra de David Lynch é actualmente tema de um mini-ciclo, envolvendo reposições e revelações — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Junho), com o título 'Redescobrindo os jogos de espelhos de David Lynch'.

A actualidade cinematográfica também se faz destas ironias. À entrada do Verão cinematográfico, as trombetas do marketing internacional bombardeiam-nos com os habituais blockbusters e os seus inevitáveis e, muitas vezes, reciclados super-heróis. O certo é que o grande nome do momento se distingue por uma aura de sábia veterania: David Lynch.
Foi o Festival de Cannes que funcionou como montra global do novo trabalho de Lynch. Outra vez associado ao produtor e argumentista Mark Frost, o cineasta de Blue Velvet (1986) esteve na Côte d’Azur para apresentar a nova temporada de Twin Peaks, a série que, há um quarto de século, revolucionou conceitos e modelos da ficção televisiva (a passar, entre nós, no canal TV Séries). Numa entrevista ao site oficial do certame, Lynch esclareceu mesmo que está longe de se ver como um reformado, sendo a notícia da sua retirada do cinema francamente exagerada: “As minhas palavras foram mal citadas. Não disse que deixaria de fazer filmes, apenas que ninguém sabe aquilo que o futuro nos reserva.”
No contexto português, a celebração da sua longa actividade — é verdade: a sua primeira longa-metragem, Eraserhead, foi rodada há 40 anos — traduz-se numa “Operação Lynch”, a começar em Lisboa e Porto (circulando, depois, por várias cidades do país). Nela se inclui o documentário David Lynch: The Art Life, uma abordagem das cenas cortadas de Twin Peaks (Twin Peaks: The Missing Pieces) e cerca de duas dezenas de curtas-metragens nunca exibidas comercialmente. Isto sem esquecer a reposição de dois filmes essenciais na filmografia “lynchiana”: Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992) e Mulholland Drive (2001), este numa cópia restaurada em 4K, processo de sofisticada reconversão digital que, para além dos clássicos mais remotos, tem sido também aplicado a alguns títulos emblemáticos do período moderno (recorde-se o caso de Taxi Driver, de Martin Scorsese, relançado em 4K em 2011, na comemoração dos seus 35 anos).

Pintor, músico, cineasta

No contexto actual, o reencontro com Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer envolve um curioso paradoxo. Assim, por um lado, somos levados a encarar a nova série televisiva como um prolongamento dos acontecimentos que acompanhámos nas duas temporadas iniciais (emitidas em 1990/1991); por outro lado, o filme, estreado cerca de um ano depois da conclusão da segunda temporada, propõe um recuo temporal, concentrando-se, como o título português sugere, nos dias que antecedem a descoberta do cadáver da jovem estudante Laura Palmer (interpretada por Sheryl Lee, uma das figuras do elenco original que regressa nos episódios de 2017).
O paradoxo amplia-se pelo facto de, no universo narrativo de Lynch, as medidas do tempo escaparem a qualquer cronologia linear. Um dos aspectos mais envolventes do filme é mesmo a sua construção labiríntica, projectando-nos numa viagem de acontecimentos vividos ou sonhados em que qualquer noção de realidade é posta à prova.
Faz sentido, claro, lembrar que essa agilidade formal de Lynch não pode ser dissociada de uma postura criativa que o tem levado a trabalhar nos domínios da pintura e da música (envolvendo também, em vários filmes, a colaboração com personalidades como o compositor Angelo Badalamenti, autor do inconfundível tema de Twin Peaks). Em qualquer caso, importa não esquecer que Lynch tem sido também, a par de Jean-Luc Godard ou David Fincher, um dos criadores cinematográficos que mais e melhor tem sabido assumir um dado vital da modernidade audiovisual: o seu trabalho artístico já superou a questão tradicional dos cruzamentos entre cinema e televisão, apresentando-se como uma nova síntese formal em que as tradicionais fronteiras audiovisuais não passam de uma convenção do mercado.
Mulholland Drive surgiu quase uma década depois de Twin Peaks, tendo pelo meio Estrada Perdida (1997), desmontagem eufórica das regras tradicionais do thriller, e Uma História Simples (1999), drama poético que parece ter correspondido a uma vontade insólita de experimentar os valores do mais puro classicismo de Hollywood. Por absoluto contraste, Mulholland Drive é o filme de todos os jogos de espelhos. Uma mulher (Laura Harring) espelha-se noutra (Naomi Watts) e o próprio filme, abruptamente dividido em duas histórias que parecem digladiar-se, aposta num misto de perturbação e sedução que, no limite, nos leva a reformular a pergunta mais primitiva: que acontece quando estamos a ver um filme?
O bom senso dirá sempre que as histórias de Lynch correm o risco de não fazer sentido. Em boa verdade, tal afirmação ganha em ser tomada à letra: Lynch encena os nossos gestos quotidianos lado a lado com os pesadelos que nos assombram. Onde acabam os primeiros e começam os segundos? Não digam nada a ninguém, mas está tudo misturado.

domingo, abril 23, 2017

David Lynch — imagens e sons

Nos últimos anos, uma zona significativa do trabalho de David Lynch tem passado pela divulgação das técnicas de meditação transcendental. Mais especificamente, a sua fundação tem desenvolvido diversas actividades no sentido de ajudar grupos de risco, incluindo pessoas sem abrigo, refugiados de países africanos e veteranos do exército dos EUA. Recentemente, a fundação lançou uma campanha visando a reintegração desses veteranos — este pequeno video de divulgação constitui, além do mais, uma pequena grande lição sobre as relações entre imagens e sons.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

"Twin Peaks" — o passado e o presente

Chegará a 21 de Maio, com chancela do canal Showtime. O mais curioso é que a promoção de Twin Peaks — "Está a acontecer outra vez", proclama a sugestiva frase promocional — se faz através de imagens da série original (1990-91). Como se o presente fosse sempre uma assombrada repetição de um passado fixado por alguma pulsão obsessiva. Em boa verdade, tal reversibilidade é uma das imagens de marca de toda a obra de David Lynch — eis um cartaz e um spot. 

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Foi assim que David Lynch
viu um concerto dos Duran Duran


A ideia é simples: juntar uma banda (ou um músico) a um realizador e, por uma noite, em direto pela Internet, um concerto (filmado sob um ponto de vista autoral) ganha assim difusão à escala global. Assim aconteceu juntando os Arcade Fire a Terry Gilliam, os Vampire Weekend a Steve Buscemi ou os The Killers a Werner Herzog... Em 2011 um outro par tomou o Mayan Theatre, em Los Angeles, para mais um concerto da série Unstaged. No palco estavam os Duran Duran. Na régie, olhando não apenas para as câmaras mas para muitas imagens extra que antes tinha recolhido, encontrava-se David Lynch. Por uma noite o concerto chegou, como previsto, a todo o mundo. Mas as imagens ficaram registadas, ganharam vida. E transformaram-se num filme que, depois de ter sido estreado entre nós na edição deste ano do LEFFEST, ganha agora vida em sala em sessões hoje e amanhã no Espaço Nimas em Lisboa, estando ainda agendada uma outra sessão no Porto (mas novamente integrada num programa de festival).

Duran Duran Unstaged é assim o filme que nasceu de uma colaboração entre o grupo e David Lynch e que abre a esta série de concertos uma primeira janela para outros ecrãs. Maiores que os dos computadores para os quais habitualmente trabalha. Não é a primeira vez que David Lynch assina a realização de um filme concerto, valendo a pena lembrar aqui o (algo esquecido) Industrial Symphony Nº 1, projeto em que a música de Angelo Badalamenti e o protagonismo vocal de Julee Cruise tinham um papel primordial. Estreado em 1990, este filme-concerto teve edição pouco depois em VHS.

Os Duran Duran, por seu lado, têm também uma relação antiga com o cinema. Pioneiros fulcrais na criação de um novo relacionamento da cultura pop/rock com o teledisco na alvorada dos anos 80, desenvolveram com o realizador Russel Mulcahy o projeto Arena: An Abusrd Notion, filme-concerto de 1984 com imagens associadas ao teledisco de The Wild Boys e a presença no elenco de Milo O’Shea (o ator a quem coube o papel de Dr. Duran, no filme Barbarella, de Roger Vadim). Assinaram depois os temas principais para os filmes 007: A View to a Kill ou O Santo, tendo John Taylor, a solo, criado o tema principal de 9 ½ Weeks. Aqui têm contudo a sua estreia como banda no grande ecrã.

Originalmente apresentado (fora de programa) durante a edição de 2013 do Festival de Cannes e tendo conhecido honras de antestreia – com a presença da banda – no MoMA, o filme Duran Duran Unstaged é uma experiência que justapõe um competentíssimo concerto do grupo veterano com imagens que David Lynch lança sistematicamente sobre a banda. Jogos de sobreposição asseguram assim a coexistência num mesmo ecrã de dois mundos, que afinal assim dialogam, as imagens revelando por um lado características autorais de Lynch (e sentimos aqui claras ligações a olhares que passaram já por filmes como Estrada Perdida, Mulholland Drive ou Inland Empire), ora seguindo pistas lançadas pelas canções, ora propondo “sonhos” (palavra usada pelo próprio realizador) mais abstractos que a música pode eventualmente sugerir.

Um alinhamento que valoriza a presença do (então recente) álbum All You Need Is Now – simplesmente o melhor disco dos Duran Duran desde os dias de Rio – mas que recorda alguns clássicos, junta pérolas dos primeiros tempos e uma versão de A View To A Kill que celebra a memória de John Barry chama a palco convidados como Gerard Way (dos My Chemical Romance), Beth Ditto (Gossip), Kelis e Mark Ronson (o produtor do mais recente álbum do grupo). Em conjunto dão-nos um concerto que reafirma o importante papel do grupo na história da música pop e sublinha, pela visão claramente demarcada de David Lynch, um ponto de vista que faz deste filme-concerto uma experiência única. Não será exagero afirmar que é um dos mais cativantes e diferentes filmes concertos alguma vez realizados. E a David Lynch cabe, aí, grande parte da responsabilidade pelo feito único que aqui se revela. 

Em Lisboa, o vai será exibido no hoje 5, pelas 21.45 (*) e 00.00, e amanhã às 19.40 (*), no Espaço Nimas. No Porto, será apresentado hoje, no Passos Manuel, integrado no festival Porto/Post/Doc. A partir de amanhã estará disponível em DVD. 

(*) Estas duas sessões terão apresentação a cargo de Nuno Galopim

sexta-feira, novembro 21, 2014

'Duran Duran Unstaged' estreia
em sala a 5 de dezembro


O filme-concerto Duran Duran Unstaged, realizado por David Lynch, vai ter uma breve carreira em sala entre nós. Depois de ter conhecido primeiras exibições entre nós integrado na programação da edição deste ano do LEFFEST, o filme vai chegar a uma sala lisboeta (falta confirmar qual) entre os dias 5 e 6 de dezembro.

A 5 de dezembro o filme será também exibido no Porto, no quadro da programação do novo festival Porto / Post / Doc.

No dia 6 o filme surgirá ainda nos videoclubes portugueses e terá edição em DVD.

Podem ver aqui o trailer do filme.

Para ler (e também para ver e ouvir):
Patti Smith em conversa com David Lynch

Um encontro entre Patti Smith e David Lynch na BBC, onde se fala de Blue Velvet, de Twin Peaks ou do coletivo Pussy Riot. Esta conversa representou um segmento do programa Newsnight.

Podem ler aqui notícia no NME, com link para a BBC.

domingo, outubro 19, 2014

Twin Peaks, 2016

Twin Peaks vai voltar em 2016... O espaço televisivo aposta, assim, na reconversão das suas próprias memórias — esta crónica de televisão foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (10 Outubro), com o título 'Twin Peaks e um café...'

Por estes dias, chegou uma notícia, de facto, inesperada, ou melhor, muito pouco provável, mesmo para os que há muito esperavam ouvi-la: a série Twin Peaks vai voltar, um quarto de século depois do seu espectacular impacto [Variety].
A primeira passagem de Twin Peaks ocorreu em 1990-91. O conjunto de nove episódios agora anunciado surgirá em 2016, desta vez com chancela do canal Showtime (cujo maior trunfo é a série Homeland/Segurança Nacional). David Lynch e Mark Frost vão regressar como autores, não se sabe ainda se recuperando ou não alguns nomes do elenco original, a começar por Kyle MacLachlan, o enigmático Dale Cooper, agente especial do FBI.
Seja como for, este é um daqueles anúncios que suscita uma dúvida, curiosa e desconcertante, sobre a evolução conceptual da própria televisão: será que as sequelas, e outras formas de recuperação de sucessos de um passado mais ou menos distante, tão típicas da produção cinematográfica das décadas mais recentes, vão passar a ser uma variante do próprio espaço televisivo? Porque, repare-se: já não se trata de refazer modelos do cinema (coisa que a televisão sempre fez, nem sempre com resultados muito estimulantes), mas sim de relançar um produto “interno”.
A informação publicada em The Hollywood Reporter (6 Out.) diz isso através de uma “teorização” bizarra: “A notícia chega numa altura em que os criativos da televisão continuam a olhar para o passado, esperando garantir novos sucessos, à medida que a tendência para reinventar e modernizar títulos populares com uma fiel base de fãs se torna uma prática normal.” São palavras que não podem deixar de atrair uma especulação algo pessimista: na falta de novas ideias, os “criativos” agarram-se às referências do passado...
Enfim, não está em causa o talento de Lynch/Frost, até porque Twin Peaks ficou, de facto, como um objecto de excepção. Mas o problema começa aí: será que alguém acredita que a excepção se pode transformar em regra? O agente Cooper, entretanto, limitou-se a pedir mais um café...

>>> Twin Peaks no DMOZ.
>>> Fundação David Lynch.

terça-feira, outubro 07, 2014

Para ler: o regresso de 'Twin Peaks'


É claramente uma das notícias do ano nos universos da fição televisiva: a série Twin Peaks, criada em finais dos anos 80 por David Lynch, vai regressar. David Lynch está a trabalhar com Mark Frost nos argumentos dos nove novos episódios e ele mesmo prevê dirigi-los na íntegra.

Podem ler aqui a notícia publicada pela Variety,

sábado, setembro 13, 2014

Pintura de David Lynch
em grande exposição em Filadélfia


Através do cinema descobrimos David Lynch e, com os seus filmes, uma voz absolutamente ímpar, que se projetou em títulos marcantes como o foram, por exemplo, Veludo Azul, Mulholland Drive ou Coração Selvagem, sem esquecer a série televisiva Twin Peaks, um dos momentos maiores do seu trabalho ou o muitas vezes injustamente secundarizado Dune, instante atípico na sua obra, mas um dos grandes exemplos da melhor ficção científica dos oitentas. Mas depois de Inland Empire o foco das suas atenções mudou de rumo, destacando sobretudo um interesse pela música e uma redescoberta de uma paixão antiga: a pintura.

E a assinalar esse reencontro fundador da sua personalidade artística, a Pennsylvania Academy of The Fine Arts, em Filadélfia, inaugura hoje ‘David Lynch: The Unified Field’, aquela que é a primeira grande exposição da obra de Lynch enquanto artista plástico.

Interessado na pintura desde cedo, um muito jovem David Lynch (então com 18 anos) inscreveu-se na School of The Museum of Fine Arts, em Boston com um futuro em vista nessa área. O lugar não o inspirou e saiu ao fim de um ano. Projetou com um amigo uma viagem de três anos pela Europa, com o sonho de estudar com o pintor austríaco Oskar Kokoshka. Com o sonho não concretizado regressou aos EUA, acabando por fazer a sua formação na Pennsylvania Academy of The Fine Arts, à qual se juntou em 1967. Seria ali que, em 1967, faria Six Men Getting Sick (Six Times), uma curta-metragem que se tornaria assim o primeiro passo da sua filmografia.

Num ensaio sobre a obra de David Lynch na pintura, que podemos ler no catálogo desta exposição, o seu curador, Roberto Cozzolino defende que estamos ali perante um artista que usou o cinema como parte da sua expressão. E por isso mesmo vê assim a sua obra cinematográfica como um corpo que se torna inseparável deste trabalho como artista plástico que agora ali está patente. Cozzolino fala mesmo dos filmes e pinturas como sendo obras que decorrem de uma sensibilidade comum e muito pessoal "sobre noções de composição, textura, relações formais" e nota no modo como os temas são amplificados a expressão de um estilo específico.

Lynch em foto recente no seu atelier
A pintura foi, todavia, a paixão original de David Lynch. Uma paixão que nunca abandonou, apesar de ter levado muito tempo a torna-la pública. A sua primeira exposição individual teve lugar em Nova Iorque em 1989, na galeria de Leo Caselli, que tomou contacto com esta faceta da obra de Lynch através do entusiasmo com que Isabella Rosellini (que vimos em Veludo Azul) falara desses trabalhos a um amigo comum. Mesmo assim o cinema e, mais tarde, a música, prevaleceram como as suas expressões artísticas mais mediatizadas.

Num artigo recentemente publicado pelo New York Times o diretor do Drawing Centre (Nova Iorque) – que em 2013 organizou uma pequena mostra de desenhos e fotografias de Lynch em Los Angeles – reconhece que, através dos seus filmes, o autor de Mulholland Drive e Twin Peaks mudou a forma de pensar a cultura visual nos EUA, acrescentando que a sua obra como artista plástico “merece ser vista”. No mesmo artigo David Lynch referiu que vive neste momento um período de transição, deixando claro que o que era velho “morreu”. E explicou depois que é no experimentar de novas ideias que poderá vir a encontrar o que será novo para si.

segunda-feira, setembro 08, 2014

Filme de David Lynch com Duran Duran
estreia no Lisbon & Estoril Film Festival


O filme Duran Duran Unstaged, realizado por David Lynch e que acompanha os Duran Duran em palco numa atuação em 2011 - na sequência do lançamento do álbum All You Need Is Now - é um dos títulos a integrar a edição deste ano do Lisbon & Estoril Film Festival. Esta é uma das revelações presentes no Press Release distribuído esta manhã na conferência de imprensa (no CCB) na qual foram reveladas primeiras informações sobre a edição deste ano do festival, que vai decorrer entre os dias 7 e 16 de novembro.

Além deste filme - que até aqui teve apenas exibições no quadro da edição de 2013 do Festival de Cannes e, depois, no auditório do MoMA (em Nova Iorque) - David Lynch estará também representado nesta edição do festival numa exposição conjunta com Jean-Michel Alberola, que será inaugurada no Centro de Congressos do Estoril no dia de abertura do festival. A exposição Here & Now irá apresentar diversas obras de JM Alberola e uma série de litografias (algumas inéditas) de David Lynch.


Outra das novidades apresentadas na conferência desta manhã foi a antestreia de Variações de Casanova, filme de Michael Strüminger que evoca a figura de Giacomo Casanova através de memórias lidas em História da Minha Vida, que se cruzam no grande ecrã com árias das três óperas que Mozart compôs com libretos de Lorenzo da Ponte (As Bodas de Fígaro, Don Giovanni e Così Fan Tutte).

O elenco deste filme que foi integralmente rodado em Portugal - com várias sequências filmadas no Teatro Nacional São Carlos - inclui grandes cantores líricos do nosso tempo, entre os quais Jonas Kaufman e Barbara Haningan. O papel protagonista é entregue a John Malkovich, que estará em Lisboa e no Estoril durante o festival e a quem será feita uma homenagem na forma de um ciclo que recordará não apenas a sua obra como ator de cinema, mas também no teatro, além do trabalho como produtor.

Além de John Malkovich, outra das homenagens já reveladas para esta edição do Lisbon & Estoril Film Festival vai destacar a obra de Maria de Medeiros.