Apesar de tudo, ainda há quem pense, quem se atreva a aplicar o pensamento como uma arte de combater o sonambulismo da (des)informação como excesso de enunciados sem outro propósito que não seja sustentar um fluxo de agitação audiovisual e esvaziamento mental — são palavras de Denzel Washington em 2016, numa sessão de estreia do seu filme Fences/Vedações.
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sábado, julho 27, 2024
sábado, janeiro 17, 2015
E o ausente é... Clint Eastwood
Nada como termos por vezes tempo para pensar um pouco em ver de reagir a olhar para o relógio (ou nem por isso, imaginando que ele está no pulso e não temos sequer tempo para olhar para ele). Quinta feira foram reveladas as nomeações para os Oscars deste ano. Já se fez toda a artitmética. As nove nomeações (dose exagerada) para Birdman, de Alejandro González Iñarritu - que pode bem sair da noite de dia 22 de fevereiro como o grande vencedor - e outras tantas (mais merecidas) para o Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson - que pode sair do teatro com o Oscar para Melhor Direção Artística, talvez mais um, e ficar a olhar para a diferença entre o que havia para ganhar e o que foi para outros...
Já nem peço que o Under The Skin, brilhante filme de Jonathan Glazer, ali esteja representado. Quem dera...
Mas há ausências que não se explicam. E a mais clamorosa de todas é talvez a de Clint Eastwood, com um trabalho de realização em Sniper Americano que suplanta em muito o (também magnífico, fique claro) Estado de Guerra de Kathryn Bigelow. Se sou dos que gostaram de O Jogo da Imitação - o filme divide muitas opiniões, o que é sempre bom - a verdade é que não se comparam o trabalho de escrita de argumento e de interpretação (de Cumberbatch e Keira Knightley) ao de um Morten Tyldum (realizador) apenas competente. Mas este está nomeado. E Clint Eastwood, por um filme onde o olhar do realizador é precisamente um dos valores acrescentados, está ausente.
Sniper Americano tem mais nomeações. Mas a categoria em que mais merecia vencer é precisamente aquela onde está ausente.
Bom, se nos lembrarmos que nem Hitchcock, nem Kubrick, nem Lynch, alguma vez foram ali distinguidos como realizadores, a coisa afinal é menos grave. Não é pelo Oscar que se diz quem é o melhor, pelos vistos.
quarta-feira, janeiro 07, 2015
Hoje somos todos 'Charlie Hebdo'
N. G.: A violência sem argumentos da intolerância de quem teme a opinião diferente inscreveu o dia de hoje na História (da imprensa e do mundo). O Charlie Hebdo somos todos nós, os que acreditam na palavra, nas ideias, no debate, que aceitamos o outro quando pensa igual, diferente ou ao contrário. O Charlie Hebdo somos também todos nós que sabemos que não podemos ceder pelo medo. Porque o medo, aqui, não é a resposta. Falo em concreto do medo como motor de uma eventual busca de respostas (ou de uma ideia de segurança) no outro extremo. Não é na radicalização das atitudes que se responde a quem é radical. Não é o olho por olho, dente por dente. Não é também, claro, o virar a cara para levar mais um estalo. É preciso saber responder. Mas com inteligência.
J. L.: Responder com inteligência é, por certo, o mais urgente. E também o mais difícil. O imediatismo com que as imagens de Paris se começam a ver — e a repetir, repetir, repetir... — gera um misto de revolta e entorpecimento, como se a tragédia surgisse já ameaçada pela rotina novelesca dos dias televisivos. Porque, no limite mais amargo de tudo isto, deparamos com um mundo (a que chamamos) globalizado, mas em que, apesar da globalização (ou precisamente através dela), a singularidade do outro é um dado cada vez mais rarefeito. Entre os desafios políticos, morais e educacionais colocados por agressões terroristas como esta, está, justamente, a necessidade de criar e consolidar laços que não se esgotem no automatismo de um link de um concreto aqui para um algures mais ou menos abstracto. Dito de outro modo: as acções inerentes à nossa indignação não podem deixar de ter a ver com os lugares vivos do nosso dia a dia — este é o mapa das iniciativas de homenagem às vítimas do atentado de Paris, preparado pelo jornal Le Monde.
quinta-feira, setembro 18, 2014
Streaming ultrapassa downloads em França
Pela primeira vez em dez anos o mercado de música gravada vendida por download apresentou uma descida. Em sentido contrário, o consumo por streaming aumentou, representando este já 53% (ou seja a maioria) do volume de negócio da música digital. Para completar os números, revelados esta semana no Le Figaro, o digital corresponde neste momento a 17,5% das vendas de música em França.
Em sentido oposto ao aumento da fatia de consumo por streaming o volume geral do negócio da música em suporte de CD caiu 13,6%. A queda brusca nas vendas por download é contudo a que mais se faz sentir nos números de 2014, tendo os números totais dos seis primeiros meses revelado uma queda de 9,2% face ao período homólogo em 2013.
Segundo nota o Le Figaro, há contudo otimismo entre profissionais do mercado da música em França que esperam, com a agenda de lançamentos para os últimos quatro meses do ano, terminar com bons resultados. Recorde-se que 2013 revelou em França um aumento de volume total de negócio face a 2012 na ordem dos 2,3%.
Comentário: Estes números dão por um lado conta do evidente crescimento do consumo de música por streaming e prenunciam o que parece ser um eventual final de vida precoce para os modelos de venda por download que teve no iTunes o seu paradigma. Parece ter razão quem viu na operação de charme com os U2 uma primeira ação para manter viva a imensa nuvem de clientes que o iTunes chamou à Apple. Uma adaptação à modalidade de streaming, eventualmente com exclusivos deste calibre, talvez seja a saída por aqueles lados...
Podem ler aqui o texto do Le Figaro
Em sentido oposto ao aumento da fatia de consumo por streaming o volume geral do negócio da música em suporte de CD caiu 13,6%. A queda brusca nas vendas por download é contudo a que mais se faz sentir nos números de 2014, tendo os números totais dos seis primeiros meses revelado uma queda de 9,2% face ao período homólogo em 2013.
Segundo nota o Le Figaro, há contudo otimismo entre profissionais do mercado da música em França que esperam, com a agenda de lançamentos para os últimos quatro meses do ano, terminar com bons resultados. Recorde-se que 2013 revelou em França um aumento de volume total de negócio face a 2012 na ordem dos 2,3%.
Comentário: Estes números dão por um lado conta do evidente crescimento do consumo de música por streaming e prenunciam o que parece ser um eventual final de vida precoce para os modelos de venda por download que teve no iTunes o seu paradigma. Parece ter razão quem viu na operação de charme com os U2 uma primeira ação para manter viva a imensa nuvem de clientes que o iTunes chamou à Apple. Uma adaptação à modalidade de streaming, eventualmente com exclusivos deste calibre, talvez seja a saída por aqueles lados...
Podem ler aqui o texto do Le Figaro
quinta-feira, junho 26, 2014
Iggy Pop, a imagem numa campanha...
e ninguém fala de Justin Bieber?
Na crónica que semanalmente publico no Dinheiro Vivo falo hoje de uma campanha contra a tortura lançada pela Amnistia Internacional que usou uma imagem de Iggy Pop (sem ter pedido autorização prévia ao músico).
"Há alguns dias correu pela Internet uma imagem perturbante. Via-se o rosto ensanguentado (e aparentemente esmurrado) de Iggy Pop. Sim, era ele, sem sombras de dúvidas. E sob o rosto uma frase que deixaria qualquer alma atenta perplexa, afirmando que Justin Bieber seria o futuro do rock'n'roll.
Tratava-se afinal de uma campanha contra a tortura lançada pela secção belga da (mui respeitável e muito necessária) Amnistia Internacional. Campanha que dava a entender que, sob tortura, qualquer um diria até o que nunca lhe passaria pela cabeça afirmar."
"Há alguns dias correu pela Internet uma imagem perturbante. Via-se o rosto ensanguentado (e aparentemente esmurrado) de Iggy Pop. Sim, era ele, sem sombras de dúvidas. E sob o rosto uma frase que deixaria qualquer alma atenta perplexa, afirmando que Justin Bieber seria o futuro do rock'n'roll.
Tratava-se afinal de uma campanha contra a tortura lançada pela secção belga da (mui respeitável e muito necessária) Amnistia Internacional. Campanha que dava a entender que, sob tortura, qualquer um diria até o que nunca lhe passaria pela cabeça afirmar."
Podem ler o texto completo aqui.
quinta-feira, junho 19, 2014
Para ler: O vinil que temos em casa vale dinheiro?
Hoje, no site Dinheiro Vivo, escrevo sobre uma questão que muitas vezes me é colocada: O vinil que temos em casa vale dinheiro?
Ali digo: "Sempre que digo a alguém que gosto de discos e que ainda hoje compro singles e LPs, a pergunta acaba muitas vezes por surgir: “então aquele vinil que ainda tenho lá em casa vale muito dinheiro, não? Peço logo que me digam de que discos se trata... Mas depois a resposta, quase sempre, é não."
Podem ler aqui o texto completo.
Ali digo: "Sempre que digo a alguém que gosto de discos e que ainda hoje compro singles e LPs, a pergunta acaba muitas vezes por surgir: “então aquele vinil que ainda tenho lá em casa vale muito dinheiro, não? Peço logo que me digam de que discos se trata... Mas depois a resposta, quase sempre, é não."
Podem ler aqui o texto completo.
quinta-feira, fevereiro 27, 2014
Afinal a música continua a vender!
O aumento de vendas de álbuns em vinil em 2013 confirma uma tendência em marcha que contraria a ideia que via a música como consumo gratuito num futuro próximo. É sobre este tema que escrevo hoje na coluna semanal no site Dinheiro Vivo.
"Mais que apenas uma tendência de consumo, o aumento progressivo de venda de discos em vinil que se tem verificado nos últimos anos reflete a afirmação de um comportamento que contraria o caminho contemporâneo para uma desmaterialização (e, de certa maneira, da banalização) da música, conferindo-lhe antes uma identidade material de objeto que se adquire, usa, quadra e não de apaga com um clic."
Podem ler aqui o texto completo.
"Mais que apenas uma tendência de consumo, o aumento progressivo de venda de discos em vinil que se tem verificado nos últimos anos reflete a afirmação de um comportamento que contraria o caminho contemporâneo para uma desmaterialização (e, de certa maneira, da banalização) da música, conferindo-lhe antes uma identidade material de objeto que se adquire, usa, quadra e não de apaga com um clic."
Podem ler aqui o texto completo.
quinta-feira, fevereiro 20, 2014
Alguém liga aos prémios da música?
Ao contrário das premiações na área do cinema, as grandes distinções na área da música raramente são mais do que notícia na manhã seguinte, digo eu na edição de hoje do Dinheiro Vivo.
"Creio que ninguém corre a escutar os nomeados para o Grammy de Álbum do Ano (nem eu me lembro já quais eram) antes de saber quem o venceu. Isto para não falar naquelas categorias de nome complexo e comprido – como Melhor Performance Tradicional R&B ou Melhor Álbum para um Grande Ensemble de Jazz – que são equivalentes ao que, houvesse dezenas de categorias nos Óscares, se distinguissem o Melhor Filme a Preto e Branco ou Melhor Elenco num Filme de Ficção Científica... A pulverização de categorias nos Grammys, por muito que garantam a atenção às várias formas e géneros musicais, na verdade acabam por diluir as premiações num mar de nomes que passam assim longe das atenções. Será esta uma das razões pelas quais têm impacte menor fora da comunidade de profissionais ligados à música?"
Podem ler aqui o texto completo
"Creio que ninguém corre a escutar os nomeados para o Grammy de Álbum do Ano (nem eu me lembro já quais eram) antes de saber quem o venceu. Isto para não falar naquelas categorias de nome complexo e comprido – como Melhor Performance Tradicional R&B ou Melhor Álbum para um Grande Ensemble de Jazz – que são equivalentes ao que, houvesse dezenas de categorias nos Óscares, se distinguissem o Melhor Filme a Preto e Branco ou Melhor Elenco num Filme de Ficção Científica... A pulverização de categorias nos Grammys, por muito que garantam a atenção às várias formas e géneros musicais, na verdade acabam por diluir as premiações num mar de nomes que passam assim longe das atenções. Será esta uma das razões pelas quais têm impacte menor fora da comunidade de profissionais ligados à música?"
Podem ler aqui o texto completo
terça-feira, dezembro 31, 2013
Contar 2013 em três episódios
Depois de tantas listas, hoje falo na primeira pessoa. E de trabalho. Foram 12 meses intensos. Com as rotinas habituais no DN, no site Dinheiro Vivo e na Radar, a melhor edição de sempre do Queer Lisboa e reforçada presença do Sound + Vision não apenas como espaço de informação, divulgação e reflexão mas também como motor de acontecimentos, os encontros mensais na Fnac Chiado sendo disso o mais evidente exemplo. Fui júri em dois festivais de cinema – o Timihort (em Timisoara, na Roménia) e o Córtex (em Sintra), que me permitiram ver ainda mais e melhor cinema. Como DJ fiz apenas três noites, a festa de abertura do Queer Lisboa, no Teatro do Bairro, tendo sido a mais entusiasmante (as restantes foram um set no Sabotage em noite com os Lur Lur e uma festa de recolha de fundos para o Checkpoint LX).
2013 foi também um ano de descobertas e novos projetos em construção de que darei sinais oportunamente. Mas para já, arrumo aqui memórias de feitos de um ano que, por razões naturais, não pude juntar às listas dos melhores de 2013.
Plutão. Já conhecia o Jorge Jácome. Mas o desafio de vestir uma personagem num filme aproximou-nos. Tive apenas de ceder a voz. Não a que faz os Discos Voadores na Radar. Mas uma voz que ele dirigiu (em ensaios e depois em estúdio) para um papel de presença subjetiva numa curta-metragem visual e narrativamente bela, com espantosa banda sonora do Luís Giestas. Foi a minha estreia como ator. E que honra estar num elenco partilhado pela Joana de Verona e pelo David Cabecinha. Foi diferente. Foi bom.
As Flores do Mal. Colaborei nos três filmes que o Flávio Gonçalves realizou, todos eles estreados este ano em festivais de cinema. Co-produzi e fui consultor musical em De Manhã. Produzi As Flores do Mal. E fui consultor musical em Noite de Aniversário. Não sei o que 2014 me trará no cinema... Mas haverá notícias, espero... Porque destaco dos três filmes As Flores do Mal? Não só é o de que mais gosto como aquele em que sinto que colaborei mais ativamente (e no qual vi como uma boa pequena equipa pode fazer muito). Na imagem vemos o Flávio a dirigir a cena de abertura, com a Joana e o Francisco.
Contos de Amor e Trabalho num País: Portugal. A pedido do Nuno Rodrigues escrevi um pequeno livrinho sobre a história da Banda do Casaco que integrou a segunda das caixas com a integral da obra do grupo que a CNM editou na reta final do ano. É um dos nomes que mais admiro na história da música portuguesa. Depois de ter escrito uma biografia de Sérgio Godinho e ter trabalhado na arqueologia das memórias pessoais de António Variações que permitiram depois fazer o disco dos Humanos, esta foi uma experiência que guardo entre as que mais me satisfizeram profissionalmente.
segunda-feira, dezembro 16, 2013
SIlence 4: o que pode trazer um regresso?
Na mais recente crónica publicada no site Dinheiro Vivo abordei a notícia do regresso dos Silence 4 para dois concertos em 2014. E falei do que tem havido de bom (e de nem por isso tão bom) entre os regressos que têm marcado as agendas de cada ano que passa.
"Primeiro foi uma foto partilhada no Facebook e uma legenda a lançar a confusão viral. A notícia oficial só chegaria uns dias depois... Mas mesmo antes de a sabermos só faltava saber porque se voltaria a falar de Silence 4 em 2014... Um disco novo? Um 'best of' (eventualmente com um ou outro inédito)? Uma digressão? Afinal são só (até ver) dois concertos. Um em Guimarães e outro em Lisboa. Ambos a dar um euro por cada um dos presentes na plateia à Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Contudo, não acredito que a coisa fique por ali. Um disco e / ou um DVD ao vivo podem muito bem nascer do palco e, convenhamos, não é coisa que faça mal a ninguém. E se tudo ficar por aí, pode ser uma operação interessante. Afinal foram um dos casos maiores de sucesso da pop made in Portugal nascida em finais dos noventas e, com uma curta carreira de apenas dois álbuns de originais, deixaram (um pouco como os Ornatos Violeta) aquele sabor a foi-pouco-mas-foi-bom."
"Primeiro foi uma foto partilhada no Facebook e uma legenda a lançar a confusão viral. A notícia oficial só chegaria uns dias depois... Mas mesmo antes de a sabermos só faltava saber porque se voltaria a falar de Silence 4 em 2014... Um disco novo? Um 'best of' (eventualmente com um ou outro inédito)? Uma digressão? Afinal são só (até ver) dois concertos. Um em Guimarães e outro em Lisboa. Ambos a dar um euro por cada um dos presentes na plateia à Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Contudo, não acredito que a coisa fique por ali. Um disco e / ou um DVD ao vivo podem muito bem nascer do palco e, convenhamos, não é coisa que faça mal a ninguém. E se tudo ficar por aí, pode ser uma operação interessante. Afinal foram um dos casos maiores de sucesso da pop made in Portugal nascida em finais dos noventas e, com uma curta carreira de apenas dois álbuns de originais, deixaram (um pouco como os Ornatos Violeta) aquele sabor a foi-pouco-mas-foi-bom."
Podem ler aqui o texto completo.
sexta-feira, dezembro 06, 2013
E se alguém bater à porta... é um drone!
"E se de repente alguém bater à porta pode ser que seja... um drone! Bom, na verdade a coisa nem é para já (e quando o for não será desde logo para estes lados). O que se passa é que, há bem poucos dias, Jeff Bezos (o “patrão” da Amazon) anunciou no programa "60 Minutes" que a sua empresa quer começar a fazer entregas ao domicílio usando veículos aéreos robotizados, tendo mesmo revelado a imagem dos protótipos que estão a ser desenvolvidos.
Chamemos-lhes "drones" (lembrando que não existem apenas para fins militares e de segurança). Este sistema poderá, por um lado, representar mais um argumento de peso em favor da venda 'online' mas, ao mesmo tempo, baralhar o que poderia parecer uma alternativa de futuro desmaterializado e digital, com música, filmes e livros descarregados por "donwload" a liderar as vendas desse novo paradigma que há já alguns anos se constrói (e não apenas pela Amazon, acrescente-se, sendo que há outros líderes de mercado nesse segmento específico)."
Pode ler aqui o texto completo.
quinta-feira, novembro 28, 2013
Porque não deixamos de ir a Londres?
Hoje, na minha coluna semanal no site Dinheiro Vivo, falo do que hoje mais vale a pena ver quando estamos por Londres: as exposições (sim, os museus).
"Em tempos ia a Londres para comprar ver concertos e comprar discos. Sim, era no século passado, não havia internet, muitas digressões não nos visitavam nesses tempos, ainda o CD não tinha destronado o vinil (afinal para um reinado que não durou muito) e as edições levavam semanas a chegar cá (as que chegavam). Pelo caminho visitava as livrarias, os museus, as galerias, mais uma passagem rápida pelos trapinhos em Camden Town (hoje é mais para os lados de Covent Garden)... 25 anos depois (colocando a “casa” da partida em 1988) Londres deve ser das piores cidades que conheço para comprar discos. Tirando uma mão-cheia de resistentes (e são poucas as lojas ainda verdadeiramente capazes de justificar uma visita), a música gravada deixou de ser motivo para fazer as duas horas e pouco de avião para ir de malas vazias e voltar mais pesado. Ainda há livrarias (muitas e boas, e a “velha” Foyles soube renascer e brilhar novamente). Trapinhos não faltam também. E agora até há cafés por todo o lado, coisa que em tempos só se encontrava em modo “decente” nos restaurantes italianos da cidade. Mas esta é uma cidade que não deixou de nos seduzir. E mesmo numa era em que a Monocle dita “tops” que mostram como Zurique, Copenhaga, Helsínquia, Tóquio ou Melburne são destinos bem mais cool, e a oferta low cost (e também a “high cost”) alargou os horizontes aos viajantes, o que faz com que Londres não tenha desaparecido do mapa do nosso desejo em lá regressar? Os museus!"
Podem ler aqui o artigo completo.
sábado, novembro 02, 2013
Uma semana a recordar Lou Reed
Este texto foi originalmente publicado na passada quinta-feira no meu espaço semanal de opinião no site 'Dinheiro Vivo', com o título: "O que estamos a ouvir de Lou Reed?".
Houve quem, com um sentido de humor negro, um dia disse que a morte é uma das melhores jogadas de carreira para um músico. A frase já foi tantas vezes repetida que lhe perdemos as marcas de autor, transformando-se num daqueles ditados que todos entoamos quando o cenário se volta a repetir. Convenhamos que Lou Reed não “precisava” de semelhante acontecimento para fazer da sua discografia uma presença regular nas vendas de fundo de catálogo. Mas a notícia da morte do músico, no passado domingo, levantou a sede de memórias que inevitavelmente acontece nestes momentos, e uma mão-cheia de discos clássicos da sua obra surgiram entre os mais vendidos, sobretudo entre os territórios da Europa e América do Norte.
De facto não é surpresa que este ressurgimento de vendas aconteça. Ainda no ano passado a morte de Whitney Houston gerou o regresso às tabelas de vendas de singles marcantes da sua obra como ‘I Will Always Love You’ e ‘I Wanna Dance With Somebody’, que subiram novamente, respetivamente ao nº3 e nº 25 nos Estados Unidos. Já em 2013 o seu ‘The Greatest Love of All’ atingiu o nº 41. Mais recentemente assistimos a um foco de atenções há muito não visto sobre os discos de Michael Jackson após a inesperada notícia do seu desaparecimento (a poucas semanas de uma digressão que o ia devolver aos palcos).
Lou Reed não fugiu à regra. Ainda sem as informações definitivas do que serão as tabelas de vendas desta semana (que chegarão a partir de amanhã), uma consulta aos sites com serviços de venda online (tanto em formato digital como em títulos em suporte de vinil e CD), revela-nos já um panorama do que foram os eleitos pelo desejo de reencontrar as canções de Lou Reed. Nos serviços que medem as vendas por canções as mais compradas eram ‘Walk on The Wild Side’ ou ‘Perfect Day’. Ambas datam de 1972 e, no Reino Unido, nunca ‘Perfect Day’, na gravação original de Lou Reed, tinha surgido entre o Top 40 de singles, o que deverá acontecer esta semana (na tabela medida a meio da semana figurava em 33º lugar). Os discos (completos) mais procurados foram, de longe, o álbum ‘Transformer’ (1972) e o disco de estreia dos Velvet Underground ‘The Velvet Undreground & Nico’ (1967). O primeiro, coproduzido por David Bowie e Mick Ronson, e com um alinhamento onde surgem clássicos como ‘Walk On The Wild Side’, ‘Perfect Day’, ‘Satellite of Love’ ou ‘Vicious’ ajudou a definir um rumo para a sua obra a solo e acabou por ser reconhecido de forma unânime como uma obra-prima da discografia do século XX. O segundo foi aquele disco que levou Brian Eno a dizer que, na altura, poucos o compraram, mas que cada um desses compradores acabou por criar a sua banda... É outra referencia e representa o momento em que nasce aquilo a que chamamos hoje o rock alternativo.
Uma consulta às listas de vendas das lojas iTunes ou Amazon mostrava que, juntamente com estes dois álbuns, muitos procuravam um panorama mais amplo na forma de um ‘best of’. De resto, a meio da semana, o Top 10 das vendas de álbuns na loja iTunes de quase todos os países europeus ali representados mostrava a presença destes discos de Lou Reed. E as tabelas de vendas de discos de rock acrescentavam outros como ‘Berlin’ (1973), ‘Rock and Roll Animal’ (disco ao vivo de 1974), ‘New York’ (1989) e, dos Velvet Undreground, os álbuns ‘Velvet Undreground’ (1969) e ‘Loaded’ (1970) nos quais Lou Reed ainda colaborou. Pessoalmente juntaria o genial ‘The Raven’ (2003) para completar a lista de “essenciais”, mas este não mora ainda entre os discos mais “pedidos”...
Serão estes os seus clássicos populares? O tempo ajudará a responder melhor a esta pergunta (mas parece que sim). Nota final apenas para o que parece ser uma expressão natural de uma tendência do presente: na sede de busca rápida, a procura online superou as faltas de stock das lojas físicas onde, cada vez mais, a memória nem sempre está devidamente representada.
sexta-feira, outubro 04, 2013
Sobreviverá Astérix sem a poção mágica dos criadores?
Esta semana, na crónica que apresento todas as quintas-feiras no site Dinheiro Vivo, falo sobre a chegada de um novo álbum de Astérix, que tem como grande novidade o facto de ser o primeiro que não conta com a presença de nenhum dos criadores da série:
"Não passaria certamente pela cabeça de Shakespeare ou Gil Vicente que alguém pegasse em algumas das suas personagens para continuar a criar novas peças de teatro. Alguém estaria interessado em ler novas narrativas criadas com a velhinha Miss Marple sem a assinatura de Agatha Christie na capa do livro? E alguém entregaria um novo caso ao inspetor Maigret sem Georges Sinenon? Dar novas vidas a criações literárias é um velho debate ético. Que se pode também alargar a uma reflexão sobre se é ou não lícito lermos, postumamente, obras que autores fizeram questão de deixar na gaveta?"
Podem ler aqui o texto completo.
"Não passaria certamente pela cabeça de Shakespeare ou Gil Vicente que alguém pegasse em algumas das suas personagens para continuar a criar novas peças de teatro. Alguém estaria interessado em ler novas narrativas criadas com a velhinha Miss Marple sem a assinatura de Agatha Christie na capa do livro? E alguém entregaria um novo caso ao inspetor Maigret sem Georges Sinenon? Dar novas vidas a criações literárias é um velho debate ético. Que se pode também alargar a uma reflexão sobre se é ou não lícito lermos, postumamente, obras que autores fizeram questão de deixar na gaveta?"
Podem ler aqui o texto completo.
quinta-feira, setembro 26, 2013
E a televisão deu uma bofetada no cinema
Hoje, na minha coluna semanal no site Dinheiro Vivo falo do filme ‘Por Detrás do Candelabro’ e da recente premiação dos Emmys que fez deste um caso digno de alguma reflexão.
Ali digo: “Steven Soderbergh, Michael Douglas, David Fincher, Jeff Daniels, Claire Danes... Todos eles de prémios na mão... Pois, estamos em setembro e os Oscares são no inverno... Todos foram, na verdade, vencedores de categorias distintas na edição deste ano dos Emmys, os “óscares da TV americana”. E numa só noite a ficção televisiva deu uma bofetada a Hollywood.”
Podem ler aqui o texto completo.
quinta-feira, setembro 19, 2013
E qual é o concerto mais desejado de 2014?
Hoje, na minha coluna semanal no Dinheiro Vivo, falo da atuação de Justin Timberlake no Rock in Rio e de como este é concerto que não devia passar a Leste de Portugal em 2014
Ali digo: "Fosse eu promotor de concertos e não teria dúvidas sobre por que nome mais devia batalhar para conseguir a sua presença num palco português em 2014 (sim, que até lá estará na estrada do outro lado do mar). É certo que, se me perguntarem qual é o concerto que mais gostaria de ver por parte de um nome que nunca tenha atuado em Portugal responderia, mesmo sem tempo para encher o peito de ar: “Tom Waits!”... Mas a verdade é que, se há concerto que não deveríamos deixar de ter entre nós entre figuras que muito certamente vão andar pelos palcos em 2014 e, já agora, por um nome que também nunca antes nos visitou, ele seria o de Justin Timberlake."
Podem ler aqui o texto completo.
quinta-feira, setembro 12, 2013
Woody Allen: a alternativa ao postalinho
Hoje na minha crónica semanal no Dinheiro Vivo falo do novo filme de Woody Allen, ‘Blue Jasmine’. Ali digo:
“Que bom que é ver Woody Allen de regresso à América!... Não leiam aqui a falta de europeísmo de um europeu que certamente se honra por ver um cineasta do nível de um Woody Allen a rodar filmes deste lado do Atlântico. Mas a verdade é que, depois do genial 'Match Point' de 2005 (filmado em Londres), a coleção de filmes-postalinho feitos mais de clichés que de boas ideias parecia remeter o cinema de um dos nomes mais inspirados do nosso tempo a uma espécie de linha de montagem de ficções em piloto-automático com paisagens, monumentos e lugares comuns de cada nova cidade a não faltar nem nos argumentos nem nos cartazes...”
Podem ler o resto do artigo aqui.
quinta-feira, setembro 05, 2013
Rodrigo Leão, à porta de Hollywood
Podem ler aqui o texto.
quarta-feira, janeiro 16, 2013
O fim de uma era
Lembro-me de idas a Londres que eram como uma verdadeira romagem de capelinhas (que de “inhas” nada tinham) entre lojas e mais lojas de discos. A coisa começava na esquina de Oxford St com Tottenham Court Rd. com a grande (era enorme) loja Virgin Megastore. Depois, Oxford St. adiante, havia a HVM, perto de Oxford Circus. Virava depois ali perto por Berwick St, entrando no Soho. E nessa rua era quase porta sim, porta sim, entre as muitas lojas (especializadas, algumas delas), morando ali a mítica Sister Ray. O dia acabava em Picadilly (e era mesmo um dia inteiro a ver tantas prateleiras de discos) na Tower Records (com aquele sabor a loja americana e também excelentes importações japonsas). Num outro dia rumava a Camden Towm à Rhythm Records e à própria feira onde apareciam umas boas pechinchas. Havia ainda a Rough Trade. E, com tempo, ainda passava pela HMV perto de Marble Arch. Isto era em finais dos anos 80. Não havia Internet. Poucas eram as lojas que faziam importação direta de discos em Lisboa. E cada viagem a Londres prometia regresso com alguns sacos cheios de discos.
A dada altura, era este um mercado florescente, a Virgin chegou a abrir uma segunda loja grande em Londres, mais feita de design que de discos, em Picadilly, junto à Tower Records. Mas essa foi precisamente a primeira das lojas grandes a fechar. As Virgin (e houve uma em Lisboa, com inauguração com atuação das Spice Girls – é verdade, estiveram cá para isso mesmo) foram fechando por todo o lado. Até mesmo as grandes lojas em Union Square e Times Square, em Nova Iorque. Restava a de Paris, e dela tivemos notícia da sua insolvência há poucos dias. Depois foram as Tower, fechando a de Londres, a mítica loja na Broadway (em Nova Iorque, na esquina da mesma rua 4 onde ainda sobrevive a Other Music, um paraíso indie para CD e vinil). Em 2011 a HMV tinha já reduzido a extensão da sua rede de lojas. Mas esta semana declarou falência e colocou os seus destinos numa consultora externa, na esperança de que se salvem os empregos e talvez alguém compre o negócio... Mas, para todos os efeitos, e assim têm contado os noticiários na imprensa britânica, a HMV deve fechar as portas. E a loja em Oxford Street, a última das “grandes lojas de discos” (e não só), deverá ser assim apagada do mapa londrino.
Consome-se menos música? Nada disso. Creio que nunca se consumiu tanta. E não vamos apontar o dedo a quem faz downloads não legais como o “culpado” da história. A concorrência das lojas online é enorme. Seja as que vendem produtos físicos (como a Amazon) ou as que apresentam música digital, não só têm preços bem mais convidativos como catálogos mais vastos e servem o conforto de quem não tem de sair de casa. Confesso que não me importava dos passeios extra que o bilhete de avião e a conta do hotel depois permitiam fazer em Londres, dos museus a outras lojas, mais alguns restaurantes preferidos Mas online sai mais barato, é verdade. Isto, além do facto de hoje em dia muitos serem os músicos que, literalmente, oferecem a sua música, deixando depois a quem o entender um eventual ato de compra. Veja-se o caso de The Weekend, que ofereceu três álbuns de seguida e, agora, os vai disponibilizar em disco físico para quem quiser comprar.
O que mudou foi assim foi o paradigma no consumo da música. O CD desvalorizou com o tempo. O vinil regressou, mas serve um nicho melómano. O download tornou-se voz corrente. A oferta online aumentou. E as grandes lojas deixaram de ser viáveis (a menos que cruzem o negócio da música gravada com outras potenciais fontes de interesse). Com o tempo talvez sobrevivam apenas aquelas lojas que nos dão serviço especial. Como as que vendem vinil usado ou de coleção. Ou que se especializam em géneros específicos, com atendimento informado, e conseguem nas cidades em que vivem um volume de negócio que as permitam existir.
Em Londres quase que me resta fazer a romaria entre as pequenas lojas de usados em Notting Hill Gate... Mas há muito que já não é pelos discos que um melómano vai Londres.
A dada altura, era este um mercado florescente, a Virgin chegou a abrir uma segunda loja grande em Londres, mais feita de design que de discos, em Picadilly, junto à Tower Records. Mas essa foi precisamente a primeira das lojas grandes a fechar. As Virgin (e houve uma em Lisboa, com inauguração com atuação das Spice Girls – é verdade, estiveram cá para isso mesmo) foram fechando por todo o lado. Até mesmo as grandes lojas em Union Square e Times Square, em Nova Iorque. Restava a de Paris, e dela tivemos notícia da sua insolvência há poucos dias. Depois foram as Tower, fechando a de Londres, a mítica loja na Broadway (em Nova Iorque, na esquina da mesma rua 4 onde ainda sobrevive a Other Music, um paraíso indie para CD e vinil). Em 2011 a HMV tinha já reduzido a extensão da sua rede de lojas. Mas esta semana declarou falência e colocou os seus destinos numa consultora externa, na esperança de que se salvem os empregos e talvez alguém compre o negócio... Mas, para todos os efeitos, e assim têm contado os noticiários na imprensa britânica, a HMV deve fechar as portas. E a loja em Oxford Street, a última das “grandes lojas de discos” (e não só), deverá ser assim apagada do mapa londrino.
Consome-se menos música? Nada disso. Creio que nunca se consumiu tanta. E não vamos apontar o dedo a quem faz downloads não legais como o “culpado” da história. A concorrência das lojas online é enorme. Seja as que vendem produtos físicos (como a Amazon) ou as que apresentam música digital, não só têm preços bem mais convidativos como catálogos mais vastos e servem o conforto de quem não tem de sair de casa. Confesso que não me importava dos passeios extra que o bilhete de avião e a conta do hotel depois permitiam fazer em Londres, dos museus a outras lojas, mais alguns restaurantes preferidos Mas online sai mais barato, é verdade. Isto, além do facto de hoje em dia muitos serem os músicos que, literalmente, oferecem a sua música, deixando depois a quem o entender um eventual ato de compra. Veja-se o caso de The Weekend, que ofereceu três álbuns de seguida e, agora, os vai disponibilizar em disco físico para quem quiser comprar.
O que mudou foi assim foi o paradigma no consumo da música. O CD desvalorizou com o tempo. O vinil regressou, mas serve um nicho melómano. O download tornou-se voz corrente. A oferta online aumentou. E as grandes lojas deixaram de ser viáveis (a menos que cruzem o negócio da música gravada com outras potenciais fontes de interesse). Com o tempo talvez sobrevivam apenas aquelas lojas que nos dão serviço especial. Como as que vendem vinil usado ou de coleção. Ou que se especializam em géneros específicos, com atendimento informado, e conseguem nas cidades em que vivem um volume de negócio que as permitam existir.
Em Londres quase que me resta fazer a romaria entre as pequenas lojas de usados em Notting Hill Gate... Mas há muito que já não é pelos discos que um melómano vai Londres.
quinta-feira, dezembro 06, 2012
O 'indie' é o novo 'mainstream'...
É verdade que os Echo & The Bunnymen chegaram ao 8º lugar no top inglês com The Cutter em 1983, o mesmo ano em que os The Cure chegavam ao número sete com The Love Cats e os Siouxsie & The Banshees levavam uma versão de Dear Prudence, dos Beatles, ao terceiro lugar da mesma tabela... Mas só podemos falar de uma verdadeira grande visibilidade (e volume de vendas) de bandas do mapa “alternativo” quando, em inícios dos anos 90, a MTV faz dos Nirvana nome de alta rotação, o mesmo acontecendo pela mesma altura com os Pearl Jam ou Smashing Pumpkins, entre outros mais. Vinte anos depois o que em tempos era “alternativo” foi entretanto assimilado e integrado pela cultura mainstream (e não apenas pelo mercado dos discos e dos festivais, mas também o da publicidade). Por muito haja músicos, bandas (e públicos) que se afirmem como indie nos dias que correm, na verdade poucos são os que traduzem um espírito verdadeiramente inovador, desafiante, irreverente ou simplesmente diferente como, em tempos, esse mesmo termo da nomenclatura pop/rock significava. Indie deixou há muito o "indie"(pendente) de quem operava fora do circuito do grande mercado. E transformou-se numa expressão social de quem quer ser diferente mas, na verdade, não deixa de ser igual a tantos outros... E, graças a vinte anos de criação de gostos (junto de quem divulga e de quem ouve música), afirma-se hoje como uma clara forma de cultura mainstream.
Note-se que não querem estas palavras traduzir a ideia que a música é melhor quando só é conhecida e partilhada por meia dúzia de almas que se comportam como guardiões de tesouros preciosos que mais ninguém vê, qual Gollum e seu anel. Assim fosse, e que nos interessariam os feitos de um David Bowie ou Kraftwerk nos anos 70, uns Pet Shop Boys ou Prince nos 80, uns R.E.M. ou U2 nos 90?... Fartaram-se de vender discos e estão longe de ter uma contribuição "menor" na história da evolução das formas da cultura popular. Alcançar um vasto patamar de espectadores não é necessariamente sinónimo de uma expressão de jogos de cedência ao mercado (havendo quem também o faça, claro). O que se coloca aqui em causa é a ideia de “personalidade” diferente que a cultura indie advoga como sua, por oposição a que será o suposto esbatimento de personalidade que vemos em muito do mainstream (que existe, sim). Mas será o indie de hoje assim tão diferente?... (sem o comparar com o mainstream de uma pop dominada por produtores e programas de "tele-talentos", claro).
Chegámos a um patamar de nivelamento na cultura indie que em nada traduz o seu desejo de ser diferente. E que, é verdade, faz falta para que a música e a cultura popular não se fechem em loops de mais do mesmo. Mas a verdade é que muita da música dita indie de hoje não é senão uma expressão com guitarras, baixo, bateria, vocalista, eventuais teclas e outros instrumentos, de uma certa lógica de pronto-a-vestir. Junta-se uma calça assim, uma T-shirt assado e mais aquele lenço e sai banda... E a verdade é que, uma com mais gimmick para aqui, outra com mais gimmick para ali, são todas, na sua essência, desejadamente diferentes, mas afinal desencantadamente iguais.
Quer isto dizer que não tem havido boas ideias em terreno indie? Nada disso. Veja-se o caso de uns Animal Collective, que foram simplesmente a banda mais influente e interessante da década dos zeros. Ou nomes como uns TV on The Radio, Beirut, Devendra Banhart, White Stripes ou No Age, cujas obras marcaram o seu tempo. Mas ao vermos os nomeados para os Grammys deste ano (e a própria presença ali em 2011 de um Bon Iver – com inusitada histeria nos concertos lisboetas deste ano) repararemos que o que se apresenta como indie na verdade tem mais em comum com uma lógica de comportamento mainstream que com a carga de ousadia e diferença que, a bem da evolução das formas e da cultura, deve existir em quem está de facto a agir independentemente das normas em vigor.
Nada contra o indie por principio. Só não acredito na maioria do indie de hoje como forma de expressão de uma vontade em criar, inventar, olhar em frente, como o recordo de heróis “indie” de outros tempos. Note-se que houve momentos de grande visão este ano. E que não faltaram grandes discos a 2012. Revelações como as de um John Talabot, Alunageorge ou Grimes. Novas visões de uns Dirty Projectors, Major Lazer, Ombre, Micachu & The Shapes, Matthew Dear. A simplicidade autoral de um Andrew Bird ou Perfume Genius. A vibrante agitação no R&B e periferias de Miguel, The Weekend ou Frank Ocean... Sim, alguns vêm de terreno "indie", mas o facto é que o grosso do indie de 2012 está longe de ser o que de melhor e mais visionário o ano nos deu a ouvir. O indie de hoje, aquele que os Grammys vão celebrar, que ouvimos nas bandas sonoras das campanhas publicitárias e nos palcos dos festivais, transformou-se numa coisa mainstream para quem acha que não quer ser mainstream, mas na verdade não deixa de o ser.
PS. E há mal em ser mainstream? Porque não se chamam antes as coisas pelos nomes?
Vejam aqui as nomeações para os Grammys de 2013, que motivaram este texto.
Note-se que não querem estas palavras traduzir a ideia que a música é melhor quando só é conhecida e partilhada por meia dúzia de almas que se comportam como guardiões de tesouros preciosos que mais ninguém vê, qual Gollum e seu anel. Assim fosse, e que nos interessariam os feitos de um David Bowie ou Kraftwerk nos anos 70, uns Pet Shop Boys ou Prince nos 80, uns R.E.M. ou U2 nos 90?... Fartaram-se de vender discos e estão longe de ter uma contribuição "menor" na história da evolução das formas da cultura popular. Alcançar um vasto patamar de espectadores não é necessariamente sinónimo de uma expressão de jogos de cedência ao mercado (havendo quem também o faça, claro). O que se coloca aqui em causa é a ideia de “personalidade” diferente que a cultura indie advoga como sua, por oposição a que será o suposto esbatimento de personalidade que vemos em muito do mainstream (que existe, sim). Mas será o indie de hoje assim tão diferente?... (sem o comparar com o mainstream de uma pop dominada por produtores e programas de "tele-talentos", claro).
Chegámos a um patamar de nivelamento na cultura indie que em nada traduz o seu desejo de ser diferente. E que, é verdade, faz falta para que a música e a cultura popular não se fechem em loops de mais do mesmo. Mas a verdade é que muita da música dita indie de hoje não é senão uma expressão com guitarras, baixo, bateria, vocalista, eventuais teclas e outros instrumentos, de uma certa lógica de pronto-a-vestir. Junta-se uma calça assim, uma T-shirt assado e mais aquele lenço e sai banda... E a verdade é que, uma com mais gimmick para aqui, outra com mais gimmick para ali, são todas, na sua essência, desejadamente diferentes, mas afinal desencantadamente iguais.
Quer isto dizer que não tem havido boas ideias em terreno indie? Nada disso. Veja-se o caso de uns Animal Collective, que foram simplesmente a banda mais influente e interessante da década dos zeros. Ou nomes como uns TV on The Radio, Beirut, Devendra Banhart, White Stripes ou No Age, cujas obras marcaram o seu tempo. Mas ao vermos os nomeados para os Grammys deste ano (e a própria presença ali em 2011 de um Bon Iver – com inusitada histeria nos concertos lisboetas deste ano) repararemos que o que se apresenta como indie na verdade tem mais em comum com uma lógica de comportamento mainstream que com a carga de ousadia e diferença que, a bem da evolução das formas e da cultura, deve existir em quem está de facto a agir independentemente das normas em vigor.
Nada contra o indie por principio. Só não acredito na maioria do indie de hoje como forma de expressão de uma vontade em criar, inventar, olhar em frente, como o recordo de heróis “indie” de outros tempos. Note-se que houve momentos de grande visão este ano. E que não faltaram grandes discos a 2012. Revelações como as de um John Talabot, Alunageorge ou Grimes. Novas visões de uns Dirty Projectors, Major Lazer, Ombre, Micachu & The Shapes, Matthew Dear. A simplicidade autoral de um Andrew Bird ou Perfume Genius. A vibrante agitação no R&B e periferias de Miguel, The Weekend ou Frank Ocean... Sim, alguns vêm de terreno "indie", mas o facto é que o grosso do indie de 2012 está longe de ser o que de melhor e mais visionário o ano nos deu a ouvir. O indie de hoje, aquele que os Grammys vão celebrar, que ouvimos nas bandas sonoras das campanhas publicitárias e nos palcos dos festivais, transformou-se numa coisa mainstream para quem acha que não quer ser mainstream, mas na verdade não deixa de o ser.
PS. E há mal em ser mainstream? Porque não se chamam antes as coisas pelos nomes?
Vejam aqui as nomeações para os Grammys de 2013, que motivaram este texto.
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