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2014-11-28

Dorme, pião, dorme - Campos de Figueiredo

Dorme, pião, dorme
Dorme no sobrado...
Tu dormes em pé,
Eu durmo deitado.

Dorme e sonha alto,
Meu pião de buxo...
Sonha-te, encantado
À beira do lago...

- Ao meio o repuxo.-
Dorme sonha a brisa
Que te afaga as folhas,
Na manhã macia,
Que dormindo sonhas.
Dorme pião amigo
Que eu sonho contigo!


in O Poema da Inocência

José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache (Coimbra) a 6 de maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 29 de novembro de 1965.

Ler do mesmo autor:
Tela Íntima
Sonho
Momento Lírico
O Milagre das Rosas
Autocrítica
Fingimento





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2013-11-28

Tela Íntima - Campos de Figueiredo

Artist in His Studio - RembrandtArtist in His Studio, Rembrandt Harmensz. van Rijn.
In the collection of Boston's Museum of Fine Art.


Lá fora, a noite escura... o vento aos ais,
A soluçar e a rir - doido soturno,
É um violinista trágico e nocturno
Wagnerizando a voz dos temporais!

Lá fora, a chuva fria das procelas...
E cá dentro, ao calor da nossa casa,
O nosso coração a arder em brasa
E o silêncio divino das estrelas

Tu embalas ao colo a nossa Filha...
A luz, a arder, que em nossos rostos brilha,
Dá-lhes um tom rosado de manhã...

E com a estranha e misteriosa tinta,
Com que Deus ao Sol-Posto as coisas pinta;
Nós formamos um quadro de Rembrandt!

José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache (Coimbra) a 6 de Maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 29 de Novembro de 1965.

Ler do mesmo autor:
Sonho
Momento Lírico
O Milagre das Rosas
Autocrítica
Fingimento

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2011-11-28

Momento Lírico - Campos de Figueiredo



Dá-me as tuas mãos, e vamos
Calados pela estrada
Sob a benção dos ramos
E as flores da madrugada.

Onde houver uma fonte,
Paremos a beber
As águas de outra fonte
Ainda por nascer.

Onde houver um jardim,
Entremos, de mãos juntas,
Mas às rosas e aos lírios,
Não façamos perguntas.

Ouçamos os perfumes,
No zumbir das abelhas,
E colhamos apenas
Duas rosas vermelhas.

E guardemos as rosas,
Só para desfolhar
Nas mãos da madrugada
Que o céu poisa no mar.


Mini-Antologia, 1965

José de Figueiredo Júnior de nome literário José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache, 6 de Maio de 1899; faleceu em Coimbra a 28 de Novembro de 1965)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Sonho
O Milagre das Rosas
Tela Íntima
Autocrítica
Fingimento

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2010-05-06

SONHO - Campos de Figueiredo

Já meus cinco sentidos apagados,
Meu corpo feito bronze de escultura,
Um clarão de Crepúsculo fulgura,
E vejo um Luar de mundos ignorados...

E mares e rios, serras, vales e montes,
Tudo que fica a uma distância infinda,
Abranjo-o para Além (e mais ainda...)
Da transparência azul dos horizontes!

Já não sou em carne de martírio;
Sou névoa irreal esparsa em Luz divina
Emanação subtil de rosa ou lírio

Sou a sombra de Deus e Luz de mim:
Vou para onde a alma se destina,
Com saudades do mundo donde vim!

Tríptico, Coimbra., 3ª. Série, 9, 1925

José Campos de Figueiredo (n. em Cernache, 6 de Maio de 1899 — m. Coimbra, 28 de Novembro de 1965)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Milagre das Rosas
Tela Íntima
Autocrítica
Fingimento

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2008-11-29

Tela íntima - Campos de Figueiredo

Artist in His Studio, Rembrandt Harmensz. van Rijn.
In the collection of Boston's Museum of Fine Art.!


Lá fora, a noite escura... o vento aos ais,
A soluçar e a rir - doido soturno,
É um violinista trágico e nocturno
Wagnerizando a voz dos temporais!

Lá fora, a chuva fria das procelas...
E cá dentro, ao calor da nossa casa,
O nosso coração a arder em brasa
E o silêncio divino das estrelas

Tu embalas ao colo a nossa Filha...
A luz, a arder, que em nossos rostos brilha,
Dá-lhes um tom rosado de manhã...

E com a estranha e misteriosa tinta,
Com que Deus ao Sol-Posto as coisas pinta;
Nós formamos um quadro de Rembrandt!

José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache (Coimbra) a 6 de Maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 29 de Novembro de 1965.

Ler do mesmo autor:
O Milagre das Rosas
Autocrítica
Fingimento

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2008-05-06

O Milagre das Rosas - Campos de Figueiredo

"Santa Isabel e o Milagre das Rosas" , óleo sobre madeira, Anónimo,
Século XVI, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra


Trazia ouro aos Pobres… dava estrelas,
que no jardim azul do céu colhera,
mas, quando El-Rei Dinis desejou vê-las,
floriu, no seu regaço, a primavera.

− «Vede, são rosas brancas, fui colhê-las
para os gafos, Senhor! Julgáveis que era
dinheiro em vez de flores? A Deus prouvera
que em oiro e pão pudesse convertê-las!»

Repete-se o milagre, eternamente:
caem do céu, às horas do poente,
rosas de oiro, vermelhas, a sangrar…

E, à noite, é Ela sempre que, na treva,
sobre a linda Cidade medieva,
desfolha rosas brancas, ao luar!

José Campos de Figueiredo nasceu em Sernache (Coimbra) a 6 de Maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 29 de Novembro de 1965. Foi gerente bancário (C.G.D.) e distinguiu-se tanto na poesia (em 1942, «Navio na Montanha» ganhou o prémio Antero de Quental, o mesmo que galardoara, em 1934, a «Mensagem» de Fernando Pessoa) como no teatro radiofónico (o poema lírico-dramático «Obed» alcançou em 1957 o prémio Ricardo Malheiros, conferido pela Academia das Ciências de Lisboa). Cultivou também a literatura infantil.

Soneto e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2007-11-29

AUTOCRÍTICA - Campos de Figueiredo

Roofs of old Baku - 1971
felt tip pen and chalk on paper, 58x37 cm, Moscow
by Tahir Salahov (b. Nov 29, 1928; ~)


Senhor! nunca me vi nem conheci
Dentro do negro abismo onde se esconde
O meu segredo humano, nem sei onde
Começa e acaba o que provém de ti!

Sei que errei o caminho e me perdi!
Agora, embora chame e grite e sonde,
No meu longo deserto, só responde
Ao longe, a voz do mar que nunca vi.

Em vão chamo por mim, em vão procuro
A luz que me pertence e que cintila
No fundo inquieto deste abismo escuro;

- Fio de água sumido nas areias, -
Vejo estátuas dramáticas de argila
Com dedadas fatais de mãos alheias!

José Campos de Figueiredo (n. em Coimbra a 6 Maio 1899, m. em Coimbra a 29 Nov. 1965)


Ler do mesmo autor neste blog: Fingimento

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2007-05-06

Fingimento - Campos de Figueiredo

Iludo o sentido
Da vida em que vivo.
O mundo que sinto
É mundo que minto.

É mundo pensado
Aquém, do outro lado
Da margem do rio
Com águas em fio.

A imagem dos astros,
Das velas, dos mastros,
Das nuvens, das margens
É sombra de imagens.

Perdidas no fundo
Do engano do mundo.
Não quero a certeza
Da minha tristeza.

Deixai-me à vontade
Naquela verdade
Pensada e fingida
Que é logro de vida.

Se minto o que sinto,
De tudo o que minto
Iludo o sentido
Da vida que vivo.

José Campos de Figueiredo (n. em Coimbra a 6 Maio 1899, m. 29 Nov. 1965)

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