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quarta-feira, julho 08, 2015

Novas edições: Miguel

"Wildheart"
RCA / Sony Music
4 / 5

O processo de descoberta, aprofundar e demarcar de uma voz criativa tem na sucessão de discos que colocaram o norte-americano Miguel na linha da frente das (merecidas) atenções do nosso tempo uma belo e claro relato de como de uma série de encantamentos e referências que se tomam como ponto de partida se pode rumar a um destino que se alcança com resultados maiores e distintos e no qual, se por um lado se assinala a afirmação de uma nova personalidade num novo tempo, por outro se lembra como nada se faz sob a bênção da geração espontânea. E a história assim dá um pulo e avança. Depois de um primeiro álbum em 2010 que se destacava do universo R&B ao seu redor e de um brilhante Kaleidoscope Dreams que, em 2012, arrebatava entusiasmos e conhecia aclamação em diversas frentes da opinião, eis que acrescenta agora no magnífico Wildheart a peça em falta para não só confirmar a solidez de um projeto de carreira já com fundações bem firmes mas também aprofundar a visão de facto caleidoscópica que procura para uma música que, se por um lado não deixa nunca de ser herdeira de escolas e vivências R&B e algumas das suas descendências e periferias, a elas sabe somar ideias, cores e acontecimentos…

Se no álbum de 2012 os sinais de (bom) alerta não se limitavam à excelência da composição, produção, instrumentação e voz, mas sublinhavam numa breve incursão pela memória deTime of The Season dos Zombies que aqui havia uma alma atenta ao mais vasto universo de referências na história recente da música popular, agora assinala a integração mais profunda da mesma forma de escutar e assimilar ideias, mesmo que aparentemente distantes do universo ao seu redor enriquecendo assim um ainda mais saboroso e estimulante infinito particular.

Lembro-me necessariamente de sensações semelhantes – que não são para ler como comparação de sonoridades mas antes de um saber olhar para outros planos, nomeadamente os da cultura pop/rock – naquele tempo em que Prince era um dos mais inspirados músicos do mundo. Há de resto em Wildheart uma mesma capacidade em trazer a um mesmo lugar todo um conjunto de experiências que se transformam em canções com uma identidade conjunta que suplanta a soma das partes que a alimentaram, como em tempo escutámos no muitas vezes injustamente esquecido Around The World In a Day (1985), o álbum caleidoscópico de Prince no qual antecipou, via Minneapolis, uma vaga de sede de redescobertas por heranças do psicadelismo que o mundo só seguiria em massa uns quatro anos depois. Será também Miguel um líder de uma nova mensagem? Não me parece que seja essa a sua demanda…

Tal como Prince, embora sob uma aura pessoal diferente e vivendo num tempo em que o fosso que separa os fazedores de êxitos de estrondo global dos que, mesmo sob sucesso, operam sob as suas regras e não os sabores do mês, Miguel talvez seja mais um caso aparte que um batedor. E ao escutar Wildheart fica clara a profunda ligação pessoal que talha não só esta abertura a várias frentes musicais – onde as batidas (que não são protagonistas) convivem com guitarras, teclados, o gosto cenográfico e mesmo pontual incursão pelo hip hop – como é evidente a forma como aqui expressa um relacionamento com um lugar. E esse lugar é Los Angeles, que se materializa na forma como respira vivências da cidade e pelas palavras e música expressa uma diversidade que ali se manifesta de uma forma peculiar, até mesmo nos modos de traduzir a carga sensual e sexual que passa por canções sublimes como FLESH ou The Valley (esta citando claramente a indústria porno local).

É certo que não há aqui um Adorn, aquele raro single que abria o alinhamento de Kaleidoscope Dream como um irresistível cartão de visita ao qual era difícil resistir. Mas mesmo sem singles tão evidentes – embora não faltem aqui outras boas propostas – Wildheart apresenta um trabalho musicalmente coeso e consistente, num alinhamento que lembra como, mesmo com oráculos a clamar pelo desaparecimento do conceito do “álbum”, a ideia de uma coleção de canções que se relacionam entre si está longe de ter abandonado os músicos e quem os escuta. De resto, depois de ter já ouvido tanta gente a dizer que o vinil tinha desaparecido ou que a ópera era coisa do passado, aprendi que mais vale estar atento ao desenrolar dos acontecimentos que lançar frases bombásticas que colocam ponto final a frases ainda longe de concluídas.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Uma nova canção de Miguel

Depois de nomes como os de Dan Deacon, Metz ou Madlib, o cantor R&B norte-americano Miguel é a mais recente presença na série de edições Adult Swim Singles. A sua participação faz-se com este Cant't Sleep Together.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

O olhar político de Miguel

Autor de um dos melhores discos de 2012, o cantor norte-americano Miguel continua a dar vida aos momentos que nos foram revelados nesse mesmo Kaleidoscope Dream. E agora apresenta-nos um teledisco para acopmpanhar Candles In The Sun, servindo a canção como banda sonora para um conjunto de imagens que olham e refletem o nosso tempo.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Os melhores discos de 2012 (N.G.)

É uma tradição que o Sound + Vision respeita anualmente. E a partir de hoje as listas dos melhores do ano vão surgir por aqui. Começamos pelos discos que mais marcaram um ano de muitas (e boas) edições discográficas. E os melhores são...

Depois da promessa sugerida no impressionante Learning, em 2012 Mike Hardeas confirmou em Put Your Back N2 It a visão e a personalidade de um autor que se encontrou a si mesmo num espaço pleno de verdade e personalidade. Sem perder as características, temas e demandas, a voz criativa do seu projeto Perfect Genius avançou e, para lá das fronteiras lo-fi, encontrou outra nitidez, fazendo deste seu segundo álbum o “grande” acontecimento discográfico pop/rock (e cercanias) do ano. Um ano que mostrou, sobretudo, interessantes casos de cruzamentos de linguagens, em discos que, aos poucos, definem o início do século XXI como um tempo de diálogos e cruzamentos. Vejam-se os casos de Gold Dust, onde Tori Amos revisita com um a orquestra as canções de 20 anos de discos e nelas encontra novos pontos de vista. Ou Rework onde, sob curadoria de Beck, uma série de músicos (de Amon Tobin a Johann Johansson) procuram olhares pessoais sobre momentos marcantes da obra de Philip Glass. Ou ainda Dr. Dee, onde Damon Albarn (depois da experiência de Monkey: Journey To The West), regressa ao espaço da ópera contemporânea, desta vez assinando aqui o seu primeiro disco a solo. Do balanço do ano destaque-se ainda a proeminência de Frank Ocean e Miguel, novas vozes que definitivamente se afirmam no espaço do R&B, também aqui em franco diálogo com outras referências (em ambos morando aquele olhar transversal que fez a diferença para Prince nos anos 80). De 2012 ficam ainda as memórias do melhor álbum dos Pet Shop Boys desde os dias de Behaviour, a “estreia” (sim, porque já tinha editado antes sob outro nome) de Lana del Rey – que criou uma “estrela” nos moldes dos tempos dos ícones de outrora -, das melhores electrónicas que ouvimos ao longo do ano em Fin de John Talabot e o belíssimo regresso (agora a solo) do ex-Blue Nile Paul Buchanan. A história discográfica do melhor do ano podia ainda juntar nomes como os de Patti Smith, St. Etienne, Andrew Bird, David Byrne com St Vincent, Brian Eno, Ombre, Grizzly Bear, Lemonade, Jack White, Beach House, Leonard Cohen ou Matthew Dear. Mas um Top 10 é um Top 10 e, assim sendo, aqui fica...

1. Perfume Genius, ‘Put Your Back N2 It’ (Matador Records)
2. Tori Amos, ‘Gold Dust’ (Deutsche Grammophon)
3. Pet Shop Boys, ‘Elysium’ (Parlophone)
4. Philip Glass, ‘Rework’ (Orange Mountain Music)
5. Frank Ocean, ‘Channel Orange’ (Def Jam)
6. Miguel, ‘Kaleidoscope Dream’ (Epic Records)
7. Lana del Rey, ‘Born To Die’ (Universal)
8. Damon Albarn, ‘Dr Dee’ (EMI Music)
9. John Talabot, ‘Fin’ (Permanent Vacation)
10. Paul Buchanan, ‘Mid Air’ (Essential Newsroom)

Nacional

Tirando o álbum da Sétima Legião, que é uma antologia de ‘memórias’, é curioso reparar que o melhor do ano editorial português ficou por conta de editoras independentes, acentuando uma tendência que se vem a acentuar nos anos mais recentes. Do panorama destaca-se claramente a estreia em álbum de Moullinex, um dos rostos centrais do catálogo da editora Discotexas, com um disco onde promove um franco (e compensador) diálogo entre a música de dança e o formato da canção, num espaço onde o presente sabe escutar ecos e grandes lições do disco sound, da soul, do funk e da pop. Sem dúvida, a grande surpresa do ano. A memória, além das canções da Sétima Legião (que viram a sua obra ser editada em formato remasterizado, mas ainda sem o tratamento arquivístico que justificava), mora ainda na abordagem de B Fachada, Minta e João Correia ao alinhamento do clássico Os Sobreviventes de Sérgio Godinho. O aprumar da visão de Norberto Lobo (cada vez mais um nome maior no panorama local), o encontro dos The Gift com o piano como voz maior na composição e os diálogos entre a raiz e a modernidade, em sede açoriana, pelo projeto O Experimentar são ainda notas maiores num ano onde convém ainda reter as propostas de DJ Ride, Gaiteiros de Lisboa e o coletivo Orelha Negra.(*)

1. Moullinex, ‘Flora’ (Discotexas)
2. Sétima Legião, ‘Memória’ (EMI Music)
3. B Fachada + Minta + João Correia ‘Os Sobreviventes’ (Mbari)
4. Norberto Lobo, ‘Mel Azul’ (Mbari)
5. The Gift, ‘Primavera’ (La Folie)
6. O Experimentar, ‘Sagrado e Profano’ (O Experimentar)
7. DJ Ride, ‘Life in Loops’ (Optimus Discos)8. Orelha Negra, ‘Orelha Negra’ (VC)
9. B Fachada, ‘Criôlo’ (Mbari)
10. Gaiteiros de Lisboa, 'Avis Rara' (D'Euridice)

Clássica

25 anos depois da sua estreia, a ópera Nixon In China regressou este ano aos palcos e, numa espantosa produção do Met, confirmou essa obra de John Adams como uma das peças maiores da história deste espaço de criação musical (dela falaremos na tabela dos melhores DVD e Blu-ray do ano). Mas de John Adams o ano recorda mais que apenas essa nova vida para a sua obra-prima. E o igualmente fundamental Harmonielehre, de quem havia uma gravação dos anos 80 dirigida por Edo de Waart, conheceu nova gravação, pela mesma San Francisco Symphony, numa direção de Michael Tison Thomas que se destacou claramente como o mais vibrante instante musical do ano discográfico nos domínios da música clássica. Do ano editorial destaca-se ainda a estreia em disco de Out Of Nowhere e Nyx, de Esa Pekka Salonen, parecendo cada vez mais certo que, se perdemos um maestro tão presente em palcos e gravações, passámos a contar com mais um valor maior no panorama da composição do século XXI. Tudo isto num mesmo ano em que Max Richer mostrou como uma editora (neste caso, a Deutsche Grammophon) pode ser também catalisadora de novas visões, ao propor um olhar diferente pelas Quatro Estações de Vivaldi no mais recente volume da série Re-Composed. Em tempo de assinalar os seus 75 anos, Philip Glass estreou duas sinfonias, tendo editado uma gravação da sua empolgante “nona” logo no início do ano. O melhor de 2012 passou ainda por obras para piano de Debussy por Alexei Lubimov e pela abordagem aos concertos para piano de Shostakovich por Menlikov. Simon Rattle gravou uma arrebatadora visão “completa” da nona de Bruckner e Gardiner completou o ciclo de gravações da obra orquestral de Brahms com um belíssimo Ein Deutsches Requiem. Notas ainda para Wagner’s Dream, editado ainda em vida de Jonathan Harvey e o inteligente programa, ao estilo de um recital, de Adès e Isserlis para, de obras de outros compositores, chegar aos Lieux Retrouvèes do primeiro.

1. John Adams, ‘Harmonielehre’ M. Tilson Thomas / San Francisco Symphony (SFS Media)
2. Esa Pekka Salonnen, ‘Out of Nowhere’ Salonen / Finnish Radio Symphony Orchestra (Deutsche Grammophone)
3. Claude Debussy, ‘Preludes’ – Alexei Lubimov (ECM)
4. Max Richter, ‘Recomposed – Vivaldi Four Seasons’, Daniel Hope
5. Philip Glass, ‘Symphony N. 9’ – Bruckner Orchester Linz
6. Anton Bruckner, Symphony N. 9’ – Simon Rattle / Berliner Philharmoniker
7. Thomas Adès ‘Lieux Retrouvées’ – T. Adès + S. Isserlis (Hyperion)
8. Johannes Brahms, ‘Ein Deutsches Requiem’ – J Eliot Gardiner / Orch Revolutionarie et Romantique
9. Dmitri Shostakovich, ‘Piano Concertos’ A. Menlikov / Mahler Chamber Orchestra, dir. Teodor Currentzis (Harmonia Mundi)
10. Jonathan Harvey, ‘Wagner’s Dream’ dir. Martyn Brabbis (Cypress)

(*) Uma lista originalmente publicada incluía o disco a solo de Manuel Fúria, que na verdade só será publicado em 2013.

sábado, dezembro 15, 2012

As canções de 2012: Miguel

Já tinha editado um primeiro álbum há dois anos, mas foi ao som de Kaleidoscope Dream que, em 2012, Miguel ganhou um lugar na linha da frente dos acontecimentos que marcaram o ano. Aqui fica Adorn, a canção que serviu de cartão de visita ao álbum (um dos mais recomendáveis do ano, acrescente-se).

sexta-feira, novembro 23, 2012

Miguel na TV

O cantor norte-americano Miguel passou pelo programa de Jimmy Fallon para apresentar Do You, o novo single extraído do alinhamento do magnífico Kaleidoscope Dreams. Aqui ficam as imagens da atuação.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Para descobrir Miguel

É verdade que já tem um primeiro álbum editado em finais de 2010, mas é o novo Kaleidoscope Dream que o vai colocar no mapa das atenções confirmar como uma das grandes revelações dos últimos tempos nos espaços do r&b... Chama-se Miguel, de nome completo Miguel Jontel Pimentel, vem de Los Angeles, e dele ficamos hoje com o teledisco que acompanha Adorn, o single de apresentação deste seu segundo álbum. Já vários textos apontaram afinidades com Sexual Healing, de Marvin Gaye. Convenhamos que não é nada má referência!