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2017-02-20

A Concha - Vitorino Nemésio



A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de dezembro de 1901; m. em Lisboa a 20 de fevereiro de 1978)

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2016-12-19

26 - Vitorino Nemésio


O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para a consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisa cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão


(Eu, Comovido a Oeste, 1940)

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

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2015-02-20

Aqui e agora - Vitorino Nemésio

Passei, transi ou fui? Transfui que trans?
Cis quê? Prefixo a que destino imoto?
Movido de que prós ou forças vãs,
Para que inércia ou paz de quid ignoto?

Eunte a que vindoiro alvo remoto?
Essente quê? nihil no adverso mas
Que oponho ao ser, se o espírito derroto
(Meu, que o divino é em altas barbacãs).

Tudo é cá tempo em espaço pervertido:
Ontem que abre amanhã no instante ardente
E se fecha no nunca humano havido

Para sempre ficar como jamais
Agora e aqui eu mesmo, - ermos sinais
De que Deus me povoa e me consente.

in O Verbo e a Morte, 1959

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Poema de Outra Viagem ao Porto
Já um pouco de vento se demora
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
Concha
Teu só sossego aqui contigo ausente
Natal das Ilhas
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
26

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2013-02-20

Poema de Outra Viagem ao Porto - Vitorino Nemésio

Noite movida, meu corpo é uma hora antes
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.


Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)
Ler do mesmo autor:
Já um pouco de vento se demora
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
Concha

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2012-02-20

Outro Testamento - Vitorino Nemésio

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.

Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Teu só sossego aqui contigo ausente
Natal das Ilhas
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
Semântica electrónica
26
Loa
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2011-02-20

26 - Vitorino Nemésio


O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para a consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisa cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão


(Eu, Comovido a Oeste, 1940)
Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Natal das Ilhas
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
Outro Testamento
Semântica electrónica
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2010-12-19

Natal das Ilhas - Vitorino Nemésio

Camélia VermelhaCamélia

À Maria e ao Manuel Pinheirinho, primos-irmãos

Natal das Ilhas. Aonde
O prato de trigo novo,
A camélia imaculada,
o gosto no pão do povo?
Olho, já não vejo nada.
Chamo, ninguém me responde.

Natal das Ilhas. Serão
Ilhas de gente sem telha,
Jesus nascido no chão
Sobre alguma colcha velha?

Burra de cigano às palhas,
Vaca com língua de pneu,
Presépio girando em calhas
Como o eléctrico, tu e eu.

Natal das Ilhas. Já brilha
Nas ondas do mar de inverno
O menino bem lembrado,
Que trouxe da sua ilha
O gosto do peixe eterno
Em perdão do seu passado.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Sec. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.
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Outro Testamento
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
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2010-02-20

Outro Testamento - Vitorino Nemésio ( na passagem do 32º aniversário da morte do poeta Açoreano)

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.

Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Sec. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.
Ler do mesmo autor:
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
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2009-02-20

Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente - Vitorino Nemésio (que faleceu há 31 anos)

Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
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Loa
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2008-12-19

Já um pouco de vento se demora - Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 107 anos)

Macieira imagem daqui

Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casa mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)


Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
Semântica electrónica
Loa
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2008-02-20

Vitorino Nemésio faleceu há 30 anos - A Árvore do Silencio

«Toda a vida estudei mais que pude de tudo para o que desse e viesse»

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — m. Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Outro Testamento
Semântica electrónica
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2007-12-19

A Concha - Vitorino Nemésio (que nasceu faz hoje 106 anos)

A minha casa é concha. Como os bichos,
segreguei-a de mim com paciência:
fachada de marés, a sonho e lixos,
o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho, carregado de inocência,
se, às vezes, dá uma varanda, vence-a
o sal, que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
frágeis, cobertas de hera, ó bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra história:
sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
sentado numa pedra da memória.

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira (Açores) a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Em 1922, matriculou-se em Direito na universidade de Coimbra, daí transitou para Letras (Ciências Histórico-Geográficas), mas acabou por se licenciar em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa (1931), onde faria o doutoramento, em 1939, apresentando como tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entretanto, fora bolseiro em França (universidade de Montpellier), conferencista em Paris, Toulouse e Bordéus e professor agregado da universidade de Bruxelas (1937/38). Em 1937, fundara a «Revista de Portugal», que só durou até 1940. A sua obra poética iniciou-se com «La Voyelle Promise» (1935) e prosseguiria com «O Bicho Harmonioso» (1939), «Eu, comovido a Oeste» (1940), «Festa Redonda» (1950), etc., etc. É uma poesia surrealizante, que precede de longe o serôdio surrealismo à portuguesa. Foi também notável ficcionista, sendo a sua obra-prima o romance «Mau Tempo no Canal» (1944). Viajou infatigavelmente pelo Brasil (1952), Espanha. França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola e Moçambique. Era doutor «honoris causa» pelas universidades de Montpellier e do Ceará e foi-lhe atribuído o prémio Montaigne em 1974. Acusado de dispersividade, a sua acção docente deslumbrou gerações de alunos durante décadas e atingiu o grande público, a partir de 1969, com um programa televisivo intitulado «Se Bem Me Lembro...».

Quer o poema quer a síntese biográfica foram retirados de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler ainda de Vitorino Nemésio neste blog:

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2007-02-20

Outro Testamento - Vitorino Nemésio

No aniversário da morte do autor, há 29 anos, deixo aqui este seu "Outro Testamento":


Figos

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, n. na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 Dez 1901; m. em Lisboa a 20 de Fev. 1978)

Ler do mesmo autor:
Semântica electrónica
Loa
Concha

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2005-12-19

Semântica electrónica - Vitorino Nemésio

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim - o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
- Mas - diz-me a ordenança -
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. na Ilha Terceira, Açores em 19 Dez 1901, m. em Lisboa a 20 Fev 1978) .

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Loa - Vitorino Nemésio

Meu Menino Jesus dos triguinhos no prato,
Não enxugues a tua lágrima de vidro,
Não apagues a tua estrela de prata suspensa no quarto ainda morno,

Não deixes envelhecer os velhos tios de retábulo
Ajoelhados em torno:
Deixa estar as palhinhas urinadas no estábulo,
Que a chuva cheira bem e o pão tufa no forno.
Doira, Menino Jesus, aquele milho amarelo
Que o Joaquim Pacheco secou na escuridão do seu muro,
E manda um navio de nevoeiro
Ao poeta que embarcou à noite no Funchal
Deixando o lenço de sua Mãe molhado no último adeus.
Anda, Menino Jesus, e não me queiras mal
Se eu te disser que assim é que te sinto Deus.
Manda o navio de nevoeiro
Pela primeira vaga que vires redonda e rebentada:
Tua mão outra vez a atira contra a noite,
Como se não tivesse batido nessa grande praia parada.
E deixa as minhas faltas à missa,
Esquece os pontos fracos da minha velha teologia,
E o orgulho, a razão, o materialismo passageiro...
Mandes tu pelo mar o navio de nevoeiro!

VITORINO NEMÉSIO Mendes Pinheiro da Silva (n. na Ilha Terceira, Açores em 19 Dez 1901, m. em Lisboa a 20 Fev 1978) .

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