Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta António Patrício. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Patrício. Mostrar todas as mensagens

2018-03-07

Relíquia - António Patrício (na passagem dos 140 anos do nascimento)

 

Era de minha mãe: é um pobre xale
que tem pra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
deixo os meus dedos pra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-lo como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.

  in 'Antologia Poética

 António Patrício (n. no Porto a 7 de março de 1878, m. em Macau, China a 4 de junho de 1930)

Read More...

2017-03-07

Saudade do teu corpo - António Patrício


Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

in Poesia Completa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989


António Patrício (n. no Porto a 7 de março de 1878, m. em Macau, China a 4 de junho de 1930)

Read More...

2014-03-07

O QUE É MORRER? - António Patrício

Morrer é só deixar cair os braços,
ser indiferente a tudo: à Vida e à Morte...
e olhar com olhos d'amargura, baços,
a Primavera, o Outono, o Sul, o Norte...

Ter sede e nem sequer ir procurar as fontes,
ter amor e fugir ao seu alento
e errar na paz suavíssima dos montes
como num pôr-de-sol vago e nevoento...

Morrer é olhar toda a miséria ardida
e não poder chorar sobre uma rocha tosca
como chora quem vive: o mar, a luz fosca...

É não ter olhos para a dor da Vida,
nem esperança na Morte, nem saudade,
ser indiferente ao sol, à lua, à tempestade...


António Patrício (n. no Porto a 7 de março de 1878 - m. em Macau, China a 4 junho 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O QUE É VIVER
Uma Manhã no Golfo do Corinto
Relíquia
Saudade do teu corpo
É Uma Tarde de Estio
Em Prinkipo

Read More...

2013-03-07

Saudade do teu corpo - António Patrício

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

in Poesia Completa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau, China a 4 Jun 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O QUE É VIVER
Uma Manhã no Golfo do Corinto
Relíquia
É Uma Tarde de Estio
Em Prinkipo

Read More...

2012-03-07

Em Prinkipo - António Patrício

O outono de cristal enredomava a ilha.
Era uma elísia luz que os ciprestes fiavam
em rocas verde-bronze; os pinhais plumulavam.
Ouvimos não sei quê; e era - maravilha!-
era uma migração de cegonhas que vinha
em triângulos, gris, sobre a calma marinha,
num ritmo musical, musicalmente absorto,
como seguindo no ar o fantasma dum morto.
Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas
que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.
E como a migração, rósea e gris despedida,
também em ti dissesse o adágio da partida,
tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror;
era a Morte a passar sobre o nosso amor.
Muito tempo passou. - Onde estás tu agora? -
Queria saber se em ti a magia dessa hora,
aquela migração de cegonhas que vinha,
rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,
voa e revoa ainda, - irreal maravilha!
No Outono de cristal que enredomava a ilha.

Poema extraído de "Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Uma Manhã, no Golfo do Corinto
É Uma Tarde de Estio
O QUE É VIVER
Relíquia

Read More...

2011-06-04

Uma Manhã, no Golfo do Corinto - António Patrício


Uma manhã no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas,
róseos e brancos, alternando, até à praia.
- Não tornam mais a vir as horas dolorosas
sumiram-se ao cair sútil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mística rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa
«Queria viver assim, disseste, a vida toda.»
Tinhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois a água era tão densa,
que nos trazia, mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo...

A noite veio enfim estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velados.

in Antologia de Poesia Erótica e Satírica, Redacção. Prefácio e notas de Natália Corrreia, Antígona Frenesi, Lisboa 2005

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
É Uma Tarde de Estio
O QUE É VIVER
Relíquia
Em Prinkipo

Read More...

2011-03-07

É Uma Tarde de Estio ... - António Patrício

É uma tarde de estio, é uma tarde de estio
há vinte e tantos anos já extinta...
Estou sob as japoneiras, vejo o rio
e oiço os gritos dos pavões na quinta...
A minha mãe faz doces na cozinha,
E os meus irmãos (que agora estão com Ela)
sopram (eu oiço-os rir) toda a tardinha
as bolas de sabão, a uma janela...
Nessa penumbra glauca há humidade...
E eu penso que nada, nada existe
tão bom como assim estar, um pouco triste,
numa preguiça em que já há saudade...
Depois vêm-me chamar: é a merenda,
eu beijo as mãos de minha mãe contente;
é sob a acácia do portão que arrenda
o ar da tarde luxuosamente...
Merendamos todos três. Depois calados,
ficamos ao pé d'Ela a olhar a tarde;
e os olhos do Emílio, extasiados,
beijam-na sempre com um olhar que arde,
olhos de mago em que há tanta doçura
(queria ser em grande marinheiro)
que se podia ver que era o primeiro
que ia, a sorrir, bater à sepultura...
Depois (ainda com tarde) veio a lua,
mirrou-se, toda de âmbar, sobre o rio...
E nada mais...as ralas... é estio...
calor da terra que respira e sua...
a sombra caminhando pela quinta
aos gritos dos pavões na tarde extinta


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas: Jorge Reis e Rui Lage
Prefácio: Vasco da Graça Moura
Porto Editora, 2009

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau (China) a 4 Jun 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O QUE É VIVER
Uma Manhã no Golfo do Corinto
Relíquia
Em Prinkipo

Read More...

2010-06-04

Em Prínkipo - António Patrício, falecido há 80 anos

imagem daqui

O outono de cristal enredomava a ilha.
Era uma elísia luz que os ciprestes fiavam
em rocas verde-bronze: os pinhais plumulavam.
Ouvimos não sei quê; e era - maravilha!-
era uma migração de cegonhas que vinha
em triângulos, gris, sobre a calma marinha,
num ritmo musical, musicalmente absorto,
como seguindo no ar o fantasma dum morto.
Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas
que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.
E como a migração, rósea e gris despedida,
também em ti dissesse o adágio da partida,
tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror:
era a Morte a passar sobre o nosso amor.
Muito tempo passou. - Onde estás tu agora? -

Queria saber se em ti a magia dessa hora,
aquela migração de cegonhas que vinha,
rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,
voa e reevoa ainda, irreal maravilha,
no Outono de cristal que enredomava a ilha.

Poema extraído de "Poemas de Amor, antologia de poesia portuguesa, organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau, China a 4 Jun 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O QUE É VIVER
Uma Manhã no Golfo do Corinto
Relíquia

Read More...

2010-03-07

O QUE É VIVER? - António Patrício

Viver é só sentir como a Morte caminha
E como a Vida a quer e como a vida a chama…
Viver, minha princesa pobrezinha,
É esta morte triste de quem ama…

Viver é ter ainda uma quimera erguida
Ou um sonho febril a soluçar de rastos;
É beijar toda a dor humana, toda a Vida,
Como eu beijo a chorar os teus cabelos castos…

Viver é esperar a Morte docemente,
Beijando a luz, beijando os cardos, e beijando
Alguém, corpo ou fantasma, que nos venha amando…

É sentir a nossa alma presa tristemente
Ao mistério da Vida que nos leva
Perdidos pelo sol, perdidos pela treva…


António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau (China) a 4 Jun 1930)

Uma Manhã no Golfo do Corinto; Relíquia

Read More...

2009-03-07

Uma Manhã, no Golfo do Corinto - António Patrício

Beijo imagem daqui

Uma manhã no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas
róseos e brancos, alternando, até à praia.
- Não tornam mais a vir as horas dolorosas
sumiram-se ao cair sútil da tua saia.

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mistica rede.

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa
«Queria viver assim, disseste, a vida toda»
Tinhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

Fomos nadar depois a água era tão densa,
que nos trazia, mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo...

A noite veio enfim estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velados.


in Antologia de Poesia Erótica e Satírica, Redacção. prefácio e notas de Natália Corrreia, Antígona Frenesi, Lisboa 2005

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

Read More...

2007-06-04

Relíquia - António Patrício



Era de minha mãe: é um pobre xale,
Que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
Deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
E Ela vem, é Ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale,
Que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-la como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.



António Patrício (n. no Porto a 7 Mar 1878, m. em Macau a 4 Jun 1930)

Read More...