Mostrar mensagens com a etiqueta Obituários. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Obituários. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, abril 20, 2026

Morreu Nathalie Baye,
actriz tão talentosa quanto discreta

[ Libération, 20 abril ]

Actriz francesa de notável subtileza e versatilidade, Nathalie Baye trabalhou sob a direção de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Steven Spielberg. Faleceu em Paris, contava 77 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 abril).

A actriz francesa Nathalie Baye faleceu em Paris, na sexta-feira, dia 17 — contava 77 anos. A notícia foi divulgada pela sua filha, Laura Smet, também actriz, nascida da sua relação com Johnny Hallyday.
A sua formação artística foi fortemente influenciada pelos pais, Claude Baye and Denise Coustet, ambos pintores. Estudou bailado e, em boa verdade, a representação acabou por surgir como uma segunda opção que, em pouco tempo, se tornaria uma escolha irreversível — primeiro nos palcos, depois nos filmes. Começou por se desatacar em A Noite Americana (1973), de François Truffaut, um retrato dos bastidores da produção de um filme — Bayer surgia como a assistente do realizador, interpretado pelo próprio Truffaut.
O seu imenso talento foi-se afirmando através de papéis com componentes dramáticas muito contrastadas, fazendo valer a sua subtileza e versatilidade. Em termos mediáticos, manteve-se como uma figura relativamente discreta, embora muito conhecida e respeitada, como o provam os quatro Césares que ganhou. Eis cinco momentos emblemáticos da sua filmografia de mais uma centena de títulos.

A VIDA ÍNTIMA DE UM CASAL (1974)
Primeiro grande papel dramático de Nathalie Baye, contracenando com Philippe Léotard (na altura seu companheiro). Sob a direção de Maurice Pialat, somos projectados num universo familiar contaminado pela morte iminente da mãe da personagem de Léotard — exemplo extremo e fascinante de um realismo radical, sem tréguas.


O QUARTO VERDE (1978)
De novo sob a direção de François Truffaut, e também com Truffaut no papel central, Nathalie Baye interpreta uma figura incauta que descobre um homem que construiu um verdadeiro templo de adoração da sua falecida mulher — são fantasmas de vida, morte e desejo tratados numa “mise en scène” de infinito pudor, com a música sinfónica de Maurice Jaubert.


SALVE-SE QUEM PUDER (1980)
A partir de uma pequena galeria de personagens envolvidas em frágeis laços familiares e profissionais, Jean-Luc Godard assinava um filme genuinamente revolucionário, tanto pela visão depurada de novas relações humanas, como pela reinvenção das relações tradicionais entre imagem e som. Nathalie Baye arrebatou aqui o seu primeiro César, contracenando com Jacques Dutronc e Isabelle Huppert.


APANHA-ME SE PUDERES (2002)
A par de outras actrizes francesas, como Catherine Deneuve ou Isabelle Huppert, Nathalie Baye nunca "conquistou” Hollywood, mas bastaria este filme de Steven Spielberg para recordarmos o capítulo americano da sua carreira. Baye assume a personagem da mãe de um lendário vigarista, interpretado por Leonardo DiCaprio, num registo em que a crueza do drama se cruza com o absurdo do burlesco.


LAURENCE PARA SEMPRE (2012)
Foi um título decisivo na projeção internacional do jovem realizador canadiano Xavier Dolan (então com 23 anos). No seu centro descobrimos a personagem de Laurence, interpretado por Melvil Poupaud, protagonista de uma existência capaz de desafiar os padrões tradicionais da sexualidade — e também do romantismo. Nathalie Baye interpreta a mãe de Laurence.

sábado, março 07, 2026

Frederick Wiseman, in memoriam

Frederick Wiseman
(1930 - 2026)

Com uma filmografia de meia centena de títulos, o americano Frederick Wiseman é um dos maiores documentaristas da história do cinema, particularmente atento ao funcionamento dos espaços institucionais: morreu aos 96 anos de idade — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (18 fevereiro), com o título 'O cinema documental está de luto'.

Frederick Wiseman, nome central na história do documentário cinematográfico, morreu na terça-feira, dia 16 de fevereiro, em Cambridge, no estado do Massachusetts — nascido em Boston, a 1 de janeiro de 1930, contava 96 anos. O seu derradeiro filme, Menus-Plaisirs — Les Troisgros, sobre um restaurante francês na região de Ouches, no departamento do Loire, teve a primeira apresentação pública no Festival de Veneza de 2023.
Curiosamente, na longa filmografia de Wiseman — meia centena de títulos ao longo de seis décadas —, Menus-Plaisirs foi antecedido por uma das suas raras ficções, Um Casal, a partir das cartas trocadas entre o escritor russo Lev Tolstoi e sua mulher, Sofia (estreou-se em meados de 2024 no circuito comercial português). Seja como for, a dicotomia documentário/ficção está longe de se poder aplicar de modo automático ao labor de Wiseman.
Sempre reconheceu a ambivalência do seu olhar, aliás enraizada num método de trabalho tão simples como austero. Para Wiseman, abordar as vivências de um determinado espaço nada tem que ver com os clichés da televisão (invadindo um lugar para produzir um clip acelerado de dois ou três minutos, conduzido por um repórter de microfone na mão, etc.). Ele assume-se como um visitante, apostado numa complexa dialéctica narrativa: por um lado, trata-se de testemunhar vivências muito reais, respeitando os seus contrastes e também as suas durações; por outro lado, o material recolhido acaba por ser objecto de uma seleção e organização (entenda-se: uma montagem) que nunca é alheia ao olhar do cineasta. No limite, escolhendo personagens para mostrar e situações para descrever, aceitava que o considerassem como um escritor.
Desde o começo, Wiseman interessou-se pelo funcionamento de espaços institucionais. A sua primeira realização, Titicut Follies (1967), faz o retrato perturbante de uma prisão para criminosos com doenças mentais em Bridgewater, Massachusetts — foi objecto de uma interdição legal, de tal modo que só duas décadas mais tarde passou a circular normalmente nos EUA. Seguiram-se títulos emblemáticos como Law and Order (1969), sobre o dia a dia da polícia de Kansas City, Primate (1974), testemunhando cruéis experiências com macacos numa universidade de Atlanta, Georgia, ou ainda o assombroso Near Death (1988), rodado numa unidade especial de um hospital de Boston vocacionada para o tratamento de pacientes com doenças terminais.
São, por vezes, filmes de duração pouco ortodoxa (Near Death aproxima-se das seis horas), já que Wiseman recusa registar de forma apressada uma determinada situação para a transformar em videos banais com uma voz off “descritiva”. Ele o disse repetidas vezes: é preciso ter a paciência e a serenidade de deixar cada acontecimento... acontecer. Daí o volume de material registado em cada rodagem — com frequência, superior a uma centena de horas — e a reforçada importância da montagem.
A partir de certa altura, o gosto de conhecer contextos muito variados levou-o a filmar espaços a que, pela sua organização, também podemos chamar institucionais, embora não num imediato sentido político. Aconteceu com Ballet (1995), mostrando os bastidores do American Ballet Theatre, Boxing Gym (2010), rodado num ginásio dedicado à prática do boxe, Crazy Horse (2011), sobre o célebre cabaret de Paris, ou National Gallery (2014), retratando o dia a dia do lendário museu londrino.
Em última instância, a inusitada variedade dos trabalhos humanos será o tema unificador de uma obra imensa, por vezes capaz de penetrar onde nunca tinha estado uma câmara de filmar. Daí que Wiseman tenha sido frequentemente questionado sobre a estratégia usada para aceder a lugares de tão rara exposição pública. Com um misto de ironia e objectividade, respondia sempre da mesma maneira: “Peço autorização!”

>>> Em 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas homenageou Frederick Wiseman com um Oscar honorário — eis o respectivo filme/tributo, concebido por Davis Guggenheim, com montagem de Brian Quist.
 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

João Canijo (1957 - 2026)

[ Wikipedia ]

Autor de títulos emblemáticos como Sangue do Meu Sangue ou o díptico Viver Mal/Mal Viver, o realizador João Canijo faleceu no dia 29 de janeiro, perto de Vila Viçosa, distrito de Évora, onde repartia residência com Lisboa — contava 68 anos.
Canijo deixa uma obra plural que nunca foi estranha à sedução do teatro e também ao gosto documental, conciliando uma metódica exigência de realismo com um especial empenho no trabalho de composição dos seus intérpretes e, em particular, das actrizes — faz sentido dizer, aliás, que o feminino ocupa um lugar central nas dinâmicas narrativas e no apelo simbólico do seu trabalho. Em 2023, com o filme Mal Viver, obtivera a distinção mais importante de toda a sua carreira: um Urso de Prata (Prémio do Júri) no Festival de Berlim.

>>> As linhas que seguem fazem parte de um texto publicado no Diário de Notícias (30 janeiro).

Mantendo uma relação constante com os valores da representação, bem expresso no cuidado investimento no trabalho dos seus intérpretes, Canijo foi também, por isso mesmo, um autor sensível às relações do cinema com elementos de natureza teatral. Tinha, aliás, concluído um filme intitulado Encenação, que se anuncia, precisamente, como o retrato de um encenador de teatro, interpretado por Miguel Guilherme — segundo uma nota de imprensa divulgada na altura da rodagem, em agosto de 2025, pela Midas Filmes, produtora do filme, a personagem central “prepara uma nova peça, confrontado com a idade e o relacionamento com as suas atrizes”.
Sangue do Meu Sangue (2011), um drama familiar dominado pelas personagens femininas — também um fresco social sobre os modos de vida numa zona suburbana da grande Lisboa —, poderá ser tomado como símbolo exemplar das lógicas criativas da obra de Canijo. Desde logo porque nele encontramos, nos papéis principais, algumas das actrizes que pontuam toda a sua filmografia: Rita Blanco, Anabela Moreira e Cleia Almeida; depois, porque se trata de um projecto que, em paralelo, gerou Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, uma “variação” documental focada na relação de trabalho entre os intérpretes de Sangue do Meu Sangue e o realizador.
(...)

>>> Trailer de Sangue do Meu Sangue.
 

>>> Entrevista com João Canijo sobre Viver Mal/Mal Viver [Coffeepaste].
 

>>> Página de João Canijo na plataforma Filmin.

terça-feira, janeiro 13, 2026

Bob Weir (1947 - 2026)

[ FOTO: Chloe Weir ]

Figura lendária dos não menos lendários Grateful Dead, Bob Weir faleceu no dia 10 de janeiro — contava 78 anos. Guitarra e voz dos Dead, foi um dos fundadores da banda em 1965, juntamente com Jerry Garcia (guitarra e voz), Phil Lesh (baixo e voz), Bill Kreutzmann (bateria) e Ron "Pigpen" McKernan (teclas, harmónica e voz). A sua identidade artística é, por isso, indissociável de uma multiplicidade de referências — do blues ao psicadelismo, passando por folk e jazz — a que se manteve fiel nas bandas "alternativas" que foi integrando, por vezes derivações dos próprios Dead, algumas em registos assinados em nome próprio. Com ele, desaparece também um símbolo da contracultura dos anos 60/70.

>>> The Grateful Dead homenageados no Kennedy Center, 2024 — apresentação de David Letterman.
 
 
>>> The Grateful Dead, Sugar Magnolia (1974).
 

>>> Whatever Happened to Rose, de Blue Mountain (2016), derradeiro álbum a solo de Bob Weir.
 

terça-feira, janeiro 06, 2026

Béla Tarr (1955 - 2026)

Morreu Béla Tarr, figura nuclear da história do cinema da Hungria, nome maior da produção europeia; o seu falecimento foi divulgado pela Academia Europeia de Cinema, que integrava desde 1997.
Revisitando as memórias da sua obra austera e fascinante, é inevitável fixarmo-nos, com alguma ironia, naquele que seria o seu título de despedida: O Cavalo de Turim (2011). Revisito-o, aqui em baixo, através de alguns parágrafos escritos na altura do seu lançamennto nas salas portuguesas.
Foi, afinal, a sua primeira estreia no nosso país (com chancela da Midas Filmes), o que quer dizer que continua a fazer todo o sentido dar a ver — em sala — experiências tão marcantes como Danação (1988), Sátántangó (1994), As Harmonias de Werckmeister (2001) ou O Homem de Londres (2007). Já agora, sem esquecer que, tal como O Cavalo de Turim , todos eles contaram com a colaboração nos respectivos argumentos de László Krasznahorkai, Nobel da Literatura em 2025.

* * * * *

Em 1889, Friedrich Nietzsche viu um cavalo a ser batido pelo seu dono, numa rua de Turim: chocado e emocionado, agarrou-se ao animal, desfalecendo. Este episódio mais ou menos lendário (tido como prenúncio simbólico da decomposição mental de Nietzsche nos seus anos finais) serve de ponto de partida ao extraordinário O Cavalo de Turim.
Filmado sob o signo de Friedrich Nietzsche, O Cavalo de Turim colhe da herança do filósofo alemão muito mais do que a referência ao episódio que justifica o seu título. Aliás, o facto de esse episódio persistir através da ambígua conjugação da crónica histórica e da deriva lendária, empresta ao filme uma respiração “nietzschiana” que talvez se possa resumir através de uma solidão brutal. A sua definição começa na terrível indiferença divina ou, se preferirem, na interminável morte de Deus. Para usarmos as palavras do filósofo: “Deus morreu: mas a natureza humana é de tal ordem que é muito provável que, durante milhares de anos, haja grutas em que a sua sombra continuará a ser vista.” (in A Gaia Ciência, 1887).
Para sermos exactos, Béla Tarr apenas filma ciclos de vida: o dono do cavalo, a sua filha, as rotinas de uma quinta que parece emergir da terra como o cenário apocalíptico de todas as perdições humanas. Mas o que vemos não é tanto a banalidade da rotina como a cruel nitidez do tempo. O senso comum (arma dilecta do populismo televisivo) dirá, por certo, que a repetição dos gestos se torna redundante... O que desse modo se ignora é a própria questão existencial do tempo e o modo como a sua formulação implica o mais radical dos desafios cinematográficos. A saber: como encenar a consciência muito humana, demasiado humana, da morte?
A resposta de Béla Tarr envolve uma estranha e fascinante musicalidade que faz do filme, não o “relato” de uma experiência existencial, mas a íntima celebração dessa própria experiência. Em boa verdade, o cineasta convoca-nos para um cinema em que o simples efeito do vento na estabilidade dos corpos adquire a dimensão de uma escultura terrena. O céu pode esperar.

>>> Entrevista com Béla Tarr, realizada para a edição em DVD de As Harmonias de Werckmeister [Criterion].

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Brigitte Bardot (1934 - 2025)

O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard

Falecida no dia 28 de dezembro de 2025, contava 91 anos, Brigitte Bardot deixa o legado de alguém que nunca encarou o cinema como um "destino" (afinal de contas, abandonou os filmes em 1973, para se dedicar à defesa dos direitos dos animais). O que, entenda-se, não a impediu de ficar ligada a um símbolo das transfigurações do feminino nas décadas de 1950/60, através do filme E Deus Criou a Mulher (1956), de Roger Vadim; e também de encarnar uma figura etérea e indecifrável no filme da Nouvelle Vague que mais e melhor condensou a nostalgia dos clássicos e as convulsões da modernidade, ou seja, O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard. A sua personagem chamava-se Camille e este é o "Thème de Camille", da banda sonora original composta por Georges Delerue — Orquestra Nacional de Lille, maestro Dirk Brossé.


>>> Site oficial da Fundação Brigitte Bardot.
>>> Memórias na revista Elle.
>>> Obituário no jornal The Guardian.
>>> Evocação de Brigitte Bardot no Diário de Notícias [JL].
Dois cartazes de Le Mépris / O Desprezo (1963)
— o original e, à direita, o de 2023, assinalando o 60º aniversário do filme

quarta-feira, outubro 29, 2025

Jack DeJohnette (1942 - 2025)

De Jack DeJohnette dir-se-á, inevitavelmente, que a longa lista daqueles com que colaborou — de Miles Davis a Keith Jarrett, passando por Bill Evans, Sonny Rollins ou Herbie Hancock — bastará para definir a excepcionalidade do seu lugar na história do jazz. Assim é, sem dúvida, mas importa não esquecer os registos em nome próprio de uma discografia imensa em que a sua arte como baterista, dispensando protagonismos pueris, deixou marcas indeléveis em todas as composições em que participou.
Nascido a 9 de agosto de 1942, em Chicago, DeJohnette faleceu em Kingston, Nova Iorque, no dia 26 de outubro — contava 83 anos. Eis uma das suas peças na companhia de Keth Jarrett e Gary Peacock, e um solo espectacular publicado por Bernhard Castiglioni, fundador do Drummerworld.com.
 



>>> Site oficial de Jack DeJohnette.
>>> Obituário no DownBeat.

segunda-feira, outubro 13, 2025

Diane Keaton (1946 - 2025)

INTERIORS / Intimidade (1978), de Woody Allen

Será preciso relembrar que representar é desistir de algo que existe no actor/actriz, refazendo-o no corpo da personagem? Assim era Diane Keaton, falecida a 11 de outubro — contava 79 anos.

>>> No programa de Johnny Carson (28 dez. 1972).


>>> Annie Hall (1977), a cena com Marshall McLuhan.
 

>>> Com Warren Beatty, Reds (1981).
 

>>> Trailer de O Padrinho - Parte III.


>>> O Misterioso Assassínio em Manhattan (1993), última colaboração com Woody Allen.


>>> Obituário em The Independent.

terça-feira, setembro 23, 2025

Robert Redford
— morreu um grande contador de histórias

Os Três Dias do Condor (1975), de Sydney Pollack

Por certo mais conhecido através das suas interpretações em filmes tão populares como Os Homens do Presidente ou África Minha, Robert Redford foi um criador multifacetado também como produtor e realizador: morreu na sua casa de Sundance, no estado do Utah, contava 89 anos — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (17 outubro).

Robert Redford morreu aos 89 anos de idade. O mundo soube da notícia através de um comunicado de Cindi Berger, presidente da agência artística Rogers and Cowan PMK, responsável pelas relações públicas do actor, produtor e cineasta: “Robert Redford faleceu a 16 de setembro de 2025, na sua casa de Sundance, nas montanhas do Utah — o lugar que amava, rodeado por aqueles que o amavam. A sua falta será profundamente sentida. A família solicita que seja respeitada a sua privacidade.”
Na sua comovida brevidade, faz sentido que a notícia não destaque um ou outro filme — e escusado será dizer que haveria algumas dezenas de títulos possíveis, de Perseguição Impiedosa (1966), ao lado de Marlon Brando, sob a direção de Arthur Penn, até O Cavalheiro com Arma (2018), de David Lowery, insólito policial com retoques de comédia que, não sendo exactamente o seu derradeiro trabalho de representação, funcionou como uma espécie de despedida simbólica do cinema.
Sundance fica, de facto, como o nome (talvez possamos mesmo dizer: a bandeira) da trajectória plural de um actor que cedo compreendeu a importância das estratégias de produção na consolidação e renovação das estruturas criativas do cinema. Curiosamente, tudo isso começou com a compra de um terreno, nas montanhas do Utah, habitualmente utilizado para provas de ski — Redford conseguiu adquiri-lo graças aos ganhos obtidos em 1969 com Butch Cassidy and the Sundance Kid (Dois Homens e um Destino), um “western” em que contracenava com Paul Newman, sob a direção de George Roy Hill. Parafraseando a sua personagem (Sundance Kid), decidiu chamar Sundance à nova propriedade.
O passo seguinte consistiu em fundar o Festival de Sundance que, desde 1978, tem sido uma montra de eleição para a produção independente. Alguns dos seus títulos vencedores são reveladores do papel de descoberta e promoção de novos talentos que o festival tem desempenhado — lembremos os exemplos emblemáticos dos primeiros filmes dos irmãos Coen, Blood Simple/Sangue por Sangue (1984), ou Todd Haynes, Poison/Veneno (1991), e ainda CODA (2021), de Siân Heder, que viria a arrebatar o Oscar de melhor filme do respectivo ano de produção. Hoje em dia, Sundance é muito mais do que um festival graças ao Instituto Sundance, entidade que mantém diversos programas de apoio aos independentes das mais diversas origens culturais e geográficas, muito para lá dos circuitos dos EUA.

Do teatro ao cinema

Tudo isto aconteceu em paralelo com a ascensão de Redford como uma verdadeira “star” do sistema de Hollywood. No começo, a sua actividade parecia ir ficar confinada a um ziguezague entre os palcos da Broadway — com sucessos como a comédia romântica Descalços no Parque, de Neil Simon, em 1963, contracenando com Elizabeth Ashley — e participações regulares em algumas das mais populares séries televisivas da primeira metade da década de 60, incluindo Naked City, Perry Mason e Alfred Hitchcock Apresenta.
Dois títulos seriam decisivos para Redford surgir na linha da frente dos nomes mais populares de Hollywood: primeiro, a adaptação de Descalços no Parque (1967), contracenando agora com Jane Fonda, sob a direção de Gene Saks; depois, o já citado Butch Cassidy and the Sundance Kid, filme de uma vaga de "westerns” apostados na revisão crítica, tanto no plano narrativo como ideológico, das memórias do Velho Oeste. A essa vaga pertence o admirável Tell Them Willie Boy Is Here/O Vale do Fugitivo (1969), também com Redford, marcando o regresso à realização de Abraham Polonsky, marginalizado durante o período “maccartista”, que não assinava um filme desde 1948 (A Força do Mal).
Neste contexto de profundas transformações do sistema de Hollywood, cada vez mais abalado pela concorrência crescente do pequeno ecrã, Redford foi coleccionando sucessos como O Candidato (1972), crónica amarga e doce de umas eleições na Califórnia, sob a direção de Michael Ritchie — foi um momento especialmente importante na sua evolução profissional, já que, para lá do papel principal, marcou a sua estreia como produtor.
Entretanto, a sua amizade com Sydney Pollack (que conheceu na televisão quando eram ambos actores à procura de consolidar uma carreira de representação) foi gerando filmes de grande impacto, cada um deles arriscando reconverter e reinventar algum modelo do classicismo de Hollywood. Conheciam-se desde A Flor à Beira do Pântano (1966), com Natalie Wood, crónica romanesca sobre os tempos da Depressão inspirada numa peça em um acto de Tennessee Williams. Voltaram a colaborar em quatro títulos da década de 70: o “western” As Brancas Montanhas da Morte (1972), em grande parte rodado no Utah, o melodrama O Nosso Amor de Ontem (1973), ao lado de Barbra Streisand, e os “thrillers” Os Três Dias do Condor (1975) e O Cowboy Eléctrico (1979), o primeiro com Faye Dunaway, o segundo reencontrando Jane Fonda.
A apoteose popular da relação criativa Pollack/Redford aconteceria com África Minha (1985), epopeia romântica inspirada na experiência africana da escritora dinamarquesa Karen Blixen, interpretada por Meryl Streep. Colaboraram pela última vez em Havana (1990), melodrama em cenários cubanos pré-revolução, com Lena Olin, a actriz sueca que Ingmar Bergman consagrara em 1984 através do filme Depois do Ensaio.

Uma dimensão política

Por mais que possamos (e devamos) reconhecer a defesa da produção independente como marca vital do labor de Redford, importa não cedermos aos maniqueísmos do politicamente correcto e insistir no facto de ele nunca ter renegado a sua pertença ao sistema de Hollywood. Isso mesmo ficou patente no momento de consagração do seu primeiro filme como realizador, Gente Vulgar (1980), um subtil drama familiar cujas ressonâncias simbólicas não se desvaneceram.
Gente Vulgar ganhou o Oscar de melhor filme do ano, tendo arrebatado mais três estatuetas douradas: realização, para Redford, argumento adaptado, para Alvin Sargent, e actor secundário, para Timothy Hutton. Ao receber o seu prémio, Redford agradeceu aos realizadores com quem trabalhara no passado e com quem, “consciente ou inconscientemente”, tinha aprendido as artes da direção. E fez questão em acrescentar: “Não estará muito na moda, mas é um facto que agradeço o apoio da Paramount Pictures — deixaram-nos fazer o filme como queríamos, e estou muito grato por isso”.
Podemos especular sobre o enquadramento económico e artístico deste agradecimento, perguntando se, em termos gerais, esta relação particular de um cineasta com o “studio system” se prolonga, de alguma maneira, no actual cinema americano. Uma coisa é certa: Redford ainda assinou mais oito longas-metragens como realizador, deixando-nos um legado precioso em que, directa ou indirectamente, se reflectem os contrastes e contradições do seu próprio país, da vida política aos valores culturais.
Dois filmes permitem condensar o valor da sua filmografia como realizador: Quiz Show (1994) e Lions for Lambs (2007). O primeiro evoca um escândalo da televisão americana na década de 1950 (quando foram viciadas as regras de um concurso de perguntas/respostas), no limite colocando questões incómodas sobre o poder, de uma só vez social e simbólico, do pequeno ecrã, questões cuja actualidade se vai renovando, por vezes de forma inquietante. O segundo, lançado entre nós como Peões em Jogo, analisa as repercussões do envolvimento militar americano no Afeganistão, tendo como personagens centrais um congressista republicano, uma jornalista e um professor universitário, interpretados, respectivamente, por Tom Cruise, Meryl Streep e o próprio Redford. Infelizmente, o seu discreto impacto comercial faz com a sua dimensão genuinamente política (não panfletária, entenda-se) continue a ser mal conhecida.
A esse propósito, vale a pena lembrar que essa dimensão política da obra de Redford — enraizada numa tradição “hollywoodiana” em que podemos encontrar cineastas tão diferentes como Frank Capra, Richard Brooks ou Clint Eastwood — nunca o levou a proclamar qualquer maniqueísmo ideológico, muito menos partidário. Embora simplificando (e simplificando muito), podemos dizer que semelhante posição não é estranha a um conceito jornalístico em que a procura social da verdade e os direitos individuais do cidadão se entrelaçam de forma decisiva.
O sintoma perfeito de tal postura será, sem dúvida, o filme Os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula, sobre a investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein, jornalistas de The Washington Post, do escândalo Watergate que desembocaria na resignação do Presidente Richard Nixon. Interpretando Woodward, com Dustin Hoffman no papel de Bernstein, Redford está na origem do projecto, já que compreendeu muito cedo a importância da investigação que estava a ser desenvolvida — garantiu mesmo a compra dos direitos de adaptação do livro em que Woodward/Bernstein narram essa investigação (All the President’s Men, tal como o filme), antes mesmo de ser posta à venda a primeira edição.
Para muitos espectadores das gerações mais jovens, está por descobrir a multifacetada riqueza da herança que Redford nos deixou, muito para lá dos rótulos de “galã” ou “activista” que tantas lhe são aplicados. Em 2002, a Academia de Hollywood distinguiu-o com um Oscar honorário, em reconhecimento da sua “inspiração para cineastas independentes e inovadores”. Ao entregar-lhe a estatueta, Barbra Streisand disse-o com palavras precisas e carinhosas: “O trabalho de Robert Redford como actor, realizador e produtor representou sempre o próprio homem: o intelectual, o artista, o cowboy. Ele tem uma paixão por contar histórias que reflectem a energia e as vulnerabilidades do espírito americano — a nossa luta para alcançarmos o que é mais elevado na nossa natureza. E embora nem sempre o consigamos, os filmes de Robert Redford garantem-nos a possibilidade de celebrar o esforço”.
 

>>> Obituário no Los Angeles Times.
>>> Entrevista na revista Orion (8 nov. 2024).

segunda-feira, setembro 22, 2025

In memoriam: Sonny Curtis

Sonny Curtis
(1937 - 2025)

O americano Sonny Curtis é uma daquelas figuras mitológicas do rock'n'roll cujas composições há muito entraram no domínio da lenda. Foi membro de The Crickets, banda fundada por Buddy Holly em 1957 (nela se mantendo mesmo depois da morte de Buddy Holly), produziu uma notável discografia em nome próprio (o derradeiro álbum homónimo surgiu em 2007) e compôs canções que marcaram (e marcam) várias gerações.
Entre essas canções, destacam-se Walk Right Back, Love is All Around (tema de The Mary Tyler Moore Show), More Than I Can Say (com a colaboração de Jerry Allison, baterista de The Crickets), I'm No Stranger to the Rain (em registo country), e, claro, I Fought the Law, recriada por dezenas de artistas, incluindo The Clash, Bruce Springsteen, The Grateful Dead, The Ramones e Green Day — aqui fica a versão de The Clash, incluída no EP The Cost of Living (1979).
Sonny Curtis nasceu em Meadow, Texas; faleceu a 19 de setembro em Nashville, Tennessee — contava 88 anos.

terça-feira, setembro 16, 2025

Robert Redford (1936 - 2025)

O Cowboy Eléctrico (1979), de Sydney Pollack

A sua herança como actor, produtor e realizador transcende as próprias noções tradicionais de representar, criar condições para que existam filmes ou dirigi-los. O seu trabalho supera mesmo qualquer visão maniqueísta do espaço artístico, já que a sua pertença a Hollywood nunca o impediu, antes potenciou, a sua condição de símbolo e promotor da chamada produção independente. Robert Redford faleceu na sua casa de Sundance, Utah, no dia 16 de setembro de 2025 — contava 89 anos.

>>> Perfil de Robert Redford, por Jeffrey Brown (PBS).


>>> 1966: com Natalie Wood, em This Property Is Condemned/A Flor à Beira do Pântano, adaptação de uma peça em um acto de Tennessee Williams, com realização de Sydney Pollack.


>>> 1969: com Paul Newman, no western Butch Cassidy and the Sundance Kid/Dois Homens e um Destino, dirigido por George Roy Hill — adoptando o nome da sua personagem, Redford chamou Sundance à propriedade do Utah onde, em 1978, viria a nascer o Festival de Sundance, montra exemplar da produção independente.


>>> 1972: Jeremiah Johnson/As Brancas Montanhas da Morte, filmado no Utah, de novo com Sydney Pollack a dirigir.


>>> 1975: Sydney Pollack de novo, a assinar Os Três Dias do Condor, um dos mais subtis thrillers dos anos 70.


>>> 1976: quando Bob Woodward e Carl Bernstein, jornalistas de The Washington Post, ainda estavam a investigar o escândalo Watergate (que levaria à destituição de Richard Nixon), Redford, enquanto produtor, comprou os direitos de adaptação da sua história (All the President's Men); daí viria a nascer Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, com Woodward e Bernstein interpretados, respectivamente, por Redford e Dustin Hoffman — esta é a célebre cena em que Woodward questiona o seu informador ("Garganta Funda"), desembocando numa sugestão emblemática: "Follow the money".
 

>>> 1980: a estreia como cineasta — Gente Vulgar arrebatou quatro Oscars: filme, realização (Redford), actor secundário (Timothy Hutton) e argumento adaptado (Alvin Sargent).


>>> 1981 (31 março): em cerimónia apresentada por Johnny Carson, King Vidor e George Cukor entregaram o Oscar de realização a Redford, por Gente Vulgar.


>>> 1993: A River Runs Through It (Duas Vidas e um Rio), adaptado das memórias do escritor Norman Maclean (1902-1990), eis um verdadeiro diamante cinematográfico que permanece praticamente ignorado — apesar de ter valido a Philippe Rousselot o Oscar de melhor fotografia. Evocando a vida (e o rio) na zona de Missoula, Missouri, entre a Primeira Guerre Mundial e a Grande Depressão, esta é, seguramente, a realização de Redford mais ligada a uma poética vitalista, indissociável do carácter sagrado dos elementos naturais — com Redford a emprestar a sua voz à narração em off, este é também um dos primeiros filmes de Brad Pitt.
 

>>> 1994: desde Network (1976), de Sidney Lumet, o cinema de Hollywood tem sabido observar, decompor e expor as formas mais perversas que as linguagens televisivas podem assumir — Quiz Show, uma das realizações de Redford sem participar no elenco, é um exemplo maior dessa tradição ética e estética.


>>> 2007: Lions for Lambs (Peões em Jogo) é um dos mais genuínos filmes políticos que Hollywood gerou no século XXI, reflectindo os contrastes e contradições do universo político dos EUA face ao envolvimento militar no Afeganistão; as personagens centrais são um senador republicano (Tom Cruise), uma jornalista (Meryl Streep) e um professor universitário (o próprio Redford) — sem esquecer o estudante interpretado por Andrew Garfield, antes de vestir o fato do Homem-Aranha.


>>> 2013: um verdadeiro, e muito literal, one-man-show, filmado por J. C. Chandor: All Is Lost/Quando Tudo Está Perdido.


>>> 2018: The Old Man & the Gun/O Cavalheiro com Arma, dirigido por David Lowery, foi uma espécie de despedida simbólica do cinema — com a cumplicidade de Sissy Spacek.


>>> 2025: a série policial Dark Winds (AMC) foi o derradeiro projecto a que ficou ligado o nome de Robert Redford, na qualidade de produtor executivo. No primeiro episódio da terceira temporada, emitido a 9 de março, surgiu num pequeníssimo papel, contracenando com o escritor e argumentista George R. R. Martin (outro dos produtores executivos da série).


>>> Em 2005, Robert Redford foi um dos homenageados pelo Kennedy Center, a par de Tina Turner, Tony Bennett, Julie Harris e Suzanne Farrel; no dia 16 de setembro, poucas horas depois de ter sido conhecida a notícia do seu falecimento, aquela instituição publicou este tributo.

domingo, agosto 17, 2025

Ronnie Rondell Jr. (1937 - 2025)

Ronnie Rondell Jr. faleceu no dia 12 de agosto, em Osage Beach, Missouri — contava 88 anos.
A sua filmografia é uma imensa antologia de títulos marcantes como A Águia Voa ao Sol (John Ford, 1957), A Primeira Vitória (Otto Preminger, 1965), Balbúrdia no Oeste (Mel Brooks, 1974), Viver e Morrer em Los Angeles (William Friedkin, 1975) ou Eles Vivem (John Carpenter, 1978). Em muitos dos respectivos genéricos sem que o seu nome seja sequer citado. Porquê? Porque a história dos stuntmen nem sempre teve o reconhecimento que merece: ele foi, de facto, um dos duplos mais famosos, e também mais solicitados, ao longo de várias décadas da produção americana — Batman e Robin (Joel Schumacher, 1997), A Esfera (Barry Levinson, 1998) e The Matrix Reloaded (Lana & Lilly Wachowski, 2003) são alguns dos derradeiros filmes em que trabalhou, por vezes como coordenador da equipa de duplos.
Ironicamente, a sua performance mais famosa ficou registada numa imagem fixa. Ou seja: a fotografia da capa de Wish You Were Here (1975), nono álbum de estúdio dos Pink Floyd, da autoria dos estúdios Hipgnosis (o fotógrafo foi um dos respectivos fundadores, Aubrey Powell). Obtida nos estúdios Burbank, da Warner Bros., aí encontramos Rondell Jr. com a cabeça e o corpo a arder, cumprimentando Danny Rogers, também um duplo profissional.

>>> Obituário na Billboard.
>>> Wish You Were Here (do álbum homónimo dos Pink Floyd).

sábado, julho 19, 2025

Alan Bergman (1925 - 2025)

Marilyn e Alan Bergman com os Oscars ganhos por Yentl (9 abril 1984)

Com uma carreira pontuada por algumas canções lendárias do cinema americano, Alan Bergman faleceu na sua casa de Los Angeles, poucas semanas antes daquele que seria o seu 100º aniversário — texto publicado no Diário de Notícias (18 junho).

Ao longo da história de mais de seis décadas de canções nos filmes de Hollywood, Alan Bergman simbolizou um estilo feliz que nunca abandonou os valores clássicos próximos de um genuíno romantismo. Nascido a 11 de setembro de 1925, em Nova Iorque, morreu na quinta-feira, dia 17, na sua casa de Los Angeles — faltavam, portanto, menos de dois meses para completar 100 anos.
O seu legado é indissociável da colaboração com Marilyn Bergman, sua mulher, falecida em 2022. No Calor da Noite (1967), de Norman Jewison, um policial protagonizado por Sidney Poitier, foi o filme que lhes abriu as portas dos grandes estúdios. Entre os títulos a que a sua parceria está ligada incluem-se O Juiz Roy Bean (1972), um “western” de John Huston, com Paul Newman, Tootsie (1982), comédia de costumes de Sydney Pollack centrada numa das melhores interpretações de Dustin Hoffman, e Nunca Mais Digas Nunca (1983), uma aventura (não oficial) de James Bond, com Sean Connery sob a direcção de Irvin Kershner.
Em qualquer caso, os trabalhos mais célebres do casal Bergman são aqueles que lhes valeram Oscars. Ou seja:

— THE WINDMILLS OF YOUR MIND: interpretada por Noel Harrison, a canção tornou-se numa referência de culto de The Thomas Crown Affair / O Grande Mestre do Crime (1968), policial romântico com o par Steve McQueen/Fay Dunaway sob a direcção de Norman Jewison.


— THE WAY WE WERE: tema-título de um grande sucesso de Robert Redford/Barbra Streisand com realização de Sydney Pollack, entre nós lançado como O Nosso Amor de Ontem — transformou-se num dos “standards” mais populares da própria Barbra Streisand.
 

— THE WAY HE MAKES ME FEEL: de novo por Barbra Streisand, aqui como actriz, cantora e realizadora, este é um dos temas que integra a banda sonora de Yentl, filme baseado num conto de Isaac Bashevis Singer sob uma jovem polaca de origem judaica no começo do século XX — este Oscar, partilhado com Michel Legrand, não foi de melhor canção, mas de melhor arranjo musical das canções (categoria mais tarde abandonada).
 

>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

quarta-feira, junho 18, 2025

Alfred Brendel (1931 - 2025)

Na companhia de Minnie

Escutemos o Impromptu Op. 90 (Andante), de Franz Schubert, por Alfred Brendel. Ou como o pianista que, depois dos 16 anos, nunca mais recebeu lições formais de piano transfigurava em coisa muito sua os sons ambíguos do classicismo marcado pela libertação romântica.
Brendel nasceu em Wizemberk, Checoslováquias, a 5 de janeiro de 1931, tendo falecido a 17 de junho, em Londres — contava 94 anos.
 

>>> Obituário: NPR + Gramophone + BBC.

sexta-feira, junho 13, 2025

Brian Wilson (1942 - 2025)

[Wikipedia]

O legado de Brian Wilson envolve o fulgor e a sofisticação da arte da composição, a imagem de felicidade dos Beach Boys e, arrastando tudo isso, uma filosofia pop que está para lá de qualquer género, já que, sendo musical, é acima de tudo existencial — das suas boas vibrações, eis algumas imagens de Glastonbury, em 2005.
 

>>> Obituário: Pitchfork + Rock & Folk.

domingo, março 02, 2025

Lembrando Gene Hackman

[texto integral no DN]

Há um filme algo esquecido de Francis Ford Coppola que pode simbolizar o prodigioso talento de Hackman. Chama-se no original The Conversation (1974), tendo sido lançado entre nós como O Vigilante. Inspirado em algumas personagens verídicas, o argumento, da autoria do próprio Coppola, dá-nos a conhecer Harry Caul, figura enigmática, fechada sobre si mesma, que trabalha numa equipa de sonoplastas que aceitam “encomendas” para efectuar escutas da vida privada de outras pessoas.
O filme não pode ser desligado de um contexto de acelerada transfiguração das vidas humanas pela evolução tecnológica, para mais contaminado por múltiplas formas de descrença política — e escusado será sublinhar que as suas inquietações não desapareceram neste nosso século XXI. Era o tempo em que os cartazes dos filmes não receavam usar frases relativamente longas e não resisto a lembrar a de O Vigilante: “Harry Caul é um invasor da privacidade. O melhor no negócio. Consegue gravar qualquer conversa entre duas pessoas em qualquer lugar. Até agora, morreram três pessoas por causa dele.”
Gene Hackman
A certa altura, há uma cena em que Caul monta a sua parafrenália numa casa de banho. Para escutar melhor, enrosca-se, literalmente, por baixo de uma prateleira... e fica ali, com os seus auscultadores, a olhar para o vazio. É bem verdade que o filme tende a ser visto como a tragédia daqueles que são escutados — o que, aliás de acordo com a frase promocional do cartaz, possui uma lógica irrefutável. Mas sinto sempre que essa visão “apaga” aquilo que temos ali mesmo, à nossa frente: a solidão irredutível do homem que escuta.
Dito de outro modo: O Vigilante é também um filme sobre a dispersão de uma personalidade no interior de um sistema de poder por ele servido, tanto quanto por ele desconhecido. Não que tal dispersão desresponsabilize Caul — longe disso. Acontece que ele serve um poder que, através do imponderável da tecnologia, tende a rasurar a própria noção de responsabilidade.
Hackman foi esse actor capaz de encarnar personagens na fronteira da dimensão humana, à deriva no interior de um espaço social incapaz de os libertar de tão cruel solidão. Apesar de parco nas palavras, há um momento em que Caul discute com um dos colegas o valor da curiosidade na actividade dos humanos. Diz ele: “Se há uma regra segura que aprendi neste negócio é que não sei nada sobre a natureza humana. Não sei nada sobre a curiosidade, não tem nada a ver com aquilo que faço.”

terça-feira, janeiro 14, 2025

Oliviero Toscani (1942 - 2025)

[ Auto-retrato, 2021 ]

Fotógrafo indissociável da marca Benetton, criador de imagens que revolucionaram o próprio conceito de publicidade, o italiano Oliviero Toscani faleceu no dia 13 de janeiro, em Cecina, vitimado por amiloidose — contava 82 anos.
Toscani perverteu a lógica primitiva da publicidade — dar a ver e valorizar a mercadoria —, criando imagens que se inscreviam directamente na convulsões sociais e políticas do nosso mundo, por assim dizer, celebrando o próprio "produto" através de uma elaborada e paradoxal abstração. Nesta perspectiva, ensinou-nos a olhar e pensar as imagens, não como "reproduções", antes como derivações iconográficas da ilusória transparência dos corpos e objectos.
Padre e freira (1991)

HIV positivo (1993)

Corações (1996)

>>> Obituário no jornal Le Monde.
>>> Oliviero Toscani no Instagram.
>>> Oliviero Toscani no site Artemest.