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2017-03-22

Vão as águas nostálgicas do rio… - Cabral do Nascimento (na efeméride dos 120 anos do seu nascimento)

Barco Rabelo


Vão as águas nostálgicas do rio…
Vão e sobre elas, a correr com elas,
distingo ainda, ao longe, as claras velas
de um ligeiro, fantástico navio.

Lá vai! Aonde? A que país sombrio?
Ou a que praias rútilas e belas
irá tocar, à luz de mil estrelas?
Sabe-lo, ó mar? E tu, luar de estio?

Ninguém sabe, só Deus, mas eu agouro
que, em certo dia azul, azul e ouro,
há-de o navio balouçar num porto.

Há-de chegar, como ao final de um sonho,
de brancas velas, plácido e risonho
por fora e, dentro, o capitão já morto…

João Cabral do Nascimento nasceu no Funchal (ilha da Madeira) a 22 de março de 1897 e faleceu em Lisboa a 2 de março de 1978. Matriculou-se em 1915 na Faculdade de Direito de Lisboa mas, havendo interrompido o curso durante a 1.ª Guerra Mundial, só o concluiu em 1922 em Coimbra. Pouco advogou, porém, e acabou por se dedicar ao magistério no ensino técnico profissional, de que se aposentou em 1958. Ganhou, em 1943, o prémio Antero de Quental do S.N.I. (o mesmo galardão que distinguira a «Mensagem» de Fernando Pessoa), com o «Cancioneiro», que, editado em 1963, conheceu uma reedição em 1976. Considerado o poeta do instante, da inexorável passagem do tempo, da vanidade e do desengano, a sua poesia é feita de solilóquio e rigor. Modernista classicizante ou tradicionalista, foi também um notável antologista e um exímio tradutor de língua inglesa.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2016-03-02

O Faroleiro - Cabral do Nascimento


Farol do Recife imagem daqui


Apenas este ilhéu é que é pequeno
O resto é tudo grande: o tédio, a vida,
O dia enorme, a noite mais comprida,
E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

O tempo, esse narcótico veneno,
A dor, essa letárgica bebida,
O desejo, essa voz enrouquecida,
E a saudade, o distante e branco aceno.

Tudo profundo, imenso, na amplidão,
Eterno quási na desolação
E sobrenatural na solidão.

A luz vermelha a reflectir-se além…
Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…
Farol e faroleiro – e mais ninguém.

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de março de 1897; m. em 2 de março de 1978 em Lisboa)

 Ler do mesmo autor, neste blog:
Cantiga
Canção: O lenço com que me acena
Canção: Fui ao Mar Buscar Sardinha
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil
Adeus

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2015-03-02

Cantiga - Cabral do Nascimento

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)


Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção: O lenço com que me acena
Canção: Fui ao Mar Buscar Sardinha
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil
Adeus


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2011-03-22

Canção: O lenço com que me acena - Cabral do Nascimento

Imagem daqui

O lenço com que me acena
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.

Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.

E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.


in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção: Fui ao Mar Buscar Sardinha
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil
Adeus
Cantiga

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2010-03-22

Canção - Cabral do Nascimento

Papoilaimagem daqui

Fui ao mar buscar sardinha
E encontrei uma sereia
«Agora», pensei, é «minha.
Virei mais logo à tardinha
Quando, nos longes da areia,
A negra sombra caminha.»
Mas rompeu a lua cheia
E todos viram que eu vinha...
«Adeus», disse eu. E larguei-a.

Fui ao trigal já maduro
E achei um lindo botão
De papoila, ardente e puro.
«É meu!» declarei então.
«Beijá-lo-ei pelo escuro
nesta vasta solidão.»
Mas vieram, de roldão,
Segadores de olhar duro
Com suas foices na mão.

Fui pelas fragas do monte
E vi a água corrente.
«Hei-de beber desta fonte»,
Disse eu. «É tão transparente!
Oxalá não se amedronte.
Não há nada aqui defronte,
Ninguém nos vê, certamente.»
Mas que quereis que vos conte?
Fui-me embora. Vinha gente.

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil
Adeus
Canção

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2010-03-02

Canção - Cabral do Nascimento (no 32º aniversário do seu desaparecimento)

imagem daqui

O lenço com que me acena
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.

Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.

E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.


in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)
Ler do mesmo autor, neste blog: Vão as Águas Nostálgicas do Rio; Brasil

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2009-03-22

Adeus - Cabral do Nascimento

imagem daqui

Manhãs serenas, pálidos
Dias sem sol, enevoados céus,
Opacas noites de perfumes cálidos,
Vejo tudo isso e digo adeus.

Frutos doirados, flores de estuante viço,
Rochas, praias, ilhéus,
Ondas do mar azul... Vejo tudo isso
E digo adeus.

Que importa que este fosse o meu desejo,
Se o envolveu a sombra de pesados véus?
A vida existe para os outros. Vejo
Tudo isso, e digo adeus.

E porque é tarde, e estou cansado, sigo
A estrada do regresso; e quando volvo os meus
Olhos, além, vejo tudo isso e digo:
Adeus!


João Cabral do Nascimento (nasceu a 22 de Março de 1897, no Funchal; m. em Lisboa a 2 Mar. 1978)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Vão as Águas Nostálgicas do Rio;
Brasil;
Cantiga

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2009-03-02

Cantiga - Cabral do Nascimento

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.

in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

João Cabral do Nascimento (n. no Funchal, ilha da Madeira em 22 de Março de 1897; m. em 2 de Março de 1978 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog: Vão as Águas Nostálgicas do Rio; Brasil

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2008-03-22

Vão as águas nostalgicas do rio... - Cabral do Nascimento

Barco Rabelo


Vão as águas nostálgicas do rio…
Vão e sobre elas, a correr com elas,
distingo ainda, ao longe, as claras velas
de um ligeiro, fantástico navio.

Lá vai! Aonde? A que país sombrio?
Ou a que praias rútilas e belas
irá tocar, à luz de mil estrelas?
Sabe-lo, ó mar? E tu, luar de estio?

Ninguém sabe, só Deus, mas eu agouro
que, em certo dia azul, azul e ouro,
há-de o navio balouçar num porto.

Há-de chegar, como ao final de um sonho,
de brancas velas, plácido e risonho
por fora e, dentro, o capitão já morto…

João Cabral do Nascimento nasceu no Funchal (ilha da Madeira) a 22 de março de 1897 e faleceu em Lisboa a 2 de março de 1978. Matriculou-se em 1915 na Faculdade de Direito de Lisboa mas, havendo interrompido o curso durante a 1.ª Guerra Mundial, só o concluiu em 1922 em Coimbra. Pouco advogou, porém, e acabou por se dedicar ao magistério no ensino técnico profissional, de que se aposentou em 1958. Ganhou, em 1943, o prémio Antero de Quental do S.N.I. (o mesmo galardão que distinguira a «Mensagem» de Fernando Pessoa), com o «Cancioneiro», que, editado em 1963, conheceu uma reedição em 1976. Considerado o poeta do instante, da inexorável passagem do tempo, da vanidade e do desengano, a sua poesia é feita de solilóquio e rigor. Modernista classicizante ou tradicionalista, foi também um notável antologista e um exímio tradutor de língua inglesa.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2005-03-02

Brasil - Cabral do Nascimento

Fosse eu pintor ou músico
(Pobre de sons, embora! Pálido de cor, que importa!)
Sempre haveria alguém que me entendesse
Em qualquer canto incógnito do Mundo.
Sempre haveria alguém que me dissesse:
- Músico, vem! Entra, pintor! – e abrir-me-ia a porta.

Mas da palavra eu fiz a minha ferramenta.
Sim, da palavra, como os loucos.
E quanto sinto e penso unicamente o digo em português,
Quase em silêncio, porque somos poucos.
Quase em família. E só por uma vez

Brasil, que bom saber
Que tu também, se por acaso, entre o rumor do mar,
A minha voz escutas, poderás dizer:
- Compreendi-te, irmão. Torna a falar.

João Cabral do Nascimento (n. 22 Mar 1879 m. 02.Mar.1978)

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