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terça-feira, julho 22, 2014

Novas edições:
Marc Almond

“Ten Plagues – A Song Cycle”
SFE
3 / 5

Se há algo a esperar sempre na obra de Marc Almond é um gosto pelo inesperado. E por muito que o associemos à memória da pop electrónica dos Soft Cell ou ao registo da torch song em que criou alguns dos seus temas mais marcantes, a sua discografia é um espaço de invulgar variedade para um autor, sendo frequentes as ocasiões em que abordou temas de outros ou assinou parcerias criativas que alargaram os horizontes dos seus espaços musicais. De colaborações com Gene Pitney, Bronski Beat, PJ Proby ou Foetus a incursões pelas obras de Jacques Brel, Charles Aznavour ou do trovador russo Vadim Kozin, Almond sempre procurou contrariar uma rotulagem fácil da sua personalidade e obra. Este ano, ao mesmo tempo que apresenta um novo disco de originais em estúdio avança com mais duas parcerias que o transportam para lá das fronteiras do universo pop mais canónico. Uma dessas parcerias emergiu há já algumas semanas sob o título The Tyburn Tree, disco cujo protagonismo partilha com John Harle. Agora, e três anos depois de assinar um ciclo de canções ao lado de Michael Cashmore, leva a disco um outro ciclo originalmente estreado em 2011 em Edimburgo. Trata-se de Ten Plagues, ciclo para voz e piano com libreto de Mark Ravenhill e música de Conor Mitchell. O ciclo surgiu depois de Almond ter visto Mother Clap’s Molly House de Ravenhill em 2001, do entendimento entre os dois tendo nascido um novo libreto sobre a grande peste que assolou Londres em 1665 mas que juntou entre as suas fontes de inspiração o ensaio de Susan Sontag Aids and It’s Metaphors. Mitchell adaptou o texto a um formato de ciclo de canções que, dramatizadas, surgiram em palco protagonizadas pelo próprio Almond. Apesar de estarmos musicalmente longe dos terrenos da canção pop a que ligamos muitos episódios da obra do cantor, na verdade desde o início da sua obra a solo que mantém uma relação regular com programas para voz e piano. Aqui todavia sem uma visita a formas luminosas nem êxitos, antes procurando pelo negrume da música e o dramatismo da interpretação o estabelecer de pontes entre as memórias do século XVII e a proximidade da morte com que ele, como tantos outros, viveram quando, sobretudo nos anos 80, a sida começou a ceifar vidas.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Novas edições:
John Harle + Marc Almond,
The Tyburn Tree - Dark London

John Harle + Marc Almond 
“The Tyburn Tree – Dark London” 
John Harle 
3 / 5

Apesar de ter conhecido primeira exposição nos terrenos de grande visão pop eletrónica dos Soft Cell e de ter experimentado espaços de relacionamento da canção pop com a torch song e, uma vez mais, as eletrónicas em discos a solo, Marc Almond nunca foi alma de se fechar entre as quatro paredes da identidade pop. E entre as experiências desafiantes com os Mambas em inícios dos oitentas, versões de Brel ou de canções russas ou colaborações com nomes como Phoetus, Psychic TV ou Current 93, a sua obra sempre conheceu horizontes vastos e o gosto pelo sabor da descoberta. O novo álbum que edita como fruto de uma parceria com o compositor e saxofonista John Harle – a que dão por título The Tyburn Tree – Dark London – é mais um exemplo dessa rara capacidade em sair de zonas de conforto, experimentar outras linguagens e, no final, acabar com mais um episódio digno de aplauso numa obra discográfica à qual não faltam, de facto, momentos relevantes. Com textos de Almond, convocando pontualmente palavras (mais antigas) de John Dee ou William Blake, o álbum apresenta histórias e personagens de Londres (algo que cruzou já várias vezes a discografia de Almond), num percurso com um cunho narrativo que, mais que propor um ciclo de canções, desenha aqui uma ideia dramática maior mais próxima das heranças da ópera (entendida num sentido lato) e do teatro musical. Com composições lançadas em climas sombrios, que ora valorizam o melodismo do canto, ora privilegiam elaboradas cenografias, as canções caminham por ruas mal iluminadas, de noite, entre figuras medonhas e histórias arrepiantes... Plasticamente o disco acolhe pontualmente ecos de heranças das óperas rock dos setentas, embora procure mais uma fuga a esses modelos, podendo juntar-se assim ao recente Dr. Dee de Damon Albarn, como exemplo de uma nova vaga de interesse de músicos pop/rock pelos terrenos do teatro musical. Juntamente com um single recente e a notícia de um álbum de estúdio que deverá chegar no verão, este disco é um sinal da saudável agitação criativa que Marc Almond está neste momento a viver.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Os melhores concertos de 2013 (N.G.)

Foto: Teatro M. Matos
Marc Almond
(Teatro Maria Matos, Lisboa)
Foi preciso esperar mais de 30 anos para vermos Marc Almond num palco português. Mas a espera foi compensada. E a noite de dia 20 de dezembro fez do Natal no Maria Matos um acontecimento emotivo de partilha de canções, onde não faltaram as referências a Jacques Brel nem mesmo aos Soft Cell.

Panda Bear
(Lux, Lisboa)
Era uma noite programada por ele mesmo. Mas ele era também o mais aguardado do cartaz, até porque ia apresentar apenas temas novos. Um trabalho de mais clara abordagem a ritmos mais pronunciados e, pelo caminho, uma nova canção (mais lenta) que é das melhores que alguma vez nos deu.

John Grant
(Cinema São Jorge, Lisboa)
O mais apelativo dos nomes do Mexefst, John Grant visitou Lisboa com o grupo (essencialmente islandês) com o qual dá corpo às canções de um soberbo segundo álbum – Pale Green Ghosts - que editou este ano. O encontro deixou claro que este é nome para nos voltar a visitar brevemente.

Justin Timberlake
(Rock in Rio, Rio de Janeiro)
Foi o grande concerto da edição deste ano do Rock In Rio e é já um nome certo no cartaz do festival que em 2014 vai assinalar os dez anos de presença em Lisboa. Sem aparato maior no palco, Timberlake centrou as atenções nas canções e nas suas capacidades como performer. E venceu o desafio.

Dead Can Dance
(Coliseu dos Recreios, Lisboa)
Poucas vezes os regressos e reuniões são matéria digna de entusiasmar mais que o departamento da nostalgia. Talvez tenha havido alguma ali, sim. Mas foi um serão de intensa vivência de uma linguagem que transporta ecos dos oitentas, mas que acolheu também os sons do álbum recentemente editado.


Clássica


The Perfect American, de Philip Glass
Cantores e Coro e Orquestra do Teatro Real, dir. Dennis Russel Davies
(Teatro Real, Madrid)
Uma das melhores óperas de Philip Glass, The Perfect American parte de um retrato de Walt Disney para refletir também sobre o mundo político e social do seu tempo (estabelecendo pontes com o nosso). Trabalho de orquestra e voz reflete procura de novos sentidos dramáticos e soberba encenação.

Candide, de Leonard Bernstein
Cantores, Orq. Sinfónica Portuguesa e Coro do T.N. São Carlos, dir. João Paulo Santos
(Largo S. Carlos, Lisboa)
A ópera saiu à rua. Foi numa noite quente, apresentando a Lisboa um dos mais brilhantes (e bem humorados) trabalhos de música dramática do século XX, na versão “definitiva” que o próprio Bernstein chegou a dirigir em finais dos anos 80. Largo cheio para um dos grandes momentos que a cidade viveu este ano.

Sinfonia Nº 7, de Sibelius
Mahler Jugendorchester, dir. Leo McFall
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Já nos habituamos à visita anual da brilhante Mahler Jugendorchester ao Grande Auditório da Gulbenkian. Este ano, com o maestro LeoMcFall escutámos uma belíssima interpretação da Sinfonia Nº 7 de Sibelius (e com ela uma rara oportunidade para ouvir, ao vivo, a música deste grande sinfonista do séc. XX).

Diabelli Variations, de Beethoven
Uri Caine + Orq. Gulbenkian, dir. Joana Amaral
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Depois de uma visita triunfal no ano passado, evocando Wagner e a sua relação com Veneza, Uri Caine regressou à Gulbenkian para nos propor uma abordagem livre e muito pessoal das Diabelli Variations, numa interpretação que contou com uma espantosa cumplicidade da Orquestra Gulbenkian.

Emilie, de Kaaija Saariaho
Barbara Hannigan + Orq. Gulbankian
(Fund. Gulbenkian, Lisboa)
Tal como ali vimos recentemente uma expressão de palco que transcende o modelo da versão de concerto, de um A Flowering Tree, de John Adams, este ano a finlandesa Saariaho levou à Gulbenkian Emilie, com uma pungente Barbara Hanningan e bela criação cénica de Vasco Araújo e André Teodósio.

domingo, dezembro 22, 2013

Em conversa: Marc Almond (3 / 3)

Foto: Luis Martins / Teatro Maria Matos
Continuamos a publicar uma entrevista com Marc Almond que serviu de base ao artigo 'Marc Almond estreia-se em Lisboa com Natal alternativo' publicado na edição de 19 de dezembro do DN. 

Nem só de memórias viveu o alinhamento do concerto. De resto, para 2014 terá novos discos a sair... 
Tenho um EP. É a parte dois de um mini álbum produzido pelo Tony Visconti, que trabalhou com David Bowie. Num dos temas conto com o Carl Barat, dos Dirty Pretty Things e dos Libertines. Foi um tema que ele mesmo compôs para mim. O Jarvis Cocker também compôs um outro paara mim. Isso estará num EP que vou lançar no inicío de fevereiro. The Dancing Marquis... Depois terei um álbum mais clássico, uma coisa mais prog rock, onde sou apenas um cantor convidado num disco do John Hart, onde colaboro. E terei um outro disco, mais à frente. Esse será o meu novo álbum, que só sairá em agosto. Tenho assim três discos bem diferentes a lançar no ano que vem. 

A sua obra sempre passou por retratos daquilo que podíamos descrever como “o lado errado da noite”. Canta o que o mainstream muitas vezes não canta. O que o levou a essas figuras e lugares? 
São sobretudo coisas que li. Devo muito disso a David Bowie, que me mostrou que havia outras vidas por aí. Eu tinha uns 14 ou 15 anos e anotei os livros que ele tinha lido e isso levou-me a outros livros... Sempre procurei aventuras na minha vida. De umas arrependo-me, de outras não. Mas levaram-me a lugares... Foi um percurso interessante. Há por isso uma mistura de razões. Eu nasci numa cidade pequena na costa inglesa chamada Southport. Era uma cidade muito conservadora. Deixei a cidade para ir para uma escola de artes em Leeds, que era um espaço muito aberto e muito livre. Que nos encorajava a experimentar ideias mais alternativas. De certa maneira isso ajudou a aprofundar essa viagem. Queria rebelar-me contra o ambiente da cidade onde crescera. E por isso amei o punk, assim como o glam rock e as demais formas de música alternativa dos anos 70. E foi isso que me levou até aos Soft Cell... É claro que os livros e os filmes foram marcantes. Estudei cinema nessa escola. Coisas muito alternativas... E assim que deixei a escola comecei a fazer a minha educação na realidade... 

Como reage perante versões dos seus temas e até mesmo a utilização de samples seus pela música de outros? 
As pessoas quando são sampladas são pagas por isso. O Tainted Love já foi samplado tantas e tantas vezes! Mas depois surge uma Rihanna, que surge e usa os elementos em toda a canção, o que até é bom porque paga as contas... (risos) Sempre gostei de ver as pessoas a fazer versões e usar samples das minhas canções, porque isso foi o que sempre fiz. Hoje a música tem muito a ver com uma ideia de tirar pedaços de coisas antigas, roubando um pouco, e depois recriar, recontextualizar... E daí surge algo novo. Com sites podemos descobrir coisas com outro sentido de aventura, que podemos explorar.

sábado, dezembro 21, 2013

Finalmente... quase 30 anos depois

Marc Almond apresentou-se ontem ao vivo no Teatro Maria Matos, em Lisboa, perante uma casa cheia e emocionada. Sobre este concerto escrevi hoje na edição online do DN:

"O sorriso não deixa dúvidas. Ao som de uma leitura acústica do clássico dos Soft Cell Say Hello Wave Goodbye, Marc Almond quase fecha uma noite há muito esperada em Lisboa. Era um primeiro encore, cantado entre o palco e os que enchiam a sala, o cantor caminhando entre a plateia para partilhar aquele momento, ao som de um refrão que deixou por conta dos que não faltaram ao momento da sua estreia num palco lisboeta. Parece incrível, mas foram precisos mais de 30 anos para que uma das mais marcantes vozes reveladas pela primeira geração dos oitentas fosse convidado para atuar por estes lados. Foi uma noite especial, pensada para assinalar a quadra natalícia, mas onde não faltaram momentos do seu percurso a solo, com os Soft Cell ou os Mambas. Um segundo encore, repetindo o balançado Santa Claus is Back In Town (que Elvis imortalizou no seu álbum de Natal de 1957), não deixou dúvidas. Aplaudido em pé e com a plateia a dançar, Marc Almond fez da primeira noite de palco em Lisboa um momento emotivo e de partilha de memórias e novas canções. Prometeu regressar, mas com toda a sua banda e um alinhamento mais “seu”. E todos os que ali estavam certamente desejaram o mesmo."

Podem ler aqui o texto completo.

Em conversa: Marc Almond (2 / 3)

Continuamos a publicar uma entrevista com Marc Almond que serviu de base ao artigo 'Marc Almond estreia-se em Lisboa com Natal alternativo' publicado na edição de 19 de dezembro do DN. 

Foi-lhe dificil ultrapassar o momento de sucesso maior e grande exposição que viveu nos Soft Cell em inícios da década de 80?
Foi desafiante. Apercebi-me muito depressa de que os Soft Cell seriam algo muito limitativo para mim porque tinha muitas ideias musicais que queria explorar. Por isso fiz os Mambas, ainda os Soft Cell estavam ativos. Mas sabia que os Soft Cell não seriam suficientes para mim musicalmente. Mas não foi uma etapa difícil de vencer, até porque tive uma série de singles de êxito nos anos 80. Pensava que, quando me afastei dos Soft Cell, o volume de pessoas que me seguiam acabaria mais reduzido e que teria de batalhar de novo do começo. Inclusivamente porque decidi não tocar canções dos Soft Cell durante algum tempo, o que pode até ter sido uma decisão louca, não sei... Decidi, muito determinado, que não cantaria temas dos Soft Cell e que faria nome por mim mesmo como artista a solo. A dada altura revisitei o catálogo dos Soft Cell e reparei que podia voltar a amar aquelas canções. Tinha-me afastado por um tempo e tinha um ponto de vista que era necessariamente diferente do que antes conhecia quando fazia parte de um grupo do qual me queria desesperadamente afastar. Na verdade até houve uma revisitação maior mais recente, por volta de 2000 e 2001.

Para uma digressão e até um disco de originais...
Do qual fiquei com opiniões algo contraditórias. Os tempos dourados dos Soft Cell foram há 30 anos. Mas hoje sou uma pessoa diferente do que era então. Se quiser cantar canções dos Soft Cell prefiro antes pensar que é algo que tenho direito de fazer. Algo que ganhei o direito de poder fazer depois de trabalhar a solo tanto tempo.

Foi no histórico concerto no Royal Albert Hall, que depois gerou o álbum ao vivo 12 Years Of Tears que fez essas “pazes” com esse passado?
Foi talvez aí que, pela primeira vez, revisitei algumas dessas canções. Já não fazia o Tainted Love e o Say Hello Wave Goodbye há algum tempo. Eram canções com as quais me estava então a reconciliar. Foi voltar atrás 12 anos na minha carreira, sentido que entretanto tinha já construído todo um corpo de trabalho como artista a solo. Senti que tinha ganho o direito de revisitar esse material que também era meu, mas sem ter de depender dele. Tinha o poder para optar. Foi minha a decisão de não querer fazer as coisas de um modo fácil. Tinha de me recriar como um artista diferente.

O tempo fez de Mother Fist and Her Five Young Daughters, de 1987, um disco de culto e um “preferido” entre admiradores seus…
Recentemente, há pouco mais de um mês, tive a oportunidade de apresentar ao vivo todo esse álbum. Toquei-o todo pela primeira vez na íntegra, conseguindo inclusivamente reunir alguns dos músicos com quem o gravei. O público ficou até surpreendido quando, a meio do concerto, anunciei que ia tocar o disco todo... Foi até um teste... Um dia gostaria de fazer uma digressão baseada nesse disco, porque me apercebi que se transformou num favorito.

Tal como o é Torment & Toreros, que gravou como Marc & The Mambas em 1983?
Toquei o álbum dos Mambas na íntegra também não há muito tempo. Envolveu 15 músicos, e integrou o festival curado pelo Antony Hegarty, porque o Torment and Toreros é um dos álbuns preferidos dele. É uma das suas maiores influências. Esse foi um disco dificil de recriar. Fiz assim esse e o Mother Fist em menos de dois anos. São álbuns seminais que não fazia ideia que eram favoritos dos fãs. Não sei se poderei recriar novamente o Torment and Toreros da mesma maneira, porque é um projeto caro de concretizar. Mas o Mother Fist talvez um dia faça numa digressão.

(continua)

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Em conversa: Marc Almond (1 / 3)

Começamos hoje a publicar uma entrevista com Marc Almond que serviu de base ao artigo 'Marc Almond estreia-se em Lisboa com Natal alternativo' publicado na edição de 19 de dezembro do DN. O cantor atua esta noite no Teatro Maria Matos (Lisboa), pelas 22.00.

Como surgiu a ideia de um concerto de Natal em Lisboa? 
Fui convidado pelo teatro para fazer algo especial tendo em vista o Natal. Surgiu assim uma oportunidade para poder fazer assim qualquer coisa diferente. Vou fazer algumas das minhas canções e também algumas canções de Natal, que me pediram no teatro. Vai ser um natal acústico e alternativo.

Tem canções de Natal que recorde entre as suas memórias de juventude?
Há algumas canções... Vou fazer umas mais tradicionais e também outras mais do universo do rock. Quando era um adolescente, nos anos 70, havia todos os anos um ou outro grupo que, por esta altura, surgia com um disco de canções de Natal. É de certa forma uma tradição. Muitos dos grupos de que gostava editavam assim um ou outro single de Natal, era algo pelo qual se esperava nesta altura do ano. Tenho algumas boas memórias dessas canções. Também farei algumas das minhas canções, que os fãs gostarão de ouvir. Vai ser um espetáculo acústico, com piano e guitarra, mas também com alguns samples. Haverá por isso também algumas eletrónicas.

Não é invulgar em alguns concertos seus vermos as suas canções em versões para voz e piano. Essa redução à essência entusiasma-o?
Gosto de despir as canções a esse patamar de maior simplicidade. Por vezes quando se está na estrada, durante uma digressão, há muitos músicos ao nosso redor e tudo acaba muito cheio. Por isso por vezes uma maneira de avaliar uma canção é a forma como se comporta quando a reduzimos ao essencial, retirando a instrumentação e vendo o que fica dessa canção. Gosto de pensar que, ao longo da minha carreira, fiz canções com uma melodia forte, com uma base forte, e que não dependem de uma batida de dança. É bom despir tudo isso e fazer uma abordagem mais minimal. Que, de resto, puxa também mais por mim como cantor.

Há quem o identifique ou como a voz dos Soft Cell ou como um torch singer. Não serão visões algo redutoras?
Estou com quase 30 anos de carreira a solo, e já passei por muitos estilos musicais, mas tento sempre estampar a minha identidade musical em cada canção que faço. Creio que seria uma loucura se, ao fim de 30 anos, estivesse a usar sempre o mesmo tipo de instrumentação. Por isso já fiz trabalhos com eletrónicas, canções mais orquestrais, mais rock, umas canções mais folk e outras mais esotéricas, tenho um catálogo muito diverso do qual posso escolher. Mas há outras, que não estão entre as favoritas de todos, que gosto sempre de cantar. Como por exemplo as canções de Jacques Brel. Cresci a ouvir as canções delem e gosto de as revisitar. Até mesmo as canções dos Soft Cell, em versões mais despidas porque, na essência, são canções melodicamente muito simples. Por isso posso fazer uma ou outra dessas canções preferidas.

Já gravou vários discos de versões. Porque gosta tanto de o fazer? 
É uma forma de prestar um tributo às minhas raízes e aqueles com quem cresci. Tornei-me um apaixonado da música muito cedo. Tinha ainda uns seis ou sete anos e já via os programas de música da televisão. A música marcou-me e causou impressões em mim desde muito novo. E quando cheguei à idade de comprar discos, aí com uns 13 ou 14 anos, entre os primeiros que adquiri estavam discos de David Bowie. Foi ele que me levou a ouvir Jacques Brel e versões de Brel por outros cantores, como o Scott Walker ou o Alex Harvey. E isso acendeu o meu interesse por outros cantores e canções francesas. Na verdade devo muito a David Bowie por muito do que fiz e faço. Foi ele quem me lançou nessa viagem musical. E gosto sempre de prestar esse tributo a essas raízes, ao que escutava e de onde vim. De certa maneira não é difícil ver de onde venho.

(continua)

Marc Almond em cinco álbuns (5)

Depois de uma intensa década de 80, que viveu entre momentos de sucesso maior e outros episódios de vendas mais contidas (mas dos quais nasceram discos que viraram obras de culto como Torment & Toreros com os Mambas ou Mother Fist e Jacques a solo), Marc Almond entrou de pé direito nos noventas com um dos seus mais sólidos álbuns pop a solo (Tenement Symphony, de 1991, que sucede ao não menos interessante Enchanted, de 1990) e uma revisitação de memórias com casa cheia no Royal Albert Hall (que registou depois no álbum ao vivo Twelve Years of Tears, que edita em 1993, ano em que apresenta também um disco de versões de canções de autores franceses). Depois de um hiato de três anos editou o menor Fantastic Star (1996) e fechou a década com um dos seus melhores discos a solo. Editado em 1999, Open All Night é um espaço de encontro entre a sensibilidade pop da escrita de Marc Almond e os espaços de melancolia que muita da sua obra a solo já visitara com um terreno de expressão de novas eletrónicas (sem contudo acelerar as batidas por minuto como o fizera o álbum de 1996). O alinhamento revela um conjunto elegante de canções que destacam a personalidade da voz e reforçam a presença de marcas autorais nas temáticas abordadas, projetando-as num universo que procurou ali, e com sucesso, uma relação com a contemporaneidade. Entre os momentos altos do disco destaca-se um belo dueto com Siouxie Sioux em Thread of Love.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Marc Almond em cinco álbuns (4)

Descoberto por Marc Almond em versões cantadas por David Bowie ou Scott Walker, o belga Jacques Brel tornou-se cedo num dos seus autores de eleição e um dos autores que mais vezes cantou. A ele dedicou inclusivamente o alinhamento de todo um álbum que, com o título Jacques, editou em 1989.

Em outubro deste ano escrevi aqui sobre este disco numa das entradas da série Discos Pe(r)didos.

“Ainda os Soft Cell viviam a sua primeira vida e uma estreia a solo estava ainda distante quando Marc Almond criou o seu primeiro projeto paralelo. Chamou-lhe Marc and The Mambas e logo no álbum de estreia Untiteled, editado em 1982, apresentava uma versão de Ne Me Quittes Pas, um dos clássicos maiores da obra de Jacques Brel. O cantautor belga, que teve importante primeiro representante em língua inglesa nas versões que, entre 1967 e 1969 foram surgindo nos três primeiros discos a solo de Scott Walker (de quem curiosamente Almond gravava Big Louise nesse mesmo disco com os Mambas), começava a conhecer ali a sua segunda voz maior do outro lado da Mancha. É verdade que tanto Bowie como Momus, entre outros mais, assinaram versões de canções de Brel. Mas apenas Marc Almond registou um álbum inteiro de versões de canções suas (já agora recorde-se que o álbum Scott Walker Sings Jacques Brel é na verdade uma antologia de 1981 reunindo as versões gravadas entre Scott 1 e Scott 3). Gravado depois de The Stars We Are, quarto álbum a solo (e o primeiro com visibilidade maior além do mercado britânico), Jacques é um disco que, mesmo centrado num lote de canções de Brel, revela um alinhamento profundamente pessoal vocalmente claramente dominado pela personalidade fortíssima do canto de Marc Almond. Entre traduções e adaptações assinadas por Paul Buck em língua inglesa e arranjos que se aproximam dos espaços da torch song e universos já visitados pelo cantor (porém longe da pop mais encorpada de The Stars We Are), Almond assimila e transforma as canções, transbordando Jacques do sentido de coerência que nasce tanto do repertório visitado como da solidez de quem o interpreta. Entre clássicos de Brel, como Ne Me Quittes Pas ou J'Arrive e peças mais distantes do tronco canónico da obra de Brel – num conjunto de escolhas que reflete também uma vivência mais intensa e pessoal da sua obra – como La Ville s'endormait ou Il Nous Faut Regarder, Almond enceta neste disco um espaço de abordagem temática a outros universos autorais, todavia próximos dos seus interesses, do qual resultariam títulos posteriores como o Absynthe: The French Album (1992) ou Orpheus in Exile – Songs of Vadim Kozin (2009). Curiosamente, dois anos depois, escolheria uma outra canção de Brel para, com arranjo eletrónico, apresentar o álbum The Tennement Symphony. E aí nasceu Jacky, um dos seus maiores êxitos a solo”.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Marc Almond em cinco discos (3)

O terceiro álbum de originais dos Soft Cell foi editado em 1984 já com a separação do duo como dado adquirido. Marc Almond optou contudo por não manter ativos os The Mambas e resolveu dar o passo seguinte em nome próprio, estreando-se ainda nesse mesmo ano com Virgin in Ermine. Entre 84 e 87, o período em que gravou pela Virgin Records, editou três álbuns, o terceiro do qual ganhando um estatuto de culto entre os seus admiradores. Em 2011, por alturas da sua reedição remasterizada, escrevi aqui:

“Sucessor natural de Stories of Johnny (1985) e do EP de versões A Woman’s Story (editado em 1986), o terceiro álbum a solo de Marc Almond representa o momento em que o músico atinge finalmente a conquista definitiva de uma linguagem muito pessoal. Editado em 1987, Mother Fist and Her Five Young Daughters deixa cada vez mais distantes os ecos dos dias festivos vividos nos Soft Cell em inícios dos oitentas, as frestas de luminosidade morando mesmo assim em raras canções pop como Melancholy Rose ou Ruby Red curiosamente, dois dos singles extraídos do alinhamento do disco. O tutano do álbum segue contudo por outras vielas, essencialmente buscando referências entre o cabaret, as tradições do teatro musical, a torch song... Histórias do lado errado da noite, das vivências de personagens que a luz do dia raras vezes ilumina, habitam entre canções como Mr Sad, There Is a Bed ou The Sea Says, por onde o lirismo teatral de Marc Almond aprofunda demandas encetadas timidamente nos Soft Cell, aprofundadas em experiências com o colectivo Marc and The Mambas e depois mais trabalhadas, a solo, com os Willing Sinners. O som do disco deve, de resto, muito à vastidão de horizontes possível dado o leque de parceiros que faziam essa banda que então acompanhava Marc Almond, a presença-chave de Annie Hogan e os arranjos de Billy McGee garantindo a Mother Fist as cores que fazem desta uma das melhores colecções de canções da sua discografia”.

Pode recordar aqui o teledisco de Melancholy Rose.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Marc Almond em cinco discos (2)

Ainda os Soft Cell eram um corpo vivo, já Marc Almond experimentava novos caminhos e desafios. E antes mesmo de encetar uma carreira em nome próprio, formou em 1982 o coletivo Marc And The Mambas com o qual chegou a editar dois álbuns. O segundo, Torment and Toreros, editado em 1983, tornou-se num dos seus títulos de culto e gerou recentemente um concerto no qual o álbum foi interpretado de fio a pavio.

Em 2011, escrevia aqui sobre o disco, por alturas de uma reedição remasterizada:

"Em Torment em Toreros encontramos uma das obras-primas maiores da sua discografia, num manifesto de grande fôlego que deixou claro que o seu caminho na música não seria necessariamente feito de sequelas de Tainted Love. (...) Mas contemos a história desde o início. Surpreendido pelo sucesso de Tainted Love (e do álbum Non-Stop Erotic Cabaret, que se seguiu), Marc Almond possivelmente sentiu que através do patamar entretanto alcançado pelos Soft Cell não poderia projectar algumas das visões que pretendia explorar na música. Na verdade, e com o tempo, os dois álbuns tardios do duo com Dave Ball acabariam por reflectir um evidente afastamento das linguagens mais nítidas da pop electrónica que haviam talhado nesse histórico disco de 1981. Mas em 1982, e em tempo de curta pausa nos Soft Cell, Almond criou o projecto paralelo Marc And The Mambas através do qual editaria dois álbuns entre 1982 e 83 nos quais definiu rumos que determinariam a essência do que, a partir de 1984, seria a sua obra a solo. Torment and Toreros, o segundo álbum de Marc and The Mambas é uma obra atípica da música do seu tempo. Convocando referências várias, do vaudeville, cultura latina, chanson, piano e arranjos para cordas, juntando ainda outros espaços distantes do centro dos universos da pop de então, sempre som uma atmosfera sombria, o disco tacteia caminhos novos num alinhamento longo (o disco era duplo logo na sua versão original em vinil) que convoca ainda a música de Jacques Brel (The Bulls) ou Peter Hammil (Vision). É um álbum de emoções à flor da pele, versátil nas formas e desafiante na versatilidade de ideias, revelando em Marc Almond uma voz criativa com uma visão que transcendia os tons da pop mais luminosa de muitas das canções dos Soft Cell. Contando com colaboradores como Matt Johnsson (dos The The) ou Annie Hogan (que seria importante parceira na sua obra a solo), Torment and Toreros é um disco tenso e intenso, que se aprende a ouvir (e que Antony Hegarty citou já como um dos títulos que mais o influenciaram). E que mostra que nem toda a pop dos oitentas se arruma nas caixas mais simplistas da taxonomia musical.

Pode ver aqui o teledisco que acompanhou o tema Torment.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Marc Almond em cinco discos (1)

Formados em finais dos anos 70, os Soft Cell deram uma primeira voz a Marc Almond. Acompanhado por Dave Ball, o grupo explorava então as potencialidades das novas eletrónicas e também um sentido clássico da canção que provinha de referencias maiores que tanto vinham dos ensinamentos dos ídolos da geração glam rock como da tradição northern soul. Depois de um primeiro single em 1980, o grupo estreou-se nos álbuns em 1981 com Non Stop Erotic Cabaret, disco que é hoje recordado como um dos mais marcantes da primeira geração pop eletrónica. O alinhamento inclui canções que se tornaram casos de popularidade maior como Tainted Love, Bedsitter ou Say Hello Wave Goodbye. Pelo alinhamento celebravam-se histórias da noite, dos anónimos que são os seus protagonistas, de vidas difíceis, de sexo, juventude e desejo. O sucesso maior de Tainted Love criou em muitos uma ideia diferente daquilo que na realidade Almond e Ball procuravam. Na verdade a restante obra dos Soft Cell seria mais fiel a estas suas demandas que a uma vontade de multiplicar o fenómeno de popularidade ali gerado.

Pode ver aqui o teledisco de Youth, um dos temas do alinhamento do álbum.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Discos Pe(r)didos:
Marc Almond, Jacques

Marc Almond 
“Jaques”
Rough Trade
(1989) 

Ainda os Soft Cell viviam a sua primeira vida e uma estreia a solo estava ainda distante quando Marc Almond criou o seu primeiro projeto paralelo. Chamou-lhe Marc and The Mambas e logo no álbum de estreia Untiteled, editado em 1982, apresentava uma versão de Ne Me Quittes Pas, um dos clássicos maiores da obra de Jacques Brel. O cantautor belga, que teve importante primeiro representante em língua inglesa nas versões que, entre 1967 e 1969 foram surgindo nos três primeiros discos a solo de Scott Walker (de quem curiosamente Almond gravava Big Louise nesse mesmo disco com os Mambas), começava a conhecer ali a sua segunda voz maior do outro lado da Mancha. É verdade que tanto Bowie como Momus, entre outros mais, assinaram versões de canções de Brel. Mas apenas Marc Almond registou um álbum inteiro de versões de canções suas (já agora recorde-se que o álbum Scott Walker Sings Jacques Brel é na verdade uma antologia de 1981 reunindo as versões gravadas entre Scott 1 e Scott 3). Gravado depois de The Stars We Are, quarto álbum a solo (e o primeiro com visibilidade maior além do mercado britânico), Jacques é um disco que, mesmo centrado num lote de canções de Brel, revela um alinhamento profundamente pessoal vocalmente claramente dominado pela personalidade fortíssima do canto de Marc Almond. Entre traduções e adaptações assinadas por Paul Buck em língua inglesa e arranjos que se aproximam dos espaços da torch song e universos já visitados pelo cantor (porém longe da pop mais encorpada de The Stars We Are), Almond assimila e transforma as canções, transbordando Jacques do sentido de coerência que nasce tanto do repertório visitado como da solidez de quem o interpreta. Entre clássicos de Brel, como Ne Me Quittes Pas ou J'Arrive e peças mais distantes do tronco canónico da obra de Brel – num conjunto de escolhas que reflete também uma vivência mais intensa e pessoal da sua obra – como La Ville s'endormait ou Il Nous Faut Regarder, Almond enceta neste disco um espaço de abordagem temática a outros universos autorais, todavia próximos dos seus interesses, do qual resultariam títulos posteriores como o Absynthe: The French Album (1992) ou Orpheus in Exile – Songs of Vadim Kozin (2009). Curiosamente, dois anos depois, escolheria uma outra canção de Brel para, com arranjo eletrónico, apresentar o álbum The Tennement Symphony. E aí nasceu Jacky, um dos seus maiores êxitos a solo.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Marc Almond em Lisboa a 21 de dezembro


Marc Almond vem a Portugal. Já tardava... Em tempos passou por estes lados para apresentar um dos singles dos Soft Cell num programa televisivo. Mas um concerto de Marc Almond era algo que faltava ainda ao mapa de salas portuguesas. A estreia vai ter lugar a 21 de dezembro no Teatro Maria Matos, num programa que deverá ter o Natal e a quadra natalícia como um dos focos da sua atenção...