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2016-06-16

Penélope - David Mourão-Ferreira



Mais do que sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro 1927 – Lisboa, 16 de junho 1996)

Ler do mesmo autor:
Penumbra
Praia do Esquecimento
Tentei Fugir da Mancha Mais Escura
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2016-02-24

Penumbra - David Mourão-Ferreira


Na penumbra dos ombros é que tudo começa

quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser

in Obra Poética (1948-1988), Presença

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 de fevereiro de 1927; m. Lisboa a 16 de junho de 1996)

Ler do mesmo autor:
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2015-06-16

Primavera - David Mourão-Ferreira (na voz de Amália)



Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera,
Se quebrava e desfazia,
Ai, funesta Primavera,
Quem me dera, quem nos dera,
Ter morrido nesse dia!

E condenaram-me a tanto,
Viver comigo o meu pranto,
Viver, viver e sem ti.
Vivendo, sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão,
O que nos dão a comer.
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver...?

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera,
Em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia


Letra extraída de «O Fado da Tua Voz. Amália e os Poetas», Vítor Pavão dos Santos, Bertrand Editora. A música é de Pedro Rodrigues.

David de Jesus Mourão-Ferreira nascido em Lisboa a 24 de fevereiro de 1927 e falecido na mesma cidade a 16 de junho de 1996

Ler do mesmo autor:
Anjo Descido ao Mar
Paraíso
Praia do Esquecimento
Tentei Fugir da Mancha Mais Escura
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Ternura
Labirinto
Penelope
Equinócio
Soneto do Cativo

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2015-02-24

Anjo Descido ao Mar - David Mourão-Ferreira


Sou eu, ó céu! - Anjo falhado,
perdi, jogando fluidos dados,
no pano esverdeado
                              deste mar,
as asas e a vontade de voar.

Não salvei do naufrágio a embarcação,
Detive-me a rolar por estas vagas,
joguei-me contra as fragas...
                              Já sem asas,
Ó céu, aceita a minha demissão!

Serei o precursor? Eis-me liberto
de tanta terra vil que o céu reflecte.
Ó líquido deserto,
                            onde se perde
o vestígio dos erros encobertos!

Por mim, não quero já missão nenhuma,
senão tal jogo de onda e de mais onda,
a surpresa da espuma!,
                             e a profunda
tentação de morrer em cada onda!

David de Jesus Mourão-Ferreira nascido em Lisboa a 24 de fevereiro de 1927 e falecido na mesma cidade a 16 de junho de 1996
 
Ler do mesmo autor:
Paraíso
Praia do Esquecimento
Tentei Fugir da Mancha Mais Escura
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2014-06-16

Paraíso - David Mourão-Ferreira

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


in "Infinito Pessoal" (1959-1962)

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro 1927 – Lisboa, 16 de junho 1996)

Ler do mesmo autor:
Praia do Esquecimento
Tentei Fugir da Mancha Mais Escura
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2014-02-24

Praia do Esquecimento - David Mourão-Ferreira

Foto: www.pousadadaespera.com.br

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


in "Tempestade de Verão"

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro 1927 – Lisboa, 16 de junho 1996)

Ler do mesmo autor:
Tentei Fugir da Mancha Mais Escura
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2013-06-16

Tentei fugir da mancha mais escura - David Mourão-Ferreira

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2012-06-16

Presídio - David Mourão-Ferreira

imagem daqui

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconscientemente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


Extraído de Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa, Organização e Prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2012-02-24

Casa - David Mourão-Ferreira

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2011-06-16

Paraíso - David Mourão-Ferreira

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

in "Infinito Pessoal" (1959-1962)
Extraído de David Mourão-Ferreira, Obra Poética, 1º. Volume Livraria Bertrand

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Equinócio
Soneto do Cativo
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera

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2011-02-24

Equinócio - David Mourão-Ferreira

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que gente não sabe


(extraído de Os Poemas da Minha Vida, n. 4 - Urbano Tavares Rodrigues - Público)

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Soneto do Cativo
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera

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2010-06-16

Soneto do Cativo - David Mourão-Ferreira

imagem daqui

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio

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2010-02-24

Ilha - David Mourão-Ferreira

imagem daqui

Deitada és uma ilha. E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha. Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias.

Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio

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2009-12-23

Musical suggestion of the day: Lembra-te sempre de mim - Camané



Se alguém pedir a teu lado
Que na música de um fado
A noite não tenha fim
-lembra-te logo de mim !

Se o passado
De repente
Mais presente
Que o presente
Te falar também assim
-lembra-te logo de mim!
-lembra-te logo de mim!

Se a chuva no teu telhado
Repetir o mesmo fado
E a noite não tiver fim
-lembra-te sempre de mim !
-lembra-te sempre de mim !

O dia não tem sentido
Quando estás longe de mim...
Se o dia não tem sentido
Que a noite não tenha fim!
Que a noite não tenha fim!

O dia não tem sentido
Quando estás longe de mim...
Se o dia não tem sentido
Qua a noite não tenha fim!

Se a chuva no teu telhado
Repetir o mesmo fado
E a noite não tiver fim
-lembra-te sempre de mim!
-lembra-te sempre de mim!
-lembra-te sempre de mim!
-lembra-te sempre de mim!


Letra de David Mourão-Ferreira, música de José Mário Branco, voz de Camané

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2009-06-16

Casa - David Mourão-Ferreira (no 13º. aniversário da morte do poeta)

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.


Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio

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2009-02-24

E POR VEZES - David Mourão-Ferreira

Abraço imagem daqui

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927;m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope

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2008-06-16

Primavera - David Mourão-Ferreira

David Mourão Ferreira morreu faz hoje doze anos. Lembrámo-lo aqui na voz de Amália Rodrigues a cantar o fado Primavera com poema de sua autoria.


Primavera

Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

David Mourão- Ferreira

Ler outros poemas de David Mourão-Ferreira

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2008-02-24

Na passagem do 81º aniversário de David Mourão-Ferreira

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante, a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

David Mourão Ferreira foi o autor de muitos fados para Amália Rodrigues e que outros fadistas têm interpretado. Ouçamos aqui Mariza no fado Primavera

Primavera

Todo o amor que nos prendera,
como se fôra de cera
Se quebrava e desfazia.
:Ai funesta primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.:

E condenaram-me a tanto
viver comigo o meu pranto
viver, viver e sem ti
:Vivendo sem no entanto
eu me equecer desse encanto
que nesse dia perdi.:

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer.
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver.

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desifzera
em pavor se convertia
Ninguem fale em primavera
quem me dera quem nos dera
ter morrido nesse dia.



Ler do mesmo autor:
Equinócio
Nocturno
Paraíso
Presídio
Penélope
Ternura
Labirinto
E por vezes
Penelope

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2007-06-16

Equinócio - David Mourão-Ferreira

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que gente não sabe

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

(extraído de Os Poemas da Minha Vida - Urbano Tavares Rodrigues- Público)
Ler do mesmo autor:
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
E por vezes
Penelope

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2007-05-25

O livro que estou a ler

-A minga amiga da Blogosfera Cristiane de Fragmentos de Mim lançou-me um desafio, em 21 de Maio, para falar "sobre o livro que esteja lendo de momento". É o que me proponho fazer agora:

Confesso que não leio muita literatura. Romances, contos, novelas, não raro começo-os ... e deixo-os ao meio. Alguma indisponibilidade minha provoca que ... haja descontinuidade na leitura a exigir um esforço de recuperação quando se pretende retomar. E assim... Posso dizer que já tentei ler «Os Versículos Satânicos» de Salman Rushdie (para tentar perceber porque o condenaram à morte..) por umas dez vezes : desisti!

Por isso as minhas leituras nos últimos tempos são dirigidas ou orientadas para a poesia:

Porque cada poema tem a sua estanquicidade, é fácil ler um dois ou ... dez, numa ocasião e não há necessidade de os reler para ler o segundo, o terceiro...ou o décimo-primeiro... do mesmo autor ou da mesma obra. Por isso, não pode haver indisponibilidade que justifique a não leitura de poesia.

Depois há:

- a musicalidade das palavras: há poemas que ao serem lidos ou ao serem ditos são como peças musicais!

- A transformação das emoções em palavras: quantas vezes encontro num poema aquilo que sinto naquele momento ou que já senti noutra ocasião. Vive-se frequentemente aquela sensação de «eu teria escrito isto se tivesse sido capaz» . Os poetas são os artistas que melhor sabem transcrever em palavras as emoções, os sentimentos! São os operários do espírito.

Um poema é como um quadro pintado sem tela. Penso que a poesia é a manifestação artística mais completa: É música, é a arquitectura das palavras, é pintura. Poesia é Natureza, é imaginação, fantasia e sonho! Capaz de nos transmitir a beleza duma rosa como a agrura agreste de um cardo!

Queridos amigos ou visitantes leiam poesia.

Neste momento que escrevo tenho dois livros na secretária:

Um é a "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" - selecção, prefácio e notas deNatália Correia- Edição Antígona : Dentro de um tema mais limitado, tem desde belos poemas de amor a poemas que nos deixam algo incomodados! «Próprio é da natureza humana aspirar ou saborear o extase que coroa a exaltação amorosa, sempre que pelo desejo, ou pela plenitude da realização, sublimando o objecto do desejo, tende numa feliz definição de Benjamim Pérez a «sexualizar o universo» » diz-se a certo passo do Prefácio.

A parte irónica e satírica vai da crítica social a «cantigas de mal-dizer». É interessante também pela sua perspectiva histórica porque engloba poemas recolhidos de várias épocas, quase desde que Portugal existe.

O outro é «Poemas de Amor» - antologia de poesia portuguesa - organização e prefácio de Inês Pedrosa , Publicações Dom Quixote.

Deixo-vos ficar com dois poemas de que gosto especialmente (e de que, por isso, já noutras ocasiões editei no blog) um de cada um das obras mencionadas:

TERNURA - David Mourão-Ferreira

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira (incluído na primeira das obras indicadas)


Amo-te muito, meu amor, e tanto - Jorge de Sena

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena (incluido na Antologia Poemas de Amor)

Pois bem meus amigos e visitantes, tenham um belo fim de semana, com beijos, sorrisos, flores e ... poesia!

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