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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Histórias de Caçadeiras (Shotgun Stories) 2007

Son Hayes nunca fala das cicatrizes que tem nas costas: os chumbos de caçadeira desenham debaixo da pele um padrão de pontos negros e azuis. Os homens com quem trabalha fazem apostas sobre como as ganhou. Son é irmão de Boy e Kid - o pai que os abandonara nunca se importou em dar aos filhos nomes como deve ser. E os três crescem com a mãe amarga. Nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estes irmãos descobrem o que estão dispostos a percorrer para proteger a família.
Enquanto o argumento foi desenhado numa trajectória ascendente de violência, o visual do filme de estreia de Jeff Nichols mantém a precisão das suas imagens de abertura. Co-produzido por David Gordon Green e fotografado por Adam Stone, o filme é ao mesmo tempo intensamente regional e expansivo e as imagens oferecem detalhes desolados dos irmãos, as suas frustrações e desejos.  A inevitável violência aponta para outro sistema em vigor, baseado na forma como os homens agem e são esperados agir, a sua aparente falta de opções.
Todo o elenco é excelente, com interpretações que sugerem influências óbvias do Western, sem parecer arcaico. Michael Shannon erradia uma tenacidade refletida na sua cicatriz física, e tem uma química tão grande com Linon e Jacobs, temos uma sensação de que eles já se conhecem tão bem e não precisam de falar sobre os seus sentimentos.
Como filme indie, percorreu vários festivais pelo mundo fora, tendo ganho variados prémios.

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sling Blade - O Arremeso (Sling Blade) 1996

Um homem parcialmente deficiente chamado Karl é libertado de um hospital mental, cerca de 20 anos depois de ter assassinado a sua mãe e outra pessoa. É frequentemente questionado se vai matar de novo, mas encolhe os ombros e diz que não há razão para isso. Agora fora da instituição mental instala-se na sua velha cidade natal, trabalhando como mecânico. Conhece um rapaz chamado Frank, de quem se torna amigo, e é convidado para ficar na casa deste pela mãe, que o vê como uma pessoa estranha mas amável. Já o namorado desta vê as coisas de outra forma...
O filme que fez de Billy Bob Thornton uma estrela, e um veículo improvável para ser um dos melhores filmes do ano. "Sling Blade" também recebeu o Óscar de Melhor Argumento para Thorton, que além de interpretar o papel principal também realizava. Não é um filme sobre o bem e o mal, com um protagonista ou antogonista claro, mas antes um filme sobre o certo e o errado. É uma distinção complicada, mas isso torna a história ainda mais atraente.
"Sling Blade" era uma extensão de uma curta metragem a preto e branco que Thornton escreveu e interpretou em 1994, chamada "Some Folks Call it a Sling Blade". Ao expandir o filme para fora dos quatro muros da prisão estadual, Thornton é capaz de expandir plenamente o seu sentido de tempo e lugar, e dá-lhe uma atenção ao detalhe normalmente reservada para obras literárias, que permitem aos seus personagens crescerem e se desenvolverem. O facto de que Thornton teve vários anos para trabalhar o personagem de Karl é bastante evidente, e nota-se na forma como ele habita o papel, desde a sua postura até à forma de caminhar.
No seu coração, "Sling Blade" é um conto de Southern Gothic, de amor e redenção. Tem o tipo de personagem que William Faulkner teria ficado orgulhoso de escrever sobre, e cria e sustenta um clima sugestivo que carrega traços do grotesco mas que permanece resolutamente humano. Para um realizador estreante em longas metragens Thornton é extremamente tranquilo, mesmo quando cede ao sentimentalismo perto do final.

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sangue Selvagem (Wise Blood) 1979

 Um norte-americano do sul - jovem, pobre, ambicioso e pouco educado - está determinado a ser alguém no mundo. Ele decide que a melhor maneira de o fazer é tornar-se pregador e funda a sua própria igreja.
Em finais da década de setenta, John Huston foi abordado por um jovem produtor chamado Michael Fitzgerald. Ele era um dos seis filhos de Sally e Robert Fitzgerald. O seu pai era um famoso tradutor do grego, era o editor literário de Flannery O´Connor,  e a sua mãe editava as cartas deste escritor nascido na Georgia, que passou largos períodos de tempo em casa dos Fitzgerald, antes de uma morte precoce por doença.
Foi ideia de Michael Fitzgerald fazer um filme de "Wise Blood", que tinha sido publicado em 1952, deslumbrante primeiro romance de O´Connor. A história de um jovem georgiano cuja obsessão por Deus o leva a fugir o mais rapidamente dele, para bater de frente na parede de Jesus e da religião.
Huston já tinha capturado da melhor forma a tensão erótica de Carson McCullers em "Reflections in a Golden Eye" e a inocência e o terror do clássico da guerra civil "Red Badge of Courage", escrito por Stephen Crane. Ambos os livros eram dramas sulistas, e por isso Huston poderia ser o realizador ideal para passar "Wise Blood" para filme.
O orçamento para o filme era muito baixo, e toda a gente, incluido Huston, trabalhou com um salário mínimo, quase simbólico. A esposa de Michael co-produziu o filme, e o seu irmão, Benedict, escreveu o argumento. Foi filmado em exteriores em Macon, na Georgia, sem grandes estrelas no elenco, mas com actores talentosos. Brad Dourif, era o protagonista, um jovem que aguardava um filme à sua altura, depois de ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secubdário em "Voando Sobre um Ninho de Cucos".
Enquanto o romance de O´Connor era passado no início da década de 50, um tempo particularmente crucial para o conflito de identidades que se debatia no Sul dos Estados Unidos, o filme de Huston teve de ser passado num tempo contemporãneo, por causa de questões orçamentais, o que significa que todos os carros eram da década de 70, e não havia grande esforço em esconder os edifícios mais modernos do centro de Macon. Ao mesmo tempo, o conteúdo não é actualizado, e as atitudes (principalmente as questões raciais), permanecem firmemente enraizadas no início do década de 50. Os críticos que elogiaram o filme, viram isso como uma mistura eficaz de períodos de tempo, para criar uma espécie de atemporalidade.
Pelas questões orçamentais já citadas, pode dizer-se que é um filme "menor", de John Huston. Mas no que diz respeito à qualidade, não é um filme tão menor assim.

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ritual de Guerra (The Beguiled) 1971

Durante a guerra civil, um soldado yankee ferido John McBurney (Clint Eastwood) é resgatado à beira da morte por uma adolescente de uma escola do sul. Ela consegue levá-lo para a escola, e ao principio todas as jovens alunas que a frequentam estão com medo. Há medida que ele recupera, ele vai lançando o seu charme para cima delas, e a atmosfera escolar fica coberta de ciúmes e traição.
Em 1971 Don Siegel fez dois filmes muito diferentes com Clint Eastwood: "Dirty Harry" e "The Beguiled". "Dirty Harry" era um filme mais habitual na carreira de ambos, como tal, na sua zona de conforto. Já "The Beguiled" é talvez o veículo mais estranho que esta dupla fez juntos. Siegel parece querer que "The Beguiled" seja um conto moral feminista. Não há dúvida de que McBurney é um predador sexual, aquele que consegue o que quer de jovens inexperientes com promessas de amor. Mas, ao mesmo tempo que está disposto a pintar McBurney como vilão, apesar dele ser o protagonista, Siegel transforma as mulheres que nós supostamente vamos simpatizar em estereótipos dimensionais. Martha (Geraldine Page) é a mulher mais velha, e sexualmente frustrada. Edwina (Elizabeth Hartman) é a mais inexperiente e que se apaixona facilmente. Carol (Jo Ann Harris) é uma ninfomaníaca. Estas mulheres nunca crescem para lá desta função, mas ao fazer de McBurney uma personagem mais fluída e dando-lhe mais momentos simpáticos para questionar os seus motivos aparentemente lascivos, Siegel turva qualquer ponto feminista que estivesse tentado a fazer.
Ao mesmo tempo Siegel oferece-nos um guia sobre os males da guerra. Através de flashbacks ele mostra-nos assassinatos de McBurney a sangue frio no campo de batalha, como parte da marcha da União através do Sul. Por várias vezes é mancionado que todos os pais das raparigas são considerados mortos nos campos de batalha. Os encontros com as tropas confederadas consideradas amigáveis são momentos carregas de tensão para Martha, já que ela nunca sabe quando é que um grupo de homens irá invadir a escola e tomar as suas meninas pela força. Apesar do tratamento superficial que é dado a estes momentos, eles ainda são bastante efectivos.

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domingo, 14 de junho de 2015

Reflexos num Olho Dourado (Reflections in a Golden Eye) 1967

1948, num posto do exército dos Estados Unidos, um major impotente, homossexual latente, é casado com uma mulher que nunca perde uma oportunidade para ridicularizar as suas falhas masculinas. Ele descola a sua hostilidade brutalizando o seu cavalo, e ela retalia humilhando-o perante uma casa cheia de convidados, repetidamente, cortando-o no rosto com o seu chicote. Ela anda a cometer adultério com um oficial, cuja esposa cortou os mamilos com tesouras de jardim depois de ter perdido o bébé. Ela procura consolo no empregado de casa, efeminado.
Opiniões críticas parecem divididas em relação a este filme invulgar de John Huston, baseado num livro de 1941 de Carson McCullers sobre a repressão sexual numa base da Carolina do Norte. Enquanto algumas pessoas o viam simplesmente como um filme gótico sulista, em que a perversidade das personagens converge para um foco de tensões irrealisticamente melodramático, outros reconhecem-no como uma perspectiva exclusivamente compassiva sobre os caprichos da repressão sexual, como vistos pelas visões colectivas de Huston e McCullers.A verdade talvez seja a meio dos dois extremos.
Subjacente a todo o filme estão as suas duas forças principais: a primeira é a sua aparência única, como especificamente previsto por John Huston, que trabalhando com o director de fotografia Aldo Tonti, tinha a cor estrategicamente dessaturada, numa tentativa de emular a perspectiva do titular da história. Embora o filme só tenha sido autorizado a circular nos cinemas por uma semana com este esquema de cores, a versão restaurada é um verdadeiro prazer visual. Em segundo lugar, a magnifica interpretação de Marlon Brando, um desempenho verdadeiramente comovente no papel de um oficial do exército tragicamente reprimido. Cada expressão de Brando revela a profundidade da confusão da sua personagem, a raiva o desejo.
Um grande elenco, que inclui Brando, Elizabeth Taylor, Brian Keith, Julie Harris, Robert Foster, e um estreante chamado Harvey Keitel, então com 18 anos.
 
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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Com a Maldade na Alma ( Hush...Hush, Sweet Charlotte) 1964

Bette Davis é Charlotte Hollis, uma solteirona reclusa ainda obcecada pelo brutal assassinato do seu amante, ocorrido há mais de 37 anos. Quando a sua propriedade está para ser desapropriada para a construção de uma nova estrada, Charlotte pede a ajuda à sua prima Miriam (Olivia De Havilland), ao velho amigo Drew (Joseph Cotten) e à empregada Velma Cruther (Agnes Moorehead). É então que os rumores que rondaram o crime acontecido décadas antes começam a se tornar realidade...
Já existia muita tensão sobre este filme, mesmo antes das câmeras começarem a filmar. Em primeiro lugar, era para ser uma sequela ao filme de 1962 "Whatever Happened to Baby Jane?", e era intenção voltar a juntar Bette Davis à sua co-star do primeiro filme, Joan Crawford. Mas a rivalidade de longa data entre as duas actrizes entrou em erupção, enviado Crawford para o hospital com uma suposta doença, e obrigando os produtores a encontrar uma substituta. A escolhida acabaria por ser Olivia de Havilland, que já tinha contracenado com Davis em três filmes, todos da Warner Bros.
A escolha foi perfeita. A personagem de Havilland era o contraponto perfeito para a de Davis, e era impossível imaginar Crawford no papel de Miriam. Manipula as nossas expectativas, dando um desempenho por camadas que tem o enorme poder de surpreender. A princípio o seu papel é de falas mansas e agradáveis, uma reminiscência do seu papel mais famoso, como uma senhora sulista: a gentil Melanie de "Gone With the Wind". No entanto, a personagem de Miriam tem muito mais a mostrar, como vamos vendo ao longo do filme. As interacções entre as duas mulheres são cruciais ao longo do filme, e o realizador Robert Aldrich brinca com a nossa simpatia, obrigando-nos a inclinar para uma personagem, e depois para outra. Sem o desempenho de Havilland o filme não teria este equilíbrio.
"Hush…Hush, Sweet Charlotte" é muitas vezes citado como exemplo do Grand Guignol, um estilo de terror dado a um teatro francês especialista em entretenimento sangrento. O prólogo sangrento mostra desde logo que o filme vai caminhar perto da fronteira do terror. Nos filmes mainstream da altura estávamos habituados a que as sequências fossem cortadas antes dos desmembramentos, não colocando as partes cortadas em exposição. A fotografia a preto e branco silencia o gore,  e as partes dos corpos embora não sejam demais para os padrões modernos, ainda é um choque vê-las. Aldrich e o seu director de fotografia habitual, Joseph Biroc, também fazem um brilhante uso das sombras, ângulos de câmera extremos e composições forçadas para enaltecer a sensação do mal-estar e do grotesco. A qualidade da paisagem barroca também contribui para toda esta diversão.
Foi nomeado para sete Óscares, mas não venceu nenhum.

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Na Sombra e no Silêncio (To Kill a Mockingbird) 1962

Atticus Finch (Gregory Peck) é um advogado na cidade de Alabama dos anos 30, uma cidade racialmente dividida. Ele concorda em defender um jovem negro acusado de violar uma mulher branca. Muitas das pessoas da cidade tentam fazê-lo desistir, mas ele decide continuar. Será o jovem culpado da violação? Se ele for inocente será que vai alterar a tensão que se vive na cidade?
Baseado no romance vencedor do Pullitzer de Harper Lee, com o mesmo nome. A forma como o filme é rodado, e a sua velocidade, mantém um espírito muito fiel ao livro original, o que ajuda bastante a entender a sua trama episódica.
"To Kill a Mockingbird" é uma excelente produção de estúdio, do produtor Alan J. Pakula, e realizada por Robert Mulligan. Um filme de grande entretimento, que passou pelo tempo e continua a inspirar muitos homens e mulheres. O filme é contado pelos olhos da jovem escuteira de 6 anos, filha do advogado Finch. A jovem é interpretada pela actriz Mary Badham, na sua estreia cinematográfica, que lhe valeria uma nomeação para o Óscar, que acabaria por ser vencido por outra actriz prodígio: Patty Duke em "The Miracle Worker". Na altura, Badham era a mais jovem actriz nomeada para Melhor Actriz Secundária.
Quando o julgamento começa é suposto ser um caso rápido. A mulher em questão, Mayella Ewell, ainda tem sinais de espancamento à vista. O seu pai é um dos homens mais racistas da cidade, e quer sangue. Atticus, inteligentemente estabelece que Tom Robinson nunca pôde ter batido na mulher. Tudo o que ele pode ser acusado, é de ter estado no sitio errado, no momento errado, e que provavelmente foi outra pessoa que o espancou.
O julgamento é uma coisa grande na cidade, e toda a gente está lá para ver. Isto inclui os negros da cidade, que estão segregados a uma varanda no primeiro andar, com vista para o piso principal onde os brancos se podem sentar. Muitos anos depois, no filme "Pleasantville", há uma homenagem a esta situação.
"To Kill a Mockingbird" recebeu oito nomeações para os Óscares, tendo vencido três. Foi o único da carreira de Gregory Peck, naquele que é considerado por muitos como o melhor papel da sua carreira.

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quarta-feira, 10 de junho de 2015

O Homem na Pele da Serpente (The Fugitive Kind) 1960

Val Xavier (Marlon Brando), um andarilho de origens obscuras, chega a uma pequena cidade do sul e consegue um emprego numa loja governada por  Lady Torrence (Anna Magnani), uma mulher carente de sexo, cujo marido está a morrer de cancro.Val é perseguido por Carol Cutere (Joanne Woodward), uma espécie de vagabunda de boas famílias, que tanto cobiça do casado de cobra de Val, como o tenta seduzir. Val fica mais atraído pela senhora mais madura, que engravida...
Muito da visão sórdida de Tennessee Williams pode ser aqui observada, a partir da sua peça "Orpheus Descending," aqui chamada de "The Fugitive Kind". Hollywood estava faminta para a mistura individual de melodrama sexy e a escrita poética que este autor oferecia. A expansão da sua obra tinha chegado através de pesos-pesados, como Elia Kazan (A Streetcar Named Desire, 1951), Richard Brooks (Cat on a Hot Tin Roof, 1958 e Sweet Bird of Youth, 1962), John Huston (Night of the Iguana, 1964), Daniel Mann (The Rose Tattoo, 1955), e Joseph L. Mankiewicz (Suddenly, Last Summer, 1959) e este "The Fugitve Kind", o quarto filme do novato Sidney Lumet, sendo talvez o filme menos conhecido desta série.
Lumet captura e explica algo vital dentro da escrita de Williams que outros não conseguiram. A sua visão gótica do Sul pisa uma linha ténue entre o expressionismo exótico e o realismo. Para isso muito contribuíram a fotografia brilhante de Boris Kaufman e a maravilhosa banda sonora de Kenyon Hopkins. Como é costume nas obras de Williams, há uma sensação de que as fronteira entre passado e presente, o real e o fantástico podem ser ultrapassadas.
Os críticos na altura não foram muito generosos, não só porque o filme chegou na mesma altura que tantos outros filmes de Williams, mas também porque era adaptado de uma das suas obras menos conhecidas, que já por si tinha sido uma adaptação da sua primeira obra, chamada "Battle of Angels", e que também tinha sido um fracasso comercial.
 The Fugitive Kind" humaniza o crime, da mesma forma que "Dog Day Afternoon", outro filme de Lumet, o faria anos depois. O monólogo de abertura, quando Brando murmura sobre um crime que ele claramente cometeué um mecanismo de enfrentamento permanente, um modo de julgar as pessoas que nunca vão entender o seu comportamento.

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sexta-feira, 5 de junho de 2015

The Young One (La Joven) 1960

 Um guarda-caça e a sua filha de 13 anos vivem numa ilha onde chega, fugido à polícia, um negro acusado de violação. Os confrontos entre os dois homens dão lugar a uma certa cumplicidade até à chegada de outro homem para prender o negro. A jovem, cuja sexualidade desperta durante o confronto, vai ajudar o negro a fugir.
Um dos dois únicos filmes rodados por Buñuel em inglês, é uma obra provocativa, uma fascinante história de poder, engano e manipulação. É muitas vezes entendido como sendo um filme falhado, que foi assim considerado por ser uma produção atípica de Buñuel não contendo nenhuma das suas características conhecidas do cinema surreal. Como acréscimo, algumas outras características que não eram habituais no realizador: racismo, pedofilia, falsas acusações de violação, tudo isto passado numa pequena ilha da Carolina do Sul, onde ele nem precisava de apresentar uma visão tão exagerada ou inquietante.
A parte maravilhosa deste pequeno filme, e na, verdade, o filme é muito melhor do que aquilo que foi visto na altura pelos críticos e pelo público, é que apresenta estas questões no contexto dos Estados Unidos de uma maneira que muito poucos filmes no seu tempo podiam sugerir. Na altura da rodagem deste filme, um outro com preocupações semelhantes, "The Defiant Ones", foi feito. Mas o trabalho de Stanley Kramer, embora notável pela dupla (literalmente algemada), com um racista (Tony Curtis) e um homem negro (Sidney Poitier), estava muito mais ligada ao mundo de Hollywood, não declarando totalmente os seus sentimentos liberais. Esta obra de Buñuel é muito mais subtil, e preocupada pelas mesmas razões. O realizador e o filme, embora tenham claramente um ponto de vista, apresentam os seus vários personagens com grande detalhe, recusando-se a julgá-los de imediato, seja ele qual for.
O filme foi escrito e rodado por muitos antigos artistas de Hollywood, anteriormente colocados na lista negra do Macartismo, o que tornava as questões do filme ainda mais pungentes. O filme, denunciado pelo crítico do New York Times Bosley Crowther, só aponta o facto de que o filme de Buñuel só poderia ser feito fora dos Estados Unidos, neste caso México, e reitera o sentimento de que no início dos anos 60, foram ainda mais conservadores do que em vários anos da década anterior.
Ganhou uma Menção Especial no festival de Cannes de 1960.

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Southern Gothic

Há um mundo gótico que tem pouco a ver com vampiros, cientistas loucos, ou locais amaldiçoados. Pelo contrário, é um mundo de obscuros segredos de família, histeria religiosa, e sexualidade pervertida.
O "Southern Gothic" começou como uma consequência exclusiva americana da literatura gótica, com autores como William Faulkner, Tennessee Williams, Carson McCullers e Flannery O’Connor, adaptando a negritude da tradição gótica para os seus livros. Tiraram-lhes a maioria das armadilhas sobrenaturais, mas mantiveram o sentido do macabro e do perverso, para definir um Sul dos Estados Unidos marcado pela pobreza, pela confusão em face da modernidade, após os efeitos da escravidão. A grandeza do Sul estava agora em decadência, e, em vez das mansões solitárias, bosques assustadores, e tímidos heróis da época Vitoriana, o "Southern Gothic" mostrava-nos plantações em ruínas, cobertas de musgo, e a ruína das velhas famílias que outrora governavam naquela região.
No mês de Maio, o British Film Institute realizou este mesmo ciclo, ao qual deu o nome "Southern Gothic: Love, Death and Religion in the American Deep South", Nenhum outro título poderia definir melhor o espírito destes filmes, e, nas próximas duas semanas, poderão segui-lo aqui no My Two Thousand Movies..
Aqui fica a lista dos filmes que poderão ver nos próximos dias:

 - The Young One (1960, de Luis Buñuel)

 - The Fugitive Kind (1960, de Sidney Lumet)

 - To Kill a Mockingbird (1960, de Robert Mulligan)

 - Hush...Hush, Sweet Charlotte (1964, de Robert Aldrich)

 - Reflections in a Golden Eye (1967, de John Huston)

 - The Beguiled (1971, Don Siegel)

 - Wise Blood (1979, John Huston)

 - Sling Blade (1996, Billy Bob Thornton)

 - Shotgun Stories (2007, Jeff Nichols)

Por hoje é tudo. Fiquem atentos aos próximos dias.