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2016-07-01

Insónia - Carlos de Oliveira

Cactos no deserto do Arizonafoto de Jim Richardson daqui

Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho
pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta
longa caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia
familiar da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a
silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor
de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?

Terras da harmonia

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio de Vasco Graça Moura.

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de julho de 1981)

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2015-08-10

Sobre o lado esquerdo - Carlos de Oliveira

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez
dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma:
partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua
harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:
«o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».


in Sobre o Lado Esquerdo

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Coração (composição 4)
Chave;
Carta a Angela;
Soneto; Sonnet (English version);
Canto
Insónia
Bilhete Postal

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2015-07-01

Chave - Carlos de Oliveira

Arte do vidro daqui

Se uma película de vidro
adere à pele da pedra; se algum
Vento vier.

Afere-lhe o esplendor; martela,
fere: um som de ferro
no exterior; por dentro
outra textura mais espessa. Poisa
como um verniz depois o ar
suave a sua
laca no esmalte fracturado

E levanta-se então.
Minuciosamente. Ergueu-se
o halo
das colinas; a lenta beleza
levitada em cada grão
de pedra. Irradiando as lanças
que o brilho do vento
restituiu à luz, no aro
mais espesso do ar.

Rodar a chave do poema
e fecharmo-nos no seu fulgor
por sobre o vale glaciar. Reler
o frio recordado.

in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

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2014-07-01

Sobre o lado esquerdo - Carlos de Oliveira

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez
dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma:
partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua
harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:
«o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».


in Sobre o Lado Esquerdo

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Coração (composição 4)
Chave;
Carta a Angela;
Soneto; Sonnet (English version);
Canto
Insónia
Bilhete Postal

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2014-04-23

Soneto 28 de William Shakespeare, versão de Carlos de Oliveira

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,
Que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.


SONNET 28

How can I then return in happy plight,
That am debarred the benefit of rest?
When day’s oppression is not eased by night,
But day by night and night by day oppressed?
And each (though enemies to either’s reign)
Do in consent shake hands to torture me,
The one by toil, the other to complain
How far I toil, still farther off from thee.
I tell the day to please him thou art bright,
And dost him grace when clouds do blot the heaven;
So flatter I the swart-complexioned night,
When sparkling stars twire not thou gild’st the even.
But day doth daily draw my sorrows longer,
And night doth nightly make grief’s length seem stronger.

in Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

William Shakespeare (b. Stratford-upon-Avon, Warwickshire, England, born probably on 23 April 1564 - baptised 26 April 1564; died Stratford-upon-Avon, Warwickshire, England, 23 April 1616)

De ti me separei na Primavera
Sonnet XVIII / Soneto XVIII
Music to Hear (Sonnet VIII)


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2013-07-01

Carta a Ângela - Carlos de Oliveira (na voz de Luís Cília)







Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!


in "Poesias"

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Coração (composição 4)
Chave;
Soneto; Sonnet (English version);
Canto
Insónia
Bilhete Postal

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2012-02-01

Musical suggestion of the day: Carta a Angela - Luís Cília




Carta a Ângela

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos de Oliveira (1921-1981), in "Poesias"

Luís Fernando Castelo Branco Cília, nasceu em Huambo, Angola, a 1 de Fevereiro de 1943.

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2011-07-01

Coração (Composição 4) - Carlos de Oliveira, na passagem do 30º. aniversário do seu desaparecimento

Canta na noite,sentimento da terra,
ou morreste, flor estranha?
Há tanto que chove e nós sem lenha,
sem paz e sem guerra.

Há tanto.E eu sei lá bem
se inda persistes,
minha incólume esperança.
Vão-me doendo os olhos já de serem tristes.

Vão-me doendo,
que mos turva de sombra o desespero.
E escrevendo à luz débil me pergunto
se é a morte ou a manhã que espero.


(Mãe Pobre,1945)
Extraído de Poesia Portuguesa Antologia de Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Chave;
Carta a Angela;
Soneto; Sonnet (English version);
Canto
Insónia
Bilhete Postal

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2010-08-10

Insónia - Carlos de Oliveira

Cactos no deserto do Arizonafoto de Jim Richardson daqui

Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho
pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta
longa caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia
familiar da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a
silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor
de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio de Vasco Graça Moura.

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Coração - (Composição 4)
Bilhete Postal
Chave
Carta a Angela
Soneto
Sonnet (English version)
Canto

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2010-07-01

Coração (composição 4) - Carlos de Oliveira

Hoje o nosso espaço poético é preenchido recordando a poesia melancólica de Carlos de Oliveira, um dos grandes poetas neo-realistas do século XX da literatura portuguesa, na passagem do 29º. aniversário da sua morte:


Canta na noite, sentimento da terra,
ou morreste, flor estranha?
Há tanto que chove e nós sem lenha,
sem paz e sem guerra.

Há tanto. E eu sei lá bem
se inda persistes,
minha incólume esperança.
Vão-me doendo os olhos já de serem tristes

Vão-me doendo,
que mos turva de sombra o desespero
E escrevendo à luz débil me pergunto
se é a morte ou a manhã que espero.


Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

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Bilhete Postal
Chave
Carta a Angela
Soneto
Sonnet (English version)
Canto

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2009-07-01

Bilhete Postal - Carlos de Oliveira



Escrevo-te agasalhando o nosso amor,
que o tempo é este inverno sem disfarce:
Pelos meus olhos fartos de miséria
Mereço bem a luz da tua face.

Mas no meu coração as pobres coisas
choram, a cada lágrima exigida,
a tristeza precisa pra que eu saiba
quanto custa a alegria duma vida!



Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

Ler do mesmo autor, neste blog: Chave; Carta a Angela; Soneto; Sonnet (English version); Canto

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2008-07-01

Chave - Carlos de Oliveira

Arte do vidro daqui

Se uma película de vidro
adere à pele da pedra; se algum
Vento vier.

Afere-lhe o esplendor; martela,
fere: um som de ferro
no exterior; por dentro
outra textura mais espessa. Poisa
como um verniz depois o ar
suave a sua
laca no esmalte fracturado

E levanta-se então.
Minuciosamente. Ergueu-se
o halo
das colinas; a lenta beleza
levitada em cada grão
de pedra. Irradiando as lanças
que o brilho do vento
restituiu à luz, no aro
mais espesso do ar.

Rodar a chave do poema
e fecharmo-nosno seu fulgor
por sobre o vale glaciar. Reler
o frio recordado.

in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n. em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e morreu em Lisboa a 1 de Julho de 1981)

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2007-08-10

Carta a Ângela - Carlos de Oliveira

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n.em Belém do Pará a 10 de Ago 1921, m. em Lisboa a 1 Jul de 1981)

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2007-07-01

Sonnet - Carlos de Oliveira

I’m accused of being bitter, inclined
to despair, as if my poetry’s pain
weren’t your flesh, O scattered men,
and my sorrow your sorrow, O mind.

Beauty? One day I will sing of it,
when the light I don’t disbelieve in falls
on the dark that hems us in like a wall
and you reach, O joy, your kingdom.

In the meantime let me speak:
let sadness be the revenge I drink
until the wall cracks and the night bursts.

My voice of death is the voice of struggle:
those who, trusting, delve into their suffering,
have a hope whose glory is of higher worth.

Translation from Portuguese by Richard Zenith

Carlos de Oliveira (n. em Belém do Pará, Brazil em 1921; m. em Lisboa a 1 Jul 1981)

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Soneto - Carlos de Oliveira

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira (n. em Belém do Pará, Brazil em 1921; m. em Lisboa a 1 Jul 1981)

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2006-08-10

Canto - Carlos Oliveira

I
Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais breve a nossa vida

II
Tu, coração, não cantes menos
que a harmonia da terra,
nem chores mais
que as lágrimas dos rios.

Carlos de Oliveira (n. em Belém do Pará a 10 Ago 1921,; m. em Lisboa a 1 Jul 1981)

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