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2017-01-19

Última Canção - Eugénio de Andrade



Se puderes ainda
ouve-me, rio de cristal, ave
matutina. ouve-me,
luminoso fio tecido pela neve,
esquivo e sempre adiado
aceno do paraíso.
Ouve-me, se puderes ainda,
Devastador desejo,
fulvo animal de alegria.
Se não és alucinação
ou miragem ou quimera, ouve-me
ainda: vem agora
e não na hora da nossa morte
- dá-me a beber a própria sede.

José Fontinhas, que usou o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, nasceu em 19 de janeiro de 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 de junho de 2005

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2016-01-19

Poema à Mãe - Eugénio de Andrade


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

in "Os Amantes Sem Dinheiro"


José Fontinhas, que usou o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, nasceu em 19 de janeiro de 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 de junho de 2005

Do mesmo autor ler neste blog:
Poema XIV de As mãos e os frutos
Surdo, Subterrâneo Rio
Os Olhos Rasos de Água

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2015-01-19

To a Green God - Eugénio de Andrade

Chateau Noir, Oil on Canvas 1900-04 : 27 1/2" x 32 1/4"
National Gallery of Art, Washington, D.C; Venturi 796
Paul Cézanne (n. 19 de Jan.1839, em Aix-en-Provence; m. Oct. 22, 1906)

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

José Fontinhas, que usou o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, nasceu em 19 de janeiro de 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 de junho de 2005

Do mesmo autor ler neste blog:
Poema XIV de As mãos e os frutos
Surdo, Subterrâneo Rio
Os Olhos Rasos de Água

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2014-06-13

Poema XIV de As Mãos e os Frutos - Eugénio de Andrade

Tenho o nome duma flor
quando me chamas
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga
ou algum pomar que atravessei.


(As Mãos e os Frutos, 1948)

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, Fundão, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005)


Do mesmo autor ler neste blog:
Os Olhos Rasos de Água
Surdo, Subterrâneo Rio
Canção
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
To A Green God
Urgentemente - Eugénio de Andrade
Adeus
Poems in English
Pequena elegia de Setembro
Às vezes tu dizias ...
Poema XVIII
Os amantes sem dinheiro
As amoras
Post Scriptum

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2012-01-19

Surdo, Subterrâneo Rio - Eugénio de Andrade

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade (nasceu em Póvoa de Atalaia a 19 Jan. 1923; m. no Porto a 13 Jun. 2005)

Do mesmo autor ler neste blog:
Canção
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
To A Green God
Urgentemente - Eugénio de Andrade
Adeus
Poems in English
Pequena elegia de Setembro
Às vezes tu dizias ...
Poema XVIII
Os amantes sem dinheiro
As amoras
Post Scriptum

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2011-01-19

Os Olhos Rasos De Água - Eugénio de Andrade

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como um bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.


in Poesia, Eugénio de Andrade, Fundação Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade (nasceu em Póvoa de Atalaia a 19 Jan. 1923; m. no Porto a 13 Jun. 2005)

Do mesmo autor ler neste blog:
Canção
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
To A Green God
Urgentemente - Eugénio de Andrade
Adeus - Eugénio de Andrade
Eugenio de Andrade - poems in English
Pequena elegia de Setembro - Eugénio de Andrade
Às vezes tu dizias ... - Eugénio de Andrade
Poema-XVIII- Eugénio de Andrade
Os amantes sem dinheiro
As amoras - Eugénio de Andrade
Post Scriptum - Eugénio de Andrade

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2010-06-13

Adeus - Eugénio de Andrade

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.


in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade; selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria; Terramar
Eugénio de Andrade (nasceu em Póvoa de Atalaia a 19 Jan. 1923; m. no Porto a 13 Jun. 2005)

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2010-01-19

Canção - Eugénio de Andrade

La montagne Sainte-Victoire; Oil on Canvas
25.6 x 31.9 in. / 65 x 81 cm. 1888 - 1890
Paul Cézanne (n. 19 de Jan.1839, em Aix-en-Provence; m. Oct. 22, 1906)

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora.

Eugénio de Andrade (nasceu em Póvoa de Atalaia a 19 Jan. 1923; m. no Porto a 13 Jun. 2005)

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2009-05-03

3 Maio - Dia da Mãe em Portugal



Em Portugal, o Dia da Mãe começou por ser festejado no dia 8 de Dezembro em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. No entanto, hoje em dia é celebrado no primeiro domingo do mês de Maio, ou seja hoje!

POEMA À MÂE

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

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2009-01-19

To A Green God - Eugénio de Andrade

Chateau Noir, Oil on Canvas 1900-04 : 27 1/2" x 32 1/4"
National Gallery of Art, Washington, D.C; Venturi 796
Paul Cézanne (n. 19 de Jan.1839, em Aix-en-Provence; m. Oct. 22, 1906)

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Eugénio de Andrade (n. em 19 Jan 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 Jun 2005).

Do mesmo autor ler neste blog:

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2008-01-19

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão - Eugénio de Andrade

Jeune garçon au gilet rouge - 1888-89 E.G. Bührle Collection, Zurich
Paul Cézanne (n. 19 de Jan.1839, em Aix-en-Provence; m. Oct. 22, 1906)

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.


Eugénio de Andrade (n. em 19 Jan 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 Jun 2005)

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2007-06-13

Post - Scriptum - Eugénio de Andrade

Maria Helena Vieira da Silva: Landgrave, 1966.

Agora regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
duma cidade ardente, povoada,
flutuando sem limites na espessura
da noite cheirando a madrugada.

Acordaste na aurora -a bica rumorosa
de peixes e de açucenas;
pensativa rosa abrindo nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

Estás de pé nos meus versos e no trigo
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem!, e mais que jovem, sem mágoa!,
como no tempo e que tinha medo
que te afogasses numa gota de água.


Eugénio de Andrade 19 Jan 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 Jun 2005).


Do mesmo autor ler neste blog:


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2007-01-19

As palavras que te envio são interditas - Eugénio de Andrade

No aniversário do nascimento do poeta (19 Jan 1923) relembramos:

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade (n. 19 Jan 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 Jun 2005).

Do mesmo autor ler neste blog:

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2006-06-13

As Amoras - Eugénio de Andrade

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Blackberries - Photo Taken by Robert Summers


O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

("O Outro Nome da Terra")

Eugénio de Andrade (n. 19 Jan 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 Jun 2005).
Do mesmo autor ler neste blog:

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2005-02-18

Adeus - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

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2005-01-19

Os Amantes sem Dinheiro / Silencio - Eugénio de Andrade

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
dum anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

____________________________

Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


1971, Eugénio de Andrade
In Obscuro Domínio

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2004-11-15

Silence

When tenderness
seems tired at last of its offices

and sleep, that most uncertain vessel,
still delays,

when blue bursts from
your eyes

and searches
mine for steady seamanship,

then it is I speak to you of words
desolate, derelict,

transfixed by silence.

Translation by Alexis Levitin from an original poem
in portuguese of Eugénio de Andrade

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