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2016-09-28

CANÇÃO - Emílio Moura



Que consciência dividida
me faz ser dois e, em seguida,
me torna um só, mas sem vida?

Quem me trouxe a este degredo?
Quem me jogou desde cedo
em labirintos de medo?

Que sombra, estigma ou segredo
se grava, trêmulo, a medo,
em minha face plural?

Quem te conta o que não digo
e dorme sempre comigo
sono de pedra e de cal?

Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá, Minas Gerais, Brasil — 28 de setembro de 1971, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil)

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2014-09-28

Como a Noite Descesse - Emílio Moura

Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado
diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?


Emílio Guimarães Moura (n. Dores do Indaiá, Minas Gerais, em 14 de agosto de 1902 — f. em 28 de setembro de 1971, em Belo Horizonte, Minas Gerais)

Pernmanência do Poema
Canção
Sombras Fraternas

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2011-08-14

Permanência do Poema - Emílio Moura

Retrato de Emílio Moura Retrato do poeta

Quando a luz desaparecer de todo,
Mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A Poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
A poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!


Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá — 28 de setembro de 1971, Belo Horizonte)

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2010-09-28

Canção - Emílio Moura

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.


Extraído daqui

Emílio Guimarães Moura (n. 14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá — m. 28 de setembro de 1971, Belo Horizonte)

Ler do mesmo autor neste blog: Sombras Fraternas

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2008-09-28

Sombras Fraternas - Emílio Moura


Sombras - imagem daqui


Sombras fraternas que viveis na sombra,
porque vindes nesta hora? Porque vindes?
Bem que vos vejo, como antigamente,
sombras fraternas, que viveis na sombra.

Bem que eu quero vencer tanto silêncio,
falar, cantar e despertar em tudo
a alma que um dia emudeceu comigo.
Bem que eu quero vencer tanto silêncio.

Vede as estrelas como estão geladas,
frias e mortas, pelo céu vazio…
Vede as estrelas como estão geladas.

Como quebrar tanto silêncio e frio,
sombras fraternas que viveis na sombra?
Como quebrar tanto silêncio e frio?…

EMÍLIO Guimarães MOURA nasceu em Dores do Indaiá (MG) a 14 de Agosto de 1901 e faleceu em Belo Horizonte (MG) a 28 de Setembro de 1971. Formado em Direito pela universidade do seu estado natal, pouco advogou. Foi professor catedrático (Ciências Económicas), burocrata (altos cargos da função pública) e jornalista. O seu «Itinerário Poético» é de 1970. Mineiro arredio, pouco dado à publicidade, os seus poemas são meditações sobre o mistério da vida: o medo, a angústia, a solidão, em versos melancólicos, cépticos, místicos. É o poeta da indagação e da perplexidade.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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