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2016-10-17

A Festa do Silêncio - António Ramos Rosa

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

in Volante Verde

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924; faleceu em Lisboa, 23 de setembro de 2013)

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2015-09-23

Cada árvore é um ser para ser em nós - António Ramos Rosa

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses 


António Víctor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de outubro de 1924 e faleceu em Lisboa a 23 de setembro de 2013.


Ler do mesmo autor neste blog:
Sem segredo algum
Ninguém me disse: Vai por este caminho de água
A Festa do Silêncio
Este Viver Comum
Vertentes
Não posso adiar o amor...
Poema Dum Funcionário Cansado

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2014-09-23

Sem segredo algum - António Ramos Rosa

Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
 vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.

A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.

O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.


in Volante Verde (1986)

António Víctor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de outubro de 1924 e faleceu em Lisboa a 23 de setembro de 2013.


Ler do mesmo autor neste blog:
Ninguém me disse: Vai por este caminho de água
A Festa do Silêncio
Este Viver Comum
Vertentes
Não posso adiar o amor...
Poema Dum Funcionário Cansado

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2012-10-17

A FESTA DO SILÊNCIO - António Ramos Rosa

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

in Volante Verde

António Víctor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924

Ler do mesmo autor neste blog:
Este Viver Comum
Vertentes;
Não posso adiar o amor...
Poema Dum Funcionário Cansado

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2011-10-17

Poema Dum Funcionário Cansado - António Ramos Rosa

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
e as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só


(O Grito Claro, 1958)
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924)

Ler do mesmo autor neste blog:
Este Viver Comum
Vertentes;
Não posso adiar o amor...

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2010-10-17

Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora imprecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

António Ramos Rosa (nasceu em Faro em 17 Out. 1924)

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2009-10-17

85º. aniversário de António Ramos Rosa - Este viver comum

Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos

É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia



in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924)

Ler do mesmo autor neste blog: Vertentes; e Não posso adiar o amor...

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2008-10-17

Poema dum Funcionário Cansado - António Ramos Rosa (no dia do 84º. aniversário do poeta)

funcionário de contabilidade
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924)

Ler do mesmo autor neste blog: Vertentes; e Não posso adiar o amor...

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2007-10-17

Vertentes - António Ramos Rosa

As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
Abre as vertentes onde
a água cai sem tempo.

António Ramos Rosa (n. em Faro em 17 Out 1924; ~)

In Poemas de amor - Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa; Publicações Dom Quixote

Ler do mesmo autor: Não posso adiar o amor...

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2007-02-09

Não posso adiar o amor... - António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa (n. em Faro em 17 Out 1924; ~)

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