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domingo, dezembro 07, 2014

A idade da comunicação 'online'
encenada num palco de ópera


As notícias, que há alguns (largos) anos corriam dando conta de que a ópera era coisa arrumada nas prateleiras da memória, não podiam estar mais erradas. Se nomes como Britten ou Henze a mantiveram de boa saúde quando muitos procuravam mais ideias noutros azimutes, depois dos anos 70 – graças, entre outros feitos, ao impacte de Einstein on The Beach de Philip Glass e do arranque do ciclo Licht de Karlheinz Stockhausen – este foi um universo reativado, cativando o interesse de novos compositores e públicos, chamando a si nomes como os de John Adams, Kaija Saariaho, Thomas Adès, Osvaldo Golijov ou Michael Nyman, merecendo ainda atenção da parte de figuras então já com obra feita como Messiaen ou Andriessen e chegando a seduzir figuras nascidas nos terrenos da música popular como Damon Albarn, a dupla sueca The Knife ou o cantautor canadiano Rufus Wainwright e levando o realizador de cinema John Greyson a criar, em Fig Trees, uma ideia (inédita) de cinema documental na forma de uma ópera. Nico Mulhly que, aos 33, anos tem já obra feita nos domínios da música orquestral, instrumental e vocal, somando ainda um tempo de labor no estúdio de Philip Glass, trabalhos no cinema (entre os quais a música para O Leitor, de Stephan Daldry) e diversas colaborações com músicos nas esferas da pop (além de integrar o coletivo Bedroom Comunity trabalhou já em gravações de Antony & The Johnsons, Björk, The National ou Grizzly Bear) é um nome que, mais dia, menos dia, acabaríamos por ver num palco de ópera.

Estreada pela English National Opera em 2011 e depois apresentada pelo Met em 2013, Two Boys assinala, e da melhor forma, a sua estreia neste patamar. Baseada em ecos de factos reais, Two Boys transportou para o mundo da ópera as formas de comunicação da era da Internet numa narrativa que, com o fulgor de um thriller, acompanhamos ao desenrolar de cada cena fazendo com que, mais que em muitas experiências operáticas, a vontade de conhecer o desfecho da história partilhe o protagonismo com a experiência musical que temos também pela nossa frente.

Pela leitura dos textos críticos feitos por alturas das estreias em Londres e Nova Iorque – e onde, felizmente, se está longe da unanimidade (e quase nunca a grande música foi unânime na hora do nascimento) – é-nos dada conta de uma cenografia que soube explorar a presença em palco dos ecrãs de computador. Mais entranhada ainda no corpo da ópera está a forma como o libreto de Craig Lucas se apropriou de formas de discurso características de chat rooms e trocas de mensagens – afinal o espaço de comunicação virtual, e sob nicknames, que corre na medula da narrativa e que servirá a descodificação do mistério de um incidente (um ataque com uma faca) que uma agente terá de resolver.

Musicalmente Nico Muhly persegue caminhos em sintonia com o que tem vindo a trabalhar na sua música orquestral e vocal, não sendo de todo descabidas algumas referências a figuras tutelares como as de Britten ou Adams que surgiram em algumas opiniões sobre a ópera quando estreou na ENO e no Met.

A edição em disco, pela Nonesuch, toma a produção do Met como palco para este que é o primeiro registo gravado da ópera. Paul Appelby e Alice Coote assinam os papéis principais, com David Robertson a dirigir a orquestra e o coro da Metropolitan Opera.

sábado, setembro 20, 2014

Em busca da música do século XXI (1)


Este texto é um excerto de um artigo sobre cinco compositores do nosso tempo originalmente publicado no suplemento Q do Diário de Notícias com o título 'Para descobrir a música do século XXI'.

As fronteiras que em tempos poderiam existir entre os espaços da música clássica e dos universos pop/rock começaram a conhecer grandes rombos em parcerias que juntavam visões de ambos os lados do que, para alguns, podia ser um muro. Mais que as visões de revisitação de Bach ou Debussy pelas electrónicas de, respetivamente, Wendy Carlos e Isao Tomita, ou as experiências de convivência da música dos Deep Purple com a presença de uma orquestra sinfónica, houve diálogos mais profundos estabelecidos quando Pierre Boulez gravou um disco com Frank Zappa, quando Philip Glass criou ciclos de canções com Suzanne Vega, David Byrne ou Leonard Cohen ou quando John Tavener compôs uma peça vocal expressamente pensada para a voz de Björk. Em todos os casos houve sempre em cena pelo menos dois nomes, uns com historial feito em terreno pop/rock, outros em espaços da música erudita. O novo século nasce contudo com uma nova geração de compositores para quem as noções de barreiras não existem, com casos até de figuras com carreira na pop (como Damon Albarn, os The Knife ou Rufus Wainwright a aventurar-se no espaço da ópera). Não é inédita a atitude, e basta recordarmos como Gershwin integrou o jazz ou Bernstein o fez com a música da Broadway e outras formas populares americanas, para termos a noção de que fazer música sem barreiras não é uma invenção do século XXI. O que é talvez do século XXI é a tomada de consciência de que esta pode mesmo ser uma ética a definir uma nova forma mais frequente de estar na música. De resto, em entrevista recente ao DN, o compositor Max Richter descrevia mesmo a música do século XXI como sendo aquela em que “a tendência dominante é a ideia das tradições musicais se interpenetrarem e das fronteiras ficaram difusas”. 

Max Richter é um bom exemplo de uma atitude que passa também por outros compositores que, aos poucos, estão a definir o que é, afinal, a música do século XXI. Se a ele juntarmos os nomes de Richard Reed Parry (que integra os Arcade Fire), Johnny Greenwood (dos Radiohead), Bryce Dessner (dos The National) ou Nico Muhly, encontramos uma mão-cheia de figuras que, já com peças editadas em disco, revelam uma obra em que heranças e experiências na pop se cruzam com instrumentos, grupos e formas da clássica. Para lá dos cânones, uma nova música nasce por ali...

(continua)

PS. A imagem que ilustra este post é um momento da ópera 'Tomorrow in a Year' dos The Knife

domingo, maio 11, 2014

A música do presente em 27 miniaturas


A tradição de apresentar pequenas peças, sob o pedido dos aplausos entusiasmados vindos da plateia, no final de atuações ao vivo, crê-se que remonte a Londres em inícios do século XVIII e aos espaços da ópera. Mas foi hábito que ganhou a forma que hoje conhecemos quando, no século XIX, Liszt ajudou a definir o modelo do recital. Raras são contudo as vezes em que escutamos peças de autores contemporâneos nesses instantes de celebração. E foi de uma série de buscas na Internet, que lhe tomaram uma noite inteira até que a manhã finalmente despertou, e que a levaria a contactos pessoais com 26 compositores do nosso tempo, que a violinista, de 33 anos, Hilary Hahn, definiu um conjunto de convites para que escrevessem novas miniaturas para violino e piano. Lançando depois um concurso para escolher o vigésimo sétimo.

Foi a própria violinista quem telefonou aos compositores, chamando assim a colaboração de nomes de várias geografias e espaços musicais, entre os quais surgiram figuras como David Lang, Valentin Silvestrov, Max Richter, Nico Muhly, Einojuhani Rautavara, Eliott Sharp ou James Newton Howard, aos quais se juntou Jeff Myers, o vencedor do concurso.

A violinista, que já garantira estreias de obras de Edgar Meyer ou Jennifer Hidgon, e em 2012 partilhou o alinhamento do álbum Silfra com Hauschka, registou agora as primeiras gravações destas 27 miniaturas em In 27 Pieces – The Hilary Hahn Encores, disco que partilha com o pianista Cory Smythe e lança pela Deutsche Grammophon. 

Esta é uma versão acrescentada de um texto que foi originalmente publicado na edição de 6 de maio do DN

domingo, dezembro 02, 2012

A arte de re-compor (parte 1)


Uma das mais estimulantes séries de lançamentos discográficos do nosso tempo está a mostrar de forma bem clara que a velha noção de frontera entre géneros musicais está tão derrubada como o Muro de Berlim. Este texto é parte de um artigo publicado na edição de 24 de novembro de 2012 do suplemento Q. do com o título ‘Quando a música do pasado ajuda a inventar a música do futuro.

A evolução da música está inevitavelmente ligada à história dos instrumentos e, desde que há gravações, à tecnologia associada à captação e manipulação dos sons. O aparecimento do piano no século XVIII, a expansão da orquestra sinfónica no século XIX ou o aparecimento de instrumentos eletrónicos no século XX abriram espaço a novos sons e até mesmo a novas formas musicais. Na história recente da música popular tem sido particularmente visível a forma como a sucessiva entrada em cena de novos instrumentos e novas tecnologias tem assegurado os saltos evolutivos. A guitarra elétrica determinou os caminhos do rock’n’roll nos anos 50 e a “eletrificação” da música folk em meados dos anos 60. O surgimento de gravadores multi-pistas fez do próprio estúdio uma ferramenta ao serviço da criação musical em finais dos anos 60 (com nomes como os Beatles ou Beach Boys a dar-nos primeiras expressões das novas potencialidades da tecnologia ao serviço da música), amplificando então a complexidade dos arranjos das canções. Já nos anos 70, a proliferação dos sintetizadores lançou as bases para uma nova pop eletrónica e, mais adiante, com a chegada de sequenciadores, caixas de ritmos e samplers, os espaços da house, do techno e de outras expressões daí decorrentes. Ainda em finais dos anos 70, a descoberta de que o gira-discos podia ser ele mesmo uma fonte de som à disposição do músico permitiu estruturar uma nova lógica de construção musical da qual nasceria o hip hop... E a história não acaba aqui...

Apesar de muitas destas formas e tecnologias terem uma maior penetração nos espaços da música popular, a verdade é que a música erudita do nosso tempo tem apreendido e integrado ideias, formas e sons. Ouvimos eletrónicas, segundo formas habitualmente presentes na atual música de dança, em Ayre, um recente ciclo de canções do compositor argentino Osvaldo Golijov. O norte-americano Nico Muhly, um dos mais ativos compositores do século XXI (com obra repartida entre a música erudita e a popular) conhece e domina estas tecnologias e formas. O mexicano Murcof cruzou épocas e linguagens musicais ao juntar texturas eletrónicas a ecos da memória de Lully e outros compositores da época em The Versailles Sessions. E o inglês Ambrose Field criou outra ponte ainda mais distante, juntando peças vocais do compositor medieval Guillaume Dufay a eletrónicas do presente em Being Dufay, um dos discos recentes que mais desafiou a velha noção de fronteira entre a música clássica e as formas musicais de um presente onde as antigas nomenclaturas vão sendo cada vez mais difíceis de aplicar.

Esta ideia da saudável transgressão face ao que antes pareciam fronteiras claras entre géneros está a ser assimilada pela Deutsche Grammophon (DG). Uma das mais célebres das editoras discográficas com catálogo essencialmente centrado na edição de música clássica, a DG lançou em 1995 o álbum de Todd Levin DeLuxe, que desafiava todas as catalogações. Pelo seu catálogo encontramos nomes como os de Sting e, mais recentemente, Tori Amos, figuras com obra reconhecida nos domínios da canção popular. Mas se há discos onde a DG vinca essa vontade de romper cânones e, assim, ajudar a inventar a música do nosso tempo (e, quem sabe, a do futuro), eles são os que têm sido lançados pela série a que chamou Re-Composed.

domingo, abril 22, 2012

Clássica: a nova geração (1):
Nico Muhly (compositor)

Nico Muhly
(n. 1981)
Compositor e pianista

É um homem dos mil ofícios e um caso paradigmático do que é um músico do século XXI, entre os seus trabalhos cruzando géneros e entre eles não colocando nunca fronteiras. Natural de Providence (Rhode Island), Nico Mulhy licenciou-se em literatura inglesa pela Columbia University e completou os estudos de música na Juilliard School (onde, entre outros, foi aluno de John Corrigliano). Entre as suas primeiras importantes experiências profissionais conta-se o trabalho nos Looking Glass Studios, de Philip Glass. Cantou num coro em pequeno, ainda hoje sentindo evidente interesse pela música coral enquanto compositor. Tem já editados alguns discos, e hoje integra o catálogo da Decca Classics.

Em paralelo mantém o trabalho com os demais músicos da Bedroom Comunity (que abre horizontes a espaços da folk, contry e outras formas musicais). Mantém ainda uma forte ligação aos universos da música popular tendo já colaborado com nomes como os Grizzly Bear, Björk, Antony & The Johnsons ou Jonsi, dos Sigur Rós. Em 2011 Nico Muhly estreou em Londres (na English National Opera) a sua primeira ópera Two Boys, que explora o lado mais negro da Internet. Assinou já diversas bandas sonoras, entre as quais a de O Leitor, de Stephen Daldry.


Três títulos da discografia de Nico Muhly. O primeiro é Mothertongue, editado pela Bedroom  Comunity. O segundo apresenta uma gravação de I Drink The Air Before Me, criado para uma coregorafia (ver aqui). O terceiro é o mais recente A Good Understanding, gravado pelo Los Angeles Master Chorale.

Podem ver aqui o site oficial do músico



Imagens de uma entrevista em Nova Iorque

Podem recordar aqui uma entrevista de Nico Muhly já publicada no Sound + Vision:

Parte 2
Parte 3

sábado, março 24, 2012

Nos 75 anos de Philip Glass (7)

Continuamos a publicação integral de um extenso texto sobre o compositor Philip Glass publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias, assinalando os seus 75 anos. O texto, com o título 'Acordar cedo e trabalhar todo o dia é o segredo de Philip Glass' foi publicado a 28 de janeiro.

“Glass pode ter-se tornado um compositor de ópera por acaso, mas está a definir um rumo nos seus termos. Os seus temas são escolha sua e ele procura as circunstâncias para fazer com que os trabalhos para o palco sejam viáveis. É o oposto da situação com o seu trabalho orquestral, que tem resultado de respostas frutíferas a vários pedidos.” (49)

A abertura de Glass à música para orquestra não aconteceu, de facto, como fruto de uma demanda pessoal, mas de desafios que lhe lançaram, muitos deles tendo na figura do maestro Dennis Russel Davies um importante parceiro de trabalho. Antes mesmo de ensaiar pela primeira vez o formato da sinfonia, experimentou em finais dos anos 80 o desafio de criar um concerto para violino, que compôs tendo em mente a figura do seu pai, criando algo de que ele tivesse gostado. Outros concertos, como o Tirol Concerto (2000) ou o Concerto para Violoncelo (2001) surgiram de encomendas concretas, a primeira do gabinete de turismo tirolês, a segunda para o Festival de Música de Pequim.

A sua primeira Sinfonia data de 1991 e representa uma reflexão nascida de momentos do álbum histórico Low, que David Bowie criou (contando com importante colaboração de Brian Eno) em 1977. Uma segunda sinfonia centrada nos universos de Bowie e Eno surgiria em 1994 na forma da Heroes Symphony.

O relacionamento próximo com figuras (e formas) da música pop é uma característica antiga e recorrente ao longo da obra de Philip Glass. Em 1983 colaborou com David Byrne (50) na composição de A Gentleman’s Honour, canção que integrou a música para The Photographer (1983). Três anos depois, a Byrne juntou as presenças de nomes como Suzanne Vega (51), Laurie Anderson (52), Paul Simon (53) ou Linda Rondstat (54) para criar Songs from Liquid Days, um ciclo de canções que representa aquilo que podemos ver como a maior aproximação da música de Glass face aos universos da música pop. Escreveu depois uma canção para a voz de Mick Jagger (55) e uma outra para Natalie Merchant (56). Fez arranjos para Marisa Monte (57) e Pierce Turner (58). Criou um ciclo para poemas de Leonard Cohen (59). Colaborou por duas vezes com Aphex Twin (60) e remisturou uma canção dos S-Express (61). Produziu e tocou com os Polyrock (62). Em 2003, o álbum Glasscuts apresentava remisturas de temas seus por músicos e DJs latino-americanos. Neste momento está a ser preparado o lançamento de um novo disco de remisturas, este com Beck entre os protagonistas. Ao mesmo tempo fez-se referência para novos e talentosos jovens compositores. Editou na Point Music um disco de Arthur Russell (63). E entre os que consigo trabalharam (e hoje o admiram) conta-se o promissor Nico Muhly (64).

A sua relação com os universos e figuras da música pop é de resto antiga. “No início dos anos 70 toquei muito com o ensemble na Alemanha e grupos como os Kraftwerk ou os Can tinham um bom relacionamento comigo, de franco diálogo.” (65). E é também sabido que entre uma das plateias que assistiram a Music with Changing Parts numa digressão europeia em inícios dos setentas, Bowie e Eno estava na plateia a assistir. Glass diz mesmo que o relacionamento com a pop é “gratificante” e que sempre o entusiasmou. De resto, concluía assim essa conversa: “Esta dicotomia que separa a música popular da clássica é recente! Os primeiros bailados de Stravinsky não seriam possíveis sem os estudos sobre a música popular russa de Rimsky Korsakov. Stravinsky trouxe para uma linguagem sinfónica as raízes da música popular do seu tempo. De certo modo continuo essa tradição. Há um puritanismo protecionista em relação à música clássica que me assusta. O diálogo entre as diversas músicas é entusiasmante e produtivo.” (66) Glass é, de resto, uma figura que não esgota a sua atenção pela música no ato de compor e interpretar o que escreve. Apesar de etapas ligadas a editoras como a CBS ou a Nonesuch, sempre teve editoras discográficas (primeiro a Catham Square, nos anos 70, mais tarde a Point Music, um selo do grupo Universal, nos anos 90 e, hoje em dia, a Orange Mountain Music).

Em inícios dos anos 80, num episódio do documentário televisivo Four American Composers, realizado por Peter Greenaway, Philip Glass descrevia assim os admiradores da sua música: “Há quem goste porque é barulhenta, e quem goste porque é rápida, há quem goste porque é muito clássica, há quem goste porque não é clássica, há quem goste porque soa a música indie e quem goste porque acha que não soa a música indie... Tem tudo a ver com a idade de cada um e com o que cada pessoa traz à música.” E deste aparente paradoxo nasceu uma voz que, transcendendo as fronteiras de género da música, podemos antes encarar como uma figura do nosso tempo.

49 - in Glass, A Portrait, de Robert Maycock, Sanctuary, 2002, pag 129 
50 – David Byrne (n. 1952) Ex-vocalista dos Talking Heads, é um dos mais aclamados músicos do nosso tempo e também editor discográfico. Trabalhou com Philip Glass em The Photographer (onde assina a letra de A Gentleman's Honour) e Songs From Liquid Days (onde co-assina Liquid Days e Open The Kingdom). 
51 – Suzanne Vega - Autora das letras de Lightning e Freezing, em Songs From Liquid Days 
52 – Laurie Anderson - Autora da letra de Forgeting, em Songs From Liquid Days. É uma das vozes na gravação em disco da ópera Civil Wars (edidada em 1999). 
53 – Paul Simon - Autor da letra de Changing Opinio, em Songs From Liquid Days. 
54 – Linda Rondstat - Voz de Freezing e Forgeting, em Songs From Liquid Days. É a voz também na gravação em disco de 1000 Airplanes On The Roof. 
55 – Mick Jagger - Vocalista dos Rolling Stones, canta a versão original de 'Streets of Berlin' na banda sonora do filme 'Bent', onde surge também como ator.
56 – Natalie Merchant - Canta 'Planctus', canção de Philip Glass estreada em 1997
57 – Marisa Monte - Glass assina o arranjo de 'Ao Meu Redor'
58 – Pierce Turner - Philip Glass fez arranjos de várias canções dos dois primeiros álbuns a solo do músico.
59 - Leonard Cohen - Glass compôs em 2007 um ciclo de canções a partir de poemas do 'Book of Longing' de Cohen
60 – Aphex Twibn- Colaborou com Glass em 'Icct Hedral', tema editado no EP 'Donkey Rhubarb'. Assinou depois uma remistura de 'Heroes' de Bowie, tomando como ponto de partida a abordagem à canção segundo Philip Glass na sua 'Heroes Symphony'.
61 – S-Express- Philip Glass assinou uma remistura de 'Hey Music Lover', editada em máxi-single em 1989.
62 – Polyrock  - Banda new wave nova iorquina, contou com colaborações de Glass nos seus dois primeiros álbuns
63 – Arthur Russell  - Glass editou 'Another Thought' na sua editora Point Music, em 1994
64 – Nico Muhly - Compositor norte-americano, trabalhou algum tempo nos Looking Glass Studios.
65 – in DN, 30 de Outubro de 1996 
66 – ibidem

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Novas edições:
Jonsi, We Bought a Zoo

Jonsi
"We Bought a Zoo"
Columbia / Sony Music
3 / 5

O realizador norte-americano Cameron Crowe faz questão de não esquecer um percurso anterior ao cinema no qual a música era o objeto central da sua atenção. De resto, em Almost Famous, deixou marcas autobiográficas de ecos de um tempo que viveu entre bandas, quando escrevia para as páginas da imprensa musical. E hoje, mesmo sendo essas apenas memórias arrumadas, faz questão em levar à banda sonora dos seus filmes os nomes da música que o estimulam no presente. A música dos Sigur Rós já passara pelo seu cinema, mas para o mais recente We Bought a Zoo (que estreia brevemente entre nós) chamou apenas Jonsi, o vocalista do quarteto islandês. Se bem que a música que escutamos no filme integre outras presenças (dos Echo & The Bunnymen e Wilco a Neil Young), o disco resume-se apenas à contribuição de Jonsi. Ou seja, a revisões de três canções do seu álbum de estreia a solo Go (de 2010), a uma única passagem por memórias dos Sigur Rós (em Hoppipolla), as restantes composições representando o resultado do trabalho especificamente criado para servir o filme. De realmente novo Jonsi apresenta paisagens essencialmente instrumentais que mantém o tom paisagista e sonhador da música menos assombrada dos Sigur Rós e segue por rotas mais focadas que as que fizeram (o bem interessante, note-se) álbum conjunto com Alex Somers, em 2009, a contribuição dos arranjos para cordas e metais por Nico Muhly conferindo-lhe uma dimensão que abre caminhos que podem justificar experiências futuras quer a solo, quer entre a banda, reencontrando ecos de um sinfonismo luminoso que em tempos escutámos em Agaetys Byrjun (o segundo álbum de originais dos Sigur Rós que deles fez o centro das atenções por alturas da chegada do novo milénio). O alinhamento encerra com Gathering Stories, uma canção co-assinada entre o músico e o realizador, diálogo que dá conta do envolvimento de ambos no filme.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Os melhores discos de 2011


N.G.:

Pop/rock: Um ano de muitos discos (como tantos outros), mas com uma ideia dominante que ajudará, um dia, a memória a evocar 2011 segundo uma série de títulos, nomes e... um som. Com genética primordial no dubstep, uma relação com a canção, ferramentas electrónicas e um trabalho atento a filigranas de discretos acontecimentos, 2011 teve em nomes como James Blake, Nicholas Jaar, Jamie Woon ou Jai Paul alguns dos seus mais importantes embaixadores. O primeiro, que fora já uma das mais sérias promessas de 2010 confirmou em pleno as expectativas num álbum absolutamente notável que podemos entender como paradigma desta forma de fazer música. Apesar de ter já editado um primeiro disco em 2008, o nova iorquino Son Lux fez de We Are Rising o mais interessante dos momentos menos mediatizados do ano, num álbum criado em apenas 28 dias que serve, de certa forma, para dar continuidade a uma visão que busca caminhos novos além dos horizontes da pop, tal e qual o fez Sufjan Stevens em The Age of Adz. PJ Harvey, sob minimalismo de recursos, mas profundamente expressiva no retrato que traça da Inglaterra de hoje fez de Let England Shake o melhor dos discos de uma das mais impressionantes discografias do nosso tempo. Pela lista surgem ainda as canções de travo retro de John Maus, o regresso eloquente e gourmet de Kate Bush, o paisagismo ambiental de Julianna Barwick, as belíssimas canções de Bon Iver, a pop elegante de Destroyer, o encontro iluminado de Mimi Goese com Ben Neill ou as visões cénica e texturalmente ricas de Nicholas Jaar. O ano destacou ainda discos de uns Sound of Arrows, Cat’s Eyes, Alex Turner, David Lynch, Björk ou John Vanderslice. Mas um top 10 é um top 10...

1 . James Blake, James Blake
2 . Son Lux, We Are Rising
3. PJ Harvey. Let England Shake
4. John Maus, We Must Become The Pityless Consors of Ourselves
5. Kate Bush, 50 Words For Snow
6. Julianna Barwick, The Magic Place
7. Bon Iver, Bon Iver
8. Destroyer, Kaputt
9. Mimi Goese + Ben Neill, Songs for Persephone
10. Nicholas Jaar, Space Is Only Noise


Música portuguesa: Há muito que a música eléctrica portuguesa não escutava um disco assim. Intenso e diferente. E tudo sob um mínimo de recursos. Ana Deus e Alexandre Soares juntaram-se como Osso Vaidoso, a voz tendo por principal companhia uma guitarra eléctrica, as canções mostrando como com pouco se faz muito, às palavras sendo concedido um protagonismo que a tudo dá sentido. O ano teve uma vez mais em B Fachada um dos seus momentos de referencia, desta vez num disco que colocou o piano como principal elemento ao serviço da composição. Destaque-se ainda a confirmação das boas ideias pop de uns Capitães da Areia e a forma como Sérgio Godinho optou por celebrar os 40 anos de carreira com um disco de originais.

1 . Osso Vaidoso, Animal
2 . B Fachada, B Fachada
3 . Capitães da Areia, O Verão Eterno
4 . Sérgio Godinho, Mútuo Consentimento
5. You Can’t Win Charlie Brown, Chromatic
6. The Gift, Explode
7. Tiago Sousa, Walden Pond’s Monk
8. Aquaparque, Pintura Moderna
9. Amália Rodrigues, Amália Canta David
10. Joana Sá, Through This Looking Glass


Clássica: Depois de um 2010 que teve em Mahler um dos compositores mais presentes nos escaparates dos novos lançamentos, 2011 viu numa gravação da Sinfonia Nº 2 do grande sinfonista austríaco o seu melhor momento. A gravação, pela London Philharmonic Orchestra, é dirigida pelo jovem maestro russo Jurowski e revela tanto uma capacidade em explorar toda a melancolia que a música transporta como o sublinhar dos instantes exultantes que vincam a noção de ressurreição que afinal a caracteriza. Destaque maior ainda para um olhar sobre o 11 de Setembro por Steve Reich, numa obra que explora princípios que o compositor lançara há anos em Different Trains. Da multidão de discos lançados a assinalar o ano Liszt vale a pena reter a gravação dos seus dois concertos para piano, com Barenboim (solista) e Bloulez (maestro), acompanhados pela Staatskapelle Berlin. De um ano de muitos lançamentos na área da música clássica referências ainda à continuação de ciclos dedicados a Shostakovich e Sibelius, respectivamente por Petrenko e Inkinen, um Berlioz na voz de Von Otter e à presença da música do século XXI em gravações de obras de Adams, Denehy, Muhly e Bryars.

1. Jurowski / London Phil Orchestra – Mahler, Symphony N. 2
2. Steve Reich / Kronos Quartet – Reich, WTC 9 / 11
3. Baremboim + Boulez / Staatskapelle Berlin – Lizst, The Piano Concertos
4. Petrenko / Liverpool Phil Orchestra – Shostakovich, Symphonies 6 & 12
5. Von Otter + Tamestit, Minkowski / Les Musiciens du Louvre - Berlioz, Les Nuits d’Eté
6. Adams / International Contemporary Ensemble – Adams, Son of Chamber Symphony
7. van Raat + Nederlands Radio Ch. Philharmonic / Tausk – Bryars, The Piano Concerto
8. Upshaw + Lionáird, Pierson / Crash Ensemble - Denehy, Gra Agus Brás
9. Gould + Collon / Aurora Orchestra - Muhly, Seeing is Believing
10. Inkinen / New Zeland Symphony Orch – Sibelius .- Symphonies 6 & 7 + Finlandia


J.L.: 

Insólita paisagem, esta a que a digitalização conduziu a música: tudo coexiste, tudo colide, cada gesto é contaminação de outro, deixou de haver “linha da frente”. É num contexto assim que, creio, pode fazer sentido não esquecer o mais ousado dos mais jovens, de seu nome Miles Davis. Além do mais, temos o fado. Parafraseando os actores do programa de humor da RTP1, Estado de Graça, este é o tempo de uma histeria em que os fadistas brotam das pedras da calçada... Será que vamos perder tudo nas soluções mais fáceis do marketing e na banalização gerada pelo rótulo da “world music”? Fiquemo-nos pelas coisas certas: Cuca Roseta está aí e com ela, através do seu prodigioso álbum de estreia, mantemo-nos ligados à terra.

CUCA ROSETA, Cuca Roseta
LIVE IN EUROPE 1967/THE BOOTLEG SERIES VOL. 1, Miles Davis
BLOOD PRESSURES, The Kills
WE ARE RISING, Son Lux
RIO, Keith Jarrett
THE KING OF LIMBS, Radiohead
WHOKILL, tUnE-YarDs
SUPER HEAVY, Super Heavy
4, Beyoncé
ANNA CALVI, Anna Calvi

domingo, julho 17, 2011

Pelo mapa dos céus


 O terceiro disco de Nico Muhly para o catálogo da Decca Classics apresenta 
um conjunto de composições e arranjos seus, em gravações pela Aurora Orchestra.


A história começa numa troca entre alunos da Julliard School de Nova Iorque e da Royal Academy Of Music, de Londres. Ou, se quisermos, pode também começar por um interesse antigo do compositor pelo mapear dos céus... Mas vamos por partes. Há precisamente cinco anos, Thomas Gould, o rosto central da Aurora Orchestra, falava ao maestro Nicholas Collon de uma obra de um jovem compositor norte-americano que havia interpretado nesse programa de partilha de experiências entre escolas. Somando esse entusiasmo ao facto de ter então adquirido um violino eléctrico, o maestro, que entretanto dedicara alguma atenção à música do compositor que havia sido mencionado, propôs nova colaboração. E daí nasceu o relacionamento que justifica agora todo um disco com música de Nico Muhly em interpretações desta pequena orquestra de câmara de Londres, com Thomas Gould como solista.

O disco toma como peça central Seeing Is Believing, composiçãoo orquestral de 25 minutos pela qual Muhly materializa sinais do seu interesse pela esfera celeste e pela forma como, através da junção de pontos identificados, o homem foi traçando linhas imaginárias no espaço. É uma peça de fôlego considerável, rica em elementos, ora assimilando ecos de um lirismo herdado da tradição clássica, ora de escolas minimalistas, no fim sugerindo claramente que se trata de uma música do nosso tempo.

A esta obra, que toma o violino eléctrico como voz solista, integrando-o todavia num corpo coeso traçado para orquestra, o disco junta outras composições de Muhly entre as auais Motion ou By All Means (a peça que chamou originalmente a atenção do violinista para com a música do compositor). Em inesperada sintonia com as suas quatro obras aqui registadas contam-se arranjos de sua autoria para obras de William Byrd (1540-1623) e Orlando Gibbons (1583-1625).

domingo, novembro 14, 2010

A dança, segundo Nico Muhly


Figura em clara ascensão no panorama da música do século XXI, Nico Muhly pode ser um possível exemplo de uma nova atitude ciente de quão “do outro milénio” é a noção de género e de fronteira nos espaços da música. Ligado a um colectivo de músicos – a Bedroom Community – que partilham, sob pragmatismo de alma indie, uma sadia política de cruzamento de referências, Nico Muhly dá agora um novo passo ao assinalar, com a edição simultânea de dois discos, a sua estreia no catálogo da Decca Classics.

Passemos esta semana pela música que nos revela o álbum I Drink The Air Before Me. A música foi composta por Nico Muhlye para um espectáculo de dança criado por Stephen Petronio, em concreto sendo desde o início pensada para assinalar as comemorações do 25º aniversário da sua companhia. E por isso mesmo a ideia de celebração mora firme no tutano da composição. “A nossa primeira reunião, onde discutimos a estrutura do trabalho, originou um esboço: uma linha gigante que começava no canto inferior direito de um guardanapo, acabando no canto superior direito”. Ou seja, “Começar pequeno, acabar grande”, explica Nico Muhly numa nota que agora acompanha o disco. Além disso, explica ainda que desejava que o ensemble que interpretasse esta música fosse um pouco como uma pequena comunidade que vive à beira-mar. Não se trata de uma composição com apenas uma carga narrativa, mas sobretudo um ponto de partida para uma relação entre o espaço, os corpos e o som tendo por pano de fundo o reconhecimento do poder maior que representam as grandes forças atmosférias. A chuva, o vento, as tempestades... Forças que aqui traçam um parelelo com idênticas erupções de intensidade que podem provir do interior de cada um de nós.


Mesmo despida agora do contexto físico para o qual nasceu, a música de I Drink The Air Before Me respira vida própria e revela-se uma das mais interessantes das obras de Muhly até aqui gravadas em disco. Pela sua medula passam ecos da assimilação do minimalismo, sentindo-se sinais de uma busca por um caminho, as experiências colectivas via Bedroom Comunity (nomeadamente a pontual integração de texturas electrónicas) e a interessante utilização das vozes sendo alguns dos possíveis destinos da atenção do ouvinte ao longo de uma peça de grande fôlego que o compositor leva a bom termo. O disco confirma em Nico Muhly um talento em afirmação, votado em desafiar os seus horizontes. Em tempos era muitas vezes citado pelas colaborações com nomes como Philip Glass (com quem trabalhou), Björk, os Grizzly Bear ou Antony and The Johnsons… Hoje, pelos feitos que entretanto assinou em nome próprio, dispensa já os cartões de visita.

PS. Por incrível que possa parecer, a editora que representa localmente a Decca Classics não vai editar este disco em Portugal... A opção demonstra sinais de preocupante desconhecimento, não apenas do relacionamento do músico com o público português, da transversalidade do apelo do seu nome e até da própria dimensão que a obra de Nico Muhly começa a merecer. Não seria o 'Adagios de maestro famoso' da saison, mas editar (e promover devidamente) este disco e compositor entre nós traduziria um possível porquê para a justificação de ainda haver escritórios locais de editoras multinacionais...


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Imagens de excertos de uma apresentação pública de I Drink The Sir Before Me, num palco onde d dança partilha espaço com os músicos. É o próprio Nico Muhly quem dirige.
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Texto no New York Times sobre a estreia da coreografia, aqui.
Um outro texto sobre o mesmo espectáculo, este no Village Voice, aqui.

terça-feira, outubro 19, 2010

Nico Muhly edita na Decca Classics

Nico Mulhy acaba de se estrear num dos mais importantes catálogos dedicados à música clássica. Em concreto, acaba de editar dois novos álbuns pela Decca Classics. São eles, A Good Understanding (obra coral em gravação pelo Los Angeles Master Chorale, dirigido por Grant Gershon) e I Drink The Air Before Me (música para bailado numa gravação que conta com a participação de elementos da Bedroom Comunity).

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Os concertos do ano

Foto: Marco Leal

Foram poucos os concertos que vi em 2009. Mas os poucos foram, invariavelmente, bons. Aquí ficam cinco momentos que ficaram na história deste ano em palco.

Gustavo Dudamel / Orq. Juvenil Ibero Americana
(Auditório Fundação Gulbenkian)
A estreia pública de mais uma orquestra inspirada no ‘el sistema’ venezuelano (e que na verdade conta com varios elementos da Simón Bolivar) foi “o” acontecimento em palco do ano! O entusiasmo dos músicos (e do maestro Dudamel) criou imediata empatía com uma plateia que, ao intervalo, já os aplaudía como se fosse fim de uma noite de triunfo. No final do concerto, entre os encores, a plateia até dançou!

Whale Watching Tour
(Teatro Maria Matos)
Nico Muhly e restantes figuras-chave da Bedroom Comunity trouxeram a Lisboa uma digressão que, como poucas, sublinha o tom da música do momento. Uma música que existe acima dos géneros, que cruza referências, desde as que chegam de escola clásica à folk, com as electrónicas pelo caminho… Que regressem tão breve quanto possível.

Ciclo Stockhausen
(Auditório Fundação Gulbenkian)
Foram três tardes consecutivas, com filmes e concertos. O cinema a recordar episódios de diversas etapas da vida e obra de Karhleinz Stockhausen. Os concertos a visitar seis partes do ciclo Klang (entre elas, uma em estreia mundial). Uma rara oportunidade para ouvir música do século XXI ao vivo num palco português.

Valery Gergiev / Orq. Teatro Marinsky de São Petesburgo
(Coliseu dos Recreios)
Uma das grandes orquestras russas do nosso tempo e um dos maestros mais aclamados da actualidade num programa de excepção que nos transportaram para compositores e peças que ajudaram a inventar a música do século XX. Debussy e Stravinsky numa noite de grande nível.

Três Cantos
(Campo Pequeno)
O encontro em palco de Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias resultou numa série de noites de comunhão de experiências, visitando obras que marcaram os últimos 40 anos da música portuguesa. Não faltaram os “clássicos”. Mas ficou claro que o presente ainda é quem marca a agenda de cada um dos três cantautores em palco.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Figuras do ano: Nico Muhly

Não parou em 2009. Já tinha discos editados em seu nome. Já tinha assinado arranjos para Björk ou os The National. Tinha já conquistado atenções pela banda sonora de O Leitor, de Stephen Daldry. Mas em 2009 Nico Muhly levou ainda mais longe os horizontes do seu trabalho, colaborando em discos de nomes como os Grizzly Bear ou Antony & The Johnsons, compondo uma primeira ópera (sem data de estreia ainda definida) e regresando à estrada integrando a Whale Watching Tour que passou por Lisboa. Figura do ano porque, mais que qualquer um, Nico Muhly mostrou como a nova música é desafiante sem o espartilho de género. Da pop aos terrenos de genética clásica, a sua capacidade em viver num tempo acima das antigas fronteiras de género já faz dele, claramente, uma referencia como compositor do século XXI. A forma de trabalhar numa editora que ele mesmo partilha e gere com amigos e colegas de trabalho vinca mais ainda esse perfil de homem de um novo tempo. Isto sem deixar de reconhecer que este “herdeiro” de mestres como John Corrigliano ou Philip Glass é, entre os compositores da sua geração, um dos casos de mais evidente sucesso.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Nova aventura a solo

Já se sabia que Jonsi Birgisson, o vocalista dos Sigur Rós, estava a trabalhar num disco a solo, em parceria com o compositor Nico Muhly. O álbum, Go, será editado em 2010. Para já, e no seu novo site, Jonsi serve pequenos aperitivos, entre os quais um primeiro single, Boy Lilikoi.
Site oficial de Jonsi aqui.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Em conversa: Nico Muhly (3/3)

E aqui fica a terceira parte da apresentação de uma entrevista com o compositor Nico Muhly que serviu de base aos artigos ‘Um Músico Para Descobrir Na Hora Certa’ e ‘Encarar a música como um trabalho’, publicados no DN respectivamente a 5 e 14 de Novembro.

Nos últimos anos tem feito também música para o cinema. É parte do que vê como um trabalho. Ou a extensão natural da procura de uma linguagem musical?
É um pouco as duas coisas. Podemos fazer uma música explicitamente dramática... E um filme junta umas 25 peças de música que estão todas relacionadas entre si. Temos de saber que extensão devem ter as peças. Que orçamento temos para as trabalhar?... Qual é a agenda emocional que as vai usar? Tudo isso tem de ser decidido. E depois ao compositor cabe o desafio de tentar fazer a coisa mais fabulosa que souber, combinando tudo isso... E nesse momento temos de convocar um pouco de todo o que sabemos. Tudo o que aprendemos na escola, tudo o que já escutámos... Roubamos um pouco... É um processo que tem de ser rápido... Gosto de trabalhar dessa maneira. Há uma certa pressão. E um lado muito prático.

É um pouco o oposto daquela vontade de compor para si mesmo. Coloca-se a folha sobre o piano... E depois como se decide para onde se vai?
Se alguém nos pede uma peça para um concerto a coisa é muito simples: dizem-nos essencialmente que é para 22 minutos, para violino e orquestra, e estreia daí a dois anos... E adeus!... Com um filme temos de reunir todas as manhãs, ver pormenores na montagem, fazer acertos. É uma pressão enorme, mas acho isso bem divertido. A escrita de música é um processo muito solitário. Mas quando se trabalha num filme não se pode estar só...

O filme O Leitor, de Stephen Daldry, para o qual assinou a banda sonora, teve orçamento definido, objectivos concretos e, depois, uma história mediática de grande exposição... Compensou?
Sim, acho que sim. Foi um processo muito estimulante. O realizador é um ser humano muito prático. Falava do que queria segundo um vocabulário muito específico. Dizia que isto teria sucesso e aquilo não... O que é óptimo... Porque me fazia sentir se as coisas estavam ou não a funcionar. E de certa maneira esta forma de trabalhar e de pensar o que estávamos a fazer fez-me voltar um pouco aos dias em que estudava com o John Corrigliano. Quando me perguntava qual era o programa emocional... Que momentos temos, que conteúdo... Que nuances...

Quando estreia a ópera que acabou de compor?
É lá para 2018 ou algo parecido... Nem penso nisso...

Como consegue esperar tanto tempo?
Na verdade há outras ocasiões em que pode estrear antes...

Mas não lhe é difícil esperar?
Não... E por uma razão simples. Acabamos, mostramos a peça a quem a temos de mostrar e avançamos para os muitos outros projectos que temos em carteira...

Gosta de estar num palco?
Adoro! É divertido. E é muito menos solitário que quando estou a compor. É bom faze-lo com outras pessoas. E sobretudo quando essas pessoas são nossas amigas. E é mesmo divertido... É como darmos um jantar com amigos. Estar só em palco é aterrorizador.

terça-feira, novembro 24, 2009

Em conversa: Nico Muhly (2/3)

Continuamos a apresentação de uma entrevista com o compositor Nico Muhly que serviu de base aos artigos ‘Um Músico Para Descobrir Na Hora Certa’ e ‘Encarar a música como um trabalho’, publicados no DN respectivamente a 5 e 14 de Novembro.

A música pop ganhou algum espaço na sua agenda de trabalho nos últimos anos. Entre outros trabalhou já com nomes como os Grizzly Bear, Antony and The Johnsons, Björk ou The National. Estes trabalhos mudaram algo em si?
Uma das coisas interessantes na música pop é maneira como uma canção funciona, por vezes sem conseguirmos saber bem porquê. Essa é a essência dessa música. Agora, que tenho trabalhado com várias pessoas, uns a fazer canções mais tradicionais, outros a fazer canções nada tradicionais, reparei que é preciso dominar uma certa arte para criar canções com uma certa inteligência. Mesmo aquelas canções que podemos escutar na rádio durante dois meses a fio envolvem o domínio de uma certa sabedoria.

O seu nome começa entretanto a ser entretanto mencionado como valor adicional nos discos pop em que colabora… O que acha que traz aos músicos pop/rock com quem trabalha quando assina arranjos?
Para mim um arranjo é algo que se faz a pensar no outro. Quando se pega numa canção para fazer um arranjo não se pensa em nós mas sim na canção e quem a fez. É a eles que queremos prestar um serviço. Para fazer a canção ficar bela... É como pegar numas calças. Não dizemos que elas nos ficam bem a nós. É antes dizer que é o outro quem fica bem com elas.

E, aprioveitando agora essa sua imagem, podemos então dizer que tem trabalhado com uns belos pares de calças para muito boa gente...
Sim... (risos). Tenho tido sorte com aqueles com quem tenho trabalhado.

Entretanto tem estado a trabalhar numa primeira ópera…
Tenho... Acabei-a em Agosto. E tenho estado a fazer workshops à volta dela... Tenho estado numa sala, com dois pianos e cantores, a ver como funciona. E tem funcionado muito bem... É uma história um pouco complicada... É muito contemporânea nos meios... Mas com um argumento mais tradicional, porque fala de identidades trocadas e um conteúdo emocional bem à antiga, porque é uma história de amor. A história acontece entre duas personagens, na Internet.
(continua)

segunda-feira, novembro 23, 2009

Em conversa: Nico Muhly (1/3)

Iniciamos hoje a apresentação de uma entrevista com o compositor Nico Muhly que serviu de base aos artigos ‘Um Músico Para Descobrir Na Hora Certa’ e ‘Encarar a música como um trabalho’, publicados no DN respectivamente a 5 e 14 de Novembro.

Como descobriu os primeiros sinais de que havia em si um compositor?
Acho que a minha história pode não ser diferente da de muitos outros compositores. Eu tocava. Mas era um mau pianista. E a dada altura apercebi-me que podia fazer eu mesmo a música que podia tocar. E comecei a juntar ideias pequenas ideias para eu mesmo fazer... Tinha uns dez ou 11 anos. Gradualmente foquei-me no sentido de ir para onde queria ir... E isso era escrever música. E é assustador aquilo de olhar para um pedaço de papel. Mas acabou por ser libertador, porque me fez acabar a tocar melhor o que queria tocar.

O que o inspirou para avançar no sentido que escolheu. Que músicas o mais marcaram nessa etapa de descoberta?
Creio que foi por causa das coisas a que tive acesso. Os meus pais tinham música folk em casa. Na verdade só dei por mim a pensar o que é que faz uma grande canção pop alguns anos depois. Era um miúdo estranho... Gostava de fazer coisas estranhas...

Entre os professores que teve mais tarde conta-se John Corrigliano. Sentiu a presença da sua influência mais tarde, ao aprofundar o seu trabalho na composição?
Foi enorme. A sua principal influência tem mais a ver com estrutura, mais que com o som... Ele ajudou-me a entender que a música pode contar uma história, que pode ter uma construção emocional e não apenas uma construção de sónica. A estrutura como uma ferramenta emocional.

Trabalhou depois com Philip Glass, em concreto nos Looking Glass Studios. O que recorda como formador para si nessa etapa recente da sua vida profissional?
Já lá não trabalho neste momento. Uma das coisas que mais me interessou durante o tempo em que trabalhei com ele foi o verificar que ele é um dos compositores mais pragmáticas que existem. Ele encara cada projecto em que trabalha de uma forma completamente pragmática. E não emocional... Não tem nada aquela coisa do compositor como um anjo sensível que reage a grandes questões. Ele ensinou-me antes a encarar o facto de um compositor ser alguém com um trabalho a cumprir. Alguém que tem algo a fazer. Como um marceneiro que faz mesas.

Vê essa etapa ao lado de Philip Glass como uma espécie de pós-graduação? Um programa de estudo sem, na verdade, o ser?
Foi um pouco isso. Não era como estar na escola, mas sentia que estava a aprender.
(continua)

terça-feira, novembro 10, 2009

Uma noite inesquecível

Foto: Vera Marmelo


Este texto foi publicado na edição de 8 de Novembro do DN com o título 'O Futuro da música passou esta semana por Lisboa'

São amigos. Partilham uma mesma editora. Estão juntos em palco, e chamaram à digressão Whale Watching Tour. Passaram esta semana pelo Teatro Maria Matos (Lisboa) e deram a uma entusiasmada casa cheia uma visão do que bem pode ser o futuro da música como uma realidade sem barreiras de género, assente na partilha de experiências e cruzamentos de linguagens e onde a performance ao vivo serve de cartão de visita para uma posterior (e mais individual) descoberta de mais música, através dos discos que os próprios músicos vendem (e autografam) no fim do concerto, entre trocas de palavras com os espectadores.
Nico Muhly era o maestro em cena, as suas composições revelando uma maior complexidade formal e evidente ascendência entre assimilações de escolas minimalistas. Ao seu lado, Sam Amidon estabelecia pontes entre a tradição folk e espaços plasticamente inovadores e desafiantes (os novos arranjos aqui fulcrais no processo de mutação). Também em cena, Ben Frost trazia um interesse pelo detalhe e pelas texturas electrónicas e também por uma leitura interpretativa do minimalismo (a abertura, ao som do seu Theory Of Machines, deu seguro mote para a noite. A fechar o lote de protagonistas, o islandês Valgeir Sirgudsson juntava notas de assombro e melancolia. Tocaram temas uns dos outros. Juntaram ideias. Cruzaram géneros.
Ao fim de duas horas (e dois encores), um dos melhores concertos que Lisboa ouviu este ano!