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2012-03-02

Infante - Luís de Montalvor

Baby! Sossega a tua voz. Não digas mais
Essas canções do Mundo. Deixa que eu esqueço
Que fui menino ao colo de seus pais.
Deixa! Que o coração em si mesmo o adormeço...

Com olhos de criança olho os desiguais
Dias e nuvens, sós, passando, e empalideço...
Canto de Prometeu todo desfeito em ais!
E a vida, a vida até, brinquedo que aborreço...

Mundo dos meus enganos como a desventura!
Experiência, - pobre fumo! Anela o meu cabelo
E põe-me o bibe azul e antigo da Ternura...

Que a vida, essa Babel desfeita que se embala,
ainda é para mim - criança de Deus, pesadelo
Da infância das fanfarras, fogo de Bengala!

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

Luís da Silva Ramos, que usou o pseudónimo de Luís de Montalvor, nasceu em S. Vicente, Cabo Verde, a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Narciso
Tarde
Baker

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2011-03-02

Luís de Montalvor faleceu há 64 anos


Erram no oiro da tarde as sombras destas ninfas
E até onde irá o aroma dos seus gestos
que sei tentam prender meus olhos que, funestos,
sonham um esplendor fatal de pedrarias?

Tarde de tentação! Que estranhas melodias
inquietam o céu de um rumor ignorado?
Seringe! Tua flauta arrosa de encantado
e sangue de Ilusão esta tarde em demência
que a legenda recorda; e da imortal essência
do sonho esta hora antiga exuma o velho idílio.

Há mãos de festa e sonho em meu deserto exílio!

A Beleza é para mim ó ninfas! o Segredo
com que Deus me vestiu de Lindo!... Ai , tenho medo
de morrer o que sou às mãos desse desejo
das ninfas; mas está a sombra que não vejo
depois e antes de mim e, se afundo o olhar na ânsia
de me ver, só me vejo ao colo da Distância!
Deixai dormir um pouco o céu nos olhos meus,
eu não os quero abrir antes que os feche, - Deus! -

Ninfas vós penteais o pavor à janela
da minha alma através a hora sombria e bela.
Coroas não serão sobre mim as de flores
que desfolhais, mas brancos braços de amores
que abrem noturnamente e num país sem dia...

Sois o sonho de mim ao colo da Alegria!


in Orpheu 2

Luís de Montalvor, pseudónimo de Luís da Silva Ramos, nasceu em S. Vicente, Cabo Verde a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947.

Ler do mesmo autor, neste blog: Tarde; Infante - I, Baker

De Luís de Montalvor e da sua poesia, escreveu Fernando Pessoa:

Há duas espécies de poetas — os que pensam o que sentem, e os que sentem o que pensam.

A terceira espécie apenas pensa ou sente, e não escreve versos, sendo por isso que não existe.

Aos poetas que pensam o que sentem chamamos românticos; aos poetas que sentem o que pensam chamamos clássicos. A definição inversa é igualmente aceitável.

Em Luís de Montalvor (Luís da Silva Ramos), autor de um livro de POEMAS a aparecer em breve, a sensibilidade se confunde com a inteligência — como em Mallarmé, porém diferentemente — para formar uma terceira faculdade da alma, infiel às definições. Tanto podemos dizer que ele pensa o que sente, como que sente o que pensa. Realiza, como nenhum outro poeta vivo, nosso ou estranho, a harmonia entre o que a razão nega e o que a sensibilidade desconhece. O resultado — poemas subtis, irreais, quase todos admiráveis — pode confundir os que esperam encontrar na originalidade um velho conhecimento, e no imprevisto o que já sabiam. Mas para os que esperam o que nunca chega, e por isso o alcançam, a surpresa dos seus versos é a surpresa da própria inteligência em se encontrar sempre diferente de si mesma, e em verificar sempre de novo que cada homem é, em sua essência, um conceito do universo diferente de todos os outros. E como, visto que tudo é essencialmente subjectivo, um conceito do universo é ele mesmo o próprio universo, cada homem é essencialmente criador. Resta que saiba que o é, e que saiba mostrar que o sabe: é a essa expressão, quando profunda, que chamamos poesia.

Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria.

Palavras estranhas, porém verdadeiras. Como poderiam ser verdadeiras se não fossem estranhas?

1927

Textos de Crítica e de Intervenção.Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.
(transcrito daqui)

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2011-01-31

BAKER ! - Luís de Montalvor

De qualquer ilha escondida
no quente mar colorista,
veio essa Baker trazida
pla mão da 5ª avenida:
o roteiro fantasista.

Essa negra Josefina
deixou Colombo vexado
ligando a terra-menina,
que é branca e Greco-latina,
ao continente sobrado...

Um demónio de negrura:
trópico aroma se exala...
Seu corpo a imagem e figura
de um brônzeo clima, em tontura,
cercando à noite a senzala!

O ritmo antigo é perdido,
outro mundo volverá.
Nesta Europa sem sentido
a Baker marca o ruído
e o mediano o Dekobrá!

Façam batuque, batuque!
plantem na Europa o Haiti.
- Caliça que a alma amachuque!
que caia o tecto de estuque
no Senhor de Valery!

Velha casa brazonada,
deu-lhe o vento de ruína.
A celta flôr desfolhada,
morreu de tédio, pisada
aos pés dessa Josefina!


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

LUÍS DE MONTALVOR era o pseudónimo literário de Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos, que nasceu em São Vicente de Cabo Verde a 31 de Janeiro de 1891 e pereceu afogado no rio Tejo, em Lisboa, juntamente com a família, num acidente automóvel aparentemente suicida, a 2 de Março de 1947.

Ler do mesmo autor, neste blog: Tarde; Infante - I

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2010-03-02

Infante - I - Luís de Montalvor

Baby! Sossega a tua voz. Não digas mais
essas canções do Mundo. Deixa... que eu esqueço
que fui menino ao colo de seus pais.
Deixa! que o coração em si mesmo o adormeço...

Com olhos de criança olho os desiguais
dias e nuvens, sós, passando, e empalideço...
Canto de Prometeu todo desfeito em ais!
E a vida, a vida até, brinquedo que aborreço...

Mundo dos meus enganos - como a desventura -
Experiência? - pobre fumo! anela o meu cabelo
e põe-me o bibe azul e antigo da Ternura...

Que a vida, essa Babel desfeita que se embala,
ainda é para mim - criança de Deus - pesadelo
da infância das fanfarras, fogo de Bengala!

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio de Vasco Graça Moura.

Luís da Silva Ramos, que usou o pseudónimo de Luís de Montalvor, nasceu em S. Vicente, Cabo Verde, a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947).

Ler do mesmo autor, neste blog: Tarde

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2008-03-02

Tarde - Luís de Montalvor

Ardente, morna, a tarde que calcina,
como em quadrante a sombra que descora,
morre − baixo relevo que domina −
como um sol que sobre saibros se demora.

Inunda a terra a vaga de ouro: fina
chuva de sonho. Paira, ao longe, e chora
o olhar errado ao sol que já declina
sobre as palmeiras que o deserto implora.

A um zodíaco de fogo a tarde abrasa,
em terra de varão que o olhar esmalta.
− Estagnante plaino de ouro e rosas − vaza

nele a sombra, sem dor, que em nós começa
e galga, sobe, monta e vive e exalta.
E a noite, a grande noite, recomeça!

Luís de Montalvor (n. 31 Jan 1891; m. 2 Mar. 1947)

LUÍS DE MONTALVOR era o pseudónimo literário de Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos, que nasceu em São Vicente de Cabo Verde a 31 de Janeiro de 1891 e pereceu afogado no rio Tejo, em Lisboa, juntamente com a família, num acidente automóvel aparentemente suicida, a 2 de Março de 1947. Viveu no Brasil de 1912 a 1915 como secretário da embaixada de Portugal. De regresso, foi um dos fundadores da revista «Orpheu» (1915) e, mais tarde, da editorial Ática, que deu início à publicação sistemática das obras de Fernando Pessoa (1942) e Mário de Sá-Carneiro (1946). Os seus próprios versos seguem uma estética simbolista-decadentista, que revela influência do poeta francês Mallarmé.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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