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2017-07-04

O Meu Algarve (excerto) - João Lúcio

Natureza imortal, tu que soubeste dar
Ao meu país do sul a larga fantasia,
Que ensinaste aqui as almas a sonhar
Nessa frescura sã da crença e da alegria:

Que inundaste de azul e mergulhaste em oiro
Esta suave terra heróica dos amores,
Que lançaste sobre ela o canto imorredoiro
Que vibra a sinfonia oriental das cores:

Tu que mostraste aqui mais do que em toda a parte
O intenso poder do teu génio fecundo,
Que fizeste este Céu para inspirar a Arte
E lhe deste por isso o melhor sol do mundo:

Ensina algum pintor a fixar nas telas
Este brilho, esta cor, inéditos, diversos,
E põe a mesma luz que chove das estrelas
Na pena que debuxa estes humildes versos.

João Lúcio Pousão Pereira (Olhão, 4 de julho de 1880 - Olhão, 26 de outubro de 1918)

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2015-07-04

Torre de Marfim - João Lúcio

Quando, em baixo, ruge, o temporal, sem fim,
Dessa miséria, oh pó, em que tu te esfacelas,
Eu subo à minha torre esguia, de marfim,
Onde me côa, o sonho, o filtro das estrelas.

Sai-me ao encontro a Musa. E o seu olhar pleno
De longínquo e mistério, enche-me o Pensamento;
A Musa, que eu guardo, entre o éter sereno,
Como um velho sultão, avaro e ciumento.

E ficamos, os dois, na torre em solidão,
Onde, a luz do luar, faz de tapeçaria,
Mineiros da Quimera, à busca do filão,
Que tem o diamante azul da Fantasia.

Da Fantasia, que é, em essência, somente
Um jacto de clarão, num nevoeiro escuro:
N’voeiro, que condensa a sombra do Presente,
E clarão, que nos traz já a luz do Futuro.

Foi sob esse clarão, nessa torre isolada,
Que fomos lapidando os versos fatigantes,
Mineiros, que tortura a raiva desolada,
De não ter encontrado o filão dos diamantes.


João Lúcio Pousão Pereira (n. Olhão, 4 de Julho de 1880 - m. 26 de Outubro de 1918)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Deixa-me Beber-te  a Formosura
Sensações Desconhecidas
Tarde de Leite e Rosas Ouvindo Floresta

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2010-07-04

Deixa-me Beber-te a Formosura - João Lúcio (na passagem do 130º aniversário do poeta)

Noite de márm're branco, esplendente:
Rebentam, em gardénias, os espaços:
Silvam, na palidez do ar dormente,
As serpentes inquietas dos teus braços.

Como os meus beijos bebem, sequiosos,
Nos lagos de oiro e cinzas e metais,
Que são os teus olhos misteriosos,
Como os das águias reais!...

Sob a paixão, em labaredas vivas,
Ardes, na noite lenta, o busto lindo:
As linhas do teu corpo, tão esquivas,
Sinto-a flectindo e consumindo.

Enche-me bem a alma de ventura,
Com os sonhos de amor, que me revelas,
E deixa-me beber-te a formosura,
Como, os lagos, pela noite escura,
Bebem o oiro tremente das estrelas.


in «Os Dias do Amor, um poema para cada dia do ano», recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Ministério dos Livros

João Lúcio: a sua poesia e o seu chalé simbolista from Antonio Pina on Vimeo.


João Lúcio Pousão Pereira (n. Olhão, 4 de Julho de 1880 - m. 26 de Outubro de 1918)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Sensações Desconhecidas
Tarde de Leite e Rosas Ouvindo Floresta

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2008-10-27

Sensações Desconhecidas - João Lúcio (na passagem do 90º. aniversário da morte do poeta)

foto: Sol na vidraça

Há tanta sensação que não conheço,
tanto vibrar de nervos que não sinto;
e contudo parece que os pressinto,
apesar de ver bem que os desconheço.


A sensação que tem, à noite, o ar,
quando o orvalho o toca, em beijos de água,
é porventura, irmã daquela mágoa
que sente, quando chora, o meu olhar?

Tem, porventura, alguma semelhança
a sensação dum cravo numa trança,
com a ânsia de quem morre afogado?

E fico-me a pensar que sentirá
uma vidraça quando o sol lhe dá,
e a rasga a mão de luz, de lado a lado...

João Lúcio Pousão Pereira nasceu a 4 de Julho de 1880 em Olhão (Algarve), onde foi vítima de uma epidemia a 27 de Outubro de 1918. Sobrinho do pintor Henrique Pousão, formou-se em Direito por Coimbra em 1902. Jurisconsulto, orador e deputado, foi também um poeta verboso e irregular, mas com momentos fulgurantes. Na sua obra, há simbolismo, decadentismo, nefelibatismo, esteticismo, impressionismo e transcendentalismo. O seu melhor volume de poesia é de publicação póstuma: «Espalhando Fantasmas» (1921).

Ler do mesmo autor Tarde de Leite e Rosas Ouvindo Floresta

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2008-07-04

Tarde de leite e rosas ouvindo a floresta - João Lúcio

Floresta e rosas

Tarde de leite e rosas. Cada aresta,
Tinha um rubi tremente:
Fomos ouvir o canto da floresta,
O seu canto de amor, ao sol poente.

Tu querias sorver os poderosos
Lamentos de saudade e comoção
Que, as raízes, dos fundos tenebrosos,
Mandavam, pelo ramo, pra o clarão.

Opalescera já, o ar. O vento,
Correndo atrás da sombra, murmurou...
Sentiu-se um fechar de asas. Num momento,
A floresta, cantou.

Em cada ramo, um violino havia:
Cada folha vibrava, ágil, sonora,
Par'cendo que escondia uma harmonia,
Nas sombras das ramagens, a Aurora.

Como a floresta, meu amor, eu tento,
Atirar o meu canto para a altura:
Para a fazer cantar, toca-lhe o vento,
Pra me fazer cantar, no pensamento,
Passa o sopro da tua formosura.

João Lúcio Pousão Pereira (nasceu em Olhão a 4 de Julho 1880 e aí morreu em 27 Out 1918).

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2007-07-04

Sensações Desconhecidas - João Lúcio

foto: Sol na vidraça


Há tanta sensação que não conheço,
tanto vibrar de nervos que não sinto;
e contudo parece que os pressinto,
apesar de ver bem que os desconheço.

A sensação que tem, à noite, o ar,
quando o orvalho o toca, em beijos de água,
é porventura, irmã daquela mágoa
que sente, quando chora, o meu olhar?

Tem, porventura, alguma semelhança
a sensação dum cravo numa trança,
com a ânsia de quem morre afogado?

E fico-me a pensar que sentirá
uma vidraça quando o sol lhe dá,
e a rasga a mão de luz, de lado a lado...

João Lúcio Pousão Pereira (n. a 4 de Jul 1880 em Olhão; m. 27 de Out. 1918)

in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004

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2006-07-04

Sensações Desconhecidas - João Lúcio

Há tanta sensação que não conheço,
tanto vibrar de nervos que não sinto;
e, contudo, parece que os pressinto,
apesar de ver bem que os desconheço.

A sensação que tem, à noite, o ar,
Quando o orvalho o toca, em beijos de água
é, porventura, irmã daquela mágoa
que sente, quando chora, o meu olhar?!

Tem, porventura, alguma semelhança
a sensação de um cravo numa trança
com a ânsia de quem morre afogado?

E fico-me a pensar: que sentirá
uma vidraça quando o Sol lhe dá
e a rasga a mão da luz, de lado a lado?...

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa

João Lúcio (n. em Olhão a 4 Jul 1880, m. 27 Out 1918)

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