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terça-feira, 1 de outubro de 2013
Às Cinco da Tarde (Panj é Asr) 2003
Há um país, um país democrático, onde, diz-se, qualquer criança pode crescer e se tornar presidente. Quando Noqreh (Rezaie), a heroína idealista deste filme, alimenta a noção de que pode se tornar presidente do Afeganistão, é ridicularizada. "Como pode uma mulher afegã se tornar presidente com a sua burca e com os seus filhos", pergunta um dos seus colegas. A América pode ter deposto os Talibãs e as burcas podem provisoriamente ter caído em desuso, mas o que toma o seu lugar? A democracia do estilo ocidental? O sonho americano? A liberdade? Ou, talvez, como Janis Joplin cantou uma vez, "Freedom's just another word for nothing left to lose".
Cabul está em ruínas. Multidões de refugiados regressam à sua terra natal apenas para descobrir que nada resta senão escombros e pobreza. Os anciãos culpam a queda do país ao abandono da tradição, a juventude liberal, especialmente as mulheres que já não usam véu. O pai de Noqreh (Yousefrazi), que vira as costas para as mulheres sem véu que passam na rua, fica horrorizado com a blasfémia que vê. Ele acredita que a sua filha frequenta uma escola corânica de leitura onde ela entoa textos sagrados de cor. No entanto, quando ele não está a olhar, Noqreh tira a burca, calça um par de sapatos de salto alto, e faz o seu caminho para a nova escola recém-inaugurada. Aqui, as jovens argumentam que "uma rapariga corajosa e inteligente pode tomar as suas próprias decisões". Elas aspiram a tornar-se professoras e médicas. Mas é um grande liberalismo que impulsiona o seu pai desiludido a deslocar-se para as montanhas em busca de um lugar de descanso numa verdadeira "cidade islâmica".
O filme examina os caminhos divergentes tomados por Noqreh e pelo seu pai: um em direção ao futuro, o outro ao passado. A curiosa nova liberdade é apresentada como estranha e desconcertante: é a liberdade do faz de conta, onde os véus voltam depois das aulas e onde a democracia é apenas teoria. Os refugiados não se importam se o presidente é um homem ou uma mulher, mesmo o soldado de paz francês, cujo trabalho é defender os ideais de democracia, não lhe consegue dizer porque o povo da França votou em Chirac para presidente. Apenas um refugiado poeta (Mohebi) podem revelar algo sobre a liberdade de pensamento, na forma de um poema de Lorca que Noqreh aprende pelo coração, em vez dos textos sagrados tradicionais.
O brilho da jovem de 24 anos Samira Makhmalbaf reside na evocação poética do nascimento de um novo mundo nos escombros rochosos do antigo. Nem demonizar o velho nem idolatrar o novo, Makhmalbaf pinta um retrato humano corajoso de esperança e desespero. Uma mãe lava o seu bébé a morrer na luz quente de um suave fogo, um pai encontra consolo a falar com o seu burro. A sequência final no deserto é desesperadamente triste, mas como Noqreh passa ao longe entoando a sua Lorca, somos lembrados de que talvez ainda haja esperança.
Ganhou o prémio do Júri no festival de Cannes.
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domingo, 29 de setembro de 2013
O Quadro Negro (Takhté Siah) 2000
A primeira sequência é um long shot do que parecem ser criaturas aladas de duas pernas que andam na estrada. Logo percebemos que eles são homens com quadros negros amarrados nas suas costas. O filme segue dois desses homens, professores, que estão a tentar ganhar a vida ensinando nómades analfabetos. Esta não é uma tarefa fácil, perto da fronteira com o Iraque. Um dos homens, Rebooir (Bahman Ghobadi, que dirigiu "A Time for Drunken Horses") encontra um grupo de rapazes transportando contrabando para o Iraque. Apenas um dos rapazes está interessado em aprender. Os outros não têm tempo para parar e aprender, mesmo que eles o queiram. O outro professor, Said (Said Mohamadi) reúne-se com os nómades tentando voltar para o Iraque. Eles estão perdidos.
A jovem realizadora Samira Makhmalbaf (A Maça) tem um olho afiado para contar histórias, e mostra-nos isso na sua segunda longa metragem. Com pouca profundidade emocional ou melodrama, o filme consegue entrar-nos debaixo da pele, e convence-nos do drama que se desenrola diante de nós. Há alguns traços de fantasia, onde o filme quase vai para o burlesco, mas estes momentos só conseguem levar os eventos e as tragédias mais para a frente. O filme todo parece um documentário, em silêncio, vívido, com um olhar errante e uma intimidade carinhosa para os seus personagens. O assunto principal pode ser as dificuldades destes professores itinerantes, numa busca para encontrar alunos para ensinar, mas rapidamente se torna evidente que o filme se agarra a metas muito mais imediatas: a da situação dos refugiados e outras pessoas que tentam sobreviver perto da fronteira Irão-Iraque. Os actores dão umas interpretações convincentes, ainda que, obviamente, têm pouca experiência e poucas hipóteses de mostrar alguma capacidade de interpretar. O diálogo é simples e real, mas a constante repetição de frases não é uma grande vantagem. No final, "O Quadro Negro" consegue trazer um dos aspectos mais importantes do cinema, o de tornar real e imediato a vida, os costumes, e as condições de pessoas de uma sociedade completamente diferente da nossa.
Ganhou o prémio do Juri no festival de Cannes. Samira tinha apenas 19 anos quando fez este filme.
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013
A Maçã (Sib) 1998
As circunstâncias que cercam o making of de "The Apple", um filme iraniano cativante, são tão extraordinárias como o próprio filme em si. Em 1997, Samira Makhmalbaf, filha do realizador Mohsen Makhmalbaf, então com apenas 17 anos, viu uma noticia sobre duas gémeas de 12 anos de idade, em Teerão, cujos pai e mãe cega, tinham mantido trancadas em casa todas as suas vidas.
Em apenas 11 dias, com a ajuda do pai, a jovem Makhmalbaf fez um filme inteiro sobre o acontecimento. Mais surpreendente ainda, ela convenceu as jovens, Massoumeh e Zahra Naderi, o pai e a mãe, e vários vizinhos para interpretarem-se a eles mesmos. Isto apesar do facto de que a jovem realizadora tinha apenas cinco anos a mais do que as duas personagens principais. Para contar a história, os Makhmalbafs inventaram situações, e os Naderis "responderam-lhes" em frente à câmera.
O resultado não foi exatamente um documentário, na verdade, a realizadora tem sido criticada nos jornais iranianos por colocar os Naderis em situações complicadas, mas isso transposto para o filme era um debate realidade-vs-ilusão transparente. É mais parecido com o princípio da incerteza estendido para a vida diária: Como é que o mundo mudaria se lhe apontássemos uma câmera, e será possível chamar os resultados deste processo tão intrusivos com a verdade? Esta questão é central para os grandes filmes que saíram do Irão nos últimos anos.
As jovens não são mentalmente retardadas, apenas socialmente atrasadas. Elas têm dificuldade em falar e não têm educação básica. Os seus movimentos são limitados, pelo facto de terem crescido e desenvolvido num espaço confinado. O filme não é um documentário, como Samira coloca as jovens em situações de pré-argumento. A assistente social liberta as raparigas, e elas percorrem as ruas pela primeira vez, aprendem sobre a amizade, crueldade e o dinheiro num curto espaço de tempo. Da mesma forma, o pai tem a hipótese de explicar porque fez aquilo. A esposa dele por ser cega, estava relutante em deixar as meninas saír para a rua, enquanto ele trabalhava. As raparigas não são vistas da mesma maneira como os rapazes são vistos no Irão, por isso elas nunca foram autorizadas a brincar sozinhas. Como o pai diz, elas são como flores que murcham ao sol. O filme termina com a mãe, num quadro congelado de grande poder e beleza.
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