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terça-feira, novembro 25, 2014

Os meus 100 livros (3)

Michael Cunningham
‘As Horas’ (1998)

Entre os muitos livros de ficção que foram já escritos com livros e escritores como matéria prima, As Horas, de Michael Cunningham, ocupa um merecido lugar de destaque. O seu mais aclamado livro – venceu o Pulitzer, entre outras distinções – toma um livro como ponto de partida: o histórico Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf. Mas do livro faz nascer três personagens que habitam uma narrativa que assim se projeta em três épocas. Em primeiro lugar a sua autora, Virginia Woolf. Depois uma leitora, que se entrega a estas páginas entre cenas do seu quotidiano na América de meados do século XX. Em terceiro lugar uma figura do nosso tempo, que parece uma encarnação da personagem criada por Virginia Woolf, embora habite um outro local numa outra época. E é num constante diálogo entre estes três tempos, que na verdade se cruzam porque há a escrita de Virginia Woolf a ligá-los, que nasce uma narrativa que, mesmo dispersa entre três cenários distintos, afinal respira o sentido de coesão de um corpo uno.

Colocando a ação dos três períodos no curso de um mesmo dia – algo que acontecia já no livro de Virginia Woolf que aqui é o claro ponto de partida – Michael Cunningham não só revisita o espaço de alguém que escreve um livro como o de quem o lê (e ali encontra fuga possível para um dia-a-dia vazio num tempo de silenciosa secundarização do papel da mulher na vida social) como depois projeta no tempo presente os ecos dessa ficção original, ao colocar na pele de uma mulher na Nova Iorque de finais do século XX, com um amigo doente com sida. Esta presença marcante de um escritor na medula de uma nova ficção seria retomada pelo próprio Michael Cunningham em Dias Exemplares, desta vez com Walt Whitman em foco. 

Adaptado pouco depois ao cinema por Stephen Daldry, com figuras como Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep no elenco, As Horas assinalou a chegada ao mercado português da escrita de Michael Cunningham, abrindo portas às edições de títulos anteriores como Sangue do Meu Sangue e Uma Casa No Fim do Mundo. Desde As Horas todos os seus livros têm conhecido edição entre nós, salvo um pequeno volume dedicado a Provincetown, que na verdade não é uma ficção mas um exercício no espaço da chamada literatura de viagens. 

Do mesmo autor:
1990. Uma Casa no Fim do Mundo 
1994. Sangue do Meu Sangue
2005. Dias Exemplares

sexta-feira, agosto 22, 2014

Em busca de uma canção

Depois da publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve e que foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN, apresentamos hoje o livro e o autor. Este é também um excerto desse texto.

Estamos numa manhã de novembro de 2004 na cozinha de um pequeno apartamento na Knickerbocker Avenue, em Brooklyn (Nova Iorque). Tyler, um dos protagonistas desta história, tenta afastar um pensamento da sua mente: “Não vão reeleger George Bush. Não podem reeleger George Bush”... E depois recentra as atenções numa canção que está a escrever. Uma canção que “devia manter-se muito próxima de Dylan e dos Velvet Underground. Não devia ser um faux-Dylan, nem uma imitação de Lou Reed; devia ser original (original, naturalmente; de preferência sem precedentes; preferencialmente tingida de génio), mas isso ajuda, ajuda um pouco a apontar numa certa direção”. Trabalha na letra, na música... Canta, à espera de que os primeiros versos “vão dar a... qualquer coisa”, numa cozinha entre fotografias de Burroughs, Bowie, Dylan, Faulkner e Flannery O’Connor (estas últimas escolhidas por Beth, com quem vive).
Pouco depois Barrett, o seu irmão (que também partilha o espaço daquele apartamento), veste umas calças justas e uma T-shirt dos Clash puída. Prepara-se para sair para o trabalho numa loja onde vende jeans, T-shirts e acessórios. “O que me preocupa deveras é o corte de cabelo do Kerry”, tinha respondido na véspera ao irmão, confrontados os dois com sondagens que davam Bush com vantagem sobre o candidato democrata.

E é com as vésperas da eleição presidencial de 2004 (que acabaria por dar um segundo mandato a George W. Bush) e uma primeira mão-cheia de referências musicais que entramos n’A Rainha da Neve, novo romance de Michael Cunningham, escritor norte-americano que, depois do sucesso de As Horas – uma narrativa em três épocas que toma o livro Mrs. Dalloway de Virigina Woolf como principal fonte de inspiração –, no final dos anos 90, se tornou presença habitual nos escaparates das livrarias a cada novo título que publica.

A sua carreira começou há 30 anos, com o único dos seus romances que nunca conheceu reedição. Trata-se de Golden States, lançado em 1984 e que o escritor explicou já ter sido um exercício feito para provar a si mesmo que conseguiria terminar um romance. O reconhecimento estava ainda longe. E em 2011, por ocasião de um lançamento de um outro romance seu em Lisboa, ele mesmo explicaria então como foi longo o período de silêncio que antecedeu as atenções que chegariam à sua escrita em finais dos noventas: “Passei os meus vinte anos à procura do amor e outras drogas. E só quando cheguei aos 30 é que pensei que tinha de ter uma carreira. E depois demorou seis ou sete anos até alguém publicar alguma coisa minha. Não sou apenas disciplinado. Sou muito autoconfiante e muitas vezes pensava ‘que se lixem’ por não publicarem o que escrevia. Em meados dos meus 30 anos pensei que se calhar não aconteceria, que poderia ser uma dessas pessoas que nunca chega a ser escritor. Decidi que ia continuar a escrever, mesmo que me tornasse um professor ou algo parecido. E pouco depois, quando decidi que não me ia preocupar, a New Yorker publicou um conto meu e a partir daí as coisas seguiram”, como ele mesmo explicou na altura.

E foi assim que chegamos a livros como Uma Casa no Fim do Mundo (1990, que teria depois adaptação ao cinema em 2004 por Michael Mayer e com argumento adaptado pelo próprio escritor) e Sangue do Meu Sangue (1995), romances que também antecederam a publicação de As Horas (1998), o título com o qual Michael Cunningham venceu vários prémios – entre os quais um Pulitzer – e conheceu a sua primeira tradução para o mercado livreiro português.
De então para cá, e antes do novo A Rainha da Neve, lançou os romances Dias Exemplares (2005) e Ao Cair da Noite (2011), a sua bibliografia tendo entretanto somado ainda a presença de Land’s End: A Walk in Provincetown, um pequeno livro sobre a cidade onde costuma passar os dias de verão e que não conheceu ainda tradução. Um retrato do seu trabalho recente não pode esquecer trabalhos para o cinema, introduções e prefácios para livros (entre os quais reedições de textos de Virginia Woolf, Thomas Mann ou Walt Whitman) e alguns contos já publicados, além de um lugar como professor de escrita criativa na Universidade de Yale.

Uma certa disciplina rege o seu dia-a-dia, no qual a escrita surge devidamente arrumada. “Se há algo que eu, ao longo dos anos, aprendi foi a tornar-me menos obsessivo no meu método de escrita”, contava em 2011 perante uma plateia de leitores seus em Lisboa. “Acordo, vou para o meu estúdio e escrevo durante umas quatro ou cinco horas. E depois vou tratar da minha vida e não escrevo frases em guardanapos nem vou a festas a pensar que isto seria bom para um romance. Acho que preciso ir direto do sono e sonhos para escrever”, acrescentou nessa mesma ocasião. E agora, ao mesmo tempo que nos chega A Rainha da Neve, Michael Cunningham termina a escrita de um episódio-piloto para uma série de televisão e revê o argumento para uma adaptação ao cinema de um romance de Ann Leary.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Em conversa: Michael Cunningham (2014.4)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

O título do novo livro A Rainha da Neve é uma referência a Hans Christian Andersen?
Sim, o livro pede o título emprestado a um conto dele. Quando comecei o livro sabia que lhe ia chamar A Rainha da Neve. Em parte porque gosto do conto de Andersen, mas também porque as palavras neve e rainha têm um som tão ressoante e certo... Ao começar a escrever senti que não haveria um paralelo com a história de Hans Christian Andersen... Sem soar pretensioso, acho que estava a pensar nas coisas que o inspiraram a chegar àquele conto... Como a rainha que vive no que crê ser uma perfeição, mais os grandes temas do conto que os detalhes da narrativa.

Pela sua escrita tem revelado relações com o universo da literatura e de vários autores em particular. Não há na Rainha da Neve uma presença dominante como a de Virginia Woolf em As Horas ou Walt Whitman nos Dias Exemplares. Mas fala de Flaubert mais do que uma vez. 
É verdade... Talvez porque sou um book geek... Um escritor escreve sobre coisas que lhe interessam e há muitas coisas que me interessam. O desejo do Tyler em escrever uma grande canção é algo que me interessa. A luta de Liz para amar um homem que a ame de volta interessa-me. Assim como me interessam os grandes trabalhos da literatura. E todos acabam por encontrar uma maneira de ali entrar. 

Madame Bovary é assim apenas um livro de que gosta particularmente? Foi um marco na história da literatura.
É um dos meus livros preferidos. Mas de uma forma geral as referências literárias surgem porque estão na minha mente e são parte do que penso. Não me vejo como alguém que está a promover a leitura de Flaubert.

Mas As Horas chamou muita gente à Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf...
Aí foi um efeito secundário inesperado d’As Horas. Mas era um caso diferente. O livro tinha uma relação muito intricada com Mrs. Dalloway. Havia livrarias onde se estavam a vender mais cópias do Mrs. Dalloway que de As Horas, o que me pareceu muito bom.

Como é viver depois de ganhar um Pulitzer?
Pensei muito nisso na altura e perguntava a mim mesmo: então a partir de agora é sempre a descer? E após algum tempo olhei para mim. Se quase 20 anos sem qualquer reconhecimento não te tinham parado, não o ia ser por prémios. Se a falta de sucesso não me tinha travado porque o seria com o sucesso? Seria insultuoso para tantos autores que nunca ganharam um prémio ficar histérico por causa de um. Ou seja: havia que continuar a escrever.

Através da adaptação ao cinema por Stephen Daldry, As Horas ganhou uma banda sonora por Philip Glass. Imagina quem possa dar som às canções de Tyler?
Acho que algum músico que eu respeite e que queira fazer uma abordagem fá-lo-á melhor seguindo a sua interpretação do que se seguir uma ideia minha. Acho que o que tenho para dizer das canções está já no livro.

Assimila as suas personagens?
É um pouco como os atores. Habitamos um papel. Sabemos que não somos nós, mas eles habitam-nos o suficiente ao ponto de sentirmos que temos uma vida paralela.

Os nomes que lhes dá têm alguma justificação?
É como com os diálogos: sei quais são os seus nomes. É misterioso, aparecem assim. Há elementos na ficção que são calculados, naturalmente. Mas há outros elementos que são espontâneos e intuitivos. Eu sei apenas qual é o nome daquelas personagens. E não sei porquê. Nunca tive dúvidas nem mudei um nome. É como dar o nome a um bebé. 

E as profissões? São tão importantes de imaginar para definir as personagens?
Sim. Há escritores que subestimam a importância do trabalho das personagens. Talvez seja algo que se apanha na televisão... Mas nas velhas sitcoms a ação decorria em casa, ao fim do dia, depois do trabalho. As pessoas tinham trabalhos e os espectadores sabiam quais eram. Ter um trabalho é uma experiência importante. É uma parte da nossa vida. Mas sim, presto muita atenção ao que as pessoas fazem para ganhar a vida.

E o que tem feito além da escrita de romances?
Tenho muito trabalho em mãos. Fiz um piloto para uma série televisiva para mostrar ao Showtime, um canal de cabo. E estou a fazer uma nova revisão a um argumento criado a partir de um romance de Ann Leary chamado The Good House. E a menos que mudem de ideias, a Meryl Streep e o Robert De Niro estarão no filme.

A ficção televisiva é atualmente um espaço atraente para quem escreve ficção?
É fantástica. Estou muito interessado na televisão. E não só na televisão americana. Mas a televisão americana está a viver um renascimento. Vejo várias séries. The Wire, por exemplo, mas essa já terminou... Há uma na BBC chamada Orphan Black. Muitas mais.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Em conversa: Michael Cunningham (2014.3)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

Não é também a primeira vez que escreve sobre alguém que busca a perfeição. Que tenta fazer algo bem feito (como aqui sucede com Tyler, que quer fazer a canção certa)... A Laura n’As Horas queria cozinhar o bolo perfeito...
É verdade. Bem observado. Quem escreve romances está fixado em coisas diferentes. Quando comecei a escrever não me decidi a escrever sistematicamente sobre o desejo humano em criar algo maior que a média dos seres humanos. Mas é uma das coisas mais interessantes sobre a espécie humana. O desejo de criar algo belo e duradoiro. Se um extraterrestre aparecesse pela minha frente e me pedisse para descrever os seres humanos em poucas palavras, uma das coisas que eu responderia era que somos seres que querem produzir o belo, querem produzir trabalhos que transcendam os nossos próprios limites. É parte do que é interessante em nós mesmos.

Mas há também o revés da medalha... No novo livro lembra que, no Iraque, afinal, não havia armas de destruição maciça...
Por cada pessoa que tenta criar uma obra de arte há algum chefe corporativo a envenenar o ambiente ou a procurar o lucro... Mas isso eu não diria ao extra-terrestre [risos].

Quão exigente é consigo mesmo quando escreve? É como a personagem Tyler, que luta pela canção certa?
Sou muito exigente comigo mesmo, como acho que qualquer escritor deve ser. Escrevo e depois reescrevo e volto a reescrever. Sou talvez menos nervoso que o Tyler. Se um parágrafo não serve sei que mais tarde o posso mudar. O que é uma qualidade útil para qualquer artista. O Tyler é como aquelas pessoas dotadas, mas que não conseguem terminar nada, porque nunca nada chega ao patamar das suas expectativas. Eu sei que não chego ao nível das minhas expectativas, mas faço as coisas à mesma.

Algum dos seus livros se aproximou desse nível de exigência pessoal?
Não quero insultar os meus próprios livros. Creio que temos sempre um bom livro em mente. Deveríamos ter. Deveríamos sempre sentir que o livro que escrevemos não é tão bom como o livro que tínhamos em mente. Se deixarmos de sentir assim e ficarmos muito satisfeitos, então acabamos mal.

Nos últimos livros tem aprofundado a escrita de diálogos. Ouve-lhes os sons das vozes? Imagina-os a falar?
Escuto as vozes das pessoas, sim, e isso é muito espontâneo. Sei como as personagens falam... Sei como é o ritmo das suas frases, as palavras que tendem a repetir... É uma das coisas que chega, mas não sei de onde vem.

As personagens nascem antes da história ou é a evolução da narrativa que acaba por defini-las melhor?
É um pouco das duas coisas. Tenho um sentido claro das personagens no primeiro rascunho (que é sempre muito diferente do livro que é depois publicado). Mas ao escrever sobre estas pessoas vamos descobrindo melhor quem elas são. Vamos descobrindo as suas contradições... E depois faz-se um segundo rascunho que estabelece melhor quem são, o que mexe com elas... O que as assusta. Um dos objetivos do romancista é o de produzir personagens verosímeis. Sem personagens complexas e nas quais se acredite um romance não pode ser bom.

Visualiza estas personagens? E o que acontece, depois, quando é confrontado com filmes que usam atores para lhes vestirem a pele?
É um processo um pouco estranho. Mas tenho tido sorte com os atores que têm recriado as personagens que inventei. Não sei se acredito na reincarnação... Mas imaginemos que a reincarnação existe, pelo menos para servir esta discussão. Ver atores a interpretar personagens é um pouco como ter conhecido alguém intimamente. Essa pessoa que amamos morreu e surge reincarnada... Conhecemos então uma nova pessoa. É um novo corpo (é outra pessoa). Mas entendemos que aquele é o nosso velho amor reincarnado. 

Este é um livro que acontece na Nova Iorque dos nossos dias. É uma história que acontece depois do 11 de Setembro. Não se fala sequer do 11 de Setembro... Mas há algo que ali ficou. É como se tivesse ficado inscrito implicitamente na cidade e em quem nela vive...
Sim, o 11 de Setembro está lá. Teve um efeito profundo no sentido de segurança dos americanos, no seu sentido do futuro. Tornou-se parte de como pensamos e sentimos. Está lá implicitamente.

A arte em finais do século XX e inícios do século XXI – e sobretudo a arte criada em Nova Iorque – retratou de diversas formas a epidemia da sida. Sente que As Horas faz parte de um corpo de obras que, tal como por exemplo a Sinfonia n.º 1 de John Corrigliano, expressam dessa forma uma atenção com marcas de contemporaneidade?
Na altura era impossível não falar do tema. Foi importante escrever e ainda é um tema importante. A epidemia não acabou. Veja-se África. Veja-se o que acontece entre americanos consumidores de certo tipo de drogas... Mas hoje sinto que essa já não é a história para eu contar. Segui em frente. Não ia escrever romances sobre doentes com sida a vida toda. Mas não diria nunca que o mundo resolveu a epidemia.

terça-feira, agosto 19, 2014

Em conversa:
Michael Cunningham (2014.2)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

No seu novo romance o mapa político entre 2004 e 2008, apesar de nos ajudar a definir quem são as personagens, cria sobretudo um cenário temporal para esta história. O que o fez chegar então a estas personagens e que gatilho desencadeou a narrativa? Não foram Bush e Obama...
Não... É difícil dizer o que define o ponto de partida para um romance. Geralmente são várias coisas... Eu estava interessado na ideia de alguém como o Barrett, que é secular, que não tem uma relação particular com a religião e a crença, a ver algo que é inegavelmente sobrenatural.

A tal luz que ele vê uma noite...
A minha mãe era católica. E fez uma escolha interessante. Ela continuou a ser praticante mas não me obrigou a mim nem à minha irmã a irmos nem à missa nem à catequese. Deixou-nos esperar até que fôssemos mais velhos e pudéssemos escolher. E escolhi contra o catolicismo... Mas cresci com o catolicismo em casa. Os mistérios, os misticismos... Aquilo habitava a nossa casa no subúrbio e isso sempre andou na minha mente. E depois há ainda outro ponto de partida, que se foca em volta de Tyler e das drogas, em particular... Eu não tomo aquelas drogas!... A América tem a maior população presa do mundo e na maior parte dos casos é devido a leis incrivelmente severas quanto às drogas. A namorada que guiava o carro quando o namorado fez um negócio com droga, por exemplo... Estava a pensar como nos EUA se vê quem usa drogas como sendo má pessoa. A ideia de que as drogas são coisas que fazem mal, quem as usa é fraco, está a tentar escapar da realidade e terá um final infeliz... O livro não glorifica o uso da heroína ou da cocaína. Mas estou ciente do facto de não haver apenas uma história possível sobre tendências humanas e que há pessoas que tomam drogas para tentar expandir as suas consciências. Há quem use drogas como Tyler o faz. Pessoas que querem ser melhores artistas. Quando leio histórias “diz não!” penso sempre numa Nancy Reagan e na sua forma de ver a guerra às drogas na América. Que tal Cocteau? A relação da humanidade com substâncias que alteram a realidade é mais variada e complexa que apenas fraqueza e loucura. E queria escrever sobre isso.

Quão importante é, além do tempo, estabelecer também o lugar onde uma história acontece? A avenida onde vivem os dois irmãos fica em Brooklyn...
Os lugares são sempre importantes num romance. E eu escrevo sobre Nova Iorque porque vivo em Nova Iorque. Se vivesse em Lisboa o romance aconteceria em Lisboa. Aquele bairro em particular tem a sua importância. Manhattan é muito caro para todos os que não são muito ricos. E os artistas e quem não ganhe muito dinheiro estão a mudar-se para bairros mais afastados. Está a acontecer em várias cidades e não apenas em Nova Iorque. Bushwick é o bairro onde as personagens vivem... E há uns dez anos era um bairro duro. Hoje há ali cafés e galerias de arte, mas não existiriam então quando estas personagens ali viviam. Eu queria que eles vivessem um pouco à margem da sociedade. Bushwick pareceu-me o sítio certo.

Eles mudam-se depois para uma nova casa no East Village... Um upgrade?...
Não é bem a Park Avenue... Mudam-se assim para aquilo a que chamaria o limiar da civilização. Naquele lugar hoje há já alguns restaurantes, mas não quando estariam lá no tempo em que a ação decorre.

O East Village está a mudar? Onde antes estava o CBGB [o clube onde o punk conheceu um dos seus maiores focos em meados dos anos 70] hoje há uma loja de roupa de marca...
É verdade. E isso diz tudo, não é?... Onde o punk nasceu, onde a Patti Smith começou a cantar, agora vendem-se casacos de cabedal a 700 dólares. Mas é um processo estranho o do East Village, que não mudou assim tanto nos últimos anos. O que está a acontecer é que os artistas estão a mudar-se para Brooklyn.

Na sua escrita há sempre uma certa musicalidade. Podemos entender As Horas como um espaço de onde partem variações jazzísticas em torno de Mrs. Dalloway e Virginia Wolf... Aqui tem pela primeira vez alguém a escrever uma canção num livro. E a música materializa-se assim, mais do que nunca, na sua escrita.
Um amigo meu, a quem o livro é dedicado, foi quem me ensinou sobre música. Aprendi assim sobre música com um músico. E uma das coisas que descobri sobre escrever romances é que se se escreve sobre um grande poeta não se faz a sua poesia. Mas quando se escreve sobre um compositor que não é brilhante, então podemos escrever a canção. Porque, como escritor, deixa-se claro que a personagem o que está a fazer não é uma obra de arte.

Imaginou como soaria a canção (de Tyler) quando a escrevia?
Sim, imaginei! E o Billy (o tal meu amigo) ajudou-me a imaginá-la. Mas não a sei cantar. Posso cantarolar para mim mesmo.

Segundo Tyler a noção de paradigma de grande música está entre Mozart e Jimi Hendrix... Por algum motivo especial estes e não outros?
São nomes de dois grandes músicos. Poderia dizer milhares de outros. Mozart e Jimi Hendrix surgiram porque são grandes por razões bem diferentes.

Um outro nome que refere em concreto, e numa mixtape, é Leonard Cohen... Mas chama à mixtape ‘Why Don’t You Just Kill Yourself’...
Sim, é uma piada autobiográfica. Eu trocava mixtapes com um amigo... E gostávamos muito de canções tristes. E tínhamos uma série chamada why don’t you just kill yourself... Quando o meu amigo Mark descobria uma canção triste dizia-me que tinha descoberto algo que me faria saltar da janela.

São referências que ligam assim a ficção à vida de quem a cria?
A escrita tem disso. Cada escritor tem a sua maneira de o fazer, naturalmente. A escrita não é estritamente autobiográfica, mas é claro que usamos experiências pessoais, por vezes de forma indireta.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Em conversa: Michael Cunningham (2014.1)


Iniciamos hoje a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

Há uns anos disse-me que, como cidadão, faria o possível para que George W. Bush não fosse eleito (foi no ano 2000, numa entrevista publicada no suplemento DNa). Estávamos em inícios do ano 2000. Bush venceria as eleições em novembro...
O que podia fazer era tentar. Nada era garantido...

O início da narrativa que lemos em A Rainha da Neve leva-nos no tempo às vésperas da reeleição de Bush, em 2004... E o candidato republicano vence novamente... A sua incapacidade de mudar então as coisas terá de algum modo ficado à espera para que um dia pudesse escrever sobre este assunto?
É um ponto interessante... Inconscientemente, sim. Nem estava a pensar nisso. Mas cada novo livro é o resultado das experiências que tivemos desde que terminámos o anterior. E sim, penso que o choque e desânimo que senti, como aconteceu com tantos outros americanos, ao ver George W. Bush a ser reeleito ficou ali e surge agora neste novo livro.

Refere-o neste livro como o pior presidente na história dos EUA.
Uma das coisas boas ao ser romancista é que podemos ter personagens a dizer coisas dessas.

O livro termina nas vésperas de algo que pode mudar em 2008, apesar de os dois irmãos estarem a preparar-se para uma vitória McCain/Palin... E não acreditarem num triunfo de Barack Obama. Sobretudo Tyler.
Sim... Tyler é a personagem mais obcecada com a política e está sempre errado. E pareceu-me certo estruturar o livro desta maneira, abrindo na véspera da reeleição de Bush e terminando na véspera da eleição de Barack Obama. Se bem que as personagens não saibam ainda que ele será eleito. Quis acabar aí porque passaram seis anos de presidência Obama, que foram uma experiência contraditória. Por um lado fez coisas espantosamente boas, mas também houve desilusões. É difícil governar qualquer país, sobretudo um país tão grande como os EUA. Eu naturalmente lembro-me da noite da eleição. E estávamos em êxtase. Parecia impossível que o mesmo país que ainda tão recentemente tinha reeleito George W. Bush estava agora a eleger um homem afro-americano, feroz, inteligente e uma força moral. E aquele pareceu-me o lugar ideal para deixar as pessoas neste livro. No limiar de serem invadidos por um grande otimismo.

É uma noite que ficará na sua memória, essa da eleição em 2008?
Sem dúvida. É uma daquelas noites que muitos vamos lembrar. E nunca esquecer. Nos EUA temos memória de muitas eleições presidenciais anteriores que seguiram em direções chocantes. Sou suficientemente velho para me lembrar de ver Ronald Reagan a ganhar. Jimmy Carter foi uma boa surpresa. Clinton foi uma boa surpresa. Mas no meu tempo de vida nunca tinha havido uma surpresa como Barack Obama. A América é um país com problemas enormes de racismo. E a ideia da eleição de um presidente afro-americano é uma razão suficiente para lembrar essa noite para sempre.

E acredita que em 2016 o país vai eleger uma mulher, se Hillary Clinton decidir avançar?
Sim, acredito. Nunca há garantias... Mas acredito que há americanos em número suficiente preparados para eleger uma mulher. Mas é importante ver que Hillary Clinton não é apenas uma mulher: é também Hillary Clinton! As pessoas não vão votar numa mulher, mas numa pessoa que mostrou já por diversas vezes um sentido de Estado incrível, é inteligente, combina diplomacia e força... Creio que a América está preparada para eleger um candidato altamente qualificado que acontece que é uma mulher. E é mais que a América ultrapassar o seu sexismo. É ver as qualificações do candidato.

Imagina o que teria sido uma América McCain ou Romney?
É quase assustador ter de imaginar. Ainda bem que assim não foi.

Mas pensou que isso pudesse acontecer?
A ideia de ter uma vice-presidente Palin faria até um George W. Bush sentir vergonha. É alguém que achava que África era um país. Mas é assustador que alguém como Sarah Palin possa ter chegado tão perto de poder ser eleita.

Como pode um escritor ver a sua voz a chegar à sociedade? Através das personagens dos seus livros?
Acho que isso é o melhor que pode fazer. Parte do que um romance faz é mostrar aos líderes o que é ser um outro ser humano. E quanto mais empáticos formos talvez consigamos que menos crianças mexicanas sejam deportadas, por exemplo... Mas acho que essa é a principal contribuição de um romancista. Mais do que um ativismo político. Os romancistas servem para nos lembrar que cada um é um ser humano. E ninguém deve ser deportado. Ninguém deve ser aniquilado por um drone no dia do seu casamento. Há estudos que saem todos os dias, é verdade. Mas num que saiu recentemente foi mostrado que as pessoas que leem ficção trabalham de uma forma mais empática que as que não o fazem. Isso é interessante. O trabalho do ficcionista é o de nos levar para as mentes de outros. A ficção é a melhor ferramenta para revelar os outros a nós. O escritor de ficção não tem as limitações de um biógrafo... Há tanto que podemos saber de uma pessoa real... Mas não havia limites sobre o que Tolstói podia saber sobre Anna Karenina. Se o escritor de ficção for bom leva-nos até à alma da personagem como nenhum outro escritor pode fazer.

(continua)

domingo, novembro 27, 2011

Entrevistas de arquivo:
Michael Cunningham (2005)

 
Em 2005 esta entrevista com Michael Cunningham foi apresentada nas páginas do DN, numa altura em que entre nós era publicado o seu livro Dias Exemplares.

Neste livro a presença e as palavras de Walt Whitman acompanham as três situações que narra. Porque o trouxe para estas histórias?
Ele está para este livro um pouco como a banda sonora de Philip Glass n’As Horas, ou seja, é uma forma de ligação entre as histórias. Mas é também um complemento e um contraponto entre elas. Eu escrevi três histórias sobre uma América sombria e difícil. E o grande poema de Whitman, Folhas de Erva, nasceu numa altura em que a América parecia a caminho de se transformar a nação mais generosa, abundante e democrática alguma vez vista. Eu estava assim, no presente, a escrever sobre um sonho que acabou mal. E uso-o como a voz do sonho quando ainda o era. Uma voz de esperança... Porque acredito que, enquanto houver uma pessoa viva, as coisas podem sempre melhorar um dia...

Há bombistas-suicidas que, numa das histórias, citam Whitman como ponte para um mundo melhor...
Esperam ir para um mundo melhor. E sinceramente creio que os terroristas devem sentir o mesmo. Duvido que muito poucos terroristas que eventualmente tenham sobrevivido a este tipo de atentados cheguem à noite a casa e pensem: “mais um dia de maldade para o mundo”... Não creio que o George W. Bush pense também assim... As pessoas fazem o que pensam que é certo, mesmo que isso seja terrível e destrutivo.

Vê o seu livro como uma reflexão sobre os pesadelos da América do presente, apesar de conter uma história no passado e uma no futuro?
Seria difícil olhar para a América de hoje e dizer “que bem que isto está a correr!” Não está. Como escritor posso escrever apenas sobre o que vejo. E não me vejo a escrever sobre a América do sonho feito realidade, mas a do sonho que se fez pesadelo.

No prólogo fala sobre a necessidade de ser preciso quando se escreve sobre o passado. Usa a ficção como um olhar pessoal sobre o real?
Penso dessa forma, sim. Há opções que escolho como romancista, outras que tomo porque fazem parte da minha natureza. Acho a realidade difícil, mas interminavelmente interessante.

Experimenta também a ficção científica na terceira história. Como se preparou para esse tipo de registo menos familiar em si?
Foi a parte mais difícil de escrever, e curiosamente as pessoas perguntam-se se me diverti, porque parece-lhes ter sido a mais fácil... A boa ficção científica deve ser divertida. É quase sempre satírica. E tentei, assim, respeitar essas ideias, com uma piada ou outra. Mas foi-me difícil inventar um mundo. E sei que há um risco de parecer ridículo.

Mas não o fez como forma alternativa de comentar o mundo real?
Obviamente. Toda a boa ficção científica é uma extensão do mundo real. Comenta os possíveis destinos do mundo. E o mundo que imagino é uma América em declínio. Esta já não é uma potência. Metade está tão poluída que se tornou inabitável, e a outra está dominada por fundamentalistas religiosos e corporações. E com sistemas de informação tão dominados, que ninguém sabe o que se passa. Não é o futuro inevitável da América. Mas nada na América de hoje faz este futuro imaginaldo algo implausível. Mas gostava que não o fosse.

Há marcas de uma cidade que viveu o 11 de Setembro no seu livro. Até mesmo na Nova Iorque do século XIX, na cena em que as costureiras se lançam das janelas de uma fábrica a arder [o que aconteceu, de facto]...
Foi intencional, sim. Este é um livro sobre o admirável mundo novo que começou com a industrialização, a mecanização, a possibilidade de construir prédios altos que podem arder. A culpa não é das máquinas. E hoje vivemos num mundo em que há prédios de cem andares nos quais pode embater um avião... Mas não diria que vivemos sob ameaças sem precedentes. No passado falou-se várias vezes de vário fins do mundo. Mas é verdade que estamos progressivamente mais nervosos à medida que o tempo avança. E temos motivos para estar.

Apesar destes retratos de pesadelo, como vê Nova Iorque no contexto da América actual?
Foi em Nova Iorque que os atentados de 11 de Setembro aconteceram e, nas últimas eleições, foi claramente uma cidade anti-Bush e contra o ataque ao Iraque. Mas foi no Indiana, onde não cairam aviões com terroristas, que as pessoas se sentiram mais ameaçadas e, assim, a vontade de os matar antes que nos matem a nós.

Espera que Nova Iorque seja exemplo num processo de reinvenção de modelos para uma nova América?
Tenho toda a espécie de esperanças. Mas não sei se Nova Iorque tem mais esse estatuto. Muitos americanos são fundamentalistas religiosos e vivem em lugares onde nunca viram alguém diferente de si. Os americanos, e não só os americanos, são perigosamente desinformados e pouco cultos. 47 por cento da população americana acredita que foi Saddam Hussein quem mandou atacar as torres gémeas. E_acreditam que o que se está a fazer é ir atrás de quem atacou os americanos.

No passado disse que uma das suas missões como escritor era evitar que homens como Bush chegassem à Casa Branca. Acha que fracassou?
É claro que esperamos que a nossa escrita (ou pintura, ou música) tenha um efeito político sobre o mundo. Mas não nos enganemos... Alguém acredita que Dick Cheney entre na Sala Oval, com o meu livro na mão e diga: “Sr. Presidente, li este romance de Michael Cunningham e senti que agimos mal!”... Se queremos de facto a mudança, devemos fazer o nosso trabalho bem feito e depois talvez comprometer-nos pessoalmente com acções políticas concretas.

O sucesso de As Horas mudou muito a sua vida?
Passei a estar mais ocupado, e mais nervoso. Depois de tantos anos ignorado, o telefone começou a tocar e os emails a chegar... Seria um disparate queixar-me, mas foi quase excessivo. E quando se tem um sucesso desta amplitude temos de aceitar que o próximo livro pode ser mal recebido por algumas pessoas e algumas más críticas, independentemente do que escreva...

E isso desperta ansiedades?
Sim, algumas, mas ultrapassamo-las. Se 20 anos de má sorte não me deitaram abaixo, porque não resistir a um acesso de boa sorte? E_a dada altura concluí que esta visibilidade só pode ser usada em favor de escrita mais arriscada. sO sucesso às vezes é nocivo para muitos escritore, porque de repente alcança-se algo que se não quer perder. Então fica-se cauteloso. E a cautela é inimiga da arte.

Que lhe pareceram as adaptações ao cinema dos seus romances?
Ambas foram adaptações muito boas. A diferença esteve no facto de As Horas ter sido um sucesso internacional, e de Uma Casa No Fim do Mundo ter sido visto por... 17 pessoas. E não fez dinheiro algum. Mas as coisas são assim mesmo. De resto, ninguém esperava que As Horas, livro ou filme, fosse um êxito. Quando entreguei o livro ao editor, ele agarrou-o, olhou para mim e disse:_“Virginia Woolf? O que queres fazer com isto?” Pensámos que ia vender umas mil cópias e seguir depois, com a dignidade possível, para a mesa das sobras.

Dias Exemplares nasceu depois de toda essa agitação amansada?
Na verdade tive a ideia para este livro e de As Horas quase ao mesmo tempo. E tive de escolher qual escreveria primeiro. Vi que tinha então 43 anos, a mesma idade que Virginia Woolf tinha quando escreveu Mrs. Dalloway. Tomei essa pista como um sinal, e escrevi As Horas.

Na primeira das histórias de Dias Exemplares, o jovem protagonista crê numa vida depois da morte para o irmão. Acredita na transcendência?
Tenho muitas dúvidas sobre se há alguma coisa depois da morte. Suspeito que algo de nós continua, mas não é a nossa personalidade, não somos nós. Tenho a ideia de que continuamos de uma outra forma que não é pessoal, e que na nossa forma presente não podemos contemplar. Não me imagino de asas para a eternidade, nem no inferno, o que até era mais provável. E não sei se é isso que queria... Todos queremos acreditar num sentido de personalidade, a que os cristãos chamam alma, que acredito que sobreviva. O livro, sendo sobre a América, é mais sobre um sentido de religiosidade que eu necessariamente não abraço. Não se pode escrever sobre a América sem falar de religião.

Teme a morte?
Sinto que uma das missões como seres humanos é tentar derrotar o medo da morte. É uma das coisas que nos distingue dos demais mamíferos. Um gato julga que vai viver para sempre... Somos amaldiçoados e abençoados com a ideia que a vida acaba... Mas em vez de vivermos em terror, devemos aproveitar o máximo.

Teve Virginia Woolf n’As Horas. Agora Whitman. Vai precisar de outro escritor no próximo livro?
Não. É como as mulheres a fazer bolos n’As Horas e no Uma Casa No Fim Do Mundo. Só faço essas coisas duas vezes. Não me repito mais... É a minha conta!

quinta-feira, julho 14, 2011

Pelas ruas de Nova Iorque (13)

Dias Exemplares
de Michael Cunningham (2005)


Nova Iorque é cenário comum para as três narrativas que constituem Dias Exemplares, o romance que Michael Cunningham publicou em 2005, o primeiro após a aclamação global que chegou com o anterior As Horas. A história passa por três épocas e tem por protagonistas diferentes, em comum surgindo não apenas os espoaços da cidade mas também uma relação com a escrita de Walt Whitman (seguindo de certa forma um modo de relacionamento com Virginia Woolf que o escritor havia ensaiado em As Horas).

domingo, março 27, 2011

Em conversa: Michael Cunningham (2)


Continuamos a publicação de excertos editados da entrevista realizada publicamente a Michael Cunningham pelos dois autores deste blogue no auditório da Fnac Chiado a 7 de Março.

Tem rotinas de trabalho? Horários?
Sou tremendamente disciplinado, o que não me parece que seja uma virtude. Venho de uma família com que, são impossíveis de viver, andam sempre a limpar tudo atrás de nós... E se há algo que eu, ao longo dos anos, aprendi foi a tornar-me menos obsessivo no meu método de escrita. Acordo, vou para o meu estúdio e escrevo durante umas quatro ou cinco horas. E depois vou tratar da minha vida e não escrevo frases em guardanapos nem vou a festas a pensar que isto seria bom para um romance. Acho que preciso ir directo do sono e sonhos para escrever. E com sou muito disciplinado raramente vou à internet.

Levou anos a publicar um primeiro livro...
Passei os meus vinte anos à procura do amor e outras drogas. E só quando cheguei aos 30 é que pensei que tinha de ter uma carreira. E depois demorou seis ou sete anos até alguém publicar alguma coisa minha. Não sou apenas disciplinado. Sou muito auto-confiante e muitas vezes pensava “que se lixem” por não publicarem o que escrevia. Em meados dos meus 30 anos pensei que se calhar não aconteceria, que poderia ser uma dessas pessoas que nunca chega a ser escritor. Decidi que ia continuar a escrever, mesmo que me tornasse um professor ou algo parecido. E pouco depois, quando decidi que não me ia preocupar a New Yorker publicou um conto meu e a partir dai as coisas seguiram.

Como reage quando lhe dizem que viram um filme baseado num dos seus romances, mas não leram o livro?
As pessoas dizem isso o tempo todo mas eu não sei... Com a BP a escavar, à procura de petróleo, e o Kadhafi a matar pessoas nas ruas, o facto d alguém ter visto o filme e não ter lido o livro parece-me insignificante.

Por onde começa um livro? Pela história? Pelas personagens?...
Começo sempre pelas personagens. Se começar pela trama, as personagens acabam por ter de ser criadas à medida da narrativa. Sou devoto da beleza das pessoas que não são perfeição. Todas as personagens dos meus livros se apaixonam, têm sexo, etc. Parecem-se com 99% da população. Preciso de começar uma história pelo inicio, porque acho que cada frase dá seguimento ao próximo acontecimento. Se começar pelo fim e voltar ao inicio, parece-me um pouco forçado.

Busca um sentido de realismo?
Suponho que sim, mas não é algo em que eu pense. E há certas coisas no ar e se há um movimento que se aproxima desse realismo, isso acaba por nos envolver indirectamente...
(continua)

domingo, março 20, 2011

Em conversa: Michael Cunningham (1)

Foto: Bernardo Sousa de Macedo

Iniciamos hoje a publicação de excertos da entrevista realizada publicamente a Michael Cunningham pelos dois autores deste blogue no auditório da Fnac Chiado a 7 de Março.

As suas histórias passam muito pela cidade de Nova Iorque. Ao Cair da Noite regressa, de resto, à cidade. O que o faz escrever tantas vezes sobre esta cidade?
Onde quer que um escritor viva esse é um local entusiasmante para se escrever. Se eu vivesse em Lisboa… Mas eu vivo em Nova Iorque e por isso escrevo sobre Nova Iorque. E dou uma especial atenção a esse facto porque uma das funções do romancista é escrever sobre o seu tempo. Se quisermos ler sobre a Rússia do século xix vamos ler livros de história, biografias, mas também obras de um Tchekhov, Tolstoi e Dostoiévski, porque eles também mostraram o que era viver em Moscovo naquela altura. Acho que é isso que nós, escritores, devemos fazer: retratar o sitio onde vivemos o nosso tempo. No meu caso, Nova Iorque.

Este seu novo romance passa pelo circuito das galerias de arte de Nova Iorque. Tentou conhece-lo mais de perto, antes de escrever?
Sou grande fã de arte, estou sempre a visitar museus e galerias. E muitos dos meus amigos mais próximos são negociantes de arte. O dono de uma galeria de arte deixou-me durante uma semana vestir-me até de art dealer. Não vendi nada mas tentei.

Há mais diálogos neste livro. Isso decorrerá das suas recentes experiências no mundo do cinema?
Espero bem que não. Estas personagens simplesmente falam muito mais. Em Nova Iorque há muita gente que fala de forma bastante intrincada, complicada, mas eu prefiro que o façam depois de uma forma mais simples.

Como encara as adaptações ao grande ecrã dos seus livros?
Eu quero que os livros possam dar origem a filmes, se transformem... Não tenho esse estigma do texto sagrado. Uma das minhas adaptações preferidas foi do romance Sangue do meu Sangue , feita sem autorização, por um grupo drag queens na internet. E fiquei tão feliz com isso. Isto já foi há muitos anos nem sei se ainda esta disponível.



Quando faz um livro imagina o filme que possa gerar?
Seria muito venenoso imaginar que os livros são um meio passo para virem a tornar-se num filme.

E gosta das adaptações que já foram feitas?
Tenho tido sorte e os filmes que fizeram são bons filmes. Quando estavam a filmar As Horas, foi diagnosticado a minha mãe um cancro. Eu estava em Los Angeles, onde cresci, e disse ao produtor o que tinha acontecido, pelo que ela poderia chegar nunca ver o filme. Perguntei-lhe se havia algo que ele pudesse fazer... A personagem interpretada pela Julianne Moore é muito parecida com a minha mãe e o produtor disse que podiam mostrar algumas imagens das filmagens que tinham estado a decorrer. Alguém chegou à casa onde cresci com várias dessas cenas com a Julianne Moore. E acabei por me ver sentado no sofá, com a minha mãe, que morreu semanas depois, a ver a Julianne Moore a interpretá-la. Nunca sabemos o que acontece quando escrevemos um livro.
(continua)

quarta-feira, março 09, 2011

De Virginia Woolf a Michael Cunningham

Virginia Woolf, aliás, Nicole Kidman
As Horas (2002), de Stephen Daldry
Ainda o encontro com Michael Cunningham — na FNAC do Chiado. Por um lado, há nele um impulso em direcção a outros escritores — e à escrita de outros escritores — que o leva a inscrevê-los como personagens nos seus livros: Virginia Woolf em As Horas, Walt Whitman em Specimen Days. Por outro lado, tal impulso é apenas um caso particular de um princípio que ele deixou bem claro quando lhe foi perguntado por onde começa os seus romances: as personagens ou a história? As personagens!
Para além das peripécias práticas, ou mesmo logísticas, da escrita de cada livro, há uma consequência conceptual — que é, acima de tudo, uma moral da escrita — que emerge desta postura. A saber: não faz sentido "inventar" personagens apenas para superar problemas decorrentes do desenvolvimento & arquitectura da história que se está a contar. Ou ainda: a personagem tem de ser escolhida — num certo sentido, eleita — pela sua irredutibilidade humana, não pela sua funcionalidade narrativa. Podemos, talvez, a propósito, socorrer-nos de algumas enfáticas palavras de Virginia Woolf:

>>> If you do not tell the truth about yourself, you cannot tell it about other people.

Um escritor (hoje) na Universidade

Depois de uma sessão pública na Fnac Chiado no final da tarde de segunda feira, o escritor Michael Cunningham estará esta manhã na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para uma conferência. O encontro terá por base um artigo por si publicado, de título 'Found In Translation', sobre o trabalho de tradução de livros.

terça-feira, março 08, 2011

Um fim de tarde no Chiado


O auditório da Fnac Chiado encheu ontem para a apresentação do mais recente romance do escritor norte-americano Michael Cunningham, Ao Cair da Noite. Conduzida pelos autores deste blogue, a conversa com o escritor passou primeiro pela escrita do livro, Cunningham revelando que chegou, durante o processo de preparação do texto a viver durante uma semana numa galeria de arte, tendo mesmo vestido a rigor como se de um funcionário se tratasse... “Não vendi nada”, confessou. Falou-se da relação dos seus livros com o cinema e, perante aquela frequente observação, de alguém que lhe diz que viu o filme, mas não leu a obra que está na sua origem, respondeu desdramatizando, ao lado de outros dramas maiores no mundo não vendo este como um real problema. Não deixou contudo de sublinhar que estabelece uma distinção clara entre o que são os seus romances e o que é o trabalho para o cinema, vendo os filmes que nasceram dos seus livros como uma visão de quem os assina. No final o mundo político do nosso tempo passou pela conversa, explicando o autor que talvez seja ainda cedo para se escrever um romance sobre a América de Obama (que vincou admirar profundamente). Ao jornalismo, disse, cabe o retrato mais imediato. O escritor, defende, pede tempo para depois reflectir sobre a realidade na sua ficção.

segunda-feira, março 07, 2011

Michael Cunningham hoje na Fnac Chiado


O escritor norte-americano está hoje em Lisboa para apresentar o seu mais recente romance, Ao Cair da Noite, na Fnac Chiado, pelas 18.30. Cabe aos dois autores deste blogue a condução da entrevista, que passa naturalmente pela escrita de Cunningham, mas também pela sua experiência no cinema. Depois da conversa segue-se uma sessão de autógrafos.

sexta-feira, março 04, 2011

Michael Cunningham, dia 7 na Fnac Chiado

O escritor Michael Cunningham estará em Lisboa na próxima semana. E segunda-feira, dia 7, será entrevistado pelas 18.30 na Fnac Chiado pelos dois autores deste blogue. A conversa partirá do seu mais recente romance, Ao Cair da Noite, mas parte depois pelos caminhos da sua escrita e também da sua relação com o cinema.