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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Escada de Caracol (The Spiral Staircase) 1946


 Uma pequena cidade de New England é assolada por uma série de assassinatos cujas vitimas apresentam alguma deficiência física, e tudo indica que uma criada surda-muda (Dorothy McGuire) seja a próxima vitima do assassino.

Robert Siodmak, acabado de saír do seu trabalho na Universal, infunde no filme a elegância sinistra do Expressionismo Alemão. A sua câmara desliza pela casa dos Warren, provocando-nos vislumbres de vistas através de espelhos e corrimões, como se fossemos um observador invisível. O frame mais icónico do filme é, sem dúvida, o seu grande plano do olho do assassino e o seu reflexo na escadaria que dá nome ao filme.

Adaptado do romance "Some Must Watch" de Ethel Lina White, é uma das joias da coroa da tradição das "old dark house". Além de Dorothy McGuire conta com um elenco interessante, com George Brent, Ethel Barrymore, Rhonda Fleming, e Elsa Lanchester.

Legendas em inglês.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Noite na Alma (Experiment Perilous) 1944


Jacques Tourneur facilmente circula da série B para a série A, como está explícito neste "Experiment Perilous". O argumentista Warren Duff localiza este elegante melodrama de mistério no romance de Margaret Carpenter de 1943, mas aparentemente é mais inspirado nos thrillers psicológicos como Gaslight, Laura e Rebecca. 

Uma mistura de emoções, psicologia e patologia. Em 1903, o doutor Huntington Bailey (George Brent) encontra uma senhora idosa e amigável no comboio. Ela diz-lhe que vai visitar o irmão (Paul Lukas) e a sua linda e jovem esposa (Hedy Lamarr). Em Nova York, Huntington ouve dizer que a sua companheira do comboio morreu repentinamente. Conhece o casal Lamarr-Lukas, e fica desconfiado do tratamento de Lukas para com a esposa, e sua tentativa de fazê-la passar por louca. Uma confusão nos sacos revela o diário da senhora falecida, que confirma as dúvidas de Brent. Ele tenta salvar Lamarr, por quem agora está apaixonado. 
Lançado no mesmo ano que "Gaslight" de George Cukor (1944), este melodrama da era vitoriana realizado por Jacques Tourneur está igualmente preocupado com as ramificações mortais da desconfiança conjugal e a manipulação psicológica. A sua sequência de abertura, a ter lugar num comboio, é uma reminiscência de "The Lady Vanishes" (1938), de Hitchcock, como George Brent a encontrar e fazer amizade com uma misteriosa mulher mais velha (Olive Blakeney), que lhe oferece a sua "marca especial de chá". Blakeney está excelente na sua breve aparição, mas o seu personagem é morto, a fim de pôr em movimento a cadeia de eventos que acabará por levar a paixão de Brent com a linda cunhada de Blakeney, uma mulher igualmente misteriosa. 
Foi nomeado para um Óscar, de "Best Art Direction-Interior Decoration, Black-and-White".

sábado, 3 de janeiro de 2026

Não Matei (Stranger on the Third Floor) 1940


Mike Ward (John McGuire) é um repórter que testemunha os momentos finais de um assassinato e decide testemunhar contra o homem que ele acredita ser o assassino. Logo depois depara-se com um estranho e sinistro (Peter Lorre) a rondar o seu prédio, e começa a questionar: será que de certeza que o homem que ele indicou era realmente o assassino? De seguida, um segundo homem aparece morto. Mike está agora convencido que ajudou na condenação do homem errado.

Muitos historiadores do film Noir fazem remontar as suas origens  à era do cinema mudo, e ao seu florescimento durante a guerra, mas a maioria concorda que o primeiro verdadeiro "film noir" americano surgiu na modesta produção de um ambicioso thriller de baixo orçamento, de 1940. Antes do mundo implacável dos detetives privados suspeitos, das mulheres triçoeiras, e da selva urbana noturna onde acordos e traições eram orquestrados com consequências normalmente fatais, havia este "Não Matei",um thriller que apesar das suas limitações orçamentais leva o espectador numa espiral de paranoia justificada. 

Realizado por Boris Ingster, um realizador da Letónia que se estreia atrás das camaras e que ao mesmo tempo era um dos primeiros expatriados da Europa causado pelo inicio da Segunda Guerra Mundial. O antagonista é Peter Lorre, que já tínhamos visto muito bem como assassino em "M" de Fritz Lang, e que aqui também fazia uma das suas primeiras participações no cinema americano.

Legendas em inglês


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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

120 Filmes Noir

Este post já tem uns anitos. Cinco, para falar a verdade, mas hoje resolvi passa-lo para o topo porque muitos dos novos visitantes do blog talvez não o conheçam, e convém ser visitado de vez em quando para que os links não se percam. Disfrutem à vontade.

The Maltese Falcon (1941, John Huston) - Imdb Link
Double Indemnity (1944, Billy Wilder) - Imdb Link
The Big Sleep (1946, Howard Hawks) - Imdb Link
Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder) - Imdb Link
The Third Man (1949, Carol Reed) - Imdb Link
M (1931, Fritz Lang) - Imdb Link
Notorious (1946, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
Touch of Evil (1948, Orson Welles) - Imdb Link
Cris Cross (1949, Robert Siodmak) - Imdb Link
Strangers on a Train (1951, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
Out of the Past (1947, Jacques Tourneur) - Imdb Link
The Big Combo (1955, Joseph H. Lewis) - Imdb Link
The Night of the Hunter (1955, Charles Laughton) - Imdb Link
The Killing (1956, Stanley Kubrick) - Imdb Link
Key Largo (1948, John Huston) - Imdb Link
The Killers (1946, Robert Siodmak) - Imdb Link
I Am a Fugitive From a Chain Gang (1932, Mervyn Le Roy) - Imdb Link Legenda
Ace in the Hole (1951, Billy Wilder) - Imdb Link
Laura (1944, Otto Preminger) - Imdb Link
White Heat (1949, Raoul Walsh) - Imdb Link

The Lost Weekend (1945, Billy Wilder) - Imdb Link
Angels With Dirty Faces (1938, Michael Curtiz) - Imdb Link
Du Rififi Chez Les Hommes (1955, Jules Dassin) - Imdb Link
Sweet Smell of Success (Alexander Mackendrick) - Imdb Link
The Blue Dahlia (1946, George Marshall) - Imdb Link
Night and the City (1950, Jules Dassin) - Imdb Link
The Set-Up (1949, Robert Wise) - Imdb Link Legenda
Scarface (1932, Howard Hawks) - Imdb Link
Shadow of a Doubt (1933, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
The Big Heat (1953, Fritz Lang) - Imdb Link
The Asphalt Jungle (1950, John Huston) - Imdb Link
Nightmare Alley (1947, Edmund Goulding) Imdb Link Legenda
Body and Soul (1947, Robert Rossen) - Imdb Link
In a Lonely Place (1950, Nicholas Ray) - Imdb Link
The Lady From Shangai (1947, Orson Welles) - Imdb Link
Ossessione (1943, Luchino Visconti) - Imdb Link
The Woman In the Window (1944, Fritz Lang) - Imdb Link
Pickup on South Street (1953, Samuel Fuller) - Imdb Link
Scarlet Street (1945, Fritz Lang) - Imdb Link
Kiss of Death (1947, Henry Hathaway) - Imdb Link

Gun Crazy (1950, Joseph H. Lewis) - Imdb Link Legendas
Mildred Pierce (1945, Michael Curtiz) - Imdb Link
Where the Sidewalk Ends (1950, Otto Preminger) - Imdb Link
The Naked City (1948, Jules Dassin) - Imdb Link
Gilda (1946, Charles Vidor) - Imdb Link
Murder, My Sweet (1944, Edward Dmytryk) - Imdb Link
Kiss Me Deadly (1955, Robert Aldrich) - Imdb Link
Sudden Fear (1952, David Miller) - Imdb Link
This Gun for Hire (1942, Frank Tuttle) - Imdb Link
Dark Passage (1947, Delmer Daves) - Imdb Link
The Postman Always Rings Twice (1946, Tay Garnett) - Imdb Link
Fury (1936, Fritz Lang) - Imdb Link
Leave Her to Heaven (1945, John M. Stahl) - Imdb Link
D.O.A. (1950, Rudolph Mathé) - Imdb Link
Kansas City Confidential (1952, Phil Karlson) Imdb Link
Force of Evil (1948, Abraham Polonsky) Imdb Link
Crossfire (1947, Edward Dmytryk) - Imdb Link
The Strange Love of Martha Ivers (1946, Lewis Milestone) - Imdb Link
House of Strangers (1949, Joseph L. Mankiewicz) - Imdb Link
The Wrong Man (1956, Alfred Hitchcock) - Imdb Link

Odds Against Tomorrow (1959, Robert Wise) - Imdb Link
Raw Deal (1948, Anthony Mann) - Imdb Link Legendas
Act of Violence (1948, Fred Zinnemann) - Imdb Link
The Stranger (1946, Orson Welles) - Imdb Link
You Only Live Once (1937, Fritz Lang) - Imdb Link
Angel Face (1952, Otto Preminger) - Imdb Link
Pitfall (1948, André de Toth) - Imdb Link
Detour (1945, Edgar G. Ulmer) - Imdb Link
On Dangerous Ground (1951, Nicholas Ray) Imdb Link
Panic in the Streets (1950, Elia Kazan) - Imdb Link
Human Desire (1954, Fritz Lang) - Imdb Link
Fallen Angel (1945, Otto Preminger) - Imdb Link
Cry of the City (1948, Robert Siodmak) - Imdb Link
Dead Reckoning (1947, John Cromwell) - Imdb Link
T-Men (1947, Anthony Mann) - Imdb Link
Party Girl (1958, Nicholas Ray) - Imdb Link
Clash By Night (1952, Fritz Lang) - Imdb Link
Mystery Street (1950, John Sturges) - Imdb Link
Niagara (1953, Henry Hathaway) - Imdb Link
While the City Sleeps (1956, Fritz Lang) - Imdb Link

Beyond a Resonable Doubt (1956, Fritz Lang) Imdb Link
The Big Steal (1949, Don Siegel) - Imdb Link
Black Angel (1946, Roy William Neill) - Imdb Link
Born to Kill (1947, Robert Wise) - Imdb Link
Brute Force (1947, Jules Dassin) - Imdb Link
Call Northside 777 (1948, Henry Hathaway) - Imdb Link
Caugh (1949, Max Ophüls) - Imdb Link
Cry Danger (1951, Robert Parish) - Imdb Link 
Follow Me Quietly (1949, Richard Fleischer) - Imdb Link
Journey Into Fear (1943, Norman Foster) - Imdb Link
Lady in the Lake (1947, Robert Montgomery) - Imdb Link
My Name is Julia Ross  (1945, Joseph H. Lewis) - Imdb Link
Nightfall (1957, Jacques Tourneur) - Imdb Link
Pushover (1954, Richard Quine) - Imdb Link
The Shanghai Gesture (1941, Josef Von Sternberg) - Imdb Link
Side Street (1949, Anthony Mann) - Imdb Link
Stranger on the Third Floor (1940, Boris Ingster) - Imdb Link
The Dark Corner (1946, Henry Hathaway) - Imdb Link
The Hitch-Hiker (1953, Ida Lupino) - Imdb Link
The Mob (1951, Robert Parish) - Imdb Link
The Seventh Victim (1943, Mark Robson) - Imdb Link
They Live by Night  (1946, Nicholas Ray) - Imdb Link
Thieves Highway (1949, Jules Dassin) - Imdb Link
Whirpool (1949, Otto Preminger) - Imdb Link

Boomerang (1947, Elia Kazan) - Imdb Link 
Detective Story (1951, William Wyler) - Imdb Link 
House of Bamboo (1955, Samuel Fuller) - Imdb Link 
House by the River (1950, Fritz Lang) - Imdb Link 
Killer's Kiss (1955, Stanley Kubrick) - Imdb Link
Kiss Tomorrow Goodbye (1950, Gordon Douglas) - Imdb Link 
Railroaded (1947, Anthony Mann) - Imdb Link 
Secret Beyond the Door... (1948, Fritz Lang) - Imdb Link 
Shock (1946, Alfred L. Werker) - Imdb Link 
Suddenly (1954, Lewis Allen) - Imdb Link
The Big Clock (1948, John Farrow) - Imdb Link 
The Blue Gardenia (1953, Fritz Lang) - Imdb Link
The Desperate Hours (1955, William Wyler) - Imdb Link 
The Glass Key (1942, Staurt Heisler) - Imdb Link 
The Letter (1940, William Wyler) - Imdb Link 
The Reckless Moment (1949, Max Ophüls) - Imdb Link  
The Spiral Staircase (1945, Robert Siodmak) - Imdb Link
The Unsuspected (1945, Michael Curtiz) - Imdb Link
The House on 92nd Street (1945, Henry Hathaway) - Imdb Link
The Racket (1951, John Cromwell) - Imdb Link

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Mortalmente Perigosa (Gun Crazy) 1950


Logo depois de deixar o exército, Bart Tare (John Dall) vai com um amigo até uma festa. Lá ele conhece a mulher perfeita: Annie Laurie Starr (Peggy Cummins). Linda, destemida e exímia atiradora, a jovem é tão apaixonada por armas como ele e o casamento não tarda a acontecer. A parceria amorosa transforma-se também numa criminosa e os dois iniciam uma série de assaltos, chamando a atenção da polícia. 
Se tivéssemos de escolher um único filme para justificar todo o entusiasmo pelo film noir e o seu fascínio natural, poucos poderiam competir com "Gun Crazy". O mesmo vale para celebrar o potencial dos filmes de série B a alcançarem um toque de classe A, e inteligência artística que era fundamental. O filme explode descaradamente numa energia sexual quase animal que o torna único, mesmo num imaginário de filmes conhecido pela psicologia perversa. E alcança os seus objectivos com um orçamento muito limitado, através de duas estratégias que deviam chocar em vez de se revigorarem: a ousada estilização expressionista, com cenários minimalistas, e a adopção de movimentos de câmara que nos transportam para o mundo real, uma abordagem que se aproxima do realismo documental. 
A realização de "Gun Crazy" estava a cargo de Joseph h. Lewis, que tinha saltado do banco de montagem para a frente das câmaras, em westerns de série B, veículos para Bela Lugosi, e alguns noirs notáveis como eram o caso de "My Name is Julia Ross", e "The Big Combo".

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quarta-feira, 29 de março de 2017

A Cidade Tenebrosa (Dark City) 1950

Depois de ter a sua casa de apostas fechada pela polícia, Danny Haley (Charlton Heston) e os seus amigos Augie (Jack Webb), Soldier (Harry Morgan) e Barney (Ed Begley) ficam sem dinheiro. Os quatro fazem um jogo de póquer com Arthur Winant (Don DeFore) e ganham-lhe todo o seu dinheiro, inclusive um cheque de 5 mil dólares que não pertencia a Arthur, que, desesperado, se suicida. Depois desta tragédia, os quatro amigos achavam que estavam com todos os seus problemas resolvidos mas não fazem idéia que Sidney, o irmão de Arthur cujo rosto ninguém conhece, é um psicopata que, para vingar a morte do irmão, começa a matar todos os envolvidos no jogo.
Charlton Heston faz a sua estreia oficial como actor principal de um filme de Hollywood, que apesar de ser uma obra pouco ambiciosa, destaca-se pelo excelente elenco: Lizabeth Scott, Viveca Lindfors, Dean Jagger, Ed Begley, entre outros. Heston não tem ainda muita dimensão para além da sua arrogância e distancia emocional, mas a sua presença sólida ajuda a levar o filme a bom porto. Dean Jagger é o policia inteligente e silenciosamente eficaz que dá uma boa réplica ao actor principal. É o mais interessante de um trio de dramas de crime que a Paramont realizou no inicio da década de 50. Os outros dois são "Union Station" (1950), de Rudolph Mate, com William Holden e Barry Fitzgerald, e também "Appointment With Danger", (1951) de Lewis Allen, com Alan Ladd no papel de um inspector no rasto de criminosos violentos, entre os quais Harry Morgan e Jack Webb, uma vez mais do lado errado da lei.
A posição de "Dark City", realizado por William Dieterle, no território do film noir, é geralmente vista como um bom exemplo, apesar de um argumento medíocre. Os argumentistas John Meredyth Lucas e Larry Marcus estendem as coisas um pouco longe demais, e durante demasiado tempo, mas ainda assim há uma quantidade razoável de bons momentos para saborear.

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sábado, 1 de outubro de 2016

Matar ou Não Matar (In a Lonely Place) 1950

Dixon Steele (Humphrey Bogart) vê-se envolvido num crime do qual é o principal suspeito, mas a sua amável vizinha Laurel Gray (Gloria Grahame) proporciona-lhe um álibi. A amizade deles rapidamente se transforma em amor. Mas será que a desconfiança, as dúvidas e os demónios internos de Steele vão atrapalhar esta relação?
Normalmente considerado um dos melhores filmes de Nicholas Ray, "In a Lonely Place" (1950) apresenta aquela que é provavelmente a melhor interpretação de Gloria Grahame (casada com Ray na altura), e mostra-nos um lado de Bogart que raramente foi explorado na tela - um homem no ponto de ruptura, incapaz de conter por muito mais tempo a raiva reprimida de toda uma vida. De acordo com Goeff Andrew, autor do livro "The Films of Nicholas Ray", "In a Lonely Place" é tanto um produto dos anos em que foi feito (a paranóia, desconfiança e traição que retratavam a Hollywood no tempo da "caça ás bruxas"), e um característico estudo de Ray sobre a destruição de um romance idealista entre estranhos solitários, pelas duras realidades do mundo à volta deles. Infelizmente Ray e Grahame estavam no meio do processo de separação, mas mativeram os seus problemas fora do local de trabalho com medo que o estúdio pudesse substituir Ray. Como resultado, é bem possível que a relação dos dois personagens principais fosse o espelho da relação entre Ray e Grahame.
Produzido pela Santana, a própria companhia de Bogart, era baseado no livro de Dorothy B. Hughes, que contava a história de um serial killer do ponto de vista do assassino. Mas, em 1949, os censores americanos nunca consentiriam uma versão cinematográfica do livro de Hughes sem uma grande revisão. Então, o argumentista Andrew Solt preparou a história para Hollywood, deu a Dixon o trabalho de argumentista, e evitou a representação de quaisquer assassinatos na tela, com uma excepção. Ainda assim, Ray fez mais alterações ao argumento, renovando o final.
Ray disse que o filme era muito pessoal para si. O local das filmagens fora o sitio onde começara a viver em Hollywood. Era também o seu segundo filme com Bogart. As criticas foram muito boas, apesar de não ter sido um sucesso de bilheteira. Era uma desmitificação radical do clássico herói de Bogart, um dos exemplos mais brilhantes de uma reavaliação critica de um actor, e da sua personagem na tela, sendo também um dos principais papéis de Bogart.  

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Crime Não Compensa (Knock on Any Door) 1949

Andrew Morton (Humphrey Bogart) é um advogado saído das favelas. Nick Romano (John Derek) é o seu cliente, um homem com uma grande série de crimes atrás dele. Nick é acusado de assassinar um polícia. Apesar do advogado não acreditar nele, decide ajudá-lo porque não defendeu adequadamente o pai de Nick no passado, quando este foi acusado de um crime que não cometeu, acabando por morrer na cadeia. Salvar Nick é uma questão de honra.
"Knock on Any Door" é baseado num best seller de 1947 com o mesmo nome, escrito por Willard Motley. Motley, tal como o colega africo-americano Richard Wright era um produto do projecto de escritores financiados pelo governo federal de Chicago. Perseguido na altura da caça às bruxas, Motley fugiu para o México onde viveu até à sua morte em 1965. Os livros de Motley eram notáveis pela sua crítica social mordaz e os seus temas profundamente francos. A trama desenrolada em várias camadas apresenta uma série de motivos, incluindo a bissexualidade de Romano, e a representação do sadismo da polícia, que tiveram de ser atenuandos ou removidos do argumento final, para satisfazer os códigos de produção. 
Foi a primeira produção da Santana Pictures, uma companhia independente formada por Bogart, o seu agente A. Morgan Maree, e o produtor Robert Lord. Bogart escolheu o nome acidentalmente, por causa do nome do seu barco. Nicholas Ray, um realizador ainda muito jovem, foi emprestado pela RKO graças ao seu filme de estreia, "They Live By Night" (1949), com realizador e actor, Bogart e Ray a voltarem a encontrar-se no ano seguinte, para o enorme "In a Lonely Place" (1950), que garantiu a Bogart uma das suas interpretações mais complexas. 
Em parte o filme também era um veículo para o jovem protagonista John Derek, uma das maiores promessas da Hollywood de então. Aparecia sobretudo em filmes de aventuras, mas este depressa se tornaria num fotógrafo profissional e tentaria a sua sorte atrás das câmaras. No entanto acabaria por ficar mais conhecido como empresário e marido de uma sucessão de símbolos sexuais femininos: Ursula Andress, Linda Evans e Bo Derek.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Contra Todos os Riscos (Classe Tous Risques) 1960



Um criminoso refugiado tenta voltar clandestinamente para a França, acompanhado da família e do seu parceiro. Nesse percurso as coisas saem para fora de controle e ele vê que os seus amigos não são tão amigos como pensava, tendo de contar apenas com a lealdade de um estranho.
Baseado num romance de José Giovanni, escrito pouco tempo depois do autor saír da cadeia, "Classe tous risques" tem um início dinâmico, com a fuga de Davos (Lino Ventura) de Milão com uma terrífica sequência de acção, utilizando vários meios de transporte para culminar no desembarque na costa francesa na calada da noite. Mas quando o pior acontece, Davos descobre que se deve voltar para os seus antigos parceiros no crime.  Os seus "amigos" de Paris agora vivem uma vida bastante respeitável, seguros apenas porque ele ficou com as culpas, que terminaram no seu exílio. Mas agora, anos depois, eles estão com reservas em pagar as suas dívidas, e em vez de o fazerem pessoalmente, mandam um homem de confiança (interpretado por um terrífico Jean-Paul Belmondo), para pegar Davos no sul de França, e trazê-lo de volta a Paris.
"Classe Tous Risques" é um filme tenso, um original filme de gangsters contado com simplicidade e um franqueza convincente, exposto com um toque de neorelismo. Mas também há questões mais profundas em jogo, com Sautet a explorar os conflitos entre lealdade e família, e o código de honra entre os ladrões. O resultado é um tour de force, completado por uma banda sonora de Georges Delerue, e uma bela fotografia de Ghislain Cloquet.
Sendo um dos primeiros filmes do francês Claude Sautet, que se tornaria num realizador respeitado, acabaria por despercebido, eclipsado pelo outro filme de Belmondo que estreava no mesmo ano "À Bout de Souffle". O facto da Nouvelle Vague estar a florescer neste momento também não ajudou muito, nem este nem outros noirs ou policiers que se faziam na altura. Ainda assim é um filme que vale a pena recordar.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Verdade (La Vérité) 1960



Dominique Marceau (Brigitte Bardot) vai a tribunal por causa do assassinato do seu amante Gilbert Tellier (Sami Frey). À medida que o julgamento se vai desenrolando vamos ficando a conhecer os eventos do passado que levaram à actual situação. Ficamos a conhecer a sua vida com os pais e a irmã Annie, que era noiva de Gilbert. Dominique seduz Gilbert para se divertir, como uma mulher livre, e sem trabalho, envolvendo-se com vários homens. Depois vemos a sua tentativa de se suicidar depois de Gilbert a deixar, e voltar para Annie. O seu advogado é capaz de tudo para tentar salvá-la, mas mas regras da sociedade estão contra ela, e nem a inocência parece ser suficiente para a salvar.
Com "La Vérité" Clouzot fez o seu ataque mais virulento a uma sociedade que estava a ser prejudicada com a falsa moralidade da burguesia, e incapaz de se adaptar aos novos tempos. Já com um anterior filme anti-burguesia, "Le Corbeau" (1943), Clouzot tinha sido censurado no Vaticano, mas toda a hostilidade aberta contra si durante anos não foi suficiente para saciar o seu ódio e o seu desprezo contra esta classe social. Em "La Vérité", um dos mais perfeitos e absorventes filmes de Henri-Georges Clouzot, não é o crime que está a julgamento mas toda uma geração, que são julgados pelos mais velhos por serem egoístas, preguiçosos e imorais. A verdade sobre a culpa ou a inocência é irrelevante. No fim sabemos que a teimosia e um coração de pedra vão decidir o veredicto.
A estrutura do filme, um drama de tribunal em que os eventos do passado são contados em flashback, enfatizando o conflito entre duas gerações que parecem nada ter em comum. Os que vemos no tribunal são manifestadamente mais tradicionalistas, de direita, os que vemos nos flashbacks são os jovens da actualidade, que vivem para o momento, e não têm intenção nenhuma de deixar os valores da classe média antiquada estragar a sua felicidade. São dois mundos completamente diferentes, divididos por diferentes valores morais, e Clouzot dá-nos um vislumbre do que irá acontecer no decorrer da década de 60, e que irá culminar nos acontecimentos de Maio de 68.
Por esta altura Brigitte Bardot era mais conhecida por aparecer em comédias leves, e ela seria uma das últimas pessoas esperadas num filme de Clouzot, mas foram poucos os realizadores que foram capazes de tirar proveito da actriz, porque todos queriam aproveitar o seu sexy appeal, mas Clouzot esteve muito bem, sendo dos melhores que soube trabalhar a actriz.
Este filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira, e ganhou um Globo de Ouro na mesma categoria.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Anjo Preverso (Manon) 1949



Uma adaptação da clássica obra de Abbe Prevost, chamada  "Manon Lescaut", transportada para o pós guerra Francês da segunda guerra mundial, na qual um ex-activista da resistência francesa resgata Manon dos camponeses por a quererem linchar por colaborar com os Nazis. Os dois mudam-se para Paris, mas a sua relação fica tensa depois de se envolverem em especulações, prostituição e assassinatos.
Talvez a coisa que melhor caracteriza o cinema de Henri-Georges Clouzot seja uma preocupação mórbida com a susceptibilidade da natureza humana. Isto é mais aparente nos primeiros filmes de Clouzot, "L'Assassin Habite au 21" (1942), e "Le Corbeau" (1943), onde é mais subtilmente sentido que nos filmes do pós- Segunda Guerra Mundial. A infâmia e a injustiça de ser expulso depois de fazer filmes como "Le Corbeau", foi considerada imoral e ofensiva para o realizador, influenciando a sua escolha do assunto e do estilo nos filmes posteriores. E isso não podia ter sido mais flagrante do que aqui, na adaptação da história de Manon Lescaut, inspirada no livro de Prevost.
Sem grande esforço transportado para os anos que se seguiram à Libertação da França, "Manon" não só é uma poderosa história de amor, como também era um dos mais fortes e chocantes indicadores de como era a vida depois da Segunda grande guerra, depois da ocupação Nazi. Enquanto que a maioria dos realizadores daquele período tentavam apenas entreter, com melodramas escapistas ou comédias ligeiras, Clouzot era o único a remar contra a maré, tentando abrir os olhos às pessoas para a decadência que estava lentamente a cair sobre o país. A França que era retratada em "Manon" não era a França prometida pelo General de Gaule, uma terra orgulhosa renascida das cinzas, mas sim uma França suja, habitada por novos ricos que se tinham enchido de dinheiro graças ao mercado negro e à exploração do negócio da prostituição. O filme provocou assim grande controvérsia, tanto por causa da sexualidade evidente como por mostrar o que era realmente o país nos dias correntes, com conseguiu grande aclamação internacional, tendo ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
Hoje em dia é menos conhecido do que outros grandes filmes de Clouzot, mas merece ser considerado uma das suas melhores obras, não só pela sua representação muito real do que era a França da altura, mas também pela sua humanidade, inteligência e brilhantismo artístico. 

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domingo, 11 de janeiro de 2015

Os Malditos (Les Maudits) 1947



Final da Segunda Guerra Mundial, no ano de 1945, um médico francês é raptado por um grupo de Nazis, e levado para bordo de um submarino. Os alemães pretendem fugir da captura dos Aliados, traçando uma rota para a América do Sul.  O médico encontra-se na companhia de vários fugitivos desagradáveis, incluindo um chefe da Gestapo, um general alemão, um industrial italiano, e um jornalista francês que colaborou com os Nazis. Quando notícias do armistício são recebidas dá-se um motim a bordo do submarino...
Há uma certa perca de pungência em "Les Maudits", filme de René Clément, conhecido nos Estados Unidos como "The Damned". Este filme sobre um grupo de Nazis e relutantes passageiros franceses a fugirem num submarino, foi filmado apenas dois anos após o final da guerra.
Esta pungência não pode ser transmitida para as audiências modernas, cujas ideias do pós-guerra em França giram em torno de uma guerra completamente diferente, e de um país completamente novo. Isto foi imediatamente notado assim que o imediatismo da influência Nazi e controlo sobre a França foram perdidos sobre Clément e o seu argumentista Jacques Rémy, portanto nenhum cenário era demonstrativo dos eventos que estavam por vir. Clément e Rémy confiavam nas recordações da sua audiência de um passado recente.
Este filme, a preto e branco, estava bem longe de ser apenas o preto e o branco, e enquanto os Nazis são obviamente os vilões, esta estranha combinação de "filme de submarino" com "film noir", desprende-se dos padrões normais de herói e vilão e explora cada personagem (quase à vez) como uma personagem completa. O ostensivo personagem principal de Henri Vidal narra o filme (com moderação) e providencia o fundo de cada personagem assim como o seu próprio estado de inconsciência nesta viagem para a América do Sul. Personagens como a Ingrid Ericksen de Anne Campion, a gentil filha de um oficial Nazi, como oposição à crença do pai, e o Willy Morus de Michel Auclair, um jovem soldado que preferia não o ser, turvam as águas entre o campo do bem e do mal.
Ganhou um prémio no festival de Cannes de 1947, o "Prix du meilleur film d'aventures et policier". O festival estava então na sua terceira edição.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Queda de um Corpo (The Harder they Fall) 1956



Humphrey Bogart interpreta no papel de Eddie Willis, um antigo comentador desportivo que junta forças com um corrupto promotor de boxe chamado Benko (Rod Steiger).Juntos, preparam um plano para enganar Toro Moreno (Mike Lane), um boxeur gigante pobre de espírito com mais de dois metros de altura. Através de uma série de combates forjados preparados cuidadosamente, Toro é levado a acreditar que é um sério candidato ao título...
Este seria último filme de Bogart, onde ele tem um desempenho contundente e fantástico no papel de um jornalista desportivo. Adaptado de um romance de Budd Schulberg com um argumento clínico de Philip Yordan e realizado por Mark Robson, era uma  mistura corajosa entre melodrama e thriller. O filme é baseado na carreira do boxeur Primo Carnera, um gigante italiano que se tornou campeão de pesos pesados em 1933-34. O verdadeiro Carnera processou a Columbia Pictures pelas supostas combinações de resultados retratadas no filme, mas acabou por perder em tribunal. "The Harder They Fall" serve como uma exposição do controle da Máfia sobre o mundo do boxe.
Filme bastante corajoso e potente para a época, o realizador Mark Robson entrega-nos algumas sequências brutais de combate, e até certo ponto mostra-nos um "documentário" realista sobre um lutador cujo corpo já foi tão torturado que já nem está em condições de começar um trabalho real.
Conseguiu uma nomeação ao Óscar de melhor fotografia (Burnett Guffey), e fez parte da selecção oficial para Cannes, em 1956. Estreado em Abril de 1956, Bogart viria a falecer no ínicio do ano seguinte, com 57 anos.

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terça-feira, 1 de julho de 2014

O Homem do Revólver Silencioso (The Lineup) 1958



Em São Francisco, dois polícias estão de serviço quando um taxista, com a ajuda de um cúmplice, consegue roubar uma mala de um coleccionador de antiguidades. O taxista atropela um policia, mas é abatido a tiro. Os policias descobrem que dentro da mala há uma estátua contendo heroína. Entretanto, um gangster psicopata e o seu mentor, têm o trabalho de recolher outras malas com heroína. Tudo corre bem, até que eles tentam recuperar a heroína de uma boneca japonesa.
O "filme de detectives" foi um movimento que apareceu a partir do "film noir", e o veio substituir com alguns anos de popularidade. Foi também um sucesso no cinema, como foi na televisão, e houve alguns cruzamentos entre estes dois média, com alguns filmes a tornarem-se séries, e vice-versa, e neste caso em particular, foi elaborado a partir de uma série com o mesmo nome. No entanto, enquanto séries como Dragnet nunca conseguiram fazer grande sucesso na grande tela, "The Lineup" acabou por se tornar num filme de culto, cuja reputação durou muito para lá do término da série na TV.
Muitas pessoas não sabiam que existia uma série de TV antes deste filme, e que apenas uma das suas estrelas migrou da série para o cinema, mas existe uma tensão clara entre a obstinada determinação da polícia e os vilões, que são muito violentos, e mais centrais do que a própria polícia, nesta história. O filme divide-se em duas partes, com os detectives a seguirem o que parecer ser uma operação de contrabando de heroína, e os criminosos que estão também a ser perseguidos por outros vilões. 
Os criminosos são interpretados por uma dupla bastante estranha: Eli Wallach (num dos seus raros filmes como protagonista), e Robert Keith. Don Siegel dirige a acção com mão segura, e um argumento de Stirling Silliphant muito bem trabalhado.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mãos Perigosas (Pickup on South Street) 1953



Fuller sempre foi considerado como uma grande contradição, uma quintessência do cineasta americano-duro, impetuoso, melodramático, no entanto tinha uma sensibilidade artística, que fizera dele ser muito amado na Europa, especialmente em França, onde viveu e trabalhou durante os últimos 15 anos da sua vida. Os seus filmes raramente eram leves, mas sempre foram mais inteligentes do que seria de esperar, e ele permanece até hoje como um dos cineastas mais talentosos visualmente a trabalhar com uma câmera. Como Alfred Hitchcock, Martin Scorsese e Stanley Kubrick, ele tinha um sentido inato de onde colocar a câmera e como movê-la para obter o efeito máximo.
Sem o talento e o compromisso de Fuller, Pickup on South Street provavelmente teria sido apenas mais um medíocre filme noir. Obcecado com as experiências vividas nos degraus mais baixos da escada social, Fuller transformou o filme num documento social intrigante, bem como num thriller de centralização em torno de um trio de personagens um pouco antipáticas: um carteirista, uma prostituta e um delator profissional. Apesar do comportamento anti-social, era exatamente o tipo de coisa que o Código de Produção queria banir ou pelo menos punir, eles emergem de uma cuidadosa estruturada mise-en-scène, com personagens totalmente humanas que ganham a nossa simpatia e a nossa identificação. 
Richard Widmark, estigmatizado como um actor decadente, interpreta Skip McCoy, um carteirista profissional, que é um perdedor por natureza, várias vezes preso, e portanto, com potencial para passar o resto da vida na prisão se for preso mais uma vez. Isso não o impediu, no entanto, de roubar a carteira de Candy (Jean Peters), uma jovem no metro. Acontece que Skip roubou mais do que esperava, porque Candy trabalhava como mensageira para o seu ex-namorado, um bandido chamado Joey (Richard Kiley), que anda a vender segredos para um grupo de espiões comunistas. A carteira de Candy contém um  microfilme do governo com a fórmula de um produto químico secreto, e uma vez roubada, é alvo de ambos os lados da Guerra Fria: o FBI e os "reds".
A existência de um ângulo comunista em Pickup on South Street tem pouco a ver com o patriotismo sentido por Fuller (quando o carteirista anti-herói diz “Don’t wave a flag at me,”, quase o podemos ouvir dos próprios lábios de Fuller). Pelo contrário, a sua inclusão resulta principalmente do facto de que ele foi feito bem no meio de um ciclo de filmes anti-comunistas de Hollywood. Era difícil fazer um thriller naquela altura sem incluir estalinistas debaixo da cama de alguém. A insignificância dos comunistas no filme é ressaltada porque Fuller foi capaz de escrevê-los, alterando as legendas para se referirem a traficantes de drogas, e assim nem um único frame do filme teve que ser editado para disfarçar o conteúdo político do filme.De certa forma, a inclusão dos comunistas como os bandidos é o ponto mais fraco do filme, porque ele se sente como um ajuste de forças. Fuller está claramente mais interessado na vida dos seus personagens principais do que está na perseguição à esquerda. Os melhores momentos do filme são quando os seus personagens centrais estão no seu estado mais vulnerável, porque é aqui que vemos a sua humanidade.
Widmark transforma o seu personagem numa peça convincente, apesar das suas tendências claramente anti-sociais. Apesar de ser um criminoso não-violento, Skip tem uma veia obscura pulsando debaixo da sua pele, e as cenas em que ele brutaliza estão entre as mais difíceis o nosso estômago .
Ainda assim, Pickup on South Street funciona muito melhor do que a maioria dos filmes da sua espécie. Fuller estabelece uma realidade corajosa para o que é uma mistura um tanto fantasiosa do melodrama de crime e paranoia da Guerra Fria . Fuller e o director de fotografia Joe MacDonald, dão a este filme o olhar noir das sombras escuras, mas o que mais vem à mente é a sensação de claustrofobia visual que transborda nos envolvimentos emocionais dos personagens


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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

No Último Minuto (Obsession) 1949



Um terrífico pequeno film noir sobre um marido ciúmento e doentio, interpretado por Robert Newton, que descobre que a sua adorável esposa anda a enganá-lo com outro homem. Newton abate o homem e leva-o para um abrigo nuclear abandonado onde ele acaba por o trancar numa sala. Lá, então, acorrenta-o na parede, e faz com que a corrente seja suficiente para que ele possa apenas andar pela sala e seja capaz de chegar à casa de banho, mas só isso. Todos os dias, Robert Newton, que interpreta um médico neste filme, traz uma lata de ácido para esta sala, onde ele pretende eventualmente assassinar o homem.
Newton tem uma grande representação muito James Mason-esque, com uma acentuação muito britânica(o filme é feito no UK), sobre um conto de obsessão e vingança. Embora o filme não faça passar muitas emoções, tem uma atmosfera bastante sombria e opressiva, na prisão secreta da Riordan (Newton). Tudo isto torna-se uma batalha de inteligência, muito na linha do Dial M for Murder, enquanto ele tenta realizar e encobrir o seu plano, enquanto o prisioneiro Bill (Phil Brown) tenta acabar com a sua determinação, e a sua esposa e o policia Finsbury tentam descobrir o que se passa. Naunton Wayne - mais conhecido pelo "Caldicott" de "The Lady Vanishes" e alguns filmes posteriores - é altamente agradável como detetive, muito irónico e com muito do estilo do detective Colombo. Brown, infelizmente, não tem muito para fazer, mas faz muito bem as suas poucas cenas, especialmente o confronto inicial.
Este filme noir é prova de que não é preciso violência para criar tensão. Na verdade, ela está implícita, e é a violência que constrói o suspense. O filme foi feito numa altura em que Dmytryk já fazia parte da lista dos 10 de Hollywood, e se tinha refugiado em Inglaterra.
Filme raro, legendas em espanhol.

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Encruzilhada (Crossfire) 1947



Crossfire é um noir fascinante com uma mensagem que foi típica na era pós Segunda Guerra Mundial, lentamente crescente por debaixo de uma superfície de mistério. No início, o filme parece ser apenas mais uma obra impressionante de suspense, filmado sobre um assassinio e violência, abrindo com uma sequência brutal encenada no meio da escuridão, como vários homens a lutarem, com as suas sombras projetadas nas paredes até que um deles é atirado ao chão, derrubando uma lâmpada, deixando a tela momentaneamente completamente escura. Depois da queda, um dos homens acende a luz, verifica o corpo no chão, e sai com outro homem, tudo isto no meio da escuridão, com apenas as metades inferiores dos corpos visíveis, o resto obscurecido pelas sombras. É uma introdução intensa, rápida e brutal, a iluminação gritante aumentando a sensação de ameaça e a brutalidade neste assassinato anónimo. O resto do filme segue a investigação deste crime, pois o que inicialmente parece ser o resultado infeliz de ums discussão normal acaba por se tornar algo muito mais brutal, libertando os impulsos mais feios.
A investigação, conduzida com precisão e muita calma pelo capitão da polícia Finlay (Robert Young), gira em torno de um grupo de soldados que estavam com o homem assassinado, Samuels (Sam Levene), antes da sua morte. Os três soldados - Mitchell (George Cooper), Montgomery (Robert Ryan) e Floyd (Steve Brodie) - que tinham estado com Samuels num bar e regressado para o quarto com ele, mas naquela altura as várias histórias divergem, deixando pouco claro quem matou o homem. Mitchell parece ser o bode expiatório mais provável, mas o seu amigo Keeley (Robert Mitchum) pensa o contrário e começa a investigar as coisas por ele mesmo. O filme emprega uma estrutura do estilo Citizen Kane com pessoas diferentes, preenchendo os espaços em branco na noite do crime, mas o dispositivo é vestigial, como fica claro relativamente cedo o que realmente está a acontecer aqui. 
No início, alguns indícios são descartados no diálogo, sugerindo algo além de uma típica briga de bêbados e, eventualmente, dispensa o filme com a estrutura de flashback inteiramente, e revela quem era o assassino, bem antes do clímax. O motivo para este abandono do mistério central do filme é que o realizador Edward Dmytryk, trabalhando com um argumento adaptado por John Paxton a partir de um romance de Richard Brooks, procura algo muito mais profundo do que um mistério "whodunnit". O filme alterna a meio do mistério noir num tratado apaixonado contra o preconceito e a intolerância, contra o tipo de ódio que, como diz Finlay, "é como uma arma carregada", pronta a disparar a qualquer momento. A fonte do romance do filme era sobre o preconceito anti-homossexual, mas a mensagem é traduzida para o anti-semitismo de Hollywood, também porque qualquer menção explícita sobre a homossexualidade ainda era impossível no cinema da altura, e por causa de ser um filme sobre o fanatismo anti-judaico seria sem dúvida ainda mais relevante nos anos do após a guerra, como os horrores dos campos de extermínio a tornarem-se do conhecimento público.
Crossfire é o raro típico filme que sobrevive ao tempo para manter o seu poder na era moderna. As situações que retrata continuam a ser actuais, o firme exame directo ao ódio irracional - seja racial, étnico ou sexual - torna-o um filme importante. Pela primeira vez, as sombras do noir não são apenas para esconder uma outra história de damas más ou homens gananciosos. Em vez disso, o que se esconde nas sombras é tanto mais familiar ou assustador: o ódio de um homem por causa do modo como ele nasceu, a violência incubadas nos sentimentos do preconceito e da parcialidade, as sementes do genocídio plantadas nas mentes de pessoas aparentemente vulgares que carregam o seu ódio como armas carregadas.

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domingo, 25 de agosto de 2013

Beco sem Saída (Cornered) 1945



De todos os vilões para ter num filme, entre os mais populares estão os nazis. O cinema sempre os retratou do modo mais desagradável possível. Alguns filmes embelezam a vilania da organização a patamares exagerados, mas dado o que nos contam sobre a história das ideologias do partido e como eles colocaram a ideologia em movimento durante os anos no poder na década de 1930 e 1940, há uma forte razão para apoiar a noção de que eles de facto fizeram justiça à sua fama de vilões. O realizador Edward Dmytryk e o actor Dick Powell voltam a renir-se depois de Murder, My Sweet, e usam essa idéia para trazer aos espectadores "Cornered".
Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, o piloto canadiano Laurence Gerard (Dick Powell) dirige-se para a França para uma questão muito pessoal: descobrir a identidade do homem que matou a sua esposa de nacionalidade francesa, que lutou ao lado da resistência durante os anos do nazismo. Marcado pela guerra e também por um amor perdido, Gerard ferozmente segue as pistas sobre o paradeiro da sua presa, Marcel Jarnac, o que prova ser um assunto complicado dado as pessoas afirmarem não saber nada sobre a sua aparência física ou saber se ele já morreu durante a guerra. As pistas levam-no a Buenos Aires, onde a esposa do assassino, Madeleine Jarnac (Micheline Cheirel) vive uma grande vida, entre a elite da cidade. Depois da sua chegada à cidade argentina, Gerard é abordado por um tal de Melchior Incza (Walter Slezak), que afirma ser um guia turístico, talvez um pouco conhecedor da forma como ele costuma trabalhar e já estar a par do objectivo de Gerard na América Latina.
Repare-se que na sinopse acima que nenhuma menção aos Estados Unidos é feita. Essa é uma das muitas qualidades que distinguem o filme. Nem por um momento a acção decorre em solo americano, e até o personagem principal, Laurence Gerard, é um protagonista canadiano. Provavelmente o único elemento americano perceptível no filme é o sotaque de Dick Powell (que não faz qualquer tentativa de imitar o padrão de fala de um franco-canadense). Todo o resto do elenco tenta colocar o melhor sotaque latino-americano ou francês, possível. Quem for menos familiarizado com o género noir deve ser lembrado que na década de 1940 e 1950, quando estes filmes foram feitos, os realizadores não tinham conhecimento do facto de que estavam a criar filmes que anos mais tarde viriam a ser incluídos, pelos historiadores e especialistas, dentro de um género específico chamado "film noir". Assistir a estes filmes no início do século 21 oferece ao espectador o benefício da retrospectiva, bem como décadas de literatura de cinema e classes que têm infinitamente dissecado estas imagens. Dirigimo-nos para um filme como "Cornered" com a idéia firmemente plantada de que o noir é muito mais do que um movimento do cinema americano.
Todos aqueles que já tenham visto o filme mais popular da dupla Dmytryk/Powell, "Murder, My Sweet", já têm uma percepção razoável do que esperar de "Cornered", embora alguns dos ingredientes sejam um pouco forçados. Para começar, boa parte da fotografia é nítida, detalhada e realizada com um cuidado rigoroso, com toques estilísticos espalhados por todo o lado, produzindo alguns efeitos viscerais fantásticos. Para aqueles que encontram prazer não apenas na história, mas também na fotografia criativa a preto e branco, no cinema noir, "Cornered" constitui um forte argumento, e um "must see".
"Cornered" também acontece ser um filme bastante amargo. Isto não é apenas lógico, mas perfeitamente compreensível. O protagonista foi injustiçado da maneira mais vil que se possa imaginar, e visa punir o culpado de qualquer maneira que puder. Juntamente com o facto de que ele não é muito mais do que um investigador, aos seus métodos faltam tacto e controle. Quando confrontado com alguém que pode ser Marcel, Gerard fica perfeitamente disposto a matar, mesmo que ele não tenha a prova definitiva. O ponto da estratégia é eliminar qualquer um que possa ser o seu alvo e passar para o próximo, se for necessário. 
Cornered não é o maior dos noirs, nem é necessariamente o mais divertido. Como a sua figura central, é muito decidido a abraçar o lado negro para provocar um efeito entre os espectadores. A sua última  impressão é de um filme que está prestes a atingir a sua intensidade emocional. Imperdível para os fãs do género.

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