Não odeio crianças, mas acho que são, na maioria dos casos, dispensáveis. Salvo aquelas - poucas - bem educadas. E deixo aqui o meu registro de que bem educadas não significa quietinhas. O que não tolero são "monstrinhos".
João Ximenes Braga resumiu o meu pensamento no sábado passado:
Ironia do destinoMesmo para alguém sem qualquer tendência ao misticismo ou à religiosidade, às vezes é difícil duvidar da idéia, muito popular entre esotéricos, de que todos os seus atos e pensamentos têm conseqüência imediata na sua vida. Por exemplo, eu não gosto de crianças. A informação costuma chocar as pessoas de bem. Você diz não gostar de crianças numa roda e, pronto, todo mundo conclui que você é um crápula. Não entendo isso: crianças também não gostam de mim, é uma relação bem resolvida.
Ou pelo menos assim eu pensava.
Em recente viagem de ponte aérea, entrei no avião, localizei meu assento, botei a mochila no bagageiro e me sentei preparado para sobreviver a 50 minutos de tédio minimizados pelo aparelho reprodutor de arquivos de áudio (soa mal, eu sei, mas depois a polícia lingüística implica com “MP3 player”). Na medida em que novos passageiros entravam, adivinha quem senta à minha frente? Uma senhora com duas crianças.
A esta altura, o reprodutor não servia de mais nada. Aumentar o som o suficiente para isolar os gritinhos, as brincadeiras e os blábláblás infantis significaria danos definitivos aos tímpanos. A música, sim, ficou abafada pelas crianças. Cinqüenta minutos de tédio viraram 50 minutos de tortura claustrofóbica.
Avião pousado, fiz uma panorâmica e observei que não havia quaisquer outras crianças no vôo. Apenas aquelas duas. As duas à minha frente. Tinha que ser.
Logo voltei para o Rio e… a esta altura você já adivinhou. Novamente, o vôo lotado, com apenas uma criança. Dentre todas as possibilidades matemáticas de organização dos assentos, é claro que me coube ficar bem atrás da mocinha.
Vivo dizendo que meu sonho — enquanto o teletransporte não vem — é as companhias aéreas oferecerem opção de vôos sem crianças. Mas obviamente não se defende idéias como essa sem pagar um preço. O mundo é das crianças, eu apenas vivo nele. Nesses casos, Paulo Coelho está errado: quando você quer uma coisa, o universo conspira contra você. Estou certo de que, na próxima viagem, a única criança do vôo vai sentar ao meu lado.
Por essas e outras, morro de medo de avião. Imagina visitar o Gilberto Scofield na China? Quase 24 horas de vôo, com uma criança animada ao lado.
Será mesmo uma conspiração do universo? Carma? Algum ser superior me punindo por desobedecer à ordem natural da espécie de achar toda criança fofinha? Ou será pura coincidência sempre me caber o assento mais perto das únicas crianças presentes num vôo?
Bem, não acredito em carma, em justiça cósmica, em Paulo Coelho, na Lei de Murphy, e duvido um pouco de coincidências. Só acredito em ironia do destino.
Note bem, não acredito em destino, mas acredito em ironia do destino.
Mesmo que você adore crianças e não tenha se identificado com nada do que foi escrito aqui até agora, pense quantas vezes por dia você se pega dizendo “Eu mereço” ou “Essas coisas só acontecem comigo”. Pois é. Ironia do destino. Todo ato ou pensamento têm conseqüência imediata na sua vida, nem que seja só para você fazer papel de bobo.
Muita gente insiste que o problema não são as crianças, mas os pais ou responsáveis que não lhes dão educação. Pode ser. Mas a responsável pela menina do vôo de volta até se esforçava. Bastante.
— Não grita, não grita. Você é uma mocinha bem educada. Se ficar falando alto desse jeito, as pessoa vão achar que tu nasceu lá nas favela (sic).
Então, tá.