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domingo, 17 de abril de 2022

A Raposa Dourada (Caccia Alla Volpe) 1966

Para executar um milionário roubo, um homem (Peter Sellers) faz-se passar por um realizador de cinema numa vila no interior de Itália, onde a produção de um filme é mero pretexto para a execução do plano.
Uma reunião improvável do realizador italiano de cinema neorealista Vittorio de Sica e do dramaturgo americano Neil Simon, resultou nesta paródia desigual, mas com momentos hilariantes, num filme de assalto. Peter Sellers tem uma interpretação tipicamente estelar no papel principal, interpretando um homem tão autoconfiante nas suas habilidades como um ladrão de classe mundial que prevê abertamente a sua própria capacidade de escapar da prisão caso seja apanhado. Mas o filme acaba por ser roubado por um improvável Victor Mature, no papel de um convencido actor. Longe dos seus tempos áureos, o actor já andava meio arredado do mundo do cinema, e tem aqui um óptimo renascimento. O filme incluía ainda Britt Ekland, Martin Balsam e Akim Tamiroff  à frente de um elenco maioritariamente italiano. 
Curiosamente, De Sica traz-nos uma visão amarga de como a industria cinematográfica explora não apenas os actores, mas as pessoas comuns que se deslumbram com o mundo do cinema.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Matrimónio à Italiana (Matrimonio all'Italiana) 1964

Durante a Segunda Grande Guerra, Domenico, um bem-sucedido homem de negócios e com uma grande queda pelas mulheres, encontra a jovem e linda Filumena num bordel. Depois da guerra, aluga um apartamento para ela e os dois tornam-se amantes durante 22 anos. O que Domenico não sabe, é que Filumena tem três filhos que são criados por babysitters, e ao mesmo tempo, ele inicia planos para se casar com uma jovem empregada.
Vittorio de Sica ganhou quatro Óscares de Melhor Filme em Língua estrangeira, e Matrimonio all'Italiana era a sua quinta nomeação, que pela primeira vez perdeu. Com uma dupla de peso como protagonista, Marcello Mastroianni e Sophia Loren, que também foi nomeada para Melhor Actriz, é um filme bastante satisfatório, apesar de estar bem longe em termos de qualidade das grandes obras do realizador, principalmente dos grandes clássicos do neorealismo. 
O filme é descrito como uma comédia, mas é na realidade um drama emocionante com Sophia Loren a atirar fogo pelos olhos. Uma força da natureza, forçada a envelhecer 20 anos durante o filme, e carregando totalmente esse peso. 
Baseado na peça "Filumena Marturano" de Eduardo De Filippo, que alcançou grande êxito em 1951, que o próprio interpretou ao lado da sua irmã. Curiosamente o público Napolitano (a história original passa-se em Nápoles) não ficou muito contente com o facto de Loren e Mastroianni terem sido os escolhidos para os papéis principais, apesar da dupla ter sido elogiada no resto de Itália e um pouco por todo o mundo. Grande parte da história é contada através de flashbacks, que contam o caso de amor entre a jovem Filumena e Domenico, um romance muito amargo.

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domingo, 29 de março de 2020

Negócio à Italiana (Il Boom) 1963

Passado durante o milagre económico italiano, período logo depois da Segunda Guerra Mundial e que ficou conhecido como “il boom”, encontramos Giovanni Alberti (Alberto Sordi), um executivo medíocre, que se vê endividado para manter o padrão de vida da sua rica esposa Silvia (Gianna Maria Canale). Quando surge uma oportunidade de negócio que acabaria com todas as dívidas, Giovanni enfrenta o seu maior dilema.
Mais um filme de Vittorio de Sica realizado em 1963, mas este com um resultado completamente diferente de "Ontem, Hoje e Amanhã". "Il Boom" foi um fracasso na altura que estreou, tanto a nível de público como a nível de crítica, e por isso manteve-se longe dos olhos do público durante muitos anos. 
Escrito por Cesare Zavattini, o habitual colaborador de De Sica que também escreveu a trilogia do neorrealismo do realizador, alguns anos antes, tinha a acção passada no mesmo ambiente desesperado da classe trabalhadora que tinham os filmes anteriores. O conceito ainda funciona num cenário burguês, porque De Sica e Zavattini definem como o dinheiro e o poder infectam quase todas as relações humanas, pintam o retrato de uma sociedade onde tudo é transacionável.  Acontece que isto não acontece apenas em sociedades devastadas pela guerra, à beira de um colapso. Mesmo num momento de prosperidade cada um está por si próprio. 
Legendas em inglês.

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sábado, 28 de março de 2020

Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri Oggi Domani) 1963

Três histórias sobre três mulheres diferentes e o homem que elas amam. Em Nápoles, Adelina (Sophia Loren) que é casada com Carmine (Marcello Mastroianni) um vagabundo, foi presa por contrabandear cigarros. Só que ela descobre que não pode ir para a cadeia enquanto estiver grávida. E agora, anos depois e sete filhos depois, Carmine está "ligeiramente impotente" e a cadeia parece inevitável para Adelina que tenta "incentivá-lo" de todas as maneiras. Em Milão, Anna (Sophia Loren) dirige um Rolls Royce e está aborrecida ao lado do seu amante (Marcello Mastroianni). O casal discute e troca palavras hilariantes passando por uma série de contratempos engraçados. Mara (Sophia Loren) é uma rapariga de programa cujo encontro com o "ansioso" Augusto (Marcello Mastroianni) a todos os momentos é "interrompido" pelo vizinho, um seminarista cujo compromisso com a castidade está estremecido desde o momento em que a conheceu.
Comédia satírica que revela muito sobre os escalões superiores e inferiores da sociedade italiana da década de sessenta. Ao longo de 3 partes, que são como anedotas animadas, sexys e engraçadas, Vittorio de Sica aborda questões como o absurdo sistema judicial (prisões lotadas de mulheres presas por ofensas que agora criam filhos atrás das grades), hipocrisia burguesa, culpa católica e camaradagem da classe trabalhadora perante o rosto da diferença burocrática.
Para Vittorio de Sica fazer um filme com este tom, era como uma traição aos princípios do neorrealismo italiano, no entanto acabou por ser bem recebido pelo público de todo mundo, acabando por ser um sucesso comercial um pouco por todo o lado, e ganhando o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 1965, algo que muitos criticaram por não ter qualidade para tal. Mas De Sica era um realizador bem visto em Hollywood, e os seus filmes já tinham valido, por exemplo, o primeiro Óscar de Melhor Actriz num filme em língua estrangeira (Sophia Loren em "La Ciociara"), e nomeações para Melhores Argumentos em filmes como "Humberto D.", "Ladrões de Biciletas" e "Sciuscià", sempre com Cesare Zavattini envolvido, que também escreveu este argumento. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 23 de março de 2020

Boccaccio 70 (Boccaccio '70) 1962

Quatro adaptações modernas de contos para adultos de Giovanni Boccaccio com 4 realizadores de luxo.
1-Renzo e Luciana. Luciana, a secretária, e Renzo, o jovem paquete, amam-se; mas as regras da sociedade na qual trabalham proíbem-nos de se casarem e terem filhos.
2-A Tentação do dr. António. Um puritano lança-se numa cruzada contra um cartaz publicitário, onde uma sensual mulher faz publicidade ao leite.
3-O Emprego. Um aristocrata é protagonista de um escândalo e a sua mulher vinga-se obrigando-o a pagar-lhe os seus deveres conjugais.
4-As Rifas. Uma bela mulher sujeita-se a um sorteio de rifas numa feira, mas recusa-se a acompanhar o vencedor, um sacristão, pelo facto de estar apaixonada por outro homem. 
´Boccaccio 70´ é um dos mais marcantes exemplos dos filmes em sketches, um tipo de cinema que floresceu na Europa, sobretudo em França e Itália, nas décadas de 60 e 70. A fórmula consistia em reunir um punhado de importantes realizadores, um grande elenco e um tema recorrente que cada segmento trataria segundo o estilo e a sensibilidade de cada cineasta. Aqui, sob o espírito e a livre evocação de Boccaccio, embora nenhum dos episódios seja adaptado de qualquer das suas obras, 4 grandes cineastas italianos, Fellini, De Sica, Monicelli e Visconti, abordam situações de pura ironia acerca do sexo, do desejo e das fantasias eróticas. Fellini é exuberante e fantasioso no sketch com Anita Ekberg a publicitar leite e a incendiar a libido de um puritano. Visconti adopta um realismo amargo na história da condessa que obriga o marido a tratá-la como se fosse uma prostituta. De Sica constrói um quadro de sabor revisteiro e colorido sobre a rapariga das rifas que recusa os clientes. Monicelli fala do amor proibido entre uma secretária e um paquete. 
São 4 estilos, 4 cineastas e 4 abordagens distintas do tema do sexo e das suas implicações, num filme que conta com um admirável elenco, dominado pela presença de três grandes actrizes: Anita Ekberg, Romy Schneider e Sophia Loren. 
* Texto RTP

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domingo, 22 de março de 2020

O Último Julgamento (Il giudizio universale) 1961

Uma voz poderosa e misteriosa ecoa nos céus de Nápoles: anuncia o dia do julgamento final, às seis da tarde. Então, uma multidão de pessoas empolgadas move-se sob a influência daquela voz implacável. Depois do início do grande julgamento, o qual todos podem sentir presente através da televisão, o Juízo Final é abruptamente interrompido por uma chuva torrencial. Será que a tempestade dramática e definitivamente o juízo, apagando a Terra e todos os seus males?
Bem fresco do sucesso internacional de "La Ciociara" (1960), a dupla Vittorio de Sica e Cesare Zavattini, realizador e argumentista do filme anterior, receberam carta branca de De Laurentiis para fazerem o que quisessem, com um elenco internacional de estrelas na folha de pagamento, saindo um filme sobre o fim do mundo, no qual a sua forma episódica é levada ao extremo, dividido em 40 sketches, instantâneos ou mais elaborados. Surrealismo, fantasia, sátira, são alguns dos componentes, também com um certo moralismo à mistura.
Hoje em dia é um filme muito esquecido, mesmo na carreira de De Sica, mas vale a pena referir aqui uma parte do elenco de estrelas: Fernandel, Anouk Aimee, Melina Mercouri, Nino Manfredi, Vittorio Gassman, Silvana Mangano, Jack Palance, Eleanora Brown, Lino Ventura, Alberto Sordi, Ernest Borgnine, Akim Tamiroff, Jimmy Durante, e o próprio De Sica.

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sexta-feira, 20 de março de 2020

O Herói da Cidade (Il Vigile) 1960

Otello Celletti (Alberto Sordi) é um ex-soldado desempregado de uma pequena cidade italiana. Desde o final da guerra que ele vive com o pai e a família às custas do cunhado, Nando. Um dia recebe uma carta a dizer que tem um emprego como transportador no mercado da cidade, apesar do seu pedido para ir para a polícia. Não querendo aceitar este emprego, procura o presidente da cidade (Vittorio de Sica) que lhe consegue o emprego que ele procurava. Como polícia, Otello pode finalmente vingar-se de todos os que o provocavam no período pós-guerra, quando ele não tinha emprego, mas logo coneça a ter problemas com os seus deveres...
Comédia sobre o povo italiano que se atreve a subir na sociedade e desafiar os poderosos. Feito de uma forma cómica mas numa veia mais realista, uma típica comédia neorrealista que era tão popular no início da década de sessenta, e como já era habitual, com Alberto Sordi numa grande interpretação. Atrás das câmaras tínhamos Luigi Zampa, que por esta altura fazia comédias grotescas que criticavam a sociedade italiana, mesmo sem ter um alvo fixo, concentrando-se sobretudo na piada. 
Apesar de ter estreado com a célebre frase "qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência", na realidade o filme foi inspirado numa notícia que foi publicada em Julho de 1959. Deixava claro o quanto irrealista era a rebelião de uma pessoa fraca, e como as más práticas e a corrupção são aceites pelas pessoas como coisas normais. 
É um filme bastante raro. Legendas em inglês.

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Pausa Breve (Una Breve Vacanza) 1973


"Vittorio de Sica fez o filme “Una Breve vacanza” em 1973, já quando o Neo-realismo italiano era uma sombra estilística apagada na memória de cinéfilos fiéis à temática dos problemas sociais, das crianças lacrimosas, dos atores desconhecidos e da ambientação hiper-realista... É a estória de Clara Mataro, uma mulher metalúrgica, de poucas posses, com 3 filhos que ama, e uma horrenda família composta por um marido embrutecido, o cunhado tão rude estúpido e grosseiro quanto ao irmão, com o adendo de uma leve marca do mau-caratismo, e uma sogra exemplarmente sofredora e por isso, sintomaticamente latina – com o detalhe de todos viverem sob o mesmo teto, e apenas Clara a trabalhar. Após uma síncope de exaustão no trabalho na fábrica onde trabalha, Clara, sob orientações médicas, é recomendada a seguir para uma clínica de repouso no norte montanhoso de Dolomites. A família – não sei se ja disse, ‘horrenda’ - insiste que ela está bem e que não precisa do tal tratamento. Apesar de amar aos filhos, a insatisfação no casamento não a faz titubear e parte para as “férias forçadas.” Chega à clinica e logo percebe que dependendo da classe social, os tratamentos são diferenciados. Mas independente da discriminação entre pacientes nababos e remendados, a experiência da recuperação de Clara não é apenas física, mas emocional. A famosa consciênça de crasse passa longe daqui. Aos poucos Clara torna-se amiga de outras internas, independente de quanto levam na carteira, e adquire novas atitudes frente a sua feminilidade, a leitura, à solidariedade e ao amor. Sua vida muda. Torna-se confidente de mulheres - como a interpretada por Adriana Asti no papel de Scanziani, uma doente mental em estado terminal, um dos pontos sensíveis do filme - que talvez jamais as encontrasse em seu dia-a-dia. Aliás as mulheres que encontra são interessantíssimas...
Todos os estágios de sua feminilidade são expostos, independente da dimensão de sua felicidade frágil e por que não dizer, perturbada pela presença do marido. De Sica impõe um diálogo de sombras com o espectador através da alternância de cenários entre os Alpes oníricos ensolarados, a fábrica opressora, e a casa escurecida – onde quase não é possível distinguir os rostos - , compondo nessa reprodução de fragmentos um quadro onde o tema do, voilá, o adultério, esta tão batida carta, é reinventado. Na clínica, reencontra um jovem mecânico que a convidara a um café no dia da consulta, antes da viagem. Clara, uma mulher de invulgar modestia, deixa-se levar pela atração e nós acabamos torcendo por ela quando o drama vira dramalhão e a paixão entra na veia. Supostamente, no filme, que é uma espécie de dramalhão romântico, mas cheio da sensibilidade, De Sicca nega-se à farsa exuberante ou ao drama existencial que, por exemplo, Antonioni enveredou após deixar os neo-realistas. Supostamente, o filme foi baseado no adágio de Appollinaire, “Só na doença, os pobres tem férias” – o que não deixa de ser uma verdade.
E o bom dos filmes do De Sicca é o final: nunca feliz, mas não menos verosímil. Clara, retorna a casa, após ter a alta antecipada pelo médico – resignado, mas sem deixar de ser delicadamente vingativo - que tentara discretamente porém sem sucesso, seduzi-la. A emoção produzida pelo amor dissolvido que sentira por Luigi torna-se evidente, em toda a sua amplidão, na viagem de retorno de trem para casa. De Sica nos deixa a amarga imaginação da extensão das perdas de Clara."
Por Chico Rogido, daqui.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Ouro de Nápoles (L'oro di Napoli) 1954



O monte Vesúvio paira sobre quatro histórias passadas em Nápoles, onde De Sica passou os seus primeiros anos: um palhaço explorado por um gangster, uma vendedora de pizzas inconstante (Sofia) que perde o anel do marido; o jogador Count Prospero B. derrotado por uma criança, o casamento inesperado e invulgar de Teresa, uma prostituta.
Originalmente, O Ouro de Nápoles consistia em 5 episódios filmados, um dos quais lidava com o funeral de uma criança mas foi excluído antes do lançamento do filme (uma outra história nunca foi filmada). Exibido na Europa em 1954, o filme não chegou aos EUA até 1957. Aqueles que preferem os filmes neorealistas de De Sica vão se sentir traídos do seu rigor artístico e filosofia de ativismo social. Aqui o ambiente é a comédia, embora num tom mais grave. Martin Scorcese, no seu documentário espirituoso e esclarecedor sobre o cinema italiano, Mi Viaggi in Italia, diz que, na obra de De Sica rir e chorar são como dois lados de uma moeda que pode ser invertida a qualquer momento, uma qualidade que ele se esforça nos seu próprios filmes. De Sica cresceu em Nápoles, Florença e Roma, e andava sintonizado com os diferentes comportamentos dos habitantes de cada cidade. Este filme reflete o seu amor pela perspectiva napolitana expansiva e bem-humorada sobre a vida. A atmosfera pungente da cidade, anuncia um regresso à sua carreira inicial como um ator cómico. O Ouro de Nápoles capitaliza o senso inato e teatral de De Sica. Notam-se em todas estas histórias, as vistas da cidade a partir das inúmeras varandas, o drama de andar pelas ruas e ouvir os vendedores de rua, e a importância de ter um público para todos os dramas da vida diária.
De Sica originalmente era um actor muito popular, o "Cary Grant italiano" para ser mais preciso. Era uma grande estrela dos que eram chamados os "white telephone films", onde o cinema italiano tentou recriar o glamour do cinema de Hollywood. De Sica tinha começado na contabilidade, e sonhava ser um caixa de banco, mas o pai insistiu que ele abandonasse a profissão para o mundo do espetáculo. De Sica fez mais de 160 filmes como actor, começando na era do cinema mudo, e apresentando-se em palco por mais de 20 anos. Também entrou numa série de filmes em língua Inglesa, em parte para financiar os seus projetos de realização, bem como apoiar tanto uma esposa como uma amante e as suas respectivas famílias. De Sica também andou com falta de dinheiro por causa do seu vício compulsivo do jogo, e os seus filmes eram muitas vezes resultado duma necessidade urgente de dinheiro.
O Ouro de Nápoles tem como base os contos de Giuseppe Marotta, filmado em exteriores e interpretado por um elenco estelar. O autor juntou De Sica ao seu frequente colaborador Cesare Zavattini na criação do argumento. Do elenco fazem parte Silvana Mangano, Sophia Loren e o actor cómico Totò.

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O Jardim Onde Vivemos (Il Giardino dei Finzi Contini) 1971



"O Jardim Onde Vivemos", uma das últimas obras de lendário Vittorio De Sica, foi uma sensação internacional durante o lançamento original em 1971. Vencedor do Oscar para Melhor Filme Estrangeiro e dezenas de outros prémios, Finzi Contini foi reconhecido como um dos mais importantes filmes do início dos anos 70.
Finzi Contini, uma história sobre anti-semitismo com um toque diferente, começa em Ferrara, Itália, durante o ano de 1938. A marca de Mussolini do fascismo já tém o país em aperto firme, e as sanções contra os judeus estão a aumentar. Embora muitos acreditem que os excessos anti-semitas da Alemanha nazi não se repetirão em Itália, a liberdade judaica está a ser sistematicamente reduzida a tal ponto que muitos não os consideram melhores do que "cidadãos do terceiro mundo". Uma recente declaração torna ilegal para os judeus a casarem-se com não-judeus, frequentar escolas públicas, ter uma lista telefónica, entrar nas forças armadas, ou contratar funcionários arianos. 
Os Finzi-Continis são uma poderosa e rica família judia que vive uma existência enclausurada numa propriedade palaciana, em Ferrara. São de longe as pessoas mais influentes na região, e, pelo menos durante algum tempo, a sua posição mantém-se relativamente a salvo da crescente onda de preconceitos. Micol (Dominique Sanda) e Antonio (Helmut Berger), os dois filhos adultos Finzi Contini, fazem festas de jogar Ténis para os amigos judeus, os quais foram expulsos do clube de ténis local. Um dos visitantes mais frequentes para estas partidas é Giorgio Bassani (Lino Capolicchio), um amigo de classe média da família. Mas, enquanto Giorgio gosta de todos os Finzi-Continis, ele tem um lugar especial no seu coração para Mico. Infelizmente para ele, o seu amor não é correspondido.
Um filme lírico, quase poético, ilustra a falsa crença mantida por alguns judeus privilegiados que, se se isolarem do terrível clima político poderiam ser poupados aos seus estragos. Fechando os olhos não faz frente à ameaça menos imediata - uma lição que o mundo inteiro aprenderia durante a Segunda Guerra Mundial.
Desde o início fica claro que os sentimentos de Micol para com Giorgio não são tão superficiais como ela por vezes finge. Mas ela teceu uma teia de negação em torno de si própria. Para ela, o futuro, representado pelo mundo fora da propriedade, é cheio de perigos e incertezas, e ela rejeita-o. No entanto, o passado, como simbolizado pelas terras dentro das paredes do jardim, continua a ser uma avenida de paz e segurança. Mico mantém uma relação com Giorgio porque ele relembra-a memórias de infância, para vê-lo como um amante exigiria abandonar o passado para o futuro, que ela não está disposta a fazer. Então, fica dentro da propriedade, escondendo a realidade e confundindo Giorgio com a rejeição dos seus avanços. 
A mensagem mais clara entregue por "Il giardino dei Finzi Contini" é que, não importa o quão importante seja a riqueza, o prestígio e a educação, eles não são a defesa contra o fanatismo irracional. Apesar de De Sica não ser fascista, viveu em Itália durante este período e queria fazer um filme "fora de consciência". E, enquanto este não é um dos contos mais violentos sobre o Holocausto, é um dos mais incomuns, e destaca uma outra faceta de uma tragédia monumental que apresenta uma infinidade de rostos e pontos de vista.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Duas Mulheres (La Ciociara) 1960



Cesira é dona de uma pequena mercearia em Roma durante a Segunda Guerra Mundial. Preocupada com os bombardeios foge para Ciociara, a sua cidade natal, levando consigo Rosetta, a filha de 13 anos. Lá, Cesira conhece o intelectual Michele e fica encantada com o seu sonho de mudar o mundo e fazer justiça. O sonho, no entanto, acaba quando Michele é levado pelos alemães como guia através das montanhas.
De Sica continuou em estado de graça diante da crítica e agora também do público, em 1960. A caminho de metade da sua enorme carreira cinematográfica, La Ciociara (aka Duas mulheres) estava destinado a ser um dos seus maiores sucessos, um drama de guerra corajoso com dois jovens actores carismáticos que estavam para ser dois dos maiores ícones do cinema de todos tempo, Sophia Loren e Jean-Paul Belmondo.
Feito numa altura em que a revolução sexual estava rapidamente a ganhar impulso, trazendo com ela um foco crescente sobre os direitos das mulheres e o papel da mulher na sociedade, "La Ciociara" tem uma veia feminista demasiado óbvia, o que pode, de certa forma, explicar a sua enorme popularidade. Baseado num romance bem conhecido de Alberto Moravia, o filme retrata as tentativas de uma viúva italiana para proteger a filha de 13 das atrocidades da guerra. Soberbamente interpretada por Sophia Loren com uma mistura fora de vulgar de tenacidade e compaixão, a heroína do filme Cesira representa o ideal da maternidade, uma mulher que vive apenas para proteger o filho (neste caso, a filha). Na cena mais chocante, quando a filha é violada ao seu lado por soldados marroquinos (numa Igreja), sentimos não apenas o horror do mais brutal dos crimes, mas também a terrível desolação de uma mãe que falhou para manter a filha longe do caminho do mal. Não é apenas a violação que fica na nossa consciência, mas a reação de Cesira, ao perceber que a única coisa que importa para ela foi levada e totalmente profanada.
Foi um filme anterior de De Sica "L' Oro di Napoli" (1954 ), que tinha dado a Sophia Loren a sua primeira grande hipótese, levando-a a um contrato com a Paramount, que fez dela uma estrela internacional. Para "La Ciociara", a Loren foi originalmente oferecido o papel da filha, mas ela insistiu em interpretar o papel muito mais desafiador da mãe, mesmo que tivesse apenas 25 anos de idade na altura. Sob a mão orientadora de De Sica , Loren tem um desempenho diferente de qualquer outro que teve anteriormente, o retrato mais devastador de uma mãe que tenta e não consegue proteger a filha dos males que permeiam o mundo.  A interpretação de Loren foi amplamente recompensada com um par de prémios de Melhor Atriz, primeiro no Festival de Cannes em 1961, e depois um Oscar no ano seguinte (a primeira vez que o prêmio de Melhor Atriz foi dado para uma interpretação num filme em língua estrangeira).
Jean -Paul Belmondo também beneficiou do sucesso de La Ciociara (particularmente em França, onde o filme atraiu audiências de 2 milhões). Depois do sucesso no filme de Jean -Luc Godard "À bout de souffle" (1959), o ator lutava para segurar o estrelato, a sua primeira incursão no cinema italiano - ALettere novizia di una" de Alberto Lattuada (1960) - tinha sido um desastre. "La Ciociara" deu-lhe o "stardom" necessário para o levar a papéis mais altos, como no filme de Mauro Bolognini "La Viaccia" (1961) e Jean-Pierre Melville, em "Léon Morin, prêtre" (1961). O papel de idealista intelectual, uma pessoa de espírito livre com um temperamento romântico, não poderia ter servido melhor a Belmondo e, em retrospectiva, parece ter tido um papel importante na criação do seu personagem simpático na tela - um eternamente juvenil Don Quixote que vive para o momento, tão completo e tão sincero como qualquer outro ser humano pode ser. La Ciociara foi mais o filme de Sophia Loren, e ele estava certo de que Loren iria roubar-lhe a maior parte do protagonismo.

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O Tecto (Il Tetto) 1956



A acção tem lugar em Roma no início de 1956. Um trabalhador da construção, Natale (Listuzzi), cuja ambição é ser pedreiro, casado com Luisa (Pallotta), empregada doméstica, apesar de não ter um teto para dormir debaixo. De Sica compõe um retrato realista do pós-guerra em Itália, especialmente Roma, que explica em tom documental, estilo sóbrio, austero e honesto, a livre artificialidade e veracidade intransigente. Fala sobre a família, a pobreza em geral do país, o alto custo das habitações, alugueres e sub-arrendamentos de quartos, falta de serviços sociais, o desemprego, o sub-emprego generalizado. Mostra o desespero associado com os difíceis anos do pós-guerra, a sua extensão no tempo, sonhos desfeitos pela Segunda Guerra Mundial e a dificuldade em superá-los. Aproximando-se o espectador a uma realidade trágica em desespero de dignificação e desesperança, escondida sob camadas de silêncio e falsas aparências de conformismo.
 Os planos gerais mostram uma paisagem em ruínas e húmida, suja, negligenciada e abandonada. A paisagem torna-se o espelho da alma dos personagens, condenados a lutar pela sobrevivência em condições deploráveis. "Umberto D" lidava com a situação dos pensionistas, "Sciuscià" prestava a atenção para as crianças carentes, "Milagre em Milão" falava sobre os marginalizados. "O teto" lida com os jovens em idade de casar, confrontados com a necessidade de habitação. O filme fecha a fase neo-realista do realizador com um olho numa realidade trágica, semelhantes aos dos filmes do período de 1946-1955. O público teve uma recepção fria ao filme, apesar do seu interesse.
Décimo terceiro filme de Vittorio De Sica. Escrito por Cesare Zavattini ("Ladrões de Bicicletas", 1950), é inspirado em fatos reais. Filmado fora de Roma e cenários e ambientes naturais. Em Cannes ganhou o OCIC Award (De Sica), o Nardo d'Argento ("Fita de prata") para Melhor Argumento e foi nomeado para a Palma de Ouro.
Legendado em inglês.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Humberto D. (Umberto D.) 1952



De Sica foi um dos mais conhecidos realizadores neo-realistas, e o seu Ladrões de Bicicletas é frequentemente considerado como o auge desse movimento. No entanto, apesar de ter sido duramente criticado e ter falhado nas bilheterias em 1952, Umberto D. cresceu em estatura a tal ponto que agora é considerado um dos melhores, se não o melhor filme deste período, em que De Sica e o argumentista Cesare Zavattini, capturam as nuances e os detalhes do movimento, ou seja, o concreto da realidade da vida de um homem solitário numa cidade moderna e impessoal.
O homem em questão é Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti, professor da Universidade de Florença, no seu único papel como actor), um velho e aposentado funcionário público que não pode fazer face às despesas com a magra pensão que lhe é oferecida pelo governo. Umberto é um personagem fascinante, e enquanto soa a sentimentalista demais, é muito mais complexo do que parece. Sentimos a sua dignidade e quanto ele teme ser reduzido a um mendigo da rua, mas também podemos perceber que ele por vezes é egoísta e teimoso. Os seus problemas são terríveis, mas é claro que ele tem alguma responsabilidade por eles. Ele é, então, um homem falhado, o que é crucial, pois são os seus defeitos que o impedem de se tornar uma pessoa sentimental.
Quando o filme começa, vêmo-lo a participar num protesto dos pensionistas, em Roma, que é quebrado rapidamente por um comboio de veículos do exército que atacam exageradamente os velhos reformados. Se isto poderia ter sido usado para estabelecer uma mensagem política e arrogante sobre o filme, é verdade, mas De Sica e Zavattini usam-no antes para transmitir a realidade económica simples da vida de Umberto. Ele é orgulhoso e honrado, mas ele meteu-se em dívidas que não consegue pagar. E está na iminência de ser despejado do seu quarto de solteiro pela proprietária do apartamento (Lina Gennari), que quer fazer de todo o piso da casa um ninho de amor para ela e para o noivo.
Umberto não está completamente sozinho na vida, apesar de tudo. Ele tem a simpatia de Maria (Maria Pia Casilio, mais uma descoberta de De Sica, pela primeira vez à frente das câmeras), uma empregada adolescente de olhos brilhantes, que limpa o apartamento. Maria teme ser despedida quando a dona da casa descobrir que ela está grávida. Umberto é simpático para a sua situação, já que nunca faz juízo da situação da jovem, mesmo quando ela confessa que não sabe ao certo quem é o pai , talvez um homem de Nápoles, talvez um de Florença. Umberto e Maria partilham a solidão no mundo, e as suas sequências são doces, e dão a sensação de esperança de que todos os seres humanos podem ter uma ligação, mesmo que seja imperfeita.
O único companheiro de Umberto é o seu pequeno cão, Flike. Flike vai com ele para todo o lado e é a coisa mais próxima que ele tem de uma alma gémea. O filme nunca força o sentimentalismo desta relação, e em vez disso, permite-nos ver, através das acções de Umberto e Flike que são companheiros que olham um pelo outro. Flike é um encargo económico para Umberto, mas quando ele fica temporariamente perdido, Umberto está disposto a fazer qualquer coisa para conseguir o cão de volta. A cena no canil em que os dois se reencontram está no topo de qualquer lista de cenas dramáticas em filme. Umberto D. movimenta-se suavemente entre momentos dramáticos e momentos em que nada de importante na narrativa acontece. A textura da vida quotidiana em Roma no início da década de 1950 é o assunto do filme, é a busca de Umberto para conseguir dinheiro suficiente para pagar o aluguer atrasado e evitar ser despejado.

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Sciuscià (Sciuscià) 1948



"Ladri di Biciclette", de Vittorio de Sica (Ladrões de Bicicletas) é considerado pelos críticos como uma das grandes obras-primas do cinema neo-realista italiano. A história é relativamente simples: um operário chamado Antonio, acompanhado do seu filho Bruno, procuram pelas ruas de Roma a bicicleta roubada a Antonio, que ele precisa desesperadamente para manter o emprego. Para expor uma "ausência de solidariedade humana" numa sociedade italiana burocrática atormentada pelo desemprego e pela pobreza, o realizador emprega um estilo visual realista mais perto do documentário do que do cinema de ficção. Filmado em exteriores, takes longos, película barata a preto e branco, actores não profissionais, Sica demonstra que a sociedade italiana e as suas instituições sociais, ou seja, a Igreja Católica, a polícia, e os sindicatos, não têm grande interesse no "homem comum".
Enquanto "Ladri di Biciclette" é certamente a obra mais conhecida de De Sica, não era o seu primeiro filme a examinar os problemas sociais do pós-guerra em Itália. Dois anos antes, ele realizou o aclamado Sciuscia, que incide sobre a desintegração de uma amizade entre dois jovens italianos que são vítimas do sistema de detenção juvenil do estado.
De Sica apresenta-nos aos dois jovens protagonistas numa sequência de abertura que não é característica no neo-realismo italiano. Pasquale (Franco Interlenghi) e o seu melhor amigo Giuseppe (Rinaldo Smordoni) aparecem a andar a cavalo num campo aberto fora da cidade. A cena evoca uma sensação emocionante de liberdade, em contraste com as ruas romanas mostradas a seguir. Aqui, caímos na realidade: estes jovens da rua são engraxadores de sapatos, lutando para ganhar dinheiro suficiente para comprar um cavalo branco, sobre o qual eles planeiam fugir das suas vidas empobrecidas.
As suas aspirações são esmagadas quando o irmão de Giuseppe os envolve num esquema do mercado negro. Os rapazes são presos, falsamente acusados de um crime que não cometeram, e enviados para um centro de detenção juvenil brutal. Expostos à corrupção do mundo adulto, e a sua profunda ligação é cortada, com resultados trágicos.
O tema da inocência perdida num mundo em que as crianças são forçadas a pensar e agir como adultos, é um tema comum no cinema neo-realista italiano. Em Roma, Città Aperta (1945), os jovens envolvem-se num verdadeiro jogo de guerra ao vivo lançando bombas de um telhado contra soldados alemães. Em Ladri di Biciclette, Bruno não vai à escola, porque tem que trabalhar num posto de gasolina para sustentar os pais e a irmã mais nova.
Sciuscià oferece-nos uma visão ainda mais pessimista. Ao contrário dos filmes anteriores, aqui a família nuclear está ausente (Pasquale é órfão) ou é corruptora. Induzido pelas autoridades a cometer violência, Giuseppe provoca a ira de Pasquale, que deixa um aviso na cela do seu ex-amigo. Isto desencadeia uma série de eventos (incluindo uma fuga da prisão e um motim), que são uma reminiscência dos filmes da Warner dos anos 30 sobre as cadeias.
Os verdadeiros opressores neste filme são os guardas do centro de detenção e do sistema judicial, que exibem uma verdadeira falta de interesse no bem-estar dos seus jovens pupilos que são tratados e julgados como adultos. (De Sica comicamente compara os homens que dirigem o centro a fascistas e pô-los a fazer a saudação nazi) Quando os dois rapazes vão a julgamento, nem recebem uma defesa adequada: Giuseppe é aconselhado pelo seu advogado a mentir e o defensor público de Pasquale nem tem tempo para rever o seu caso.
Em 1948 o filme ganhou um Óscar honorário, que era assim descrito: "The high quality of this Italian-made motion picture, brought to eloquent life in a country scarred by war, is proof to the world that the creative spirit can triumph over adversity."


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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mister Max (Il signor Max) 1937



Vittorio De Sica herdeiro de uma grande soma em dinheiro e dono de uma banca de venda de jornais, faz dinheiro suficiente para tirar umas férias para longe da empresa, num resort da moda. Recebe um bilhete para um cruzeiro de um aristocrata que é um velho amigo de escola, e é confundido com esse aristocrata quando ele usa a sua câmera que tem o seu nome e o dos amigos. Assia Noris interpreta uma empregada que se apaixona por ele por causa de quem ele é, e não por quem os outros pensam que ele é.
"Il Signer Max", é uma produção da Aspra Film dirigida por Mario Camerini. Algumas das muitas situações engraçadas são explorados ao máximo por Vittorio de Sica, no duplo papel de um dono de banca de jornais próspera e um falso homem da sociedade, e muito por Assia Noris, como a honesta empregada, perplexa e preocupada com a "estranha semelhança" entre os dois.
Os actores principais são apoiados por um excelente elenco em que a sedutora Rubi D'Alma (diz-se que era uma jovem da alta sociedade italiana interpretando o seu primeiro filme) brilha como a aristocrata divorciada que volta a cabeça do jovem por algum tempo. Mario Casaleggio, com grande categoria, interpreta o tio rude com um coração de ouro, cujo salutar conselho, junto com o charme da atraente Assia, faz com que o jovem finalmente perceba que está a agir como um tolo.
Mais tarde o filme seria refeito com o nome de "Il Conte Max" com Alberto Sordi no papel de De Sica e o segundo no papel de tio.
Legendas em inglês.   

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Gli Uomini, Che Mascalzoni... (Gli Uomini, Che Mascalzoni...) 1932



Bruno, um chauffeur com problemas em manter o emprego, encontra Mariuccia, filha de um motorista de táxi que trabalha como assistente numa perfumaria, e tenta impressioná-la, fingindo ser rico, usando o carro do seu empregador para a levar numa viagem pelo lago, mas as coisas não funcionam como planeado e para conquistar o coração de Mariuccia não vai ser tão fácil...
"Gli Uomini, Che Mascalzoni!", uma comédia romântica do proletariado, que oferece uma ocasião para lançar um olhar para a (fascista) sociedade italiana do início dos anos 1930: os trabalhadores têm de saber onde o seu lugar era, as mulheres poderiam trabalhar, mas só até ao casamento (com alguém vindo da mesma classe social) e de resto tinham de limitar-se a tratar da casa e cozinhar (risoto - o prato típico Milanês, neste caso), e ser uma assistente de loja era apenas um passo para a perdição, e os homens usavam os seus carros para seduzir as jovens, uma viagem para ao lago era um luxo. 
Esta é uma comédia deliciosa que mostra Milão e o Lago Maggiore como eram nos anos 30. Podemos ver a catedral (Duomo), Piazza Cordusio, Castelo Sforza, Corso Sempione e o Arco da Paz (provavelmente os lugares que mais mudaram na cidade). Este filme foi rodado em exteriores o primeiro filme a mostrar Milan no grande ecrã), porque Mario Camerini, o realizador dos então conhecidos "white telephone films" pensou que os exteriores poderiam adicionar um toque realista à história.
Mario Camerini também impôs Vittorio De Sica no papel principal, desafiando o produtor que acreditava que De Sica não era atraente por causa de seu grande nariz, fazendo a escolha certa. De Sica, de fato, tornou-se, graças a este filme um dos atores mais populares da década de 30, para se tornar num grande realizador e figura de proa do neo-realismo na década seguinte. A mais famosa cena do filme mostra De Sica/Bruno a cantar para Mariuccia "Parlami d'amore Mariu", uma canção que se tornou um êxito e desde então foi cantada por muitos cantores.
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ladrões de Bicicletas (Ladri di Biciclette) 1948



No pós-guerra em Roma, os empregos são escassos e as famílias passam fome. Quando lhe é oferecido um emprego de colar cartazes para o conselho da cidade, Antonio Ricci aceita de bom grado, mesmo sabendo que tem de fazê-lo na sua própria bicicleta. Ricci consegue juntar dinheiro suficiente para recuperar a sua bicicleta penhorada e olha em frente para o seu primeiro trabalho pago em meses. No entanto, no primeiro dia de trabalho, a bicicleta é roubada e Ricci não tem outra opção a não ser tentar recuperá-la. Com o filho, Bruno, sai para procurar a bicicleta roubada pela cidade, pela qual ele tanto depende...
Obra-prima indiscutível de Vittorio De Sica, "Ladri di Biciclette" é considerado como um dos filmes mais importantes feitos em Itália, e muitas vezes figura na lista dos dez melhores filmes de sempre. Junto com Roma, Cidade Aberta (1945) de Rossellini, definiu a tendência emergente do neo-realismo, movimento que contribuiu para o crescente reconhecimento internacional do cinema italiano nas duas décadas seguintes. O filme em si foi tão bem recebido quando foi lançado pela primeira vez nos Estados Unidos que ganhou um Óscar especial em 1949, sete anos antes da categoria Melhor Filme Estrangeiro ser introduzida.
Embora modesto na escolha do assunto e estilo cinematográfico, Ladri di Biciclette é uma obra de profunda humanidade que deixa uma impressão indelével no seu espectador. É um filme que mostra o melhor e o pior da natureza humana, informa-nos sobre a força e a falibilidade do espírito humano em circunstâncias de extrema penúria. Conta-nos verdades universais numa linguagem simples, com ironia e até mesmo um pouco de humor, tornando-o acessível para publico de todo o mundo. Como é que perder uma bicicleta poderia ser um assunto tão sério? Este filme responde a essa pergunta com muita força e não tem dificuldade em convencer-nos de que, para um homem e a sua jovem família, a recuperação da bicicleta roubada é a coisa mais importante do mundo.  
Na sua forma mais simples, o filme é um conto moral extraordinariamente poderoso. A conclusão dolorosamente simples é que, é melhor ser honesto e passar fome do que recorrer ao crime, qualquer que seja a provocação. Num momento de desespero, Ricci sente que não tem outra alternativa a não ser recorrer ao próprio roubo para resolver a sua situação - mas, como ele logo descobre, esse caminho leva-o mesmo a grande desespero e humilhação. O modo com que este segmento final do filme é construído e filmado é notável, atingindo um nível quase insuportável de tensão dramática.O último shot do filme oferece uma evocação do poder da mensagem mais simples, uma que pode ser encontrada em praticamente todo o cinema neo-realista: a vida pode ser difícil, injusta, mas nós temos que fazer o melhor dela.

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