A gravação da 8ª Sinfonia de Gustav Mahler ("Sinfonia dos Mil"), pela Los Angeles Philarmonic, sob a direcção de Gustavo Dudamel, é um acontecimento do mais puro deslumbramento: a sinfonia "impossível" (pelo número de contributos humanos que exige, mesmo se "mil" é um rótulo mítico que não lhe foi dado pelo compositor) renasce como celebração sagrada de uma vida transfigurada pelo poder da música, dos instrumentos e da voz — eis o final.
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segunda-feira, janeiro 31, 2022
domingo, fevereiro 15, 2015
Celebrando a Sinfonia nº 9 de Mahler
| Susanna Mälkki |
> Orquestra Gulbenkian / Susanna Mälkki (maestrina)
— Jean Sibelius: Tapiola, op. 112
— Gustav Mahler, Sinfonia nº 9, em Ré maior
Figura de grande prestígio, muito solicitada no circuito internacional, a finlandesa Susanna Mälkki, maestrina convidada principal da Orquestra Gulbenkian, dirigiu uma austera e envolvente performance da nona sinfonia de Mahler, fazendo-nos revisitar um universo de fascinantes ambivalências. Desde logo, pela dimensão filosófica de uma obra marcada pela percepção da vulnerabilidade humana — e a "condição de mortalidade do ser humano", para aplicarmos a expressão de Luís Santos no programa. Depois, pelas clivagens internas de um sistema que, dois anos depois da oitava (a lendária "Sinfonia dos Mil", estreada em 1910), relançava a impossível utopia de uma conciliação absoluta com a natureza. A abertura, com Tapiola, de Sibelius (composição datada de 1926), serviu de adequado prólogo a essa miragem natural em relação à qual a música se assume, de uma só vez, como ponto de fuga dramático e paradoxal e efémera materialização. Em resumo, um concerto tão apoteótico como intimista.
domingo, março 10, 2013
Gustav e Gustavo, em Los Angeles
No seu primeiro lançamento no formato de CD com a orquestra de Los Angeles que dirige, o maestro Gustavo Dudamel regressa a Mahler, um nome cada vez mais central na sua obra discográfica. Este texto é uma versão editada de um outro originalmente publicado no DN online a 11 de fevereiro com o título 'Novo encontro de Dudamel com Gustav Mahler.
Ao escolher como encetar discograficamente, em suporte de CD, o seu relacionamento com a Los Angeles Philharmonic (de que é diretor artístico desde 2009), o maestro venezuelano Gustavo Dudamel apontou azimutes a Mahler, afinal mais não fazendo senão regressar ao que parece ser não necessariamente um porto seguro, mas antes a um relacionamento que será certamente central à sua própria relação com a música. Em 2007 Dudamel tinha já editado, como o seu segundo disco para a Deutsche Grammophon, uma 5ª Sinfonia de Mahler, em companhia da Orquestra Simon Bolívar. E na noite em que se apresentou pela primeira vez como diretor artístico da Los Angeles Phiharmonic, não só fez a estreia mundial de City Noir de John Adams, como completou o programa com uma Sinfonia Nº 1 de Mahler. Na verdade, uma gravação dessa atuação ao vivo representou a sua “estreia” em “disco” com a orquestra de Los Angeles, o registo tendo sido contudo apenas disponibilizado em áudio numa série exclusivamente para edições digitais (havendo contudo um DVD, lançado ainda em 2009, que junta todo o programa dessa noite). A videografia de Dudamel conta ainda com um outro título dedicado a Mahler e na companhia conjunta da Los Angeles Philharmonic e a Sinfónica Simon Bolívar: uma gravação da monumental Sinfonia Nº 8. Feitas as contas, até à chegada desta gravação da “nona” (registada ao vivo em “casa”, ou seja, no Walt Disney Concert Hall, há precisamente um ano, em fevereiro de 2012), eram já três as sinfonias de Mahler editadas sob direções de Dudamel, esta contudo representando a primeira que, em disco (e convém reforçar a ideia do suporte físico) assinala o início de um relacionamento com a orquestra americana que, mesmo não estando a viver sob o mesmo perfil de euforia quase “pop” com que Dudamel viu aclamada a sua ascensão com a Simón Bolívar, reforça por outro lado as reais capacidades de direção de orquestra de um dos maestros-estrela do nosso tempo. Obra marcante criada na reta final da vida de Mahler, a “grande” Sinfonia Nº 9 é uma das mais visionárias de toda a sua carreira, vislumbrando novos caminhos que a música começava a trilhar há pouco mais de cem anos. Características que Dudamel respira e assimila com a segurança e responsabilidade de quem reconhece a enormidade da obra que tem em mãos, mas que sabe levar a bom destino.
sábado, dezembro 15, 2012
A arte de re-compor (parte 4)
O quarto volume da série re-composed seguiu um caminho tão pessoal como o que marcara a proposta de Moritz Von Oswald e Carl Craig, numa abordagem invulgar e experimental à Sinfonia Nº 10 de Gustav Mahler, da qual o compositor nos deixou apenas um adágio. O desafio foi vivido por Matthew Herbert, um dos mais inspirados e surpreendentes músicos do nosso tempo, que vê o facto desta sinfonia ter sido deixada inacabada não apenas como uma tragédia pessoal para Mahler mas também um facto com impacte na história da música. No texto que ele mesmo escreve no booklet desta edição refere em concreto um acorde de nove notas que podemos escutar na segunda metade do adágio, reparando que “esta grande dissonância antecipa muito do que viria a acontecer no século XX”.
A bordo de uma série que o convida a re-compor, Herbert recorda Mahler como sendo “um grande revisionista” lembrando as vezes que re-orquestrou as susas obras e as de outros compositores. Tomando um caminho diferente, optou por abordar a gravação que teve como ponto de partida (registada em 1987 pela Philharmonia Orchestra, sob direção de Giuseppe Sinopli) do ponto de vista do ouvinte. Ou seja, a sua visão sobre a décima de Malher seria não uma re-composição sensu strictu, repensando estrutura, melodia e harmonia, mas uma série de pontos de vista do ouvinte sobre a sua gravação. “Quis re-imaginar o trabalho literalmente num novo contexto”, explica Herbert que confessa que em algumas das partes deste seu disco o que escutamos é o modo como ele mesmo ouviu a obra.
E como? Herbert partiu de uma premissa que tem em conta o facto de Mahler ter morrido antes do eclodir da I Guerra Mundial e que todos aqueles que em tempos fizeram o seu público estão mortos. “Esta é uma música que está no after-life”, como sublinha no booklet do disco, defendendo assim que muito do poder desta música reside na forma como assim justapõe o divino e o mundano. Daí ter registado as sessões de audição (e gravação) do adágio da Sinfonia Nº 10 junto a um funeral, nos espaços de um crematório, dentro de um caixão. Gravou a performance dos primeiros compassos junto da sua campa. E passou ainda pela pequena cabana em Toblach, onde Malher compôs estas notas. Herbert diz assim que encheu esta música de fantasmas, procurando captar a tensão “entre o interior e o exterior, o vivo e o morto, o presente e o passado". Mas frisa ainda que não procurou fazer desta abordagem nem um mausoléu assombrado nem uma peça multimédia para museu. “É antes uma amplificação do intrigante equilíbrio que escuto na obra original entre a luz e as trevas”. E, como conclui Herbert, “onde quer que as trevas lancem a sua escuridão, há sempre o contrário na vitalidade emocional, lírica, de fazer parar o coração, das melodias de Mahler, que estão ali para nos lembrarmos de quão maravilhoso é estarmos vivos”.
Capa deste quarto volume da série Re-composed.
Veja aqui o próprio Herbert a explicar a sua abordagem ao adagio da Sinfonia Nº 10 de Mahler.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
Os melhores livros de 2011
J.L.: A agência Magnum publicou um álbum dedicado às provas de contacto dos seus fotógrafos. De algum modo, é o fim simbólico de uma época, não apenas da fotografia antes do digital, mas também do papel como signo exangue de um tempo outro, literário sem dúvida, até mesmo na nossa relação com as imagens. Daí o assombramento das cartas de amor de Althusser (é a morte que se pressente) e a crença romanesca de Sollers (é a vida que não desarma): para além dos sobressaltos de cada um, ambos se movimentam na mesma paisagem mágica em que a escrita refaz a ordem do mundo. Tenham medo.
LETTRES À HÉLÈNE, Louis Althusser (Grasset)
TRÉSOR D’AMOUR, Philippe Sollers (Gallimard)
LES ÉCARTS DU CINÉMA, Jacques Rancière (La Fabrique)
FRANCIS BACON – LÓGICA DA SENSAÇÃO, Gilles Deleuze (Orfeu Negro)
CONTOS COMPLETOS, Vladimir Nabokov (Teorema)
A ESCAVAÇÃO, Andrei Platonov (Antígona)
A PURGA, Sofi Oksanen (Alfaguara)
OBRAS COMPLETAS I / HETERODOXIAS, Eduardo Lourenço (Fundação Gulbenkian)
ARGUMENTOS PARA FILMES, Fernando Pessoa (Ática)
MAGNUM – CONTACT SHEETS, colectivo (Magnum)
N.G.: Ler um livro como quem vê um filme. Como quem vê um pequeno filme. Uma curta-metragem, outra chegando logo na página seguinte e mais outra a seguir... Pequenas narrativas, breves sugestões, retratos de situações, o absurdo ou um estado de tensão caracterizando o que lemos (e vemos). São assim os pequenos contos que lemos em Short Movies, um dos livros que Gonçalo M Tavares publicou este ano e que, incluindo por vezes indicações concretas de movimentos de câmara, nos sugere como as palavras no fundo acabam por ser lidas como imagens. Do panorama de 2011 destaque-se ainda o início da publicação das obras de Christopher Isherwood pela Quetzal. Uma biografia de Mahler que procura na sua obra as marcas vincadas dos factos que cruzam a sua vida. Ainda um belíssimo exemplo da (pouco conhecida) literatura da Suíça, num belíssimo texto sobre o medo e o preconceito, por Jacques Chessex. Ou um olhar (com mais de 50 anos) sobre D. Pedro V, reeditado na recta final do ano.
1 . Short Movies, de Gonçalo M Tavares (Caminho)
2 . Um Homem Singular, de Christopher Isherwood (Quetzal)
3 . Why Mahler?, de Norman Lebrecht (Faber & Faber)
4 . O Vampiro de Ropraz, de Jacques Chessex (Sextante)
5 . D. Pedro V – Um Homem e um Rei, de Ruben Andresen Leitão (Texto)
6 . The Art of The Hobbit, de JRR Tolkien (Harper Collins)
7 . Le Mystère de La Grande Pyramide – Intégrale, de Edgar P. Jacobs ( Les Editions Blake & Mortimer)
8 . Listen To This, de Alex Ross (Fouth Estate)
9 . Onze Tipos de Solidão, de Richard Yates (Quetzal)
10 . O Ponto Ómega, de Don DeLillo (Sextante)
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Os concertos de 2011
Não vi tantos concertos quanto o que gostaria, e falhei mesmo alguns dos que moravam na minha carteira de imperdíveis (Murcof no Maria Matos ou novo encontro com James Blake no Tivoli). Mesmo assim o cartaz dos melhores momentos de palco vividos em 2011 soma dez instantes inesquecíveis (cinco na área da clássica mais cinco no pop/rock e periferias). A estes juntaria mais dois, todavia não exactamente “live” mas igualmente marcantes. Trata-se das transmissões, em HD, a partir do Met, das óperas Nixon In China de John Adams e Satyagraha, de Philip Glass, que nos deram dois dos episódios de excelência que escutámos em 2011.
Clássica
Michael Tilson Thomas / San Francisco Symphony
Mahler “Sinfonia Nº 2”
Coliseu dos Recreios (Lisboa)
Uma interpretação de excelência para uma das obras maiores de Mahler e da própria história da música sinfónica. Num tempo de sombras e dúvidas, o optimismo que brota desta obra de Mahler fechou em glória a temporada 2010/11 da Gulbenkian.
Peter Eötvös / Orq. + Coro Gulbenkian
Stockhausen “Momente”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Foi a primeira vez que Momente se ouviu (em interpretação ao vivo) no século XXI. Contando com Eötvös e Pedro Amaral, dois antigos colaboradores de Stockhausen, a garantia de que a sua visão estaria em cena era certa. Inesquecível.
Paul Hillier / Remix Ensemble + Coro da Casa da Música
Arvo Pärt “Passio”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Uma das obras maiores do chamado minimalismo sagrado, numa interpretação dirigida por um aclamado divulgador da música vocal contemporânea. Nas periferias do silêncio, uma interpretação notável para uma obra de profunda carga emocional. A noite ficou na história de 2011.
Simon Rattle / Berliner Philharmoniker
Mahler “Sinfonia nº 4”
Philharmionie (Berlim)
Um grande acontecimento. Contando com a voz de Christine Schaffer no quarto andamento, uma Sinfonia Nº 4 de Mahler com os jogos de contrastes tão bem demarcados, em companhia de uma obra de Stravinsky a completar um belo programa.
Gustavo Dudamel / Los Angeles Philharmonic
Mahler “Sinfonia Nº 9”
Adams “Slominsky’s Earbox” + Bernstein “Sinfonia Nº 1” + Beethoven “Sinfonia Nº 7”
Gr. Auditório Gulbenkian (Lisboa)
Um reencontro com Gustavo Dudamel, desta feita em duas noites consecutivas e com a orquestra norte-americana que agora o tem como director. Pose diferente da que conhecíamos do maestro de orquestras juvenis, mas a mesma versatilidade, tão profundo e intenso no Mahler quanto capaz de traduzir a inquietude da vida presente num Adams. Juntando um Bernstein digno de um herdeiro e um Beethoven que sublinha mais ainda essa rara capacidade de cruzar tempos e linguagens.
Pop/rock
Sufjan Stevens
Coliseu dos Recreios (Lisboa)
Todo um mundo de contrastes num momento apenas e num único palco. Com a música do seu mais recente (e superlativo) The Age of Adz como medula do concerto, Sufjan Stevens mostrou porque é um dos maiores visionários da música do nosso tempo.
James Blake
Optimus Alive (Algés)
Foi a “figura” do ano no plano da música. Restava a dúvida sobre se as composições, de carácter tão íntimo e feitas de acontecimentos discretos, suportariam o desafio do palco, mais ainda num ambiente de festival. A resposta foi um claríssimo: “sim”
Patrick Wolf
Optimus Alive (Algés)
É um dos grandes criadores de canções pop do nosso tempo. Quando, meses depois, nos visitou em concerto em nome próprio, o cansaço de uma longa digressão já se fazia notar (e o baterista que o acompanhava não ajudou muito). Mas em palco festivaleiro a noite saiu-lhe bem. Muito bem, mesmo.
The Gift
Bowery Ballroom (Nova Iorque)
A solidez de uma vivência de palco talhada após anos de intensa actividade fez dos Gift uma banda segura e firme em cena. Mostraram-no num concerto que se revelou decisivo num passo mais no aprofundar de uma relação com os EUA e Canadá onde tocaram várias datas este ano.
Panda Bear
Casa da Música (Porto)
Ao lado de Sonic Boom (o seu colaborador no mais recente álbum), correram Tomboy de fio a pavio, o amplo espaço da sala principal da Casa da Música servindo para conferir àquela música uma incrível sensação de corpo. Como que se o imaterial se materializasse por alguns instantes.
quarta-feira, setembro 28, 2011
As escolhas no Sound + Vision Magazine
Teve ontem lugar mais uma sessão Sound + Vision Magazine na Fnac Chiado. De uma evocação da carreira dos R.E.M. (que há uma semana atrás anunciaram a sua separação) a um olhar sobre o filme Sangue do meu Sangue, de João Canijo, que estreia no circuito de salas no próximo dia 5, a sessão passou ainda pelo conjunto habitual de discos, DVDs e livros destacados pelos autores deste blogue. Aqui ficam as sugestões apresentadas:
Discos:
João Lopes
Return to the Dark Side of the Moon (Mojo - Outubro)
Hajime, André Carvalho
Devil's Dress, Susana Santos Silva
Return to the Dark Side of the Moon (Mojo - Outubro)
Hajime, André Carvalho
Devil's Dress, Susana Santos Silva
Nuno Galopim
The Rip Tide, de Beirut
Strange Mercy, de St Vincent
2ª Sinfonia de Mahler pela LPO, dir V. Jurowski
DVDs
JL
Pneu, de Quentin Dupieux
NG
Os Amores Imaginários, de Xavier Dolan
Mel, de Semih Kaplanoglu
Livros
JL
Francis Bacon - Lógica da Sensação, de Gilles Deleuze
Lettres à Hélène, Louis Althusser
Francis Bacon - Lógica da Sensação, de Gilles Deleuze
Lettres à Hélène, Louis Althusser
NG
Listen To This, de Alex Ross
A Queda de Berlim, 1945, de Antony Beevor
O Messias de Duna, de Frank Herbert
domingo, setembro 25, 2011
Um Mahler de referência
Uma nova gravação da 'Sinfonia Nº 2' de Mahler. Vladimir Jurowski dirige a London Philharmonic Orchestra (mais o seu coro), na companhia das vozes de Adriana Kucerová (soprano) e Christianne Stotjin (mezzo soprano).
Uma das mais impressionantes criações de Gustav Mahler, a sua Sinfonia Nº 2 é uma obra-prima maior da história da música para orquestra (neste caso envolvendo ainda a presença de um coro e solistas). Estreada em 1895 representou a primeira de uma série de reflexões do músico sobre a morte (e aqui em concreto a ideia de ressurreição), a obra tornou-se numa das mais populares sinfonias de Mahler, com presença regular no repertório de muitas orquestras e com inúmeras gravações editadas em disco. Esta nova abordagem à Sinfonia Nº 2 de Mahler corresponde a uma gravação ao vivo, no Royal Festival Hall, do muito elogiado concerto inaugural da temporada 2009/10 da London Philharmonic Orchestra (LPO). À frente da orquestra, Vladimir Jurowski assina aqui uma daquelas interpretações para figurar na história dos grandes acontecimentos registados em disco.
Nascido em Moscovo em 1990, Jurowski mudou-se pouco depois para Berlim, onde fez a sua formação (na verdade entre a cidade e Dresden). Depois de se estrear no Festival de Wexford trabalhou com várias orquestras, tomando o lugar de maestro principal da LPO em 2007. Esta sua gravação da Sinfonia Nº 2 de Mahler valeu-lhe recentemente um expressivo elogio nas páginas da revista Grammophone, que inclusivamente apontou este registo com disco do mês, descrevendo a gravação como uma de “biblioteca”. Ou seja, daquelas que se afirmam como de referencia para uma obra e que o tempo tratará de não esquecer. Precisa e intensa, capaz de sublinhar as intenções da música, das notas de melancolia ao fulgor dos momentos mais exultantes, a “segunda” de Mahler por Jurowski é, seguramente, um dos grandes acontecimentos discográficos do ano.
segunda-feira, abril 18, 2011
De regresso a Lisboa
Duas noites ao som da música de Mahler no Grande Auditório da Gulbenkian, frente a nova visita da Gustav Mahler Jugendorchester. Há um ano foi particularmente inesquecível a noite (novamente num domingo) na qual, e sob direcção de David Afkham, se escutou o Adagio da Sinfonia Nº 10 (que o compositor nunca chegou a completar). Um ano depois, a mesma orquestra, a mesma obra, desta vez sob segura e comunicativa direcção de Philippe Jordan, as qualidades de uma música nascida num tempo assombrado para o compositor ganhando novamente expressão, cem anos depois, a pulsão dramática que cruza todo este longo andamento traduzindo um dos mais belos episódios da obra de Gustav Mahler e vincando o seu domínio absoluto de uma linguagem que dele faz ainda hoje uma das maiores referências na história da música sinfónica.
Há um ano foi com Shostakovich que esta música fez par, em concreto com a Sinfonia nº 13 que ecoa memórias de dor da história do século XX. O par traçou-se desta vez com Mahler, em concreto com o ciclo de canções que compôs em 1907 sob o título conjunto O Canto da Terra, ao lado de uma orquestra juvenil surgindo em palco duas vozes veteranas, em concreto as de do tenor Burkhard Friz e do barítono Thomas Hampson (que há poucas semanas editou em disco o ciclo Des Knaben Wunderhorn, também de Mahler pela Deutsche Grammophon). Ficaram claras as qualidades sinfónicas deste ciclo relativamente tardio na obra de Mahler, a sexta e última canção (na voz de Hampson) valendo como um dos mais arrepiantes momentos que aquele palco já escutou este ano.
sábado, abril 16, 2011
Um fim de semana com Mahler
Concertos hoje e amanhã com a Gustav Mahler Jugendeorchester no Grande Auditório da Gulbenkian, com direcção do maestro Philippe Jordan (na foto). Hoje, pelas 21.00 horas, Lieder do período de Des Knaben Wunderhorn com a voz de Thomas Hampson e a Sinfonia Nº 1, em Ré maior, Titã. Amanhã, pela mesma hora, o Adagio da Sinfonia nº 10 e o ciclo A Canção da Terra, novamente com Thomas Hampson, ao qual se junta Burkhard Fritz.
domingo, março 20, 2011
Mahler (por voto popular)
Mais uma visão panorâmica da obra de Mahler, desta vez numa caixa cuja selecção foi ditada democraticamente, pelo voto popular...
O título é curioso. Mahler – The People’s Edition. No fundo não deixa de ser mais uma antologia de gravações da sua obra sinfónica, como outras que desde ano passado surgiram para celebrar os 150 anos do nascimento e, agora, o centenário da morte do compositor. Esta reflecte contudo uma marca do nosso tempo: a interactividade. O projecto nasceu com a colocação para streaming, num site expressamente criado para o efeito, de 148 gravações de sinfonias de Mahler (a décima inclusive) registadas entre 1952 e 2009 nos catálogos da Decca e Deutsche Grammophon. Mais de cinco mil votações permitiram a selecção das gravações que, agora, encontramos nesta caixa que, como mandam as regras de um bom ciclo sinfónico, propõe um registo por sinfonia, naturalmente arrumadas segundo a ordem que a aritmética há muito nos ensinou. Cruzam-se aqui maestros como Kubelik, Mehta, Abbado (em duas gravações), Karjan, Bernstein (também representado duas vezes), Solti, Giulinni e Chally. E orquestras como, entre outras, a Berliner Philharmoniker ou a Chicago Symphony Orchestra. Sinal do reconhecimento da importância da interacção com os visitantes do site, o booklet inclui o nome dos que permitiram a sua identificação.
domingo, fevereiro 27, 2011
Uma profunda ligação com Mahler
Sir Simon Rattle regressa a Mahler com a Berliner Philarmoniker, desta vez numa gravação da Sinfonia Nº 2 onde conta ainda com as vozes de Kate Royal e Madgalena Kozena, mais o Rundunkchor Berlin. Edição EMI Classics.
A música de Mahler tem um lugar central na história de vida de Simon Rattle. Em tempos viu, ainda na sua Liverool natal, concertos do primeiro ciclo alguma vez dedicado à integral da sua obra sinfónica por um mesmo maestro. A Sinfonia Nº 4 foi a primeira que dirigiu ainda como estudante e, revelou em tempos, a “segunda” foi a obra que o fez ser sonhar em ser maestro. Esta mesma Sinfonia Nº 2 já havia conhecido, sob a sua direcção, uma outra gravação, há largos anos, ainda com a City Of Birminhgam Symphony Orchestra (a mesma que daria visibilidade global a Rattle). Ao regressar fá-lo agora com a orquestra berlinense de que é titular desde 2002 (e à qual se deverá entretanto manter ligado até 2018). Mahler é um nome central no relacionamento do maestro com a Berliner Philarmoniker, sendo que, em 1987, na primeira ocasião em que a dirigiu, o fez com uma Sinfonia Nº 6 (cuja gravação foi entretanto editada em disco em 2006, num lançamento apoiado pelo Die Welt). Ainda antes de assumir o lugar de maestro-titular, mas já entretanto eleito para ser o sucessor de Abbado no posto, em 2000 editou uma Sinfonia Nº 10 com a Berliner Philharmoniker, que lhe valeria um Grammy. Seguiram-se, com esta sua nova orquestra, uma Sinfonia Nº 5 (2002), uma Sinfonia Nº 9 (2008) e, agora, esta “segunda” na qual deixa claro um olhar que tanto mostra uma capacidade em olhar o todo da obra, como um cuidado na exploração do mundo de detalhes que habitam entre esta que é uma das mais impressionantes composições de Gustav Mahler. Das assombrações que povoam o andamento de abertura às notas de luz e esperança que se levantam no quinto, esta é uma soberba e imponente “segunda”, afirmando-se como um dos primeiros grandes lançamentos editoriais de 2011.
Nestas imagens Simon Rattle apresenta a edição em disco desta sua nova gravação da Sinfonia Nº 2 de Mahler. Vemos depois um excerto da gravação, captado na grande sala da Philharmonie, em Berlim.
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
Percursos de descoberta
Estava noticiado há já algum tempo que os concertos desta semana da Orquestra Gulbenkian iam ter pela frente um outro maestro que não o inicialmente previsto. Abriu-se assim uma oportunidade para conhecer o jovem Ainars Rubikis, vencedor há cerca de um ano do Concurso de Direcção Gustav Mahler. Natural da Letónia tem somado uma série de compromissos internacionais nos últimos anos e ontem deu provas de ser figura a acompanhar com atenção.
O programa foi dominado pela presença da intrigante (mas decididamente cativante) Sinfonia Nº 15 de Shostakovich, a última do grande compositor russo, um dos maiores sinfonistas do século XX. Estreada em 1972, é uma obra que joga entre os contrastes de dois longos andamentos lentos e dois mais curtos alegrettos, por um lado evocando memórias remotas (o próprio compositor chegou a definir o andamento de abertura como uma loja de brinquedos), por outro citando elementos (como o faz com a abertura de Guilherme Tell, de Rossini), não deixando contudo de reflectir sobre o tempo que passou, terminando mesmo com uma nota de mais luminoso optimismo. Discreto no pódio, Rubikis sublinhou os percursos ora mais feitos de luz ora mais toldados, mais efusivos ou contidos pelos quais caminha a música desta espantosa obra tardia de Shostakovich, revelando à vasta plateia uma noite de compensadora descoberta.
O jovem, natural de Riga, que numa entrevista já revelou que pelo seu iPod tanto mora a música de Rufus Wainwright como a dos Pink Floyd, deixou clara essa visão de horizontes largos ao mostrar igual sensibilidade ora na condução do luminoso ciclo Lider eines fahrenden Gesellen de Mahler (com a presença do barítono Georg Nigl) ou numa inesperada abertura de A Flauta Mágica de Mozart que lançou a noite.
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Mais uma noite na Philharmonie
No mesmo mês em que se assinala a edição de mais um disco no qual Sir Simon Rattle dirige a Berliner Philarmoniker em mais uma sinfonia de Mahler (a segunda, em lançamento pela EMI Classics), maestro e orquestra levaram à belíssima sala principal da berlinense Philharmonie um programa que fez de uma outra sinfonia do mesmo compositor o foco central da noite. Com a presença de Christine Schäfer (soprano) no quarto andamento da Sinfonia Nº 4, Rattle vincou os contrastes entre a luminosidade dos andamentos iniciais e a profunda melancolia que atravessa os dois últimos. Na primeira parte deste programa (que tomou a sala grande da Philharmonie entre os dias 16 e 18 deste mês) Rattle levou-nos ao encontro da versão revista em 1947 do bailado Apollo (muitas vezes referido como Apollon Musagète) que Igor Stravinsky compôs originalmente em 1928. Uma música em que encontramos caminhos algo distintos dos que o compositor russo lançara como desafio ao serviço dos Ballets Russes e que revela um sentido neo-clássico que a orquestra tão bem sublinhou.
domingo, dezembro 12, 2010
Mahler, na estreia de uma nova editora
Mais um maestro com uma editora em seu nome. Philippe Herreweghe é a partir de agora o rosto da Phi, uma etiqueta integrada no catálogo da Outhere Music. A estreia faz-se com uma belíssima gravação da Sinfonia Nº 4 de Mahler com a Orchestre des Champs Elysées e a presença da voz de Rosemary Joshua.
quinta-feira, outubro 28, 2010
Simon Rattle regressa a Mahler
O maestro britânico Sir Simon Rattle regressa a Mahler na sua próxima edição em disco. Na verdade trata-se da continuação de um reencontro com uma obra que já gravou com outras orquestras e que agora está, sinfonia após sinfonia, a regravar com a Filarmónica de Berlim, que dirige. Assim, depois de nos últimos anos ter editado, já com a Filarmónica de Berlim, as sinfonias números 5, 9 e 10, agora surgirá no mercado a Sinfonia Nº 2. Acompanham-no ainda as vozes de kate Royal e Madgalena Kozená. A edição é da EMI Classics.
domingo, setembro 12, 2010
Mahler segundo Boulez
Pierre Boulez acaba de editar num mesmo disco as duas peças em falta num ciclo da integral da obra de Mahler que ao longo dos últimos anos tem vindo a construir, dirigindo várias orquestras, no catálogo da Deutsche Grammophon. Com a Cleveland Orchestra, e contando com as vozes de Magdalena Kozená e Christian Gerhaher junta neste disco o ciclo de canções Des Knaben Wunderhorn ao Adagio da Sinfonia Nº 10, que o compositor deixou incompleta. É uma gravação notável, a direcção de Boulez acentuando o carácter luminoso no apontar dos elementos populares que Mahler convocou a estas canções, revelando depois uma leitura intensa e precisa ao abordar o Adagio da Sinfonia Nº 10.
segunda-feira, setembro 06, 2010
Mahler, por Pierre Boulez
Pierre Boulez regressa a Mahler num disco que junta o ciclo de canções Des Knaben Wunderhorn ao Adagio da Sinfonia Nº 10. Nesta gravação, editada hoje pela Deutsche Grammophon, o maestro dirige a Cleveland Orchestra, contando no ciclo de canções com as vozes de Magdalena Kozená e de Christian Gerhaher.
domingo, julho 25, 2010
Beethoven (segundo Mahler)
A passagem dos 150 anos do nascimento de Mahler foi mote para o lançamento de uma série de discos, entre novas gravações e antologias recuperando registos históricos. Entre as novas gravações conta-se uma estreia em disco. Não de uma obra de Mahler, mas da primeira gravação dos arranjos que este criou para a Sinfonia nº 9 de Beethoven e que, na época, levantaram clamores de horror junto da crítica. Kristjan Järvi (na imagem) dirige aqui a Tonkünstler-Orchester Niederösterreich, coro e solistas numa gravação que nos permite, sobretudo, conhecer a forma como Mahler reflectia sobre a música de outras épocas, o seu trabalho como compositor colocando-se assim ao serviço do seu labor enquanto maestro.
Cem anos depois o cenário que acolhe o reencontro com esta visão é outro. As interpretações de época dão-nos a conhecer a música Beethoven como seria escutada no seu tempo… Ganhando assim os arranjos de Mahler um sentido de retrato de como na sua época procurou então escutar a música de um outro tempo. A mais recente edição crítica da obra de Mahler, pela Gustav Mahler Society, inclui esta adaptação. A gravação, dirigida por Järvi revela, na leitura proposta por Mahler, uma abordagem menos interessante que outras abordagens igualmente desafiantes (recorde-se, por exemplo, a proposta por John Eliott Gardiner no seu ciclo editado pela Archiv em 1994). Mas ganha pelo facto de nos abrir uma janela sobre a memória de um maestro que, perante uma dúvida maior, não se esqueceu que era também um compositor.
domingo, julho 18, 2010
O poder da organização
Mais uma edição de uma gravação de uma obra de Mahler em tempo de assinalar os 150 anos do nascimento do compositor. Dirigida por Valery Gergiev, a London Symphony Orchestra apresenta a sua Sinfonia Nº 4, contando com a presença de Laura Claycomb (soprano). Originalmente composta entre 1899 e 1901 é a mais curta das sinfonias de Mahler e aquela em que a orquestra se apresenta em formato mais reduzido, e tem como ponto de partida uma canção que havia composto algum tempo antes (mais uma com texto encontrado em Des Knaben Wunderhorn). A contenção de recursos não implica contuduo uma menor intensidade no jogo de ideias e reflexões que a atravessam, o próprio Mahler tendo descrito, depois de concluir a sinfonia, que esta o tinha surpreendido a si mesmo, estabelecendo um contraste entre quem, num sonho, entrara num jardim mítico, perfumado a flores, e acabara depois num inferno entre horrores…
Numa pequena entrevista promocional (ver vídeo em baixo) que acompanha esta integral dedicada às sinfonias de Gustav Mahler, o maestro refere o impacte cada vez maior que a música do compositor tem vindo a causar nos nossos dias. Refere a importância do detalhe, falando como “pequenos pormenores soam como sendo uma parte insubstituível do todo”. A perfeição, acrescenta, “está garantida, mas há que ir mais fundo, tal é o poder da organização”, explica o maestro referindo-se uma vez mais ao cuidado trabalho de composição que esta música traduz. “É um sonho para um músico poder partilhar esta música com o público”, remata. E assim foi. Esta Sinfonia Nº 4 foi escutada, em concerton ao vivo, no Barbican (em Londres) em Janeiro de 2008 e agora, em disco, corre pelo mundo…
Nestas imagens Valery Gergiev apresenta o ciclo dedicado a Mahler que tem vindo a gravar com a London Symphony Orchestra.
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